Padre Paulo Ricardo
CNP
Christo Nihil Præponere"A nada dar mais valor do que a Cristo"
Todos os direitos reservados a padrepauloricardo.org®
“Machos grávidos”: ciência ruim a serviço de uma ideologia
Fé e Razão

“Machos grávidos”:
ciência ruim a serviço de uma ideologia

“Machos grávidos”: ciência ruim a serviço de uma ideologia

Conheça neste texto a bizarra experiência chinesa envolvendo “ratos machos grávidos”, saiba o que está por trás dela e descubra por que pesquisas deste gênero não só são abusivas, como estão aquém da dignidade humana.

Arina GrossuTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere25 de Agosto de 2021Tempo de leitura: 6 minutos
imprimir

Cientistas chineses da Universidade Naval de Xangai publicaram recentemente uma pesquisa alarmante cujo objetivo é manipular ratos machos com úteros transplantados para que possam levar uma gestação a termo.

Essa pesquisa com características frankensteinianas foi realizada pelos cientistas Zhang Rongjia e Liu Yuhuan, que admitiram que o índice de sucesso foi “muito baixo”. Os cientistas afirmaram que este é o primeiro relato de uma “gravidez” bem-sucedida num mamífero macho.

O experimento foi feito da seguinte maneira: dois ratos, um macho e uma fêmea, foram costurados um no outro, depois de serem realizados cortes em seus respectivos troncos para que pudessem compartilhar sangue. Em seguida, o útero de outra fêmea foi transplantado para o macho, e embriões foram transferidos para os dois úteros. Em seguida, os hormônios da gravidez da fêmea foram inseridos na circulação sanguínea compartilhada pelos dois animais. Assim, os dois embriões permaneceriam vivos no macho e na fêmea costurados.    

Os cientistas afirmaram que o experimento pode ter um “impacto profundo na biologia reprodutiva”. Essa pesquisa tem implicações abrangentes na marcha científica que tenta apagar as diferenças biológicas sexuais

Na natureza, a gravidez masculina é um fenômeno extremamente raro que ocorre apenas nas Syngnathidae, uma família de peixes que inclui os cavalos-marinhos, os peixes-agulha e os dragões-do-mar. Nos mamíferos, apenas as fêmeas podem engravidar e gestar filhos. Como os ratos são mamíferos que compartilham com os humanos 90% dos genes (segundo o sequenciamento genético feito em 2004), são as cobaias mais adequadas para todos os tipos de experimentos científicos realizados com a esperança de compreender como os seres humanos podem responder em circunstâncias semelhantes.

Como os cientistas conduziram a pesquisa? Como a ciência ainda não consegue replicar artificialmente a complexa resposta hormonal de uma fêmea ao longo da gestação, foi necessário costurar os dois ratos. O resultado é a parabiose: a união de dois organismos vivos para que compartilhem um único sistema fisiológico. Foram usados para o estudo ratos de linhagem Lewis consanguíneos, a fim de aumentar a probabilidade de seus sistemas imunológicos não rejeitarem o sangue compartilhado.

Em seguida, o útero de outra fêmea foi transplantado para um macho e embriões foram transferidos para os dois úteros. Ao forçarem a fêmea a engravidar, os hormônios dela entraram em atividade, e como ela compartilhava um sistema fisiológico com o macho costurado a ela, seu sangue circulava nela e no corpo do macho, sendo capaz de suprir os hormônios da gravidez dos dois embriões nos úteros separados. O rato macho também foi castrado, para que seus níveis de testosterona não afetassem os hormônios da gravidez

Os embriões foram gestados até o término do período (que nos ratos é de 21 dias), e então se realizou uma cesariana para removê-los.

Os cientistas usaram 46 pares de machos e fêmeas costurados uns aos outros. Transferiram 562 embriões para as fêmeas, e 280 embriões para os machos com úteros transplantados. E quanto aos resultados? Nos úteros das fêmeas, 169 embriões se desenvolveram normalmente (30%), ao passo que, nos úteros transplantados para os machos, apenas 27 embriões se desenvolveram normalmente (9,6%). Dos 280 embriões originais implantados, apenas 10 filhotes sobreviveram nos machos — uma taxa de sobrevivência de 3,6%. Nos 3,6% que sobreviveram, os cientistas afirmaram que, segundo os exames, “o coração, os pulmões, o fígado, os rins, o cérebro, os testículos, os epidídimos, os ovários e o útero não tiveram nenhuma anormalidade evidente”. 

No entanto, entre aqueles que não sobreviveram, descobriu-se a presença de fetos anormais mortos apenas nos machos com úteros transplantados, com anormalidades que não ocorreram nos úteros das fêmeas originais. Estas foram algumas das anormalidades: morfologia e cores diferentes em comparação com os fetos normais, e placentas atrofiadas ou inchadas.

Essencialmente, para esse experimento, o que eles fizeram foi manter a “carapaça” de um rato macho, castrá-lo, transplantar um útero feminino e bombear em seu sangue hormônios gestacionais de uma fêmea. Além disso, quando tentaram transferir embriões apenas para o útero transplantado do macho, sem os transferir também para a fêmea, nenhum deles sobreviveu, por não haver o benefício dos hormônios gestacionais da fêmea. Posteriormente, quando se realizaram as cirurgias de separação nos ratos costurados, constatou-se que os hormônios femininos da gestação caíram nos machos. 

Os cientistas disseram: “Portanto, inferimos que os embriões transplantados só podem se desenvolver normalmente nos úteros implantados de machos parabiontes quando as fêmeas parabiontes concebem e permitem que os machos parabiontes sejam expostos ao sangue das fêmeas grávidas.” Isso deveria ser óbvio: se estiver separada do sangue da fêmea grávida, a produção hormonal de um macho não consegue manter uma gestação por conta própria, pois é o sangue da fêmea que carrega os hormônios necessários à sobrevivência do embrião.   

O Catecismo da Igreja Católica nos recorda que “as experiências médicas e científicas em animais são práticas moralmente admissíveis desde que não ultrapassem os limites do razoável e contribuam para curar ou poupar vidas humanas” (§ 2417). Diz, além disso, que “é contrário à dignidade humana fazer sofrer inutilmente os animais e dispor indiscriminadamente das suas vidas” (§ 2418).

O transplante de úteros para machos não contribui nem para o cuidado com a vida humana, nem para a salvação dela.

Seria, na verdade, gravemente imoral realizar um experimento parecido com esse em seres humanos, pois equivaleria a tratar homens e mulheres como partes sobressalentes do corpo humano, atacar a sacralidade dos sistemas reprodutivos como planejados por Deus, além de levar à criação antiética e à terrível destruição de embriões humanos. É uma prática que não contribui para o cuidado nem para a salvação de vidas humanas.

Esse tipo de experimento também é desnecessário e não está dentro de limites razoáveis. É um abuso dos animais e da ciência, e está aquém de nossa dignidade humana. Até a consultora para políticas científicas sênior do grupo People for Ethical Treatment of Animals (“Pessoas em Defesa do Tratamento Ético dos Animais” — PETA, na sigla em inglês), Emily McIvor, se referiu a esses experimentos como “vis” e chamou-os de Frankenscience [N.T.: em alusão à obra Frankenstein, de Mary Shelley]. Ela disse ao Mail Online: “Esses experimentos alarmantes são conduzidos apenas por curiosidade, e não contribuem em nada para aprofundar o nosso conhecimento sobre o sistema reprodutivo humano”.

O experimento foi financiado pela National Natural Science Foundation of China (“Fundação Nacional de Ciência Natural da China”), uma instituição estatal chinesa. Os cientistas alegam que ele foi realizado “de acordo com as diretrizes éticas locais”, mas isso não deveria impressionar ninguém, já que o Partido Comunista Chinês (PCC) trata os seres humanos de forma desumana. O PCC é responsável por abusos de direitos humanos tais como o terrível tratamento dado aos uigures e os abortos forçados para favorecer o cumprimento de suas políticas de natalidade opressoras. E estão ainda menos interessados no tratamento ético dado às suas cobaias animais.

Quando cientistas que não possuem nenhum tipo de limite manipulam animais machos para fazê-los reproduzir-se como se fossem fêmeas, eles tentam driblar a natureza para promover uma agenda. Machos e fêmeas são criados com diferenças biológicas — uma realidade que esses cientistas e outras pessoas estão tentando apagar. Nossos sistemas reprodutivos masculino e feminino são diferentes, mas complementares. O livro do Gênesis (5, 2) apresenta uma verdade perene: “Homem e mulher os criou”. Os tipos e níveis de hormônio bombeados em nossos organismos são feitos para corresponder ao sexo biológico de cada um.

Os corpos dos mamíferos machos não são biologicamente equipados para gerar e nutrir a prole, e, como mostra dolorosamente esse experimento, eles precisam da biologia das fêmeas (tanto do útero como dos hormônios da gravidez) para obter inclusive um baixo número de filhotes sobreviventes. Somente os embriões dos úteros transplantados de ratos machos se desenvolveram de modo anormal, e a taxa de mortalidade dos embriões nos úteros transplantados de ratos machos atinge impressionantes 96,4%. Esse experimento não passa de má ciência para servir a uma ideologia.

Notas

  • A imagem acima foi tirada de outro experimento reprodutivo envolvendo ratos. Para mais detalhes sobre esta pesquisa em específico, consulte-se o site National Geographic. (Créditos da fotografia: Leyun Wang.)

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

São José e suas aparições ao longo dos séculos
Santos & Mártires

São José e suas
aparições ao longo dos séculos

São José e suas aparições ao longo dos séculos

Nossa Senhora apareceu inúmeras vezes ao longo da história da Igreja, mas também seu castíssimo esposo se deu a conhecer a alguns santos e fiéis espalhados pelo mundo. Saiba onde aconteceram as principais aparições de São José e conheça suas histórias.

Joseph PronechenTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere20 de Agosto de 2021Tempo de leitura: 8 minutos
imprimir

Enquanto a Santíssima Virgem Maria apareceu inúmeras vezes ao longo dos séculos, as aparições de São José aprovadas pela Igreja foram menos frequentes, mas muito significativas e importantes. Santos como Santa Teresa de Ávila, Santa Gertrudes e Santa Faustina foram abençoados por suas aparições e intercessão, assim como os habitantes das localidades de Flandres, na Bélgica, Knock, na Irlanda, e Fátima, em Portugal.

Santos procuram o seu auxílio. — No século XVI, Santa Teresa d’Ávila disse que ele lhe apareceu quando ela estava com problemas para estabelecer um determinado convento. Ela escreveu em sua autobiografia: 

Numa ocasião, estando numa necessidade que não sabia resolver nem tendo com que pagar os operários, apareceu-me São José, meu verdadeiro pai e senhor, e deu-me a entender que recursos não me faltariam e que eu devia contratá-los. Eu o fiz sem dispor de um centavo, e o Senhor, por caminhos que espantavam aos que o viam, me forneceu os recursos (Livro da Vida XXXIII 12).

Essa grande devota de São José, que batizou suas fundações em homenagem ao amado santo, recebeu ainda outra visita dele. No ano de 1521, em Ávila, na festa de Nossa Senhora da Assunção, num mosteiro da Ordem do glorioso São Domingos, escreveu Santa Teresa:

De repente, veio-me um arroubo tão intenso, que quase perdi os sentidos… tive a impressão de que me cobriam com uma roupa de grande brancura e esplendor. No início, eu não via quem o fazia, tendo percebido depois Nossa Senhora do meu lado direito e meu pai São José do esquerdo, adornando-me com aquelas vestes. Eles me deram a entender que eu estava purificada dos meus pecados.

Depois que acabaram de me vestir, estando eu com enorme deleite e glória, tive a impressão de que Nossa Senhora tomava-me as mãos, dizendo-me que lhe dava muito contentamento ver-me servir ao glorioso São José e que eu estivesse certa de que o mosteiro se faria de acordo com o meu desejo, sendo o Senhor e eles dois muito bem servidos ali. Eu não devia temer que nisso viesse a haver quebra… (Livro da Vida XXXIII 14).

Mais de dois séculos antes, na solenidade da Anunciação, Santa Gertrudes, a Grande, teve uma visão em que Nossa Senhora lhe revelou a glória de São José. Gertrudes registrou: 

Eu vi o céu aberto e São José sentado num trono magnífico. Senti-me maravilhosamente tocada quando, cada vez que seu nome era mencionado, todos os santos se inclinavam profundamente a ele, mostrando, pela serenidade e doçura de seus olhares, que eles se alegravam com ele por sua elevada dignidade.

São José também deu uma direção particular quando apareceu a Santa Faustina em julho de 1937, enquanto ela estava na casa de sua congregação em Rabka, Polônia, durante uma convalescença. Em seu Diário, ela registrou:

São José pediu que eu tivesse uma incessante devoção a ele. Ele mesmo me disse que eu rezasse diariamente três orações [Pai-nosso, Ave-Maria e Glória] e uma vez o Lembrai-vos [Memorare]. Olhava com muita bondade e me fez conhecer o quanto é favorável a essa obra [da Misericórdia]. Prometeu-me a sua especial ajuda e proteção. Todos os dias rezo as orações recomendadas e sinto a sua especial proteção (n. 1203).

Aparições. — No início do século XVI, surgiu uma devoção, pedida pelo próprio São José, chamada “os sete pai-nossos de São José”, que no início do século XVIII seria ampliada e conhecida como “as sete dores e alegrias de São José”.

Ela surgiu depois de um navio que navegava ao longo da costa de Flandres naufragar durante uma terrível tempestade. Pe. Matthew Spencer, superior provincial dos Oblatos de São José, compartilhou os detalhes durante algumas palestras na Relevant Radio. A bordo estavam dois frades franciscanos, que permaneceram agarrados aos pedaços dos destroços do navio. Por três dias e três noites, eles conseguiram manter-se à tona. Eles sempre foram devotos de São José, por isso lhe imploravam continuamente, com grande fervor, que viesse em seu auxílio e os salvasse.

Pe. Spencer disse que, no terceiro dia, um homem muito radiante apareceu e disse-lhes que tivessem fé e confiança em São José. Eles obedeceram. O homem os resgatou, levando-os em segurança para a costa. Uma vez em terra, os dois frades perguntaram quem era ele e como lhe poderiam agradecer ou que honra lhe poderiam prestar.

Foi então que ele se identificou como São José. Disse-lhes que, se quisessem agradá-lo e honrá-lo, deveriam recitar diariamente o Pai-nosso e a Ave-Maria sete vezes, meditando em suas sete dores e sete alegrias, a partir de sua vida quotidiana com Jesus e Maria. Logo depois, São José desapareceu de vista. Um capuchinho do século XVI registrou toda a história em um livro sobre as sete dores e as sete alegrias de São José. 

Escultura de São José de Bessillon, em Cotignac.

São José também visitou a pequena aldeia de Cotignac na Provença, França, em 7 de junho de 1660, durante um verão excepcionalmente quente. Por volta das 13h, um jovem pastor chamado Gaspard Ricard descansou no monte Bessillon, em busca de alívio para o calor escaldante e sua sede excepcional. Olhando para cima, viu um homem alto.

Apontando para uma grande pedra, o homem disse: “Eu sou José. Levante-a e você beberá”. Ricard não perguntou como levantaria a enorme pedra: ele imediatamente foi em direção a ela e foi capaz de erguê-la, descobrindo, como José disse, uma nascente de água doce embaixo dela. Ao erguer os olhos para agradecer ao estranho, Ricard viu que o homem havia desaparecido. O pastor correu à aldeia para contar o sucedido aos habitantes da cidade, que correram para ver a fonte recém encontrada.

De acordo com O Santuário da Sagrada Família: Provença, França, um documentário produzido pela rede americana EWTN, “a fonte apontada por São José... tem abundantes qualidades medicinais e atrai pessoas de toda a região, que vêm para se lavar, saciar a sua sede e encontrar cura para suas enfermidades”.

Moradores construíram a primeira capela no local, e curas aconteceram no santuário e na nascente. Por exemplo, em 1662, Pe. Allard, do oratório construído no local, escreveu: “As águas de São José trazem milagres. Desde que voltei, um homem que conhecemos de Avinhão, coxo de nascença, foi à nascente e voltou curado, deixando lá suas muletas. Todo o mundo bebe e leva consigo um pouco d’água”. Uma história no site do Santuário de São José de Bessillon, conta que, naquela época, “de todos os lugares da província e dos países vizinhos, iam à fonte os enfermos de todos os tipos, e a maioria deles voltava curada ou confortada em suas enfermidades”. A fonte nunca secou.

Como resultado desses eventos milagrosos, o rei Luís XIII decretou que, a partir de 19 de março de 1661, a festa de São José seria celebrada como feriado em todo o reino. O rei já havia consagrado a si mesmo, seu trono e a França à Virgem Maria porque ele e a rainha sabiam de sua aparição com o Menino Jesus, também em Cotignac, um pouco antes, no local da nova capela de Nossa Senhora das Graças, a 2 milhas de distância.

Também em 1661, o bispo de Fréjus uniu os dois locais de aparição sob o título de “Santuário da Sagrada Família” e declarou: “Deus, pelas graças que desejou conceder em honra de São José, não quis separar, na devoção dos fiéis, as duas pessoas santas [Maria e José] que ele uniu na Terra para o mistério da nossa salvação”.

Na Igreja, remontando ao ensino do Concílio de Trento, o bispo é a principal autoridade para investigar as aparições que acontecem em sua diocese. Ainda hoje os fiéis vêm a este vilarejo francês em busca da ajuda de José. 

Gravura com a aparição de São José, Nossa Senhora e São João em Knock, na Irlanda.

Dois séculos depois, na noite de 21 de agosto de 1879, São José apareceu com Nossa Senhora e São João Evangelista em Knock, Irlanda, numa igreja paroquial. José ficou ao lado direito de Maria. O Cordeiro de Deus também apareceu num altar. Como registrado nos arquivos oficiais de Knock, Patrick Hill, entre os 15 moradores que viram a aparição, relatou que São José apareceu “à direita da Santíssima Virgem; sua cabeça estava curvada entre os ombros, para a frente; ele parecia estar prestando obséquio… suas mãos estavam unidas como as de uma pessoa em oração”.

Uma testemunha, Mary Byrne, descreveu como “a cabeça de José estava ligeiramente inclinada, e inclinada para a Santíssima Virgem, como se estivesse mostrando-lhe respeito”

O mariólogo Mons. Arthur Calkins, em seu artigo A aparição de São José em Knock, explicou que, “nestes últimos tempos, por meio de aparições e do aprofundamento da consciência da Igreja, Deus está chamando nossa atenção para a grandeza de São José por seu seu papel na história da salvação e pelo poder de sua intercessão”. 

Ele citou o sacerdote e mariólogo irlandês Pe. Michael O’Carroll, que percebera na aparição de São José uma forma de nos convencermos a “buscar ajuda na oração para compreender o papel dele na vida da Igreja e em nossa vida pessoal”.

Pe. O’Carroll explicou que a cena representa o mistério pascal, ligando José à Eucaristia, e “confirma que toda a graça e glória de São José vem de seu vínculo matrimonial com Maria. É também uma lição poderosa para que nós, cristãos, baseemos nossa vida e conduta num relacionamento o mais próximo possível com Maria, Rainha do universo”.

Em 13 de outubro de 1917, a aparição mais proeminente de São José no século XX aconteceu em Fátima, durante o milagre do Sol. A vidente de Fátima, Serva de Deus Irmã Lúcia dos Santos, em suas Memórias, descreveu como, durante a aparição, os videntes viram “ao lado do Sol, São José com o Menino [Jesus], e Nossa Senhora vestida de branco, com um manto azul. São José com o Menino pareciam abençoar o mundo com uns gestos que faziam com a mão em forma de cruz”. 

A aparição de São José foi um lembrete sobre a importância da paternidade e da família.

“A paternidade de São José, como em todos os pais humanos, é um reflexo da paternidade de Deus Pai numa criatura”, escreveu Mons. Joseph Cirrincione em seu livreto St. Joseph, Fatima and Fatherhood [“São José, Fátima e a Paternidade”]. “A visão de São José e do Menino Jesus a abençoar o mundo, com Maria ao lado do Sol, que não saiu do seu lugar, é a garantia de Deus de que, embora o homem possa rejeitá-lo, Ele nunca rejeitará o homem”.

São José é, enfim, uma fonte sempre presente de ajuda aos fiéis. Como disse o Venerável Pio XII, em 1955: “Se quereis estar perto de Jesus, também hoje vos repetimos: Ite ad Ioseph, ‘ide a José’ (Gn 41, 55)!”

Notas

  • A pintura usada no cabeçalho deste texto é de Guercino e se chama “São José com o cajado florescente”. Ele é retratado de barba branca, como um senhor de idade avançada, mas, como já falamos mais de uma vez no site, temos bons motivos para acreditar que, quando se casou com a Virgem Maria, São José era jovem e estava no auge de seu vigor físico. Só não acreditamos que seja o caso de descartar célebres e preciosas obras de arte por este detalhe. Além do que, “se parte da iconografia mais recente tende a representá-lo com os traços de um velho, devemos pensar que é menos para sublinhar o número dos seus anos do que para dar uma ideia das suas virtudes, em especial da sua prudência e da maturidade do seu caráter” (Michel Gasnier. José, o Silencioso. Quadrante: São Paulo, 1995, p. 46).

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Por que as religiosas usam hábito?
Igreja Católica

Por que as religiosas usam hábito?

Por que as religiosas usam hábito?

O hábito religioso é uma roupa bela e distinta, mostrando que as irmãs consagradas são “noivas”, mas não num sentido mundano: elas são noivas de Cristo. Por isso mesmo, a beleza do hábito não é a mesma das vestes seculares; é, antes, uma beleza sobrenatural.

Uma monja anônimaTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere20 de Agosto de 2021Tempo de leitura: 14 minutos
imprimir

Este texto surgiu como uma série de conferências capitulares proferidas por uma superiora religiosa a uma comunidade de irmãs. A superiora compartilhou o texto com o prof. Peter Kwasniewski e deu-lhe permissão para editá-lo e publicá-lo. (O texto original, em inglês, encontra-se disponível aqui; a tradução portuguesa a seguir foi feita por nossa equipe.)


O Concílio de Trento declarou: “Embora o hábito não faça o monge, é necessário que os clérigos sempre usem uma veste adequada à sua própria Ordem” [1]. Ainda que o hábito não seja a causa do ser de um monge, como diz Trento, não deixa de ser necessário para o monge usá-lo (oportet… semper), porque o hábito ajuda a fazê-lo ser quem ele é.

Tomado isoladamente, o ditado popular “o hábito não faz o monge” parece afirmar que a roupa, por ser externa, não importa. Mas isso está errado. Nossas roupas nos afetam e nos formam. A roupa é muito mais do que uma proteção contra as intempéries. Para os seres humanos, ela é simbólica: é um sinal de quem eu sou e de quem eu desejo ser. O que vestimos nos forma.

Nossa formação na vida religiosa se dá principalmente pelo fazer e pelo ser. Aprendemos a ser irmãs sendo irmãs. Nosso fazer inclui o que vestimos. Aprende-se a rezar rezando; aprende-se como ser uma irmã fazendo as coisas que as irmãs fazem e vestindo o que as irmãs vestem.

Nosso hábito é lindo. Convém que seja assim, pois somos noivas de Cristo. Uma noiva deve ter uma aparência adequada! Nosso hábito reflete a realidade de que não somos noivas num sentido mundano, mas noivas de Cristo. A beleza do hábito não é a mesma do vestido secular; é antes uma beleza sobrenatural.

Nosso hábito nos ajuda a saber como uma irmã deve agir. Não é necessário perguntar se ela pode escalar o pinheiro do quintal: o fato de usar o hábito deixa claro que esta atividade não é apropriada para uma irmã. Um hábito serve para que todos os que nos vêem lembrem de Deus (não podem deixar de fazê-lo) e nos lembra o que deve ser uma noiva de Cristo. Até a própria palavra “hábito” nos dá uma indicação da importância da veste. Aristóteles nos ensinou que virtudes são bons hábitos. Nós adquirimos virtude interior fazendo ações exteriores. Formamos nosso coração e alma por meios externos. Se desejamos ser generosas, começamos nos “obrigando” a fazer coisas generosas. Se persistirmos nelas, a generosidade começará a crescer em nosso coração. Nós nos tornaremos generosas e começaremos a amar a realização de atos generosos. O externo forma o interno. Tornamo-nos mais plenamente noivas de Cristo através do hábito de usar trajes religiosos. Muitas tentações são removidas quando usamos um hábito: não tendemos a pensar em roupas; não somos tão facilmente tentadas a ser vaidosas; nossas ações externas são restringidas pelo hábito. Se nos sentimos desconfortáveis por estar em algum lugar ou por fazer algo estando de hábito, é um sinal de que provavelmente não deveríamos estar neste lugar ou fazendo tal coisa. O hábito é uma ferramenta de discernimento!

Ascetismo receptivo. — Além disso, o uso do hábito habitua nosso corpo e nossa alma à vida ascética.

Afinal, o hábito é quente. Supondo que todas nos vestíssemos com recato antes de entrar no convento, não creio que nenhuma de nós sonharia em nos cobrir da cabeça aos pés, com várias camadas de roupa, no calor do verão! Como parte de nossa expressão particular de modéstia, mantemos nossas pernas totalmente cobertas, mesmo por baixo de nosso hábito comprido. Nossa cabeça está coberta não apenas por um véu, mas por uma touca, um véu e depois um véu superior: três camadas! Que alívio seria usar um pouco menos (por exemplo, na cabeça) — mas não sonhamos em fazer isso e não queremos fazê-lo. Nosso hábito é um instrumento ascético. Por meio dele nos “educamos” a não buscar o nosso próprio conforto.

A ascese do hábito é muito apropriada para nós, mulheres. A força das mulheres, mesmo fisicamente, reside não tanto em grandes feitos únicos, mas na perseverança silenciosa. A força da mulher é o sofrimento silencioso. A palavra latina para “sofrer” é passio, que significa “padecimento”. Notem como o “padecimento” é receptivo: dizemos “sim” ao que vem até nós. Poderíamos dizer que a ascese em nosso hábito é uma espécie de “ascetismo receptivo”: o hábito em si não é uma penitência, mas ele pode envolver penitência para nós. E nós a aceitamos do modo como ela se nos apresenta. A ascese do nosso hábito está precisamente na sua cotidianidade, em o usarmos dia e noite, seja qual for a estação do ano, seja qual for a nossa disposição. O hábito é uma expressão de nossa autodoação.

A túnica. — A parte principal do nosso hábito é o “vestido” que chamamos de “túnica”. Por que não o chamamos de vestido? Não seria uma forma mais feminina de se referir a essa parte do nosso hábito? “Túnica” é uma “palavra unissex” que parece bem pouco feminina. No entanto, optamos por usar palavras distintas das do mundo, a fim de deixar claro que nossas roupas são diferentes das roupas do mundo. Fazemos a mesma coisa em outros aspectos da nossa vida: chamamos a sala em que comemos de “refeitório” e não de “sala de jantar”. Por quê? Porque não jantamos como os leigos jantam. Os leigos não comem em silêncio, sentados em fila, enquanto ouvem uma leitura. Fazemos as refeições de uma forma diferente e, portanto, é adequado ter um nome distinto para a sala na qual nós, religiosos, fazemos as refeições. Palavras como “cela”, ao invés de “quarto”, ou “colação”, ao invés de “ceia”, são similares.

Uma noviça e uma irmã professa, em seus hábitos.

Portanto, não chamamos a parte principal do nosso hábito de “vestido” porque ele não é uma veste mundana. Todas as manhãs, quando vestimos a túnica, a oração que fazemos nos lembra que esta não é uma veste mundana, mas um vestido particularmente cristão. Nós dizemos: “Que o Senhor me revista do homem novo, criado à imagem de Deus, em verdadeira justiça e santidade” (cf. Ef 4, 24). Colocamos uma “nova” forma de veste, não como a roupa mundana que usávamos. 

A palavra “túnica” era usada para descrever a vestimenta dos antigos gregos e romanos. Era uma peça de roupa exterior simples, com ou sem mangas, na altura dos joelhos ou dos tornozelos, usada com um cinto. Os primeiros monges usavam túnicas e se referiam a elas com este termo. Encontramos a palavra “túnica” nos ditos dos Padres do Deserto e na Regra de São Bento. Visto que, na vida religiosa, queremos nos inserir na tradição iniciada pelos Padres do deserto, usamos o mesmo nome para designar esta parte da roupa. 

O escapulário. — Por cima da túnica, usamos um escapulário. Por que o fazemos? Parece uma peça de roupa um tanto inútil, e esta é certamente uma das razões pelas quais ele desapareceu dos hábitos de muitos religiosos com as mudanças após o Concílio Vaticano II. O escapulário não só é inútil, como constitui também um obstáculo positivo: ele atrapalha quando você se inclina, bate no rosto do próximo quando há um vento forte etc.

O escapulário é um pedaço de tecido que fica pendurado nas scapulae, “escápulas”, ou seja, sobre os ombros. O escapulário faz parte do hábito religioso desde os tempos de São Bento (cf. Regra de São Bento, c. 55). Usamos o escapulário pela mesma razão que vestimos a túnica, ou seja, como um sinal externo de nossa união interna com a tradição da vida religiosa. O escapulário passou a ter um significado simbólico, como um jugo que carregamos sobre nossos ombros, e isso se reflete na oração que fazemos ao colocar o escapulário em nossos ombros: “Ó Senhor Jesus Cristo, que disseste ser suave o teu jugo e leve o peso de teu fardo, concede-me paciência em todas as adversidades e fidelidade às inspirações da tua graça”.

A touca. — A touca se tornou moda durante a Idade Média, por volta do século XIII em diante. Todas as mulheres de boa criação usavam touca, a qual mais tarde foi reservada, por algum tempo (ao longo do século XV), para as mulheres casadas. A touca sempre foi usada com um véu. Sua ideia é que o rosto da mulher fique visível, mas o pescoço e a cabeça estejam cobertos. Embora parecesse que as mulheres leigas às vezes mostravam parte de seus cabelos quando usavam uma touca ou véu, o cabelo era visto penteado ou trançado, e não solto (o que é uma diferença importante no que diz respeito à sua atratividade).

Uma razão para o uso da touca é a mesma para o uso do véu: a de reservar a própria beleza para o seu cônjuge. É por isso que sobretudo as mulheres casadas usavam a touca (e o véu). Como lemos no Cântico dos Cânticos, até o pescoço de uma mulher pode ser belo para um homem: “O teu pescoço é como a torre de Davi, que foi edificada com seus baluartes; dela estão pendentes mil escudos, todos os escudos dos heróis” (4, 4). Uma mulher que não está “disponível”, isto é, aquela que é casada ou religiosa, não deseja, de forma alguma, chamar atenção para sua beleza física, por isso tornou-se costume que essas mulheres usassem toucas e véus. A moda mudou, mas as religiosas mantiveram o mesmo costume.

A touca sempre deixa o rosto descoberto. O que significa deixar o rosto descoberto? Primeiro, significa que uma mulher que usa uma touca não está tentando se esconder totalmente; ela não está tentando se excluir ou se separar dos outros. Ela não está excluindo a comunicação com outras pessoas. Seu rosto fica livre; na verdade, o uso da touca chama mais a atenção para o rosto, já que não há mais nada para atrair o olhar.

A touca “força” quem nos encontra a focar em nosso rosto, não em nosso corpo. Em um sentido real, nosso rosto expressa mais plenamente quem somos. Nosso rosto revela quem somos mais do que nosso corpo. Considerem que aprendemos muito mais sobre uma pessoa olhando para seu rosto do que olhando para suas mãos ou pés. Os olhos são chamados de “janelas da alma”, e esses olhos são como que realçados pela touca. A touca, então, nos ajuda a nos relacionarmos com as outras pessoas de uma forma que se harmoniza muito bem com nossa vocação. A touca chama a atenção para o “homem interior”, que encontra expressão em nossa face. Nossa touca ajuda os outros a nos olharem dessa maneira.

A comunicação é muito mais do que a troca de palavras. Falamos com o nosso rosto, com as nossas expressões. Embora as pessoas possam considerar “desumano” que nós, irmãs, usemos todas essas camadas de roupa como parte do nosso hábito religioso, a verdade é que essas camadas que usamos podem ajudar a tornar “mais humanos” e pessoais o nosso relacionamento e comunicação com as outras pessoas.

O véu. — Ao usar um véu, nós, irmãs, nos colocamos dentro de uma tradição muito longa, uma tradição anterior ao cristianismo. Na cultura grega antiga, as mulheres casadas de respeito usavam véu. Ainda está preservada uma lei assíria, de 1400–1100 a.C., que afirma que as mulheres casadas e as viúvas nunca deveriam sair em público sem véu. Na Grécia antiga, não se considerava oportuno que uma mulher casada revelasse seu cabelo aos olhos de outros homens que não o seu marido. Em Roma, um véu chamado flammeum era a peça mais proeminente do traje usado pela noiva no dia de seu casamento.

Ao longo da maior parte da história, as mulheres casadas usaram coberturas para a cabeça. Era típico das mulheres protestantes cobrir a cabeça durante os cultos religiosos (um véu, lenço ou chapéu). Podemos pensar hoje nos menonitas ou nos amish, que ainda seguem essa tradição. Até o século XX, as pessoas comuns compreendiam facilmente o simbolismo do véu. Ainda hoje, mantemos alguns resquícios da tradição do véu na cultura secular, ao menos na forma do véu de casamento.

A primeira forma de vida consagrada a surgir na história — a consagração das virgens dentro de uma diocese, pelo bispo — foi simbolizada pela recepção do véu. Infelizmente, no rito reformado da consagração de uma virgem, a recepção do véu se tornou opcional (como tantas outras coisas na nova liturgia). O véu usado pela virgem consagrada é um véu de noiva, mostrando que a virgem é uma noiva de Cristo. Visto que a virgem consagrada e a irmã religiosa são noivas de Cristo, faz sentido que elas, como as mulheres casadas, devam usar véus para significar a mesma coisa.

Mesmo que, aparentemente, o nosso mundo contemporâneo tenha se esquecido disto, o cabelo de uma mulher é a sua maior glória (cf. 1Cor 11, 15), o símbolo de sua beleza feminina natural. O corte cerimonial do cabelo é um sinal da doação total que a religiosa faz de si mesma; um sinal da entrega de toda a sua beleza natural, a fim de que a sua vida esteja escondida em Cristo. A oração de bênção do véu branco diz: “Que seja bendito, imaculado e santificado o véu desta vossa escrava, a fim de que a sua vida esteja escondida com Cristo em Deus” [2]. Nós velamos a nós mesmas por um motivo semelhante ao do uso da touca: escondemos o que pode atrair outras pessoas ao nosso corpo, de modo a enfatizar a importância do “homem interior”. O véu serve para nos proteger: ele nos protege de chamar uma atenção indevida sobre nós mesmas e serve como um sinal para indicar que “não estamos disponíveis” — ainda que o véu não seja mais um símbolo comum a indicar que uma mulher é casada.

É importante que nem nosso hábito nem nosso véu sejam uma capa informe. Não estamos tentando esconder que somos mulheres, mas também não queremos chamar uma atenção inadequada para os nossos corpos. O véu não é feio ou impróprio. Ele é belo, mas não chama atenção para nós como indivíduos. A beleza de nosso hábito não é a beleza de nosso corpo. A beleza que podem ter os nossos véus não é a nossa beleza. Procuramos atrair os outros não para nós mesmas, nem para qualquer coisa que possamos ter, mas para nosso divino Esposo. Todas as nossas vestimentas têm como objetivo transmitir essa mensagem... e elas transmitem! Sem exceção, ver-nos faz as pessoas pensarem em Deus [3].

Nosso véu também tem um uso prático, a saber, ele nos livra de ter de cuidar de nossos cabelos. Queremos empregar nosso tempo e energia de outras maneiras, e o hábito é uma fonte de grande libertação nessa matéria. Não precisamos perder tempo comprando e selecionando roupas; não precisamos gastar energia mental na pergunta diária: “O que devo vestir?”; não precisamos perder tempo arrumando nossos cabelos. Nós nos arrumamos em questão de minutos.

As postulantes já usam um véu reduzido para indicar a sua intenção de se doarem a Deus como irmãs. Elas já estão separadas para Deus e estão sendo formadas pelo uso do véu. Quando se tornam noviças, recebem o véu completo da irmã religiosa. Seu véu é branco, para simbolizar pureza e castidade. A noiva postulante, no dia de sua investidura, substitui o vestido e o véu nupciais pelo véu branco da noviça. Ao entrar no santuário no início da investidura, ela é enfeitada com a beleza terrena de um vestido branco e cabelos longos. Com o coração alegre, ela oferece a Deus toda a beleza terrena e a troca pela beleza espiritual do hábito e do véu desejados.

Uma religiosa das Irmãs Adoradoras do Coração Real de Jesus em oração (Imagem de Christian Gooden).

O véu preto ou escuro de uma irmã professa, por outro lado, reflete o estilo de uma viúva. Isso também é adequado. Embora sejamos realmente noivas de Cristo, estamos no exílio. Nossa união com Cristo é espiritual, nas trevas, escondida sob o véu da fé. Nossa vocação é escatológica: pobres, castas e obedientes, entregues inteiramente a Deus, vivemos já agora o que todos viverão no céu. A esse respeito, diz o Padre Sean Kopczynski: “Os religiosos ‘brincam’ de estar no céu”. Não estamos no céu, mas estamos nos preparando para isso.

Nossa tradição católica tem o costume de velar tudo o que seja um mistério sagrado. O velamento do sagrado não é uma mera tradição humana; é algo desejado por Deus. Pois, foi Ele quem dirigiu detalhadamente a construção do tabernáculo, dizendo a Moisés: “Construireis o taber­náculo e todo o seu mobiliário exatamente segundo o modelo que vou mostrar-vos” (Ex 25, 9). As especificações incluíam: “Farás um véu de púrpura violeta, de púrpura escarlate, de carmesim e de linho retorcido, sobre o qual serão artisticamente bordados querubins… Colocarás o véu debaixo dos colchetes, e é ali, atrás do véu, que colocarás a arca da aliança. Esse véu servirá para separar o ‘santo’ do ‘santo dos santos’” (Ex 26, 31.33).

Nós velamos um mistério sagrado. O véu é o presente da Igreja para nós. O véu é um sinal do mistério da nossa vocação; o sinal da sacralidade do nosso ser entregue a Cristo.

Notas

  1. Quia vero etsi habitus non facit monachum, oportet tamen clericos vestes proprio congruentes ordini semper deferre (Conc. Trid., s. XIV, Decretum de reformatione, c. 6).
  2. Ut sit velum benedíctum, imaculátum, et sanctificátum huic ancíllae Tuae, quátenus eius vita sit abscóndita cum Christo in Deo. [N.T.: A oração completa diz: “Suplicantes vos rogamos, Senhor, que por vossa benignidade desça uma bênção copiosa sobre este véu branco, a ser imposto sobre a cabeça de vossa escrava: a fim de que seja um véu bento, imaculado e santificado para a vossa escrava. Por Cristo, Senhor Nosso. Amém.”]
  3. Mesmo que nos confundam com muçulmanas, podemos argumentar que é para um Deus diferente que apontamos quando somos confundidas com mulheres muçulmanas. Além disso, parece que as mulheres muçulmanas conservadoras, ao contrário de nós, procuram sim esconder-se sob uma capa disforme.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

A morte prematura de São José
Santos & Mártires

A morte prematura de São José

A morte prematura de São José

São José certamente não estava mais vivo quando Jesus começou seu ministério público. Esse dado não consta de modo claro nas Escrituras, mas é uma piedosa tradição, partilhada e transmitida por muitos que contemplaram a vida de Cristo com os olhos da fé.

Michael PakalukTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere19 de Agosto de 2021Tempo de leitura: 4 minutos
imprimir

São José certamente não estava vivo quando Jesus começou seu ministério público. Isso sempre foi sustentado pela tradição, e por quatro razões.

Primeiro, depois que o ministério público começa, José nunca mais é mencionado nos Evangelhos em conexão com Jesus ou Maria, ou mesmo com a família mais ampla dos “irmãos” (ou, mais propriamente, primos do Senhor). Há inclusive certa sugestão na maneira como as pessoas se referem a José de que ele não estaria mais vivo: “Não é este o filho do carpinteiro?” (Mt 13, 55).

Segundo, por que Jesus teria confiado os cuidados de Maria a João (cf. Jo 19, 27), se José ainda estivesse vivo?

Terceiro, a profecia de Simeão sobre um sofrimento futuro (Lc 2, 35: “E uma espada transpassará a tua alma”, diz respeito apenas a Maria (“Quanto a ti…”), não a José.

Quarto, era conveniente que José saísse de cena antes de começar o ministério público do Senhor, para que, quando Jesus ensinasse sobre seu Pai, ficasse sempre claro de quem ele estava falando.

“A morte de São José”, por Miguel Cabrera.

Considero essa lista de razões fascinante. Já fui protestante e, como tal, estava convencido de que o Evangelho poderia ter a clareza necessária para confrontar “o mundo” apenas se os cristãos baseassem suas crenças somente nas Escrituras, e não em “meras tradições humanas”.

E no entanto qual é o status desta verdade: que “José não estava vivo quando Jesus começou seu ministério público”? Não se baseia total e exclusivamente nas Escrituras, mas ainda assim tem fundamento nelas. Além disso, não é uma “mera tradição humana”. É, no mínimo e com certeza, uma tradição piedosa, isto é, algo partilhado e transmitido por quem contempla a vida do Senhor com os olhos da fé.

Quando protestante, tampouco tinha uma noção coerente de autoridade na Igreja. Assim, eu não podia fazer nenhuma distinção entre o que os cristãos são obrigados a crer como verdade de fé (de fide), e o que somos livres para crer por estar fundamentado e ser amplamente defendido por cristãos piedosos e criteriosos.

Agora, como católico, posso dizer que essa verdade — a de que José morreu antes do ministério público — não é de fide. Isso me dá liberdade para o afirmar com a seguinte força: posso defendê-la como verdadeira e afirmar que é bom crer nela, embora isso não implique que os outros estejam obrigados a acreditar, se não forem persuadidos por minhas razões.

Dessa lista de motivos, o quarto é para mim o mais fascinante. Teria José entendido isso? Saberia ele que lhe era melhor partir do mundo antes de Jesus começar seu ministério público? Pe. Gasnier, em seu grande livro de meditações José, o Silencioso, pensa assim: “[José] pressentia que sua presença ao lado de Jesus não só não era necessária como podia agora se tornar um estorvo. Não convinha que o mundo pensasse que ele era o verdadeiro pai desse jovem” [1].

Neste caso, a morte de José assume um significado interessante.

Escultura da morte de São José na Catedral de Nossa Senhora de Loreto, em Mendoza, Argentina.

Para entender por quê, consideremos outra pergunta: quantos anos tinha José quando morreu? Se ele era velho quando se casou, já estaria muito velho quando morreu. Algumas tradições antigas, enraizadas em escritos apócrifos, afirmam que José já era velho e fora casado antes por mais de quarenta anos quando desposou Maria. Santo Epifânio lhe atribui 90 anos! Mas essa opinião foi veementemente rejeitada por São Jerônimo, e é seguro dizer que uma reflexão mais completa na Igreja ao longo dos séculos ficou do lado de São Jerônimo.

A melhor opinião, que é a que eu aceito, afirma que ele seria jovem quando se casou com Maria. De fato, era costume que os homens pretendessem casar-se no final da adolescência. Sua devoção à virgindade, à sua e à de Maria, estava enraizada no idealismo dos jovens. Ninguém teria apoiado o casamento de um homem de 90 anos com uma adolescente. E é errado atribuir seu respeito pela virgindade de Maria à senilidade, ao invés da virtude.

Portanto, suponhamos que ele tinha 20 anos quando se casou com Maria: provavelmente tinha 40 quando morreu, quer dizer, São José teve uma “morte prematura”, mesmo para aquela época. Ele não morreu de velhice nem de fraqueza generalizada (excluímos uma morte violenta), mas de alguma debilidade particular que o levou embora.

Unamos agora os dois pensamentos: José percebeu que lhe era melhor sair de cena e morreu relativamente jovem, aceitando a morte, precisamente naquela época, como enviada por Deus.

Creio que chegamos assim a algumas conclusões interessantes. Em primeiro lugar, podemos entender a morte de José como, de maneira misteriosa, uma participação na Paixão do Senhor na forma de um prenúncio, como a morte de João Batista e o martírio dos Santos Inocentes.

Em segundo, ele ofereceu sua vida sem ainda ver consumada a vida de Jesus. Assim, sua morte foi marcada por uma fé tremenda. Ele não ouviu o Sermão da Montanha. Ele não viu Jesus transformar água em vinho, curar leprosos ou ressuscitar Lázaro. Ele não viu a Paixão ou a Ressurreição.

Em terceiro lugar, a nova vida em Cristo da qual ele, por eleição especial, deu testemunho foi precisamente uma vida de trabalho ao lado de Jesus como amigo, e de família com Maria. Não admira que, onde quer que tenha florescido com normalidade a vida familiar cristã, ali se tenha invocado a São José com fervor!

Por último, podemos entender por que os Papas nomearam São José patrono dos moribundos: porque ele é especialmente sensível ao fato de a morte muitas vezes nos assaltar desprevenidos. “De bom grado morrerei, Senhor, no momento, no lugar e do modo que Vós quiserdes” [2].

“Deixai-me morrer como o glorioso São José, acompanhado por Jesus e Maria, pronunciando aqueles nomes mais doces, que espero exaltar por toda a eternidade!”

Referências

  1. Michel Gasnier. José, o Silencioso. Quadrante: São Paulo, 1995, p. 140.
  2. Seleta de Orações. São Paulo: Cultor de Livros, 2011, p. 209.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.