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A justiça social, explicada por um Papa
Doutrina

A justiça social, explicada por um Papa

A justiça social, explicada por um Papa

Um dos maiores pensadores da modernidade, o Papa Leão XIII esboçou para o mundo moderno uma filosofia do homem e da sociedade singularmente católica. Visite neste texto alguns excertos de suas atualíssimas encíclicas.

Piers ShepherdTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere30 de Julho de 2020Tempo de leitura: 10 minutos
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O Papa Leão XIII, cujo nascimento completa 210 anos neste ano, é talvez mais conhecido por seu marianismo. Ele foi um dos maiores promotores do Santo Rosário e foi o primeiro Pontífice a aplicar o título de Medianeira a Nossa Senhora. Porém, ele foi um dos maiores pensadores da modernidade, tendo esboçado para o mundo moderno uma filosofia do homem e da sociedade singularmente católica.

Antes de debatermos os escritos de Leão XIII, é necessário analisar o contexto em que foram elaborados. O nome de batismo de Leão XIII era Vicente Joaquim Pecci. Ele nasceu em 1810, numa Itália em que o Papa era mantido prisioneiro por Napoleão. Apesar da posterior derrota de Napoleão e da restauração dos Estados Pontifícios, as sementes da revolução já haviam sido lançadas, e durante as décadas seguintes a Igreja sofreria constantes ataques dos que buscavam unificar a Itália sob um governo liberal laico. Em 1870, Roma foi ocupada pelo novo Estado italiano. Pela primeira vez em mais de mil anos, o Papa não tinha posses temporais. Quando Leão XIII foi eleito em 1878, foi o primeiro Papa em séculos a não exercer nenhum poder temporal e a ficar integralmente à mercê de um Estado hostil. Leão XIII foi o primeiro Papa a passar seu pontificado inteiro atrás dos muros do Vaticano, impossibilitado de sair, para que não se tornasse vítima de uma agressão secular.

Embora a perda dos Estados Pontifícios tenha sido uma tragédia, ela permitiu que o Papa voltasse sua atenção para assuntos espirituais e para o ensino dos fiéis. Foi nesse contexto que Leão XIII desenvolveu seu grande corpus doutrinal, que procurou abordar os problemas centrais da sua e da nossa época.

As encíclicas de Leão XIII parecem ter sido escritas hoje e lidam com problemas que ainda perturbam a mente da sociedade moderna. Primordiais entre eles estão o papel da religião na sociedade e o problema do indiferentismo religioso, o papel do matrimônio e da família, o problema da criação de uma sociedade justa, e as ideologias que militam contra uma visão cristã da sociedade. 

Na modernidade, estamos acostumados a viver numa sociedade secular que exila a religião para a esfera privada. “Não falamos de Deus”, proclamou há alguns anos um político britânico de destaque. Nada poderia se opor mais à visão católica da sociedade tal como enunciada por Leão, particularmente em sua encíclica Immortale Dei. Embora a Igreja não tenha preferência por nenhum tipo de governo, toda autoridade na sociedade tem origem em Deus e está sujeita à lei divina

Apesar de Igreja e Estado serem domínios com funções distintas, Leão XIII afirma: 

Necessário é, pois, que haja entre os dois poderes um sistema de relações bem ordenado, não sem analogia com aquele que, no homem, constitui a união da alma com o corpo...: um tem por fim próximo e especial ocupar-se dos interesses terrenos, e o outro proporcionar os bens celestes e eternos (n. 19).

Portanto, é terrível para a Igreja defender um conjunto de valores enquanto o Estado arvora-se em princípios completamente opostos aos dela. Na sociedade moderna, todas as religiões são tratadas igualmente como verdadeiras, falsas ou com indiferença. A perspectiva da Igreja é radicalmente diferente. Leão XIII afirma que a obrigação de seguir a verdadeira religião vincula indivíduos e Estados: 

O maior de todos os deveres é abraçar de espírito e de coração a religião, não aquela que cada um prefere, mas aquela que Deus prescreveu e que provas certas e indubitáveis estabelecem como a única verdadeira entre todas. Assim também as sociedades não podem sem crime comportar-se como se Deus absolutamente não existisse, ou prescindir da religião como estranha e inútil, ou admitir uma indiferentemente, segundo seu beneplácito (n. 11). 

O Estado moderno, diz Leão:

não se julga jungido a nenhuma obrigação para com Deus, não professa oficialmente nenhuma religião, não é obrigado a perquirir qual é a única verdadeira entre todas, nem a preferir uma às outras, nem a favorecer uma principalmente; mas a todas deve atribuir a igualdade em direito, com este fim apenas, de impedi-las de perturbar a ordem pública (n. 32).

Relativamente à religião, pensar que é indiferente tenha ela formas disparatadas e contrárias equivale simplesmente a não querer nem escolher nem seguir qualquer delas (n. 37).

Esses ensinamentos parecem severos aos ouvidos modernos, mas realçam uma verdade essencial. A religião é importante. A religião professada por uma pessoa é importante. A religião professada pelos nossos governante é importante. Ela não é um assunto puramente neutro ou privado.

Igualmente inaceitável para o Papa Leão XIII é a prática — tão comum entre os políticos modernos! — de expressar em privado um conjunto de convicções religiosas e morais e outro em público. Como se estivesse prevendo a existência dos políticos contemporâneos [1], Leão XIII escreve o seguinte: 

Não é, tampouco, permitido ter duas maneiras de proceder: uma em particular e outra em público, de modo a respeitar a autoridade da Igreja na vida privada e a rejeitá-la na vida pública; isso seria aliar juntos o bem e o mal e pôr o homem em luta consigo mesmo (n. 59).

É necessário que um Estado tenha sólidos fundamentos religiosos. Mas isso não é tudo o que é necessário a uma ordenação adequada da sociedade. Um dos alicerces de qualquer sociedade estável e civilizada é a família baseada no casamento. A encíclica de Leão XIII Arcanum tinha por objetivo a defesa da união conjugal contra as ingerências de um Estado secular que a considerava apenas um contrato que poderia ser dissolvido como qualquer outro. Na encíclica Rerum Novarum, Leão XIII descreve a família como uma sociedade mais antiga que o Estado, que tem “certos direitos e certos deveres absolutamente independentes do Estado” (n. 6).

Na Arcanum, ele chama ao casamento base da união familiar, seu “início” e “fundamento”. Diz Leão XIII que o casamento “se deve dar somente entre dois, isto é, o homem e a mulher”; e que, “por vontade de Deus, o vínculo nupcial é tão íntima e fortemente unido, que ninguém entre os homens pode desfazê-lo ou rompê-lo” (n. 7). 

Essa afirmação pode não ter sido muito controversa em 1880, mas hoje Leão XIII seria denunciado por “discurso de ódio”. Numa época, porém, em que o “casamento gay” é autorizado pelo Estado e na qual já se fala em normalizar a chamada “não-monogamia consensual” [2], as palavras dele são mais relevantes e revigorantes do que nunca. 

O casamento é mais do que um contrato cujos termos podem ser ajustados para se adequar às preferências modernas. Nas palavras de Leão XIII: “Como o matrimônio seja, naturalmente, por sua própria natureza e força, uma coisa sagrada em tudo, é bem justo que seja regulado e moderado não pelo poder dos príncipes” (n. 29). Em outro ponto ele lança um alerta: “Ninguém se deve deixar impressionar por aquela distinção tão celebrada pelos regalistas com a qual distinguem o contrato nupcial do casamento, com a intenção de deixar o contrato em poder e arbítrio dos chefes de Estado, reservando para a Igreja as razões do sacramento” (n. 35). 

Antevendo a miséria que as leis de divórcio liberais causariam na sociedade, Leão XIII lamentou: 

Em verdade, é custoso ter necessidade de dizer quantas consequências funestíssimas encerra em si o divórcio. Pois por seu meio, tornam-se instáveis os matrimônios; diminui-se a benevolência mútua; prestam-se incitamentos perniciosos à infidelidade; causam-se prejuízos ao bem-estar e à educação dos filhos; dá-se ocasião à dissolução das sociedades domésticas; semeiam-se as sementes da discórdia entre as famílias... Por isso é claro que é um absurdo e uma loucura esperar a salvação pública dos divórcios, que levarão a sociedade à ruína certa (n. 46.54).

Deveríamos prestar atenção nessas palavras, pois as leis de divórcio sem culpa têm se tornado onipresentes em nações outrora conhecidas como cristandade. 

A verdadeira religião e a família fundada no matrimônio são base essencial para uma sociedade que busca o bem comum. Religião e família, porém, são cultivadas de forma mais eficaz no seio de uma sociedade justa do ponto de vista social. Hoje, o termo “justiça social” evoca imagens de esquerdistas agressivos promovendo uma agenda marxista que considera injusta a propriedade privada. Mas a perspectiva marxista ou socialista da propriedade coletiva é inteiramente contrária à imaginada por Leão XIII.

Em sua histórica encíclica Rerum Novarum, Leão XIII defendeu o direito fundamental do homem à propriedade, um direito resguardado pela lei natural. Porém, ele também deixa claro que é desejável que a propriedade seja distribuída da forma mais ampla possível e que, quanto maior o número de proprietários, melhor. A propriedade privada é necessária ao desenvolvimento da família, e todas as famílias devem adquirir propriedade a fim de transmiti-las aos filhos. No entanto, o Papa reconheceu que, na economia moderna, a aquisição de propriedade pode não ser fácil e que um homem, caso queira obter propriedade, deve receber um salário suficiente. Por isso, encorajou os empregadores a pagarem um salário justo para que o trabalhador pudesse garantir uma vida digna para si e para sua família:

O operário que receber um salário suficiente para ocorrer com desafogo às suas necessidades e às da sua família, se for prudente, seguirá o conselho que parece dar-lhe a própria natureza: aplicar-se-á a ser parcimonioso e agirá de forma que, com prudentes economias, vá juntando um pequeno pecúlio, que lhe permita chegar um dia a adquirir um modesto patrimônio. Já vimos que a presente questão não podia receber solução verdadeiramente eficaz, se se não começasse por estabelecer como princípio fundamental a inviolabilidade da propriedade particular. Importa, pois, que as leis favoreçam o espírito de propriedade, o reanimem e desenvolvam, tanto quanto possível, entre as massas populares (n. 28).

Leão XIII acrescenta:

O homem é assim feito: o pensamento de que trabalha em terreno que é seu redobra o seu ardor e a sua aplicação. Chega a pôr todo o seu amor numa terra que ele mesmo cultivou, que lhe promete a si e aos seus não só o estritamente necessário, mas ainda uma certa fartura. Não há quem não descubra sem esforço os efeitos desta duplicação da atividade sobre a fecundidade da terra e sobre a riqueza das nações. A terceira utilidade será a suspensão do movimento de emigração; ninguém, com efeito, quereria trocar por uma região estrangeira a sua pátria e a sua terra natal, se nesta encontrasse os meios de levar uma vida mais tolerável (n. 28).

Numa época em que muitos podem considerar difícil obter propriedade para si e em que ocorre imigração em massa entre países, as palavras de Leão XIII são especialmente relevantes.

Na Rerum Novarum, Leão XIII apresentou uma perspectiva de justiça social verdadeira. Porém, milita contra essa perspectiva a ideologia moderna do socialismo. Os socialistas, encorajados por uma falsa noção de igualdade, endossam a apreensão estatal da propriedade em nome da justiça para todos. Leão XIII denuncia isso de forma inequívoca, afirmando que “nem a justiça nem o bem público consentem que se danifique alguém na sua fazenda nem que se invadam os direitos alheios sob pretexto de que não há igualdade” (n. 21).

Dado que em 1891, ano da publicação da Rerum Novarum, ainda não havia existido um governo socialista, é bastante profética a previsão de Leão XIII a respeito do fracasso do socialismo na passagem abaixo:

Mas, além da injustiça do seu sistema, vêem-se bem todas as suas funestas consequências, a perturbação em todas as classes da sociedade, uma odiosa e insuportável servidão para todos os cidadãos, porta aberta a todas as invejas, a todos os descontentamentos, a todas as discórdias; o talento e a habilidade privados dos seus estímulos, e, como consequência necessária, as riquezas estancadas na sua fonte; enfim, em lugar dessa igualdade tão sonhada, a igualdade na nudez, na indigência e na miséria (n. 7).

Do mesmo modo, Leão XIII também critica o liberalismo laissez-faire, particularmente sua hostilidade à religião e às necessidades morais do trabalhador. 

No século XXI, a religião é considerada irrelevante e o casamento, reduzido a uma “preferência de estilo de vida”; condições sociais e econômicas tornam cada vez mais difícil a obtenção de propriedade, enquanto as ideologias liberal e socialista continuam a atacar os valores da civilização cristã. Neste contexto, não podemos senão restabelecer a ligação com os valores apresentados por Leão XIII, os quais poderiam formar a base para a reconstrução de nossa sociedade destroçada e lançar as sementes de uma contrarrevolução cristã.

Notas

  1. No texto original, o autor cita, nesta passagem, duas personalidades políticas de seu país: Nancy Pelosi e Joe Biden, ambos do Partido Democrata norte-americano. Preferimos omitir os nomes por se tratar de uma crítica específica do contexto dos Estados Unidos. Mas os leitores brasileiros podem fazer uma rápida pesquisa na internet sobre essas figuras e fazer os devidos paralelos com o que temos aqui (n.d.t.).
  2. Também aqui, o autor cita a iniciativa de um conselho profissional dos EUA, a Associação Americana de Psicologia (American Psychological Association), que dirige um grupo de trabalho sobre a “não-monogamia consensual”. Como o termo, infelizmente, também tem as suas ocorrências na língua portuguesa, preferimos manter a expressão e omitir o fato que, mais uma vez, só tem sentido dentro do contexto específico norte-americano (n.d.t.).

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Uma oração para os médicos
Oração

Uma oração para os médicos

Uma oração para os médicos

Oferecemos a nossos leitores tradução privada de uma oração, publicada por Pio XII, a ser recitada pelos médicos. Nela se pedem a Jesus Redentor, “Médico das almas e dos corpos”, as graças necessárias para o reto exercício dessa tão importante profissão.

Equipe Christo Nihil Praeponere30 de Julho de 2020Tempo de leitura: 1 minutos
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Oração dos médicos,
promulgada e indulgenciada [1]
pelo Sumo Pontífice Pio XII

Ó divino Médico das almas e dos corpos, Jesus Redentor, que durante a vossa vida mortal tivestes predileção pelos enfermos, curando-os com o toque da vossa mão onipotente, nós, chamados à árdua missão da medicina, Vos adoramos e em Vós reconhecemos o nosso excelso modelo e sustentáculo.

Guiai sempre nossa mente, coração e mãos, de modo que mereçamos o louvor e a honra que o Espírito Santo tributa ao nosso ofício (cf. Eclo 38).

Aumentai em nós a consciência de que somos, de algum modo, colaboradores vossos na defesa e no desenvolvimento das criaturas humanas, e instrumentos da vossa misericórdia.

Iluminai as nossas inteligências na áspera provação contra as inumeráveis enfermidades do corpo, a fim de que, valendo-nos retamente da ciência e seus progressos, não nos sejam ocultas as causas dos males nem nos induzam em engano os seus sintomas, mas possamos indicar com seguro juízo os remédios dispostos pela vossa Providência.

Dilatai com o vosso amor os nossos corações, de modo que, reconhecendo a Vós mesmo nos doentes, particularmente nos mais abandonados, respondamos com incansável solicitude à confiança que depositam eles em nós.

Fazei que, imitando o vosso exemplo, sejamos paternos no compadecimento, sinceros no aconselhamento, diligentes no tratamento, alheios à ilusão, suaves no prenúncio do mistério da dor e da morte; sobretudo, que sejamos firmes ao defender, contra os assaltos do egoísmo e dos instintos perversos, a vossa santa lei do respeito à vida.

Como médicos que nos gloriamos do vosso nome, prometemos que a nossa atividade se moverá constantemente na observância da ordem moral e sob o império das suas leis.

Concedei-nos, enfim, que nós mesmos, pela conduta cristã da vida e pelo reto exercício da profissão, mereçamos um dia escutar dos vossos lábios a beatificante sentença, prometida àqueles que Vos visitaram enfermo nos irmãos: “Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do Reino que vos está preparado” (Mt 25, 34). Assim seja.

10 de maio de 1957

Nosso Emin.º Sr., Papa por providência divina, Pio XII benignamente se dignou conceder aos médicos indulgência parcial de três anos sempre que, de coração contrito, recitarem devotamente a oração acima referida. Não obstante quaisquer disposições contrárias.

N. Card. CANALI, Penitenciário-Mor

S. Luzio, Regente

Notas

  1. De acordo com as normas para a concessão de indulgências, uma “indulgência anexa a alguma oração pode ganhar-se em qualquer língua em que se recite, desde que a tradução seja fiel, por declaração da Sagrada Penitenciaria ou de um dos ordinários ou jerarcas locais” (Enchiridion Indulgentiarum, n. 25). Como a tradução que aqui apresentamos é privada (feita por um aluno, a quem agradecemos a generosidade, e adaptada por nossa equipe), não goza da aprovação eclesiástica necessária à aquisição da indulgência a ela anexa. Os que quiserem lucrá-la, no entanto, podem encontrar a versão italiana original em AAS 49 (1957), p. 428.

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Santa Sofia e a Sabedoria que perdemos
Sociedade

Santa Sofia
e a Sabedoria que perdemos

Santa Sofia e a Sabedoria que perdemos

Sem a fé dos que as construíram, de nada adianta ter igrejas belíssimas. É triste dizê-lo, mas, com a transformação de Santa Sofia em mesquita, os muçulmanos só tomaram o que, já há muito tempo, nem nosso era.

Equipe Christo Nihil Praeponere30 de Julho de 2020Tempo de leitura: 8 minutos
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Calma! 

Ninguém aqui quer convocar uma “cruzada” ou algo do tipo pela retomada de Santa Sofia, a antiga igreja recém-convertida em mesquita (de novo!) pelo sr. Erdogan, presidente da Turquia… 

Esse texto é, antes, sobre a Άγια Σοφία (Hagia Sophia) propriamente dita, isto é, a Santa Sabedoria, a quem foi dedicada essa igreja. 

Interior de Santa Sofia, hoje.

Ao contrário do que poderia pensar alguém que lê a expressão pela primeira vez, não, não se trata de um “ente abstrato” e fantasioso, nem de uma mulher chamada Sofia, nem mesmo do dom do Espírito Santo: a basílica da antiga Constantinopla, então capital do Império Bizantino, foi dedicada no dia 25 de dezembro de 537 à Sabedoria que “se fez carne e habitou entre nós”, Jesus Cristo. É o templo cristão por excelência, poderíamos dizer, pois que consagrado não a este ou àquele santo, mas ao Santo dos Santos, por assim dizer, a fonte da própria santidade, a Segunda Pessoa da divina Trindade. Colocando de forma mais simples: estamos falando de um templo antiquíssimo, originalmente dedicado ao Deus verdadeiro.

Foi a Ele que perdemos em primeiríssimo lugar, muito antes de perder um mero templo religioso, por mais significativo que seja o seu valor histórico, artístico e cultural. Sim, nós perdemos a Santa Sabedoria. E isso significa que deixamos de ser sábios, tornamo-nos (com o perdão da palavra) burros, de modo que a palavra da Escritura nunca pareceu tão apropriada quanto à nossa época: Stultorum infinitus est numerus, “O número dos estultos é infinito” (Ecl 1, 15).

Emburrecemos já faz um tempo, e poderíamos trazer muitos fatos para ilustrá-lo. (Os jornais e noticiários estão cheios deles.) Mas resumamos o desastre identificando a sua causa: segundo S. Tomás (cf. STh II-II 15, 3), a cegueira da mente está intimamente associada aos vícios carnais, que são a gula e, ainda mais, a luxúria. Ou seja, é por ter-se rendido desenfreadamente aos prazeres do sexo, chegando a fazer uma “revolução” em maio de 1968, que a humanidade experimenta hoje um anestesiamento geral das consciências. Hipnotizadas, as pessoas se tornaram incapazes de elevar-se acima do que podem ver, tocar, sentir. Em consequência, a sua capacidade de compreender a verdade ficou comprometida. Nunca antes as ideologias floresceram com tanta força e ganharam tanta adesão, graças também aos modernos meios de comunicação. Os homens deixam-se seduzir pela primeira filosofia barata que aparece, estão alienados em relação à completude da realidade que os rodeia.

A própria perda de Santa Sofia (agora, do templo) é interpretada por nossos “especialistas” em termos meramente materialistas: segundo um portal de notícias, “ao mudar o status de museu histórico, o presidente Erdogan distrai atenção de eleitores dos graves efeitos econômicos da pandemia do novo coronavírus”. É o velho vício marxista de sempre: seja qual for a notícia, nossos intelectuais só sabem interpretá-las sob a lente do dinheiro. Na cabeça da elite ateia que detém os meios de comunicação, nada mais há além de jogos políticos de interesses e poder. E é até compreensível que eles pensem assim, porque é mais ou menos isto mesmo: por não haver Deus (na cabeça deles, é claro), todos querem ser deuses. (Eles, inclusive, são os primeiros: basta pensar no sr. Xi Jinping, presidente da China, que tem obrigado famílias cristãs que recebem auxílio do governo a trocar, em suas casas, Jesus por uma imagem ou dele mesmo ou de Mao Tsé-Tung.)

Trata-se de uma deformação da realidade, sim, mas só o enxerga, só o pode enxergar, quem olha para o mundo com os olhos da fé. Mesmo a luz natural da razão, devido ao pecado original, só consegue iluminar um pouco o homem; se ele está dominado pelos vícios, então, sobra bem pouca esperança.

Por isso, a reconstrução da civilização, muito antes da retomada de uma igreja em particular, como Santa Sofia, é obra daqueles que já têm esta, viva e ardente, habitando em seus corações. São os cristãos, os discípulos da Sabedoria encarnada; sem eles, que são o sal da terra e a luz do mundo, não há esperança alguma neste vale de lágrimas.

É evidente que os cristãos não são, por si mesmos, a salvação, mas apenas na medida em que se configuram a Cristo salvador, que é a divina Sabedoria. Por isso, o que nos resta é:

1. Rezar. Por muitos séculos os cristãos cantaram, no hino Adoro te devote, composto por S. Tomás de Aquino, os seguintes versos:

O memoriále mortis Dómini,
Panis vivus, vitam praestans hómini,
Praesta meae menti de te vívere,
Et te illi semper dulce sápere.

“Ó memorial da morte do Senhor,
Pão vivo, que dás vida ao homem,
Dá à minha alma de ti viver
E de ti ter sempre um doce saber.”

O verbo latino sapio, aqui no infinitivo, significa “saborear”, mas também é a palavra donde proveio a nossa “sabedoria”. Ou seja, aquilo que conhecemos através da fé, também precisamos saboreá-lo, e isso é feito através da oração contínua, frequente e perseverante. Precisamos rezar tanto quanto precisamos comer. Sem um trabalho de consideração, meditação, ruminação das verdades divinas, teremos sempre o horizonte limitado, estaremos sempre presos às nossas sensações, àquilo que esse mundo efêmero nos oferece… E, assim, passaremos também nós com as coisas do mundo.

2. Aceitar com alegria os sofrimentos que se nos apresentam. Que devamos conhecer e saborear o memorial da morte do Senhor, sabia-o também o Apóstolo São Paulo:

Também eu, quando fui ter convosco, irmãos, não fui com o prestígio da eloquência nem da sabedoria anunciar-vos o testemunho de Deus. Julguei não dever saber coisa alguma entre vós, senão Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado (1Cor 2, 1–2).

Esse último acréscimo do Apóstolo, aqui, não é ocioso: é preciso conhecer Cristo, mas Ele crucificado; isto é, o caminho para chegar a Ele nesta vida, o caminho para nos unirmos a Ele, é a cruz, o sofrimento, a provação. 

E não é que precisemos sair à procura de cruzes a carregar: as próprias circunstâncias da vida, cuidadosamente ordenadas por Deus, encarregam-se de nos trazer dificuldades muitas vezes suficientes. Talvez seja uma doença que descobrimos, que nos provoca dor, nos desconforta e debilita; talvez seja uma tragédia que se abateu sobre nossa família e que precisamos suportar com coragem; talvez seja a necessidade econômica, que nos priva do básico e quebra o orgulho. 

Colocando todas essas coisas na oração, como dissemos acima, vamos saber que Deus está por trás de tudo o que nos acontece; que, como diz o Beato Carlos da Áustria, “estamos nas mãos da divina Providência”e, portanto, “tudo o que nos acontece está bem”; que, de fato, “tudo concorre para o bem dos que amam a Deus” (Rm 8, 28); que só o que nos resta é confiar e saborear o zelo de Deus para conosco, que nos permite o mal para crescermos no bem. Assim, também estaremos testemunhando aos mais próximos como Deus nos governa com santa sabedoria.

3. Ter filhos. Se há uma sabedoria que precisamos resgatar com urgência — e está nas nossas mãos fazê-lo —, é aquela que Deus escreveu no próprio ser do homem e da mulher. Quando eles se unem, naturalmente nascem filhos! Redescobrir essa verdade óbvia, tão óbvia quanto o fato de a grama ser verde, é não só o remédio para os vícios da carne, de que nossa época padece de modo especial, mas também a receita para fortalecer a sociedade e a Igreja. (Os muçulmanos já estão fazendo a sua parte nesse sentido; se seus numerosos filhos seguirem a religião paterna, os átrios de suas mesquitas dificilmente ficarão vazios.)

4. Ensinar a fé. É claro que não basta ter filhos; importa sobretudo educá-los, e fazê-lo bem. O Papa Pio XI, na Encíclica “Casti Connubii” (que completa seu 90.º aniversário em dezembro próximo), ensina que os pais devem ser fecundos não apenas para, segundo a ordem divina, propagar e conservar na terra a família humana, tampouco para “educar quaisquer adoradores do verdadeiro Deus”, mas principalmente para “subministrar filhos à Igreja” e “propiciar concidadãos santos e familiares de Deus” (n. 14). Ou seja, uma vez instruídos pela divina Sabedoria, na vida de oração, na aceitação contínua e perseverante da vontade de Deus em nossas vidas, é preciso que passemos adiante o que recebemos.

Se fizermos esse quádruplo “dever de casa”, retomando em nossas próprias vidas a Santa Sabedoria que perdemos por nosso egoísmo e incredulidade, quem sabe em alguns anos não possamos retomar, também, o templo que há tanto tempo nos foi tirado pelos muçulmanos. Sem o primeiro passo, no entanto, qualquer conjectura de “reconquista” não passará de inútil esforço humano. 

A frase parecerá clichê, mas é verdadeira: a Santa Sabedoria que por tanto tempo habitou o templo de Constantinopla precisa voltar a habitar, primeiro, em nossos corações e nos de nossas famílias. Só poderemos pensar em retomar as igrejas que a Igreja tem perdido, não só na Turquia, mas na Europa inteira, no dia em que nos convencermos de que há um Deus verdadeiro pelo qual vale a pena dar não só uma hora dos nossos domingos, um bocado de dízimo ou uma novena em tempos de crise… Por Ele vale a pena gastar a nossa vida inteira, transformar os nossos maus hábitos, desfazer-nos de nossos apegos infantis e enfrentar com coragem a aventura desta breve vida.

Hoje, se os cristãos retomassem Santa Sofia, a única coisa que eles conseguiriam fazer seria transformá-la no que ela vinha sendo desde 1930: um museu, um “patrimônio histórico”. E nada mais. E também isso é de se lamentar. Não tanto quanto nos lamentamos, agora, pela islamização de Santa Sofia, é claro. Mas se o máximo que o Ocidente pode oferecer ao Deus verdadeiro é um museu; ou melhor, se o ente máximo de que devemos esperar algum reconhecimento é a UNESCO (que considerou Santa Sofia um “patrimônio histórico” da humanidade); se a máxima expressão da religiosidade moderna é um templo cristão dessacralizado, é porque já há muito perdemos a de nossos pais, que construíram a Basílica de Santa Sofia. 

E, sem a fé deles, de nada adianta ter igreja alguma. Só nos restarão ruínas e devastação.

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A história de São Cristóvão
Santos & Mártires

A história de São Cristóvão

A história de São Cristóvão

Conheça a história do santo que traz nas costas o Menino Jesus, desde sua conversão à fé cristã, passando pelos milagres que Deus realizou por suas mãos, um mais extraordinário que o outro, até a hora derradeira de seu martírio, na Lícia (atual Turquia).

Beato Tiago de VarazzeTradução: Hilário Franco Jr./Equipe CNP25 de Julho de 2020Tempo de leitura: 11 minutos
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A história abaixo, assim como muitas outras extraídas da Legenda Áurea, não constitui um “artigo de fé católica”. É preciso saber colher, em meio aos floreios do autor medieval, as lições espirituais que também os católicos de gerações passadas colheram ao ler linhas como essas. É válido notar, de qualquer modo, que o livro chama-se “legenda” não por ser uma coleção de mitos ou contos de fantasia; a expressão vem do verbo latino lego, “ler”, e significa simplesmente “coisas a serem lidas”. 

E porque é para serem lidas que as divulgamos, convencidos de que não é justo sonegar aos católicos de agora esses piedosos relatos da vida dos santos, só porque não se adequam aos critérios atuais de historiografia. É claro, ninguém precisa crer com fé católica que São Cristóvão tinha 5m de altura nem que as flechas lançadas contra ele se voltavam contra os seus algozes. Mas não nos esqueçamos também que o primeiro a realizar milagres foi Jesus de Nazaré; os Evangelhos, que contam inúmeros de seus prodígios, foram escritos muito tempo antes da Legenda Áurea; e nenhum dos seus milagres têm algo a temer ante a moderna “crítica científica”. Além do mais, Ele mesmo disse, de seus discípulos, que fariam obras muito maiores que as que Ele realizou (cf. Jo 14, 12). 

Por isso, ao mesmo tempo que não parece razoável dar crédito a tudo o que abaixo vai escrito, não é atitude sadia descartar tudo como se fosse lenda. Se o Padre Pio, em nossa época cética, realizou tantos milagres, para perplexidade de todos, por que não poderiam ter feito o mesmo, em seu tempo, S. Antônio de Pádua, S. Francisco de Paula e, com eles, S. Cristóvão?


Cristóvão, antes do batismo, chamava-se Réprobo, mas depois passou a ser “Cristóvão”, que quer dizer Christum ferens, “aquele que carrega Cristo”, pois o carregou de quatro maneiras: sobre as costas para transportá-lo; em seu corpo, por meio dos tormentos; em sua mente, por meio da devoção; em sua boca, por meio da confissão ou da pregação.

Cristóvão, cananeu de berço, gigante em estatura e terrível de aspecto, tinha mais de cinco metros de altura. O qual, como se lê em seus feitos, ao se apresentar um dia ao rei dos cananeus, teve a ideia de procurar o maior rei do mundo, com ânimo de o servir. Apresentou-se pois a um certo rei, do qual corria a fama de não haver no mundo outro maior. O rei, vendo Cristóvão, recebeu-o de bom grado em sua corte. 

“São Cristóvão da Lícia”, de Lucas Cranach, o Velho.

Certa feita, um jogral cantava diante dele uma canção em que frequentemente mencionava o diabo. O rei, como fosse cristão, sempre que ouvia alguém falar do diabo, benzia-se logo com o sinal da cruz. Admirado com o gesto, perguntou-se Cristóvão o que significaria aquele sinal. O rei, porém, negou-se a responder. Cristóvão atalhou: “Se não mo disseres, não permanecerei mais em tua corte”. Assim pressionado, disse-lhe o rei: “Traço este sinal sempre que ouço alguém mencionar o diabo, com medo de que ele se apodere de mim e me faça mal”. Cristóvão disse: “Ora, se temes que te faça mal o diabo, é porque ele, por quem mostras ter tanto medo, é maior e mais forte do que tu. Enganei-me, portanto, julgando ter encontrado em ti o maior e mais poderoso senhor do mundo. Adeus! Quero agora encontrar o diabo, para tê-lo como senhor e tornar-me seu escravo”. 

Cristóvão deixou o rei com o fito de achar o quanto antes o diabo. Como passasse por um ermo, viu uma grande multidão de soldados, um dos quais, feroz e terrível, lhe veio ao encalço e perguntou aonde se dirigia. Respondeu-lhe Cristóvão: “Procuro o diabo, para tê-lo como meu senhor”. Respondeu o soldado: “Eu sou aquele a quem procuras”. Satisfeito, Cristóvão entregou-se-lhe como servo perpétuo, tomando-o como seu senhor. 

Andando juntos pelo mesmo caminho, toparam com uma cruz erguida na estrada. O diabo, assim que a viu, fugiu aterrorizado e, desviando-se do caminho, conduziu Cristóvão por um atalho acidentado, antes de voltar com ele para a estrada. Admirado de ver aquilo, Cristóvão perguntou ao diabo por que tivera tanto medo, a ponto de deixar uma estrada plana para seguir um desvio tão desolado. Como o diabo se recusasse a responder, disse-lhe Cristóvão: “Se não mo disseres, deixar-te-ei agora mesmo”. O diabo, pressionado, respondeu: “Um homem chamado Cristo foi pregado a uma cruz, cujo sinal, sempre que o vejo, causa-me pavor, e fujo aterrorizado”. Cristóvão disse: “Então este Cristo, cujo sinal tanto temes, é maior e mais poderoso do que tu! Em vão trabalhei, sem ter encontrado até agora o maior rei do mundo. Adeus! Quero deixar-te agora e procurar este Cristo”.

Cristóvão buscou por muito tempo quem o informasse sobre Cristo, até que finalmente encontrou um eremita, que lhe pregou Cristo e o instruiu na fé cristã. Disse o eremita a Cristóvão: “Este rei a quem desejas servir pede este obséquio: que jejues com frequência”. Atalhou Cristóvão: “Peça-me Ele outra coisa, porque esta, nunca serei capaz de a cumprir”. Prosseguiu o eremita: “Será necessário que ores muito”. Disse Cristóvão: “Não sei o que isso quer dizer nem sou capaz de o fazer”. O eremita: “Conheces o rio em que muitos transeuntes se arriscam e morrem?” Cristóvão: “Conheço”. E o eremita: “Como és homem forte e de grande estatura, se fizeres casa perto deste rio, ajudando todos a atravessá-lo, estou certo de que agradarás a Cristo, a quem desejas servir como rei, e espero que ali mesmo Ele se há de manifestar a ti”. Respondeu Cristóvão: “Isso, sim, sou capaz de fazer, e prometo dedicar-me a tal serviço”. Cristóvão foi até o rio, ergueu ali uma choupana e, utilizando como báculo um tronco de pinheiro, com o qual se mantinha em pé dentro d’água, não se cansava de passar todos de um lado para o outro.

Passados muitos dias, enquanto repousava em sua cabana, pareceu-lhe ouvir a voz de uma criança, que o chamava dizendo: “Cristóvão, vem cá fora! Leva-me para o outro lado!” Cristóvão saiu sem demora, mas não viu ninguém. De volta à choupana, ouviu novamente a voz que o chamava. Correu outra vez para fora, mas sem encontrar ninguém. Chamou-o a voz pela terceira vez, e Cristóvão saiu, encontrando às margens do rio uma criança a pedir insistentemente que lhe fizesse a travessia. Cristóvão a pôs sobre os ombros, pegou do báculo e entrou no rio para atravessá-lo. A água, porém, ia subindo a pouco e pouco, enquanto a criança pesava como se fôra chumbo. Quanto mais avançava, mais a água subia e mais a criança oprimia, com peso intolerável, os ombros de Cristóvão, que se assustou a ponto de temer afogar-se. Mas com grande esforço escapou, atravessou o rio, colocou a criança na margem e disse-lhe: “Pequeno, tu me puseste em grandes apuros! Pesaste-me tanto que, mesmo que tivera sobre mim o mundo inteiro, não poderia carregar peso maior”. “Não te espantes”, atalhou a criança, “tu tiveste sobre os ombros não só o mundo inteiro, mas também o Criador do mundo. Eu sou Cristo, teu Rei, a quem tens servido nesta obra. E para mostrar que digo a verdade, quando voltares, enfies na terra o teu bastão ao lado de teu casebre, e pela manhã o verás florescido e prenhe de frutos”. Dito isso, desapareceu. Ao retornar, Cristóvão meteu o bastão na terra e, ao levantar-se de manhã, o encontrou carregado de folhas e tâmaras, como se fôra uma palmeira.

Em seguida, partiu rumo a Samos, cidade da Lícia, cuja língua ignorava. Rezou por isso ao Senhor, pedindo lhe concedesse compreender aquele idioma. Obtida a graça, dirigiu-se Cristóvão ao lugar em que os cristãos costumavam ser torturados, para os confortar em nome do Senhor. Um dos juízes daquela terra, que o vira pouco antes em oração, julgando-o fora de si, feriu-lhe o rosto. Mas Cristóvão respondeu: “Se eu não fôra cristão, vingaria já esta afronta”. Cristóvão meteu o bastão na terra e rogou ao Senhor que o fizesse verdejar, a fim de converter aquele povo. Atendida a prece, converteram-se na mesma hora cerca de oito mil homens. 

O rei mandou duzentos soldados trazerem Cristóvão diante de si. Como o surpreendessem em oração, tiveram medo de o intimar. O rei porém enviou outros soldados, que, encontrando-o na mesma posição, juntaram-se às suas preces. Ao se levantar, Cristóvão perguntou: “Que procurais?”, ao que responderam: “O rei nos enviou para levar-te preso à sua presença”. Cristóvão disse: “Se eu quisesse, não poderíeis levar-me nem solto nem amarrado”. Eles então replicaram: “Se não queres acompanhar-nos, segue teu caminho. Quanto a nós, diremos ao rei que não te pudemos achar”. Cristóvão respondeu: “Não. Eu irei convosco”. Ele então os converteu à fé, mas insistiu que lhe atassem as mãos às costas e o levassem preso.

Ao vê-lo, o rei, muito perturbado, caiu do trono. Uma vez recomposto com a ajuda de seus escravos, perguntou pelo nome e a terra do recém-chegado. Cristóvão respondeu: “Antes de ser batizado, conheciam-me como Réprobo; mas, desde então, sou chamado de Cristóvão”. Disse-lhe o rei: “Por que te dás o nome deste Cristo crucificado, que não salvou nem a si mesmo nem pode salvar-te a ti? Maldito cananeu! Por que não sacrificas aos nossos deuses?” Cristóvão: “Com muita razão te chamas Dagnus [1], pois és a morte do mundo, o sócio do diabo. Teus deuses são obra de mãos humanas”. O rei: “Porque foste educado entre as feras, por isso não te portas senão como selvagem, ignorante da linguagem dos homens. No entanto, se sacrificares, receberás de mim grandes honrarias; do contrário, hás de morrer com suplícios!” Como Cristóvão se recusasse a sacrificar, Dagnus mandou lançá-lo no cárcere e arrancar a cabeça aos soldados que aceitaram o nome de Cristo.

Ato contínuo, mandou à prisão duas belas moças, uma chamada Nicéia e outra, Aquilínia, prometendo-lhes muitos presentes se lograssem fazer Cristóvão pecar com elas. Assim que as viu, Cristóvão pôs-se em oração. Como porém as moças o perseguissem com afagos e abraços, levantou-se e disse: “Que quereis e por que motivo fostes introduzidas aqui?” Espantadas com o brilho de seu rosto, disseram-lhe: “Tem piedade de nós, santo de Deus, pois queremos crer no Deus que tu pregas!” Ao saber disso, o rei as trouxe de volta e disse: “Acaso vos deixastes seduzir? Juro pelos deuses que, se não sacrificáreis a eles, haveis de morrer uma péssima morte!” Elas responderam: “Se queres que sacrifiquemos, manda limpar as praças e reunir todos no templo”. Feito isso, as duas entraram no templo, desataram os cintos, puseram-nos em volta do pescoço dos deuses, que caíram despedaçados, enquanto diziam elas aos assistentes: “Chamai agora os médicos para curar os vossos deuses!” Então, por ordem do rei, Aquilínia foi suspensa e a seus pés, atada uma pedra enorme, deslocando-lhe todos os membros. Depois de Aquilínia partir para o Senhor, foi a vez de sua irmã, Nicéia, ser lançada no fogo. Como porém dele saísse ilesa, foi prontamente decapitada.

Depois disso, Cristóvão foi levado à presença do rei, que mandou açoitá-lo com varas de ferro e lhe meter na cabeça um elmo incandescente. Em seguida, amarraram-no a um banco de ferro, sob o qual se acendeu um fogo alimentado por piche. O banco porém derreteu como cera, e Cristóvão saiu ileso. Depois, o rei mandou que o amarrassem a um poste, para servir de alvo às flechas dos soldados. Todas elas porém ficaram suspensas no ar, perto dele, sem o atingir. Ora, julgando o rei que Cristóvão fôra atingido pelas flechas, começou a insultá-lo quando, de repente, uma delas se voltou contra o próprio rei, acertando-lhe bem no olho. Cristóvão então disse: “Amanhã estarei morto, tirano. Tu porém faz lama com o meu sangue e esfrega com ele o teu olho. Assim hás de recuperar a luz”. O rei mandou decapitá-lo. Cristóvão perdeu a cabeça enquanto se mantinha em profunda oração. O rei, como ordenado, pegou um pouco de sangue e esfregou o olho com ele, dizendo: “Em nome de Deus e de São Cristóvão”, e ficou curado no mesmo instante. O rei converteu-se e publicou um édito pelo qual todo o que blasfemasse contra Deus e São Cristóvão seria imediatamente punido pela espada.

Ambrósio, em seu prefácio, refere-se a este mártir nos seguintes termos:

O Senhor cumulou Cristóvão de tanta virtude e graça na doutrina, que ele afastou 48 mil homens do erro do paganismo, trazendo-os para o dogma cristão, por meio de milagres que abalaram o culto anterior. Nicéia e Aquilínia, por muito tempo praticantes do meretrício em lupanar público, foram levadas da imundície à castidade por Cristóvão, que lhes ensinou ainda a receber a coroa do martírio. Mesmo amarrado a um banco de ferro no meio de uma fogueira, ele não sofreu com o calor e, mesmo alvejado por guerreiros durante um dia inteiro, não foi atingido pelas flechas. Depois que uma delas perfurou o olho de seu torturador, o sangue do bem-aventurado mártir, misturado à terra, devolveu-lhe a luz e, além de curar a cegueira corporal, iluminou a sua mente. Foi de vós, Senhor, que ele recebeu a graça de defender contra doenças e enfermidades os que suplicarem a ele

Referências

  • Texto retirado de Jacopo de Varazze, Legenda áurea: vidas de santos. Trad. de Hilário Franco Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, pp. 571–575, e adaptado passim para esta publicação.

Notas

  1. Dagnus resulta provavelmente de um jogo de palavras com damnose (“condenável”, “prejudicial”) ou damnum (“dano”, “perda”).

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