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Uma ameaça oculta ao catolicismo
Igreja Católica

Uma ameaça oculta ao catolicismo

Uma ameaça oculta ao catolicismo

Uma ameaça séria ao catolicismo assoma no horizonte e está oculta ao nosso redor. Ela poderia muito bem dizimar as fileiras da Igreja, e talvez isso já esteja até acontecendo. O que é terrivelmente perigoso, pois essa ameaça abala os próprios fundamentos da nossa religião...

Eric SammonsTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere2 de Julho de 2021Tempo de leitura: 8 minutos
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[Este texto não é de autoria do Pe. Paulo Ricardo; foi escrito por Eric Sammons e vertido à língua portuguesa por nossa equipe.]

Uma ameaça séria, até existencial, ao catolicismo assoma no horizonte e está oculta ao nosso redor. Ela poderia muito bem dizimar as fileiras da Igreja, e talvez isso já esteja até acontecendo. O que é insidiosamente perigoso, porque essa ameaça abala os próprios fundamentos do catolicismo.

Não estou falando da crise de abusos sexuais, ou da falta de coragem episcopal, nem do crescimento das heresias, embora todas essas ameaças sejam terríveis. Só que a Igreja enfrentou esse tipo de desafios no passado e os superou, ainda que às vezes com perdas significativas. 

Estou falando de uma ameaça verdadeiramente nova: a virtualização do mundo.

O mundo se tornou virtual. Embora essa tendência esteja se desenvolvendo há décadas, as paralisações relacionadas à COVID-19 finalizaram o processo. Nós nos comunicamos facilmente uns com os outros por textos, mídias sociais e bate-papos no Zoom. Quase todos os produtos que compramos podem ser entregues à nossa porta. Agora, até “assistimos” à Missa online! Para muitos (a maioria?) de nós, a vida acontece mais online do que offline.

Aos olhos de muitos, a virtualização mundial é considerada um bem absoluto. Ela permite mais conexão, mais lazer e mais acesso às informações do que nunca. Só que há um problema: ela é a antítese de uma vida católica equilibrada. Eu até argumentaria que ela destrói o catolicismo.

Se há uma palavra que resume o catolicismo, é encarnacional. Nossa fé se baseia na Encarnação: Deus se fez homem. Ao se tornar parte do mundo físico, Deus elevou o mundo físico a si. Quase tão importante quanto, Ele fez do mundo físico o meio através do qual o alcançamos. Em outras palavras, a religião católica é muito física. Ela precisa de “coisas” para funcionar: pão, água, contato físico etc. Sem os sacramentos (e os sacramentais), o catolicismo se reduz a uma religião completamente diferente — e falsa.

Agora, antes de continuar, deixe-me tratar das objeções que já consigo escutar. O que dizer do eremita, ou do prisioneiro de consciência católico posto em confinamento solitário? Estou dizendo que eles são incapazes de praticar o catolicismo porque lhes falta o “material” físico? 

Claro que não. Mas a própria natureza extrema de suas vidas aponta para o fato de que eles são verdadeiras exceções, e não a regra. Uma verdade subjacente à humanidade é que Deus nos criou como seres físicos, e que “não é bom que o homem esteja só” (Gn 2, 18). Ele nos criou para estarmos uns com os outros. Deus também fez o mundo físico para ser a escada através da qual ascendemos a Ele. 

O mundo digital que estamos criando, no entanto, rejeita essencialmente o contato humano direto e a interação com o mundo físico. Mesmo antes da COVID, tínhamos o fenômeno dos zumbis de smartphones — incontáveis pessoas olhando para suas telas e rolando incessantemente por seus feeds ao longo do dia. Mas as restrições da COVID-19 aceleraram nossa descida para a terra virtual e muitos estão agora com tanto medo de doenças que nem mesmo querem estar próximos fisicamente uns dos outros. Isso representa um sério problema para uma Igreja baseada na fisicalidade. Oferecer Missas ao vivo e conferências virtuais apenas agrava o problema.

Como os católicos devem responder a essa tendência perturbadora? Promovendo uma vida encarnacional e intencionada

Primeiro, os católicos devem ser “encarnados”. Precisamos redescobrir a superioridade do físico sobre o virtual. Recentemente, vi um anúncio de uma “conferência virtual de teologia do corpo”. Parece até uma ironia. Se isso não nos fizer parar para refletir, eu não sei o que mais fará. Afinal, a teologia do corpo existe para nos lembrar a importância de nossos corpos físicos e como eles não são apenas um apêndice extra da alma, mas uma parte essencial de quem somos. Qual o sentido, então, de discutir isso em uma conferência incorporal?

E, claro, isso nem se compara à Missa transmitida ao vivo. Tenho consciência de que muitas paróquias estão fazendo o melhor que podem para se adaptar a circunstâncias extremas. Em muitíssimos casos, porém, muitos padres — e seus paroquianos — levaram isso um pouco longe demais [1].

Na melhor das hipóteses, uma Missa assim é um substituto pobre de outra em que os membros do Corpo de Cristo podem realmente estar presentes na atualização do Sacrifício da Cruz (eu não acho que o Apóstolo João teria feito uma live do Calvário, ainda que isso fosse uma opção em seu tempo; talvez Judas o tivesse feito). Na pior das hipóteses, ela sinaliza que o mundo físico — inclusive o mundo físico dos sacramentos — é secundário e “não essencial”

O homem compartilha semelhanças e diferenças com os anjos e o reino animal. Somos um híbrido de corpo e espírito, e é fundamental para o nosso ser que os dois trabalhem juntos. Ao contrário de tantas heresias velhas e novas, não rejeitamos o aspecto físico de nossa natureza, mas entendemos que o físico intensifica — ou diminui — a nossa vida espiritual. Interagir com outros católicos na vida “real”, realmente assistir à Missa e receber o Corpo de Cristo, falar com o sacerdote em pessoa no confessionário — todas essas são atividades físicas que ajudam a nos levar para Deus.

Em segundo lugar, como católicos, devemos colocar intenção nas coisas que fazemos. Sempre que alguém faz uma crítica ao mundo digital, as acusações de que essa pessoa está se tornando um amish são descartadas [2]. Em vez de lutar contra essas acusações, vou me inclinar a seu favor. É um equívoco comum pensar que os amish rejeitem a tecnologia. Eles não a rejeitam. O que fazem é tomar decisões deliberadas, enquanto comunidade, sobre se uma nova tecnologia é, em geral, benéfica ou não. E embora nós, como católicos, não tenhamos de concordar com suas decisões finais, essa atitude deliberativa deve ser abraçada por nós. 

Bem, eu não sou um ludita (outro epíteto comum que se usa de vez em quando) [3]. Estive profundamente envolvido no boom da Dot-Com no final dos anos 90 como o primeiro funcionário de uma das primeiras empresas de hospedagem na web e cofundador de um dos primeiros registradores de domínio. (Meu apreço contínuo por tecnologia pode ser visto em minha adoção de criptomoedas). Atualmente, sou editor de uma revista exclusivamente digital, que a maioria dos leitores acessa em seus smartphones. Mas minha relação de longa data com a tecnologia me levou a ver que, nessa matéria, não há uma decisão de “tudo ou nada”: ou rejeitamos toda a tecnologia moderna ou aceitamos sem crítica cada tecnologia mais recente no momento em que ela é lançada. 

Em vez disso, devemos refletir se uma nova tecnologia — e o modo como a usamos — ajuda ou a nos aproximar ou a nos afastar da união íntima com Cristo e da edificação de seu Corpo aqui na Terra. Devemos perguntar também se a nova tecnologia leva a uma existência mais “incorpórea” e, portanto, menos “encarnacional”. Sim, os métodos modernos de comunicação beneficiaram a sociedade de muitas maneiras. No entanto, eles têm um custo

Um dos principais preços que pagamos é a perda da conexão direta. Em vez de passar o tempo conversando na varanda — ou mesmo no telefone — com um amigo, enviamos atualizações rápidas e dispersas para dezenas de conhecidos. Temos testemunhado neste século uma queda vertiginosa na adesão das pessoas a uma religião, fenômeno que coincide diretamente com um aumento tremendo de “comunidades” virtuais — e as duas tendências podem estar relacionadas. O ato de ignorar alegremente os custos das tecnologias modernas pode significar suicídio para o catolicismo

E, claro, há o problema óbvio de estar sujeito às big techs, que estão se tornando cada vez mais anticatólicas [4]. 

Em termos práticos, acho que isso deve nos levar a repensar dois aspectos básicos da vida moderna: encontros físicos e o uso de smartphones/mídias sociais. Primeiro, devemos resistir ao impulso de “nos tornarmos virtuais” em nossas interações com outras pessoas. Encontre maneiras de se encontrar fisicamente com familiares, amigos e colegas de paróquia. Recentemente, perguntaram-me o que os pais católicos podem fazer para manter seus filhos na Igreja e meu primeiro pensamento foi que eles passassem mais tempo — tempo real, não virtual — com outras famílias católicas. Essas relações constroem um apreço pelo real, o que leva a um apreço mais profundo por Aquele que é a fonte de toda a realidade.

Em segundo lugar, devemos repensar séria e urgentemente nossa relação com as mídias sociais, principalmente o modo como as usamos nos smartphones, que estão perpetuamente ligados a nós. Quantos de nós mal conseguem encontrar tempo para rezar, mas passam várias horas por dia navegando por feeds de mídia social nos próprios smartphones? Mesmo que as big techs apoiassem os valores católicos, o tempo médio gasto em seus produtos excederia em muito esses valores para a maioria de nós. Em vez de acessar o Facebook, precisamos gastar mais tempo buscando a face de Deus em seu book (“livro”): as Sagradas Escrituras. 

Isso não significa necessariamente que devamos descartar todas as mídias sociais (embora isso seja o melhor para algumas pessoas). Nosso relacionamento desordenado com as mídias sociais poderia ser reorganizado simplesmente removendo-as de nossos smartphones e usando-as apenas em nossos computadores desktop. Talvez até consideremos usar um telefone sem internet [5]. Passos como esses nos ajudam a controlar o nosso uso, e não o contrário.

Levar uma vida encarnacional e intencionada não é um caminho fácil. Na verdade, quase tudo em nossa sociedade hoje está configurado para se opor a esse caminho. No entanto, os católicos sempre foram chamados a ser contraculturais; e seguir esse caminho, raramente trilhado, pode ser um meio de viver uma vida autenticamente católica em uma cultura que precisa desesperadamente desse testemunho.

Notas

  1. O problema não está, evidentemente, na transmissão ao vivo pura e simples das Missas, mas nos efeitos que a sua popularização acarreta. A Missa a que se assiste via TV ou celular não está no mesmo nível da Missa de que participamos presencialmente, e essa é a grande questão (N.T.).
  2. Os amish são um grupo religioso cristão que vive principalmente nos Estados Unidos e no Canadá. Eles são conhecidos por costumes como o uso restrito de equipamentos eletrônicos, inclusive telefones e automóveis (N.T.).
  3. Chamavam-se luditas os correligionários de Ned Ludd que, no início do século XIX, se opuseram com protestos à mecanização do trabalho. Por extensão, o termo se aplica a qualquer pessoa que se oponha à industrialização ou às novas tecnologias (N.T.).
  4. As big techs são grandes empresas de tecnologia que, por terem desenvolvido serviços inovadores, abalaram o mercado e conseguiram grande domínio a nível mundial. São exemplos incontestáveis de big techs a Apple, o Google, o Facebook e o Twitter (N.T.).
  5. Aqui, no original, o autor utiliza a expressão dumbphone (“telefone burro”), em um claro jogo de palavras com o termo smartphone, que significa literalmente “telefone esperto” (N.T.).

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A política não pode salvar ninguém
Política

A política não pode salvar ninguém

A política não pode salvar ninguém

Não devemos absolutizar a política. Não queremos trilhar esse caminho, pois ele está coberto de ídolos. Nenhum bem finito, por mais nobre que seja, pode carregar um fardo tão pesado. Só Deus é digno de uma busca sublime, só Ele nos pode divinizar.

Regis MartinTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere2 de Julho de 2021Tempo de leitura: 4 minutos
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Há uma seção na obra O senso religioso, do monsenhor Luigi Giussani, na qual ele identifica várias formas de evasão em que as pessoas se refugiam ao ser confrontadas com as incômodas questões a respeito do fim da vida. É o caso, por exemplo, do sentido da própria existência, no qual muitas pessoas curiosamente parecem não ter interesse. A seção chama-se “Esvaziando o problema”, onde se reproduz uma conversa entre um conhecido jornalista italiano, Augusto Guerriero, autor de uma coluna popular sobre política, e um leitor angustiado, que o procura em busca de respostas a perguntas que não têm nenhuma relação com política, mas que, não obstante, o angustiam dolorosamente. “Recorro ao sr. porque é o único que pode me ajudar”, escreve ele. E após documentar suas dificuldades, que incluem vários anos como prisioneiro de guerra, onde contraiu tuberculose, ele implora por uma carta que “seria um grande alívio para mim e me deixaria mais forte. Eu peço, por favor, que me ajude.”

Como Guerriero poderia recusar? Bem, ele não nega o pedido, mas a carta que escreve não traz nenhum tipo de alívio. Ele pergunta: 

Que bem faria a escrita de uma carta? Só escrevo sobre política, e qual seria a serventia de lhe escrever sobre esse tema? Você precisa de alguém que escreva sobre outros assuntos, e eu jamais escrevo sobre outras coisas; na verdade, nunca penso nelas. E é justamente por não pensar nelas que escrevo sobre política e também é por isso que elas não significam nada para mim. Desta forma eu consigo não pensar em mim e no meu sofrimento. Este é o problema: encontrar uma forma de nos esquecermos de nós e do nosso sofrimento.

Portanto, a solução para os problemas é nunca pensar neles. Assim, a pessoa mergulha em muitas atividades sem propósito para não precisar enfrentar a vida de modo algum. Ou a morte. Não se pergunte para onde está indo sua vida; certifique-se apenas de que chegará ao destino o mais rápido possível. Em outras palavras, a tendência é esquecer a finalidade, ou simplesmente deixá-la de lado por ser muito perturbador, a fim de redobrar os meios. Pascal teria compreendido isso. “Caminhamos de modo irresponsável em direção ao abismo”, diz ele em seus Pensamentos, “depois de colocarmos diante de nós algo que nos impeça de enxergá-lo”. Portanto, dizemos a nós mesmos que só a diversão é capaz de aliviar nossos sofrimentos e deixamos de reconhecer que, como nos recorda Pascal novamente, “ela é a maior das nossas misérias. Pois é aquilo que, acima de tudo, nos impede de pensar em nós mesmos e nos leva à destruição”. Ela nos adormece e deixa anestesiados, impedindo-nos de fazer perguntas verdadeiras, ou seja: Quem sou eu? Qual é o sentido da minha vida? 

Entre as diversões que experimentamos e com as quais nos distraímos, a política é talvez a mais urgente e onipresente. Na verdade, só é possível escapar de suas consequências se entrarmos num mosteiro cartuxo. “Pessoas decentes deveriam ignorar a política”, recomendou William Buckley em 1965, “caso pudessem ter certeza de que a política as ignoraria”. É claro que, naquela época, ele estava disputando as eleições para prefeito de Nova Iorque. Portanto, obviamente a política não o ignorava. Na verdade, boa parte de sua vida foi consumida pela política ao mesmo tempo que ele a censurava, rotulando-a de “preocupação dos parcialmente educados”. 

“Se você não consegue suportar o calor, então saia da cozinha”, costumava dizer Harry Truman. E, como todos sabem, a política acontece na cozinha; portanto, está em todo lugar. O que devemos fazer em relação a ela?

A resposta resumida é que não devemos absolutizá-la. Não queremos trilhar esse caminho, pois ele está coberto de ídolos. Nenhum bem finito, por mais necessário ou nobre que seja, pode carregar um fardo tão pesado.

Somente Deus é digno de uma busca sublime, somente Ele nos pode divinizar. A Sagrada Escritura nos diz: Nolíte confídere in princípibus, in fíliis hóminum, in quibus non est salus, “Não coloqueis nos poderosos a vossa confiança, são apenas homens nos quais não há salvação” (Sl 145, 3). Nenhum governante nos salvará; somente Deus nos pode salvar [1]. Ele está disposto a fazer isso, desde que não o troquemos por algum bem menor.

Se você quer salvar o mundo (algo que todo jovem idealista deseja fazer), é melhor começar em casa; assim, depois de tentar se aperfeiçoar, você terá algo a oferecer ao mundo.

Por outro lado, como Cristo veio para consagrar a humanidade inteira, e como a política é uma parte inescapável da vida humana, seria imprudente ignorá-la de todo ou (o que poderia ser pior) relegá-la a outros para que seu exercício não nos maculasse a alma. O fato é o seguinte: a religião, que é a vida da fé, é parte do bem comum humano, que, por sua vez, deve ser buscado e assegurado pela política.

“A religião não diz respeito somente à vida futura”, diz o Cardeal Jean Daniélou em seu notável opúsculo Oração: problema político; “é um elemento constitutivo desta vida. Como a dimensão religiosa é uma parte essencial da natureza humana, a sociedade civil deveria reconhecê-la como um elemento constitutivo do bem comum pelo qual ela mesma é responsável”. Negá-lo, argumenta ele, “nos transformaria em vítimas da forma mais detestável de idealismo, que separa a existência espiritual de seu substrato material e sociológico”.

Devemos sempre lembrar que a política não é Deus; pensar o contrário é uma afronta a Ele. Todavia, a política pode mostrar-se útil para facilitar a nossa aproximação de Deus, particularmente nesta época, em que se tornou mais urgente do que nunca recordar a condição daquelas coisas que ela não fará por seus cidadãos.

Notas

  1. Nesta parte do texto original, o autor, norte-americano, faz uma referência direta e inequívoca ao atual presidente de seu país: “Joe Biden não nos salvará, tampouco o sistema de conscientização (woke) por ele despertado em todo o país”. Cada um aplique a afirmação da Escritura a sua situação concreta, pois, seja qual for a orientação política a que pertençam os poderosos deste mundo, nenhum deles nos pode salvar (N.T.).

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Anjos e Demônios: perguntas e respostas
Espiritualidade

Anjos e Demônios:
perguntas e respostas

Anjos e Demônios: perguntas e respostas

A proteção dos anjos da guarda começa e termina quando? Eles podem influenciar os nossos pensamentos? Assim como temos um anjo, existe também um demônio específico para nos tentar? Confira a resposta para estas e muitas outras perguntas.

Equipe Christo Nihil Praeponere29 de Junho de 2021Tempo de leitura: 15 minutos
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Selecionamos para esta publicação algumas das respostas que demos, nas últimas semanas, a perguntas de Angelologia que nos chegaram através do Instagram e do Telegram. A iniciativa tem a ver com nosso curso “Anjos e Demônios”, cujo lançamento aconteceu no último dia 22 de junho. 

Se você ainda não se inscreveu para participar deste conteúdo, não perca tempo! As respostas que demos abaixo são apenas um “aperitivo” do que é explicado, de modo sistemático e completo, em nosso curso!

Anjos da guarda existem?

Ou eles existem, ou dois mil anos de Magistério e de testemunho ininterrupto dos santos estão errados. 

Mas respondamos melhor à pergunta. A Igreja celebra desde o século XVI uma festa especial para honrar os santos anjos da guarda (no dia 2 de outubro). E o Catecismo Romano ensina que, “por um desígnio de sua Providência, confiou Deus aos anjos a obrigação de guardarem o gênero humano como tal, e de assistirem a todos os homens individualmente, para que não sofram nenhum dano de maior gravidade” (IV, 9, 4).

A Sagrada Escritura testifica, por fim, que todos os anjos se acham a serviço dos homens: “Não são todos os anjos espíritos a serviço de Deus, que lhes confia missões para o bem daqueles que devem herdar a salvação?” (Hb 1, 14). E há ainda o belíssimo Salmo 90, que ilustra a solicitude dos anjos pelos eleitos: “O Senhor deu uma ordem a seus anjos, para em todos os caminhos te guardarem. Haverão de te levar em suas mãos, para o teu pé não se ferir nalguma pedra” (v. 11-12).

Os nossos anjos da guarda têm nome? Já ouvi falar que se pode “dar” um nome ao seu anjo…

Não faça isso! De acordo com o Diretório sobre a piedade popular e a liturgia, da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, “é de se rechaçar o costume de dar aos anjos nomes particulares, com exceção de Miguel, Gabriel e Rafael, que aparecem nas Escrituras”. Por que a Igreja desaconselha isso, nós já o explicamos em uma matéria de nosso Blog.

O nosso anjo da guarda nos é dado desde a concepção?

A guarda dos anjos custódios começa para cada homem no momento de seu nascimento. É a sentença mais provável e comum entre os teólogos. Em sua juventude, Santo Tomás chegou a opinar que o anjo da guarda se dava ao homem no momento da infusão da alma no corpo. Mas, na Suma Teológica, escrita em sua maturidade, o Doutor Angélico abandonou essa opinião e passou a ensinar que, enquanto a criança está no ventre materno, é o anjo da guarda da mãe quem cuida dos dois. 

Enquanto estão grávidas, portanto, as mães não só podem como devem rezar a seus próprios anjos da guarda para que cuidem de seus filhos que estão sendo gestados!

“O Anjo Guardião”, de Marcantonio Franceschini.

Os santos anjos podem influenciar os nossos pensamentos?

Sim, os anjos bons podem iluminar intelectualmente os homens. Pertence à ordem da divina Providência que os seres inferiores estejam submetidos à ação dos superiores; e, sendo os homens inferiores aos anjos, aqueles são iluminados por estes. Normalmente, essa iluminação acontece através da imaginação: o anjo propõe ao homem alguma verdade sob a aparência de coisas físicas. Aconteceu isso com Abraão (cf. Gn 22, 11) e São José (cf. Mt 2, 13), e eles foram capazes inclusive de perceber que a inspiração que receberam provinha dos anjos. Via de regra, porém, esses servidores de Deus agem sem ser notados.

Como não confundir um anjo caído com os anjos do Senhor?

Discernimento dos espíritos. Os anjos caídos querem a nossa perdição; os anjos do Senhor, a nossa salvação. De modo geral, não é muito difícil fazer essa avaliação: as inspirações santas que nos vêm para que rezemos, nos penitenciemos, realizemos boas obras, são sem dúvida dos anjos bons; por outro lado, as sugestões para que pequemos, seja perdendo a paciência, seja cedendo à sensualidade, seja em muitas outras coisas, são tentações demoníacas.

O meu anjo da guarda me acompanhará depois da morte?

A guarda e companhia de nosso anjo custódio se prolongam até que a alma custodiada chegue a seu destino eterno, seja o Céu, seja o Inferno. No Purgatório, porém, essa presença continua (segundo a opinião mais provável), não certamente para proteger a alma, mas para animá-la e dar-lhe consolo, iluminando-a acerca dos grandes mistérios de Deus, dos gozos do paraíso e do amor que Jesus e Maria têm por nós. No Céu, cessa a custódia propriamente dita de nosso anjo, mas ele seguirá eternamente relacionado conosco na qualidade de “anjo correinante”.

Segundo o Pe. Augusto Ferretti, em seu livro Os Santos Anjos da Guarda (Taubaté: Ed. SCJ, 1945, pp. 31-32): 

Uma das grandes satisfações que teremos no céu, certamente, será a de conhecer este oculto e constante amigo de toda a nossa vida, assim como os inúmeros benefícios que nos fizeram. E como crescerá então a nossa amizade para com este bem-aventurado espírito! Que dulcíssima e eterna amizade, sob os olhares do Pai Celeste, em companhia de todos os santos de Deus!

Mais sobre os anjos da guarda, nas aulas 13 e 14 de “Anjos e Demônios”.

Nosso anjo é uma pessoa que viveu no passado ou um anjo criado por Deus?

Cuidado com o espiritismo! As pessoas que viveram no passado morreram e suas almas foram ou para o Céu, ou para o Inferno, ou para o Purgatório. Elas não ficam “vagando” por aí. Anjos são anjos; seres humanos são seres humanos. Naturezas diferentes, criaturas diferentes. 

Nós temos corpo e alma. No fim dos tempos, com a ressurreição da carne, os mortos retomarão seus corpos para sempre. Os anjos, ao contrário, são espíritos puros.

“A Tentação de Cristo”, de Félix Joseph Barrias.

Assim como temos um anjo protetor, temos também um demônio específico?

Esta opinião foi defendida por vários escritores dos primeiros tempos do cristianismo, como Orígenes, São Gregório de Nissa e João Cassiano, chegando a ser sustentada na escolástica por Pedro Lombardo e, mais recentemente, por Suárez. A verdade, porém, é que ela carece de fundamento suficiente nas fontes da Revelação, além de parecer incompatível com a bondade e a misericórdia de Deus. Os lugares da Escritura que geralmente se citam para dar apoio a essa teoria não possuem força probatória.

Quando os anjos caídos foram precipitados na Terra, eles adquiriram corpos? E se sim, foram com eles que, no Antigo Testamento, Deus proibiu que os filhos de Deus se dessem em casamento?

Não. Contra erros inclusive de alguns dos primeiros Padres da Igreja, Santo Tomás ensina que os anjos são espíritos puros, sem nenhuma mistura de matéria. Essa sentença é completamente certa em teologia e pode ser deduzida principalmente dos trechos do Novo Testamento que falam sobre os anjos. Veja-se, por exemplo, Mt 10, 1; Lc 11, 26 e Ap 1, 4, mas principalmente Lc 24, 39: “Vede minhas mãos e meus pés, sou eu mesmo; apalpai e vede: um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que tenho”, e Ef 6, 12: “Não é contra homens de carne e sangue que temos de lutar, mas contra os principados e potestades, contra os príncipes deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal nos ares”. O Magistério da Igreja nunca fez uma definição expressa nesse sentido, mas o Concílio Vaticano I contrapõe “a criatura espiritual e a corporal, isto é, a angelical e a mundana” (DH 3002). 

Só a título de conhecimento, os autores que interpretaram os “filhos de Deus” de Gn 6, 2, como sendo anjos, que teriam contraído matrimônios com as filhas dos homens, foram São Justino, Atenágoras, Clemente de Alexandria e Santo Ambrósio. Mas nisso eles erraram, como dito.

Os anjos da guarda podem aparecer para seus “assistidos”?

Por permissão divina, sim, é possível! Mas este não é o tipo de coisa que se deva pedir. Supliquemos a Deus mais fé, para crermos — e crescermos na fé —, mesmo sem termos visto. Isso, sim!

Sobre a natureza puramente espiritual dos anjos e o modo pelo qual eles se manifestam, por vezes, aos seres humanos, veja-se a aula 6 de “Anjos e Demônios”, sobre “A natureza angélica”. Sobre aparições célebres dos santos anjos a seus assistidos, assista-se à aula gratuita do Pe. Paulo Ricardo sobre o assunto:

Como pedir a intercessão do anjo contra os males?

Sabe a oração do “Santo anjo”, que aprendemos ainda quando crianças? Faça disto um hábito de devoção e já terá começado bem! 

Como posso ter intimidade com meu anjo e agradá-lo, já que o desagradei muito?

Dirija-se a ele várias vezes ao dia, pedindo-lhe que o guarde e proteja do pecado. Nunca se esqueça que as coisas que ofendem e desagradam o nosso anjo são as mesmas coisas que ofendem e desagradam a Deus. É disso que devemos pedir aos santos anjos que nos protejam e nos guardem.

Acender vela para o anjo da guarda: ato de piedade ou superstição?

A devoção aos santos e anjos, acompanhada de sinais sensíveis, sempre fez parte da vida dos católicos. É uma pena que o protestantismo tenha se infiltrado tanto no seio da cultura a ponto de nos fazer questionar os sadios costumes de nossos antepassados… 

Acenda velas sem medo aos santos anjos, a seus santos padroeiros, e honre-os com muita piedade! O tributo feito aos servidores de Deus não diminui em nada a glória do Altíssimo. Muito pelo contrário!

Um pouco mais de doutrina, a propósito. O culto tributado aos anjos encontra sua justificação nas relações deles mesmos para com Deus e para com os homens. Tudo o que o Concílio de Trento nos ensina sobre a invocação e o culto aos santos se pode aplicar também aos anjos. A censura que fez São Paulo ao culto dos anjos (em Colossenses 2, 18) se referia a uma veneração exagerada e distorcida deles, inspirada em erros gnósticos. São Justino Mártir atesta, ainda nos primeiros séculos, o culto que a Igreja prestava a esses espíritos bem-aventurados.

Retrato de um Anjo da Guarda, séc. XVIII.

Meu anjo da guarda pode se rebelar contra Deus?

Não. A provação dos anjos já aconteceu. Desde então, os anjos bons estão confirmados para sempre no bem e contemplam a Deus face a face. Os anjos maus, por sua vez, estão irremediavelmente perdidos. 

O que é realmente um demônio? É o mesmo que um anjo caído ou tem outra natureza?

Os anjos maus, ou decaídos, também são chamados de demônios. Trata-se de nomes diferentes para designar as mesmas pessoas angélicas.

Assista-se à aula “A queda dos anjos”, a 8.ª de nosso curso.

Por que os demônios são tão maus?

Porque, diferentemente de nós, que podemos nos arrepender e voltar a Deus depois de cair no pecado, os anjos maus tomaram uma decisão irrevogável e definitiva. 

Impressionemo-nos, pois, com a maldade dos demônios, mas temamos ao mesmo tempo por nossa sorte, trabalhando com temor e tremor pela nossa salvação. Pois os seres humanos que se condenam ao inferno também se tornam maus para sempre após a morte, e para eles, assim como para os anjos decaídos, não há mais remédio.

Para entender melhor por que os demônios são obstinados no mal, sem possibilidade de volta, assista-se à aula 7 de “Anjos e Demônios”, sobre “O conhecimento e a vontade dos anjos”.

Até onde vai a permissão de Deus na ação dos demônios?

Os demônios não podem fazer nada, absolutamente nada, sem a bondosa permissão de Deus! Tentações, obsessões ou possessões: tudo o que fazem os demônios tem de passar pelos misteriosos desígnios da Providência divina. Lembre-se do livro de

Os demônios podem ler nossos pensamentos?

Não. Por sua própria natureza, nem os anjos nem os demônios podem conhecer com certeza os pensamentos do coração dos homens. O conhecimento certo dos pensamentos internos que não se manifestam nem repercutem de algum modo no exterior é próprio e privativo de Deus. No entanto, os anjos — tanto os bons quanto os maus — podem conhecer nossos pensamentos conjecturalmente, por algum sinal exterior que os manifeste de alguma maneira (por uma mudança de fisionomia, por exemplo), como ocorre entre os próprios seres humanos, tanto mais perfeitamente quanto mais profunda seja a penetração psicológica do observador. Eles também podem conhecer os nossos pensamentos se os contarmos a eles. É assim que nossos anjos da guarda conhecem as súplicas que lhes dirigimos, ainda que não as formulemos com a boca, nem apareça algum sinal externo delas.

Demônios podem se materializar?

Sim, podem! E esse é um poder que têm tanto os anjos bons quanto os maus. Para aparecer aos homens, eles podem tomar, circunstancialmente, algum corpo real ou aparente. Mas os anjos são, em si mesmos, espíritos puros. 

Além disso, há nessa matéria uma notável diferença entre os anjos bons e os demônios. Os primeiros podem ser ajudados pelo poder divino — incomparavelmente superior ao angélico — para formar os corpos e utilizá-los inclusive de uma maneira supra-angélica, se for necessário. Para os demônios, porém, isso é impossível. Sem falar que Deus pode ainda impedir o demônio de exercer seu próprio poder natural angélico para que não abuse dele contra a ordem estabelecida pela divina Providência.

Detalhe de “São Francisco de Borja assistindo um moribundo impenitente”, por Francisco de Goya.

Como diferenciar a minha inclinação ao pecado de uma tentação demoníaca?

Esse discernimento não é fácil de fazer, pois os próprios demônios se aproveitam de nossas más inclinações para saber onde e como nos tentar… Por isso, não nos custa pedir sempre a Deus (e a nossos santos anjos): “Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal.”

Como saber se uma pessoa está possuída?

O Ritual Romano indica alguns sinais que permitem diagnosticar com garantias de acerto a existência de uma possessão autêntica: falar “com muitas palavras” uma língua estranha e desconhecida ao paciente ou entender perfeitamente quem a fala; descobrir coisas ocultas ou distantes; mostrar forças muito superiores à sua idade e condição; manifestar repulsa instintiva às coisas santas etc. 

Padre Paulo Ricardo fala mais especificamente da ação demoníaca nas aulas 16 e 17 de “Anjos e Demônios”.

Anjos podem conversar entre si?

Sim, os anjos “falam” entre si, mas não do mesmo modo que nós. A linguagem deles é puramente intelectual. Como se dá essa comunicação entre os anjos, é coisa que os teólogos especulam há séculos, mas a sentença mais provável e comum nessa matéria é a de Santo Tomás: segundo ele, um anjo “fala” dirigindo ou ordenando voluntariamente seus pensamentos à inteligência de outro. 

É assim que se deve entender, por exemplo, a visão que teve o profeta Isaías (6, 3) dos serafins gritando uns após os outros: “Santo, santo, santo é o Senhor, Deus dos exércitos!” Ou ainda a discussão entre São Miguel e o demônio, descrita no livro de Judas (v. 9): “Quando o arcanjo Miguel discutia com o demônio e lhe disputava o corpo de Moisés, não ousou fulminar contra ele uma sentença de execração, mas disse somente: ‘Que o próprio Senhor te repreenda!’”

São só os seres humanos que têm anjos da guarda?

Não. É doutrina comum entre os teólogos que também as coletividades possuem anjos da guarda próprios. Assim, cada uma das nações, províncias, igrejas e Ordens religiosas teria um anjo custódio correspondente. De onde vem isso? Em primeiro lugar, da própria Sagrada Escritura, que fala dos anjos da Pérsia, da Grécia e de Israel (cf. Dn 10, 13-21). Mas também revelações privadas recentes aludem a isso: em Fátima, por exemplo, foi o anjo de Portugal quem preparou os três pastorinhos, Jacinta, Francisco e Lúcia, para as aparições de Nossa Senhora.

Assista-se, tanto sobre a comunicação entre os anjos quanto sobre os anjos da guarda das sociedades, à aula 12 de nosso curso “Anjos e Demônios”, intitulada: “A linguagem dos anjos e o governo do universo”.

Quais as hierarquias dos anjos e suas funções?

A Sagrada Escritura menciona os nomes de nove coros angélicos, que a Tradição colocou na seguinte ordem ascendente: anjos, arcanjos e virtudes; potestades, principados e dominações; tronos, querubins e serafins. 

Quanto às funções que cada um desses coros exerce, trata-se de uma questão tão difícil, que ninguém menos que Santo Agostinho não ousava dar-lhe uma resposta: “Que haja no céu tronos, dominações, principados e potestades, eu o creio firmemente; que são distintos entre si, não tenho a menor dúvida; mas, quanto a dizer o que são e como se distinguem entre si…, confesso que o ignoro totalmente” (Contr. Prisc. XIV: ML 42, 678).

São Gregório Magno, no entanto, tinha uma opinião a esse respeito (In Evang., Homilia 34, 9-10: ML 76, 1251-52). Para ele:

  1. os anjos anunciam as coisas de menor importância;
  2. os arcanjos, as de grande importância ou transcendência;
  3. as virtudes realizam os milagres;
  4. as potestades mantêm à distância os espíritos perversos e os impedem de tentar os homens como gostariam;
  5. os principados governam os anjos bons, dispõem o que esses hão de fazer e dirigem os ministérios divinos que hão de cumprir;
  6. as dominações dominam de forma transcendente o poder dos principados;
  7. os tronos assistem aos juízos divinos, servem de assento a Deus e são os executores de seus decretos;
  8. os querubins contemplam mais de perto a claridade de Deus e possuem a plenitude da ciência;
  9. os serafins, ainda mais próximos de seu Criador, são como um fogo incomparavelmente ardoroso e incandescente de amor”.

Sobre as hierarquias e ordens angélicas, assista-se às aulas 10 e 11 de “Anjos e Demônios”.

A Pietà de William-Adolphe Bouguereau.

Como os anjos agiam na vida de Jesus?

Diferentemente de nós, Jesus não precisava de anjos da guarda que o guiassem e guardassem. Ele é, afinal de contas, o Senhor de todos os anjos. Por isso, na vida de Cristo, eles agiam como seus ministros. Isso fica patente no anjo que anuncia aos pastores o seu nascimento (cf. Lc 2, 9-14); no anjo que aparece a São José mandando a Sagrada Família fugir do Egito, para escapar às mãos de Herodes (cf. Mt 2, 13); nos anjos que serviram Jesus no deserto e, depois, nos que o consolaram no Getsêmani; e, por fim, nos anjos que anunciaram a Ressurreição e nos que “chacoalharam” os Apóstolos depois da Ascensão.

Assista-se, ainda a esse respeito, à aula “Os anjos na história da salvação”, a 5.ª de nosso curso.

Qual a diferença entre o que foi falado sobre os demônios no curso de “Demonologia” e o que será falado agora em “Anjos e Demônios”?

Existem várias diferenças. A primeira e mais significativa delas está em seu autor. Afinal, o Padre Paulo Ricardo de 2013 não é o mesmo de 2021, como pode perceber qualquer um que compare os vídeos daquela época com os de agora — e isso se deve principalmente a sua aproximação de Santo Tomás de Aquino, o Doutor Angélico. Até por isso, o curso de “Anjos e Demônios” é mais completo que o de “Demonologia”. Também por sua abordagem, pois o nosso curso antigo tinha como foco os demônios, mas nosso lançamento trata dos anjos como um todo, explicando sua natureza, história e ação. Por fim, é um curso melhor tecnicamente, porque hoje dispomos de mais recursos audiovisuais que em 2013.

Para responder a algumas das perguntas de nossos internautas, servimo-nos dos excelentes livros “Manual de Teología Dogmática”, do Pe. Ludwig Ott, e “Dios y su obra”, do Pe. Antonio Royo Marín. Vale a pena adquiri-los e consultá-los, além de fazer o nosso curso.

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A falsificação satânica do amor
Doutrina

A falsificação satânica do amor

A falsificação satânica do amor

O que é o amor? A resposta a essa pergunta tem consequências profundamente terríveis. Infelizmente, a maioria das pessoas que promovem o amor fomentam uma falsificação satânica dele.

Paul KrauseTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere29 de Junho de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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O que é o amor? Eis uma questão que perdura. Além disso, a todo momento ouvimos falar da necessidade de “amar” — escutamos isso dos meios de comunicação, dos sacerdotes, do Santo Padre. Mas o que é o amor? A resposta a essa pergunta tem consequências profundamente terríveis. Infelizmente, a maioria das pessoas que promovem o amor fomentam uma falsificação satânica do amor.

No Catecismo da Igreja Católica, o amor é definido como “desejar o bem do próximo” (§1766). Essa forma de compreender o amor é complementada pela definição da virtude teológica do amor (ou caridade): “A caridade é a virtude teologal pela qual amamos a Deus sobre todas as coisas por Ele mesmo, e ao próximo como a nós mesmos, por amor de Deus” (§1822). A definição de amor dada pela Igreja, que somos obrigados a aceitar como definição e expressão plena e verdadeira de amor, não se entende como uma “afirmação” do pecado e da natureza pecaminosa de alguém. O amor não é definido como a mera aceitação ou inclusão de outros.

De acordo com a doutrina infalível de Cristo, o amor significa amar a Deus e desejar que outros amem a Deus. Portanto, temos de saber algo sobre Deus (que é a Verdade, a Sabedoria e o Amor). Deus é o Autor da Lei Moral, à qual temos de nos conformar — com a ajuda dos sacramentos e dos ensinamentos da Igreja. Deus é também o Bem Supremo, como o Catecismo deixa claro, pois temos de “amar a Deus sobre todas as coisas”. Amar as coisas e deixar Deus de lado, fazendo delas o objeto precioso dos nossos afetos, significa cair no pecado ou — dito de forma mais apropriada — na idolatria. Em seguida, a confusão cria raízes e passa a reinar de forma soberana.

Cristo reitera que Deus é o Bem Supremo e a satisfação dos anseios do nosso coração quando sintetiza toda a Lei no amor a Deus (e ao próximo, embora Deus venha em primeiro lugar). Isso também é revelado por Cristo em linguagem mais hiperbólica quando Ele diz que quem quiser ser seu discípulo deverá abandonar seus pais e irmãos, isto é, se a nossa família é tolerante com o pecado, temos de abandonar essa fossa que nos puxa para o inferno e acolher a nossa família celestial numa peregrinação que nos unirá a Deus.

Hoje, uma parte do problema relacionado ao amor cristão é o implícito universalismo que se espalhou de forma descontrolada em toda a Igreja e na psique cristã. [N.T.: Universalismo é a crença segundo a qual todos os homens se salvarão no final, independentemente do que façam ou deixem de fazer.] A aceitação total e implícita do universalismo ou o desejo esperançoso dele causa danos à compreensão cristã do amor porque não há mais sentido em desejar o bem do próximo se não há nada que as pessoas possam fazer para prejudicar o destino eterno de suas almas. Pois, como diz o Catecismo, amar significa “desejar o bem do próximo”.

Amar o próximo significa desejar que ele ou ela se aproxime de Deus. Naturalmente, isso só pode ter eficácia se existir um inferno eterno e o castigo que aguarda as almas pérfidas e pecaminosas que escolheram outros bens em lugar do Bem Supremo. Se a pessoa desfrutará de Deus de qualquer maneira, não pode haver a obrigação de “desejar o bem do próximo”. Dessa forma, é impossível amar (levando-se em conta qualquer compreensão séria desse termo).

O Catecismo afirma dogmaticamente a existência do inferno (cf. §1033-1037). Embora alguém possa fazer jogos de palavras, como qualquer bom sofista, e dizer que a Igreja jamais condenou alguém oficialmente ao inferno (porque esta não é a missão da Igreja), o peso da Sagrada Escritura e da Tradição não apenas declara a existência do inferno, mas também diz que ele está cheio. São Paulo e São João apresentam uma longa lista de pecados que os cristãos podem cometer e que os podem impedir de entrar no céu. Cristo também diz que muitos se aproximarão dele no dia do Juízo, mas Ele os repelirá. A longa história de comentários e reflexões da Igreja confirma a realidade do inferno e a condenação que está reservada aos maus.

Dada a realidade do pecado e do inferno (algo que os progressistas negam ou tentam ofuscar), o imperativo de amar torna-se ainda mais urgente. Lobos que se passam por católicos oferecem uma falsificação satânica do amor, a qual leva os pecadores para o inferno ao mesmo tempo que os beija e abraça ao longo do caminho, fazendo com que se sintam “amados” no percurso até a dor e a tristeza eternas. De acordo com o Catecismo, isso não é o verdadeiro amor.

Aqueles que se posicionam contra o amor falsificado que domina a mente moderna e a teologia contemporânea são os que realmente amam o próximo. Somos aqueles que não desejam ver almas devastadas, em prantos, feridas e que clamam por orientação sendo levadas, por uma crueldade insensível, para a condenação. Porém, é justamente isso o que os lobos estão fazendo — em nome do “amor”, levam cruelmente à condenação as almas que precisam ser curadas.

Tradicionalmente, a Igreja Católica entende que Satanás é o grande corruptor, mas, como não é Deus, não pode criar, curar nem salvar. Em vez disso, ele só pode deformar.

Satanás faz uma paródia de Deus e corrompe o que Ele criou; corrompe, portanto, a forma como entendemos o amor. Os que afirmam que o amor é tudo, exceto desejar o bem do próximo, não passam de membros conscientes ou inconscientes da tropa de choque de Satanás. Quem diz, ao contrário, que amor significa levar o pecador a Deus pelo bem dele (assim como Cristo levou pecadores a Deus por meio da determinação: “Não pequeis mais”), esses são os verdadeiros expoentes do amor.

Num mundo saturado com a linguagem do amor, a verdade sagrada deve peneirar a erva daninha nesta época terrível. O fracasso nesse campo levaria ao triunfo da crueldade e à condenação de muitos. A maioria das pessoas que falam sobre amor não sabem o que ele é. Se a Igreja deve ser um hospital de campanha, ela também deve voltar à realidade do que é o verdadeiro amor, o verdadeiro remédio da alma, pois nenhuma cura fica completa sem a santificação da alma e a sua união com Deus por meio de Cristo. Sim, devemos cuidar dos pecadores, mas também temos de desejar que eles deixem o pecado; devemos conduzi-los a Deus para que possam receber a verdadeira cura e o amor de que necessitam.

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