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Até quando devemos festejar o Natal?
Liturgia

Até quando devemos festejar o Natal?

Até quando devemos festejar o Natal?

O mundo secular “se prepara” para o Natal meses antes, com decorações extravagantes, comilanças e muitos gastos, e quando chega 26 de dezembro, todos agem como se o Natal tivesse “acabado”, quando ele, na verdade, estava apenas começando.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere25 de Dezembro de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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O mundo secular “se prepara” para o Natal — se é que podemos usar esse verbo — meses antes, com decorações extravagantes, comilanças para as festas e muitos gastos; mas, quando chega o dia 26 de dezembro, todos agem como se o Natal tivesse “acabado”. No máximo, permitirá um ou dois dias para se recuperar dos excessos das festividades e depois voltará ao trabalho. Na melhor das hipóteses, as decorações são mantidas até 1.º de janeiro ou um pouco mais tarde, para “adentrar” o novo ano. Depois disso, o período de comemorações termina.

Os católicos, porém, deveriam ter uma concepção totalmente diferente do Natal. O certo seria, antes do nascimento do Senhor, observar o tempo penitencial do Advento, preparando-nos, sem extravagâncias, para a grande festa da sua vinda. Tradicionalmente, as famílias decoravam a árvore de Natal nos dias 23 ou 24, pouco antes do grande dia. Na Missa da vigília, inicia-se, de fato, o Natal do Senhor, que é intensamente celebrado por uma oitava (oito dias, de 25 de dezembro a 1.º de janeiro, quando se recorda sua circuncisão, ou também a conhecida Solenidade de Maria, Mãe de Deus).

Contudo, o tempo do Natal estende-se até a Epifania do Senhor, em 6 de janeiro (o famoso “décimo segundo dia”) e inaugura quarenta dias de festas natalinas, que se encerram em 2 de fevereiro, com a festa de Nossa Senhora das Candeias, ou da Purificação da Bem-aventurada Virgem Maria, também conhecida, por seu título grego, como festa da Apresentação do Senhor. Em outras palavras, há quatro círculos concêntricos de celebração: o Natal, sua Oitava, os doze dias e, por fim, os quarenta dias que se lhe seguem.

Não podemos nos render à abordagem secular que, de certa forma, “celebra” o Natal antes do Natal e não depois, como deveria ser. Precisamos realmente nos esforçar — na maneira como decoramos nossas casas, no modo como guardamos o domingo e os dias de preceito, nas histórias que lemos e nas outras atividades que fazemos em casa — para manter vivo o espírito do Natal, mesmo nesse período de 26 de dezembro a 2 de fevereiro, que, numa visão secular, é uma “baixa temporada” para os negócios. Para nós, o grande “negócio” que podemos fazer, ou o grande “presente” que podemos receber, é celebrar o belíssimo tempo do Natal de maneira digna e festiva! A observância desse tempo litúrgico em nossas vidas torna-se uma contundente catequese contracultural sobre um dos mistérios fundamentais da fé cristã: a Encarnação do Filho de Deus. Esse é o ponto primordial de toda a história universal e da história particular de cada homem, mulher e criança.

Infelizmente, as reformas litúrgicas na Igreja não necessariamente ajudaram as famílias a viver o tempo do Natal tão bem como deveriam. 

“Adoração dos Pastores”, de Juan Bautista Maino.

O primeiro problema foi a abolição total das “comemorações”. Por muitos séculos, a Igreja fez uma observância adequada de vários eventos que eram celebrados ao mesmo tempo, usando um conjunto adicional de preces ou orações durante a Missa (na coleta, nas orações que o sacerdote faz em segredo e na oração pós-comunhão). Assim, como 26 de dezembro é a festa de Santo Estêvão, 27 de dezembro é a de São João e 28 de dezembro é a dos Santos Inocentes, sempre havia — além das orações próprias desses dias — as orações adicionais do Natal, para que os católicos recordassem continuamente que o Natal é uma festa que se estende por oito dias. Hoje, muitas vezes pode parecer que seja uma festa de um dia só.

O segundo problema é a “perda”, para todos os efeitos, da festa da Epifania do Senhor, que, em vez de ser mantida em 6 de janeiro — como fora por milênios no Oriente e no Ocidente —, agora é “colocada” de forma conveniente no domingo mais próximo, a fim de não causar nenhum contratempo ou surpresa em nossa rotina de trabalho. Isso, porém, acaba por neutralizar a celebração da Epifania enquanto um acontecimento especial, igualando-a às demais celebrações dominicais, em vez de reconhecê-la como uma festa de luz que irrompe no mundo “de surpresa”, assim como irrompe em nossas vidas na segunda-feira ou na quinta-feira ou em qualquer que seja o dia, jogando por terra nossa rotina e nos ajustando ao senhorio de Deus sobre o tempo. Através de um dia específico, é como se o Senhor, de fato, estivesse nos “convocando” para sua festa, porque sabe que seremos preguiçosos ou preocupados demais para dela participar.

Nesse sentido, a leitura do texto The Epiphany of Our Lord — “A Epifania de Nosso Senhor” —, do grande liturgista Dom Prosper Guéranger [1], ajuda-nos a apreciar a tremenda magnitude dessa festa, que, por tantas razões, é estupenda e gloriosa. Na verdade, a Epifania compartilha com as festas do Natal, da Páscoa, da Ascensão e de Pentecostes a honra de ser chamada, no Cânon Romano da Missa, de “um dia santíssimo”. É uma festa que devemos comemorar de todo o coração, esperando que um dia as autoridades da Igreja a devolvam ao seu status anterior como um dia sagrado de preceito, a ser observado em 6 de janeiro.

O terceiro problema é a abolição do “tempo da Epifania”, um período de várias semanas após o dia da Epifania do Senhor, que conduzia para o tempo da Septuagésima [2].

Felizmente, todos esses três elementos — as comemorações, o dia da Epifania e o tempo da Epifania — ainda são observados onde quer que a liturgia latina tradicional tenha sido preservada ou retomada. O número de igrejas que seguem o Summorum Pontificum e o número de famílias que moldam suas devoções de acordo com essa liturgia continuam a aumentar.

Devemos manter vivo o espírito natalino, conservando a decoração da casa e as devoções até a festa da Purificação (ou, se o domingo da Septuagésima cair antes de 2 de fevereiro, até o sábado daquele final de semana) [3] ou, pelo menos, até o Batismo do Senhor, tradicionalmente comemorado em 13 de janeiro, o dia da oitava da Epifania. O mesmo se aplica às igrejas católicas: elas não devem ceder à pressão secular, mas conservar suas árvores, grinaldas, luzes e outros sinais de Natal até o dia do Batismo do Senhor, ou até a festa da Purificação. Somos chamados a ser magnânimos, e não medíocres, a fim de seguirmos a exortação de S. Paulo que ouvimos no Domingo Gaudete: “Alegrai-vos sempre no Senhor. Repito: alegrai-vos!” (Fl 4, 4).

O mesmo se aplica à Páscoa e à sua Oitava, bem como à solenidade de Pentecostes e à sua Oitava (nos lugares em que os católicos mantêm sua tradição). De qualquer forma, temos muitas razões para dar o passo extra de tornar essas festas visíveis, alegres e memoráveis. Não precisamos ficar envergonhados se for necessário nos afastarmos dos costumes familiares ancestrais, a fim de “redescobrir” e, até certo ponto, “reinventar” as férias; essa é, em maior ou menor grau, a condição da maioria dos católicos ocidentais que zelam por manter viva a própria fé.

Devemos, pois, aceitar humildemente que temos muito trabalho a fazer e, então, começar a agir, dando um passo de cada vez. Nas devoções e costumes familiares, busquemos introduzir, a cada ano, um desses tempos litúrgicos ou dias festivos dos quais nunca participamos antes e, se tudo correr bem, continuemos no próximo ano. Pensemos em como organizar isso, mobilizando também as crianças mais velhas para ajudar. Certamente, depois de algum tempo, viveremos em nossas famílias os costumes de Natal, Páscoa e Pentecostes com os quais gostaríamos de ter crescido.

Notas

  1. Há também uma versão espanhola deste texto, que pode ser acessada aqui (Nota da Equipe CNP). 
  2. No rito romano tradicional, a Septuagésima é um tempo litúrgico penitencial que compreende as três semanas imediatamente anteriores à Quaresma. Seu nome, “setenta” em latim, refere-se à quantidade (aproximada) de dias que faltam para a Páscoa do Senhor (Nota da Equipe CNP).
  3. Neste ano de 2021, o sábado anterior ao domingo da Septuagésima cai no dia 30 de janeiro (Nota da Equipe CNP).

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Quem não reza, trepida de medo à toa!
Espiritualidade

Quem não reza,
trepida de medo à toa!

Quem não reza, trepida de medo à toa!

Há muitos perigos rondando o mundo, desde vírus microscópicos a globalistas sedentos de poder. Mas quem está na graça de Deus e tem vida de oração, não precisa “trepidar” de medo por nada disso...

Equipe Christo Nihil Praeponere23 de Dezembro de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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Deum non invocavérunt: illic trepidavérunt timóre, ubi non erat timor, “A Deus não invocaram; onde não havia o que temer, trepidaram de temor” (Sl 52, 6) [1]: estas palavras aplicam-se tão bem à atual situação da humanidade, que seria até preciso verificar se não foram escritas pelo salmista como profecia para 2020... 

Brincadeira à parte, na verdade é uma ilusão pensar que as circunstâncias por que estamos passando são absolutamente inéditas. Não somos tão especiais assim: como diz o Eclesiastes, “não há nada de novo debaixo do sol” (1, 9). Além disso, não é sem razão que as Escrituras são inspiradas. O Espírito Santo pensou cada uma de suas linhas atemporais, e na leitura e meditação delas encontramos grande conforto em meio à tribulação [2].

Mas por que dizemos ser estas linhas tão apropriadas? Porque a atual pandemia desencadeou sobre o mundo uma verdadeira onda de terror. Desta não há quem tenha sido poupado. A uns, é o medo da doença e do sofrimento, da solidão e da morte. A outros, é o medo do caos social e econômico, do futuro incerto e nada alvissareiro: fala-se agora de um “Grande Reset” global, uma tentativa de transformar por completo as relações entre as pessoas no mundo pós-coronavírus, e as discussões éticas e políticas sobre vacinas só estão no começo. Motivos para temer, aparentemente, não faltam. 

Ao citar o versículo acima, porém, nossa pretensão não é apontar o dedo aos outros e rir dos seus temores, pois também nós os sentimos. O medo é uma experiência universal, uma reação natural ao mal, que não podemos simplesmente “apagar” de nossa humanidade. Nosso Senhor mesmo, “provado como nós em tudo, exceto no pecado” (Hb 4, 15), experimentou o temor da morte no Horto das Oliveiras, com seu Preciosíssimo Sangue chegando a escorrer da pele como suor (cf. Lc 22, 39-46; STh III 15 7c.).

O problema não é, pois, o medo que sentimos, mas sim o que fazemos dele. O temor não chega a ser reprovável quando é só um sentimento, um frio na espinha ou um arrepio na nuca. Quando ele vai para o coração e passa a ser pensado, alimentado e até “racionalizado”, eis o grande perigo. 

Perigo que se torna ainda maior quando o medo é nutrido por uma alma que não invoca a Deus. Deum non invocavérunt, diz o Autor Sagrado. É interessante observar que, embora este salmo comece fazendo uma clara alusão aos descrentes, a quem hoje chamamos de ateus — Dixit insípiens in corde suo: Non est Deus, “Disse o insensato em seu coração: Deus não existe” (v. 1) —, não são eles os únicos a “trepidar” nesta época de pandemia. O temor e o tremor são hóspedes também dos religiosos, dos cristãos, dos católicos. E para que eles sejam afetados é muito simples: basta que não rezem ou, se rezavam, que deixem de fazê-lo. Receita infalível da desgraça! 

Não estamos falando do Terço ou de uma outra prática de piedade qualquer que, num dia determinado, alguém deixou de rezar, por cansaço ou por alguma eventualidade, não. Estamos falando de um ateísmo prático, de um hábito consolidado de viver como se Deus não existisse, de levar a vida, passar os dias, lidando só com as coisas materiais, correndo atrás apenas do que pode saciar a carne… sem dar a Deus o que é de Deus, sem voltar os olhos para o Céu e reconhecer que tudo o que temos e somos nos vem dele, e de que nosso futuro está, em última instância, nas mãos dele. 

Estamos falando, em suma, da falta (ou da perda) de fé na Providência divina: eis a causa dos temores vãos em que vive grande parte da sociedade. Pois, apesar dos vírus microscópicos que atacam nosso sistema imunológico e dos poderosos globalistas que ameaçam a autonomia das nações, se as pessoas cressem realmente que Deus está no controle de tudo, seria fácil perceber que, para além das aparências, em nenhuma destas coisas há razão para ter medo. Se todos os fios de cabelo de nossa cabeça estão contados, por que temer os perigos deste mundo, que só nos podem atingir o corpo?

Agora, é claro, se a nossa alma não está com Deus, se não estamos em estado de graça, então, sim, temos o que temer. “Tudo concorre para o bem dos que amam a Deus” (Rm 8, 28), mas o mesmo não está garantido aos que não o amam. Dormindo e acordando no pecado mortal, encontramo-nos expostos à maior das desgraças que existe: a condenação eterna. Numa situação assim, tudo é motivo para temor. É por isso que quem vive no pecado nunca está tranquilo: o homem desgraçado pode até ter seguranças neste mundo, pode até ter muitos bens e riquezas, pode até ter uma “saúde de ferro”... Se a morte o apanhar, vai tudo por água abaixo. É por isso que também ele vive a trepidar.

O verbo usado na Vulgata é este mesmo: “trepidar”. Ao escutá-lo, a primeira imagem que nos vem à mente é a de um automóvel. Um carro que trepida onde não devia trepidar — conduzido por bom motorista e em pista regular — certamente está com problema mecânico e deve ser levado à oficina. Pois bem: do mesmo modo, uma pessoa que treme diante das adversidades desta vida precisa se resolver. Se seu problema é o pecado, ela precisa de arrependimento (e de um sacerdote, para se confessar). Se ela está em graça, no entanto, a única coisa que precisa fazer é parar de escutar a voz do inimigo e dar ouvido à palavra de Deus: Non timébis a timóre noctúrno, a sagítta volánte in die, a negótio perambulánte in ténebris: ab incúrsu, et dæmónio meridiáno, “Não temerás sustos noturnos, nem a seta que voa de dia, nem o inimigo que anda nas trevas, nem os assaltos do demônio do meio-dia” (Sl 90, 5-6). 

O remédio para os nossos temores está, portanto, na obediência a Deus e na oração confiante dirigida a Ele. Qui confídunt in Dómino, sicut mons Sion: non commovébitur in ætérnum, qui hábitat in Ierúsalem, “Os que confiam no Senhor são como o monte Sião; nunca será abalado o que habita em Jerusalém” (Sl 124, 1-2).

Notas

  1. Este Salmo reza-se, no antigo Breviarium Romanum, toda quarta-feira, na hora Prima; e na atual Liturgia das Horas, na terça-feira da II Semana do Saltério, hora Sexta.
  2. “Os que se dedicam à oração recebem a ajuda do Senhor, que, por menos que eles se esforcem, lhes dá contentamento para que suportem os sofrimentos” (S. Teresa de Jesus, Livro da Vida, VIII, 8. In: Escritos de Teresa de Ávila. São Paulo: Loyola, 2001, p. 65).

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São Januário, os nossos pecados e os castigos de Deus
Liturgia

São Januário,
os nossos pecados
e os castigos de Deus

São Januário, os nossos pecados e os castigos de Deus

Ninguém é obrigado a crer num sinal como o do sangue de São Januário, em Nápoles. Mas no Deus que recompensa os justos e castiga os maus, neste, sim, estamos obrigados a acreditar, sob pena de deixarmos de ser católicos e vigilantes.

Equipe Christo Nihil Praeponere21 de Dezembro de 2020Tempo de leitura: 16 minutos
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Vimos nesta semana que antecedeu à do Natal algumas pessoas preocupadas com o fato de que o célebre sangue de S. Januário (guardado em um relicário em Nápoles) novamente não se liquefez, como é costume que aconteça no dia 16 de dezembro. A ausência do sinal milagroso — que sói acontecer em outras duas épocas do ano, desde tempos imemoriais — é vista pelos fiéis da região como um presságio de calamidades. Por isso o povo, crente de que o “silêncio” de seu santo padroeiro é devido a seus pecados, põe-se a fazer oração e penitência, invocando a misericórdia de Deus sobre si, sobre sua terra e, em última instância, sobre o mundo inteiro.

Trata-se de uma atitude tipicamente medieval esta (e não usamos o termo em sentido pejorativo): o povo católico, reunido dentro de uma igreja, dirigindo preces e súplicas aos céus, para se ver livre de algum mal iminente. Fenômeno “medieval”, nós o chamamos, porque o homem da Idade Média acreditava nestas coisas: Deus, sua Providência, sua justiça e misericórdia, seus castigos e favores aos homens.

Não incorramos em idealizações indevidas: sabemos que, noutros tempos e lugares, essa religiosidade podia facilmente descambar — como realmente acontecia — para uma credulidade excessiva, quando não para o próprio pecado de superstição. O extremo de nossa época, no entanto, e de nosso mundo, é o oposto: falta-nos o mínimo de fé, o mínimo necessário para nos dizermos católicos, ou para nos identificarmos com os católicos de outras eras e locais. A relíquia do sangue de S. Januário, por exemplo, hoje é facilmente desprezada como um artefato medieval (agora sim, em sentido pejorativo), e as pessoas que dão crédito ao seu caráter milagroso, ou que de algum modo se preocupam com o que a sua não-liquefação prenuncia, são sem mais tachadas de exageradas, fanáticas e adjetivos do gênero.

Mas por que os céticos e os despreocupados estão errados? Porque, seja qual for o estado em que se encontre o sangue milagroso de S. Januário, os fatos que se passam ao nosso redor, as notícias que recebemos nos jornais, o estado de decadência espiritual em que se acha a nossa civilização, são matéria suficiente para que coloquemos nossos joelhos no chão e invoquemos, entre gemidos e súplicas, o auxílio de Deus para nós e nossas famílias. (Só para não deixar demasiado abstrata essa descrição da realidade, consideremos como 2020 começou com Jesus Cristo abertamente humilhado por Satanás em plena Sapucaí, e terminou com uma “celebração ecumênica da maconha” dentro de uma igreja católica em São Paulo.)

É verdade que ninguém é obrigado a crer num sinal como o de Nápoles; mas no Deus que recompensa os justos e castiga os maus, como testemunha toda a história da salvação — do Antigo Testamento até os nossos dias —, neste, sim, estamos obrigados a acreditar, sob pena de deixarmos de ser católicos. Ninguém é obrigado a aceitar a tese (divulgada na internet por alguns bispos e bons teólogos) de que a pandemia de coronavírus é um castigo dos céus pela perversidade dos homens; mas que nossa sociedade vive uma situação sem precedentes de pecado, que clama a justiça de Deus, não são necessários dons especiais para reconhecer: basta ter olhos para enxergar a realidade e um mínimo de fé na divina Providência. 

Só que, aparentemente, a consciência moral e religiosa dos católicos se perdeu em meio às inovações tecnológicas, aos divertimentos e às dissipações das últimas décadas. A expressão “castigo” mesma, que usamos já mais de uma vez ao longo desta matéria, foi há muito abolida do vocabulário católico. E pior: muitos já nem crêem que Deus realmente castigue os pecados dos homens, com alguns chegando ao absurdo de afirmar que o Inferno não existe ou que, se ele existe, está vazio e quase ninguém vai parar lá. 

Em que mundo vivem estes teólogos da salvação universal? No mesmo em que nós. Mas, pelo visto, eles decidiram imputar a Deus a suprema indiferença, disfarçada sob uma aparência falsa de bondade e misericórdia. Comentando sobre isso, escreve o seguinte o Pe. Royo Marín (Dios y su obra, pp. 627-628, tradução e grifos nossos): 

É aterrador contemplar o espetáculo que oferece o mundo em matéria de deveres religiosos. […] A maior parte dos homens não tem para com Deus outra coisa além de frieza, apatia e indiferença […] Chega-se a combater a Deus, a declarar-lhe abertamente guerra. Tenta-se, sem rodeios nem dissimulações, destroná-lo, arrancá-lo de todas as inteligências e de todos os corações. Faz-se burla dele e de suas leis; Ele é desafiado, é provocado impudicamente, é amaldiçoado e blasfemado, é coberto de insultos e impropérios; é culpado por todos os males e desgraças do mundo. É impossível imaginar uma subversão mais total e monstruosa da honradez, do bem e da justiça.

[…] É coisa clara que Deus não pode permanecer indiferente diante deste monstruoso estado de coisas. Impede-lho sua infinita santidade e seu infinito amor. Um Deus que permanecesse indiferente à violação mais descarada de todas as suas leis, que permitisse fossem pisoteados seus direitos sem oposição alguma, não seria digno do nome de Deus. Uma tal atitude não poderia qualificar-se de bondade e de misericórdia, mas de debilidade, negligência e descumprimento das leis indeclináveis da justiça, da verdade e do bem. Tem de castigar, e castiga de fato, inexoravelmente, os delinquentes. A dor é o grande ministro e executor de sua justiça.

Assim é, de fato. E este ensinamento não se põe em questão na verdadeira doutrina católica, como se depreende da leitura de qualquer bom livro de Teologia (consulte-se, por exemplo, o excelente Manual de Teología Dogmática, de Ludwig Ott, p. 95ss) ou catecismo. O de S. Pio X, por exemplo, dá lições como as seguintes (grifos nossos):

317. Que pedimos na sétima petição: Mas livrai-nos do mal? — Na sétima petição: Mas livrai-nos do mal, pedimos a Deus que nos livre dos males passados, presentes, futuros, e especialmente do sumo mal, que é o pecado, e da condenação eterna, que é o seu castigo.

425. É um grande pecado a impureza? — É um pecado gravíssimo e abominável diante de Deus e dos homens; rebaixa o homem à condição dos irracionais, arrasta-o a muitos outros pecados e vícios, e provoca os mais terríveis castigos de Deus nesta vida e na outra.

429. Que devemos fazer para observar o sexto e o nono Mandamentos? — Para bem observarmos o sexto e o nono Mandamentos, devemos invocar frequentemente e de todo o coração a Deus, ser devotos de Maria Virgem, Mãe da pureza, lembrar-nos de que Deus nos vê, pensar na morte, nos castigos divinos, na Paixão de Jesus Cristo, guardar os nossos sentidos, praticar a mortificação cristã, e frequentar os sacramentos com as devidas disposições.

950. Que males causa à alma o pecado mortal? — O pecado mortal: 1.º priva a alma da graça e da amizade de Deus; 2.º fá-la perder o Céu; 3.º priva-a dos merecimentos adquiridos e torna-a incapaz de adquirir novos; 4.º torna a alma escrava do demônio; 5.º fá-la merecer o Inferno e também os castigos desta vida.

Ora, se é assim — e se o castigo divino aparece nos próprios Evangelhos —, o que explica que não se fale mais dele — e até que não se creia mais nele?

Uma das razões para esse silêncio e incredulidade deve ser encontrada no velho adágio católico: lex orandi, lex credendi, “a lei da oração é a lei da fé”. A verdade de que nossos pecados atraem sobre nós a ira de Deus, de que devemos fazer penitência por eles, só deixou de ser crida porque primeiro deixou de ser rezada. Não por todas as pessoas, é claro, porque os livrinhos populares de oração continuaram (e continuam) a nutrir a piedade dos fiéis e a inculcar nas pessoas mais simples a necessidade de reparar os próprios pecados [1]. O que não saiu das mãos e das bocas das senhoras do Apostolado da Oração, no entanto, foi sorrateiramente sonegado à mais importante classe de orantes dentro da Igreja: os sacerdotes, os ministros ordenados, tirados do meio do povo justamente para se unirem a Cristo vítima no altar, oferecendo-se em sacrifício pelo povo. 

Por que dizemos isso? Porque é triste constatar como foram tirados da liturgia reformada após o Concílio Vaticano II elementos que, noutros tempos, protegiam a vida ascética, primeiro dos padres e, depois, de todo o rebanho sob seu cuidado.

Trazemos a seguir dois, apenas dois exemplos, de como a “ira”, a “punição” e a “vingança” de Deus… simplesmente desapareceram da oração católica oficial desde a década de 1970, depois de milênios de cristãos (e, antes deles, de judeus) procedendo de forma completamente diversa em sua oração.

Um expurgo: os salmos imprecatórios

Em primeiro lugar, falemos da omissão dos salmos imprecatórios do Ofício Divino [2]. Todos sabem que a Liturgia das Horas é a oração diuturna da Igreja, constante, perseverante, incessante. A ela aderem religiosos e religiosas, sacerdotes e, (graças a Deus) principalmente após o Concílio Vaticano II, uma multidão de leigos. É a oração litúrgica mais importante que se faz na Igreja depois da Santa Missa. Não sem razão os ministros ordenados, ainda ao se tornarem diáconos, prometem diante de seus bispos rezá-lo com fidelidade — e fazem-no sob pena de pecado mortal (os que ainda acreditam nele, é claro). 

Desde 1970, no entanto, na contramão de dezenove séculos e meio de Igreja Católica, os Salmos não são rezados na sua integridade pelos clérigos do rito romano. Isso porque certos versículos, — e nalguns casos, salmos inteiros — tidos como difíceis e “obscuros”, foram simplesmente expurgados do Divino Ofício. O motivo para a mutilação parecia pastoralmente muito adequado: haveria uma “certa dificuldade de ordem psicológica” (Instrução Geral para a Liturgia das Horas, n. 131) na récita de maldições como as seguintes...

Os pecadores perverteram-se desde o seu nascimento [...].
Deus lhes quebrará os dentes na sua boca;
o Senhor quebrará as queixadas desses leões.
Serão reduzidos a nada como água que passa [...].
Serão destruídos como a cera que se derrete [...].
Alegrar-se-á o justo ao ver a vingança;
lavará as suas mãos no sangue do pecador.
E o homem dirá: Se deveras há recompensa para o justo,
é certo haver um Deus que os julga sobre a terra (Sl 57, 4.7-8.9.11-12).

Ó meu Deus, agita-os como uma roda,
e como uma palhinha diante do soprar do vento.
Como fogo que queima uma selva,
e como chama que abrasa os montes,
assim os perseguirás com a tua tempestade,
e com a tua ira os aterrarás.
Cobre os seus rostos de ignomínia,
e deste modo buscarão o teu nome, Senhor.
Sejam envergonhados e perturbados para sempre, sejam confundidos e pereçam.
E conheçam que te é próprio o nome de Senhor,
e que só tu és o Altíssimo em toda a terra (Sl 82, 14-19).

Ó Deus, não cales o meu louvor,
porque a boca do pecador e a boca do traidor abriram-se contra mim [...].
Sejam abreviados os seus dias, e receba outro o seu ministério.
Fiquem seus filhos órfãos,
E sua mulher viúva.
Andem vagabundos dum lugar para outro os seus filhos,
e mendiguem, e sejam lançados fora das suas habitações [...].
Não tenha quem o ajude, nem haja quem se compadeça dos seus órfãos.
Sejam exterminados todos os seus filhos,
em uma só geração fique apagado o seu nome (Sl 108, 2.8-10.12-13).

Palavras bem pesadas todas estas, é verdade, mas cabe perguntar: se por séculos os judeus e, depois deles, os santos, rezaram esses salmos — e com razão porque, constantes da Sagrada Escritura, são verdadeira Palavra de Deus —, não seria o caso de aprendermos a lê-los da maneira correta, à luz do Evangelho? Por que os católicos do século XXI não podem rezar os salmos imprecatórios dirigindo seu ódio, sua indignação e suas forças vitais contra os demônios, que querem nossa perdição eterna? Ou contra as seduções do mundo, que parecem rodear-nos agora com mais força do que nunca? O primeiro Papa escreve-nos dizendo: “O vosso adversário, o diabo, rodeia como um leão a rugir, procurando a quem devorar”, e ajunta: “Resisti-lhe, firmes na fé” [3]. Ora, de que modo se supõe que devamos resistir a um leão? Com rosas, sorrisos e afagos?

Não, os salmos imprecatórios, se são Palavra de Deus — e nós o cremos —, precisam, sim, ser rezados. Deus os pensou, cada um deles, assim como cada um dos versículos das sagradas páginas — e pensou-os especialmente para momentos como os nossos, onde abundam a covardia e a pusilanimidade, o desânimo e a anemia moral, a fraqueza e a sedição diante do mal. Não se trata de começar uma guerra, mas de saber que nós já estamos em uma, na qual está em jogo nada menos do que a nossa salvação eterna. 

Uma mudança de tom generalizada

Falemos em segundo lugar da mudança de tom que é notável, de modo geral, nas orações litúrgicas atuais, em comparação com o que se rezava antigamente. Devido à atual situação de peste em que nos encontramos, poucos exemplos ilustram tão bem o abrandamento de nossas súplicas a Deus do que a atual Missa in tempore universalis contagii, publicada pela Sagrada Congregação para o Culto Divino em 30 de março como suplemento litúrgico contra a pandemia de Covid-19 (e que pode ser encontrada aqui, em vários idiomas) [4].

Note-se bem o seguinte: não estamos falando aqui de erros teológicos ou de orações más. Os excertos que vamos comentar a seguir são parte de um texto litúrgico legítimo da Santa Igreja, que não só pode como deve ser rezado pelos sacerdotes pedindo a Deus misericórdia nestes tempos difíceis. Nada disso está em questão. Só não podemos fechar os olhos para as discrepâncias alarmantes entre o que a Igreja está rezando em 2020 e o que ela rezava um século atrás, por exemplo, diante da gripe espanhola. 

A antífona de entrada de hoje diz: “Ele suportou as nossas enfermidades e tomou sobre si as nossas dores” (Is 53, 4). Mas o intróito da Missa votiva in tempore mortalitatis, presente no Missal de 1962, rezava o seguinte: 

Recordare, Domine, testamenti tui, et dic Angelo percutienti: Cesset iam manus tua, et non desoletur terra, et ne perdas omnem animam viventem, “Lembrai-vos Senhor, da vossa aliança, e dizei ao Anjo que golpeia: Cesse já a tua mão, e não seja desolada a terra, para que não faças perecer toda alma vivente”. 

É claro, ninguém recriminará o autor da atual Missa contra a peste por ter citado a profecia do Servo Sofredor. Como já dito, não há nada de errado aqui. Mas a convicção de que é o Senhor, em sua Providência, que permite o mal, muitas vezes para nossa correção e salvação, infelizmente é uma verdade da qual poucas vezes ouvimos falar. E, no entanto, ela está presente não só no intróito desta Missa antiga, mas também na sua leitura epistolar, tomada do Livro dos Reis (II 24, 15-19.25), e antífona de ofertório, tomada do livro dos Números (17, 11).

Voltemos, porém, à atual Missa contra pandemias. A longa (e bela) oração de coleta de agora diz: 

Deus eterno e onipotente, nosso refúgio em todos os perigos, olhai benignamente para as nossas aflições e angústias; como filhos, com fé Vos pedimos: concedei o eterno descanso aos que morreram, conforto aos que choram, cura aos doentes, paz aos moribundos, a força aos que trabalham na saúde, a sabedoria aos nossos governantes e a coragem para chegarmos amorosamente a todos glorificando juntos o Vosso Santo Nome. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo. Amém.

A coleta do Vetus Ordo, embora mais breve, possui uma mensagem direta e cortante: 

Deus, qui non mortem sed poenitentiam desideras peccatorum: populum tuum ad te revertentem propitius respice; ut, dum tibi devotus exsistit, iracundiae tuae flagella ab eo clementer amoveas. Per Dóminum…, “Deus, que quereis não a morte, mas a penitência dos pecadores: olhai propício para o povo que a vós se volta; para que, enquanto permanece devoto a vós, dele afastes com clemência os flagelos de vossa ira”.

Poderíamos ir adiante e comparar as demais orações das duas Missas para a mesma ocasião, mas estas da coleta são suficientes para nos deixar perplexos. Em ambas há, sem dúvida, um pedido comum a Deus para que “olhe” para nossa situação, se compadeça de nós e mude a nossa sorte. Mas só em uma se vê o reconhecimento humilde do que ensejou tudo aquilo por que estamos passando: o nosso pecado. Ora, é muito mais fácil ver o mal físico e pedir que cesse; exige porém um ato de fé e contrição olhar para ele e dizer: “Com meu pecado, Senhor, eu merecia muito mais do que isso”.

Essa atitude de coração — muito mais do que a linguagem — está ausente não só de muitos textos da liturgia reformada, como também das nossas orações pessoais, das nossas meditações e das nossas catequeses. Quantas vezes os chamados “grupos de oração” não servem senão para as pessoas afagarem os sentimentos feridos umas das outras, ao invés de dirigir a Deus atos de adoração, súplica, ação de graças e propiciação pelos pecados — que é como deve ser a prece de todo católico? 

Precisamos resgatar, com urgência, a consciência de que o nosso pecado ofende a Deus e exige reparação. Não podemos ser coniventes com este século, que perdeu por completo o senso do mal moral e chega mesmo a blasfemar contra Deus e tudo o que é santo. Precisamos reagir com vigor ao escarcéu que se faz mundo afora contra os direitos divinos, pois, se nós católicos não o fizermos, ninguém mais o fará. 

Para tanto, nós sabemos, é preciso começar batendo no próprio peito e confessando: Peccavi nimis, cogitatione, verbo, opere et omissione, mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa. É preciso lançar um olhar para dentro do nosso próprio coração e reconhecer: é aqui que começa a batalha contra o mal, eis o primeiro lugar onde Deus precisa triunfar sobre os seus inimigos

Nessa luta, só o que não vale é ficar parado, cruzar os braços, entregar os pontos. O sangue de S. Januário não se liquefez de novo, é verdade. O que fazer, então? “Penitência, penitência, penitência!” A começar por nossos pecados, que já não são poucos. Seria muito belo ver a Igreja do mundo inteiro convocando jejuns e vigílias depois que o sinal milagroso de S. Januário nos foi novamente negado! Seria muito sério — e certamente chamaria a atenção de muitos — se cada pároco de aldeia trovejasse de seu púlpito palavras inflamadas contra o nosso pecado, que mantém sólido o sangue de um santo e faz ser vertido o Sangue de um Deus, que ajunta males sobre as nossas cabeças e provoca fomes, pestes e terremotos…

Na falta de tudo isso, quem tem de agir somos nós: em nossa vida pessoal, dentro de nossas casas, no seio de nossas famílias. Sejamos os “pararraios” que Deus tão insistentemente pede que seus servos sejam, aplacando a sua ira e atraindo as bênçãos que Ele tanto deseja dispensar sobre uma humanidade que é, incluídos nós, tão ingrata ao seu amor.

Notas

  1. Veja-se, por exemplo, o singelo manual de orações da Serva de Deus Lola (uma leiga de Minas Gerais que sobreviveu alimentando-se apenas da Eucaristia por 60 anos e ofereceu sua vida em verdadeiro holocausto a Deus, até morrer, no ano de 1999, em odor de santidade).
  2. Sobre isso, ler P. Kwasniewski, The Omission of “Difficult” Psalms and the Spreading-Thin of the Psalter. Rorate Caeli, 15 nov. 2016.
  3. Estas palavras de S. Pedro, inclusive, constam nas Completas do antigo Ofício Divino em todos os dias da semana. Na atual Liturgia das Horas, elas foram preservadas na terça-feira.
  4. Para que se perceba que essa mudança de tom não é de hoje, vale a pena ler, entre outras coisas, P. Kwasniewski, Comparison of Old and New Prayers for Blessing of Ashes. OnePeterFive.com, 26 fev. 2020.

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Os pais ou os pares? A tradição ou a moda?
Sociedade

Os pais ou os pares?
A tradição ou a moda?

Os pais ou os pares? A tradição ou a moda?

Já foi ignorado por um grupo de crianças ou de adolescentes? Seu próprio filho já se transformou numa pessoa hostil e obcecada por passar tempo com os amigos? Entenda o fenômeno moderno da “orientação pelos pares”.

Vanessa P. LopezTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere19 de Dezembro de 2020Tempo de leitura: 9 minutos
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À medida que nos aproximamos de uma temporada de feriados mais tranquila e simples em meio à pandemia de Covid-19, o Senhor nos dá a oportunidade de nos concentrarmos no que é essencial: nossa fé e nossa família. Além das dificuldades e temores, a pandemia deu a muitas famílias agitadas a oportunidade de frear agendas cheias de compromissos, passar mais tempo reunidas e fortalecer a crucial relação entre pais e filhos. Essa relação não é apenas de suma importância para a saúde e o bem-estar das crianças e, portanto, para todo o mundo: é também um enriquecedor campo de descobertas para a compreensão de nossa cultura e de nossa relação com Deus.    

Já passou por um grupo de adolescentes e percebeu que todos eles evitaram deliberadamente fazer contato visual com você? Já tentou ensinar um grupo de crianças que não demonstram absolutamente nenhum interesse no que você tem a dizer? Seu próprio filho já deixou de ser alguém solidário e se transformou numa pessoa hostil e obcecada por passar tempo com os amigos? Todas essas situações da vida normal, anterior à pandemia, são manifestações da orientação dos pares.  

“Orientação dos pares” (em oposição a “orientação dos pais”) é o termo cunhado pelo psicólogo canadense Gordon Neufeld para descrever o fenômeno psicológico de filhos que se afastam dos pais e outros adultos confiáveis e passam a considerar outros jovens como guias ao longo da vida. Neufeld sugere que a orientação dos pares surgiu logo após a II Guerra Mundial, pois o contexto tradicional que dava suporte à parentalidade havia se desgastado. Ele mostra que a cultura sempre serviu de meio para a transmissão de sabedoria e de experiência da geração mais velha para a mais nova. No entanto, após a II Guerra Mundial, teve início uma “cultura jovem”: música, linguagem, cortes de cabelo etc. criados por jovens e transmitidos diretamente a outros jovens. Hoje, o conceito de uma cultura jovem é tão banal que talvez nem percebamos qual é a relação dela com a saúde da nossa sociedade, mas Neufeld nos alerta: é um sinal de que algo muito grave aconteceu.

Os dois elementos essenciais da relação entre pais e filhos são o vínculo emocional e a orientação [dada pelos pais]. O vínculo emocional começa na infância, com práticas concretas como ninar e carregar o bebê. Se tudo vai bem, o vínculo dos filhos com os pais se desenvolve e vai além da dimensão física, tornando-se um vínculo emocional e psicológico que pode suportar a separação física temporária. O vínculo saudável não precisa limitar-se aos pais; pode ser ampliado e incluir os avós ou outros cuidadores e professores de confiança. Nesse contexto, os filhos naturalmente seguem o exemplo dos adultos e correspondem à disciplina.  

As crianças precisam entender o mundo e aprender a amadurecer, e esses processos são descritos pelo conceito conexo de orientação. No curso normal do desenvolvimento, a bússola interior das crianças aponta para os pais na busca de respostas a essas perguntas. No entanto, essa orientação adequada não está de modo algum garantida. Assim como o vínculo afetivo, a orientação deve ser sólida e preservada de forma ativa. A orientação dos filhos pode ser realizada por meio de coisas importantes como a comunicação sadia com o cônjuge, e por coisas menores como dizer aos filhos o que eles podem esperar de um novo local que será visitado pela família.

Quando pais e filhos passam boa parte do dia separados, quando eventos traumáticos ameaçam a família, quando aspectos da cultura desgastam o vínculo entre pais e filhos, e quando pais bem-intencionados encorajam seus filhos a passar muito tempo com amigos em detrimento da convivência familiar, as crianças correm o risco de perder o vínculo com os adultos e a orientação deles, e terminam recorrendo umas às outras. São cegos que guiam outros cegos, provocando danos nos que se preocupam com eles (cf. Lc 6, 39). As crianças ficam obcecadas com a ideia de permanecer juntas e conseguir a aceitação dos pares, custe o que custar. Assim, tornam-se hostis aos adultos que procuram orientá-las. Como os colegas jamais podem oferecer uns aos outros verdadeira sabedoria e amor incondicional, crianças que são orientadas por seus colegas jamais amadurecerão plenamente.  

Mais do que nunca, os pais devem reivindicar de forma consciente e ativa o papel de modelo e guia dos filhos, atraindo-os com paciência para um vínculo amoroso, até que se tornem verdadeiros adultos. Podemos e devemos insistir em que nossos filhos passem mais tempo com a família do que com os colegas. Devemos ter coragem suficiente para introduzir as mudanças necessárias em nosso estilo de vida para que passemos mais tempo com eles, ainda que, por causa disso, eles aparentemente nos odeiem. Nós sabemos mais do que os nossos filhos, e eles precisam desesperadamente que atuemos conforme essa verdade.

A orientação dos colegas contra a dos pais tem algumas ramificações fascinantes que vão além da relação individual entre pai e filho, objeto de discussão de Neufeld e Gabor Maté, coautor do livro Hold on to Your Kids [“Pais ocupados, filhos distantes”]. O primeiro fenômeno a ser considerado é o fato de muitos adultos hoje em dia serem eles mesmos orientados por colegas. As redes sociais são um dos locais onde se pode constatá-lo com mais facilidade. Esse tipo de mídia nos estimula a verificar constantemente o que está acontecendo agora — quais são as tendências entre os adultos — e a nos envolver com isso. O medo de ficar desatualizado e o desejo de ser aceito nas redes sociais são preocupações que resultam da orientação dos pares entre crianças e se tornam notórias entre adultos. Suspeito que esse tipo de orientação dos pares, tão presente em nossa cultura, possa explicar, ao menos em parte, como aceitamos de forma tão rápida uma redefinição do casamento e da identidade sexual que teria sido incompreensível para a maioria dos seres humanos que nos precederam na Terra. Como crianças que buscam a orientação dos pares, nós, adultos, temos medo de ser diferentes.   

Se a obsessão com o que está na moda é um sinal da orientação pelos pares entre os adultos de hoje, qual seria a orientação “parental” correspondente para os adultos? Numa palavra: tradição. Peter Kreeft confirma meu ponto de vista com sua clareza característica em The Philosophy of Tolkien [“A filosofia de Tolkien”]: “Humildade implica aprender com outras pessoas. Aprender com outros implica respeito pela tradição, que não é nada mais do que aprender com os mortos. Como diz a célebre expressão de Chesterton: a tradição é a ‘democracia dos mortos’”. 

Para enfrentar os desafios do presente e delinear um trajeto inteligente para o futuro, temos de permanecer conectados ao que é bom e ao que permanece

Há na educação moderna um fenômeno correlato: menosprezar a sabedoria do passado e pressupor a superioridade moral e intelectual da atual geração. Grandes pensadores históricos são muitas vezes descartados por serem considerados racistas, misóginos ou odiosos, e assim nós somos privados de seus insights duradouros sobre como viver uma boa vida. Pensadores contemporâneos como C. S. Lewis, Anthony Esolen e Jordan Peterson já falaram e escreveram bastante a esse respeito, exortando-nos a não esquecer os “tesouros do passado”, como diz o Dr. Peterson. 

A desconfiança moderna em relação à tradição tem raízes na Reforma Protestante. O cristão católico vive uma fé “orientada pelos pais”: depositamos nossa confiança no Papa (o Santo Padre) e no Magistério instituído por Deus para interpretar a Sagrada Escritura; tomamos como modelo os santos, nossos irmãos mais velhos, e a Tradição como guia. O cristão protestante vive uma fé “orientada pelos pares”: começando por Lutero, Calvino, Zwinglio e outros, os protestantes rejeitaram a Tradição, considerando-a não fidedigna e corrupta. Em vez disso, tomaram o indivíduo como árbitro supremo da Bíblia, preparando assim o cenário para as inúmeras versões do cristianismo protestante que surgem e desaparecem, tendo pouca ou nenhuma relação com o cristianismo histórico.

Os cristãos protestantes são, portanto, suscetíveis à orientação dos pares em suas igrejas. Muitas vezes se fragmentam em grupos tão homogêneos que somente realizam seu culto e só escutam pessoas parecidas com eles em termos culturais e socioeconômicos. A globalidade e a universalidade da Igreja Católica ajudam os católicos a não cair nesse mesmo dilema. 

Nossa cultura perdeu outra importante “orientação parental”: a do vínculo respeitoso com a “mãe natureza” [1]. Embora o movimento ambientalista contemporâneo nos exorte a cuidar dos dons da natureza, não nos encoraja necessariamente a respeitar e a valorizar nossa própria natureza, manifesta em nosso corpo. De acordo com a sabedoria dos antigos, a tarefa de todo ser humano é descobrir a realidade e conformar-se a ela. Porém, a abordagem contemporânea procura definir a realidade para só então adequá-la à nossa opinião. Contracepção, aborto e “remédios” para a mudança de sexo são todos manifestações de uma atitude que diz: “Sabemos mais do que a ‘mãe natureza’”.

Em última análise, todas essas manifestações da orientação pelos pares em larga escala são consequências do primeiro ato de orientação pelos pares: a Queda. Nossos primeiros pais foram criados para viver numa relação de amor e confiança com Deus Pai: a verdadeira orientação parental. Quando, em vez disso, escutaram a voz do tentador e seguiram uma criatura (um “par”) em lugar do Criador, a relação filial foi dramaticamente prejudicada.

Qual é a resposta de Nosso Senhor a essa confusão gerada pela orientação dos pares? “Vendo a multidão, ficou tomado de compaixão, porque estava enfraquecida e abatida como ovelhas sem pastor” (Mt 9, 36). Nosso Salvador nos mostra que a relação que devemos ter com Deus deve ser de confiança absoluta e amorosa, e Ele faz isso vivendo-a com perfeição e convidando-nos a fazer o mesmo. Num paralelo preciso com as descrições de Neufeld e Maté sobre uma relação entre pais e filhos, Jesus estabeleceu os meios para o nosso vínculo e orientação salvífica em nossa relação com Deus

Os sacramentos são as ferramentas de Deus para estabelecer o vínculo afetivo. Primeiro, vinculamo-nos a Ele em nosso Batismo; em seguida, preservamos e fortalecemos esse vínculo por meio da Confirmação, da Confissão e da Eucaristia. Deus nos orienta no caminho da vida por meio da Bíblia e do Magistério da Igreja: “Vossa palavra é um facho que ilumina meus passos, uma luz em meu caminho” (Sl 118, 105). Quando permitimos que a mais importante das relações seja restaurada pela graça de Deus, também percebemos claramente o modo de restaurar a ordem em outros aspectos da vida.

Não deveríamos nos surpreender com o paralelo entre um bom livro sobre paternidade e a nossa fé. Algo verdadeiro na relação entre pais e filhos provavelmente será verdadeiro na relação entre Deus e o homem. Não foi por acaso que Deus determinou que nossa existência começasse, continuasse e terminasse no contexto familiar, pois ela é a melhor analogia material que podemos estabelecer com a vida interior dele: a Santíssima Trindade. Por isso, a defesa do matrimônio e da família é tão essencial. À medida que a pandemia de Covid-19 continua, em sua primeira temporada de festas de fim de ano, aproveitemos com coragem as oportunidades que a Providência nos tem dado para reconquistar os nossos filhos e permitir que Deus nos reconquiste

Notas

  1. Que o leitor entenda bem esta expressão, no contexto em que foi colocada. Não se trata de um termo mau em si mesmo, só porque é instrumentalizado pelo “movimento ambientalista contemporâneo” — do qual a própria autora fala no texto. Vale lembrar que o próprio S. Francisco de Assis refere-se à terra como “mãe”, sem que ela deixe de ser, ao mesmo tempo, “nossa irmã” (Cantico delle creature: Fonti Francescane, 263) (n.d.t.).

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