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Sagrado Coração, venha a nós o vosso Reino
Sociedade

Sagrado Coração,
venha a nós o vosso Reino

Sagrado Coração, venha a nós o vosso Reino

Os católicos não precisamos sentar diante dos portões da cidade, tentando em vão chamar a atenção das causas populares do momento. Entre nós está a fonte de toda a vitalidade, que é Jesus. Nele está a resposta para todos os problemas de nossa época, sejam eles quais forem.

Jane StannusTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere30 de Junho de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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À Espera dos Bárbaros”, poema de Konstantínos Kaváfis sobre o colapso da civilização, descreve uma Roma tão desanimada e desmoralizada, que já quase não possui esperança alguma. Ela se agarra aos bárbaros como a sua última tábua de salvação — há rumores de que as hordas barbáricas se aproximam, sem dúvida para saquear e queimar, mas também para construir, talvez, um novo império a partir das ruínas do antigo.  

Mas numa mudança repentina que se assemelha a um soco, Kaváfis puxa o tapete de Roma. Não há bárbaros. De nada adiantará que se reúnam, esperando por ventos e turbilhões fora do reino que venham a determinar o seu destino. Se há qualquer salvação para Roma, ela deve vir de dentro.

Ao observar nossas nações e a Igreja, nós, católicos, nos perguntamos onde foi parar a vitalidade da nossa fé. Onde está o ardor missionário que converterá a América e o mundo? Onde está o ímpeto que deveria levar os católicos de hoje a perseverar na prática da religião e na transmissão de uma fé vibrante para a geração vindoura? Onde estão o destemor e a firmeza das eras da fé, que eram como anéis de luz a cingir o mundo?

Talvez devêssemos tentar aproveitar uma força vital de nossa própria época. Que movimento vigoroso poderíamos acolher em nosso meio a fim de conferir nova relevância à nossa Igreja? Talvez devêssemos acolher o Antifa em nossas igrejas e apoiar os seus membros na luta por justiça social. Ou poderíamos explorar o vigor do movimento pró-imigração, ou o movimento ambientalista, ou talvez montar o irascível touro do marxismo. “Um dia”, escreveu Teilhard de Chardin num ímpeto de otimismo prepotente, “depois de dominar os ventos, as ondas, as marés e a gravidade, deveremos dominar para Deus as energias do amor, e então, pela segunda vez na história do mundo, o homem terá descoberto o fogo”. 

Palavras radiantes. Mas toda essa procura fora da Igreja de Cristo por sinais dos tempos, energias do amor, forças da história e ventos de mudança equivale simplesmente a aguardar a chegada dos bárbaros. Somos cidadãos decrépitos de um império moribundo ou membros vivos do Corpo Místico de Cristo?

Esse Corpo Místico possui o centro pulsante das forças do verdadeiro amor: o Sagrado Coração de Jesus, no qual encontramos a resposta para todos os problemas de nossa época, sejam eles políticos, filosóficos ou espirituais. Não precisamos sentar diante dos portões da cidade, tentando em vão chamar a atenção das causas populares do momento. Temos entre nós a fonte de toda a vitalidade, que é Jesus Cristo, o mesmo ontem, hoje e sempre.

No Sacratíssimo Coração de Jesus nós encontramos a solução para as nossas sociedades cada vez mais confusas e divididas. Somente o amor de Cristo e a sua bondade podem mudar os corações cheios de ódio e as mentes dominadas por ideias errôneas e falsos juízos. Sua autoridade amorosa pode ensinar os nossos policiais, pais e líderes a combinar mansidão e força. Na encíclica Haurietis Aquas, de 1956, Pio XII disse que o Sagrado Coração de Jesus “é a escola mais eficaz do amor de Deus”, que é “o fundamento sobre o qual o reino de Deus é construído nos corações dos indivíduos, das famílias e das nações”.

No Sacratíssimo Coração de Jesus nós encontramos a cura para as nossas personalidades feridas e fraturadas. Seu divino Coração de carne nos ensina a bondade da humanidade física e nos ajuda a rejeitar teorias gnósticas que, por desprezar completamente o corpo humano, afirmam que a vontade humana é livre para o modificar e redefinir como quiser, ou para o eliminar através da eutanásia ou do aborto. Sua humanidade perfeita nos faz ter a esperança de que, por meio de seu amor e de sua graça, as nossas feridas e erros, sejam eles resultado das nossas ações ou da injustiça e crueldade de outras pessoas, podem ser curados.   

Os nossos problemas políticos também podem ser resolvidos se recorrermos ao Sagrado Coração. Leão XIII escreveu com tristeza na encíclica Annum Sacrum, de 1899, que trata da separação entre Igreja e Estado: “Essa política tende praticamente à eliminação da fé cristã em nosso meio e, se fosse possível, à eliminação de Deus mesmo da terra”. No entanto, é por meio de Cristo, como nos diz São Paulo, que aprouve ao Pai “reconciliar consigo todas as criaturas, por intermédio daquele que, ao preço do próprio sangue na cruz, restabeleceu a paz a tudo quanto existe na terra e nos céus” (Col 1, 20). Como poderemos ter paz na terra sem o Príncipe da Paz?

Em sentido oposto, como os papas ensinaram diversas vezes e como Pio XI reiterou na encíclica Quas Primas, em 1925: “Quando os homens reconhecerem, na vida pública como na privada, que Cristo é Rei, a sociedade finalmente receberá as maiores bênçãos da verdadeira liberdade, da disciplina bem ordenada, da paz e da harmonia”. Esse reconhecimento não requer uma mudança de regime. Tanto as estruturas democráticas quanto as monárquicas possuem a capacidade e o dever de reconhecer que toda lei tem por fundamento a lei de Cristo; toda justiça, a justiça de Cristo; e toda ordem, a ordem de Cristo.

Eles devem, além disso, reconhecer de modo formal que Cristo é o Rei dos reis e o governante de todas as nações, com o que só estarão reconhecendo a realidade daquilo que é. Pois o Filho de Deus nos governa independentemente de nós escolhermos ou não, em nossa fantasia de grandeza, reconhecer esse fato; mas a nossa busca por ordem e justiça estará condenada desde o início se nos recusarmos a fundamentá-la no amor que move o sol e todas as estrelas.  

Amigos católicos, parem de esperar pelos bárbaros. Temos no seio da Igreja uma fonte de vitalidade, uma força de amor suficiente para transformar todas as coisas em Cristo: o Sacratíssimo Coração de Jesus, com a sua divindade e humanidade, os seus santos poderes legislativos e judiciários, a sua realeza sagrada e infinita.

Essa é a maior das causas e a única, pois contém o que é bom e digno em todas as causas menores, excluindo todo o resto. Essa é a energia de amor que temos de aproveitar caso queiramos mudar o mundo.

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Contra tudo e contra todos: o triunfo da Igreja Católica no Japão
História da Igreja

Contra tudo e contra todos:
o triunfo da Igreja Católica no Japão

Contra tudo e contra todos: o triunfo da Igreja Católica no Japão

Os católicos japoneses realizaram uma das maiores façanhas da história da salvação: resistir por 250 anos a uma campanha de aniquilação, sem nenhum sacerdote, transmitindo fielmente a fé ao longo de uma dúzia de gerações e em isolamento total.

Church MilitantTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere24 de Junho de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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Uma das demonstrações mais extraordinárias de fidelidade de todos os tempos é também uma das mais desconhecidas. Isso é trágico não apenas porque a história da Igreja Católica no Japão é importante por direito próprio, mas pelo que ela tem a nos ensinar sobre esperança.

O cristianismo (que por séculos foi exclusivamente católico romano) foi levado ao litoral japonês por São Francisco Xavier por volta da metade do século XVI. Após algumas tentativas e erros, ao longo das cinco décadas seguintes centenas de milhares de japoneses se converteram à fé. O catolicismo no Japão começou a prosperar e florescer. A cidade portuária de Nagasaki tornou-se um próspero centro para católicos.

No entanto, essa era de ouro só foi possível porque o Japão passava por uma enorme guerra civil que já durava um século: o Período Sengoku. Senhores da guerra, chamados daimiôs, estavam muito ocupados em lutas intestinas para se preocuparem com ameaças externas. A chegada dos portugueses levou riqueza e armas de fogo a muitos deles. Os europeus foram tolerados por causa do afluxo de riquezas e dos armamentos de ponta que traziam consigo. E aonde quer que fossem, levavam também o catolicismo. Comunidades cristãs começaram a brotar em todas as partes das ilhas japonesas.

São Francisco Xavier, o primeiro a quem os católicos japoneses devem o dom da fé. Imagem de Maryland, EUA.

Mas a oposição ao catolicismo já começava a se cristalizar. Na Batalha de Nagashino em 1575, mosquetes europeus foram decisivos para a derrota de Takeda Shingen e seu clã. A batalha facilitou o eventual surgimento do clã Tokugawa, que viria a ser catastrófico para os católicos.

Em 1600, o Período Sengoku estava se acalmando, e a violência esporádica contra cristãos já havia começado três anos antes. O clã Tokugawa finalmente obteve o controle de toda a nação e o seu líder foi transformado em xogum, comandante do exército.

Com um Japão unido, o xogunato Tokugawa começou a prestar atenção ao que ocorria no restante do Pacífico. Naquele momento, os poderes europeus apropriavam-se da riqueza material da Ásia e colonizavam a China e as Filipinas de forma agressiva. Temendo que o cristianismo fosse uma ferramenta das nações ocidentais e recordando o papel que os europeus tiveram no Período Sengoku, os japoneses começaram a reprimir os católicos. 

O catolicismo também entrou em conflito com muitas sensibilidades japonesas. O conceito de inferno e a dura condenação da atividade homossexual (que naquela época era muito comum no Japão) eram ofensivos a muitos japoneses. Essas características fizeram do catolicismo um alvo fácil para autoridades que desejavam classificá-las como “não-japonesas”. Os católicos romanos no Japão seriam perseguidos, de forma muito concreta, em parte por causa de sua rejeição da homossexualidade. O catolicismo era visto como uma afronta às religiões tradicionais predominantes, um ataque aos valores japoneses e algo traiçoeiro.

Em 1614, a perseguição tornou-se política oficial. Todos os missionários e todo o clero foram expulsos, e todos os convertidos deveriam ser mortos. Qualquer membro do clero que ousasse permanecer era executado.

O xogunato teve êxito ao decapitar completamente a Igreja Católica no Japão. Em poucos anos, todos os sacerdotes foram assassinados ou banidos. Os cristãos remanescentes foram obrigados a viver na clandestinidade. Aqueles que eram identificados eram torturados e executados.

Entretanto, durante a década de 1630, o Japão começou a fechar-se completamente para o mundo exterior, rompendo todo contato com nações estrangeiras. Qualquer estrangeiro que desembarcasse em solo japonês era condenado à morte. Todo japonês que deixava o país era proibido de retornar.

Em 1644, o último jesuíta remanescente foi arrancado de seu esconderijo e morto. A partir daquele momento, os leigos católicos no Japão ficaram completamente sozinhos, sem sacerdotes e sem qualquer possibilidade de comunicação com Roma. O Japão entrou num período de trevas.

Nem mesmo o império romano e o muçulmano, ou as polícias estatais da União Soviética e da Alemanha Oriental conseguiram suprimir o cristianismo de forma tão absoluta. Para os católicos japoneses sobreviventes, aqueles expurgos foram apenas o começo.

Todos os que se mantinham obstinadamente fiéis à fé eram condenados à morte, apenas descobertos. As execuções realizadas pelas autoridades japonesas eram brutais o suficiente para causar desconforto no mais cruel torturador romano. Muitos métodos são demasiado repulsivos para serem narrados aqui. Os afortunados eram crucificados, decapitados ou queimados vivos. Muitos outros tinham um fim terrível após dias de tortura.

Mas onde abundou o pecado, superabundou a graça. A hediondez da morte que os mártires sofreram só era igualada pela coragem que demonstravam quando chegava a sua hora. Durante o extermínio do clero, sacerdotes abençoavam as multidões à medida que caminhavam para a sua execução, prometendo que outros mestres viriam substituí-los (ao fim e ao cabo, a promessa deles se cumpriria). Os que eram queimados beijavam a estaca a que eram atados, agradecidos por serem considerados dignos de sofrer o martírio pela fé.   

São Paulo Miki, uma das primeiras vítimas da violência anticristã, chegou a proferir um sermão da cruz, uma façanha física incrível se considerarmos os efeitos da crucifixão no sistema respiratório. 

A Igreja no Japão teve de se adaptar para sobreviver. Entrou na clandestinidade, e os católicos japoneses passaram a ser conhecidos como Kakure Kirishitans ou “cristãos ocultos”. As primeiras coisas eliminadas foram a Bíblia e outros textos (inclusive litúrgicos). Os católicos tiveram de suprimir todas as provas físicas de sua existência. A Bíblia, os ritos litúrgicos e a própria fé tiveram de ser memorizados e transmitidos oralmente.

Todas as imagens ou símbolos eram feitos de modo que parecessem artefatos budistas ou xintoístas. Esculturas de Jesus eram feitas de tal maneira que Ele ficasse parecido com Buda. Toda representação visual de Nossa Senhora era feita do mesmo modo.

Até o culto litúrgico era camuflado. As celebrações litúrgicas (não havia sacerdotes para oferecer a Missa) assumiam várias superficialidades budistas enquanto conservavam sua essência católica.

Quando o rastro dos católicos esfriava, o governo japonês decidia expô-los. Exigia que os cidadãos recebessem um certificado da hierarquia budista, afirmando a sua conformidade religiosa.

Além disso, as autoridades começaram a instituir uma política chamada Fumi-e. A população era obrigada a pisar em imagens de Cristo e da Virgem Maria. Qualquer um que recusasse a fazê-lo era torturado até renunciar à fé. Os que não aceitavam eram executados. Os católicos enfrentavam uma variedade repugnante de mortes. Eram inclusive arremessados em vulcões ativos.

A Igreja resistiu. Os que eram forçados a passar pelo Fumi-e “batizavam-no”, por assim dizer, considerando-o uma prática litúrgica que celebrava o perdão de Cristo.

Essa situação permaneceu inalterada por 250 anos. A Igreja no Japão só saiu das sombras quando o país voltou a abrir as portas para o mundo na metade do século XIX.

O Pe. Bernard-Thadée Petitjean foi um dos primeiros a pisar em solo japonês após a reabertura das fronteiras. Quando lá chegou, em 1865, foi abordado por uma mulher que lhe perguntou se era sacerdote do Papa em Roma. Surpreso por ela saber o que era um sacerdote, e mais ainda o Papa, ele avançou. Uma vez convencida da identidade dele, ela apresentou-o à igreja clandestina, uma comunidade semiatrofiada espiritualmente, mas perseverante, que em dois séculos e meio jamais havia visto um sacerdote

O Pe. Petitjean descobriu que os católicos ocultos do Japão realizaram uma das maiores façanhas da história da salvação. Resistindo por 250 anos a uma campanha de aniquilação, sem nenhum sacerdote, os japoneses conseguiram transmitir a fé ao longo de uma dúzia de gerações em total isolamento. O rito romano do batismo e o calendário litúrgico permaneceram intactos. Quando a interdição do catolicismo foi suspensa em 1867, mais de 30 mil católicos saíram do anonimato. Hoje o Japão tem 500 mil católicos.

Vivemos em tempos obscuros, e não vemos bons sinais quanto ao futuro. Mas os mártires e os católicos ocultos do Japão mostram-nos que a fé pode perdurar mesmo quando somos minoria e, despojados de nossos pais espirituais, somos cercados e caçados como animais.

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“Na saúde e na doença”, desde o princípio
Testemunhos

“Na saúde e na doença”, desde o princípio

“Na saúde e na doença”, desde o princípio

Eles estavam de casamento marcado. Mas a pandemia do coronavírus veio e revirou tudo. Conheça a história destes jovens casais católicos, que começaram a viver “na alegria e na tristeza, na saúde e na doença”, desde o primeiro dia de suas núpcias.

Pe. Roger LandryTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere24 de Junho de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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“Prometo ser fiel, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amar-te e respeitar-te todos os dias da minha vida”. 

No dia do casamento, a maioria dos casais faz esses votos olhando para o futuro, rezando para que tenham muito mais momentos bons do que ruins, muito mais bem-estar do que doença.

Porém, durante a pandemia, enquanto o mundo enfrenta a pior doença global em um século e milhões de pessoas passam por momentos verdadeiramente difíceis, aquelas palavras assumem um sentido adicional.

Uma das coisas que mais têm me impressionado e inspirado nos últimos meses é o número de casais que tenho preparado para o Matrimônio e se têm mostrado dispostos — de modo profético e corajoso — a pronunciar e a viver aquelas palavras hoje.

Mesmo tendo de reduzir a lista de convidados de centenas a apenas dez pessoas.

Mesmo tendo de adiar festas e lua de mel.

Mesmo tendo de superar vários obstáculos para conseguirem permissão para contrair matrimônio e inventarem soluções para vestidos, ternos, flores e outros elementos básicos de uma cerimônia de casamento, porque os seus fornecedores foram tachados de negócios “não essenciais” e tiveram de fechar as portas.

Em suma, mesmo tendo de abrir mão de muitos elementos de um  “casamento dos sonhos”.

Um jovem casal me disse que rezaram para descobrir o que Deus queria deles durante esta pandemia. Concluíram que Ele lhes pedia que dessem testemunho do sacramento do Matrimônio.

“Não podemos fazer nada a respeito das decisões tomadas quanto à disponibilidade dos sacramentos do Batismo, da Eucaristia, da Confissão, da Confirmação e da Unção dos Enfermos durante a crise”, disseram-me. “Mas, na medida em que a decisão está sob o nosso controle, desejamos mostrar aos nossos familiares, aos nossos colegas católicos e todas as outras pessoas o quanto o sacramento do Matrimônio é importante”.

Há duas semanas, celebrei em Atlanta a Missa nupcial de um casal acompanhado apenas por familiares próximos. Todos os outros convidados, inclusive os amigos mais próximos, tiveram de assistir à celebração pela internet. O noivo me disse o seguinte durante as nossas sessões de preparação em Nova Iorque: “Matrimônio significa unir-se a outra pessoa e a Deus, e amar essa pessoa em cada reviravolta, mudança e acontecimento inesperado que a vida nos proporciona”.  

Não pude deixar de dizer o seguinte durante a homilia: “Sem dúvida, a vida os colocou numa situação inesperada durante os dois últimos meses; mas, unidos, conseguirão superá-la. Todos os que aqui estão presentes e os que assistem à transmissão online torcem por vocês neste início de vida conjugal”. 

Não obstante, muitos amigos e familiares que não puderam estar presentes na igreja organizaram, logo após a cerimônia, um alegre momento para cumprimentar de carro o novo casal. 

Outro casal está se preparando para o Matrimônio em julho, em San José, onde reside a família da noiva. Na semana passada, eles me disseram que havia ocorrido um problema: o estado da Califórnia estava concedendo licenças de casamento apenas aos casais em que uma das parte residisse no estado, a fim de evitar, teoricamente, os chamados destination weddings (cerimônias realizadas em local diferente da cidade de origem dos noivos, muitas vezes no lugar da lua de mel) e a possibilidade de transmitir o novo coronavírus. Esta foi a resposta deles: “Padre, se não conseguirmos uma licença lá, seria possível nos casarmos em Connecticut, Nova Iorque ou qualquer local onde pudermos conseguir uma licença?” Eu disse a eles que ficaria honrado em celebrar o seu casamento em qualquer igreja católica do planeta

Disse-me outro casal, ambos de famílias numerosas, que, compreensivelmente, estavam frustrados porque só teriam uns poucos irmãos na cerimônia: “O mais importante, padre, é que o senhor, nós dois e as nossas duas testemunhas estarão lá, porque desse modo o casamento poderá acontecer”.

Manifestaram, porém, a sincera esperança de que a sua diocese lhes permitiria celebrar uma Missa nupcial, para poderem receber, depois de vários meses, a Sagrada Eucaristia. Fico feliz em dizer que a diocese acabou de retirar a suspensão das Missas públicas. Além disso, a igreja onde se casarão é tão grande, que todos os familiares e amigos que esperavam convidar no início poderão comparecer sem dificuldades, respeitando plenamente as novas orientações de distanciamento social e do percentual de ocupação.   

Nenhuma dessas decisões foi tomada sem desconforto. Alguns casais que estou preparando para o Matrimônio neste ano também decidiram adiar a celebração para 2021, porque não conseguem imaginar uma cerimônia sem a presença de todos os amigos e familiares, ou sem uma alegre recepção depois dela. Independentemente da decisão, quando esses casais ficaram noivos e começaram a falar comigo, nenhum deles jamais imaginou que teria de postergar um dia tão esperado por causa de uma pandemia.  

No entanto, percebi algumas características comuns aos casais que escolheram manter as datas. 

A primeira delas é uma forte consciência de sua vocação. Sabem que são chamados por Deus ao Matrimônio e querem responder prontamente a Ele.

Como parte da preparação para o Matrimônio, quando um casal me diz que espera ser abençoado por Deus com filhos, embora pretenda esperar uns dois anos antes de tentar engravidar, recordo-lhe gentilmente que uma das grandes tentações do demônio é nos fazer pensar que “sempre há tempo”.

Eu lhes pergunto: “Se soubessem que ficariam casados por apenas cinco anos antes de um dos dois falecer heroicamente, isso mudaria o que vocês pensam a respeito do momento adequado para começar a ter filhos?” Essa pergunta sempre os leva a mudar de cabeça e de planos.

Fiquei muito satisfeito quando um dos casais, ao ser confrontado com a decisão de adiar ou não o Matrimônio, disse o seguinte: “Padre, se, pela vontade de Deus, só conseguirmos ficar casados por cinco anos antes que um de nós dê a vida para salvar a do outro”, disse a futura esposa, “preferimos passar esse tempo como marido e mulher. Nossa vocação é o Matrimônio, não o noivado!

A segunda característica é um profundo apreço pelo que acontece no sacramento do Matrimônio, a convicção e a fé em dar prioridade ao vínculo criado por Deus, antes que à presença de todos os familiares e amigos na celebração, à recepção, à viagem de lua de mel e às diversas coisas que, embora belas e significativas, eles não consideram tão importantes. Numa época em que muitos noivos vivem juntos e outros se comportam como se fossem casados, em geral os casais que escolhem manter as datas tratam o casamento como um acontecimento em que Deus cria algo profundamente novo, uma comunhão consigo e entre o casal, desejada por eles e que não pretendem adiar.  

O terceiro traço é o seguinte: aqueles que mantêm a data de Matrimônio estão vivendo de forma patente a castidade. Como qualquer outro casal, esses noivos sentem desejo um pelo outro, mas sabem que, do ponto de vista moral, só poderão consumá-lo e tornar-se uma só carne quando Deus os unir. Não estão dispostos a esperar mais um ano para terem enfim uma celebração completa, pois esperaram ansiosamente a vida inteira para encontrar a pessoa certa e começar a “receber com amor os filhos que Deus lhes enviar e educá-los segundo a lei de Cristo e da Igreja”.

A decisão de se casarem em plena pandemia e em tempos difíceis é um poderoso anúncio de que os noivos levam realmente a sério o que professam um ao outro em seus votos. De forma dramática, eles põem em prática aquelas palavras desde o primeiro dia de sua convivência conjugal. E dão à Igreja e ao mundo um belo, estimulante e instigante testemunho.

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A vida doméstica não é uma escravidão
Sociedade

A vida doméstica não é uma escravidão

A vida doméstica não é uma escravidão

Talvez o trabalho não remunerado das mulheres “valha”, de fato, uma quantia obscena de dinheiro, como sugeriu recentemente um jornal norte-americano. Mas existem outras coisas para além disso: coisas feitas por amor e que, por isso, não vêm com um código de barras.

Jane Clark ScharlTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere22 de Junho de 2020Tempo de leitura: 8 minutos
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Recentemente, o jornal norte-americano The New York Times publicou um artigo intitulado Women’s Unpaid Labor is Worth $10,900,000,000,000 (“O trabalho não remunerado das mulheres vale 10 trilhões e 900 bilhões de dólares”). Como poderíamos esperar, o texto é cínico e parcial.

Embora o artigo tente se apresentar como resultado de uma simples pesquisa, em homenagem ao Dia Internacional das Mulheres, sobre as contribuições delas para a sociedade — muitas vezes não reconhecidas —, ele acabou assumindo a forma da verborragia comercialista semimarxista que tem dominado a nossa sociedade. Expôs assim um equívoco que está no centro do pensamento americano sobre trabalho, dinheiro e sociedade, a saber: que as coisas só possuem valor se lhes atribuirmos alguma quantia em dólar — e que as pessoas que fazem algo sem serem remuneradas são, por isso, necessariamente exploradas.

Como disse G. K. Chesterton: “[O feminismo] está mesclado com uma ideia confusa segundo a qual as mulheres são livres quando servem aos seus patrões, mas escravas quando ajudam os seus maridos”. O raciocínio feminista presente no artigo do The New York Times é terrivelmente reducionista e ignora por completo os benefícios intangíveis oriundos do assim chamado “trabalho não remunerado” das mulheres — sem dúvida alguma, benefícios para a sociedade, as famílias e os homens, mas em número ainda maior para as mulheres.

Agora, algumas advertências. Primeiro: se alguém espera com justiça ser pago por uma tarefa, mas não o é, estamos diante de um caso intolerável de exploração. Segundo: ao longo da história, as mulheres foram injustamente excluídas da plena participação na sociedade, uma injustiça que ainda existe hoje em algumas sociedades e deve ser enfrentada. Terceiro: as mulheres que escolhem entrar para o mercado de trabalho como funcionárias devem ser recompensadas justamente, tal como os seus equivalentes masculinos. Nada disso, porém, está em questão no artigo do The New York Times.  

O texto poderia ser uma celebração do quanto as mulheres contribuem para a sociedade e de como o seu trabalho abnegado deixa o mundo muito mais belo e alegre, mas não é. Não é sequer uma exposição que pretende lançar luzes sobre as diferenças salariais entre homens e mulheres. Em vez disso, documenta a enorme contribuição que as mulheres dão à sociedade e sugere que é uma injustiça o fato de não serem remuneradas por essa contribuição.

Vejamos a frase de abertura: “Se as mulheres americanas recebessem um salário mínimo pelo trabalho não remunerado que realizam em casa e no cuidado dos familiares, teriam gerado uma receita de U$ 1,5 trilhão no ano passado”. A frase não menciona quantas famílias foram beneficiadas pelo cuidado das mulheres nem quantos idosos receberam assistência de mulheres em sua vida. Em vez disso, reduz esses atos humanos a uma quantia monetária para sugerir que há algo injusto no fato de as mulheres não serem remuneradas pela prática desses atos de caridade. 

Detalhe de “Um da família”, de Frederick George Cotman.

Este ponto é crucial: são atos de caridade realizados em larga escala por mulheres. Embora, sem dúvida, fosse possível que elas não fizessem algumas dessas coisas (reconheço que às vezes me canso de lavar a louça e organizar a casa), o texto ignora completamente outra possibilidade, a saber: que elas fazem essas coisas por amor.

Todo o mundo que já fez algo por amor sabe que tais tarefas são a sua própria recompensa. Mas algumas pessoas não sabem que transformar um trabalho feito por amor num trabalho remunerável altera, de fato, a natureza dele. Os artistas certamente experimentam isso quando se tornam profissionais: de repente, a arte assume uma natureza laboral. As exigências do mercado começam a ter um peso enorme. E mesmo com o entusiasmo por serem remunerados por seu trabalho criativo, muitos artistas têm a sensação de que algo se perdeu.

É algo que transparece na própria linguagem: as pessoas que fazem artesanato, arte, esporte ou realizam um trabalho sem se preocupar com ganhos financeiros são chamadas de amadoras, que vem de um termo em latim para designar “aquele que ama”. As pessoas que fazem coisas sem expectativa de remuneração são amantes. Por outro lado, “profissional” refere-se a quem faz algo como meio de sobrevivência. Embora, sem dúvida, não haja nada errado em sair do “amadorismo” para o “profissionalismo”, há uma profunda diferença espiritual entre ser amante de uma tarefa e fazê-la como meio de sobrevivência.

O artigo menciona um dia na Islândia, em 1975, quando quase todas as mulheres do país se recusaram a “trabalhar, fazer faxina ou cuidar dos filhos”. O The New York Times exalta o episódio como um momento de coragem em que as mulheres da Islândia assumiram o controle de suas próprias vidas, mostrando a homens preguiçosos e ingratos o quanto a sociedade devia a elas. Na verdade, esse estratagema pueril mais parece um abandono da decência comum. Imagine por um momento que tivesse ocorrido o contrário: se todos os homens do país se recusassem a trabalhar por um dia, independentemente das consequências para seu futuro profissional, ou se não fizessem nada para apoiar as suas famílias. Tal boicote seria rapidamente considerado um gesto imaturo para chamar a atenção e como tal seria condenado. É difícil ter uma visão positiva de uma mãe que se recusa a cozinhar e a cuidar dos próprios filhos por causa de uma manifestação política. Quando se negaram a realizar essas ações, as mulheres da Islândia revelaram inadvertidamente o segredo de boa parte daquilo que consideramos “trabalho feminino”: ele tem raízes no amor e na abnegação.   

O artigo celebra o boicote islandês como um triunfo e observa que “hoje, as mulheres de lá têm uma das taxas mais elevadas de participação na força de trabalho em todo o mundo”. O pressuposto implícito é que, numa sociedade ideal, deveria haver o maior número possível de mulheres na força de trabalho.

É claro que isso deixa sem resposta várias perguntas importantes. Se, assim como os homens, todas as mulheres devem participar da força de trabalho para que uma família possa sobreviver, quem assumirá aqueles atos de caridade — a educação dos filhos, o cuidado dos idosos e a construção de um belo lar? O governo assumirá essa tarefa? Esse trabalho será de algum modo dividido entre homens e mulheres? Quem controlará ou autorizará a divisão de trabalho? E, num nível menos tangível, que efeito terá na qualidade de nossas vidas a “sistematização” daquilo que deveria ser um gesto de amor?  

Finalmente, o que dizer sobre o fato de muitas mulheres preferirem ficar em casa para participar desses pequenos atos de caridade a se envolverem na assim chamada “força de trabalho”? Hoje, levei o nosso filho ao parque, passei numa cafeteria no caminho de volta para casa a fim de comprar um lanche e ajudar esse pequeno negócio durante a crise de coronavírus. Organizei a casa, levei meu bebê para jogar pedras no lago, fiz almoço e jantar para o meu marido. Durante a soneca do meu filho, realizei algumas horas de trabalho pelo qual serei remunerada, mas o restante do meu dia cai na categoria do “trabalho não remunerado” do qual se queixa o artigo do The New York Times.

Então, comparo o meu dia com o do meu marido: ele passa nove horas no escritório doméstico, o menor cômodo da casa, atendendo a telefonemas de trabalho com o seu fone de ouvido. Ele está com teletrabalho agora; numa situação normal, ele teria saído de casa às 6h30min e não teria chegado antes das 17h30min (na melhor das hipóteses).  

O trabalho dele não é ruim. É bem remunerado e tem benefícios. Contudo, eu não trocaria o meu dia não remunerado pelo dia remunerado dele. E não estou sozinha; muitas mulheres adoram a própria capacidade de criar um belo lar para o marido e os filhos. Percebemos que o compromisso dos nossos maridos de irem para o trabalho todos os dias, para que possamos ficar em casa — fora do turbilhão materialista e hipermercantilizado que constitui boa parte da sociedade americana —, é um sacrifício para eles, mas uma bênção para nós.

No ensaio A emancipação da domesticidade, G. K. Chesterton observa algo que poderia — mas não deveria — fazer as feministas tremerem. Diz ele:

A mulher deve ser cozinheira, mas não uma cozinheira competitiva; professora, mas não uma professora competitiva; decoradora de interiores, mas não uma decoradora competitiva; costureira, mas não uma costureira competitiva [...]. Ao contrário do homem, ela pode desenvolver todos os seus talentos [...]. As mulheres não ficavam em casa por serem limitadas; pelo contrário, ficavam em casa para expandir-se. O mundo fora de casa é que era extremamente limitado, um labirinto de caminhos restritos, um manicômio de monomaníacos. Somente graças à limitação e proteção parciais a mulher era capaz de desempenhar cinco ou seis profissões e, desta forma, aproximar-se tanto de Deus como uma criança ao brincar de cem coisas diferentes. A diferença é que as profissões da mulher, ao contrário das da criança, eram todas verdadeiramente — e quase terrivelmente —  frutíferas.     

Neste trecho Chesterton celebra a maravilhosa capacidade feminina de viver como uma “amadora”, uma amante que dedica sua vida ao que ama justamente por amá-lo, e não porque obtém algum tipo de benefício financeiro. Segundo Chesterton, as mulheres nesse âmbito são verdadeiramente livres de um jeito que os homens empregados na força de trabalho não podem ser.

É possível que o The New York Times esteja certo: talvez o trabalho não remunerado das mulheres “valha” uma quantia obscena de dinheiro. Mas existem outras coisas para além dele: a liberdade das exigências do mercado, a beleza da construção de um lar, a espontaneidade e a diversão nas brincadeiras com os filhos, o amor no cuidado dos vizinhos ou familiares idosos. E nenhuma dessas coisas possui um código de barras.

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