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Este ícone russo do século XV é uma janela para a Santíssima Trindade
Espiritualidade

Este ícone russo do século XV
é uma janela para a Santíssima Trindade

Este ícone russo do século XV é uma janela para a Santíssima Trindade

Como o mistério para o qual aponta, esta representação da Trindade, do iconógrafo russo Andrei Rublev, é inesgotável em suas riquezas: cada detalhe nela presente possui diversas camadas de significado.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere25 de Maio de 2021Tempo de leitura: 9 minutos
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À medida que nos aproximamos da grande festa da Santíssima Trindade, no domingo depois de Pentecostes, seria muito conveniente meditar sobre este que é o mais fundamental de todos os mistérios da fé cristã. Para isso, podemos recorrer à ajuda do iconógrafo russo Andrei Rublev e seu ícone da Trindade, finalizado em algum momento entre os anos de 1411 e 1427, na mesma época em que Fra Angelico pintava suas primeiras obras-primas nos arredores de Florença. 

Como o mistério para o qual aponta, essa imagem é inesgotável em suas riquezas: cada detalhe possui diversas camadas de significado. Neste artigo seguirei a análise de Paul Evdokimov (às vezes palavra a palavra), publicada no livro The Art of the Icon: A Theology of Beauty, pp. 243–57 (“A Arte do Ícone: Uma Teologia da Beleza”, sem tradução no Brasil), além dos insights do Pe. Gabriel Bunge (The Rublev Trinity). Meu objetivo é explicar as principais características desse ícone, a fim de que sua mensagem nos acompanhe em nossas orações dirigidas ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo.

A Trindade de Rublev.

Em primeiro lugar, que vemos no ícone? Seria um retrato da própria Trindade? Não. O mistério do Deus invisível não pode ser retratado pelo homem. Apenas o Cristo encarnado pode ser retratado em sua aparência carnal. O Espírito pode ser representado em forma de pombo e de chamas, mas o Pai jamais veio ao mundo numa missão visível. Ademais, a própria Trindade só pode ser retratada por meio de metáforas que apontam para ela.

Em vez disso, vemos uma imagem criada da Trindade — a saber, a teofania narrada em Gênesis 18, chamada “hospitalidade de Abraão”. Na história bíblica, três peregrinos misteriosos visitam Abraão, que, pelo juramento de Mamre, os acolhe em sua tenda, sacrifica um novilho para lhes preparar uma refeição e põe a comida diante deles sobre uma mesa. Um texto litúrgico oriental diz sobre essa história: “Bem-aventurado Abraão, vistes e recebestes a divindade, una e trina”. Na tradição iconográfica, havia muitas representações prévias dessa cena, as quais davam a Abraão e a Sara papéis importantes; Rublev porém os omite completamente. A própria ausência deles no retrato convida-nos a penetrar ainda mais no ícone e a passar a um segundo nível. 

A “Eterna Assembleia dos Três” tem diante de si a economia da salvação, o plano de Deus revelado na história. O significado da paisagem é alterado: a tenda de Abraão se torna o palácio-templo; o carvalho de Mamre, a Árvore da Vida. O cosmo é representado pelo esboço de uma tigela posta sobre o altar: nela está a cabeça de um novilho oferecido como alimento, o sacrifício eucarístico para a vida do mundo. O fato de o altar e a tigela representarem o cosmo é enfatizado pelas quatro quinas do altar e pelo pequeno retângulo posto sobre ele, o que nos lembra os quatro pontos cardeais.

Por ser transcendente e inacessível, só é possível insinuar como é a vida interior da Trindade. Ainda assim, Rublev encontra formas de apontar para ela, seguindo a tradicional verdade de que a economia da salvação deriva das processões das Pessoas no interior da divindade (e de certa forma as reflete). 

As três Pessoas aparecem conversando, provavelmente sobre o seguinte versículo do Evangelho de João: “Com efeito, de tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único” (Jo 3, 16). Deus é amor em si, em sua essência trinitária, e seu amor pelo mundo é o reflexo de seu amor trinitário, a continuação ou extensão dele até os âmbitos mais distantes do ser. O dom de si ofertado por Deus nunca surge ou resulta de uma perda ou falta; ao contrário, trata-se de um derramamento da superabundância de seu amor. Esse dom de si é representado pela tigela, que podemos interpretar como um poço que nunca seca.

Os anjos estão reunidos em torno da refeição divina. Ainda que seja a cabeça de um novilho, segundo a história narrada em Gênesis, recordamos imediatamente o Cordeiro a respeito do qual o Apocalipse diz o seguinte: o Cordeiro tem sido imolado desde a origem do mundo. O amor, inclusive o sacrifício e a imolação que fluem dele, precederam a criação do mundo e são sua origem

Os três anjos estão parados: há em cada um deles a suprema paz do ser; mas, ao mesmo tempo, cada um está inteiramente presente para o outro. Veja como a imagem do Filho (no centro) e a do Espírito Santo (à direita) curvam suas cabeças de modo delicado e gracioso para sua origem comum, o Pai (à esquerda), que, por sua vez, olha fixamente para eles.

Porém, esse repouso também é movimento, que começa com o pé do anjo estirado à direita e continua até sua cabeça inclinada. Passa pelo anjo do meio e empurra o cosmo: a rocha e a árvore. O movimento termina na posição vertical do anjo à esquerda, onde entra em posição de descanso, como se estivesse num recipiente. Ainda assim, o movimento circular continua com os pés da figura da esquerda, os quais se estendem em direção à figura da direita, completando assim o círculo e mostrando que esse movimento é contínuo. Sempre aparece novamente, e o círculo não é rompido. 

Junto desse movimento circular, cuja conclusão ordena o trabalho inteiro, assim como a eternidade ordena o tempo, temos o movimento vertical do templo e dos cetros. Estes designam a aspiração do criado pelo incriado, do terreno pelo celeste, no qual todo movimento ascendente tem sua conclusão. Talvez possamos dizer que vemos nesses dois movimentos a ágape, ou o amor oblativo, e o eros, ou o amor ardente: aquele brotando de uma abundância já possuída, este surgindo de uma necessidade de ser preenchido.

A forma como Rublev pinta os anjos mostra-nos sua unidade e igualdade: um anjo poderia ser trocado pelo outro. Desta forma, ele confessa a igualdade e a identidade essencial das Pessoas divinas. A diferença entre eles vem da atitude pessoal de cada um em relação aos outros, embora não haja repetição ou confusão. (O ouro brilhante nos ícones designa a natureza divina, sua superabundância. Infelizmente, o folheado desse ícone de 1425 já se desgastou, mas ainda é possível ver onde ele se encontrava nas auréolas.)

As asas ampliadas dos anjos envolvem e cobrem tudo. O contorno interno de todas as asas, um azul delicado, acentua a unidade e o caráter celeste da natureza divina. Um único Deus e três Pessoas perfeitamente iguais. É isso o que expressam os cetros e tronos idênticos. São sinais do mesmo poder real de que cada anjo é dotado. Suas roupas são parecidas, embora a cor seja diferenciada para ressaltar a distinção das Pessoas. A cor que possuem em comum é um azul intenso.

Rublev e seu ícone da Trindade.

O anjo que representa o Pai, à esquerda, usa uma túnica de cor púrpura suave, tendendo à invisibilidade. Ele é totalmente invisível para nós, o resplendor de sua personalidade está quase completamente velado. (Repare-se como seu quíton azul está escondido.) A casa que aparece bem atrás dele aponta para o Pai, porque “na casa de meu Pai há muitas moradas” (Jo 14, 2). 

O anjo que representa o Filho veste um quíton de cor púrpura escura, decorado com duas faixas douradas (apenas uma é visível, representando as duas naturezas, uma visível e outra invisível), e por cima do quíton traja uma clâmide de um profundo azul-ciano. O Encarnado é retratado como rei e profeta: a realeza é simbolizada pela túnica púrpura; a profecia, ou revelação de Deus, pelo manto azul-ciano, porque no Filho a “glória” de Deus nos foi revelada, e os discípulos a “viram” e “deram testemunho dela” (Jo 1, 14; 1Jo 1, 2). A árvore que aparece atrás do Filho simboliza a Árvore da Vida, o madeiro da Cruz, pois, como ensina S. João, a Paixão é a “hora” em que o Filho manifesta a glória de Deus.

O anjo que representa o Espírito veste sua clâmide de modo que o braço esquerdo fique livre. Repare-se que o anjo que representa o Filho veste a clâmide de modo que o braço direito fique livre. Isso é uma referência ao ensinamento de S. Irineu de Lyon, que diz que o Filho e o Espírito são as “duas mãos” do Pai, por meio das quais Ele opera tudo. A clâmide do anjo Espírito é verde claro, a cor litúrgica usada no tempo de Pentecostes no rito bizantino e no tempo depois de Pentecostes na Igreja ocidental, pois é a cor da nova vida, da vida renovada no Espírito, que é o “Senhor que dá a vida”. (O solo sobre o qual estão todas as figuras também é verde claro.) Atrás desse anjo aparece uma rocha, símbolo da terra, cuja “face é renovada” pelo Espírito (Sl 103, 30). Embora a idade do ícone torne difícil discerni-lo, há evidências de que Rublev pintou a rocha dividida em duas partes para fazer referência à rocha dividida pelo cajado de Moisés, fazendo a água viva brotar para as pessoas sedentas (cf. Ex 17, 6). Cristo interpretou os fluxos de água viva como o Espírito Santo (cf. Jo 7, 38). Mas assim como o Filho e o Espírito são inseparáveis, também são recíprocos os seus símbolos: a árvore verde acima do Filho também é um sinal da vida dada pelo Espírito, e a rocha acima do Espírito é também um sinal do Cristo, a “rocha espiritual” (1Cor 10, 4).

Muitas outras características dessa obra-prima são dignas de nota. Os corpos dos anjos são quatorze vezes maiores do que suas cabeças, em comparação com a diferença de tamanho entre corpo e cabeça nos seres humanos (sete vezes). Esse prolongamento reforça seu caráter etéreo e sobrenatural. As asas dos anjos e o modo esquemático como é tratado o campo passam imediatamente a impressão de imaterialidade e ausência de peso. Os pés dos anjos repousam sobre lajes, que nos lembram o túmulo vazio no ícone da Ressurreição. Não há sombras. Nenhum elemento reflete a luz natural; ao contrário, cada um emite sua própria luz, que brota de raízes secretas. É como se estivéssemos olhando por meio de um espelho a própria fonte da luz, na qual “não há mudança, nem mesmo aparência de instabilidade” (Tg 1, 17). 

Como todos os ícones bizantinos, este usa perspectiva invertida — as coisas mais distantes são maiores ou, ao menos, não diminuem —, a fim de abolir a distância e a profundidade em que tudo desaparece no horizonte. Trata-se de um horizonte marcado pela plenitude do ser, não pela diminuição dele, já que o horizonte aparece para uma perspectiva egocêntrica. As figuras estão próximas e quase se levantam da tela, e isso é feito para mostrar que Deus está aqui e em todo lugar. Necessariamente, a perspectiva também convida o espectador, que é o “ponto de fuga”, a entrar na pintura. Há uma “quarta cadeira” projetada e implícita à espera de você, para que tome assento e ocupe um lugar na mesa dos Três.

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Estratagemas cismáticos
Igreja Católica

Estratagemas cismáticos

Estratagemas cismáticos

A situação caótica em que a Igreja vive hoje é resultado do esquecimento ou da rejeição de uma verdade simples: o que Deus ordena é bom, o que Ele proíbe é mau. Deus é amor, e sua verdade é expressão de seu amor. Viver contra a verdade significa viver contra Ele.

Pe. Gerald E. MurrayTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere24 de Maio de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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[Este texto não é de autoria do Pe. Paulo Ricardo. Foi escrito pelo Pe. Gerald Murray, publicado no site norte-americano The Catholic Thing e traduzido para o português por nossa equipe.]

A recente tentativa, por parte de clérigos e leigos progressistas, de forçar a Igreja Católica a abandonar doutrinas que eles consideram inaceitáveis em matéria de moral sexual, inclui, necessariamente, esforços por modificar a linguagem com que a Igreja apresenta essas doutrinas em documentos oficiais, como o Catecismo. Uma das estratégias empregadas funciona como uma espécie de ataque autocontraditório: um ensinamento é considerado ininteligível às pessoas do nosso tempo por usar uma linguagem filosófica obscura. A um só tempo, o ensinamento é condenado como cruel e ofensivo, porque essas mesmas pessoas do nosso tempo, ao que parece, são perfeitamente capazes de entender a linguagem e o sentido do ensinamento. Elas simplesmente não gostam dele.

Outra estratégia consiste simplesmente em ridicularizar o ensinamento como disparatado, absurdo e constrangedor no mundo em que vivemos. Se o consenso reinante entre as pessoas informadas e inteligentes quanto ao que é certo ou errado considera uma doutrina católica incompatível com a própria maneira de ver as coisas, então é a Igreja que tem a obrigação de rejeitar tal doutrina. Por quê? Porque o “progressivo” consenso moral e ético das sociedades ocidentais ditas “avançadas” tem de ser agora a única norma aceitável para julgar qualquer comportamento. Os líderes da Igreja que abraçam essa visão abandonaram, evidentemente, os ensinamentos da Igreja e são os arquitetos e construtores da “igreja do que está acontecendo agora”.

A grave ameaça que essas táticas de pressão representam para os ensinamentos da Igreja sobre a homossexualidade está bem documentada em um recente artigo escrito pelo jornalista Edward Pentin. Alguns bispos e padres são os principais promotores de uma campanha persistente para que a Igreja abandone a doutrina segundo a qual os atos homossexuais são intrinsecamente desordenados. Em consonância com o Antigo e o Novo Testamento e com a longa história do pensamento moral católico, a Igreja nos ensina que esses atos são intrinsecamente maus e jamais poderão ser moralmente bons, em circunstância alguma.

Por que isso está acontecendo? Como pastor de almas, sei bem como as pessoas tentam defender e justificar seus pecados das mais variadas formas. Uma das táticas é convencer-se de que, já que você não é má pessoa, mas boa e amável, então seus desejos e escolhas de vida também devem ser bons: eles devem vir de Deus.

Além disso, se a Igreja diz que a escolha de envolver-se em atos homossexuais é errada, é ela, na verdade, que deve estar errada. A pessoa que quer pecar de consciência tranquila pode até já ter visto essa linha de pensamento ser defendida por um “padre simpático e atencioso”, que é um tipo de “herói” — há inúmeros deles hoje em dia, alguns dos quais são inclusive celebridades.

Outro pretexto é alegar que, como tantas pessoas ignoram os ensinamentos da Igreja e muitos bispos e padres andam dizendo por aí que Deus quer abençoar relacionamentos homossexuais, então deve estar tudo bem. “Progredir na moralidade” significa que os atos homossexuais, proibidos em tempos “primitivos”, e agora tacitamente tolerados, não tardarão em ser finalmente aprovados pelos que estão a cargo da Igreja, tudo porque uns profetas pioneiros triunfaram em sua incansável insistência. Abaixo o velho, viva o novo!

Mas a realidade é completamente diferente. A Igreja ensina que os atos homossexuais são sempre gravemente imorais, pois Deus revelou essa verdade. Deus é amor, e sua verdade é expressão de seu amor. Viver contra a verdade significa viver contra Deus. Todo pecado, especialmente o mortal, ofende a Deus e causa dano espiritual a quem o pratica e a outros. 

A situação caótica em que a Igreja vive hoje é resultado do esquecimento ou da rejeição de uma verdade simples: o que Deus ordena é bom, o que Ele proíbe é mau. Os atuais esforços de bispos e leigos alemães para negá-lo põem a Igreja em perigo de cisma, o que ficou patente na indignação com que receberam a notícia de que o Vaticano proibíra bênçãos a “uniões de pessoas do mesmo sexo”.

Nós temos um dever — e, portanto, uma razão gravíssima — de viver e agir em completa obediência à lei de Deus. Temos o dever igualmente sério de convencer os outros a viver de acordo com o que Deus, em sua bondade, ordena.

Quando pastores da Igreja dizem às pessoas que elas estão fazendo “algo bom” ao cometer atos de sodomia, e que irão abençoar suas promessas mútuas de sodomia, eles estão traindo integralmente sua missão. Ao invés de tirar as pessoas do pecado e levá-las para a virtude, que agrada a Deus, esses falsos pastores as estão conduzindo ao pecado, afastando-as de Cristo.

A crença infundada de que a união de pessoas do mesmo sexo, baseada no uso imoral das faculdades sexuais (dadas ao homem por Deus para a propagação da espécie e como expressão do amor marital, na união física divinamente ordenada entre marido e mulher), é “digna” da bênção de Deus gera um escândalo horrível e promove uma enorme confusão na cabeça das pessoas quanto ao casamento, ao sexo e ao nosso dever de obedecer à lei de Deus.

É lamentável que tantos bispos e sacerdotes estejam hoje induzindo as pessoas ao erro, levando-as a envolver-se em atos homossexuais ou a aprová-los, ensinando que Deus mesmo aprovaria e abençoaria algo que a Igreja sempre ensinou — e sempre ensinará — ser um comportamento gravemente imoral. Esses falsos “mestres” têm de ser corrigidos fraternalmente e chamados a arrepender-se e retratar-se.

Precisamos dar a seus atos o nome certo: são artimanhas para eliminar ou redefinir a verdade de Deus em função de preferências humanas. Não podemos deixar que isso aconteça, e devemos resistir pelo bem das almas e pela preservação da verdade que nos foi confiada por Cristo e sua Igreja.

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Por que o Espírito Santo aparece em línguas de fogo?
Espiritualidade

Por que o Espírito Santo
aparece em línguas de fogo?

Por que o Espírito Santo aparece em línguas de fogo?

Notai quanto vai de dizer a ensinar. Não diz Cristo: “o Espírito Santo vos dirá o que Eu vos tenho dito”; mas diz: “O Espírito Santo vos ensinará o que Eu vos tenho dito”; porque o pregador, ainda que seja Cristo, diz; o que ensina é o Espírito Santo.

Pe. António Vieira21 de Maio de 2021Tempo de leitura: 3 minutos
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Os sermões, as verdades, a doutrina que pregamos não é nossa, é de Cristo. Ele a disse, os Evangelistas a escreveram, nós a repetimos. Pois, se estas repetições são tantas e tão continuadas, e a doutrina que pregamos não é nossa, senão de Cristo, como fazem tão poucos progressos nela, e como aprendem tão pouco os que a ouvem? Nas palavras que propus temos a verdadeira resposta desta tão nova admiração.

Ille vos docebit omnia quaecumque dixero vobis: “O Espírito Santo — diz Cristo — vos ensinará tudo o que Eu vos tenho dito” (Jo 14, 26). Notai a diferença dos termos, e vereis quanto vai de dizer a ensinar. Não diz Cristo: “o Espírito Santo vos dirá o que Eu vos tenho dito”; nem diz: “o Espírito Santo vos ensinará o que Eu vos tenho ensinado”; mas diz: “O Espírito Santo vos ensinará o que Eu vos tenho dito”; porque o pregador, ainda que seja Cristo, diz; o que ensina é o Espírito Santo. Cristo diz: Quaecumque dixero vobis, “Tudo o que eu vos disse”; o Espírito Santo ensina: Ille vos docebit omnia, “Ele vos ensinará tudo”. O Mestre na cadeira diz para todos, mas não ensina a todos. Diz para todos, porque todos ouvem; mas não ensina a todos, porque uns aprendem, outros não

“Pentecostes”, de Juan Bautista Maíno.

E qual é a razão desta diversidade, se o Mestre é o mesmo, e a doutrina a mesma? Porque, para aprender, não basta só ouvir por fora, é necessário entender por dentro. Se a luz de dentro é muita, aprende-se muito; se pouca, pouco; se nenhuma, nada. O mesmo nos acontece a nós. Dizemos, mas não ensinamos, porque dizemos por fora; só o Espírito Santo ensina, porque alumia por dentro: Ministeria forinsecus adjutoria sunt, cathedram in caelo habet, quia corda docet [“Os ministérios são simples auxílios pois operam exteriormente; só ensina os corações Aquele que tem sua cátedra no Céu”], diz Santo Agostinho. Por isso até o mesmo Cristo pregando tanto, converteu tão pouco. Se o Espírito Santo não alumia por dentro, todo o dizer, por mais divino que seja, é dizer: Quaecumque dixero vobis; mas se as vozes exteriores são assistidas dos raios interiores da Sua luz, logo qualquer que seja o dizer, e de quem quer que seja, é ensinar; porque só o Espírito Santo é O que ensina: Ille vos docebit.

Por que vos parece que apareceu o Espírito Santo hoje sobre os apóstolos, não só em línguas, mas em línguas de fogo? Porque as línguas falam, o fogo alumia. Para converter Almas, não bastam só palavras; são necessárias palavras e luz. Se quando o pregador fala por fora, o Espírito Santo alumia por dentro; se quando as nossas vozes vão aos ouvidos, os raios da Sua luz entram ao coração, logo se converte o mundo. Assim sucedeu em Jerusalém neste mesmo dia. Sai São Pedro do cenáculo de Jerusalém, assistido deste fogo divino, toma um passo do Profeta Joel, declara-o ao povo, e, sendo o povo a que pregava aquele mesmo povo obstinado e cego, que poucos dias antes tinha crucificado a Cristo, foram três mil os que naquela pregação O confessaram por verdadeiro Filho de Deus, e se converteram à fé. 

Oh admirável eficácia da luz do Espírito Santo! Oh notável confusão vossa, e minha! Um pescador, com uma só pregação e com um só passo da Escritura, no dia de hoje converte três mil infiéis; e eu, no mesmo dia, com cinco e com seis pregações, com tantas Escrituras, com tantos argumentos, com tantas razões, com tantas evidências, não posso persuadir um cristão. Mas a causa é porque eu falo e o Espírito Santo, por falta de disposição nossa, não alumia

Divino Espírito, não seja a minha indignidade a que impeça a estas almas, por amor das quais descestes do Céu à terra, o fruto de vossa santíssima vinda: Veni Sancte Spiritus, et emitte caelitus lucis tuae radium, “Vinde, Senhor, e mandai-nos do céu um raio eficaz de vossa luz” — não pelos nossos merecimentos, que conhecemos quão indignos são, mas pela infinita bondade Vossa, e pela intercessão de Vossa Esposa santíssima.

Referências

  • Padre António Vieira, Sermão do Espírito Santo (pregado na cidade de São Luís do Maranhão, na Igreja da Companhia de Jesus, em ocasião que partia ao Rio das Amazonas uma grande missão dos mesmos religiosos), § I.

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A Igreja se “esqueceu” do Espírito Santo até a década de 1960?
Liturgia

A Igreja se “esqueceu”
do Espírito Santo até a década de 1960?

A Igreja se “esqueceu” do Espírito Santo até a década de 1960?

O Espírito Santo não era a “pessoa esquecida” da Trindade até a sua redescoberta no século XX. Nada poderia estar mais longe da verdade, como pode confirmar qualquer um que conheça a liturgia tradicional e a história da Igreja.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere21 de Maio de 2021Tempo de leitura: 9 minutos
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Lembro-me claramente de ter ouvido mais de uma vez, quando criança, professores e pregadores supostamente bem-intencionados dizerem algo semelhante a isto: “Durante muito tempo, a Igreja se esqueceu do Espírito Santo, por assim dizer, e com o Vaticano II nós nos lembramos dele. Estamos na era do Espírito”. 

Curiosamente, a era do Espírito fundiu-se a tal ponto com o espírito da época (zeitgeist), que nos restou apenas o “espírito do Concílio”. Na prática, isso significou que os carismas concedidos pelo Espírito Santo à Igreja ao longo do tempo foram progressivamente atacados e banidos. Numa paródia do Batismo, e com um exorcismo às avessas, membros do clero pareciam empenhados em livrar o catolicismo do seu bom espírito e enterrar-se num mundo subterrâneo, em vez de morrer e ressuscitar com Cristo.

Naturalmente, essa ideia de que a Terceira Pessoa foi esquecida é apenas mais uma das “lendas negras” do período pós-Vaticano II. Na verdade, é fácil encontrar observações significativas, doutrinais e devocionais sobre o Espírito Santo na pregação e nas orações de todas as épocas da Igreja — sobretudo em sua liturgia tradicional, na qual o sacerdote pronuncia diariamente estas magníficas palavras: Veni, Sanctificator omnipotens aeterne Deus, et benedic hoc sacrificium tuo sancto nomini praeparatum, “Vinde, ó Santificador, Deus eterno e todo-poderoso, e abençoai este sacrifício para a glória do vosso nome”.

O rito romano tradicional celebra até hoje a vinda do Espírito Santo com uma majestosa Missa de Pentecostes. A Missa solene é precedida pelo canto Veni, Creator Spiritus, quando todos os presentes se ajoelham durante o primeiro verso em humilde súplica. O canto Vidi aquam vem em seguida, enquanto o sacerdote asperge o povo com água benta e cantamos sobre a água da graça que flui do lado de Cristo, ainda que o Espírito proceda de sua boca. O primeiro de muitos aleluias ressoa por toda a igreja. A Missa propriamente dita começa com o intróito Spiritus Domini e o Kyrie, repetido nove vezes, em sua amplitude trinitária. O duplo aleluia inclui as petições Emitte Spiritum tuum, “Enviai o vosso Espírito”, e Veni, Sancte Spiritus, “Vinde, Espírito Santo”, sendo que nos ajoelhamos novamente durante o segundo (levamos a sério essas invocações!). Em seguida vem a magnífica sequência de Pentecostes, que tem início, mais uma vez, com Veni, Sancte Spiritus. Tudo isso mesmo antes de o Evangelho ser cantado!  

Missa Tridentina na igreja de São Sulpício (Paris, 2013). Créditos: Academia Christiana.

Há mais — muito mais. Da antiguidade até o século XX, a Igreja celebrou tradicionalmente o Pentecostes durante uma semana (uma Oitava), tal como ela faz na Páscoa e no Natal, reconhecendo-a como festa da mais alta importância. Todos os dias os Próprios proclamam aleluias. Todos os dias as leituras exaltam os sacramentos de iniciação, que são eficazes pelo poder do Espírito. Todos os dias, ajoelhamo-nos durante o Veni, Sancte Spiritus, antes da Sequência de Ouro. O Prefácio de Pentecostes vincula a Ascensão de Cristo, o fato de Ele estar sentado à direita de Deus e o derramamento do Espírito de adoção sobre os filhos de Deus. O Cânon Romano usa um Communicantes e um Hanc igitur especiais. Quarta, sexta e sábado da Oitava são Têmporas com leituras e orações especiais. A Terça, ofício do meio da manhã, começa todos os dias com o hino Veni, Creator Spiritus, e mais uma vez a primeira estrofe é cantada de joelhos. Essa semana é, de todos os pontos de vista, uma homenagem e uma súplica dignas da Pessoa divina.

Finalmente, todo domingo posterior à Oitava de Pentecostes é denominado “Domingo depois de Pentecostes”, envolvendo em paramentos verdes a longa temporada de plantio e colheita, até chegarmos ao Último Domingo depois de Pentecostes e iniciarmos um novo ciclo com o Advento.

Quase tudo o que acabei de descrever foi abolido na reforma litúrgica do final da década de 1960. Portanto, quem é realmente culpado “de esquecer-se da Terceira Pessoa da Trindade”?

Uma Igreja tradicional atenta ao Paráclito também pode ser identificada na maravilhosa encíclica de Leão XIII Divinum Illud Munus, de 1897 — por acaso, o mesmo ano do falecimento de S. Teresinha do Menino Jesus, quando ela começaria a cobrir os fiéis com rosas do céu, numa imitação infantil do dom do Espírito em línguas de fogo. 

A lúcida exposição sobre o “lugar” do Espírito Santo na Trindade e a sua presença e ação em Cristo, na Igreja, na alma humana e no mundo faz de Divinum Illud Munus uma verdadeira obra-prima da prosa teológica e espiritual. Vemos em suas páginas uma demonstração de como a doutrina aparentemente complicada de Santo Tomás pode “ganhar vida” nas mãos de quem a compreende de verdade. O Papa Leão escreve com grande sensibilidade:

Hoje, pressentindo avizinhar-se o término de nossa vida, experimentamos o mais vivo desejo de recomendar ao Espírito Santo, que é o amor vivificante, todas as realizações empreendidas durante o nosso pontificado, para que Ele as faça florescer e frutificar [...]. Almejamos ardentemente, assim, reavivar e fortalecer nas almas a fé no augusto mistério da Santíssima Trindade, e, sobretudo, aumentar e tornar nelas mais fervorosa a devoção para com o Espírito Divino, a quem todos os que trilham os caminhos da verdade e da justiça devem as maiores graças obtidas.

O Papa examina todos os aspectos da doutrina sobre o Espírito Santo. Aqui, por exemplo, fala do mistério de Pentecostes tal como se aplica aos Apóstolos:

A Igreja, que já existia em estado embrionário, havendo recebido a existência do lado aberto do segundo Adão, como que dormindo no lenho da cruz, nasceu maravilhosamente para a luz do mundo no tão celebrado dia de Pentecostes. Nesse mesmo dia começou o Espírito Santo a repartir seus benefícios no Corpo Místico de Cristo, com aquela admirável efusão que o profeta Joel previra há tempos (cf. Jl 2, 28-29); pois o Paráclito “pairou sobre os Apóstolos, para que fossem coroados de novos diademas espirituais, formados por línguas de fogo sobre suas cabeças” (São Cirilo de Jerusalém, Catequese, 17). Então, escreve São João Crisóstomo, os Apóstolos “desceram do monte, não trazendo nas mãos as tábuas de pedra, como o fez Moisés, mas carregando na alma o Espírito Santo e comunicando-o com profusão aos outros como um grande tesouro e um rio de verdades e de graças” (São João Crisóstomo, In Matth., hom. 1; cf. 2Cor 3, 3). Desse modo se realizou a promessa de Cristo a seus Apóstolos sobre o envio do Espírito Santo, que em pessoa, mediante suas inspirações, deveria levar a bom termo a transmissão da doutrina do mesmo Jesus Cristo.

E, mais uma vez, em relação à Igreja:

Para reconhecer a instituição divina da Igreja não há prova mais convincente do que o seu resplendor e glória provindos dos carismas que o Espírito Santo lhe outorgou em profusão. Baste dizer que, assim como Cristo é a Cabeça da Igreja, assim o Espírito Santo é a sua alma.

A obra de santificação é sempre associada ao Espírito Santo: 

Essa regeneração ou renovação começa para o homem pelo Batismo; nesse sacramento é expelido da alma o espírito imundo, e nela penetra pela primeira vez o Espírito Santo, que a torna semelhante a si: “O que nasceu do Espírito é espírito” (Jo 3, 7). Doa-se a ela ainda, em grau mais perfeito, para lhe outorgar a fortaleza e o vigor da vida cristã, no sacramento da Confirmação; por ele é que os mártires e as virgens triunfaram dos atrativos da corrupção.

Em seguida, o Papa Leão XIII diz algo que deveria nos fazer estremecer de reverência e encanto:

Deus, pela sua graça, reside na alma do justo como em um templo, de maneira completamente íntima e singular; daí os fortes liames de caridade que estreitissimamente unem a alma a Deus, sobrepujando a amizade do amigo ao melhor dos amigos, e a fazem gozá-lo em delícias inexcedíveis. Essa admirável união, denominada “inabitação”, não difere, a não ser por sua condição ou estado, daquela que possuem os habitantes do céu na posse beatífica de Deus; e, não obstante seja um efeito realíssimo de toda a Trindade divina: “Viremos a ele e faremos nele nossa habitação” (Jo 14, 23), é, contudo, considerada obra peculiar do Espírito Santo. Porquanto também no homem perverso podemos deparar reflexos do poder e sabedoria de Deus; mas só o justo participa do amor divino, característica do Espírito Santo.

Analisemos com cuidado o que o Papa nos ensina aqui. A união entre Deus e uma alma em estado de graça só difere em grau ou modo do estado de visão beatífica. Quando Deus habita em nossa alma pela graça santificante e sua principal virtude, a caridade, desfrutamos nesta vida da mesma união que os santos e anjos desfrutam na pátria celeste. As diferenças são acidentais: Deus é visível ou invisível; possuímo-lo de forma mutável ou imutável. Por importantes que sejam essas diferenças, a própria união as supera de longe: Deus é realmente possuído por nós. Essa é a essência da santidade. A compreensão da inabitação de Deus é, em última análise, o antídoto mais eficaz contra o pecado mortal: não queremos perdê-lo, nem agora nem na eternidade.

Em seguida, o Papa Leão XIII expõe o ensinamento de Santo Tomás sobre os dons do Espírito Santo. Aqui também recordamos que um Doutor da Igreja do século XIII possuía não somente compreensão teológica, mas um profundo conhecimento empírico. Quando fala de seus dons, Santo Tomás ressalta a absoluta necessidade da assistência especial do Espírito Santo — todos os dias, ao longo de todo o dia —, caso queiramos chegar ao fim glorioso que Deus nos reserva, porque ele está muito acima de nossa capacidade natural. Em certo sentido, ele excede inclusive o enorme poder das virtudes teologais. É como rezamos com o salmista: “Que vosso Espírito de bondade me conduza pelo caminho reto” (Sl 142, 10), a Terra Prometida, o Paraíso. Só o Espírito de Deus nos pode conduzir até lá; o nosso espírito, por aperfeiçoado que esteja, não é o bastante.

Santo Tomás vai mais longe e argumenta que precisamos dos sete dons do Espírito Santo não apenas para alcançar o fim último, mas também para atingir qualquer um dos fins particulares aos quais aspiramos como cristãos — isto é, se quisermos atingi-los como filhos de Deus, agindo por meio de sua sabedoria, conhecimento, fortaleza etc. Podemos até fazer a coisa certa por virtude natural, mas ainda assim não conseguiremos fazê-la “divinamente bem”, como uma refeição que não só é comestível, mas também saborosa. Para isso, temos de rezar e nos colocar à disposição do Espírito Santo, para que as nossas ações sejam guiadas por Ele e para que sejamos os seus instrumentos, pondo em prática as nossas próprias faculdades de juízo e deliberação. Nesse sentido, não pode haver apostolado verdadeiramente católico sem oração mental, como nos mostram os Atos dos Apóstolos de forma emblemática.

Afinal de contas, o Espírito Santo não era a “pessoa esquecida” da Santíssima Trindade até a sua redescoberta pelo “movimento carismático” ou pela “renovação conciliar” no século XX. Nada poderia estar mais longe da verdade, como pode confirmar qualquer pessoa familiarizada com a vida dos santos, com a história das grandes Ordens religiosas e das missões e com a doutrina, as devoções e a literatura tradicionais. Na verdade, o Dom do Deus Altíssimo jamais poderia ser esquecido pela Igreja, já que Ele age em todos os sacramentos, em todos os atos de culto divino, em todas as moções da alma em direção a Deus e em todas as pessoas santas que já viveram.

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