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A liberdade sem a autoridade
Espiritualidade

A liberdade sem a autoridade

A liberdade sem a autoridade

É ilusão demoníaca pensar que a obediência a Deus aprisiona o ser humano, quando é só nos conformando à Sua vontade que seremos realmente livres.

Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Agosto de 2014Tempo de leitura: 3 minutos
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Prossegue o Papa Pio XII, em sua reflexão, dizendo que o inimigo também propugnou “a liberdade sem a autoridade" [1].

Sem dúvida, uma das manifestações magisteriais mais importantes sobre a liberdade humana está contida na encíclica Libertas praestantissimum, do Papa Leão XIII. Nela, o Santo Padre recorda que, mais importante que a liberdade, é o modo como ela é exercida:

“O homem pode, com efeito, obedecer à razão, perseguir o bem moral, dirigir-se pelo caminho reto até o fim. Mas o homem pode também seguir uma direção totalmente oposta e, perseguindo enganosas ilusões de bens, perturbar a devida ordem e correr à sua voluntária perdição." [2]

Trata-se de uma constante na história da humanidade: o homem pensa poder ser livre prescindindo de Deus. Ao cair em tentação, Adão e Eva foram seduzidos pela ideia de ser como deuses, sobrepondo sua liberdade à autoridade de Deus, como alguém que procura fazer-se a medida de si próprio.

A sedução do mundo é de que, obedecendo à Palavra de Deus e a mandamentos tidos como difíceis de suportar, estaríamos nos privando da própria liberdade. Assim, a submissão a Deus é comparada, erroneamente, a um sistema de escravidão, no qual a nossa liberdade seria diminuída, quando não totalmente aniquilada.

É verdade que o salmista levanta os seus olhos ao Senhor “como os olhos dos escravos estão fitos nas mãos do seu senhor, como os olhos das escravas estão fitos nas mãos de sua senhora" [3]. E também é verdade que São Luís Maria Grignion de Montfort propõe, para melhor servir a Deus, o método de escravidão a Nossa Senhora. Porém, isso não significa extinguir a nossa própria vontade. É justamente o contrário! Geralmente, as ilusões que chamamos de “a nossa vontade" não são nada mais que as nossas paixões desordenadas, tentando levar-nos... rumo a lugar nenhum. Aponta o Papa Pio XII que “as faculdades inferiores da natureza humana, em consequência da queda do nosso primeiro pai, resistem à reta razão" [4]. E ainda: “Infelizmente, depois do pecado de Adão, as faculdades e as paixões do corpo, estando alteradas, não só procuram dominar os sentidos mas até o espírito, obscurecendo a razão e enfraquecendo a vontade" [5].

Uma pessoa que, por exemplo, contrai determinado vício – que é, mais que um pecado, a “disposição má da alma (...), causada pela frequente repetição dos atos maus" [6] –, ao olhar para dentro de si, percebe que a prática daquele ato, ao invés de libertá-la – como a tenta enganar o demônio –, só a escraviza mais e mais. Então, no fundo do poço do pecado, ela se vê incapaz de deixar determinada conduta, como um dependente químico que não consegue mais viver sem a droga.

Se a sua consciência, no entanto, parece “relaxada" e ela sequer sente remorso pelos atos que comete, resta lembrar que, mais que simplesmente submeter as paixões à razão, é preciso que elas sejam submetidas à reta razão, isto é, à consciência retamente formada, em conformidade com a lei de Deus. Assim como alguém que bebe veneno inevitavelmente faz mal a si mesmo, uma pessoa que usasse o argumento da consciência para fazer algo objetivamente errado, ainda assim se destruiria. Muito se fala hoje sobre não invadir o território “sagrado" da consciência humana. Está certo, mas o terreno da consciência só é sagrado se bem formado; se já foi vilipendiado, deve, por assim dizer, ser consagrado de novo. Assim como uma imagem sacra, se se quebra, precisa ser novamente abençoada.

Por isso, “a liberdade não consiste em cada um fazer o que bem entende" [7]. Isso significaria verdadeiramente a confusão e destruição da sociedade. Remata o Papa Leão XIII:

“Por sua natureza, pois, (...) a liberdade humana supõe a necessidade de obedecer a uma regra suprema e eterna; e esta regra não é outra senão a autoridade de Deus impondo-nos as suas ordenações ou as suas proibições, autoridade soberanamente justa que, longe de destruir ou de diminuir, de qualquer modo, a liberdade dos homens, a protege e a leva à sua perfeição; porque a verdadeira perfeição de todo o ser é tender e atingir o seu fim: ora, o fim supremo, para o qual deve tender a liberdade humana, é Deus." [8]

“O fim supremo, para o qual deve tender a liberdade humana, é Deus". Louvemos a Ele pelo dom do livre-arbítrio. Como preleciona Santo Agostinho, “embora nem toda criatura possa ser feliz (pois não alcançam nem são capazes de tal graça as feras, as plantas, as pedras e coisas assim), a que pode sê-lo não o pode por si mesma, mas por Aquele que a criou" [9]. É ilusão demoníaca pensar que a obediência a Deus aprisiona o ser humano, quando só nos conformando à Sua vontade seremos plenamente felizes, como diz Nosso Senhor no Evangelho: “Conhecereis a verdade e a verdade vos tornará livres" [10].

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Guardar a fé como um tesouro
Espiritualidade

Guardar a fé como um tesouro

Guardar a fé como um tesouro

A doutrina cristã não pode ser alterada porque é por meio da fé em Jesus Cristo que o homem chega à salvação.

Equipe Christo Nihil Praeponere30 de Julho de 2014Tempo de leitura: 4 minutos
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O dever de guardar e ensinar a doutrina cristã tal qual a recebemos dos apóstolos constitui uma tarefa fundamental para a Igreja, porque é por meio da fé em Jesus Cristo que o homem pode chegar à salvação. Esse ministério, por sua vez, encontra sua justificativa nas próprias palavras do Evangelho: foi Cristo quem primeiro prometeu o repouso para as almas de todos aqueles que tomassem seu jugo e recebessem sua doutrina [1]. É por isso que, desde o princípio de sua missão, a Igreja procurou defender o conteúdo da fé de todo e qualquer possível desvio. A tutela do depositum fidei corresponde àquela parábola do Evangelho que compara o Reino dos Céus a um tesouro [2]. Assim como o homem que o encontra e o mantém escondido, também a Igreja guarda a fé, a fim de que ela chegue aos ouvidos dos fiéis com toda a sua integridade.

Ao longo de sua história, a Igreja foi inúmeras vezes instada a professar “a razão de sua esperança" [3], sobretudo quando se punha em risco a verdade sobre Nosso Senhor Jesus Cristo. Fala-nos mais alto o testemunho de tantos mártires que, postos à prova pelos poderes seculares, preferiram o derramamento do próprio sangue a negar um artigo sequer das disciplinas sagradas: Beato José Sanchez del Río que, negando-se a blasfemar contra Deus, morreu pelas mãos de seus algozes com o grito de “Viva Cristo Rei" nos lábios; Edith Stein, a santa filósofa, morta pelos sequazes de Hitler, como forma de vingança pelas condenações dos bispos holandeses aos crimes do nazismo; São Thomas More, o “maior de todos os ingleses", que, diante do sanguinário Henrique VIII, não hesitou a expor os erros do soberano da Inglaterra – “a Igreja é una e indivisível, e vós não tendes autoridade alguma para fazer uma lei que quebre a unidade cristã" –, antes que sua cabeça rolasse sobre o cepo [4]. De fato, no trabalho apostólico exercido pela Igreja, frequentemente atormentada pelas tentações do mundo, irrompe-se o alerta de São Josemaría Escrivá aos seus filhos espirituais:

Assim também é a Igreja, não toca em nada, em nenhuma coisa essencial, de forma nenhuma; os sacramentos são os mesmos, os mandamentos são os mesmos, o sacrifício do altar é o mesmo.

Essa santa intransigência vista nos santos deve-se à consciência de que a religião católica não é uma invenção humana, manipulável ao sabor das modas, mas uma revelação divina confiada à Igreja. Trata-se de um caminho designado por Deus; Ele é o único autor da fé. Não por menos o Papa João XXIII, ao início do Concílio Vaticano II, declarou que a tarefa mais importante daquele evento era guardar e ensinar o depósito sagrado da doutrina cristã de forma mais eficaz [5]. João XXIII vislumbrava, neste discurso, o apelo de seu predecessor, Pio XII, na Encíclica Summi Pontificatus [6]:

Quem quer que pertença à milícia de Cristo – eclesiástico ou leigo – não deveria acaso sentir-se estimulado e incitado a maior vigilância, a mais decidida defesa, ao ver que as fileiras dos inimigos de Cristo cada vez aumentam mais, ao perceber que os porta-vozes dessas tendências, renegando ou praticamente descurando as verdades vivificadoras e os valores contidos na fé em Deus e em Cristo, partem sacrilegamente as tábuas dos mandamentos de Deus para substituí-las com tábuas e normas que excluem a substância ética da revelação do Sinai, o espírito do Sermão da montanha e da cruz?

Não obstante o aviso dos dois grandes pontífices, não faltou à Igreja quem, em nome de um suposto “espírito do Concílio", ousasse partir as tábuas dos mandamentos de Deus, como condenava Pio XII, para substituí-las por falsos conceitos modernos [7]. Tamanha foi a crise que se desenvolveu entre os fiéis, que o próprio Papa Paulo VI, na missa de quinze anos de seu pontificado, se viu obrigado a admoestar tais teólogos a que deixassem de perturbar a Igreja: “chegou o momento da verdade e é necessário que cada um reconheça as suas responsabilidades perante as decisões que devem concorrer para a salvaguarda da fé" [8]. E ainda hoje esse pedido se faz ressoar. Se a fé se torna um canteiro de obras, onde qualquer um pode retirar ou acrescentar o que lhe aprouver, ela deixa de constituir um caminho de salvação. Torna-se, ao contrário, uma celebração vazia e autorreferencial.

O que distingue o cristianismo das demais religiões é justamente a encarnação do Verbo Divino. Reza o credo Niceno-Constantinopolitano sobre Jesus: “ Deus de Deus, Luz da Luz, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, gerado, não criado, consubstancial ao Pai" [9]. Esse mesmo Verbo Encarnado confiou à sua Igreja a tarefa de ensinar a todos os povos a doutrina imutável de Deus, que conduz o gênero humano à salvação. “Daí ser necessária uma santa astúcia para guardar a fé", conclui o Papa Francisco [10]. Eis, portanto, o que deve fazer todo católico com sua fé: guardá-la como um tesouro.

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Os desejos santos crescem com a demora
Santos & MártiresEspiritualidade

Os desejos santos
crescem com a demora

Os desejos santos crescem com a demora

Como o amor de Santa Maria Madalena deve inspirar-nos à espera paciente por Nosso Senhor.

Equipe Christo Nihil Praeponere22 de Julho de 2014Tempo de leitura: 3 minutos
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A festa [1] de Santa Maria Madalena é ocasião oportuna para recordar a centralidade do amor no coração do Cristianismo. À parte as várias discussões exegéticas e históricas sobre quem foi Maria Madalena e em que trechos essa personagem aparece nas Escrituras, a cena célebre a que se deve recorrer no dia de hoje é, sem dúvida, a passagem em que Nosso Senhor, já ressuscitado, aparece à santa de Magdala, recompensando a sua espera amorosa junto ao Seu túmulo.

Conta o Evangelho que, “no primeiro dia da semana, bem de madrugada, quando ainda estava escuro, Maria Madalena foi ao túmulo e viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo" (Jo 20, 1). Tendo avisado a Pedro e João o acontecido, eles – que “ainda não tinham compreendido a Escritura, segundo a qual ele devia ressuscitar dos mortos" (Jo 20, 9) –, tão somente entraram no sepulcro, “voltaram para casa" (Jo 20, 10).

Tendo partido os Apóstolos, no entanto, não fez o mesmo Maria. O Evangelista diz que ela "tinha ficado perto do túmulo, do lado de fora, chorando" (Jo 20, 11). São Gregório Magno, em comentário a este versículo, sublinha “quão forte era o amor que inflamava o espírito dessa mulher, que não se afastava do túmulo do Senhor, mesmo depois de os discípulos terem ido embora. Procurava a quem não encontrara, chorava enquanto buscava e, abrasada no fogo do seu amor, sentia a ardente saudade daquele que julgava ter sido roubado" [2].

O Papa ensina, a partir dessa atitude de Maria, uma lição valiosa: que só recebem de Nosso Senhor as graças aqueles que as pedem insistentemente e as esperam pacientemente. O amor de Maria, que não se contenta enquanto não contempla a face de Cristo, move-nos a olhar para as demoras de Deus como fonte de salvação e oportunidade para aumentarmos o nosso amor para com Ele.

“Ela começou a procurar e não encontrou nada; continuou a procurar, e conseguiu encontrar. Os desejos foram aumentando com a espera, e fizeram com que chegasse a encontrar. Pois os desejos santos crescem com a demora; mas se diminuem com o adiamento, não são desejos autênticos. (...) Por isso afirmou Davi: 'Minha alma tem sede de Deus, e deseja o Deus vivo. Quando terei a alegria de ver a face de Deus?' (Sl 41, 3)." [3]

São Francisco de Sales, por sua vez, explicando que “quem ama verdadeiramente, quase não tem prazer senão na coisa amada" [4], coloca na boca de Maria Madalena os apelos da esposa do Cântico dos Cânticos: “O meu amado é meu, e eu sou dele" (Ct 2, 16); “Dizei-me, vistes porventura aquele a quem minha alma ama?" (Ct 3, 3). Comentando o mesmo Evangelho, ele destaca que nem o fato de conversar com os anjos pôde consolar o seu coração enamorado: “A gloriosa amante Madalena depara com os anjos no sepulcro, e estes ter-lhe-ão falado em tom angélico, isto é, com suavidade, a fim de apaziguarem o tormento em que se encontrava. Mas ela, chorosa, não encontrou consolo nem nas suas palavras doces, nem no esplendor das suas vestes, nem na graça celeste do seu porte, nem na beleza amável do seu rosto. Pelo contrário, lavada em lágrimas, dizia: 'Levaram o meu Senhor e não sei onde O puseram'." [5]

Mesmo vendo Cristo sob o aspecto de jardineiro, São Francisco de Sales comenta que ela não se pôde contentar. “Cheia da morte do seu Senhor, não deseja flores, pelo que o jardineiro lhe é indiferente; [ela] tem no coração a cruz, os cravos, os espinhos, e procura o seu Crucificado". E o doutor da Igreja empresta a ela estas belas palavras: “Meu caro jardineiro, (...) se por acaso plantastes o meu bem-amado Senhor trespassado, qual lírio amachucado e seco, entre as vossas flores, dizei-me depressa, que eu irei buscá-Lo." [6]

Qual não foi a alegria dessa mulher ao ouvir a voz de Jesus chamando por seu nome! “Ela voltou-se e exclamou, em hebraico: Rabuni! (que quer dizer: Mestre)" (Jo 20, 16).

São Gregório Magno remata: “Era ele quem Maria Madalena procurava exteriormente; entretanto, era ele que a impelia interiormente a procurá-lo" [7]. Se Maria procurava ardentemente o rosto de Deus, era por iniciativa do próprio Jesus que o fazia, o mesmo Jesus que disse: “Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o atrair" (Jo 6, 44). Se também nós, não ignorando os apelos de Cristo, que bate à porta do nosso coração, nos lançarmos à espera amorosa e paciente diante do sacrário, o lugar em que o sacerdote deposita o seu Corpo glorioso, veremos a face do Senhor. Perseveremos, com confiança, pois “quem perseverar até o fim, esse será salvo" (Mt 10, 22).

Referências

  1. Homilia XXV, 1 (PL 76, 1189).
  2. Ibid., 2 (PL 76, 1190).
  3. Tratado do amor de Deus, V, 7.
  4. Idem.
  5. Idem.
  6. Homilia XXV, 5 (PL 76, 1193).

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A natureza sem a graça
Espiritualidade

A natureza sem a graça

A natureza sem a graça

O triste projeto de um povo que, fingindo ignorar que a natureza humana é decaída pelo pecado original, vive como se Deus não existisse.

Equipe Christo Nihil Praeponere22 de Julho de 2014Tempo de leitura: 3 minutos
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Em sua obra para destruir o “organismo misterioso de Cristo", o inimigo tem querido, nas palavras do Papa Pio XII, “a natureza sem a graça" [1].

De fato, antes mesmo da criação do homem, já se havia manifestado a soberba de Satanás, que queria ser igual a Deus por suas próprias forças. É claro que o demônio não procurava ser como Deus “por equiparação", isto é, transmutando-se na natureza divina. Ele “sabia, por conhecimento natural, ser isso impossível", explica Santo Tomás. Porém, ele queria ter “como fim último a semelhança com Deus, que é dom da graça, (...) pela virtude da sua natureza, e não pelo auxílio divino, segundo a disposição de Deus" [2]. Citando Santo Anselmo, resume o Aquinate que o demônio desejou aquilo que obteria se perseverasse.

É o próprio Tomás quem explica em que sentido o desejo de assemelhar-se a Deus é pecaminoso. Porque se é verdade que o diabo caiu por querer ser como Ele, também é verdade que o próprio Senhor ordenou: “Santificai-vos e sede santos, porque eu sou santo" [3]; e repetiu, pela boca do Verbo encarnado: “Sede, portanto, perfeitos, como o vosso Pai celeste é perfeito" [4]. Ora,

“quem neste sentido deseja ser semelhante a Deus não peca, pois, deseja alcançar a semelhança com Deus na ordem devida, a saber, enquanto tem essa semelhança recebida de Deus. Se, porém, desejasse ser semelhante a Deus por justiça, como por virtude própria e não pela virtude de Deus, pecaria." [5]

Foi deste último modo – “por justiça, como por virtude própria" – que o demônio se quis assemelhar a Deus. E para esse mesmo caminho de morte ele seduziu a humanidade: “No dia em que comerdes da árvore, vossos olhos se abrirão, e sereis como Deus" [6]. Eva, atraída pela aparência do fruto e pelas palavras do tentador, “colheu o fruto", arrebatando-o com violência. A humanidade, feita à imagem e semelhança de Deus, acabava por imitar o diabo, tentando dominar, à força, aquilo que se deveria receber como um dom gratuito do Criador.

Aparentemente, até esta parte da história, o projeto do inimigo de edificar “a natureza sem a graça" tinha alcançado grande sucesso.

Mas, “se pelo pecado de um só toda a multidão humana foi ferida de morte, muito mais copiosamente se derramou, sobre a mesma multidão, a graça de Deus, concedida na graça de um só homem, Jesus Cristo" [7]. O Verbo, existindo em condição divina, “não se apegou ao ser igual a Deus". Nesse trecho da Carta aos Filipenses, São Paulo usa a palavra grega “ἁρπαγμὸν" (lê-se: harpagmón), apresentando um contraste com a atitude dos primeiros pais: enquanto Eva se quis apropriar indevidamente da divindade, o próprio Deus se rebaixou à nossa humanidade, “assumindo a forma de escravo", humilhando-se e “fazendo-se obediente até à morte – e morte de cruz!" [8]. Tudo isso para conceder-nos a Sua filiação divina: “Por natureza só há um Filho de Deus, que, por sua bondade, se fez por nós filho do homem, a fim de que, filhos do homem por natureza, por sua mediação nos tornássemos filhos de Deus por graça" [9].

Se, por um lado, é grande a misericórdia de Deus, por outro, é uma constante na história a tentação de abandoná-Lo e “roubar" o tesouro sobrenatural. A heresia pelagiana, ainda nos primeiros séculos da Igreja, colocou inúmeras pessoas no caminho de uma terrível torre de Babel. Corria-se em busca do Céu, mas se buscava alcançá-lo por esforços puramente humanos.

Hoje, tragicamente, o Céu não é a meta de quase ninguém. Um pouco de sucesso profissional, mais um punhado de prazeres passageiros e uma casa confortável na praia, são o medíocre projeto do homem deste século, que desconhece o significado de “graça", “pecado" ou das mais elementares verdades da fé. Realidade triste que, infelizmente, é passada também aos mais jovens. Está praticamente consolidada entre nós uma educação naturalista, permissiva e liberal, pela qual o ser humano não passaria de um “bom selvagem" e quaisquer atos humanos poderiam ser aceitáveis, desde que acomodados ao terreno já vilipendiado da consciência.

“A natureza sem a graça" é o triste projeto de Satanás – e de um povo que, fingindo ignorar que a natureza humana é decaída pelo pecado original, vive como se Deus não existisse.

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