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Depois de Pentecostes, os Apóstolos ficaram assim...
Espiritualidade

Depois de Pentecostes,
os Apóstolos ficaram assim...

Depois de Pentecostes, os Apóstolos ficaram assim...

Antes de Pentecostes, os Apóstolos se reuniam amedrontados e a portas fechadas. Depois do derramamento do Espírito Santo, porém, suas mentes foram despertadas, seus corações, confirmados, e eles passaram a manifestar as quatro seguintes qualidades.

Mons. Charles PopeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere26 de Maio de 2021Tempo de leitura: 8 minutos
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A passagem bíblica a seguir, extraída dos Atos dos Apóstolos, apresenta um retrato de coragem e santa ousadia bem pouco evidentes em muitos católicos. 

Analisemos o episódio, que acontece logo após a cura do homem paralítico diante do portão chamado Belo. Em seguida, reflitamos sobre quatro qualidades manifestadas pelos Apóstolos Pedro e Paulo. 

Vendo eles [os sinedritas] a coragem de Pedro e de João, e considerando que eram homens sem estudo e sem instrução, admiravam-se. Reconheciam-nos como companheiros de Jesus. Mas, vendo com eles o homem que tinha sido curado, não puderam replicar. Mandaram que se retirassem da sala do conselho, e confe­renciaram entre si: “Que faremos destes homens? Porquanto o milagre por eles feito se tornou conhecido de todos os habitantes de Jerusalém, e não o podemos negar. Todavia, para que esta notícia não se divulgue mais entre o povo, proibamos, com ameaças, que no futuro falem a alguém nesse nome”. Chamaram-nos e ordenaram-lhes que absolutamente não falassem nem ensinassem em nome de Jesus. Responderam-lhes Pedro e João: “Julgai-o vós mesmos se é justo diante de Deus obedecermos a vós mais do que a Deus. Não podemos deixar de falar das coisas que temos visto e ouvido”. Eles, então, ameaçando-os de novo, soltaram-nos, não achando pretexto para os castigar por causa do povo, porque todos glorificavam a Deus pelo que tinha acontecido (At 4, 13-21).

1. Autoridade. — O texto começa com uma referência à “coragem” de Pedro e João, relacionando-a com o fato de as autoridades religiosas estarem “admiradas”. Como homens comuns e sem estudo conseguiam falar e agir daquela maneira?

A palavra grega traduzida como “coragem” é παρρησία (parresía ou parrhēsía), que vem de pás (“tudo”) + rhēsis, “um provérbio ou afirmação citada com determinação”. Em outras palavras, parresía significa falar com confiança e manifestar uma forte determinação; significa falar de modo claro, público ou eficaz. O termo “retórica” vem da raiz rhēsis. Retórica é a arte do discurso eficaz ou persuasivo e, em seu sentido mais técnico, geralmente requer treinamento em lógica e postura.

Portanto, a coragem descrita nessa passagem mostra a transformação operada pela Ressurreição e por Pentecostes. Antes de Pentecostes, os Apóstolos, embora muitas vezes fossem zelosos e estivessem dispostos a fazer sacrifícios para seguir Jesus, também demoraram para entender o que viam e muitas vezes ficavam confusos. A partir do domingo de Páscoa (cf. Lc 24, 32.45) e, muito provavelmente, ao longo dos quarenta dias antes da Ascensão, o Senhor instruiu e formou os Apóstolos no Evangelho. No entanto, somente em Pentecostes suas mentes foram plenamente despertadas e seus corações, confirmados. Jesus havia dito: “Muitas coisas ainda tenho a dizer-vos, mas não as podeis suportar agora. Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, ele vos ensinará toda a verdade, porque não falará por si mesmo, mas dirá o que ouvir, e vos anunciará as coisas que virão” (Jo 16, 12-13). Em outra passagem, Ele acrescentou: “Disse-vos essas coisas enquanto estou convosco. Mas o Paráclito, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, irá ensinar-vos todas as coisas e vos recordará tudo o que vos tenho dito” (Jo 14, 25-26). 

Antes de Pentecostes, os Apóstolos e os discípulos reuniram-se amedrontados a portas fechadas. No entanto, em seguida eles prosseguem com a coragem aqui descrita. Os líderes religiosos ficam “admirados” e se maravilham com o fato de homens comuns e não instruídos terem um domínio tão abrangente do assunto de que tratam, bem como uma coragem tão serena. Pedro e João curaram um homem aleijado havia quarenta anos. Eles sabiam que ele era aleijado e já o tinham visto no Templo. Os líderes religiosos não conseguem explicá-lo. Além do mais, as ameaças de costume não parecem gerar neles o efeito desejado. 

Sim, Pedro e João agem com coragem, confiança e intrepidez. Estão manifestando o dom que o Senhor prometeu quando disse: 

Mas, antes de tudo isso, vos lançarão as mãos e vos perseguirão, entregando-vos às sinagogas e aos cárceres, levando-vos à presença dos reis e dos governadores, por causa de mim. Isso vos acontecerá para que vos sirva de testemunho. Gravai bem no vosso espírito: não prepareis vossa defesa, porque eu vos darei uma palavra cheia de sabedoria, à qual não poderão resistir nem contradizer os vossos adversários (Lc 21, 12-15).

Como esses homens mudaram (particularmente Pedro)! Está claro que o Senhor lhes deu um dom tal como prometera. Sua coragem é fruto da graça de Deus. Que essa graça possa chegar aos líderes da Igreja hoje, tanto no clero como no laicato. Precisamos mais do nunca dessa santa coragem.

“A Descida do Espírito Santo”, por Ticiano.

2. Sua vinculação a Cristo. — O texto diz que o Sinédrio reconheceu que eles haviam estado com Jesus. Que trecho magnífico. Embora isso possa significar que eles se lembravam de que os Apóstolos acompanharam Jesus, para o leitor a expressão é muito mais profunda. Pedro e João manifestam por meio de suas vidas transformadas que estiveram com Jesus. Eles apresentam o fruto de um relacionamento transformador com Jesus Cristo. Sim, aqueles homens estiveram com Jesus. É óbvio!

E você e eu? Alguém poderia olhar para nós e concluir que estivemos com Jesus? Isso não seria uma descrição do que deveria ser a vida cristã normal? Sua relação com Jesus Cristo é óbvia para os outros? Deveria ser.

Naturalmente, é uma triste realidade que a maioria dos cristãos se contentem em esconder a própria fé ou em seguir a cultura ao seu redor. São cristãos disfarçados, como agentes secretos; embora tenham sido escolhidos por Deus, estão paralisados. Não há fogo genuíno para chamar a atenção dos outros nem proclamações corajosas ou sinais visíveis de vida espiritual. Poucas pessoas concluiriam que esses cristãos estiveram com Jesus.

Onde estamos no espectro da luz? A Luz de Cristo é visível em nós (cf. Mt 5, 14)? Portamos as marcas registradas de Jesus (cf. Gl 6, 17)? Amamos os nossos inimigos (cf. Mt 5, 44)? Brilhamos como as estrelas em meio a uma geração perversa e depravada (cf. Fl 2, 15)? 

3. Impressionante habilidade. — Embora os santos Pedro e João tenham sido presos, a situação se inverteu, com efeito, e foram eles que prenderam o Sinédrio. Como observamos acima, Pedro e João não parecem intimidados pelas ameaças de sempre, e seus argumentos não são facilmente abandonados, pois falam com sinceridade e autoridade. Além disso, as multidões ficam espantadas, e os próprios líderes não conseguem explicar como um homem que notoriamente fora aleijado por quarenta anos agora caminha e até dança!

Eles realmente não sabem o que fazer. São contidos pelo cativante e corajoso testemunho diante deles.

João Paulo II e Madre Teresa.

A verdadeira santidade pode ter esse efeito, ao menos em certas condições. S. Teresa de Calcutá era assim. Embora muitos não tivessem a mesma fé que ela, até os inimigos da fé a admiravam. Isso acontecia, não porque bajulasse os outros, mas justamente pelo contrário. Ela tinha coragem para repreender inclusive os mais poderosos, mas demonstrava um amor que não podia ser negado. A forma como refletia a glória de Cristo deixava todos paralisados.

Este talvez seja um dos dons mais raros de todos, mas ainda deve ser buscado, para que ao menos algumas pessoas em cada época tenham uma santidade e bondade cativantes em sua pureza. 

4. Assertividade. — Ser apropriadamente assertivo é atender às necessidades de alguém sem pisar outras pessoas. E qual é a maior necessidade de qualquer santo? Proclamar a Cristo crucificado e ressuscitado. Desse modo, quando Pedro e João são instados a parar de proclamar o nome de Jesus, reafirmam a necessidade e o direito de continuarem a fazê-lo. Mas o fazem sem desrespeitar os líderes que estão diante deles. Não gritam: “Não vos escutaremos!” Não os desrespeitam pessoalmente de modo algum. Ao contrário, recomendam-se à consciência dos líderes como forma de recusar respeitosamente uma ordem a que não podem obedecer: “Julgai-o vós mesmos se é justo diante de Deus obedecermos a vós mais do que a Deus. Não podemos deixar de falar das coisas que temos visto e ouvido”.

Em outras palavras, eles dizem: “Irmãos, anciãos, não concordais com que um homem há de obedecer a Deus antes que a qualquer outro homem? Fazei o que tendes de fazer. Tende vossos juízos. Nós, porém, devemos obedecer ao Senhor e falar de Jesus até o nosso último suspiro.”

São respeitosos, mas falam com clareza; afirmam a si mesmos e sua missão, mas não atacam nem pisoteiam as reputações ou a justa autoridade dos membros daquela comunidade ou estado; não podem cooperar com uma ordem vil, mas não atacam nem encenam uma tentativa de tomar o poder. Ficam diante de seus oponentes e olham nos olhos deles. Não fogem nem cedem ao medo, mas tampouco se tornam como eles no que diz respeito à arrogância e a exigências injustas. 

Este é um bom modelo para nós que estamos começando a viver dias difíceis, nos quais as pressões da cultura e do governo podem exigir que nos recusemos a cooperar com demandas perversas. Nosso objetivo não é humilhar nem vencer nossos oponentes, mas convertê-los, e se não os convertermos, que ao menos possamos converter a cultura ao nosso redor. Como diz S. Paulo: “Afastamos de nós todo procedimento fingido e vergonhoso. Não andamos com astúcia, nem falsificamos a Palavra de Deus. Pela manifestação da verdade nós nos recomendamos à consciên­cia de todos os homens, diante de Deus” (2Cor 4, 2). 

Aqui temos um modelo para nós e alguns desafios. Temos de manifestar uma corajosa e sincera confiança no Evangelho que proclamamos, porque conhecemos Jesus e estamos sendo conformados à sua imagem. Na verdade, deveríamos pedir e nos esforçar para ter aquela rara santidade, cativante em sua pureza, mas que também nos leva a anunciar a Cristo assertivamente, sem concessões nem hipocrisia. — Ajudai-nos, Senhor!

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Este ícone russo do século XV é uma janela para a Santíssima Trindade
Espiritualidade

Este ícone russo do século XV
é uma janela para a Santíssima Trindade

Este ícone russo do século XV é uma janela para a Santíssima Trindade

Como o mistério para o qual aponta, esta representação da Trindade, do iconógrafo russo Andrei Rublev, é inesgotável em suas riquezas: cada detalhe nela presente possui diversas camadas de significado.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere25 de Maio de 2021Tempo de leitura: 9 minutos
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À medida que nos aproximamos da grande festa da Santíssima Trindade, no domingo depois de Pentecostes, seria muito conveniente meditar sobre este que é o mais fundamental de todos os mistérios da fé cristã. Para isso, podemos recorrer à ajuda do iconógrafo russo Andrei Rublev e seu ícone da Trindade, finalizado em algum momento entre os anos de 1411 e 1427, na mesma época em que Fra Angelico pintava suas primeiras obras-primas nos arredores de Florença. 

Como o mistério para o qual aponta, essa imagem é inesgotável em suas riquezas: cada detalhe possui diversas camadas de significado. Neste artigo seguirei a análise de Paul Evdokimov (às vezes palavra a palavra), publicada no livro The Art of the Icon: A Theology of Beauty, pp. 243–57 (“A Arte do Ícone: Uma Teologia da Beleza”, sem tradução no Brasil), além dos insights do Pe. Gabriel Bunge (The Rublev Trinity). Meu objetivo é explicar as principais características desse ícone, a fim de que sua mensagem nos acompanhe em nossas orações dirigidas ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo.

A Trindade de Rublev.

Em primeiro lugar, que vemos no ícone? Seria um retrato da própria Trindade? Não. O mistério do Deus invisível não pode ser retratado pelo homem. Apenas o Cristo encarnado pode ser retratado em sua aparência carnal. O Espírito pode ser representado em forma de pombo e de chamas, mas o Pai jamais veio ao mundo numa missão visível. Ademais, a própria Trindade só pode ser retratada por meio de metáforas que apontam para ela.

Em vez disso, vemos uma imagem criada da Trindade — a saber, a teofania narrada em Gênesis 18, chamada “hospitalidade de Abraão”. Na história bíblica, três peregrinos misteriosos visitam Abraão, que, pelo juramento de Mamre, os acolhe em sua tenda, sacrifica um novilho para lhes preparar uma refeição e põe a comida diante deles sobre uma mesa. Um texto litúrgico oriental diz sobre essa história: “Bem-aventurado Abraão, vistes e recebestes a divindade, una e trina”. Na tradição iconográfica, havia muitas representações prévias dessa cena, as quais davam a Abraão e a Sara papéis importantes; Rublev porém os omite completamente. A própria ausência deles no retrato convida-nos a penetrar ainda mais no ícone e a passar a um segundo nível. 

A “Eterna Assembleia dos Três” tem diante de si a economia da salvação, o plano de Deus revelado na história. O significado da paisagem é alterado: a tenda de Abraão se torna o palácio-templo; o carvalho de Mamre, a Árvore da Vida. O cosmo é representado pelo esboço de uma tigela posta sobre o altar: nela está a cabeça de um novilho oferecido como alimento, o sacrifício eucarístico para a vida do mundo. O fato de o altar e a tigela representarem o cosmo é enfatizado pelas quatro quinas do altar e pelo pequeno retângulo posto sobre ele, o que nos lembra os quatro pontos cardeais.

Por ser transcendente e inacessível, só é possível insinuar como é a vida interior da Trindade. Ainda assim, Rublev encontra formas de apontar para ela, seguindo a tradicional verdade de que a economia da salvação deriva das processões das Pessoas no interior da divindade (e de certa forma as reflete). 

As três Pessoas aparecem conversando, provavelmente sobre o seguinte versículo do Evangelho de João: “Com efeito, de tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único” (Jo 3, 16). Deus é amor em si, em sua essência trinitária, e seu amor pelo mundo é o reflexo de seu amor trinitário, a continuação ou extensão dele até os âmbitos mais distantes do ser. O dom de si ofertado por Deus nunca surge ou resulta de uma perda ou falta; ao contrário, trata-se de um derramamento da superabundância de seu amor. Esse dom de si é representado pela tigela, que podemos interpretar como um poço que nunca seca.

Os anjos estão reunidos em torno da refeição divina. Ainda que seja a cabeça de um novilho, segundo a história narrada em Gênesis, recordamos imediatamente o Cordeiro a respeito do qual o Apocalipse diz o seguinte: o Cordeiro tem sido imolado desde a origem do mundo. O amor, inclusive o sacrifício e a imolação que fluem dele, precederam a criação do mundo e são sua origem

Os três anjos estão parados: há em cada um deles a suprema paz do ser; mas, ao mesmo tempo, cada um está inteiramente presente para o outro. Veja como a imagem do Filho (no centro) e a do Espírito Santo (à direita) curvam suas cabeças de modo delicado e gracioso para sua origem comum, o Pai (à esquerda), que, por sua vez, olha fixamente para eles.

Porém, esse repouso também é movimento, que começa com o pé do anjo estirado à direita e continua até sua cabeça inclinada. Passa pelo anjo do meio e empurra o cosmo: a rocha e a árvore. O movimento termina na posição vertical do anjo à esquerda, onde entra em posição de descanso, como se estivesse num recipiente. Ainda assim, o movimento circular continua com os pés da figura da esquerda, os quais se estendem em direção à figura da direita, completando assim o círculo e mostrando que esse movimento é contínuo. Sempre aparece novamente, e o círculo não é rompido. 

Junto desse movimento circular, cuja conclusão ordena o trabalho inteiro, assim como a eternidade ordena o tempo, temos o movimento vertical do templo e dos cetros. Estes designam a aspiração do criado pelo incriado, do terreno pelo celeste, no qual todo movimento ascendente tem sua conclusão. Talvez possamos dizer que vemos nesses dois movimentos a ágape, ou o amor oblativo, e o eros, ou o amor ardente: aquele brotando de uma abundância já possuída, este surgindo de uma necessidade de ser preenchido.

A forma como Rublev pinta os anjos mostra-nos sua unidade e igualdade: um anjo poderia ser trocado pelo outro. Desta forma, ele confessa a igualdade e a identidade essencial das Pessoas divinas. A diferença entre eles vem da atitude pessoal de cada um em relação aos outros, embora não haja repetição ou confusão. (O ouro brilhante nos ícones designa a natureza divina, sua superabundância. Infelizmente, o folheado desse ícone de 1425 já se desgastou, mas ainda é possível ver onde ele se encontrava nas auréolas.)

As asas ampliadas dos anjos envolvem e cobrem tudo. O contorno interno de todas as asas, um azul delicado, acentua a unidade e o caráter celeste da natureza divina. Um único Deus e três Pessoas perfeitamente iguais. É isso o que expressam os cetros e tronos idênticos. São sinais do mesmo poder real de que cada anjo é dotado. Suas roupas são parecidas, embora a cor seja diferenciada para ressaltar a distinção das Pessoas. A cor que possuem em comum é um azul intenso.

Rublev e seu ícone da Trindade.

O anjo que representa o Pai, à esquerda, usa uma túnica de cor púrpura suave, tendendo à invisibilidade. Ele é totalmente invisível para nós, o resplendor de sua personalidade está quase completamente velado. (Repare-se como seu quíton azul está escondido.) A casa que aparece bem atrás dele aponta para o Pai, porque “na casa de meu Pai há muitas moradas” (Jo 14, 2). 

O anjo que representa o Filho veste um quíton de cor púrpura escura, decorado com duas faixas douradas (apenas uma é visível, representando as duas naturezas, uma visível e outra invisível), e por cima do quíton traja uma clâmide de um profundo azul-ciano. O Encarnado é retratado como rei e profeta: a realeza é simbolizada pela túnica púrpura; a profecia, ou revelação de Deus, pelo manto azul-ciano, porque no Filho a “glória” de Deus nos foi revelada, e os discípulos a “viram” e “deram testemunho dela” (Jo 1, 14; 1Jo 1, 2). A árvore que aparece atrás do Filho simboliza a Árvore da Vida, o madeiro da Cruz, pois, como ensina S. João, a Paixão é a “hora” em que o Filho manifesta a glória de Deus.

O anjo que representa o Espírito veste sua clâmide de modo que o braço esquerdo fique livre. Repare-se que o anjo que representa o Filho veste a clâmide de modo que o braço direito fique livre. Isso é uma referência ao ensinamento de S. Irineu de Lyon, que diz que o Filho e o Espírito são as “duas mãos” do Pai, por meio das quais Ele opera tudo. A clâmide do anjo Espírito é verde claro, a cor litúrgica usada no tempo de Pentecostes no rito bizantino e no tempo depois de Pentecostes na Igreja ocidental, pois é a cor da nova vida, da vida renovada no Espírito, que é o “Senhor que dá a vida”. (O solo sobre o qual estão todas as figuras também é verde claro.) Atrás desse anjo aparece uma rocha, símbolo da terra, cuja “face é renovada” pelo Espírito (Sl 103, 30). Embora a idade do ícone torne difícil discerni-lo, há evidências de que Rublev pintou a rocha dividida em duas partes para fazer referência à rocha dividida pelo cajado de Moisés, fazendo a água viva brotar para as pessoas sedentas (cf. Ex 17, 6). Cristo interpretou os fluxos de água viva como o Espírito Santo (cf. Jo 7, 38). Mas assim como o Filho e o Espírito são inseparáveis, também são recíprocos os seus símbolos: a árvore verde acima do Filho também é um sinal da vida dada pelo Espírito, e a rocha acima do Espírito é também um sinal do Cristo, a “rocha espiritual” (1Cor 10, 4).

Muitas outras características dessa obra-prima são dignas de nota. Os corpos dos anjos são quatorze vezes maiores do que suas cabeças, em comparação com a diferença de tamanho entre corpo e cabeça nos seres humanos (sete vezes). Esse prolongamento reforça seu caráter etéreo e sobrenatural. As asas dos anjos e o modo esquemático como é tratado o campo passam imediatamente a impressão de imaterialidade e ausência de peso. Os pés dos anjos repousam sobre lajes, que nos lembram o túmulo vazio no ícone da Ressurreição. Não há sombras. Nenhum elemento reflete a luz natural; ao contrário, cada um emite sua própria luz, que brota de raízes secretas. É como se estivéssemos olhando por meio de um espelho a própria fonte da luz, na qual “não há mudança, nem mesmo aparência de instabilidade” (Tg 1, 17). 

Como todos os ícones bizantinos, este usa perspectiva invertida — as coisas mais distantes são maiores ou, ao menos, não diminuem —, a fim de abolir a distância e a profundidade em que tudo desaparece no horizonte. Trata-se de um horizonte marcado pela plenitude do ser, não pela diminuição dele, já que o horizonte aparece para uma perspectiva egocêntrica. As figuras estão próximas e quase se levantam da tela, e isso é feito para mostrar que Deus está aqui e em todo lugar. Necessariamente, a perspectiva também convida o espectador, que é o “ponto de fuga”, a entrar na pintura. Há uma “quarta cadeira” projetada e implícita à espera de você, para que tome assento e ocupe um lugar na mesa dos Três.

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Estratagemas cismáticos
Igreja Católica

Estratagemas cismáticos

Estratagemas cismáticos

A situação caótica em que a Igreja vive hoje é resultado do esquecimento ou da rejeição de uma verdade simples: o que Deus ordena é bom, o que Ele proíbe é mau. Deus é amor, e sua verdade é expressão de seu amor. Viver contra a verdade significa viver contra Ele.

Pe. Gerald E. MurrayTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere24 de Maio de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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[Este texto não é de autoria do Pe. Paulo Ricardo. Foi escrito pelo Pe. Gerald Murray, publicado no site norte-americano The Catholic Thing e traduzido para o português por nossa equipe.]

A recente tentativa, por parte de clérigos e leigos progressistas, de forçar a Igreja Católica a abandonar doutrinas que eles consideram inaceitáveis em matéria de moral sexual, inclui, necessariamente, esforços por modificar a linguagem com que a Igreja apresenta essas doutrinas em documentos oficiais, como o Catecismo. Uma das estratégias empregadas funciona como uma espécie de ataque autocontraditório: um ensinamento é considerado ininteligível às pessoas do nosso tempo por usar uma linguagem filosófica obscura. A um só tempo, o ensinamento é condenado como cruel e ofensivo, porque essas mesmas pessoas do nosso tempo, ao que parece, são perfeitamente capazes de entender a linguagem e o sentido do ensinamento. Elas simplesmente não gostam dele.

Outra estratégia consiste simplesmente em ridicularizar o ensinamento como disparatado, absurdo e constrangedor no mundo em que vivemos. Se o consenso reinante entre as pessoas informadas e inteligentes quanto ao que é certo ou errado considera uma doutrina católica incompatível com a própria maneira de ver as coisas, então é a Igreja que tem a obrigação de rejeitar tal doutrina. Por quê? Porque o “progressivo” consenso moral e ético das sociedades ocidentais ditas “avançadas” tem de ser agora a única norma aceitável para julgar qualquer comportamento. Os líderes da Igreja que abraçam essa visão abandonaram, evidentemente, os ensinamentos da Igreja e são os arquitetos e construtores da “igreja do que está acontecendo agora”.

A grave ameaça que essas táticas de pressão representam para os ensinamentos da Igreja sobre a homossexualidade está bem documentada em um recente artigo escrito pelo jornalista Edward Pentin. Alguns bispos e padres são os principais promotores de uma campanha persistente para que a Igreja abandone a doutrina segundo a qual os atos homossexuais são intrinsecamente desordenados. Em consonância com o Antigo e o Novo Testamento e com a longa história do pensamento moral católico, a Igreja nos ensina que esses atos são intrinsecamente maus e jamais poderão ser moralmente bons, em circunstância alguma.

Por que isso está acontecendo? Como pastor de almas, sei bem como as pessoas tentam defender e justificar seus pecados das mais variadas formas. Uma das táticas é convencer-se de que, já que você não é má pessoa, mas boa e amável, então seus desejos e escolhas de vida também devem ser bons: eles devem vir de Deus.

Além disso, se a Igreja diz que a escolha de envolver-se em atos homossexuais é errada, é ela, na verdade, que deve estar errada. A pessoa que quer pecar de consciência tranquila pode até já ter visto essa linha de pensamento ser defendida por um “padre simpático e atencioso”, que é um tipo de “herói” — há inúmeros deles hoje em dia, alguns dos quais são inclusive celebridades.

Outro pretexto é alegar que, como tantas pessoas ignoram os ensinamentos da Igreja e muitos bispos e padres andam dizendo por aí que Deus quer abençoar relacionamentos homossexuais, então deve estar tudo bem. “Progredir na moralidade” significa que os atos homossexuais, proibidos em tempos “primitivos”, e agora tacitamente tolerados, não tardarão em ser finalmente aprovados pelos que estão a cargo da Igreja, tudo porque uns profetas pioneiros triunfaram em sua incansável insistência. Abaixo o velho, viva o novo!

Mas a realidade é completamente diferente. A Igreja ensina que os atos homossexuais são sempre gravemente imorais, pois Deus revelou essa verdade. Deus é amor, e sua verdade é expressão de seu amor. Viver contra a verdade significa viver contra Deus. Todo pecado, especialmente o mortal, ofende a Deus e causa dano espiritual a quem o pratica e a outros. 

A situação caótica em que a Igreja vive hoje é resultado do esquecimento ou da rejeição de uma verdade simples: o que Deus ordena é bom, o que Ele proíbe é mau. Os atuais esforços de bispos e leigos alemães para negá-lo põem a Igreja em perigo de cisma, o que ficou patente na indignação com que receberam a notícia de que o Vaticano proibíra bênçãos a “uniões de pessoas do mesmo sexo”.

Nós temos um dever — e, portanto, uma razão gravíssima — de viver e agir em completa obediência à lei de Deus. Temos o dever igualmente sério de convencer os outros a viver de acordo com o que Deus, em sua bondade, ordena.

Quando pastores da Igreja dizem às pessoas que elas estão fazendo “algo bom” ao cometer atos de sodomia, e que irão abençoar suas promessas mútuas de sodomia, eles estão traindo integralmente sua missão. Ao invés de tirar as pessoas do pecado e levá-las para a virtude, que agrada a Deus, esses falsos pastores as estão conduzindo ao pecado, afastando-as de Cristo.

A crença infundada de que a união de pessoas do mesmo sexo, baseada no uso imoral das faculdades sexuais (dadas ao homem por Deus para a propagação da espécie e como expressão do amor marital, na união física divinamente ordenada entre marido e mulher), é “digna” da bênção de Deus gera um escândalo horrível e promove uma enorme confusão na cabeça das pessoas quanto ao casamento, ao sexo e ao nosso dever de obedecer à lei de Deus.

É lamentável que tantos bispos e sacerdotes estejam hoje induzindo as pessoas ao erro, levando-as a envolver-se em atos homossexuais ou a aprová-los, ensinando que Deus mesmo aprovaria e abençoaria algo que a Igreja sempre ensinou — e sempre ensinará — ser um comportamento gravemente imoral. Esses falsos “mestres” têm de ser corrigidos fraternalmente e chamados a arrepender-se e retratar-se.

Precisamos dar a seus atos o nome certo: são artimanhas para eliminar ou redefinir a verdade de Deus em função de preferências humanas. Não podemos deixar que isso aconteça, e devemos resistir pelo bem das almas e pela preservação da verdade que nos foi confiada por Cristo e sua Igreja.

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Por que o Espírito Santo aparece em línguas de fogo?
Espiritualidade

Por que o Espírito Santo
aparece em línguas de fogo?

Por que o Espírito Santo aparece em línguas de fogo?

Notai quanto vai de dizer a ensinar. Não diz Cristo: “o Espírito Santo vos dirá o que Eu vos tenho dito”; mas diz: “O Espírito Santo vos ensinará o que Eu vos tenho dito”; porque o pregador, ainda que seja Cristo, diz; o que ensina é o Espírito Santo.

Pe. António Vieira21 de Maio de 2021Tempo de leitura: 3 minutos
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Os sermões, as verdades, a doutrina que pregamos não é nossa, é de Cristo. Ele a disse, os Evangelistas a escreveram, nós a repetimos. Pois, se estas repetições são tantas e tão continuadas, e a doutrina que pregamos não é nossa, senão de Cristo, como fazem tão poucos progressos nela, e como aprendem tão pouco os que a ouvem? Nas palavras que propus temos a verdadeira resposta desta tão nova admiração.

Ille vos docebit omnia quaecumque dixero vobis: “O Espírito Santo — diz Cristo — vos ensinará tudo o que Eu vos tenho dito” (Jo 14, 26). Notai a diferença dos termos, e vereis quanto vai de dizer a ensinar. Não diz Cristo: “o Espírito Santo vos dirá o que Eu vos tenho dito”; nem diz: “o Espírito Santo vos ensinará o que Eu vos tenho ensinado”; mas diz: “O Espírito Santo vos ensinará o que Eu vos tenho dito”; porque o pregador, ainda que seja Cristo, diz; o que ensina é o Espírito Santo. Cristo diz: Quaecumque dixero vobis, “Tudo o que eu vos disse”; o Espírito Santo ensina: Ille vos docebit omnia, “Ele vos ensinará tudo”. O Mestre na cadeira diz para todos, mas não ensina a todos. Diz para todos, porque todos ouvem; mas não ensina a todos, porque uns aprendem, outros não

“Pentecostes”, de Juan Bautista Maíno.

E qual é a razão desta diversidade, se o Mestre é o mesmo, e a doutrina a mesma? Porque, para aprender, não basta só ouvir por fora, é necessário entender por dentro. Se a luz de dentro é muita, aprende-se muito; se pouca, pouco; se nenhuma, nada. O mesmo nos acontece a nós. Dizemos, mas não ensinamos, porque dizemos por fora; só o Espírito Santo ensina, porque alumia por dentro: Ministeria forinsecus adjutoria sunt, cathedram in caelo habet, quia corda docet [“Os ministérios são simples auxílios pois operam exteriormente; só ensina os corações Aquele que tem sua cátedra no Céu”], diz Santo Agostinho. Por isso até o mesmo Cristo pregando tanto, converteu tão pouco. Se o Espírito Santo não alumia por dentro, todo o dizer, por mais divino que seja, é dizer: Quaecumque dixero vobis; mas se as vozes exteriores são assistidas dos raios interiores da Sua luz, logo qualquer que seja o dizer, e de quem quer que seja, é ensinar; porque só o Espírito Santo é O que ensina: Ille vos docebit.

Por que vos parece que apareceu o Espírito Santo hoje sobre os apóstolos, não só em línguas, mas em línguas de fogo? Porque as línguas falam, o fogo alumia. Para converter Almas, não bastam só palavras; são necessárias palavras e luz. Se quando o pregador fala por fora, o Espírito Santo alumia por dentro; se quando as nossas vozes vão aos ouvidos, os raios da Sua luz entram ao coração, logo se converte o mundo. Assim sucedeu em Jerusalém neste mesmo dia. Sai São Pedro do cenáculo de Jerusalém, assistido deste fogo divino, toma um passo do Profeta Joel, declara-o ao povo, e, sendo o povo a que pregava aquele mesmo povo obstinado e cego, que poucos dias antes tinha crucificado a Cristo, foram três mil os que naquela pregação O confessaram por verdadeiro Filho de Deus, e se converteram à fé. 

Oh admirável eficácia da luz do Espírito Santo! Oh notável confusão vossa, e minha! Um pescador, com uma só pregação e com um só passo da Escritura, no dia de hoje converte três mil infiéis; e eu, no mesmo dia, com cinco e com seis pregações, com tantas Escrituras, com tantos argumentos, com tantas razões, com tantas evidências, não posso persuadir um cristão. Mas a causa é porque eu falo e o Espírito Santo, por falta de disposição nossa, não alumia

Divino Espírito, não seja a minha indignidade a que impeça a estas almas, por amor das quais descestes do Céu à terra, o fruto de vossa santíssima vinda: Veni Sancte Spiritus, et emitte caelitus lucis tuae radium, “Vinde, Senhor, e mandai-nos do céu um raio eficaz de vossa luz” — não pelos nossos merecimentos, que conhecemos quão indignos são, mas pela infinita bondade Vossa, e pela intercessão de Vossa Esposa santíssima.

Referências

  • Padre António Vieira, Sermão do Espírito Santo (pregado na cidade de São Luís do Maranhão, na Igreja da Companhia de Jesus, em ocasião que partia ao Rio das Amazonas uma grande missão dos mesmos religiosos), § I.

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