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Lutero contra Santo Tomás
Doutrina

Lutero contra Santo Tomás

Lutero contra Santo Tomás

Martinho Lutero não se rebelou contra um Papa corrupto, nem contra um clero imoral. Sua verdadeira revolta foi contra um discreto frade dominicano, falecido havia mais de duzentos anos: Santo Tomás de Aquino.

Dale AhlquistTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere9 de Janeiro de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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Recebi algumas críticas por um texto meu sobre a Reforma Protestante, porque sugeri que ela foi iniciada por protestantes. Aparentemente, não passei muito tempo atacando a Igreja Católica, que, como todos sabem, teria sido responsável pelo surgimento de Martinho Lutero e companhia limitada. 

Portanto, sejamos claros: há quinhentos anos, havia muita corrupção na Igreja Católica. Bispos e abades acumulavam dinheiro e tinham amantes abertamente, e usavam seu privilégio eclesiástico para ganhar poder político. A venda de indulgências havia saído do controle e causou incontáveis danos não apenas à verdadeira piedade, mas ao entendimento correto do Purgatório e das orações pelos defuntos. Foi um escândalo que abrangeu toda a cristandade.

No entanto, não foi apenas Lutero que falou claramente contra essa situação. Santa Catarina de Siena, Santa Brígida da Suécia e outros confrontaram a hierarquia corajosamente e, em alguns casos, com muita eficácia. Três séculos e meio antes, um pequeno frade chamado Francisco de Assis fez uma reviravolta numa Igreja mundana simplesmente ao escolher viver sua própria vida de acordo com o que Jesus pregou nos Evangelhos. O resultado? Uma reforma genuína.

Lutero teve a oportunidade de se tornar um dos maiores santos da história da Igreja. Porém, ele não acreditava estar reformando a Igreja apenas por necessidade de uma limpeza interna. Ele disse explicitamente que não devemos condenar uma doutrina porque o homem que a prega leva uma vida pecaminosa. Ao contrário: “O Espírito Santo… é paciente com os que são fracos na fé, como é ensinado em Rm 14, 15… Eu teria pouquíssimas coisas contra os papistas se eles ensinassem a verdadeira doutrina. Sua vida perversa não causaria nenhum mal significativo.” 

São palavras ditas pelo próprio reformador. Ele não se separou da Igreja Católica por causa de sacerdotes e bispos que se portavam de forma inadequada. Ele pensava e ensinava que a doutrina católica era falsa. Rejeitava o Magistério, a autoridade doutrinal da Igreja. 

Se os bispos tivessem rasgado suas batinas e se coberto com sacos e cinzas, isso poderia ter feito um bem enorme para a Igreja e o mundo, mas não há nenhuma evidência de que teria feito Lutero mudar de ideia, porque o que ele tinha em mente era uma nova teologia

Hipócritas que afastaram potenciais seguidores de Cristo ao longo da história da Igreja. Isso ainda acontece. Mas o argumento para por aí. Se o incrédulo quer culpar bispos corruptos por suas próprias dúvidas a respeito da veracidade da fé católica, por que não é atraído novamente para a Igreja pelo testemunho dos santos? Por que São Francisco de Assis, Santa Catarina de Siena ou, mais recentemente, Santa Teresa de Calcutá não são suficientes para fazer com que ele supere suas dúvidas sobre a Igreja? Santos inspiram santidade porque são santos. Rebeldes inspiram rebelião, até contra si. A santidade é sempre uma opção melhor do que a ruptura com a Igreja fundada por Jesus Cristo e levada adiante pelos Apóstolos escolhidos por Ele. Foi essa Igreja que construiu a cristandade.

Mas, como apontou um observador, Martinho Lutero não se rebelou contra um Papa corrupto, mas contra um discreto frade dominicano, falecido havia mais de duzentos anos: Santo Tomás de Aquino.

Chesterton diz: “A essência da doutrina tomista era a confiabilidade da Razão; a essência da doutrina luterana é a completa inconfiabilidade dela.”

Santo Agostinho, verdadeiro santo e gigante entre os convertidos, era limitado sob certo aspecto. Ele só conhecia a filosofia de Platão. Santo Tomás introduziu Aristóteles na filosofia cristã, mas os agostinianos platonistas nunca aceitaram isso. Abordavam a realidade objetiva de um modo diferente. Um desses agostinianos era um monge chamado Martinho Lutero. Chesterton argumenta que a Reforma foi na verdade a revanche dos platonistas. Poderíamos dizer que ela começou com uma diferença de ênfase, ou que teve início como uma discussão entre monges, mas a ênfase de Lutero na emoção em lugar da razão, na verdade subjetiva em lugar da objetiva e, infelizmente, no determinismo em lugar do livre-arbítrio, abriu as portas para um ataque não apenas à escolástica, mas à filosofia como um todo.

O luteranismo, diz Chesterton, 

tinha uma teoria que era a destruição de todas as teorias; na verdade, tinha sua própria teologia que era, ela própria, a morte da teologia. O homem não podia dizer nada a Deus, de Deus ou sobre Deus, a não ser proferir uma súplica inarticulada por misericórdia e pela ajuda sobrenatural de Cristo, num mundo em que todas as coisas naturais são inúteis. A razão era inútil; a vontade também. O homem não podia mover-se alguns centímetros, assim como uma pedra não pode fazê-lo. O homem não podia confiar no que estava em sua mente, assim como um nabo não pode fazê-lo. Não sobrava nada na terra ou no céu, exceto o nome de Cristo elevado naquela imprecação solitária; terrível como o grito de um animal em agonia.

Santo Tomás e Lutero são “as dobradiças da história”, e Lutero conseguiu se tornar um problema grande o suficiente para ofuscar a imensa figura de Santo Tomás. “Lutero de fato inaugurou o espírito moderno de dependência de coisas que não são simplesmente intelectuais.” Tinha uma personalidade forte. Era um brigão. Alegava ter autoridade sobre a Sagrada Escritura e a alterou por conta própria, acrescentando uma palavra aqui e outra ali em sua própria tradução a fim de acomodar sua própria teologia. Quando confrontado com o ato, “contentou-se em gritar para os questionadores: ‘Digam a eles que o Dr. Martinho Lutero assim o deseja!’ É o que chamamos hoje de Personalidade… Ele destruiu a Razão e substituiu a Sugestão.”

Lutero e todos os outros reformadores não podem culpar a Igreja pelas consequências de seus próprios atos. É normal falar da corrupção de certos bispos na Alemanha, mas parece que ninguém quer discutir a verdadeira heresia de Lutero e tudo o que aconteceu na sua esteira, desde a fragmentação do cristianismo em milhares de denominações à desintegração da filosofia em uma especulação independente, limitada e bizarra após a outra, porque perdemos o simples bom senso, a razão e a realidade que outrora foram articulados de forma tão clara por Santo Tomás.

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O pecado é popular, falar sobre ele nem tanto
Doutrina

O pecado é popular,
falar sobre ele nem tanto

O pecado é popular, falar sobre ele nem tanto

Quando deixamos de falar do pecado em nossa doutrina, criamos uma quimera incontrolável. Se não entendemos o que é o pecado, certamente não compreenderemos o perdão. E isso é problemático.

Dale AhlquistTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere9 de Janeiro de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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O pecado é problemático. Há alguns anos, dei uma conferência numa universidade que, apesar de não ser católica, tinha uma clara identidade cristã e reputação de ser fiel aos ensinamentos e tradições de sua denominação. Numa aula de teologia, falei sobre o meu escritor favorito e citei o trecho de Ortodoxia no qual Chesterton diz que o pecado original é a única doutrina que podemos provar. Basta olharmos ao nosso redor, pois a evidência está por todos os lados.

Expliquei que o pecado é uma separação. É a ruptura do relacionamento entre o Homem e Deus, e a obra de Cristo é restaurar essa relação para que possamos entrar em comunhão com Deus novamente. Chesterton diz que, quando defendemos a fé cristã, o ponto de partida óbvio é falar sobre o pecado. O mundo pode tentar negar que Deus e Cristo são reais, mas não pode negar a realidade do pecado. Mas ele também diz que a nova teologia faz exatamente isto: nega de forma astuciosa a existência do pecado. Ele dá o exemplo de um homem que está esfolando um gato vivo. Uma pessoa normal que testemunhasse tal atitude chegaria a uma destas duas conclusões: ou que Deus não existe ou que a união entre Deus e o Homem não existe. Em outras palavras: o pecado existe.

Porém, o novo teólogo contorna esse dilema. Ele não se importa em negar a existência de Deus ou do pecado. Ele nega a existência do gato. Chamei a atenção para o fato de que o exemplo de Chesterton, embora seja a um só tempo horripilante e engraçado, é também profético. Se um médico pode despedaçar um bebê no ventre materno, de duas uma: ou não há Deus algum, ou a união entre Deus e o Homem está rompida. No entanto, o mundo moderno evita essas duas conclusões e simplesmente nega a existência do bebê

O que me deixou assustado quando disse isso aos estudantes foi o fato de eles não terem ficado perplexos. Pareciam ter entrado num estado de completa confusão, letargia e paralisia catatônica. Depois da palestra, o professor me disse em tom de desculpa: “Ninguém fala mais sobre pecado.” Creio que ele não seja popular.

Naturalmente, em quase todas as outras universidades, o pecado é a coisa mais popular do campusmas apenas como atividade, não como tema de debate teológico. Porém, quando o cometem ou o debatem, as pessoas não o chamam pelo nome. Ora, se não falam sobre pecado numa escola cristã — e menos ainda numa aula de teologia —, elas conversam sobre o quê? E se não falam do pecado, elas também não mencionam a confissão — algo compreensível numa escola protestante —, mas, se não abordam o pecado ou a confissão, elas tampouco podem falar sobre perdão. Realmente, Cristo não tem nada a ver com isso.

Quando deixamos de falar do pecado em nossa doutrina, criamos uma quimera incontrolável. Se não entendemos o que é o pecado, certamente não compreenderemos o perdão. E isso é problemático. É um problema bem narrado por Chesterton numa das melhores histórias do Padre Brown. Ao investigar um velho crime, o humilde sacerdote-detetive descobre que as pessoas estavam se ofendendo com suas indagações, pois, embora tivesse sido algo realmente grave, o crime fora praticado há muito tempo. Padre Brown é instado a ficar longe do suspeito e deixá-lo em paz. Claro, ele provavelmente é culpado, mas o sacerdote não poderia mostrar um pouco de compaixão e simplesmente deixar aquilo de lado? O suspeito já não tinha sofrido o bastante?

Porém, o padre não desiste. Quer saber a verdade. Afinal de contas, é uma história de suspense. Então, ele resolve o crime descobrindo um delito pior ainda. Quando revela às pessoas o verdadeiro crime, todos ficam aterrorizados. De repente, voltam-se contra o criminoso que estavam protegendo. Ficam aborrecidos e decidem se afastar dele. Mas o Padre Brown os choca novamente quando explica que terá de ouvir a confissão do homem. “Como o sr. pode perdoá-lo depois do que fez?” O sacerdote explica que esse é o seu ofício e que os assim chamados simpatizantes compassivos só querem perdoar pecados que pensam não ser pecados.

É uma reviravolta que descreve a atitude contemporânea em relação ao pecado. Primeiro: ele não existe, e os católicos que o mencionam gostam de julgar o próximo. Segundo: algumas coisas são absolutamente inaceitáveis, e os católicos seriam ingênuos se achassem que elas podem ser perdoadas. O pecado só pode ser negado até o ponto em que se revela inegável. Mas, se para algumas pessoas esse é um ponto de desespero, para outras, todavia, a experiência da realidade do mal pode ter o efeito surpreendente de levá-las a enxergar essa mesma realidade nelas mesmas e, assim, suplicar a misericórdia de Deus.

O que acontece se não confessamos os nossos pecados? São Roberto Belarmino diz que a punição para o pecado é… o pecado. Se ele é a ruptura com Deus, então, a insistência no pecado preserva essa separação. Além disso, também nos torturamos quando pecamos. Tornamo-nos escravos do mais cruel dos mestres. 

É apenas quando somos salvos dos nossos pecados que interrompemos a espiral descendente do pecado. Uma das coisas que atraiu Chesterton para a Igreja Católica foi o sacramento da Confissão. Ele sabia que uma Igreja da qual a Confissão era componente essencial certamente tinha um credo fundamentado na verdade. O pecado é uma mentira, e confessá-lo significa dizer a verdade. O pecado é uma prisão, e o confessionário é a forma de sair dela. Cristo, a própria Verdade, veio para nos libertar.

Ah, e se quiser saber de qual história do Padre Brown estou falando, não lhe direi. Leia todas!

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Reações proféticas à encíclica do Papa sobre contracepção
Doutrina

Reações proféticas
à encíclica do Papa sobre contracepção

Reações proféticas à encíclica do Papa sobre contracepção

Há noventa anos, um Papa condenou a contracepção de forma inequívoca. As diversas reações ao documento papal revelaram-se proféticas, infelizmente para o mal. Porém, um leigo comentou a encíclica de forma brilhante.

Dale AhlquistTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere9 de Janeiro de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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É interessante revisitarmos as diversas reações à encíclica do Papa sobre contracepção. Encontrei as que transcrevo abaixo. Creio que elas falam por si e quase não requerem quaisquer comentários adicionais, a não ser para dizer como as coisas mudaram pouco.

Um líder de uma associação das principais denominações protestantes disse que “é a encíclica mais importante já promulgada em toda a história da sucessão papal”. Também disse: “Fico feliz por esse pronunciamento ser tão claro e rigoroso”. Ele estava feliz porque as pessoas tinham de ser favoráveis ou contrárias à encíclica. Não havia meio-termo.

E por que isso o deixou feliz?

“O documento marcará uma nova era para a ampla e profunda revolta contra o controle eclesiástico. Ele praticamente provocará uma revolta no interior da Igreja Católica Romana.” Ele disse que esse esforço da Igreja, com seu “domínio autocrático” para interferir em assuntos privados e íntimos, a deixará mais próxima de um inevitável colapso. O emprego do “poder hierárquico” com certeza seria recebido com “repúdio e indignação” pelos próprios católicos.

Em outras palavras, ele estava satisfeito com a clareza de posição da Igreja Católica, pois assim todos — inclusive os protestantes — poderiam rejeitá-la. Não havia meio-termo. E ele também previu que os católicos a rejeitariam.

Uma líder feminista disse que a Igreja havia se posicionado “diretamente contra o progresso”. Disse que a mensagem da encíclica era: “Prossiga e tenham um filho a cada ano, não importa se você é muito pobre e não tem condições de lhes dar um lar decente; não importa se nascerão doentes ou com alguma debilidade mental; não importa se nascerão deformados. O controle de natalidade é um crime terrível em quaisquer circunstâncias.” Ela disse que a denúncia do Papa sobre a contracepção provocaria mais pobreza e mais doenças. E elogiou congregações protestantes e judaicas que já haviam aprovado oficialmente a contracepção.

Um médico disse que o documento era “confuso”, particularmente quando falava da saúde e do bem-estar da mãe. Ele discordava da encíclica, que afirmava que a contracepção é contrária à natureza, e observou que a queda da taxa de natalidade entre católicos era um sinal de que a regra era “mais desobedecida do que seguida”.

Um pastor de uma igreja sem denominação de Nova York afirmou que a encíclica era um exemplo de “uma mentalidade do século X aplicada a problemas do século XX. Jamais chegaremos a lugar algum em relação ao matrimônio ou a qualquer outro assunto retornando a Santo Agostinho. A interpretação que o Papa faz do casamento é pura mitologia... Sua denúncia do controle de natalidade é intolerante.” 

Um porta-voz de uma organização atéia disse que o documento era uma evidência do fracasso da Igreja no reconhecimento de que a moral passa por mudanças. “A contracepção veio para ficar, e se a Igreja se recusa a aprová-la, pior para ela.” Ele observou que o número de mulheres católicas que já praticavam a contracepção era igual ao de protestantes ou judias.

Curiosamente, quando muitos bispos e sacerdotes foram instados a comentar o assunto, negaram-se a fazê-lo. No entanto, um proeminente leigo da Inglaterra aceitou ser entrevistado. Ele disse que a encíclica “nos obriga a enfrentar diretamente a seguinte questão: se o mundo seria realmente mais feliz vivendo na anarquia sexual defendida pela minoria barulhenta, ou se vivendo em conformidade com as regras prescritas pela Igreja”.

Ele argumentava que todos os problemas relacionados à sexualidade não resultavam “da aplicação da moralidade católica, mas do abandono dela”.

Quando lhe inquiriram sobre a impressão geral de que a doutrina da Igreja autoriza um marido a fazer o que bem entender com sua mulher e a desprezá-la, respondeu: “Alguém que supõe que isso seja verdadeiro, não interpreta mal apenas a doutrina católica, mas o espírito do cristianismo em sua integralidade. São Pedro disse: ‘Honrai a todos.’ Estamos mil vezes mais obrigados a honrar todas as mulheres, particularmente as nossas esposas.”  

Ele disse o seguinte sobre a insinuação de que a encíclica era “cruel” com as mulheres: “Com certeza a Igreja não está sendo cruel ao admoestar as mulheres a terem em devida consideração as suas obrigações como esposas e mães, e a não serem arrogantes e estéreis por negligência à consciência católica e à honra.” A essa grande verdade ele acrescentou simplesmente: “A querela entre os sexos não é provocada pela Igreja. Ela ocorre porque não se leva a sério o conselho da Igreja, que diz ao marido: ‘Honra tua mulher’, e à mulher: ‘Honra teu marido.’”

Também lhe perguntaram se o problema poderia resolver-se sozinho, partindo da seguinte premissa: as pessoas que praticam o controle de natalidade não deixariam de fazê-lo e as que não o praticam também não mudariam de postura; assim, os incrédulos não teriam filhos e as pessoas religiosas teriam. A resposta dele foi ainda mais simples: “Os mansos possuirão a terra.”   

Eu disse que essa encíclica foi publicada 38 anos antes da Humanae Vitae? Refiro-me à Casti Connubii (“Sobre o Matrimônio Cristão”). O Papa era Pio XI; o ano, 1930.

O leigo era G. K. Chesterton.

Notas

  • A imagem acima é obra de Giovanni Gasparro e chama-se justamente “Casti connubii” (óleo sobre tela, 2013).

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Entre numa boa briga em 2020!
Igreja Católica

Entre numa boa briga em 2020!

Entre numa boa briga em 2020!

Entre numa “boa briga” neste ano de 2020: debata com alguém sobre a fé católica, convença uma pessoa que não crê, traga alguém para a verdade que Deus tão misericordiosamente nos deu a conhecer.

Dale AhlquistTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere7 de Janeiro de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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É hora de os católicos começarem a discutir. Não entre si, pois já fazem isso. É hora de debaterem com não católicos. E não sobre política e esporte, mas sobre religião, sobre os grandes temas, sobre a fé católica.

Digo isso porque acabei de ver os resultados de uma pesquisa sobre religião, publicada pelo Pew Research Center. Uma das perguntas feitas foi: “Em sua opinião, qual é a melhor coisa a se fazer quando alguém discorda de você em matéria de religião?”

As opções de resposta eram:

  1. Tentar persuadir a outra pessoa a mudar de ideia.
  2. Tentar entender a crença da outra pessoa e aceitar a discordância.
  3. Evitar discutir sobre religião.

Foram entrevistados protestantes (das mais diversas denominações), católicos e ateus/agnósticos.

Em média, 5% escolheram a primeira opção, 67% a segunda e 27% a terceira. Em outras palavras, dois terços da população não têm medo de debater sobre religião com alguém que discorda deles, mesmo que o único resultado seja manifestar as suas diferenças. Quase um terço evita qualquer discussão sobre o tema. Uma pequena minoria dos entrevistados — apenas um em cada vinte — está disposta a se posicionar firmemente em defesa de sua fé e a convencer a outra pessoa de que ela está equivocada. 

Como os católicos se saíram nessa pesquisa, em comparação com os outros grupos?

Muito mal.

Na verdade, eles tiveram o pior desempenho em todas as categorias. Enquanto 10% de evangélicos ficaram na primeira categoria, apenas 2% de católicos estavam dispostos a tentar persuadir a outra pessoa a mudar de ideia. O dobro de ateus e agnósticos estava disposto a tentar convencer outra pessoa. Até as denominações históricas em declínio, conhecidas por sua tibieza em relação às doutrinas cristãs, atingiram a média de 5%. E os católicos? Dois por cento. Terrível. Patético.

No outro extremo, os católicos atingiram a porcentagem mais elevada entre aqueles que gostariam de evitar discussões sobre religião: 31%. Mesmo os ateus e os agnósticos se mostraram mais dispostos do que os católicos a discutir religião, apesar de não terem uma, e a defender a sua falta de fé. Os evangélicos tiveram o melhor resultado: apenas 18% se mostraram relutantes em participar de alguma discussão sobre religião. 

Até a porcentagem daqueles que estão na grande categoria do meio (os que estão dispostos a escutar outra pessoa a respeito da fé dela apenas para “concordar em discordar”) serve de matéria para acusar os católicos. É claro que deveríamos escutar os outros, mas também deveríamos falar. Quando alguém está disposto a ter uma discussão sobre religião, temos uma oportunidade de ouro para compartilhar a nossa fé. Não deveríamos ter medo de um debate. G. K. Chesterton diz que o propósito de uma discussão é discordar para concordar; ao passo que o fracasso de uma discussão está em concordar em discordar. Em outras palavras, discutimos porque cremos que estamos certos e, em última instância, queremos convencer o outro a concordar conosco: discordar para concordar. O nome disso é ganhar o debate. Significa que nos importamos tanto com a verdade, que queremos que outras pessoas acreditem nela.

Só faz sentido acreditar em algo se cremos que estamos certos. E se assim cremos, por que não estamos dispostos a falar isso? Por que não estamos dispostos a dizer o motivo pelo qual não acreditamos em outra coisa?

Na conclusão de O Homem Eterno, Chesterton diz que o Evangelho é a boa notícia que parece muito boa para ser verdadeira. “Não é nada menos que a afirmação de que o criador do mundo o visitou pessoalmente.” Deus se fez carne, sofreu na carne, morreu de forma estranha e terrível e ressurgiu dos mortos, e a história mudou completamente. O mundo inteiro teve um recomeço. Ele encarnou a maior promessa já feita: a vida eterna. Seus seguidores que testemunharam tudo isso estabeleceram uma instituição que ainda existe: a Igreja Católica. A eles foi confiada a missão de compartilhar a boa nova que lhes fora dada, e a mensagem tem sido passada de geração em geração por dois mil anos.

Chesterton diz que o mundo está dividido entre aqueles que levam a mensagem do Evangelho e aqueles que ainda não a escutaram ou não conseguem crer nela.

Pense nisso. Temos a mensagem. As únicas outras pessoas que há no mundo são as que ainda não a escutaram ou não conseguem crer nela. Embora, sem dúvida alguma, vivamos numa cultura pós-cristã, a maioria das pessoas tem alguma familiaridade com as afirmações fundamentais da Igreja Católica. Já ouviram falar delas. A nossa missão é ajudá-las a crer. Isso significa que temos de estar dispostos a debater com elas quando discordarem de nós, a defender a fé quando ela for atacada, a afirmá-la quando for questionada e a demonstrá-la quando for rejeitada.

Não somente temos a mensagem, mas também o que o resto do mundo deseja: alegria, paz, lucidez e a resposta definitiva para o enigma do universo. Todas as pessoas estão em busca dessas coisas. Como podemos silenciar a respeito delas? O mundo não terá nenhuma chance se apenas 2% de nós estivermos dispostos a falar.

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