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Christo Nihil Præponere"A nada dar mais valor do que a Cristo"
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Por que nada mais é sagrado hoje em dia?
Sociedade

Por que nada mais
é sagrado hoje em dia?

Por que nada mais é sagrado hoje em dia?

Não há mais nada sagrado, porque as coisas sagradas exigem respeito. E este é um sacrifício que muitas pessoas, hoje em dia, não estão dispostas a fazer. Para elas, as comodidades de ser comum são de longe preferíveis à nobreza do heroísmo.

John Horvat IITradução: Equipe Christo Nihil Praeponere3 de Junho de 2019
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Há cerca de dois anos, a palavra “sagrado” fez presença na mídia norte-americana, depois que o então Chefe de Gabinete da Casa Branca, John Kelly, lamentou o fato de nada mais ser sagrado hoje em dia, sobretudo à luz do “escândalo” provocado por uma ligação do presidente Trump à viúva de um soldado morto em combate.

“Quando eu era criança”, disse Kelly, “muitas coisas eram sagradas no nosso país. As mulheres eram sagradas e vistas com muito respeito. As coisas, obviamente, já não são mais assim, como se vê em casos recentes. A vida, a dignidade da vida, era sagrada. A religião também parece ter ido embora.”

O cinismo com que a mídia reagiu às palavras do general sobre a sacralidade da morte de um soldado simplesmente confirmaram a verdade que Kelly estava dizendo. De fato, nada mais é sagrado no ambiente político atual. Não há nada que não possa ser objeto de discussão para a agenda liberal.

As razões por que nada mais é sagrado

Existem muitas razões por que nada mais é sagrado hoje em dia. Uma delas é que o sagrado discrimina, exclui.

O sagrado teve sempre uma nota de “exclusividade”. Em seu sentido mais próprio, é sagrado tudo o que foi separado para o serviço ou o culto a Deus. Num sentido mais amplo, a palavra pode aplicar-se a tudo o que é digno de reverência e respeito. O sagrado evoca um sentido de mistério e admiração, na medida em que aponta para algo superior e acima da nossa compreensão.

Está implícita na rejeição do sagrado a ideia de que não deve haver restrições de nenhum tipo, de que é injusto haver algo além do alcance dos outros, de que é errado reconhecer alguém como superior a outra pessoa.

Assim, numa sociedade que perdeu a noção do sagrado, ninguém se destaca, ninguém é premiado, as paixões desordenadas não devem nunca manter-se sob controle. Todos têm de ser iguais, custe o que custar. Não pode haver santuário para privilégio algum. Nada pode ser negado aos outros; ao contrário, tudo deve estar à disposição de todos.

Despojando as coisas de seu mistério

Nada mais é sagrado, porque as coisas foram despojadas de seu mistério. Para os que odeiam o sagrado, a simples existência do mistério afirma a existência de uma verdade superior e inefável, que não é reconhecida pela ciência moderna.

Eis porque a modernidade teve sempre um problema com o sagrado. O Iluminismo introduziu a ideia de que o sagrado, com a sua aura de mistério, deveria ser substituído pela razão humana e pela observação empírica.

No século XIX, Karl Marx notou os efeitos dessa mentalidade iluminista, ao escrever sobre a tendência do capitalismo a destruir o sagrado. “Tudo o que é sagrado”, disse, “há-de ser profanado”. Num mundo em que nada é sagrado, Marx acreditava que a vida seria e deveria ser “dessantificada”. Fiel ao seu ateísmo militante, Marx não via isso como um fenômeno negativo, mas antes como algo que facilitaria a condição de igualdade entre os homens.

A supressão do sagrado deriva, pois, de uma negação de valores espirituais, de uma negação de ideias que elevam a humanidade e ensinam que há coisas mais valiosas do que a própria vida. Só este fato torna essas coisas sagradas.

O desejo de ser “normal”

Não há mais nada sagrado, porque as coisas sagradas exigem respeito. Espera-se que as pessoas vejam o sagrado como algo especial. As pessoas deveriam admirar, honrar e cuidar de tudo o que é sagrado.

Trata-se de um sacrifício que muitos, hoje em dia, não estão dispostos a fazer. Pelo contrário, o que querem é ser “normais”, e querem cercar-se de coisas “normais”. Para eles, as comodidades de ser comum são de longe preferíveis à nobreza do heroísmo. Um dever sagrado não ressoa positivamente no coração dos que optaram pela busca desenfreada de felicidade material. Prevalece hoje a mentalidade do “não quero ser um herói”.

Ironicamente, os que rejeitam o sagrado nenhum problema têm na hora de elevar sua própria “normalidade” à condição de algo sagrado. Estão todos ansiosos para transformar em direitos sagrados os prazeres mais profanos. Desta forma, o esporte, o entretenimento, as escolhas e o consumo passam a considerar-se algo sagrado. E, tragicamente, também alguns pecados se tornam “sagrados” e intocáveis.

No entanto, à medida que a sociedade se degrada, até mesmo as coisas normais que se tornaram sagradas começam a ser atacadas. Até mesmo a exclusividade relativa que proporcionam esses prazeres ordinários revela-se intolerável para os que odeiam o sagrado.

Negação do reinado de Cristo

É óbvio que a razão mais fundamental por que nada mais é sagrado é que a cultura atual não reconhece que deve haver, sim, coisas dedicadas ou separadas para o serviço ou o culto a Deus.

Essa negação tácita do reinado de Cristo sobre a humanidade conduz, logicamente, à supressão do sagrado na vida diária. Como disse o Papa Pio XI em sua Encíclica “Ubi arcano Dei consilio”, de 1922, as coisas tornarão a ser sagradas outra vez quando Jesus Cristo “reassumir o seu lugar por direito como Rei de todos os homens, de todos os Estados e de todas as nações”.

Até lá, porém, a queixa do general Kelly irá expressar os sentimentos daqueles que sofrem pela nação. Quando Deus não é amado e adorado, não é de admirar que nada mais seja sagrado; quando Deus e sua beatíssima Mãe são ofendidos com blasfêmias, como o são hoje em dia, não nos deveria espantar que as pessoas se tratem mal umas às outras; quando Deus e sua Lei são ridicularizados e desprezados, é completamente natural que a moralidade também seja escorraçada da esfera pública e que a sociedade se precipite em profundezas inimagináveis.

Nada estará a salvo; nada será estável; nada mais será sagrado.

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“A pornografia é a teoria, o estupro é a prática”
Sociedade

“A pornografia é a teoria,
o estupro é a prática”

“A pornografia é a teoria, o estupro é a prática”

Os homens não nascem estupradores, mas, por algum motivo, muitos deles tendem cada vez mais a justificar a violência sexual. Por quê? Porque a pornografia transformou o corpo de mulheres e meninas em mercadoria.

Jonathon van MarenTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere29 de Maio de 2019
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“A pornografia é a teoria”, escreveu certa vez a conhecida feminista Robin Morgan, “o estupro é a prática”.

De fato, as feministas em geral costumavam pensar que a pornografia, na melhor das hipóteses, era algo desumano e degradante, um produto criado por homens e para homens que retratava as mulheres como meros objetos de desejos masculinos; na pior das hipóteses, era a celebração violenta da destruição do feminino, em que as mulheres eram espancadas, estupradas, humilhadas e, em todo caso, agredidas para satisfazer os prazeres perversos de misóginos que afirmavam ser um “fetiche” o seu ódio às mulheres.

Hoje, porém, espera-se que as feministas sejam “pró-sexo”, o que significa que elas têm de apoiar a pornografia, pois seria inútil opor-se aos mais de 80% da população masculina que a consomem.

Lembro-me de um debate sobre pornografia durante uma de minhas primeiras aulas de ciência política na universidade: na classe inteira, apenas eu e um outro colega nos opomos à pornografia. A maioria dos rapazes permaneceu sentada, em silêncio, numa tentativa de não interferir na discussão, ao passo que eram algumas das alunas as mais ferozes defensoras desta imundície; era como se elas tivessem que provar alguma coisa.

A pornografia — diz o nosso novo dogma sexual — é inofensiva, senão benéfica. E quando comecei a afirmar em alguns artigos meus que a pornografia promove a “cultura do estupro”, a reação dos homens que não conseguem abandoná-la foi rápida e agressiva.

Por isso, comecei a entrar em contato com especialistas na área, com pessoas que estudaram o impacto da pornografia em homens e mulheres. A entrevista mais reveladora e chocante que já fiz foi com a dr.ª Mary Anne Layden, diretora do Programa de Trauma Sexual e Psicopatologia, do Departamento de Psiquiatria da Universidade da Pensilvânia. Já tive ocasião de citar o trabalho dela sobre pornografia e violência antes, e quis descobrir em primeira mão o que os seus estudos tinham revelado.

— Quando — perguntei à dr.ª Layden — começaram seus estudos sobre a relação entre violência e pornografia?

— Quando comecei a atuar como psicoterapeuta há cerca de 30 anos — respondeu —, comecei a tratar pacientes que tinham sido vítimas de violência sexual, e senti-me particularmente tocada pelos danos que a violência sexual nelas tinha causado. Depois de mais ou menos 10 anos atuando na área […], finalmente percebi que jamais tinha tratado um único caso de violência sexual que não envolvesse pornografia… Alguns casos eram de estupro, outros de incesto, outros de abuso infantil, outros de assédio sexual; mas, apesar da diversidade de casos, a pornografia estava presente em cada um deles. Assim, pareceu-me haver ali alguma relação. Com o passar do tempo, comecei a me interessar pelos aspectos comuns aos criminosos sexuais, porque me dei conta de que jamais resolveríamos o problema da violência sexual tratando, uma por uma, as vítimas que foram atingidas por ele. Não havia terapeutas suficientes no mundo; mas havia, isso, sim, demasiadas vítimas no mundo. Não podíamos resolver isto tratando cada vítima em particular; era necessário ver as coisas de cima e descobrir qual era a causa geral do problema.

E, como a dr.ª Layden descobriu, era a indústria pornográfica que estava por trás de tudo. “Os homens não nascem estupradores”, disse-me ela. Mas, por algum motivo, muitos deles tendem cada vez mais a justificar a violência sexual. Por quê? Porque a pornografia transformou o corpo de mulheres e meninas em mercadoria. A pornografia está moldando a forma como os homens vêem as mulheres.

— Trata-se de um produto — disse enfaticamente a dr.ª Layden. — É todo um negócio, e creio que muitos rufiões deixariam de o fazer se não houvesse dinheiro envolvido; mas se trata de um negócio, e a partir do momento que se diz que isso é um produto, que é algo que se pode comprar, então é algo que também se pode roubar. As duas coisas estão entrelaçadas: se você pode comprá-lo, pode também roubá-lo, e é até “melhor” que o roube, porque não será necessário pagar por ele. Assim, a indústria da exploração sexual, seja um clube de strip, seja a prostituição ou a pornografia, é onde você o compra; a violência sexual (o estupro, o abuso, o assédio) é onde você o rouba. Estas coisas estão indissoluvelmente ligadas. Não há maneira de traçar uma linha de demarcação clara entre o estupro e a prostituição, entre a pornografia e o abuso de menores. Não há linhas claras de separação. Os que praticam essas coisas possuem um conjunto comum de crenças, e quando analisamos os resultados da pesquisa podemos distinguir algumas delas. Desta forma, sabemos que os indivíduos que se expõem a conteúdos pornográficos costumam pensar, por exemplo, que as vítimas de estupro “gostam” de ser estupradas; que elas “não sofrem muito” quando são violentadas; que “elas receberam o que queriam”; que as mulheres inventam acusações falsas de estupro, porque o estupro, na verdade, não existe (o sexo é bom ou ótimo, e não há meio termo); que ninguém fica realmente traumatizado depois da experiência etc. Todas essas ideias fazem parte do “mito do estupro”, e quem consome pornografia aceita o “mito do estupro” em grau muito superior às outras pessoas. Por isso, temos a impressão de que a pornografia as está ensinando a pensarem como um estuprador e agirem como um.

A pornografia, como todo produto, fez do corpo feminino o que a economia sempre faz com qualquer produto: se algo se torna mercadoria, acaba perdendo valor. É simples assim. Mas quando a estratégia de mercado consiste em inflamar a luxúria e apelar para o poder de degradar as mulheres, os resultados são devastadores. Como a dr.ª Layden afirmou em nossa entrevista, nós deixamos inclusive de nos ver como seres humanos.

— Quando você deprecia o corpo das mulheres — continuou ela —, quando você trata as pessoas como coisas, há consequências, e uma delas é a violência sexual, e outra consequência é também a deterioração dos relacionamentos. Existe uma série interessante de estudos que joga um pouco de luz sobre como se dá esse fenômeno. Os pesquisadores mostraram aos voluntários algumas imagens de conteúdo levemente sexual, de homens e mulheres em trajes de banho ou apenas com a roupa de baixo. As imagens eram vistas de cabeça para baixo e de cabeça para cima, e depois os pesquisadores observavam os processos que tinham lugar no cérebro dos voluntários, porque isto permite determinar que parte do cérebro é utilizada para processar a visualização de determinadas imagens. O que vemos com os homens é que, quando as pessoas olham para um deles, e o veem em traje de banho ou só com a roupa de baixo, elas usam a parte do cérebro que processa rostos humanos; mas quando olhamos para mulheres em traje de banho ou só com a roupa de baixo, usamos a parte do nosso cérebro que processa instrumentos e objetos, e quando você processa uma mulher como um instrumento ou objeto, a tendência é utilizá-lo. As regras de que nos servimos quando lidamos com instrumentos ou objetos diz que, se eles não estão cumprindo a sua função, é melhor jogá-los fora e procurar outros. As feministas diziam anos atrás que os homens estavam tratando as mulheres como objetos sexuais, e pensávamos que isso não passava de uma metáfora. Mas não era uma metáfora. Era, sim, uma descrição da realidade: os homens estavam usando a mesma parte do cérebro que utilizam para processar objetos e coisas, e há uma consequência para a sociedade quando você começa a tratar o sexo como um produto e a mulher como uma coisa.

Obviamente, os que evidenciam estes fatos e os que se opõem à pornografia são condenados como “retrógrados”, “puritanos” e “antissexo”. Quando o lembrei à dr.ª Layden, ela não se mostrou nem um pouco impressionada.

— O desejo de amor — disse ela — está incrustado em nós. Um de meus colegas disse uma vez: “O verdadeiro perigo é que isto põe a perder o amor em um mundo em que somente o amor traz felicidade”. Isso resume o que estamos fazendo, que todos estamos “programados” para amar e ser amados. É isso que alimenta o nosso coração faminto, e nós temos agora uma geração que está esfomeada e tem o coração ávido; mas o que eles têm consumido é lixo sexual, eles estão se tornando “obesos sexuais” porque é tão grande a sua fome [de amor] que estão dispostos a comer até mesmo esse lixo, se não há outro alimento disponível. Por isso, o que precisamos, em parte, são pessoas que falem sobre a beleza do sexo, sobre a maravilha do sexo, sobre como o sexo une os casais comprometidos e os ajuda a manterem suas promessas de fidelidade mútua; precisamos de pessoas que falem que existe, sim, uma sexualidade boa, que enobrece, que anima e se baseia no amor, mas que todo esse lixo sexual que aí está não é nada disso.

Que pensar, no fim das contas? Que os que se opõem à pornografia não são “antissexo”. São apenas gente sábia o bastante para reconhecer que a pornografia é veneno. Quando usada como um sucedâneo do amor, ela equivale a dar um copo de água salgada para alguém morrendo de sede: ela irá provocar ainda mais desejo, mas sem proporcionar satisfação alguma. Para a dr.ª Mary Anne Layden, isso é autoevidente, e ela pretende que o maior número possível de pessoas seja capaz de o ver assim também.

— Se eu dissesse às pessoas: “Quero que tenham uma alimentação saudável e deixem de ir ao McDonald’s”, elas não me chamariam de “anticomida”. Elas apenas diriam que eu quero promover uma alimentação saudável […]. Ora, o mesmo acontece com a sexualidade: quero promover uma sexualidade saudável, amorosa, que enobreça e alimente a alma, e não uma “sexualidade fast food”.

E como consegui-lo? Com altíssimos índices de adicção à pronografia, isso sequer é possível? A dr.ª Layden tem tantas sugestões, que é difícil resumi-las:

— Acho que deveríamos nos educar a nós mesmos; precisamos contar a verdade aos outros; cada um tem de falar a verdade porque, uma vez que sabemos de tudo isso, calar-se é tornar-se cúmplice. Precisamos ir às nossas escolas e centros de ensino e dizer aos responsáveis: “Vocês precisam proteger nossas crianças”. Precisamos exigir dos nossos governantes que impeçam a difusão de ideias como “com consentimento, vale tudo”, o que significa impedir a legalização da prostituição. Ideias como aquela dizem aos homens que a prostituição não é um problema, e assim mais e mais homens irão atrás de prostitutas. Precisamos criar leis contra o que prejudica as pessoas; é preciso que a sociedade se indigne de verdade quando um caso de violência sexual é varrido para debaixo do tapete, por ter sido cometido por uma celebridade, por exemplo. Precisamos nos reunir e ter a jornalistas, advogados e pais de mãos dadas, como um time forte, para dizer que a nossa sociedade é digna de ser salva, que as nossas crianças são dignas de ser protegidas, que a sexualidade é algo sagrado. Mas precisamos fazê-lo em conjunto, e isso exige um esforço conjunto… Quando ouço alguém dizer que não, não é possível pôr o leite derramado de volta na embalagem, digo que há 50 anos 60% dos habitantes de Nova Iorque eram fumantes, e hoje somente 18% das pessoas fumam na cidade. É possível, sim, “pôr o leite de volta na embalagem”. Nós podemos fazê-lo e vale a pena fazê-lo.

Eu, assim como a dr.ª Mary Anne Layden, não sou “antissexo”, embora não me oponha a ser chamado de retrógrado. Eu sou, contudo, totalmente “antipornografia”, e isso porque a pornografia está transformando em “retrógrados” relacionamentos saudáveis, amorosos e fiéis. Ela está roubando da geração atual a sua capacidade de aproveitar relacionamentos duradouros e felizes. É por isso que temos a responsabilidade de dar voz ao chamado da dr.ª Layden e de muitos outros especialistas a lutarmos contra o mal da pornografia, onde quer que ele se encontre. Os que afirmam que a pornografia é inofensiva estão, ao fim e ao cabo, muitíssimo mal informados.

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Possessão? A tentação é pior, diz exorcista
Doutrina

Possessão?
A tentação é pior, diz exorcista

Possessão? A tentação é pior, diz exorcista

“Nós não devemos subestimar a gravidade da tentação. Ela não é tão espetacular quanto a possessão, mas é de longe muito mais perigosa para a alma.”

Catholic News AgencyTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere20 de Maio de 2019
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Ainda que representações dramáticas de possessões demoníacas, como as de Hollywood, dêem a entender que são elas a principal atividade do demônio, um padre e exorcista dominicano alerta: a ameaça maior e mais comum colocada pelo demônio para a salvação de uma pessoa é a tentação ao pecado.

“A manifestação demoníaca mais comum é a tentação, e ela é muito pior do que a possessão”, disse o Pe. François Dermine, O.P., em entrevista à Catholic News Agency, em 10 de maio.

O sacerdote, exorcista há mais de 25 anos, explica que a possessão não é uma ameaça espiritual da mesma forma que a tentação, e que é até possível, a um possesso, que ele faça um “progresso espiritual extraordinário”, chegando mesmo à santidade.

Isso se deve ao fato de que a possessão do corpo de uma pessoa ocorre sem o seu conhecimento ou consentimento. A possessão em si mesma não torna a sua vítima moralmente culpável.

“Nós não devemos subestimar a gravidade da tentação. Ela não é tão espetacular quanto a possessão, mas é de longe muito mais perigosa [para a alma]”, diz o sacerdote.

“Resistir à tentação é simples”, ele afirma, ainda que nem sempre seja fácil. “É preciso evitar as ocasiões de pecado, é claro, levar uma vida cristã e ter vida espiritual. Faz-se necessário rezar, comportar-se corretamente e amar as pessoas com que nos encontramos todos os dias e também aquelas com que convivemos.”

Segundo o Pe. Dermine, depois da tentação, outra forma muito comum de atividade demoníaca é a opressão. Às vezes as pessoas podem encontrar alguns problemas, geralmente de saúde, nos negócios ou na família, e que não podem ser explicados por causas naturais. Quando se julga que a causa desses problemas é uma opressão diabólica, dá-se-lhes o nome de “preternaturais” e eles podem demandar o auxílio de um exorcista.

“Das ações extraordinárias do demônio, essa é a mais comum”, diz o Pe. Dermine, explicando que a tentação é considerada como ação demoníaca “ordinária”.

O sacerdote adverte que as pessoas não deveriam concluir de imediato que problemas físicos ou sofrimentos sejam resultado de uma opressão demoníaca, porque na maioria das vezes eles podem ser explicados por causas naturais.

Se alguém visitou um médico (ou um psicólogo, se for o caso) e nenhuma explicação natural pôde ser encontrada, então é o caso de se procurar um exorcista. “Quando uma pessoa vem e pede uma bênção para um problema específico”, diz o padre, “a primeira coisa que um exorcista deve perguntar é: você já foi a um médico?”.

O Pe. François Dermine é nascido no Canadá, mas vive na Itália praticamente desde que foi ordenado sacerdote, em 1979. Exorcista desde 1994, ele exerce seu ministério na Arquidiocese de Ancona-Osimo e foi convidado a falar sobre como é a vida de um exorcista durante o 14.º curso sobre exorcismo e orações de libertação — evento organizado pelo Ateneo Pontificio Regina Apostolorum e pelo Gruppo di Ricerca e Informazione Socio-Religiosa.

O curso tem duração de uma semana, encerrou-se no dia 10 de maio e tem como finalidade não só formar novos exorcistas, mas também inteirar sacerdotes e leigos do exorcismo e de tópicos semelhantes. O Pe. Dermine disse que muitos dos leigos participando do curso compareceram a pedido de seus bispos, para que aprendessem a prestar auxílio aos sacerdotes durante os exorcismos.

O sacerdote conta ainda que, em sua palestra, apresentou alguns dos erros mais comuns cometidos por exorcistas, como o de confundir manifestações demoníacas preternaturais com carismas sobrenaturais, vindos de Deus. “Há uma diferença muito importante”, ele explica. “Nós temos uma natureza humana e não podemos conhecer as coisas sem antes as termos aprendido por meio de nossos sentidos.”

“Deus nos criou para agir de uma certa forma. Se você tem percepções extrassensoriais e coisas do tipo, e elas não servem para influenciar ou provocar um resultado espiritual, então elas não podem vir de Deus”, ele adverte. Pessoas com tais percepções são normalmente chamadas de “médiuns” na cultura secular.

Esses tipos de sentimentos ou manifestações preternaturais podem ser “causa de muitos problemas”, explica o sacerdote, e as pessoas envolvidas nisso podem precisar da ajuda de um exorcista.

O padre nota que existe um valor cultural em se ministrar um curso sobre exorcismos para padres e leigos, e isso acontece porque o tópico é no mais das vezes misterioso, suscitando o desejo de aprender. “A maior parte das pessoas que vêm aqui fazem-no não porque têm intenção de se tornarem exorcistas necessariamente, mas porque querem aprender”, ele diz.

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Um exame de consciência litúrgico
Liturgia

Um exame de consciência litúrgico

Um exame de consciência litúrgico

Toda liturgia deveria ser capaz de expressar a grandeza que é pertencer à Igreja. Tudo nela deveria nos dizer ao coração: “Esta é a tua casa. Este é o teu lugar. Tudo aquilo por que tanto anseia o mais profundo de tua alma… está aqui.”

Equipe Christo Nihil Praeponere15 de Maio de 2019
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“Quão amável, ó Senhor, é vossa casa,
quanto a amo, Senhor Deus do universo!
Minha alma desfalece de saudades
e anseia pelos átrios do Senhor!
[...]
Na verdade, um só dia em vosso templo
vale mais do que milhares fora dele!”

(Sl 83(84), 2-3.11)

É notório o trabalho pastoral e teológico que Bento XVI, antes mesmo de ser eleito Papa, realizou no âmbito da sagrada liturgia. Quem não conhece esse trabalho tem agora a oportunidade de adquirir a obra Teologia da Liturgia, lançada recentemente pela CNBB, e que constitui o primeiro volume das obras completas de Ratzinger em português.

Foi desejo do próprio Papa emérito que no primeiro volume de suas opera omnia constassem seus escritos sobre a liturgia. Ele quis seguir a mesma ordem do Concílio Vaticano II — de cujos documentos o primeiro foi justamente a Sacrosanctum Concilium — e priorizar aquela que foi a “realidade central” de sua vida desde a infância, como ele mesmo escreve em sua autobiografia:

Cada novo degrau no acesso à liturgia era, para mim, um grande acontecimento. Cada livro novo me era uma preciosidade, e eu não podia sonhar com nada mais lindo. Foi para mim uma aventura cativante esse lento acesso ao misterioso mundo da liturgia, que lá no altar, diante de nós e para nós, se realizava. Tornou-se cada vez mais claro para mim que eu me encontrava aí diante de uma realidade que não foi inventada por uma pessoa qualquer, e não havia sido criada por uma autoridade ou grande personagem. Essa misteriosa fusão de textos e ações tinha nascido da fé da Igreja, através dos séculos. Carregava dentro de si o peso de toda a história, mas era, ao mesmo tempo, muito mais do que um produto da história humana. Cada século tinha contribuído com seus vestígios. As introduções nos ensinavam o que tinha vindo da Igreja primitiva, da Idade Média, dos tempos modernos. Nem tudo era lógico. Tudo era bastante complicado; nem sempre era fácil a gente se orientar. Mas exatamente por isso aquela estrutura era maravilhosa, e nos sentíamos em casa [1].

Detenhamo-nos por um momento nestas últimas palavras do Papa, pois elas descrevem um sentimento que com certeza já perpassou o coração de todo católico diante de uma liturgia bem celebrada: sentirmo-nos em casa.

A expressão tem um sentido bem preciso. O Papa evidentemente não está dizendo que a liturgia foi feita para as pessoas se sentirem em casa como se se tratasse de algo banal, trivial, profano. Ele fala de nos sentirmos em casa como um sinal de pertença e de familiaridade. Neste sentido preciso, sim, é possível afirmar que a liturgia foi feita para que nos sintamos em casa.

Mas a casa a que o Papa se refere não é um templo feito por mão de homens, para usar uma expressão do Apóstolo (cf. At 17, 24). O que a liturgia faz é colocar-nos em contato com o mistério da Igreja, o mistério

da montanha de Sião, da cidade do Deus vivo, da Jerusalém celestial, das miríades de anjos, da assembleia festiva dos primeiros inscritos no livro dos céus, e de Deus, juiz universal, e das almas dos justos que chegaram à perfeição, enfim, de Jesus, o mediador da Nova Aliança, e do sangue da aspersão, que fala com mais eloquência que o sangue de Abel (Hb 12, 22-24).

Em uma palavra, a liturgia existe a fim de nos transportar para o que há além desta vida terrena. No Batismo, todos nós, católicos, recebemos uma nova vida, a vida sobrenatural da graça, isto é, uma vida muito acima dos dados meramente naturais. Por meio desta porta, nós adentramos o edifício espiritual da Igreja, o Corpo místico de Cristo, formado

  • por todos os santos que já passaram por este mundo e agora estão no Céu,
  • por todas as almas justas que estão se purificando no Purgatório e
  • por todos os guerreiros valorosos que militam neste vale de lágrimas.

Esta casa, caro leitor, é a morada de todos os bem-aventurados, dos homens e mulheres que, em todos os tempos e lugares, temeram e amaram a Deus, e cumpriram com a sua santíssima vontade. Por isso, porque é uma casa ornada das mais belas virtudes, nenhuma casa se lhe é capaz de igualar.

A liturgia deveria ser capaz de expressar esta magnificência que é pertencer à Igreja. Todas as orações que nela existem, todos os cantos que foram compostos e incorporados a ela ao longo dos séculos, todos os gestos sagrados que o sacerdote faz e que o povo acompanha (ou deveria acompanhar) com piedade e devoção, tudo isso deveria falar mui ternamente ao nosso coração e dizer: “Esta é a tua casa. Este é o teu lugar. Tudo aquilo por que tanto anseia o mais profundo de tua alma está aqui.”

Mas a experiência que, ao pequeno Ratzinger, transmitiu imediatamente a sensação de pertença, pode ser para outros, em um primeiro momento, ocasião de choque e estranhamento. Vejamos o que aconteceu, por exemplo, ao famoso escritor francês Paul Claudel (em suas próprias palavras):

Assim era a infeliz criança que, a 25 de dezembro de 1886, foi a Notre-Dame de Paris para assistir aos ofícios de Natal. Começava então a escrever, e parecia-me que nas cerimônias católicas, consideradas com um diletantismo superior, encontraria um excitante apropriado e a matéria de alguns exercícios decadentes.

Foi com essas disposições que, acotovelado e empurrado pela multidão, assisti, com um prazer medíocre, à missa cantada. Depois, não tendo nada melhor a fazer, voltei para assistir às vésperas. As crianças do coro, vestidas de branco, e os alunos do seminário menor de Saint Nicholas du Chardonnet, que os ajudavam, cantavam o que mais tarde soube ser o Magnificat.

Eu próprio estava de pé entre a multidão, junto do segundo pilar à entrada do coro, à direita da sacristia. E foi então que se produziu o acontecimento que domina toda a minha vida. Em um instante, meu coração foi tocado e acreditei.

Acreditei com tal força de adesão, com tal elevação de todo o meu ser, com tão poderosa convicção, com tal certeza sem deixar lugar a qualquer espécie de dúvida, que, a partir de então, todos os livros, todos os raciocínios e todas as circunstâncias de uma vida agitada não puderam abalar-me a fé, nem mesmo, para ser mais preciso, atingi-la.

Tive de súbito o forte sentimento da inocência, da eterna juventude de Deus, uma revelação inefável. Tentando, como o fiz várias vezes, reconstituir os minutos que se seguiram a esse instante extraordinário, encontro os elementos seguintes que, entretanto, formavam apenas um clarão, uma única arma de que a Providência Divina se servia para atingir e abrir enfim o coração de uma pobre criança desesperada: ‘Como são felizes os que crêem! E se fosse verdade? É verdade! Deus existe. Ele está em toda parte. É alguém, é um Ser tão pessoal quanto eu. Ele me ama, Ele me convoca.’

As lágrimas e os soluções vieram… e o canto tão doce do Adeste fideles aumentou ainda mais minha emoção. Emoção bem doce, mas a que se misturava um sentimento de espanto e quase de horror. Pois minhas convicções filosóficas estavam intactas. Deus as deixara desdenhosamente onde estavam, e eu nada via a mudar nelas; a religião católica me parecia continuar o mesmo tesouro de anedotas absurdas, seus padres e fiéis me inspiravam a mesma aversão que ia até o ódio e o desgosto. O edifício de minhas opiniões e de meus conhecimentos permanecia de pé, e não lhe achava qualquer defeito. Tinha apenas me retirado dele. Um novo e formidável ser, com exigências terríveis para o jovem e o artista que eu era, tinha-se revelado, e não sabia como conciliá-lo com coisa alguma que me cercava.

O estado de um homem que fosse arrancado de um golpe de seu corpo, para ser colocado em um corpo estranho, no meio de um mundo desconhecido, é a única comparação que posso encontrar para exprimir este estado de confusão completa. O que mais repugnava a minhas opiniões e a meu gosto, era, entretanto, a verdade e o fato de ter de acomodar-se a ela custasse o que custasse. Ah! Isso não aconteceria sem que tentasse tudo que me fosse possível para resistir [2].

Percebam como, curiosamente, o que para um católico de berço, praticante, foi sentir-se em casa, para esse artista (até então um católico “morno”) foi justamente a experiência do deslocamento: o homem que ele era até aquele momento sentia-se fora de lugar, transportado a uma realidade nova e inesperada.

É que o pequeno Ratzinger tinha fé; Paul Claudel ainda não. E foi só a partir do momento em que lhe caíram as escamas dos olhos, foi só quando ele acreditou, que a liturgia ganhou, para ele, todo o sentido que realmente possui.

Paul Claudel.

Foi preciso, portanto, uma experiência totalmente alheia a seu mundo para que Paul Claudel se convertesse. Como o peixe que é tirado da água para a terra, Cristo pescou a alma desse homem, tirando-a de um ambiente para colocá-lo em outro completamente diferente. Essa migração — que constitui, no fundo, a essência de toda e qualquer conversão — deveria nos lembrar uma coisa de que muitos em nossa época parecem ter-se esquecido, a saber: que não são as nossas “adaptações”, as nossas “manipulações”, as nossas tentativas de “acomodar” o sagrado à banalidade das nossas vidas o que trará as pessoas de volta à Igreja. Muito pelo contrário, é justamente o estupor diante do sobrenatural, o espanto diante do sagrado, a admiração com o que é nobre e elevado, a isca de que tantos precisam para se livrar da miséria, da baixeza, da lama em que estão afundados.

Lendo o relato da conversão de um homem ao simples ouvir de uma música sacra, deveríamos nos perguntar se a mesma experiência teria acontecido, por exemplo, se aquelas crianças em Notre-Dame (a mesma Notre-Dame que estava em chamas alguns dias atrás) estivessem cantando uma música popular, um “sambinha” para Cristo, um jogral infantil ou um iê-iê-iê festivo para homenagear os fiéis presentes na celebração daquelas Vésperas…

Ora, alguém poderá dizer, “o Espírito sopra onde quer”. E é verdade. Mas será que podemos tão soberbamente pretender que o Espírito Santo se adeque à pobreza de nossos esquemas, à vulgaridade de nossas profanações, à baixeza de nossas invencionices? Que Deus se sirva até das mais insignificantes das coisas para trazer uma pessoa a si, é coisa de que ninguém duvida; agora, que façamos o que quisermos na liturgia, sob o pretexto de que “o que importa é o coração”, e como se um “batuque” e um “molejo” estivessem no mesmo nível de um coro de crianças cantando um Magnificat ou um Adeste fideles, é no mínimo uma profunda falta de bom senso (para não falar do pecado de irreverência que aqui se esconde sob a aparência de “simplicidade” e “despojamento”). Além do mais, que uma e outra pessoa aja dessa forma por ignorância, é coisa que se pode muito bem admitir; que não haja, no entanto, uma única voz capaz de dizer esse óbvio ululante, é coisa que escapa à nossa compreensão, é coisa que só a expressão “mistério da iniquidade” pode explicar…

É por isso que nós, católicos, precisamos fazer um exame de consciência urgente, perguntando-nos se o modo como celebramos a liturgia tem revelado aos homens a face de Deus ou a face… do próprio homem. Nossas crianças será que sentem, a respeito da liturgia de nossas igrejas, o mesmo que sentia o pequeno Ratzinger, a ponto de dizerem: “Estou em casa”? Será que nossas Missas têm favorecido e despertado nas pessoas esse nobre sentimento de pertença que o Papa Bento XVI teve em menino e que foi decisivo para sua vida e vocação cristã? Ou, ao contrário, não estaremos sonegando a nossos filhos, com nossos desrespeitos, nossas bizarrices, nossas danças e piruetas “litúrgicas”, o próprio tesouro da fé da Igreja?

E os que estão de fora — como estava Paul Claudel antes daquela visita a Notre-Dame —, com que impressão ficam ao se aproximar de nossas igrejas? A de um grupo sério de pessoas que temem a Deus e O veneram com respeito e reverência? Ou a de um bando que vive da gritaria e do oba-oba?

Na verdade, ante a dessacralização e as profanações que acontecem em tantas de nossas Missas, ao ver o silêncio e as orações secretas substituídas pela verborragia e pelos “programas de auditório”, diante do sentimentalismo que tomou o lugar da nobreza do canto gregoriano [3], não há como não tomar emprestadas as palavras do salmista ao ver desolada sua terra: “Por que razão vós destruístes sua cerca, para que todos os passantes a vindimem, o javali da mata virgem a devaste, e os animais do descampado nela pastem?” (Sl 79(80), 13-14).

Nós nos perguntamos o porquê, mas não é muito difícil chegar a uma resposta satisfatória. Como não enxergar em tudo isso que nos está acontecendo a justa mão de Deus nos castigando por nossos pecados? Não é curioso (para não dizer providencial) que justamente a nossa época, tão dada à sensualidade, seja privada na liturgia de todos os aspectos sensíveis que a enobreceram em outras épocas? Por que outro motivo nos teria sido negada a beleza e as glórias da liturgia, senão para que pagássemos o preço (merecido) da feiura dos pecados em que vivemos atolados?

Sim, tudo isso é verdade, mas lembremo-nos sempre: Deus, como Pai amoroso, só nos castiga porque busca a nossa conversão. Ele não permitiria os males que estamos experimentando, se não quisesse deles extrair um bem muito concreto: a purificação da nossa fé.

Portanto, se a liturgia de sua paróquia está ruim, se na Missa de que você participa o Cristo parece se despojar totalmente, como fez no Calvário, não deixe nunca de adorá-lo sob as espécies eucarísticas e de fazer-lhe companhia em meio aos verdugos que O maltratam… E não, não se trata de “cruzar os braços”. Se você puder fazer algo, mãos à obra, é claro! O que pudermos realizar, o que estiver ao nosso alcance fazer pelo resgate da liturgia, façamos, não fiquemos inertes.

Só não caiamos na tentação de trair a fé; de deixar a nossa casa, que é a Igreja; de abandonar Nosso Senhor justamente quando Ele mais precisa daqueles que O adorem, em espírito e em verdade.

Referências

  1. Joseph Ratzinger, Lembranças da minha vida: autobiografia parcial (1927-1977), trad. Frederico Stein, 2.ª ed., São Paulo: Paulinas, 2007, pp. 20-21.
  2. Jacques Madaule, Paul Claudel (1868-1955), in: Convertidos do século XX, trad. Hoche Luiz Pulchério, 2.ª ed., Rio de Janeiro: Agir, 1966, pp. 132-133.
  3. “Halevy, afamado compositor de óperas, discípulo de Cherubini, diz: ‘Como podem os sacerdotes católicos, possuidores do canto gregoriano, a mais linda melodia religiosa que existe no mundo, permitir nas suas igrejas a pobreza da nossa música moderna?’” (Pe. João Batista Reus, Curso de Liturgia, 3.ª ed., Rio de Janeiro: Vozes, 1952, p. 65)

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