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Por que os nossos corações se inflamam pela Eucaristia?
Igreja Católica

Por que os nossos corações
se inflamam pela Eucaristia?

Por que os nossos corações se inflamam pela Eucaristia?

A Eucaristia é o centro da nossa fé. “Pela conversão do pão e do vinho no Corpo e no Sangue do Senhor”, a Igreja goza da presença de Cristo “com uma intensidade sem par”. Por isso, sempre será um baque para o povo de Deus ficar sem a Missa e os sacramentos.

Constance T. HullTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere14 de Maio de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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Você anseia pela Sagrada Eucaristia? Não está só. Inúmeros membros do Corpo místico em todo o mundo sentem profundamente a separação da presença real de Cristo. Neste ano, a alegria do tempo pascal tem um toque de tristeza por causa dessa separação. Estamos vivendo um dos maiores paradoxos de nossa fé: o fato de a alegria e a tristeza muitas vezes estarem misturadas nesta vida. Apesar desse sofrimento, esperamos que este período em que estamos separados da presença dEle na Sagrada Comunhão seja uma oportunidade de profundo crescimento no amor a Ele e à Igreja.

Antes de tudo, é necessário parar de desrespeitar e condenar as pessoas que sentem falta da celebração pública da Missa e da recepção da Sagrada Comunhão. A ideia de que nossos irmãos e irmãs em Cristo devam “engolir isso” (perdoe-me a expressão da época em que fui militar) porque as pessoas estão morrendo não é apenas uma falta de caridade; também revela a incompreensão de que a impossibilidade de receber Nosso Senhor na Sagrada Comunhão nos deveria causar algum grau de dor e desconforto, não necessariamente emocional, mas ao menos espiritual. 

Não se trata de escolher entre isto ou aquilo. Podemos manifestar nossa tristeza por estarmos impedidos de ir à Missa e, ao mesmo tempo, demonstrar a nossa preocupação com os doentes e moribundos. Discutir sobre essa tristeza também não significa falta de conformidade com a vontade de Deus. É apenas uma maneira de expressar a dificuldade desse período de exílio, mesmo sabendo que devemos suportá-lo e abraçá-lo como um momento de maior aperfeiçoamento no amor. Podemos seguir o exemplo de Nossa Senhora e de São João, que suportaram a agonia e a tristeza da Cruz, mas confiaram no plano supremo de Deus. Ainda assim sofreram muitíssimo, mas não deixaram de abandonar-se na fé.    

A Sagrada Eucaristia é o centro da nossa fé, razão por que sempre será um baque para o povo de Deus não poder participar da celebração pública da Missa e dos sacramentos. Isso não significa que esses períodos de suspensão não tenham sido necessários em algumas ocasiões, mas são sempre uma provação para os membros do Corpo místico. É algo que faz todo sentido, dada a centralidade da Sagrada Eucaristia na vida da Igreja. No início da encíclica Ecclesia de Eucharistia, São João Paulo II afirma o seguinte:

A Igreja vive da Eucaristia. Esta verdade não exprime apenas uma experiência diária de fé, mas contém em síntese o próprio núcleo do mistério da Igreja. É com alegria que ela experimenta, de diversas maneiras, a realização incessante desta promessa: “Eu estarei sempre convosco, até ao fim do mundo” (Mt 28, 20); mas, na Sagrada Eucaristia, pela conversão do pão e do vinho no Corpo e no Sangue do Senhor, goza desta presença com uma intensidade sem par. Desde Pentecostes, quando a Igreja, povo da Nova Aliança, iniciou a sua peregrinação para a pátria celeste, este sacramento divino foi ritmando os seus dias, enchendo-os de consoladora esperança (n. 1).

A celebração da Missa é o encontro mais tangível que podemos ter com Cristo neste lado da eternidade. Por isso a separação causa tanta tristeza. Não obstante, este período de exílio é uma oportunidade para penetrar ainda mais o mistério da Sagrada Eucaristia através da nossa oração; para permitir que Cristo aumente em nós o amor a Ele através do desejo da sua presença real. Para isso, não podemos evitar essa dor, tampouco rejeitá-la com um aceno de mão pragmático. Em vez disso, temos de perguntar a Ele como podemos amar a sua face eucarística com mais ardor e devoção

Isso, de fato, é mais difícil neste momento de separação, mas por meio da oração podemos voltar nosso olhar para Ele na Sagrada Escritura, na oração diante do sacrário, na comunhão espiritual e no estudo da doutrina da Igreja sobre a Sagrada Eucaristia e a Missa.

Com efeito, “na Santíssima Eucaristia, está contido todo o tesouro espiritual da Igreja, isto é, o próprio Cristo, a nossa Páscoa e o pão vivo que dá aos homens a vida mediante a sua carne vivificada e vivificadora pelo Espírito Santo”. Por isso, o olhar da Igreja volta-se continuamente para o seu Senhor, presente no Sacramento do Altar, onde descobre a plena manifestação do seu imenso amor (Id., ibid.).

Por meio do isolamento e da separação podemos unir o nosso olhar ao olhar mais amplo da Igreja. O santo sacrifício da Missa não foi interrompido. A nossa participação pública foi suspensa temporariamente. Por meio da nossa oração, ainda podemos estar espiritualmente presentes na Missa quando os bispos e sacerdotes a celebram “do nascer ao pôr do sol”. É um momento no qual podemos buscar a união com Deus e a Igreja numa dimensão espiritual: algo que corremos o perigo de ignorar quando estamos fisicamente presentes na Missa. 

Pode ser grande a tentação de desviar do olhar dEle o nosso olhar apenas porque a separação causa em nós momentos de tristeza, agonia e lágrimas. Mas devemos perseverar. É possível que experimentemos aridez ou nenhuma resposta emocional durante este período. As nossas emoções não são um sinal confiável para a nossa vida espiritual. Independentemente do que possamos sentir no atual exílio, em união com a Igreja temos de manter o nosso olhar fixo no olhar amoroso de Cristo. Se cairmos, temos de pedir a Ele ajuda para levantarmos e a graça de que precisamos para suportar este período difícil. 

Ao longo desta Páscoa excepcional, somos convidados a penetrar a totalidade do mistério pascal da Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor. Sentimos a presença da cruz de modo mais profundo neste tempo pascal, pois inúmeras pessoas sofrem com a atual pandemia e a preocupante ameaça de instabilidade econômica. A busca por um amor mais profundo à Sagrada Eucaristia nos fará aprofundar ainda mais no mistério pascal, no sofrimento pelo qual o mundo está passando e na comunhão com o Corpo místico.

Do mistério pascal nasce a Igreja. Por isso mesmo a Eucaristia, que é o sacramento por excelência do mistério pascal, está colocada no centro da vida eclesial (Id., n. 3).

Este período de exílio é um momento de tentação, de teste e de purificação por meio do fogo aperfeiçoador do amor de Deus. Procuremos fazer da presença real de Nosso Senhor o centro das nossas vidas a fim de que, com a chegada do feliz dia em que poderemos mais uma vez nos aproximar dEle na Sagrada Comunhão, os nossos corações sejam abrasados com um amor ainda maior a Ele.

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Vivendo como filhos das luz em tempos obscuros
Espiritualidade

Vivendo como
filhos das luz em tempos obscuros

Vivendo como filhos das luz em tempos obscuros

Satanás é poderoso, e o pecado tem uma terrível influência neste mundo. O demônio, porém, não deixa de ser uma criatura. Deus é o Criador. Ele não só pertence a uma diferente ordem do ser, como Ele é o próprio ser.

Pe. Charles FoxTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere14 de Maio de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
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A luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam (Jo 1, 5).

Por isso, enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo (Jo 9, 5).

Comportai-vos como verdadeiras luzes. Ora, o fruto da luz é bondade, justiça e verdade (Ef 5, 8-9).

As metáforas da luz e da escuridão podem ser aplicadas a muitas coisas. Elas evocam habilidades, deficiências, motivações, esperanças e medos primordiais da humanidade. Dizem muito sobre o que as pessoas têm enfrentado durante a crise da COVID-19

Está claro que vivemos um período de obscuridade. As pessoas estão preocupadas com a possibilidade de contrair o vírus, estão ansiosas por causa de sua saúde e da de outras pessoas, sentem-se intimidadas e tristes pelas exigências (sem dúvida legítimas!) de distanciamento social e estão aflitas por causa do colapso econômico e das graves consequências que ele trará consigo.

Há muita escuridão neste momento. Ninguém questiona isso. Antes de dizer algo sobre a presença da luz na situação atual, talvez venham a calhar umas palavras sobre o contraste entre luz e escuridão.

Muitas vezes passo as férias numa residência familiar próxima ao Lago Huron. Uma das muitas coisas que são diferentes naquela região do “Norte”, Michigan, é a radical mudança que ocorre ao cair da noite e, depois, ao nascer do sol. Quando anoitece, as estrelas resplandecem por causa da intensa escuridão; além disso, é possível ver um número muito maior delas do que no lugar onde moro. Então, bem cedo, durante o amanhecer no verão, o sol nasce sobre o Lago Huron e, em seguida, aparentemente se move em direção ao pé da minha cama. Ele fica tão brilhante e quente, que se torna impossível dormir sem fechar as cortinas, coisa que nunca faço. Nunca desejaria perder o amanhecer, por penosas que possam ser algumas manhãs.

O contato com extremos desse tipo ilustra o nítido contraste entre luz e escuridão. E até certo ponto ele nos proporciona uma boa imagem enquanto meditamos sobre a segunda leitura (cf. Ef 5, 8-14) e o Evangelho da Missa do 4.° Domingo do Advento (cf. Jo 9, 1-41), supracitados.

A imagem da “escuridão” muitas vezes é usada para descrever o mal e a pecaminosidade do mundo, enquanto Jesus é descrito como a “luz do mundo”, a “luz que brilha na escuridão”. E sabemos que no Sermão da Montanha Jesus também diz que devemos ser, como Ele, “luz do mundo”.

No entanto, a experiência ordinária da luz e da escuridão intensas difere da mensagem da Sagrada Escritura, pois revela um contraste entre duas forças aparentemente iguais. O bem e o mal ou, mais precisamente, Deus e Satanás, são forças opostas que disputam o domínio sobre o mundo, sim, mas elas não se equivalem uma à outra. Há religiões que creem nesse tipo de dualidade fundamental na ordem das coisas; essa, porém, não é a fé da Igreja Católica.

Somente o poder de Deus é absoluto. Jesus Cristo, o Filho de Deus, é o Senhor e Rei do universo. No Evangelho Jesus diz: “Enquanto estou no mundo, eu sou a luz do mundo” (Jo 9, 5). As palavras “eu sou” podem facilmente passar despercebidas, mas este é um dos muitos casos no Evangelho de João nos quais Jesus usa a mesma expressão utilizada pelo Senhor no Antigo Testamento para identificar-Se: “EU SOU”. 

Satanás é poderoso, e o pecado tem uma terrível influência neste mundo. O demônio, porém, não deixa de ser uma criatura. Deus é o Criador. Ele não só pertence a uma diferente ordem do ser, como é o próprio ser. Jesus veio tirar a escuridão deste mundo — curou o cego, expulsou demônios, ensinou a verdade sobre Deus e nossas vidas, perdoou pecados, morreu e ressuscitou por nós e deu-nos o dom do Espírito Santo. Ele ilumina o mundo com uma luz sobrenatural e acende uma chama divina nos corações dos que lhe são fiéis.

“Satanás diante do Senhor”, de Corrado Giaquinto (séc. XVIII).

Creio ser particularmente importante reafirmar isso hoje, pois as pessoas estão se sentindo isoladas e o mundo parece muito obscuro. Pode ser fácil alimentar a ideia de que funciona no mundo uma espécie de dinâmica “yin e yang”, com a predominância do bem por um tempo, seguida de uma prevalência do mal.

Não é o que ensina a fé católica, e isso significa que Deus revelou que o mundo funciona de forma bem diferente. Este mundo está decaído. A humanidade escolheu o pecado e foi escravizada por ele. Mas Jesus Cristo veio, obteve a vitória definitiva sobre o pecado e a morte e agora convida todos os que creem nEle a compartilharem sua vitória para sempre. 

Por meio dos membros de sua Igreja, Cristo quer convidar o mundo inteiro a tomar parte em sua vitória. Às vezes, os católicos caem na tentação de achar que foram levados ao time vitorioso por possuírem alguma qualidade especial; assim, acabam desprezando outras pessoas e considerando-as perdedoras. Mas até os membros da Igreja se tornam perdedores quando cedem ao orgulho. E eles podem inclusive se ver “cortados” do “time” de Jesus, se não se levantarem do banco e batalharem por sua própria salvação e a de todos os que estão ao seu redor.

Todos passam por períodos — talvez um dia ruim ou algumas semanas, ou mesmo um ano muito difícil — nos quais a bondade parece ficar eclipsada e a luz da vida parece ter quase se apagado. É fácil ficar deprimido com a situação do mundo hoje. É fácil sentir-se oprimido por uma avalanche de problemas na família ou no trabalho, ou pela doença. Quando enxergam com clareza sua propensão para o pecado e em que medida ele obscurece seus corações, os católicos se sentem inclinados a buscar a luz de Cristo na Confissão. Mas às vezes até pessoas de fé só conseguem ver a escuridão ao seu redor e sentem-se impotentes para fazer qualquer coisa em relação a isso. 

O que você deve fazer se estiver nesse “lugar obscuro”? Eis algumas sugestões:

  • Reconheça sua fraqueza! Às vezes, conselhos de autoajuda bem-intencionados focam na exploração de sua capacidade pessoal, mas a verdade é que nós precisamos do poder de Deus. Isso não é desculpa para a preguiça, mas uma simples verdade sobre a vida: Deus está no comando do mundo, e além de pedir a Ele que assuma o controle de nossas vidas, temos de permitir que o faça.  
  • Agradeça pelos “pontos luminosos” em sua vida. Sempre há coisas pelas quais temos de agradecer, mas com muita facilidade podemos ser absorvidos pelo mal e pelos elementos negativos da vida. 
  • Confie a Ele todas as suas preocupações, pois Ele tem cuidado de você (cf. 1Pd 5, 7). O Senhor é nosso Pastor, como rezamos no Salmo 23. Quando somos tentados a duvidar da presença de Deus e do cuidado que Ele tem por nós e pelas pessoas que amamos, devemos fazer o firme propósito de confiar nEle e pedir-lhe o dom de uma fé ainda mais profunda.  
  • Saiba que Deus o chama e quer fortalecê-lo! Depois de admitir que, sozinhos, somos impotentes, nós nos esvaziamos, mas não para que permaneçamos vazios, senão para que Deus nos preencha com sua vida e poder. Ele dá a cada um de nós uma missão a fim de espalharmos pelo mundo sua cura, paz, verdade e bondade. Todos nós compartilhamos a missão de nos aproximar de Deus e levar outras pessoas a Ele, e Ele a outras pessoas. Se não compreendemos o chamado que Deus nos faz, devemos rezar nessa intenção e pedir essa graça. Também podemos pedir que alguém de nossa confiança nos ajude a descobrir nossas missões específicas. Trabalhar juntos funciona — o cristianismo é um “esporte de equipe”!

Essas são apenas algumas das coisas que podemos fazer para pôr em prática o que São Paulo nos ensina ao dizer: “Comportai-vos como verdadeiras luzes” (Ef 5, 8). O sinal mais seguro de que não estamos sozinhos, e a garantia da luz e do poder de Deus que nos preenchem, está na celebração da Eucaristia. Aquilo que tem aparência de pão e vinho é verdadeiramente a luz e o amor, o Corpo e Sangue do Filho de Deus, dados por nós como bebida e comida.

É verdade que a grande maioria de nós não pode participar da Missa ou receber a Eucaristia nestes dias difíceis. Mas a luz de Cristo ainda está presente nas Missas celebradas pelos sacerdotes em diversos lugares do mundo, nos tabernáculos de todas as nossas igrejas e em cada um de nós, quando oferecemos as nossas vidas ao Pai celestial em união com Jesus e pedimos o dom da comunhão espiritual. Sejamos sempre agradecidos porque Jesus é nosso Pastor e Rei, e porque “de tal modo o Pai amou o mundo, que lhe deu seu Filho único” (Jo 3, 16).

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Fátima, Baal, o monte Carmelo e o escapulário marrom
Virgem Maria

Fátima, Baal,
o monte Carmelo e o escapulário marrom

Fátima, Baal, o monte Carmelo e o escapulário marrom

O Rosário não foi o único instrumento que Nossa Senhora recomendou aos três pastorinhos de Fátima. Ao se despedir deles, em 13 de outubro de 1917, ela também apareceu como Virgem do Carmo, trazendo em sua mão direita o escapulário marrom.

Brian KranickTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Maio de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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No dia 13 de outubro de 1917, a Virgem Maria apareceu em Fátima e disse: “Eu sou a Senhora do Rosário”, e instruiu as crianças videntes mais uma vez a “rezarem o Rosário todos os dias”. Além da devoção dos cinco primeiros sábados, essa é uma das grandes mensagens de Fátima. Há, porém, uma devoção associada com Fátima que parece ser menos conhecida: a do escapulário marrom.

Nessa última aparição, Lúcia viu Maria e Nosso Senhor ao longo de todos os mistérios do Rosário: ela primeiro os viu como parte dos mistérios gozosos; depois, dos dolorosos; e, finalmente, dos gloriosos. Especificamente na última visão destes, Maria foi vista como Rainha do Céu e da terra sob a forma de Nossa Senhora do Carmo, com o escapulário marrom na mão direita. De acordo com o padre carmelita Howard Rafferty, numa entrevista de 15 de agosto de 1950, a Irmã Lúcia afirmaria mais tarde o seguinte: “O Rosário e o escapulário marrom são inseparáveis. Não é possível ter um sem o outro”. O escapulário é parte integrante da mensagem original. Assim como a Virgem Maria pede a cada um de nós que reze o Rosário todos os dias, ela também quer, de acordo com a Irmã Lúcia, que usemos o escapulário marrom. É por isso que apareceu com ele em mãos, como se estivesse nos pedindo que o tomássemos e vestíssemos.

O que é o escapulário marrom? Até pouco tempo atrás, eu (talvez como você) sabia relativamente pouco a respeito. Ele se inspira no hábito dos monges carmelitas, dois panos de lã marrom usados sobre os ombros para cobrir a parte da frente e as costas. O escapulário marrom é uma miniatura desse traje. É um sacramental da Igreja. “Escapulário” deriva de “escápula”, osso das costas localizado na parte de trás do tórax que é coberta pela vestimenta. Os monges carmelitas usam a peça marrom como uma espécie de manta, ideia surgida entre eles por volta dos séculos XIII e XIV no monte Carmelo, em Israel. Segundo a tradição, Maria deu o escapulário marrom pela primeira a vez a São Simão Stock.

Os carmelitas foram a primeira Ordem consagrada à Virgem Maria. Por isso, ocupam um lugar especial no Coração dela. Moldam sua vida pela vida de Nossa Senhora, e assim com ela “conservava todas essas palavras, meditando-as no seu coração” (Lc 2, 19), também os carmelitas contemplam as coisas celestes e se consagram à Virgem Maria. Portanto, o manto carmelita é sinônimo de consagração ao Imaculado Coração. O escapulário marrom é a versão em miniatura dessa veste carmelita para o mundo secular. A veste grande marrom que cobre o corpo no mundo ascético se reduz, no mundo leigo, a dois pedacinhos de tecido presos por cordões. Trata-se da mesma espiritualidade carmelita e devoção mariana, ampliada para o leigo comum que vive no rebuliço da vida ordinária.

A ideia do manto carmelita remonta ao manto de Elias no Antigo Testamento. O profeta Elias desafiou os falsos profetas de Baal no monte Carmelo. Baal era o deus demoníaco dos cananeus, cuja religião exigia adoração idolátrica, cultos orgiásticos com prostitutas no templo e até oferendas com sacrifícios de crianças. A religião dos cananeus, em outras palavras, era uma mistura depravada de idolatria, imoralidade sexual e sacrifícios humanos. No monte Carmelo, Elias desafiou 450 sacerdotes de Baal a comprovar qual “deus” consumiria com fogo uma oferenda, numa espécie de disputa litúrgica. Baal, é claro, não respondeu, e os falsos profetas emudeceram. Elias, por outro lado, invocou o Deus de Abraão, Isaac e Jacó, e uma chama vinda do céu consumiu a oferenda. Elias, graças a Javé, derrotou Baal e os falsos profetas. Esse é o legado do monte Carmelo. 

Mais tarde, Elias dividiu o rio Jordão ao tocar as águas com seu manto (cf. 2Rs 2, 8), reencenando a divisão das águas do Jordão por Josué e do mar Vermelho por Moisés. Trata-se de uma prefiguração do Batismo. Naquele momento, Elias foi levado ao Céu — ligando a noção de Batismo ao Céu. Portanto, a veste marrom, que é o hábito dos monges carmelitas, é por extensão uma reminiscência do manto de Elias no monte Carmelo.

Nos tempos modernos, combatemos o mesmo tipo de falsos profetas de Baal que Elias combateu há muito tempo no monte Carmelo. A influência mundana do modernismo tenta nos impor várias formas de idolatria, particularmente o dinheiro, o poder, o materialismo e o politicamente correto radical. A imoralidade sexual também é desenfreada em nossa sociedade. Até o sacrifício de bebês tornou-se “direito comum”, com o aborto quase irrestrito sob demanda. Baal e seu culto estão bem vivos na civilização ocidental

Mesmo assim, como na época bíblica no monte Carmelo, Deus vem derrotar Baal novamente. Sob a Nova Aliança do Evangelho, Deus esmaga a cabeça de Baal por meio da Virgem Maria. À luz disso, Nossa Senhora do Carmo pede que abracemos essa devoção e consagração especiais ao seu Imaculado Coração por meio do uso do escapulário marrom.  

Conhecemos as condições essenciais da promessa de Fátima: récita diária do Rosário, confissão e comunhão frequentes, sacrifícios espirituais e a devoção de reparação ao Imaculado Coração de Maria nos cinco primeiros sábados. No entanto, Maria também apareceu em Fátima como Nossa Senhora do Carmo, oferecendo-nos o escapulário marrom. Por meio de uma simples cerimônia de imposição feita por um sacerdote ou um diácono, podemos consagrar o nosso escapulário marrom e procurar viver essa consagração todos os dias. Ele deve ser muito importante, já que Maria fez questão de apresentá-lo ao mundo outra vez de um modo tão objetivo e dramático como em Fátima.

Aqui há também um vínculo com Nossa Senhora de Lourdes, já que a última aparição a Santa Bernadette ocorreu na festa de Nossa Senhora do Carmo, dia 16 de julho. É muito fácil usar o escapulário marrom, e é algo que requer pouco esforço. No entanto, o seu uso é uma forte afirmação e um sinal tangível da nossa consagração ao Imaculado Coração de Maria. É uma insígnia de nosso desejo de viver uma vida santa todos os dias sob o manto de sua guia e proteção.

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A história dos santos mártires de Wuhan
Santos & Mártires

A história dos santos mártires de Wuhan

A história dos santos mártires de Wuhan

Agora todos conhecem essa cidade chinesa… Mas poucos sabem que, cerca de 200 anos atrás, dois missionários morreram nesse mesmíssimo lugar, vítimas de estrangulamento, deixando uma mensagem de esperança a todos que sofrem com a atual pandemia.

Anthony E. ClarkTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere11 de Maio de 2020Tempo de leitura: 13 minutos
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Às vezes a Providência nos conduz por caminhos inesperados. Há algum tempo, quando fui a Wuhan, na China, para realizar uma pesquisa sobre os santos mártires da região, eu tinha certeza de que quase nenhuma pessoa da minha terra natal, os EUA, tinha ouvido falar desse lugar. Também pensei que jamais viriam a saber da existência dele. Eu estava errado. Hoje, “Wuhan” faz parte do vocabulário habitual de quase todos os habitantes da terra.

Quero apresentar hoje alguns comentários sobre dois missionários católicos — ambos vicentinos, isto é, membros da congregação de sacerdotes fundada por São Vicente de Paulo (1581–1660) — que foram martirizados num distrito de Wuhan: São Francisco Regis Clet (1748–1820) e São João Gabriel Perboyre (1802–1840). Todos estamos muito apreensivos com a expansão do coronavírus pelo planeta, e a forma como esses dois mártires católicos sofreram e morreram parecerá bastante familiar àqueles que sabem como a COVID-19 aflige os contagiados. Santos Clet e Perboyre viveram com medo por causa do caos e da turbulência que os cercava; eles foram isolados e morreram estrangulados. Estão entre os poucos santos católicos que morreram por não poderem respirar.

Esses santos da China foram canonizados não apenas por causa do modo como sofreram e morreram, mas também por seu testemunho heroico de fé e caridade. A famosa religiosa carmelita Santa Teresa de Lisieux (1873–1897) ficou tão impressionada com os dois mártires de Wuhan, que guardava em seu devocionário um santinho de São Perboyre. Minhas notas estão organizadas em quatro breves seções: primeiro, darei alguns detalhes sobre a vida de São Clet e São Perboyre; segundo, descreverei o medo que experimentaram antes da morte; terceiro, falarei sobre seu isolamento; e, quarto, falarei sobre a santidade e a coragem que demonstraram durante seu sofrimento final e morte em Wuhan.

Nós, católicos, sabemos que só depois da morte é que as pessoas se tornam santas; antes disso, elas estão simplesmente a caminho. Ainda assim, como diz Nosso Senhor, a luz não pode esconder-se debaixo do alqueire (cf. Mt 5, 15), de modo que, ainda em vida, são notáveis os sinais de perfeição que acompanham os verdadeiros discípulos de Cristo.

Com Clet e Perboyre não foi diferente. 

Santa Teresinha do Menino Jesus trazia em seu devocionário este santinho de São Perboyre.

Francisco Regis Clet foi o décimo filho de uma família de quinze, e com vinte e um anos entrou para os vicentinos, admirado com o amor de São Vicente de Paulo pelos pobres e aflitos. Ele estava em Paris quando teve início a violenta perseguição aos católicos durante a Revolução Francesa (1789–1799), e quando os sacerdotes começaram a ser expulsos do país ele se prontificou a ir para a China, onde certamente enfrentaria o mesmo tipo de perseguição.

Francisco Regis Clet sabia que a vida humana vem de Deus e existe para servir a Ele. Por isso, estava determinado a sair de um lugar que parecia estar se afastando de Deus a fim de servir aos pobres num lugar onde Deus ainda não era conhecido. Antes de embarcar para a China, o despretensioso filho de São Vicente escreveu uma carta à irmã Maria Teresa: “Quis a divina Providência que eu saísse daqui para trabalhar pela salvação das almas [na China]”. Ele começou a vida como missionário na China em 1789, e três décadas depois foi amarrado a um poste de madeira em Wuhan; enrolaram-lhe uma corda no pescoço, asfixiando-o até a morte.

Como seu confrade, João Gabriel Perboyre nasceu no seio de uma família numerosa francesa. Ele e mais quatro irmãos se tornaram vicentinos pelo desejo de servir ao próximo como Jesus havia feito, e de seguir os passos de São Vicente. João Gabriel entrou para os vicentinos com apenas dezesseis anos. Ainda seminarista, tornou-se conhecido por sua devoção intensa a Jesus Sacramentado, pois passava várias horas diante do tabernáculo, ajoelhado e rezando em ação de graças após receber a Comunhão. É fácil imaginar a angústia que sentia ao ser impedido de celebrar a Santa Missa nas diversas prisões chinesas em que ficou detido.

Luís, irmão de João Gabriel, também foi vicentino e foi enviado à China antes dele. Os dois irmãos — de sangue e religião — eram muito próximos um do outro. Foi, portanto, um golpe doloroso para João Gabriel receber a notícia de que Luís falecera por causa de uma doença quando estava a caminho da China. Em seu leito de morte, o Pe. Luís Perboyre, CM († 1831), escreveu o seguinte, em carta dirigida ao irmão João Gabriel: “Morrerei antes de completar o meu objetivo. Espero que o meu irmão sacerdote possa assumir o meu lugar”. João Gabriel de fato o assumiu. Ele deixou a França cinco anos após a morte de Luís, e em 1835 deu os seus primeiros passos como missionário em território chinês. Foi breve o período que Perboyre passou na China. Apenas cinco anos depois de sua chegada, assim como Clet, ele foi atado a um poste e estrangulado.

Sófocles, o antigo tragediógrafo grego (497 a.C.), escreveu o seguinte sobre o medo: “Para aquele que sente medo, tudo ao seu redor parece crepitar”. Em épocas terríveis, uma pessoa pode facilmente sentir medo daquilo que não perceberia em períodos normais. Quando Clet e Perboyre serviram como missionários na China, o império estava mergulhado em turbulências. Quando Clet viveu na China, ocorreu uma revolta liderada por uma seita milenarista chamada “Ordem da Lótus Branca”, e as autoridades locais pensaram que os cristãos faziam parte do grupo. O resultado foi terrível tanto para os missionários como para os fiéis chineses; os cristãos eram odiados e atacados por membros da seita e pelo governo.

Túmulos onde primeiro foram enterrados os corpos dos santos mártires de Wuhan, antes de seu translado a Paris.

Francisco Regis Clet escreveu o seguinte numa carta: “Eles destroem tudo o que está em seu caminho, queimam casas e levam tudo o que podem carregar; em seguida, matam todos os que não podem escapar a tempo”. Perboyre passou por uma turbulência interna e outra externa — nem todos os santos enfrentam o medo com um sentimento de paz e resignação. Quando o panorama se tornou mais violento e aterrador, João Gabriel — de acordo com uma fonte — “experimentou uma intensa angústia na alma” e “foi atormentado por uma violenta tentação de ceder ao desespero”. Foi a reflexão sobre a descrença do apóstolo São Tomé que tirou a dúvida e o medo de Perboyre: “Introduz aqui o teu dedo, e vê as minhas mãos. Põe a tua mão no meu lado. Não sejas incrédulo, mas homem de fé” (Jo 20, 27). Mais do que o medo, porém, o que atormentou sobremaneira Clet e Perboyre, antes de eles serem finalmente executados no distrito de Wuchang, em Wuhan, foi a solidão provocada pelo isolamento.

Uma intriga anticristã ocorrida em 1818 obrigou Francisco Regis Clet a se esconder. No dia 25 de maio, o palácio imperial em Pequim foi subitamente coberto por “fortes ventos e chuvas torrenciais, enquanto o céu se avermelhava e se ouviam estrondos de trovões na cidade”. Os conselheiros do imperador sugeriram que o estranho evento fora causado pela interferência espiritual dos missionários cristãos. Assim, a polícia foi enviada para prender o Pe. Clet. Obrigado a permanecer isolado, Clet se escondeu em pequenas cavernas e lugares remotos nos bosques, vindo a encontrar refúgio no lar de uma família católica, onde se isolou por seis meses.

A localização de Clet foi finalmente revelada por um apóstata. Entregue a um tribunal local, Clet foi obrigado a ajoelhar-se sobre correntes enquanto lhe golpeavam o rosto com uma cinta de couro, por ele ter-se negado a denunciar a sua fé cristã. De acordo com uma testemunha, mais tarde, uma vez transferido para a prisão de Wuhan, “as roupas dele estavam manchadas com sangue dos cortes e feridas provocados pelos golpes […] que ele suportou em sua jornada até lá”. Condenado à morte por asfixia lenta em 17 de fevereiro de 1820, Clet foi levado ao campo de execução, onde “suportou com tranquilidade o estrangulamento (uma corda foi enrolada em seu pescoço em três etapas)”. Seus restos mortais, coletados com afeição por católicos chineses devotos, foram enviados a Paris, onde se encontram ainda hoje, na casa geral dos vicentinos.

Alguns dizem que a morte e o sofrimento de Perboyre foram ainda mais cruéis. Surgiu em 1839 um movimento anticristão que obrigou João Gabriel a viver em isolamento, e durante esse período ele foi protegido por cristãos chineses que lhe deram abrigo, mesmo pondo suas próprias vidas em risco. Em 16 de setembro de 1839, depois de celebrar a Santa Missa, um cristão local informou o Pe. Perboyre de que dois oficiais e uma grande tropa se aproximavam rapidamente da igreja. Perboyre se negou a fugir do perigo antes de consumir o Santíssimo Sacramento e reuniu os vasos sagrados para protegê-los da profanação. Ele fugiu apenas alguns momentos antes de a igreja ser sitiada e sobreviveu escondendo-se em florestas e cômodos ocultos em lares de cristãos chineses.

Finalmente, foi descoberto e capturado por patrulheiros, que o levaram aos tribunais arrastado pelo cabelo, a fim de ser interrogado. Foi torturado, forçado a se ajoelhar sobre correntes e pendurado em vigas pelos polegares, antes de ser levado para Wuhan junto com muitos outros cristãos chineses que se negaram a abandonar o seu pastor. Em sua cela, João Gabriel Perboyre foi acorrentado à parede — as correntes estavam tão apertadas, que ele perdeu parte de um dos pés e uma das mãos

Um dos cristãos que acompanharam Perboyre, batizado com o nome de Estanislau, foi torturado junto com ele. Estanislau foi levado a um monte de estrume, onde recebeu a ordem de pisar num crucifixo e a negar a sua fé cristã — e foi condenado à morte por ter-se recusado a obedecer. O Pe. Perboyre escutou a última confissão de Estanislau antes que ele rastejasse até a sua execução, pois os seus membros inferiores foram tão surrados, que ele não conseguia caminhar de pé. O que Perboyre sofreu foi tão cruel quanto o que haviam sofrido seus amigos próximos. Forçado a se ajoelhar sobre vidro estilhaçado, o sacerdote teve o rosto marcado com a acusação: “Professor de falsa religião”. Ele foi obrigado a vestir os seus paramentos enquanto desfilava e era humilhado.   

Por fim, em 11 de setembro de 1840, João Gabriel Perboyre, carregando uma placa que anunciava sua sentença, foi levado da sua cela até o local da execução. É difícil ler o registro dos vicentinos sobre esses momentos finais, mas contarei aqui a parte que descreve a forma como ele foi executado em Wuchang, distrito de Wuhan:

Em seguida, o carrasco pôs-lhe uma corda em volta do pescoço e inseriu um pedaço de bambu no laço. Com um forte giro, apertou a corda em torno do pescoço do condenado; logo depois, afrouxou a corda para dar ao pobre sofredor um momento de fôlego. Então, apertou a corda uma segunda vez e a soltou de novo. Somente na terceira vez ele deixou a corda apertada até a morte da vítima.

Por coincidência, consta nos registros oficiais da execução que Perboyre morreu na tarde de uma sexta-feira às 15h, dia e horário em que, segundo a tradição, Cristo deu seu último suspiro na cruz. Para conseguir a corda e as roupas de Perboyre depois do estrangulamento, os cristãos da região subornaram as autoridades. O corpo dele foi cuidadosamente enterrado ao lado do túmulo de Francisco Regis num lugar chamado Montanha Hong, próximo a Wuhan. Guardo alguns fragmentos das roupas de Clet e Perboyre em meu escritório, perto de minha mesa de trabalho. Uma das coisas que mais comoveram as testemunhas dos interrogatórios de Perboyre foi o fato de ele simplesmente ter beijado o crucifixo (como se estivesse recebendo os últimos sacramentos da Igreja), após o magistrado ter ordenado que o santo o pisasse

Gosto muito da forma como G. K. Chesterton (1874-1936) descreve a coragem cristã. Escreve ele: “A coragem é praticamente uma contradição em termos. É um forte desejo de viver que assume a forma de uma disposição para morrer”. Clet e Perboyre tinham a esperança de viver para dar continuidade ao seu serviço à Igreja na China, mas estavam preparados para a morte, caso a Providência os chamasse.

Concluirei com alguns comentários sobre o que aconteceu com a comunidade católica nas últimas décadas, relacionando isso aos exemplos históricos de São Clet e São Perboyre. Quando viajei para Wuhan, tinha dois objetivos principais: descobrir como os cristãos daquela região ainda enxergam os mártires vicentinos e encontrar o exato local em que foram executados por estrangulamento. Naturalmente, os vicentinos foram muito úteis. Deram-me acesso privilegiado aos seus arquivos e financiaram minha viagem à China.

Retrato do martírio de São João Gabriel Perboyre.

Descobri algo surpreendente: os católicos da região ainda recordam e celebram o exemplo de Clet e Perboyre. Na verdade, seminaristas que agora se preparam para o sacerdócio no seminário de Wuhan cuidam com muito carinho das duas lápides que outrora adornavam os túmulos de Clet e Perboyre; os monumentos de pedra costumam ser enfeitados com flores frescas e se veem seminaristas pedindo diante deles a intercessão dos santos. As lápides foram transferidas para a casa de um católico da região, onde ficaram escondidas durante os anos nefastos da Revolução Cultural (1966–1976). O bispo de Wuhan, Bernardino Dong Guangqing, OFM (1917–2007), fez uma pesquisa sobre as lápides depois do fim da Revolução Cultural e as levou de volta ao seminário Huayuanshan. Com a ajuda do reitor da catedral de Wuhan, eu também pude encontrar a localização exata dos martírios dos dois vicentinos, que ocorrem em 1820 e 1840.

Nos últimos meses, o seminário, as igrejas e os locais sagrados de Wuhan se tornaram lugares de oração fervorosa, pois muitos membros da comunidade cristã sofreram e morreram por causa da COVID-19. Muitos provaram do mesmo sofrimento que afligiu São Clet e São Perboyre, pois também tiveram dificuldades para respirar. A garantia de que os santos mártires de Wuhan esperam por eles no céu tem servido de consolo para os católicos chineses da região. Talvez alguns dos falecidos estejam agora respirando livremente com eles na luz da visão beatífica, onde não se conhece mais doença.

Tudo o que disse aqui sobre São Clet e São Perboyre pode parecer-se com o que os acadêmicos qualificam de “hagiografia piedosa”, mas apenas transmiti relatos que se podem encontrar nos arquivos da Igreja e em documentos oficiais imperiais, disponíveis nos arquivos do Estado. A palavra mártir significa “testemunha”, e sem dúvida eles deram testemunho não apenas da convicção de sua fé e amor a Deus, mas também do que podem ser o sofrimento e a dor para os cristãos quando compreendem o que está à espera dos que sofrem e morrem unidos a Deus. Clet e Perboyre foram mártires, e não pode haver martírio sem sofrimento ou morte. Tomás de Kempis (1380–1471), o famoso autor da Imitação de Cristo, disse: “Aquele que sabe sofrer terá mais tarde muita paz; essa pessoa é […] amiga de Cristo e herdeira do céu”.

Terminarei com as palavras de São Perboyre que estavam escritas no já mencionado santinho que Santa Teresinha guardava com a imagem dele; elas apresentam o conselho de Perboyre sobre como cada um de nós deveria enfrentar o sofrimento e a morte: “Puisque Dieu a voulu mourir pour nous, nous ne devons pas craindre de mourir pour LuiAssim como Deus quis morrer por nós, jamais deveríamos ter medo de morrer por Ele”.

São Francisco Regis Clet e São João Gabriel Perboyre, rogai por nós!

Notas

  • Esse relato dos santos mártires católicos que morreram no distrito de Wuchang, em Wuhan (China), foi apresentado no dia 19 de abril de 2020, Domingo da Divina Misericórdia, após Missa celebrada por D. Thomas Daly na catedral de Nossa Senhora de Lourdes, em Spokane (EUA). As fontes usadas para a conferência vêm, em grande parte, de materiais consultados pelo autor para a publicação de seu livro China’s Saints: Catholic Martyrdom during the Qing [1644-1911] (sem tradução no Brasil), dentre os quais os mais valiosos são os que se encontram hoje no arquivo principal da Congregação da Missão, em Paris. Na ocasião, o autor foi gentilmente auxiliado pelo Pe. Claude Lautissier, CM, arquivista da casa geral dos vicentinos. A matéria original, em inglês, foi levemente adaptada para esta publicação em português.

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