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Não passe o Ano Novo como um pagão!
Espiritualidade

Não passe o Ano Novo como um pagão!

Não passe o Ano Novo como um pagão!

Hoje em dia, são poucas as pessoas que festejam no sentido verdadeiro do termo. O homem moderno está familiarizado apenas com o relaxamento do trabalho, a dissipação nas suas “férias” e a determinação um tanto sombria de escapar do tédio e da depressão.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere30 de Dezembro de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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O fim do ano civil é uma época em que certa melancolia tende a dominar as pessoas, pois somos colocados diante da inevitável passagem do tempo, que, por sua vez, nos aproxima da morte. Essa consciência momentânea da evanescência de todas as coisas explica, ao menos em parte, por que nesta época há tanta folia que, muitas vezes, termina em embriaguez e estupor. Ao que parece, nada é mais fácil do que beber para esquecer a mortalidade — um “antídoto” quase tão eficaz quanto engolir pílulas anticoagulantes enquanto se tem uma hemorragia. 

S. João Crisóstomo, aquele pregador destemido da Igreja antiga, lembrava frequentemente aos cristãos de Antioquia que eles precisavam abandonar os caminhos de seus vizinhos pagãos e abraçar um modo de vida mais moderado e, por essa razão, mais alegre (isso muitos estoicos, epicureus e cristãos antigos tinham em comum). Como todos os Padres da Igreja, ele estava familiarizado com o fenômeno generalizado de crentes mais ou menos comprometidos que sucumbiam à pressão turbulenta de seus compatriotas descrentes — a reincidência social pela qual, mesmo contra nossa consciência e caráter, acabamos seguindo os maus costumes dos nossos tempos.

Eis o que o arcebispo “boca de ouro” tinha a dizer:

Ai das casas que em nada se diferenciam de refúgios de prazer! Tirai, eu vos imploro, estas coisas do meio de vós! Que as casas dos cristãos, e dos batizados, sejam livres do coro do demônio: sejam antes refinadas, hospitaleiras e santificadas pela oração fervorosa. Reuni-vos para entoar salmos, hinos e cânticos espirituais. Permiti que a palavra de Cristo, e o sinal de Cristo, esteja em vossos corações, em vossos lábios e em vossas frontes, em vosso comer e em vosso beber, em vossas conversas, em vossos banhos, em vossos aposentos, em vosso ir e em vosso vir, na alegria e na tristeza; de modo que, de acordo com o ensinamento de São Paulo, quer comais, quer bebais, ou o que quer que façais, tudo seja feito no nome de Nosso Senhor Jesus Cristo (cf. 1Cor 1, 31; Col 3, 17), que vos chamou para a sua graça. Pois foi Ele quem vos perdoou as vossas antigas ofensas, e é Ele que vos promete recompensa por haverdes emendado de vida.

Em sua poderosa luta de séculos contra a idolatria e a heresia, a Igreja primitiva levou a sério sua obrigação de elevar preces ao Senhor nos dias santos. Esta é uma ocupação digna de um rei — ou seja, de cada um dos batizados. Num artigo publicado no site New Liturgical Movement, Gregory DiPippo observa que os primeiros cristãos estavam perfeitamente cientes de que sua maneira de “virar o ano” era decisivamente diferente da forma com que o faziam os pagãos à sua volta, os quais não perdiam a oportunidade de entregar-se à veneração de ídolos hedonistas.

O Rito Romano preservou alguns traços da reação dos primeiros cristãos à celebração pagã do Ano Novo; no rito ambrosiano tradicional, esse aspecto do dia é muito mais pronunciado. Nas Vésperas, o Salmo 95 é cantado com a antífona: “Todos os deuses das nações são demônios; mas o nosso Deus fez os céus”; e o Salmo 96 com a antífona: “Confundidos sejam todos os que adoram ídolos, e os que se gloriam nas suas estátuas”. A primeira oração das Vésperas e da Missa diz: “Deus todo-poderoso e eterno, que ordenais aos que participam da vossa mesa se abstenham dos banquetes do diabo, concedei ao vosso povo, nós vos pedimos, que, rejeitando o sabor da profanação mortal, possa apresentar-se de mente pura para a festa da salvação eterna”. Todas as sete antífonas das Matinas e a maioria das antífonas das Laudes referem-se à rejeição da adoração de ídolos. No rito ambrosiano, há duas leituras antes do Evangelho; sobre a circuncisão, a primeira delas é a abertura da “carta de Jeremias” (que, na Vulgata, está em Baruc 6, 1-6), na qual o profeta exorta o povo a não se curvar diante dos ídolos dos babilônios. A grande antiguidade desta tradição se demonstra pelo fato de que esta leitura é preservada no Missal Ambrosiano, no texto da versão em latim antigo, ao invés do latim da Vulgata.

Apesar de falar muito da antiguidade cristã, os reformadores da Igreja do século XX mostraram uma tendência notável de adotar a frouxidão moderna no lugar do rigor antigo, de abreviar a oração em vez de ampliá-la, de adotar a noção mundial de “celebração” em lugar do chamado do Evangelho à conversão e à imitação de Cristo.

Você já parou para se perguntar por que, por séculos e séculos, os católicos falavam de “oferecer o Santo Sacrifício”, enquanto, depois do Concílio, as pessoas só parecem falar em “celebrar Missa” ou mesmo “celebrar a Eucaristia” (um barbarismo linguístico)? Nos tempos modernos, como Josef Pieper aponta, poucas pessoas experimentaram a verdadeira festa — o abraço festivo da vida como um presente de Deus, a ser devolvido a Ele “com interesse” na forma de adoração solene acompanhada de reuniões sociais, cantos e festas em companhia uns dos outros. Em vez disso, os modernos estão familiarizados apenas com o relaxamento do trabalho, a dissipação nas suas “férias” e a determinação um tanto sombria de escapar do tédio e da depressão.

Quase todo psiquiatra que se preze redescobriu um pedaço da sabedoria ancestral: a melhor maneira de superar o abatimento que nos aflige em nossa mortalidade é cultivando a gratidão. Em vez de murmurar sobre como as coisas estão ruins (pois, sem dúvida, neste vale de lágrimas, sempre haverá muito do que reclamar!), por que não parar e pensar nas várias coisas pelas quais se pode agradecer? S. Paulo nos diz: “Em todas as circunstâncias, dai graças, porque esta é a vosso respeito a vontade de Deus em Jesus Cristo” (1Ts 5, 18). Aqueles que redigem um “diário de gratidão” descobrem que isso os muda para melhor.

Vamos dar um passo adiante. Em vez de ficar repetindo o mantra “ai de mim!…”, por que não repetir calma e lentamente a oração: “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem misericórdia de mim, pecador”? Em vez de beber até o esquecimento, por que não se retirar ao quarto e rezar no seu íntimo ao Pai celeste, que lhe dará de beber de uma fonte que o mundo não conhece? Quando tivermos dado a Deus o “dízimo” do nosso tempo, haverá tempo suficiente para passar na companhia de amigos e familiares, mas desta vez com sentido e realização.

Desde o século IV, a Igreja Católica entoa o grande hino ambrosiano de ação de graças, o Te Deum, como parte do Ofício Divino, e em ocasiões especiais como a consagração de um bispo, a canonização de um santo, as profissões religiosas e, quando reis e rainhas governavam a terra, nas coroações reais. Uma dessas ocasiões especiais é a véspera de Ano Novo, quando é costume cantar ou recitar o Te Deum para agradecer a Deus por suas bênçãos no ano que acaba de terminar e pedir sua bênção para o ano que se inicia. A Igreja até atribui uma indulgência plenária a esta prática. (O texto do hino pode ser encontrado em muitos lugares online.)

Não seria esta a melhor maneira de sair do ano velho e entrar no ano novo?

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É hora de recuperar nossa visão sobrenatural!
Espiritualidade

É hora de recuperar
nossa visão sobrenatural!

É hora de recuperar nossa visão sobrenatural!

Numa época excessivamente científica, que abandonou o dom da fé, tudo o que está relacionado ao sobrenatural é considerado supersticioso e descartado. A verdade, porém, é Deus age em nossas vidas constantemente, ainda que não nos demos conta.

Constance T. HullTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere29 de Dezembro de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
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Nós do Ocidente perdemos a visão sobrenatural. Aquilo que outrora era evidente para os cristãos tornou-se obscuro para nós. A conexão entre o mundo espiritual e o material, parte do cotidiano das pessoas na Idade Média e no início da história da Igreja, deu lugar ao super-racionalismo da era pós-iluminista que vivemos hoje.

Para nos adequarmos aos tempos e parecermos relevantes, nós, membros da Igreja, muitas vezes jogamos fora o coração da fé em benefício da “cabeça”. Tudo o que está relacionado ao sobrenatural é considerado supersticioso e descartado; além disso, tentamos convencer nossos contemporâneos de que não somos mais um povo que enxerga o aspecto espiritual das coisas. Isso não é apenas uma injustiça e uma falta de caridade com os nossos irmãos em Cristo ao longo dos séculos; é também uma mentira. 

A adoção dessa perspectiva fez a Igreja ficar cada vez mais desconectada do sagrado na vida cotidiana. Relegamos o culto apenas aos domingos ou, durante esta pandemia, a uma tela de computador ou de televisão. Faltam aos nossos templos beleza e transcendência objetivas; além disso, eles foram reduzidos a um utilitarismo brando e sem sentido. Raramente procuramos elevar nosso olhar para o céu.

Embora sejamos cristãos, essa forma de ver o mundo se impregnou na nossa vida cotidiana. Não procuramos mais encontrar a Deus nos detalhes da vida diária. Não é assim que deveríamos viver. Em sua brilhante encíclica Fides et Ratio, São João Paulo II afirma: 

Assim, a história constitui um caminho que o Povo de Deus há-de percorrer inteiramente, de tal modo que a verdade revelada possa exprimir em plenitude os seus conteúdos, graças à acção incessante do Espírito Santo (cf. Jo 16, 13). Ensina-o também a constituição Dei Verbum, quando afirma que “a Igreja, no decurso dos séculos, tende continuamente para a plenitude da verdade divina, até que nela se realizem as palavras de Deus”. A história torna-se, assim, o lugar onde podemos constatar a ação de Deus em favor da humanidade. Ele vem ter conosco, servindo-se daquilo que nos é mais familiar e mais fácil de verificar, ou seja, o nosso contexto cotidiano, fora do qual não conseguiríamos entender-nos (§11–12).

Nosso dia a dia não deveria ser visto como um padrão sem sentido. Deus age no tempo neste exato momento. Estamos vinculados às pessoas que estão ao nosso redor por meio de nossa natureza comum e de nossa comunhão com a Santíssima Trindade. Deus age por meio de nós e dessas pessoas. Infelizmente, os católicos tendem a enxergar uns aos outros como um oceano de estranhos sem rosto, e não como irmãos em Cristo — um vínculo muito mais profundo do que somos capazes de compreender ou imaginar.

Essa perda de visão sobrenatural é parcialmente responsável pela nossa crescente irrelevância na cultura ocidental. Se quisermos apenas nos adequar aos que estão à nossa volta, não poderemos oferecer algo radicalmente diferente à cultura. Perdemos de vista a radicalidade da mensagem do Evangelho e o fato de que ela existe para transformar cada aspecto de nossa vida e nos ajudar a enxergá-la de uma forma inteiramente nova. Nós deveríamos enxergar com os olhos do Cristo crucificado.

Recentemente, deparei com a visão sobrenatural vivida na prática. Isso me chamou a atenção porque Cristo tem operado muitas coisas em minha vida espiritual para me ajudar a enxergar com os olhos da fé, apesar de minhas dúvidas constantes, tão endêmicas na Igreja ocidental por causa de nossa ênfase excessiva no racionalismo e no materialismo — tanto em sua forma científica como em sua  forma consumista —, que nos levaram a questionar tudo e a não confiar em ninguém, nem mesmo em Deus.

Fui a uma paróquia que fica do outro lado da cidade para rezar as Vésperas e participar da adoração. Lá conheci o novo vigário paroquial, que olhou para mim e disse: “Você veio aqui nesta noite por um motivo.” Como já era esperado, ele era africano, embora eu não soubesse de qual país. A fé está crescendo na África, apesar de estar decaindo aqui no Ocidente.  

Naquele momento, entendi concretamente em que medida devemos viver nossa vida de acordo com a fé sobrenatural. Para aquele sacerdote, cada encontro com uma pessoa fazia parte do plano de Deus. A Igreja não parou de ensinar isso; ao contrário, é uma realidade espiritual que nós escolhemos ignorar ou abandonar. Esquecemos que Deus age principalmente por meio de nossas relações com outras pessoas. Quando estamos abertos às suas inspirações, o Espírito Santo muitas vezes tenta nos guiar por meio de nossos irmãos em Cristo.

Ao longo dos nossos dias, quantas vezes achamos que outras pessoas ou situações são um incômodo, um aborrecimento ou um fardo? Dos pais e sua relação com os filhos aos sacerdotes e o pastoreio de seu rebanho, em nossos dias agitados e muitas vezes sem fé, todos nós esquecemos que Deus age em todos os momentos de nossa vida, inclusive no menor dos detalhes.  

Boa parte de nossa vida está repleta de sentido e carregada de espiritualidade, mas não conseguimos perceber isso. A perda de visão sobrenatural nos torna cegos para a maravilhosa tapeçaria que Deus deseja tecer em nossa vida. Uma tapeçaria que também está interligada com as pessoas ao nosso redor, que Deus deseja unir num só corpo. Os ensinamentos da Igreja sobre a comunhão não são sentimentalistas, mas um reflexo da profunda realidade de nossa interligação e de como devemos responder a Deus. 

Cada pessoa que encontramos ao longo do dia está ali por um motivo. Pode parecer irrelevante, mas na vida eterna ficaremos completamente impressionados com o fato de que as menores das interações faziam parte de um plano maior de Deus para nós. Veremos que certos dias de nossa vida tiveram mais sentido espiritual e que Deus estava agindo neles num nível mais elevado, particularmente em sua relação com o calendário litúrgico. Enxergaremos a importância de datas e épocas. Os judeus compreendem isso; por essa razão têm grande estima pelo simbolismo dos números e nomes.   

Muitas vezes, quando estamos atrasados e aparentemente trombamos com todos os obstáculos imagináveis (seja quando todos os semáforos estão vermelhos ou quando temos de parar e esperar o trem passar), Deus pode muito bem estar nos protegendo, ou talvez tenhamos de conhecer alguém no trajeto no tempo perfeito de Deus. Vi isso acontecer há alguns meses quando estava saindo da igreja após a Missa diária.

Estava dirigindo pela região central da cidade quando um pedestre passou diante de mim inesperadamente, obrigando-me a frear o carro. Então, prossegui em direção ao semáforo seguinte, que estava verde. Quando me aproximava do cruzamento, uma van cruzou o sinal vermelho em alta velocidade. Se o pedestre não tivesse passado na frente do meu carro, a van teria batido em mim. Provavelmente teria tirado minha vida e teria deixado minha filha gravemente ferida, pois ela estava do lado direito do banco traseiro. Deus levantou o véu e permitiu que eu o enxergasse em ação na minha vida de forma tangível. Isso me serviu como lembrete de que Deus age em nossas vidas constantemente, ainda que não tenhamos consciência disso.

Num dia normal, são inúmeros os momentos em que me pedem que leve uma mensagem ou faça algo por uma pessoa e, então, acabo me cruzando com ela. Muitas vezes, é o Espírito Santo confirmando o que Ele quer que seja feito. Se alinharmos nossa visão com a visão sobrenatural de Cristo, enxergaremos as conexões e seremos capazes de cooperar plenamente com as inspirações do Espírito Santo. Se sucumbirmos à incerteza ou se eliminarmos o sobrenatural de nossa vida cotidiana, dando lugar a uma visão de mundo mais racionalista, seremos incapazes de nos entregar ao Espírito Santo. Seremos limitados no modo como vivemos nossa vida de discípulos cristãos porque, essencialmente, viveremos nossos dias às cegas.

Numa época excessivamente científica, que abandonou o dom da fé, devemos recuperar uma vida de fé sobrenatural. Enxergar a ação de Deus em nossa vida cotidiana não é superstição. Quando fazemos isso, enxergamos além daquilo que está diante de nós e alcançamos o coração da própria Santíssima Trindade. A visão sobrenatural nos permite cooperar com as inspirações dela e aceitá-las, de modo que ela possa operar seu plano divino por meio de nós. Devemos ser veículos de seu divino amor. Não podemos responder a esse chamado se abandonamos o coração de nossa fé, que nos faz enxergar com os olhos de Deus, e adotamos uma compreensão puramente racionalista das coisas. É hora de recuperar nossa visão sobrenatural.

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“Parem, parem diante do Menino”
Espiritualidade

“Parem, parem diante do Menino”

“Parem, parem diante do Menino”

No Natal, nós celebramos o Verbo que se fez carne e veio a este mundo para trazer a paz. Mas a paz do Menino Jesus não é simplesmente uma ausência de conflitos ou um estado de ataraxia. Ela exige um empenho do coração.

Equipe Christo Nihil Praeponere29 de Dezembro de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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A mensagem do Natal não é que a paz virá automaticamente porque Cristo nasceu em Belém; aquele nascimento em Belém foi o prelúdio do nascimento dele em nossos corações por meio da graça, da fé e do amor. A paz pertence só aos que querem tê-la. Se não há paz no mundo hoje, não é porque Cristo não veio; é antes porque não o deixamos entrar (Venerável Fulton Sheen).

A partir da noite bendita de Natal, todos os homens deveriam repetir, antes de dormir, as palavras do profeta Simeão: “Deixai, agora, vosso servo ir em paz, conforme prometestes, ó Senhor. Pois meus olhos viram a vossa salvação, que preparastes ante a face das nações”. A oração das Completas, na Liturgia das Horas, proclama justamente esse hino de louvor e ação de graças pelo Verbo que se fez carne e veio a este mundo para trazer a paz.

A paz do Menino Jesus, porém, não é simplesmente uma ausência de conflitos ou um estado de ataraxia, por assim dizer. Ela exige um empenho do coração. Trata-se, como diz S. Paulo, de uma perseverança na tribulação, que “leva a uma virtude comprovada, e a virtude comprovada desabrocha em esperança” (Rm 4, 4), na certeza de que Deus é capaz de realizar o que prometeu, ou seja, “um novo céu e uma nova terra”, onde não haverá mais morte, nem luto, nem grito, nem dor (Ap 21, 1.4). Por isso, seguimos lutando para preservar o dogma da fé e a lei moral, mesmo quando tudo parece perdido e condenado à desolação. Si vis pacem, para bellum: “Se queres a paz, prepara-te para a guerra”.

Nosso Senhor advertiu, na pregação do Evangelho, que é do coração dos homens, ferido pelo pecado original, que se originam as guerras mundiais ou civis. Porque se uma pessoa não consegue vencer as próprias inclinações egoístas e desordenadas, a chance de ela vir a se rebelar contra o seu irmão é altíssima. Durante a década de 1990, o mundo assistiu horrorizado à guerra fratricida que se desencadeou na região dos Bálcãs, antiga Iugoslávia. Um cenário que parecia ter ficado para trás, depois dos tratados de paz e do julgamento de Nuremberg, voltou a se apresentar com toda a crueldade: campos de concentração para uma “limpeza étnica” e civis mortos nas frentes das câmeras. É que não existe acordo diplomático capaz de apaziguar as paixões humanas se estas não tiverem sido purificadas pela graça.

Nesse contexto, o Papa João Paulo II foi uma das poucas vozes mundiais a dirigir uma palavra de sabedoria aos responsáveis pelas guerras. No dia 18 de dezembro de 1994, quarto domingo do Advento, poucos dias antes do Natal, ele clamou da janela de seu quarto: “Parem, parem diante do Menino”. Quase como um Arcanjo Gabriel, o Santo Padre quis dirigir o olhar dos pastores de seu tempo àquele que veio trazer a paz para os homens de boa vontade. Mas notem a locução adjetiva: homens de boa vontade. A paz do Menino Jesus só é dada a quem faz guerra contra as más inclinações e se detém diante da criança, a fim de contemplá-la. Homens de vontades desenfreadas, por outro lado, são como uma locomotiva que avança loucamente contra tudo o que está em seu caminho. E ela só para quando cai em um precipício, ou seja, no inferno.

Esse clamor do Papa João Paulo II é especialmente oportuno para nossa época também. Após um ano conturbado pela pandemia de Covid-19 e outros problemas, chegamos a dezembro na mesma condição descrita pelo profeta Jeremias: “Esperávamos paz, mas não veio nada de bom, um tempo de cura, e eis o terror” (8, 15). Nos meses de espera por uma solução, populações inteiras se trancafiaram em casa, mas não para contemplar o Menino. Na verdade, apenas um “pequeno resto” manteve como pôde a oração e outras práticas de piedade, mesmo longe dos sacramentos. Os demais, porém, se dedicaram aos prazeres da carne, deleitando-se em lives, séries, comilanças e impurezas, esperando não de Deus, mas do faraó do Egito a libertação e a paz. E o que receberam foi apenas decepção, ansiedade, depressão e medo da tal “segunda onda”, consequências funestas para a saúde mental que já são avaliadas pelos especialistas como uma “pandemia oculta”.

Mas a locomotiva desgovernada, mesmo assim, não quer parar diante do Menino. Ela segue estabanada em busca de um “grande recomeço” para a civilização, em cujo centro não esteja mais Deus nem o ser humano, mas uma pequena elite autoritária que arrogou para si a “salvação do mundo”. E essa elite já não esconde a que veio: é para implantar a “Nova Era”, a “Era de Aquário”, onde todos viverão supostamente livres e em paz para ser e fazer o que quiserem, de mudança de sexo a aborto. Só que essa liberdade virá apenas, insinuam eles, se nós, homens de pouca monta, aderirmos, com religioso obséquio da vontade e da inteligência, a tudo o que disserem e ensinarem as suas instituições mundanas. Do contrário, o coturno e o punho de ferro do Estado nos aguardam.

É claro que essa Babilônia não deve durar mais que uma hora de pé. A ela bem se aplica a advertência do Papa Pio XI aos líderes de sua época: “Os males vão se agravando a cada dia, [...] sobretudo porque as diversas propostas e as repetidas tentativas dos homens de Estado para remediar a situação foram até agora inúteis e inclusive contraproducentes” (Ubi Arcano Dei Consilio, n. 11). O Santo Padre falou essas palavras num contexto diferente do nosso, é verdade, mas do qual podemos tirar lições bem pertinentes, a julgar pelos efeitos negativos da I Guerra Mundial sobre a moral e a religiosidade das pessoas e o modo como os políticos quiseram remediá-los.

Pio XI viu que os homens queriam superar o período anterior construindo uma nova civilização, um “novo normal”, por assim dizer, em cima de acordos frágeis e de uma moral débil, que não tivesse mais Cristo como medida. Por isso, o Papa recordou-lhes as palavras do profeta Isaías: “Aqueles que abandonam o Senhor, perecerão” (1, 28), uma sentença divina verificada em todos os tempos, afirmou o Santo Padre, “mas realizada agora com maior evidência aos olhos de todos”  (Ubi Arcano Dei Consilio, n. 27). Porque os homens que querem construir um mundo sem Deus “fracassam com frequência em todos os intentos realizados para reparar os males e salvar os restos de tantas ruínas” (Id.). Quando olhamos para a forma como as autoridades querem enfrentar a crise atual, com muitos se aproveitando da situação para guerras políticas, ideológicas e, inclusive, biológicas, não nos soam verdadeiramente proféticas essas admoestações do Bispo de Roma? De fato, a única coisa que esses homens conseguem produzir é mais perturbação em vez de paz.

“Sem mim, nada podeis fazer”. Por isso, aproveitando o tempo do Natal, é urgente que atendamos àquele clamor de S. João Paulo II, detendo-nos diante do Menino e deixando que Ele gere em nosso coração “as virtudes comprovadas” e “a esperança que não decepciona”, das quais nos fala S. Paulo (Rm 5, 3-5). Apenas corações virtuosos podem permanecer em paz no interior de suas almas enquanto aguardam pacientemente o triunfo definitivo do Senhor. E são esses corações virtuosos que devem tomar a peito o cuidado pela próxima geração.

Pior que a pandemia de Covid-19 é a pandemia de pecados que se instalou dentro dos homens, dos quais se espera a direção das próximas décadas. Se estes, portanto, e não aqueles corações virtuosos, vierem a assumir o controle dos governos e instituições, devemos nos preparar para um futuro muito sombrio e “a humanidade, que já agora corre grave risco, chegará talvez desgraçadamente, apesar da sua admirável ciência, àquela hora em que não conhecerá outra paz além da horrível tranquilidade da morte” (Gaudium et Spes, n. 82).

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Até quando devemos festejar o Natal?
Liturgia

Até quando devemos festejar o Natal?

Até quando devemos festejar o Natal?

O mundo secular “se prepara” para o Natal meses antes, com decorações extravagantes, comilanças e muitos gastos, e quando chega 26 de dezembro, todos agem como se o Natal tivesse “acabado”, quando ele, na verdade, estava apenas começando.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere25 de Dezembro de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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O mundo secular “se prepara” para o Natal — se é que podemos usar esse verbo — meses antes, com decorações extravagantes, comilanças para as festas e muitos gastos; mas, quando chega o dia 26 de dezembro, todos agem como se o Natal tivesse “acabado”. No máximo, permitirá um ou dois dias para se recuperar dos excessos das festividades e depois voltará ao trabalho. Na melhor das hipóteses, as decorações são mantidas até 1.º de janeiro ou um pouco mais tarde, para “adentrar” o novo ano. Depois disso, o período de comemorações termina.

Os católicos, porém, deveriam ter uma concepção totalmente diferente do Natal. O certo seria, antes do nascimento do Senhor, observar o tempo penitencial do Advento, preparando-nos, sem extravagâncias, para a grande festa da sua vinda. Tradicionalmente, as famílias decoravam a árvore de Natal nos dias 23 ou 24, pouco antes do grande dia. Na Missa da vigília, inicia-se, de fato, o Natal do Senhor, que é intensamente celebrado por uma oitava (oito dias, de 25 de dezembro a 1.º de janeiro, quando se recorda sua circuncisão, ou também a conhecida Solenidade de Maria, Mãe de Deus).

Contudo, o tempo do Natal estende-se até a Epifania do Senhor, em 6 de janeiro (o famoso “décimo segundo dia”) e inaugura quarenta dias de festas natalinas, que se encerram em 2 de fevereiro, com a festa de Nossa Senhora das Candeias, ou da Purificação da Bem-aventurada Virgem Maria, também conhecida, por seu título grego, como festa da Apresentação do Senhor. Em outras palavras, há quatro círculos concêntricos de celebração: o Natal, sua Oitava, os doze dias e, por fim, os quarenta dias que se lhe seguem.

Não podemos nos render à abordagem secular que, de certa forma, “celebra” o Natal antes do Natal e não depois, como deveria ser. Precisamos realmente nos esforçar — na maneira como decoramos nossas casas, no modo como guardamos o domingo e os dias de preceito, nas histórias que lemos e nas outras atividades que fazemos em casa — para manter vivo o espírito do Natal, mesmo nesse período de 26 de dezembro a 2 de fevereiro, que, numa visão secular, é uma “baixa temporada” para os negócios. Para nós, o grande “negócio” que podemos fazer, ou o grande “presente” que podemos receber, é celebrar o belíssimo tempo do Natal de maneira digna e festiva! A observância desse tempo litúrgico em nossas vidas torna-se uma contundente catequese contracultural sobre um dos mistérios fundamentais da fé cristã: a Encarnação do Filho de Deus. Esse é o ponto primordial de toda a história universal e da história particular de cada homem, mulher e criança.

Infelizmente, as reformas litúrgicas na Igreja não necessariamente ajudaram as famílias a viver o tempo do Natal tão bem como deveriam. 

“Adoração dos Pastores”, de Juan Bautista Maino.

O primeiro problema foi a abolição total das “comemorações”. Por muitos séculos, a Igreja fez uma observância adequada de vários eventos que eram celebrados ao mesmo tempo, usando um conjunto adicional de preces ou orações durante a Missa (na coleta, nas orações que o sacerdote faz em segredo e na oração pós-comunhão). Assim, como 26 de dezembro é a festa de Santo Estêvão, 27 de dezembro é a de São João e 28 de dezembro é a dos Santos Inocentes, sempre havia — além das orações próprias desses dias — as orações adicionais do Natal, para que os católicos recordassem continuamente que o Natal é uma festa que se estende por oito dias. Hoje, muitas vezes pode parecer que seja uma festa de um dia só.

O segundo problema é a “perda”, para todos os efeitos, da festa da Epifania do Senhor, que, em vez de ser mantida em 6 de janeiro — como fora por milênios no Oriente e no Ocidente —, agora é “colocada” de forma conveniente no domingo mais próximo, a fim de não causar nenhum contratempo ou surpresa em nossa rotina de trabalho. Isso, porém, acaba por neutralizar a celebração da Epifania enquanto um acontecimento especial, igualando-a às demais celebrações dominicais, em vez de reconhecê-la como uma festa de luz que irrompe no mundo “de surpresa”, assim como irrompe em nossas vidas na segunda-feira ou na quinta-feira ou em qualquer que seja o dia, jogando por terra nossa rotina e nos ajustando ao senhorio de Deus sobre o tempo. Através de um dia específico, é como se o Senhor, de fato, estivesse nos “convocando” para sua festa, porque sabe que seremos preguiçosos ou preocupados demais para dela participar.

Nesse sentido, a leitura do texto The Epiphany of Our Lord — “A Epifania de Nosso Senhor” —, do grande liturgista Dom Prosper Guéranger [1], ajuda-nos a apreciar a tremenda magnitude dessa festa, que, por tantas razões, é estupenda e gloriosa. Na verdade, a Epifania compartilha com as festas do Natal, da Páscoa, da Ascensão e de Pentecostes a honra de ser chamada, no Cânon Romano da Missa, de “um dia santíssimo”. É uma festa que devemos comemorar de todo o coração, esperando que um dia as autoridades da Igreja a devolvam ao seu status anterior como um dia sagrado de preceito, a ser observado em 6 de janeiro.

O terceiro problema é a abolição do “tempo da Epifania”, um período de várias semanas após o dia da Epifania do Senhor, que conduzia para o tempo da Septuagésima [2].

Felizmente, todos esses três elementos — as comemorações, o dia da Epifania e o tempo da Epifania — ainda são observados onde quer que a liturgia latina tradicional tenha sido preservada ou retomada. O número de igrejas que seguem o Summorum Pontificum e o número de famílias que moldam suas devoções de acordo com essa liturgia continuam a aumentar.

Devemos manter vivo o espírito natalino, conservando a decoração da casa e as devoções até a festa da Purificação (ou, se o domingo da Septuagésima cair antes de 2 de fevereiro, até o sábado daquele final de semana) [3] ou, pelo menos, até o Batismo do Senhor, tradicionalmente comemorado em 13 de janeiro, o dia da oitava da Epifania. O mesmo se aplica às igrejas católicas: elas não devem ceder à pressão secular, mas conservar suas árvores, grinaldas, luzes e outros sinais de Natal até o dia do Batismo do Senhor, ou até a festa da Purificação. Somos chamados a ser magnânimos, e não medíocres, a fim de seguirmos a exortação de S. Paulo que ouvimos no Domingo Gaudete: “Alegrai-vos sempre no Senhor. Repito: alegrai-vos!” (Fl 4, 4).

O mesmo se aplica à Páscoa e à sua Oitava, bem como à solenidade de Pentecostes e à sua Oitava (nos lugares em que os católicos mantêm sua tradição). De qualquer forma, temos muitas razões para dar o passo extra de tornar essas festas visíveis, alegres e memoráveis. Não precisamos ficar envergonhados se for necessário nos afastarmos dos costumes familiares ancestrais, a fim de “redescobrir” e, até certo ponto, “reinventar” as férias; essa é, em maior ou menor grau, a condição da maioria dos católicos ocidentais que zelam por manter viva a própria fé.

Devemos, pois, aceitar humildemente que temos muito trabalho a fazer e, então, começar a agir, dando um passo de cada vez. Nas devoções e costumes familiares, busquemos introduzir, a cada ano, um desses tempos litúrgicos ou dias festivos dos quais nunca participamos antes e, se tudo correr bem, continuemos no próximo ano. Pensemos em como organizar isso, mobilizando também as crianças mais velhas para ajudar. Certamente, depois de algum tempo, viveremos em nossas famílias os costumes de Natal, Páscoa e Pentecostes com os quais gostaríamos de ter crescido.

Notas

  1. Há também uma versão espanhola deste texto, que pode ser acessada aqui (Nota da Equipe CNP). 
  2. No rito romano tradicional, a Septuagésima é um tempo litúrgico penitencial que compreende as três semanas imediatamente anteriores à Quaresma. Seu nome, “setenta” em latim, refere-se à quantidade (aproximada) de dias que faltam para a Páscoa do Senhor (Nota da Equipe CNP).
  3. Neste ano de 2021, o sábado anterior ao domingo da Septuagésima cai no dia 30 de janeiro (Nota da Equipe CNP).

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