Padre Paulo Ricardo
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Nenhuma catequese paroquial poderá fazer isto por seus filhos!
Educação

Nenhuma catequese paroquial
poderá fazer isto por seus filhos!

Nenhuma catequese paroquial poderá fazer isto por seus filhos!

Para formar os filhos na fé, não basta deixá-los numa turma de catequese da paróquia. Mais do que receber uma instrução semanal, o que eles precisam é incorporar, dia após dia, o estilo de vida cristão. E esta é uma coisa que só os pais, dentro de casa, podem oferecer.

R. Jared StaudtTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere6 de Agosto de 2021Tempo de leitura: 4 minutos
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Tenho trabalhado com catequese por quase vinte anos. Qualquer pessoa envolvida com educação religiosa pode afirmar que passamos por um período de crise. Os nossos  programas de catequese não produzem adultos católicos ou discípulos permanentes. Aulas sobre Deus não são suficientes para atrair os nossos filhos para uma vida cristã, para o seguimento de Jesus e o anúncio de sua missão ao mundo. Sabemos qual é o ingrediente ausente em nossa formação catequética: o papel dos pais. A razão disso é que somente os pais podem traduzir a fé na vida cotidiana no lar, tornando a catequese mais do que uma simples instrução, mas a formação numa cultura — um estilo de vida cristão. Isso transforma a nossa fé em algo real e vivo para os nossos filhos, algo que molda tudo o que eles fazem e que assume uma presença tangível em suas vidas.  

Os pais, em particular, exercem mais influência sobre a vida de fé dos filhos do que qualquer outra pessoa (mães, avós, professores e párocos). Estudos revelam que, se os pais não praticam a fé, é muito improvável que os filhos a pratiquem na vida adulta. Se os pais a praticam, é mais provável que os filhos frequentem a igreja no futuro. Os pais são chamados a liderar suas famílias na fé e a propiciar um modelo de vida cristã para os filhos. Como pais, somos chamados a ser professores dos nossos filhos, principalmente servindo de exemplo para eles. Pais e mães são os principais educadores dos filhos, e isso inclui a educação na fé. Os pais têm de assumir um papel central nesta educação, porque são cruciais na formação religiosa dos filhos. Porém, para formá-los na fé não basta apenas deixá-los numa turma de catequese da paróquia [1]. Eles precisam passar por um processo de aprendizagem e de iniciação à vida cristã para que abracem não apenas a fé, mas todas as outras coisas vinculadas a ela.

Portanto, nosso objetivo deve ser ensinar nossos filhos a viver como cristãos no mundo. Para isso, temos de nos tornar catequistas da vida cristã, mostrando como fazer da fé o centro das nossas vidas. São João Paulo II deixou isso claro: “A catequese, portanto, há-de tender a desenvolver a inteligência do mistério de Cristo à luz da Palavra, a fim de que o homem todo seja por ele impregnado” (Catechesi Tradendae, §20). Conhecemos Cristo a fim de que Ele possa moldar o modo como vivemos concretamente e como um todo. Bento XVI disse o mesmo a respeito da educação católica de modo mais amplo, afirmando que ela deveria “procurar promover aquela unidade entre a fé, a cultura e a vida, que constitui a finalidade fundamental da educação cristã” (Bento XVI, Discurso na Abertura dos Trabalhos do Congresso da Diocese de Roma, 11 de junho de 2007).     

Se não ensinarmos nossos filhos a viver a fé de forma integral, eles seguirão o caminho do mundo. Nossa cultura familiar irá se conformar ou à nossa fé ou a uma cosmovisão secular. A catequese transmite não apenas o conteúdo da fé, mas um modo cristão de vida. Christopher Dawson ensinou isso de forma contundente em seu livro Understanding Europe (“Compreendendo a Europa”), descrevendo como tivemos um colapso na comunicação de nossa identidade cristã no Ocidente: 

Desde o início, a educação cristã foi concebida não tanto como o aprendizado de uma lição, mas como uma introdução a uma nova vida, ou, ainda mais, como iniciação a um mistério (...). A educação cristã era algo que não podia ser transmitido apenas por meio de palavras, mas algo que exigia uma disciplina do homem inteiro.

Se os nossos filhos se conformarem mais à cultura secular do que à fé, haverá um colapso na educação dos homens e mulheres cristãos.

A arte da vida inclui a oração, o trabalho, a formação do caráter e o aprendizado de como ser forte perante as dificuldades. Atualmente, um dos principais desafios que enfrentamos na família é a tecnologia. Neste campo, também devemos liderar pelo exemplo. Como podemos ser moderados no uso da tecnologia, impedindo que ela nos domine e tratando-a como uma ferramenta útil? A ênfase na oração e nos momentos com a família, e não no uso da tecnologia, constitui uma mensagem importante a respeito de prioridades. A limitação da tecnologia é uma tarefa importante para os pais hoje e um aspecto crucial de nosso papel como professores. Temos de substituir a influência da tecnologia com a formação da mente e da imaginação dos nossos filhos por meio de leitura em voz alta, do canto, das brincadeiras e do tempo gasto ao ar livre.

No geral, nossos filhos esperam que nós ensinemos a eles como viver. Nossas ações os ensinam e os guiam na fé, além de os prepararem para a aventura da fé. Nunca se enfatizará o bastante a urgência da construção de uma cultura cristã em nossas famílias, como oásis de sanidade e santidade num mundo sem Deus. A iniciação dos nossos filhos numa cultura cristã é a nossa tarefa primordial como pais e é a coisa mais importante que podemos fazer como pais pela formação e pela felicidade deles.

Notas

  1. O título que escolhemos para esta matéria não tem a finalidade de desabonar, em momento algum, o trabalho dos catequistas nas comunidades paroquiais. (Vale lembrar que o próprio Papa Francisco elevou essa função à dignidade de “ministério” na Igreja.) A ideia é simplesmente chamar a atenção para o papel insubstituível dos pais na educação católica de seus filhos (N.T.).

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Como os pais constroem o lar nas vidas de suas esposas e filhos
Família

Como os pais constroem o lar
nas vidas de suas esposas e filhos

Como os pais constroem o lar nas vidas de suas esposas e filhos

“A paternidade apresenta o traço de uma conquista mais ou menos perigosa, que é alcançada aos poucos num território repleto de emboscadas”. Até por isso, o pai desempenha um papel crucial e intransferível na fundação e conservação do lar.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere6 de Agosto de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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Como os laços emocionais e psicológicos que unem o pai de família aos filhos não são iguais aos da mãe, ele ocupa uma posição um tanto precária. Ele pode fugir de suas responsabilidades como guia e professor de seus filhos ou, tanto melhor, pode cumpri-las por causa de sua inerente autoridade viril. Sua posição é perigosa e promissora. Alguém poderia dizer: as próprias qualidades que tornam o homem apto a ser um bom guia e professor — como seu distanciamento natural em relação ao que constitui em grande medida o ato de dar à luz e criar filhos, sua capacidade de olhar para os próprios filhos como “outros”, que não se confundem com ele e se fazem mais presentes a ele por meio da mãe, entre outras coisas — são justamente os aspectos da psicologia masculina que possibilitam o fracasso e até a deslealdade.

O filósofo francês Gabriel Marcel (1889-1973), um autor que escreveu sobre esse tema de forma criteriosa, diz: “A paternidade quase sempre apresenta o traço de uma conquista mais ou menos perigosa, a qual é alcançada aos poucos num território repleto de emboscadas.”

O pai desempenha um papel crucial e intransferível na fundação e na conservação do lar. Quando vivida corretamente, a paternidade pressupõe uma presença constante para os outros, viver para eles, estar “de plantão” 24 horas por dia. Viver à altura desse compromisso não é tão natural para os homens como para as mulheres, e isso faz com que ele seja ainda mais essencial para a estabilidade da comunidade familiar. Quando um homem não corresponde à sua vocação de fundar uma família, uma comunidade de amor permanente, — assim como o lendário Eneias teria fundado Roma ao fincar sua espada no solo onde a cidade se ergueria —, a mulher não pode recorrer a ninguém como pilar e fundamento. 

Num mundo repleto de lares divididos ou inexistentes, a força vital do amor e das promessas mantidas, que deveria permear a família como um segredo implícito compartilhado, é substituída por uma promiscuidade psicológica, uma mudança desordenada de lealdade que se manifesta como fragmentação e dissipação. A procriação, a criação dos filhos e os inúmeros cuidados que transformam a casa num lar parecerão cada vez mais à mulher fardos insuportáveis e afrontas à sua liberdade, e não expressões de um compromisso amoroso.    

Portanto, a paternidade é uma dupla prova do paradoxo apresentado por Cristo: “Aquele que quiser salvar a sua vida, irá perdê-la; mas aquele que tiver sacrificado a sua vida por minha causa, irá recobrá-la” (Mt 16, 25). Para dar vida, ou seja, propósito e alegria interior, à sua família, um homem deve aprender a morrer para si, contrariando sua tendência decaída de sobrevalorizar suas próprias conquistas e avanços. Essa é uma forma diferente de dizer que responsabilidade e sofrimento são inseparáveis na correspondência a qualquer amor digno do nome. Nas palavras de Marcel, “convém ao homem colocar-se à disposição da vida, e não dispor dela para realizar seus próprios objetivos”.

Quando o homem renuncia à sua própria vida pelo bem de sua esposa e de seus filhos, ganha em troca (ao longo do tempo e não sem uma luta contínua) um ego purificado do egoísmo e da falsa liberdade. Dessa maneira, o princípio divino da Criação — o amor de Deus garantido por sua promessa de amor — é implantado na família ou, melhor ainda, torna-se sua força vital. Marcel novamente:

Podemos afirmar sem hesitação que as limitações e as deformações às quais está sujeito o sentimento paterno tendem a desaparecer em famílias grandes, e alguém poderia dizer que isso se assemelha a uma recompensa (ou aprovação imanente) do ato de prodigalidade por meio do qual um homem planta generosamente as sementes da vida [...]. A multiplicidade e a variedade imprevisível de relacionamentos que existem na família numerosa fazem com que ela realmente apresente o caráter de uma criação; há uma relação direta entre o esforço perseverante (e muitas vezes heroico) por meio do qual ela é construída e a nova riqueza (a riqueza da vida) que ela recebe.  

A relação entre a identidade de um homem como pai de seus filhos e a identidade de Deus como Pai de seu povo não é uma coincidência. Desde o princípio o Criador revelou-se por meio da imagem da aliança nupcial. O Todo-poderoso é simultaneamente Noivo e Pai. Escolhe a Igreja para ser sua noiva e com ela gera filhos espirituais. A relação à qual damos o nome de paternidade tem profundas raízes na essência do homem e inclui esposa, filhos e lar. Nessa correlação dinâmica entre a essência de uma pessoa e a efusão de amor por outra, temos um vislumbre do Pai celestial gerando o Filho por toda a eternidade, e do Espírito Santo, que procede dos dois como um sopro ou chama de amor.

Sempre que um homem tem êxito em “fundar a igreja” no interior de seu lar, promove de modo definitivo a implantação contínua da Igreja de Cristo, orientada para a consumação do Reino de Deus. Portanto, é da essência da paternidade promover a obra de Deus, o esforço árduo e contínuo de “renovar todas as coisas” (2Cor 5, 17) em Jesus Cristo, que declarou: “E quando eu for levantado da terra, atrairei todos os homens a mim” (Jo 12, 32). A Encarnação do Verbo revela o propósito final da intervenção de Deus na história humana: a recuperação de todo o universo caído, a recriação de todas as coisas à Imagem do Pai.      

Essas verdades profundas não deixam de afetar a paternidade humana. O homem que dirige e serve sua família deveria se empenhar particularmente em imitar o amor providencial e gratuito do Pai celestial por sua Criação e o povo desposado por Ele. Desse modo, o pai protege a si mesmo do perigo da indiferença e da frouxidão; à esposa, da solidão e da monotonia de suas obrigações; e aos filhos, da tentação da revolta e da ingratidão. Graças ao ensinamento, ao exemplo e aos dons da graça de Nosso Senhor, o marido e pai aprende a perceber o distante, mas importantíssimo, objetivo em função do qual ele suporta a nova vida no seio de sua família: tornar presente mais uma vez o supremo mistério do Amor, o Amor do Deus que é. Assim, o marido e pai amplia o domínio da Paternidade de Deus, o império de Cristo Rei e Esposo.

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Por que os pais precisam conduzir suas famílias na vida de oração?
Espiritualidade

Por que os pais precisam
conduzir suas famílias na vida de oração?

Por que os pais precisam conduzir suas famílias na vida de oração?

Nós, pais, estamos sendo desafiados agora mesmo a exercer liderança em nossas casas. Se não o fizermos, entregaremos nossas famílias ao mundo. E por onde começar, senão pela recuperação da prática da oração em comum?

Terry RumoreTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere5 de Agosto de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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Conduza sua família na vida de oração”: partindo de uma experiência recente, posso dizer que essas palavras têm o poder de virar do avesso o mundo de um pai.

Esse desafio foi apresentado a um grupo do apostolado Fraternus, no ano passado. Como escutamos com frequência que o pai é o líder espiritual no lar, alguém poderia pensar que esse é um dos requisitos mais fáceis (jejum e penitências também eram exigidos); mas, a julgar pelas expressões de perplexidade e pelas contorções nas poltronas, a mesma pessoa poderia ter pensado que se havia pedido daqueles homens o sacrifício de seu primogênito. Perguntas do tipo: “Como faço isso?”, “Como funciona isso?” e “Como posso convencer minha família a me seguir?” circularam pelo ambiente. Foi atingido o coração de um problema com raízes profundas. Talvez muitos pais de família que estão lendo este artigo também tenham se contorcido um pouco. 

Depois de uma discussão e de uma reflexão detalhadas, creio que podemos assinalar alguns motivos por que esse desafio foi recebido com tanta hesitação, mesmo entre aquele grupo de homens espiritualmente maduros, e o que ele nos diz sobre a liderança dos pais no lar.

Em primeiro lugar, o ato de conduzir a oração em família exige vulnerabilidade.

Muitas vezes, os homens tratam a oração que é feita em comum como uma tarefa feminina: senhoras de idade piedosas que ficam o dia inteiro na igreja com seus rosários, bíblias com páginas amassadas e livros de oração gastos. Os homens não deveriam mostrar abertamente sua dependência do Pai celestial, demonstrar publicamente a necessidade de ser perdoados ou de pedir conselho e direcionamento. — Nós cuidamos do peixe frito e do transporte até a Missa, além de nos apresentarmos como voluntários para diversas obras de caridade. Que as mulheres cuidem da oração e que os homens façam as outras coisas! 

No entanto, a oração é para aqueles que dependem de Deus na fé, na esperança e na caridade. Deixamos de rezar porque dependemos de nós mesmos no orgulho, no egoísmo e na vaidade. Precisamos de Deus; sem Ele, estamos condenados e, no final das contas, tornamo-nos vazios. Podemos coordenar e organizar mil eventos para a Igreja e ignorar a verdade da fé o tempo todo. Precisamos da oração não porque seja algo que nos preenche de forma vaga ou porque simplesmente faça parte de nossas atividades corriqueiras, mas porque temos necessidade dela, no sentido mais verdadeiro da palavra. Deus não precisa de nossas orações; elas não acrescentam nada ao que Ele é. Nós precisamos de Deus, pois sem Ele nos falta algo. Nós precisamos da oração.       

E nós, pais, também precisamos rezar em público. Essas ações públicas mostram à nossa família como rezar; dizem a ela que nós, que muitas vezes somos a autoridade em muitos assuntos, submetemos nossa própria vida a Alguém que está acima de nós. Na verdade, conduzir nossa família na oração é uma das responsabilidades fundamentais da paternidade. Jesus Cristo nos ensinou como devemos rezar, dando-nos o Pai-Nosso como exemplo perfeito de oração. Observemos como o Pai-Nosso mostra a dependência em relação a Deus: “Pai nosso, que estais nos céus; santificado seja o vosso nome; venha a nós o vosso Reino; seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu; o pão nosso de cada dia nos dai hoje” (essa parte expressa a nossa dependência do Pai celestial); “perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido” (essa parte demonstra publicamente a necessidade do perdão); “não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal” (aqui pedimos conselho e direcionamento).

A oração exige, em segundo lugar, que um pai realmente lhe determine um período específico. Isso exige que ele dirija e lidere outras pessoas para que também determinem um período específico para a oração. Não é uma tarefa fácil num lar onde todos vivem juntos, mas fazem poucas coisas juntos. Requer-se uma mudança cultural. Dito de modo simples: a liderança exige trabalho. Quando todos estão em caminhos diferentes, quando raramente ocorre a simples atividade de uma oração em família e quando o tempo livre é gasto com algum dispositivo, a unidade familiar é bastante afetada. A oração impõe a reunificação no lar.  

A missão do pai é cultivada no lar por meio da realização de coisas difíceis como o estabelecimento da ordem, da disciplina e de uma estrutura. Exige que nós nos envolvamos com a vida familiar em vez de sermos observadores casuais. A Sagrada Escritura diz: “Quem dentre vós dará uma pedra a seu filho, se este lhe pedir pão? E, se lhe pedir um peixe, lhe dará uma serpente?” (Mt 7, 9s). Quando não interagimos em nosso lar e não exercemos liderança nele, permitimos que outra pessoa ou outra coisa guie nossa família, talvez dando àqueles que amamos pedras para comer ou serpentes para brincar.

Nós, pais, estamos sendo desafiados agora mesmo a exercer liderança — se não o fizermos, entregaremos nossa família ao mundo. Temos de começar pela recuperação da prática da oração em família. Deixe de lado os controles de videogame, desligue os smartphones, pare de ficar obcecado com esportes, renuncie à pornografia e pare de abdicar ao seu direito de liderar.

Permita-me reafirmar isso de uma forma mais positiva. Para começar, talvez tenhamos de nos tornar mais presentes antes de abraçar a causa da oração. Erga sua cabeça e olhe para sua bela esposa. Apaixone-se novamente. Interaja com seus filhos. Brinque com eles. Faça refeições em família e converse sobre seu dia. Conte histórias de sua juventude e ria alto de seu passado. Então, e só então, quando tiver reconquistado a confiança deles — quando tiver conquistado o direito a ser escutado e tiver demonstrado suas vulnerabilidades —, poderá pedir que o acompanhem na oração diária. Naquela ocasião, liderar sua família na vida de oração não lhe parecerá algo tão assustador ou estranho; será o próximo passo lógico nisto que chamamos de paternidade.  

É preciso começar, enfim, pelas coisas simples. Estabeleça um horário regular e se comprometa com ele. Talvez aquelas senhoras idosas saibam de algo importante! Se você for fiel ao plano que traçou, sua família gradualmente começará a mudar e seu lugar no lar se tornará mais claro, não por estar fazendo algo certo, mas porque Deus foi convidado para, como rezamos na Missa, “ordenar na sua paz os nossos dias” [1].  

Então, o que aconteceu com esse grupo de homens (contando comigo)? Desafiamos uns aos outros, responsabilizamo-nos uns pelos outros e amamos uns aos outros. Noite após noite, tornamo-nos cada vez mais conscientes da função paterna de conduzir a vida de oração. Nossas famílias começaram a confiar em nós, a nos escutar e acompanhar na oração

Sim, às vezes nós falhamos. A vida se interpõe e caímos nos maus hábitos. 

Mas podemos perseverar pela graça, e nossas famílias melhoraram graças a isso

Notas

  1. Diesque nostros in tua pace disponas: é um pedido que consta no Cânon Romano, mas que também aparece, ligeiramente diferente, no embolismo do Pai-Nosso (tanto no rito atual quanto no antigo): Da propitius pacem in diebus nostris. A tradução litúrgica brasileira diz, simplesmente: “Dai-nos sempre a vossa paz” (N.T.).

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Pais de família: os “grandes aventureiros do mundo moderno”
Família

Pais de família: os “grandes
aventureiros do mundo moderno”

Pais de família: os “grandes aventureiros do mundo moderno”

A vocação do pai é uma das formas do chamado à santidade, que se materializa principalmente em atos de amor. Pois a santidade não é uma abstração: significa ser fiel aos deveres, sacrificar-se, fazer florescer outras almas e ajudar quando necessário.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere5 de Agosto de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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A função do pai está vinculada à vocação de Adão no plano da Criação: dar nome às criaturas de Deus por meio do conhecimento e cuidar do jardim do mundo por meio da arte. O conhecimento humano, porém, pode transformar-se em “soberba da vida” (1Jo 2, 16), e a tecnologia, quando utilizada como instrumento de exploração, pode transformar-se numa espécie de estupro da natureza. Ao combater cada uma dessas tentações primárias, o homem (vir, varão) deve confiar humildemente em Deus, buscar sua sabedoria e auxílio superiores, viver castamente e mortificar os instintos dominantes. Suas habilidades são usadas da melhor forma possível quando postas aos pés de outra pessoa. 

Ao abordar os temas do conhecimento e da técnica, o Papa João Paulo II manifestou o mesmo pensamento em Cruzando o Limiar da Esperança:

O homem é o sacerdote de toda a criação. Cristo concedeu-lhe essa dignidade e vocação. A criação completa seu opus gloriae [“obra da glória”] por ser o que é e por cumprir seu dever de tornar-se o que deveria ser. Em certo sentido, a ciência e a tecnologia também contribuem para a consecução desse objetivo. Mas ao mesmo tempo podem nos afastar desse objetivo, já que são obras humanas. Esse risco existe particularmente em nossa civilização, e isso faz com que seja mais difícil ela se tornar uma civilização da vida e do amor. Falta precisamente o opus gloriae, que é o destino fundamental de toda criatura e, acima de tudo, do homem, que foi criado para se tornar, em Cristo, sacerdote, profeta e rei de todas as criaturas terrenas.

O cavalheirismo, uma tradição inspirada na honra cristã, é caracterizado pela dedicação desinteressada ao bem do próximo, particularmente ao dos mais vulneráveis. É o que descreve Tracey Rowland em seu livro Portraits of Spiritual Nobility: Chivalry, Christendom, and Catholic Culture (Angelico Press, 2019, sem tradução portuguesa). A pessoa verdadeiramente cavalheiresca põe “as vidas e o amor” dos outros acima de sua própria vida e de seu amor-próprio

A vocação do pai é uma das formas do chamado universal à santidade, um chamado que se materializa principalmente nos atos de amor. A santidade não é uma abstração: significa ser fiel aos deveres na vida, fazer sacrifícios pelas pessoas amadas, proporcionar o florescimento de outras almas, ajudar quando necessário. Desta maneira, o pai se faz presente para sua esposa e seus filhos, assim como o santo se faz presente para o mundo — cada um representa Cristo para os outros. Numa família em que o amor cristão é a medida e a meta, a possibilidade de desespero é praticamente impensável. Ainda sofremos, pois a fé cristã não oferece nenhuma panaceia. Mas o nosso sofrimento é parte da vida que estamos dispostos a abraçar por amor a Deus, que transforma o sofrimento numa fonte de mérito e de glória.   

A paternidade é uma realidade salvadora na medida em que um homem cumpre seu papel como “salvador” do mundo mutável da vida cotidiana; unido a Cristo, ele redime a rotina e exalta os humildes. Se, pela graça de Deus, uma devoção firme como essa se tornar tão real e tangível quanto a união pela qual homem e mulher possuem um ao outro, tão real quanto a concepção e o nascimento do fruto dessa união, então a família escapará da pobreza interna para a qual ela se encontra perigosamente aberta, particularmente numa época em que a mentira usurpou o lugar da verdade e os compromissos mundanos macularam os corações humanos

Por fim, o que um homem deve lutar para salvar? Ele deve salvar ou restaurar a vida em comunidade, a vida como dom. Ele resgata a vida da passividade, protege-a da melhor forma possível da violência do infortúnio, confere-lhe uma direção, habitua a si e aos filhos à prática da religião. Gabriel Marcel explica que a paternidade

só existe como cumprimento de uma responsabilidade contínua e sustentada… Provavelmente a melhor forma de entendermos o que deveria ser o puro ato de paternidade é o contraste com a inércia e a cegueira. Com isso me refiro a uma dedicação que pode ser comparada com um dom, porque prepara e requer um comprometimento e porque, sem isso, ela se torna nula. 

Na raiz da paternidade encontramos o voto criativo — uma frase simples que captura todo o caráter dessa vocação. Marcel novamente:

Podemos ver com suficiente clareza que o vœu créateur implica a combinação de uma profunda humildade pessoal e uma confiança inabalável na vida, concebida não como uma força natural, mas como uma ordem insondável, divina em seu princípio. 

Quando a paternidade é assumida e sancionada com seriedade por meio da autodoação, torna Deus mais presente no mundo, por assim dizer, levando algo de sua justiça, misericórdia e amor para os âmbitos natural e social nos quais nos movemos. São Paulo instrui os cristãos a “redimirem o tempo” (Ef 5, 15-16). O que é a paternidade senão um caminho — talvez o principal — para um homem arraigar seu amor temporal na imortalidade, deixando um testamento de sacrifício e oferecendo um testemunho daquela riqueza interior que não tem preço? Generosidade e amor gratuito são o legado de Nosso Senhor para seus seguidores. Um homem que se dedica à família aprende — e ao mesmo tempo ensina — a sabedoria de Cristo.  

Como o mundo contemporâneo é fascinado pela mágica da tecnologia, pelo ardil da conveniência, pelo alvoroço da gratificação e pelo repúdio do sagrado (o qual está na raiz dessas coisas), não deveríamos nos surpreender ao encontrar em nosso entorno os fenômenos da irresponsabilidade, do desânimo em relação à vida, do ceticismo profundo, da solidão e da traição. Quando conhecemos homens e mulheres que de algum modo se afastaram incólumes do caos, ficamos felizmente surpresos e gratos. “A vida do homem é uma luta”, diz Jó. De fato, hoje mais do que nunca, os pais católicos são chamados a ser soldados de Cristo, protegendo suas famílias e defendendo as verdades de nossa fé a tempo e a contratempo. 

Quando a observamos a partir de sua natureza e de sua suprema importância, percebemos que a paternidade é uma expressão de piedade em relação à Criação e sua santidade inviolável, além de uma exaltação da Santa Cruz. Segundo a expressão sugestiva de Marcel, é uma “santificação do real”. Santificar o mundo é ao mesmo tempo uma cruz (porque nossos corações e os das outras pessoas resistem ao amor de Deus) e uma ressurreição, porque a graça de Deus triunfa naqueles que perseveram.

Agora estamos em melhores condições de entender a frase de Charles Péguy: “Os pais de família, aqueles grandes aventureiros do mundo moderno”!

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