Padre Paulo Ricardo
CNP
Christo Nihil Præponere"A nada dar mais valor do que a Cristo"
Todos os direitos reservados a padrepauloricardo.org®
Sexo antes do casamento é pecado mesmo?
Doutrina

Sexo antes do casamento é pecado mesmo?

Sexo antes do casamento é pecado mesmo?

Mesmo que se calassem as Escrituras, mesmo que não houvesse um só versículo sobre a fornicação, ela ainda seria pecado. É contra a natureza humana, porque é contra as exigências que a própria razão impõe ao uso humano, não animal, da sexualidade.

Equipe Christo Nihil Praeponere8 de Junho de 2021Tempo de leitura: 9 minutos
imprimir

Uma adolescente enviou-nos há dias a seguinte mensagem, que reproduzimos com pequenas modificações. (A divisão em 8 pontos é nossa, para facilitar a leitura da resposta. Omitimos também algumas considerações finais, por não virem ao caso.)

Estava estudando sobre “sexo antes do casamento”, quando me deparei com o seu blog.

1. O que mais me intriga em relação a essa questão é que no Antigo Testamento essa questão de virgindade pré-matrimonial era uma regra apenas para as mulheres, e não estava relacionada com a pureza sexual e uma maior virtude, mas sim com relação à gravidez, para que, quando uma mulher engravidasse, se tivesse a certeza [de] que o filho era realmente israelita.

2. Essa questão de pureza sexual surgiu no Novo Testamento com o apóstolo Paulo, mas lembremos que Paulo não era perfeito e, atualmente, não seguimos tudo [o] que ele ensinou (como a questão da obrigatoriedade do véu, por exemplo).

3. E outro fato muito importante é que, nas épocas bíblicas, as pessoas geralmente se casavam um pouco depois da puberdade, ou seja, tinham relações sexuais desde o início do desenvolvimento da sua sexualidade. Hoje é um absurdo ter relações sexuais desde tão cedo, e é até crime no nosso país. 

4. Outro ponto importante é que hoje existem preservativos que impedem doenças sexualmente transmissíveis e impedem também alguma gravidez indesejada. 

5. Jesus nunca falou que o sexo fora do casamento era pecado. O senhor cita no blog Mt 5, 28, mas fica claro que no verso ele se refere a quando um homem comprometido deseja algo com outra mulher. 

6. O senhor disse também: “O sexo fora do casamento é uma forma de usar o outro e não de amar”. Mas poderíamos nós julgar o outro? Falar o que ele sente? Duas pessoas podem se amar e não querer casar por questões financeiras, por exemplo. 

7. Os jovens, a partir de quando atingissem a idade adulta, não poderiam ter o direito de desenvolver sua sexualidade? Não deveriam ser eles orientados para terem relações sexuais com responsabilidade, ao invés de serem reprimidos? 

8. Dizer que isso é pecado só porque Paulo disse não é algo um pouco vasto [sic]? 

1) A primeira colocação, de “O que mais me intriga” até “para que se tivesse certeza [de] que o filho era israelita”, além de gratuita, é falsa. O sexo pré-matrimonial é outro nome para o pecado de fornicação simples, isto é, a cópula consensual entre um homem e uma mulher não ligados entre si nem a outrem por vínculo conjugal. O Antigo Testamento o proíbe em algumas passagens, referindo-se não só às mulheres, mas sobretudo aos varões (cf. Dt 23, 18; Os 4, 11; Eclo 19, 3s; 41, 21; Tb 4, 13). Obviamente, um dos motivos pelos quais a fornicação é pecado, ou seja, contrária ao direito natural, é por dificultar a identificação do pai legítimo e, por conseguinte, o reconhecimento da prole como pertencente a uma determinada estirpe ou comunidade. Mas não é a única razão, nem expressa preocupações meramente pragmáticas. 

2) A segunda colocação, de “Essa questão de pureza legal” até “como a questão da obrigatoriedade do véu”, tem algo de verdade e um pouco de confusão. 

a) É verdade que, comparado com o Antigo, o Novo Testamento representa uma evolução em termos morais, especialmente em matéria sexual. Exemplo disso é a proibição dos pecados internos ou de mero desejo (cf. Mt 5, 28), aos quais a antiga Lei não dera tanta importância, ao menos em comparação com o Evangelho. É falso, no entanto, que somente no Novo Testamento tenha “surgido” o pecado de fornicação, como se S. Paulo ou outro apóstolo tivesse proibido o que até então era permitido. Vimos no item anterior que a prática já era condenada no Antigo [1].

b) Além disso, confundem-se aqui questões de ordem distinta. O véu que S. Paulo manda as fiéis de Corinto usarem (cf. 1Cor 11, 15) é, naturalmente, uma disciplina ritual suscetível de mudança, em função de necessidades ou costumes locais; a sexualidade não, por ser uma inclinação natural básica e em si mesma ordenada à reprodução, a qual, portanto, deve ser regulada e exercida segundo as exigências da razão humana, a mesma para todos, em todos os tempos e lugares [2]. 

3) A terceira colocação, de “E outro fato muito importante” até “no nosso país”, parece deslocada e irrelevante para o ponto em debate, que é a moralidade ou imoralidade do sexo pré-matrimonial. A puberdade é um fato biológico, em virtude do qual o indivíduo se encontra, ao menos fisicamente, preparado para a vida sexual. É mera aptidão para procriar. Em que momento, atingida a idade púbere, se considera aceitável ou oportuno o exercício da sexualidade, é coisa que também pode variar em função de certos fatores (culturais, demográficos, sanitários etc.). Em Israel, como em muitas outras civilizações antigas do Oriente Próximo, nas quais a expectativa de vida era, de regra, bastante baixa, seria mesmo de se esperar que os casamentos fossem celebrados cedo, tão-logo os jovens entrassem em idade féritil, por volta dos 12–14 anos [3]. 

Aliás, essa é provavelmente uma das razões por que no Antigo Testamento se fala pouco da fornicação simples. Como os jovens se casavam cedo, em uma sociedade eminentemente tribal, não havia “tempo” para os desregramentos tão frequentes hoje em dia. A maturidade sexual era quase simultânea à contração de núpcias, de maneira que, se se pecava contra a castidade, se pecava também, quase sempre, contra a fidelidade conjugal. 

4) A quarta colocação, de “Outro ponto importante” até “gravidez indesejada”, não serve de justificativa para o sexo pré-matrimonial, porque revela justamente um dos muitos efeitos negativos de sua “normalização”, qual seja: o divórcio entre cópula e reprodução, sexo e família. O sexo antes do casamento começa a tornar-se comum a partir do momento em que, individual e socialmente, já não se vê (ou não se quer ver) a vinculação intrínseca entre o ato sexual e sua finalidade própria, que é a geração de uma nova vida, cuja criação adequada, tanto física quanto intelectual e moral, só é possível dentro da família, com a cooperação perpétua de um pai e de uma mãe [4]. Se os casais fossem fiéis e castos nem houvesse fornicação e adultério no mundo, dificilmente existiriam DSTs nem, portanto, a “necessidade” de usar preservativo para evitar “gestações indesejadas”. 

Assim como o fornicador busca o prazer sexual sem querer as consequências que lhe são inerentes, mantendo-se assim num estado de imaturidade e egoísmo, o bulímico busca por um momento a sensação de saciedade sem querer o risco de engordar, privando-se assim dos nutrientes necessários. A analogia porém é fraca, porque aquele peca por malícia, este age às vezes por compulsão; a desnutrição deste é física, enquanto a daquele é pior, por afetar antes a alma que o corpo. 

5) A quinta colocação, de “Jesus nunca falou” até “com outra mulher”, está correta, mas desconsidera algumas coisas. De fato, em Mt 5, 28 Nosso Senhor fala do pecado de adultério, nem consta nos Evangelhos qualquer palavra dele contra a fornicação simples. Mas daí não se segue que ela seja permitida ou mesmo compatível com o restante da doutrina cristã.

a) Em primeiro lugar, o objetivo dos Evangelhos é testemunhar a natureza messiânica e divina de Cristo, provada em sua vida e palavras, em suas profecias e milagres, em sua morte e ressurreição, e não o de apresentar uma “súmula” dos ensinamentos de Jesus (cf. Jo 16, 12; 21, 25), como se abarcassem todo o dito por Ele, sem necessidade de atender à pregação oral dos Apóstolos, ao Magistério e à Tradição da Igreja ou mesmo à simples capacidade de dedução. Cristo, por exemplo, não falou de muitos outros pecados sexuais: não falou do estupro, não falou do rapto, não falou do incesto nem do sacrilégio e dos atos contra a natureza. Daí se há de concluir que não são pecados?

b) Em segundo lugar, o fato mesmo de Cristo e as Escrituras como um todo insistirem na malícia do adultério, e não tanto na de outras práticas imorais, é em si mesmo significativo. É sinal de que, para judeus e cristãos, o matrimônio é o único contexto em que o uso da sexualidade é lícito, porque se funda numa relação de fidelidade e entrega mútua que não pode ser rompida sem grave responsabilidade de uma das partes [5]. 

6) A sexta colocação, de “O senhor disse também” até “por questões financeiras, por exemplo”, perde de vista uma verdade importante. Nós podemos, sim, julgar os outros, menos porém por suas intenções que pelas ações que praticam. Os atos humanos têm sempre uma dimensão objetiva, que é precisamente o que os especifica como atos de tal ou qual tipo, tanto na linha da virtude quanto na do vício. Um ato não se define como furto, por exemplo, apenas pela intenção subjetiva do agente, mas antes de tudo pelo objeto mesmo da ação, isto é, por aquilo a que a vontade tende própria e primariamente ao escolher realizá-la [6]: subtrair coisa alheia ao justo possessor, independentemente do “para que” se subtrai. 

O mesmo se aplica ao sexo pré-matrimonial. Os que o praticam podem justificar-se dizendo que “se amam”, quando, na verdade, fazem uso da sexualidade privando-o da “ordem exigida pelo bem da espécie humana não só a ser gerada do modo devido, mas também a ser educada em uma sociedade permanente entre homem e mulher tanto de fato como de direito” [7]. 

Além disso, vale notar: quem, estando solteiro, não pode arcar com os encargos mínimos (econômicos, afetivos etc.) do casamento não deve buscar os direitos ou privilégios de um casado. O contrário seria tratar o sexo como “passatempo” e o outro como simples fonte de prazer, sem o comprometimento que uma vida a dois — na qual são comuns as alegrias, mas também as contas — por si mesma reclama. 

7) A sétima colocação, de “Os jovens” até “serem reprimidos”, é algo contraditória. Com efeito, se atingiram a idade adulta, não são mais jovens, mas adultos e, como tais, devem viver uma sexualidade igualmente adulta, o que significa autodomínio, respeito à dignidade do corpo alheio, senso de compromisso e sacrifício. Sexo não é diversão nem “experimento” para curiosos. Não é uma “técnica” que precise ser “desenvolvida” ou “aprendida” como se aprende, por exemplo, a conduzir um veículo. É uma função orgânica com uma finalidade tão natural como é o ver para os olhos, o ouvir para os ouvidos e o comer para a boca. A diferença está em que o sexo é uma operação que se realiza a dois, e se o seu fim primário é a geração da prole, os dois envolvidos devem ter as condições necessárias à adequada criação dela, ou seja, estar pelo menos unidos por união formal e indissolúvel. 

8) Cremos que essas considerações são suficientes para desmentir a oitava e última colocação, a de que dizemos isso “só porque Paulo disse”. Sim, para os católicos a autoridade de Paulo tem grande peso. Afinal, cremos que suas cartas são divinamente inspiradas e gozam, portanto, de inerrância. É por isso, diga-se de passagem, que consideramos suas palavras contra a fornicação (cf. Ef 5, 5s; 1Cor 6, 9s.15-20; Gl 5, 19-21) como expressão não só da lei natural, que a proíbe pelo dano que causa à prole, mas de um direito divino positivo, que a proíbe, entre outras coisas, porque nos impede de alcançar nosso fim sobrenatural. No entanto, mesmo que se calassem as Escrituras, mesmo que não houvesse um só versículo sobre a fornicação, ela ainda seria pecado [8]. É contra a natureza humana, porque é contra as exigências que a própria razão impõe ao uso humano, não animal, da sexualidade.

Notas

  1. S. Paulo proíbe especial e insistentemente a fornicação em suas cartas porque escreve a fiéis vindos do paganismo, e os gentios, como observa S. Tomás de Aquino, não consideravam a fornicação um pecado (cf. STh I-II 103, 4 ad 3). O Apóstolo não “inova” a moral judaica, que ele, fariseu zeloso (cf. Fp 3, 4ss), sempre observara, mas faz questão de inculcar nos fiéis princípios que, se já eram claros para os hebreus, são indiscutíveis para os cristãos: “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão Deus” (Mt 5, 8).
  2. Cf. Martin Rhonheimer, La perspectiva de la moral. Fundamentos de la ética filosófica. Trad. esp. de José C. Mardomingo. 2.ª ed., Madri, Rialp, 2007: “As inclinações naturais são um ‘bem para o homem’ na medida em que forem captadas e reguladas pela razão” (p. 285); “[…] uma tendência humana, dado que é natural, é reconhecida pela razão de modo também natural como um bem humano. Mas revela sua identidade como ‘bem humano’ somente na medida em que é reconhecida pela razão como ‘boa’, e não já por ser ‘natural’” (p. 286); “Sem inclinação natural não haveria princípios práticos nem ações. Mas os princípios mesmos não são essas inclinações como juízos naturais, mas como juízos práticos universais do tipo ‘p é bom’ referidos a essas inclinações” (p. 289); “[…] estas inclinações naturais constituem bens humanos e princípios práticos na medida em que se tende a eles na ordem da razão, isto é, na medida em que a vontade tende a eles em conformidade com a ordem da razão, como ‘bem da razão’. A autoconservação e a sexualidade — como bens humanos, e não só como inclinações naturais — são sempre também vontade de autoconservação e querer (ou amar) outra pessoa. A captação destas inclinações pela razão ordena essas inclinações em conformidade com as exigências da razão, e só assim são objeto da vontade e princípio de ações humanas” (p. 290).
  3. No Brasil, a lei permite o casamento a partir dos 16 e até antes, excepcionalmente, em caso de gravidez, sempre que haja autorização dos pais ou responsáveis legais (cf. CDC, arts. 1517, caput, e 1520).
  4. Cf. Joseph Gredt, Elementa. 13.ª ed., Barcelona, Herder, vol. 2, 1961: “A sociedade conjugal, ou matrimônio, se se toma formalmente, é a união legítima, perpétua e exclusiva do homem e da mulher, nascida do mútuo consentimento deles e ordenada à procriação e à educação da prole. A causa, pois, formal ou o fim, ao menos principal, do matrimônio é a geração e a educação da prole, ou a propagação do gênero humano” (p. 462, n. 1012); “O homem não tem desde o início toda a sua perfeição, senão que, logo ao nascer, tanto corporal como espiritualmente, ou quanto ao intelecto e à vontade, está em estado de imperfeição, a partir do qual paulatinamente se desenvolve. Não pode, porém, desenvolver-se por si só, mas necessita de múltiplos auxílios. Ora, nesta assistência ao seu desenvolvimento, tanto corporal quanto espiritual, consiste a educação. A qual, por isso, é dupla: corporal, que se realiza dando alimento e tudo aquilo de que o corpo naturalmente necessita, e espiritual (à qual pertence a instrução religiosa e social), que se realiza pelo ensino [doctrina] não só especulativo, mas também prático, ou por admonição, correção, punição, de maneira que não somente o intelecto seja conduzido a conhecer a verdade, o que é necessário à consecução do fim último, mas também a vontade se incline a fazer o bem” (p. 367, n. 1017).
  5. É evidente, ademais, que o adultério, objetivamente considerado, é mais grave do que a fornicação simples, por ferir a um tempo duas virtudes — a castidade e a justiça —, ao passo que a fornicação fere, em geral, apenas a primeira delas (cf. M. Zalba, Theologiæ Moralis Compendium. Madri, BAC, 1958, vol. 2, p. 767, n. 1405).
  6. Cf. Martin Rhonheimer, op. cit.: “As ações intencionais básicas [isto é, enquanto especificadas por seu fim intrínseco e constitutivo, chamado finis operis por contraposição ao finis operantis, que é extrínseco à ação e corresponde grosso modo ao que este autor denomina ‘intenção’] possuem já em si mesmas uma identidade intencional que é objeto ou conteúdo de atos de eleição. As ações possuidoras dessa identidade têm sentido e são inteligíveis em si mesmas. A este conteúdo inteligível básico dotado de sentido, ‘primeiro’ enquanto fundamental, damos o nome de objeto de uma ação (por exemplo, ‘descansar’), o qual é objeto da razão prática enquanto bem a perseguir ou mal a evitar e cumpre uma descrição (intencional) sob a qual se escolhe esta ação. A estruturação objetivo-intencional das ações é obra da razão. Esta última constitui determinados tipos de ação, como ‘descansar’, ‘trabalhar’, ‘cometer adultério’, ‘assassinar alguém’, ‘alimentar-se’ etc. Todos esses atos não são sucessos naturais, estados físicos nem movimentos corporais, mas ações. Cada uma delas forma um tipo de ação ou uma espécie do gênero ação (um modo de ação)” (p. 151).
  7. M. Zalba, op. cit., p. 762, n. 1389.
  8. Cf. S. Tomás de Aquino, In IV Sent., d. 33, q. 1, a. 3, qc. 2c.: “Não há dúvida de que a fornicação simples é, de si, pecado mortal, ainda que não houvesse lei escrita”; STh II-II 154, 2c: “[…] sem dúvida alguma, há de sustentar-se que a fornicação simples é pecado mortal. Para evidenciá-lo, deve-se considerar que é pecado mortal todo pecado cometido diretamente contra a vida do homem. Ora, a fornicação simples importa uma desordem que recai em prejuízo da vida daquele que nasce de tal união [concubitu]. […] Ora, é evidente que para a educação do homem não só se requer o cuidado da mãe, pela qual é nutrido, mas muito mais o cuidado do pai, por quem deve ser instruído e defendido, e provido de bens tanto interiores quanto exteriores. E por isso é contra a natureza do homem que se unam não casados [quod utatur vago concubitu], senão que é necessário que se una um homem com uma mulher determinada, com a qual permaneça, não por um breve tempo, mas diuturnamente, ou mesmo por toda a vida. E daí provém que, naturalmente, seja importante para os machos da espécie humana a certeza da prole, já que lhes incumbe a educação dela. Esta certeza, porém, desapareceria se a união fosse indeterminada [concubitus vagus]. Ora, esta determinação de uma mulher certa chama-se matrimônio. E por isso se diz que é de direito natural. Mas porque a união sexual [concubitus] se ordena ao bem comum de todo o gênero humano, e os bens comuns caem sob a determinação da lei <humana> […], segue-se que esta conjunção entre um homem e uma mulher, que se chama matrimônio, há de ser determinada por alguma lei […]. Por isso, sendo a fornicação uma união indeterminada [concubitus vagus], por ser feita fora do matrimônio, é contra o bem da prole a ser educada. E por isso é pecado mortal. Não importa que alguém, fornicando com outra, providencie suficientemente educação à prole. Porque o que cai sob a determinação da lei julga-se segundo o que acontece comumente, e não segundo o que em algum caso pode acontecer”.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Vejo vocês na Eucaristia
Espiritualidade

Vejo vocês na Eucaristia

Vejo vocês na Eucaristia

A Eucaristia nos une numa só Igreja, santa, católica e apostólica. Pode ser que jamais nos conheçamos pessoalmente, mas a recepção da Sagrada Comunhão nos une no Corpo místico de Cristo. Não devemos esquecer essa verdade jamais.

Christina Marie SorrentinoTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere2 de Junho de 2021Tempo de leitura: 3 minutos
imprimir
“Jovens, exorto-vos com toda a força de minha alma a que vos aproximeis da mesa da Comunhão sempre que puderdes. Alimentai-vos desse pão dos anjos, do qual haveis de obter toda a energia necessária para travar as batalhas interiores. Porque a verdadeira felicidade, caros amigos, não consiste nos prazeres do mundo nem nas coisas terrenas, mas na paz de consciência, que só obteremos se nosso coração e nossa mente forem puros.” — Beato Pier Giorgio Frassati

Quando entendi pela primeira vez que Jesus está realmente presente na Eucaristia? 

Pensei nessa pergunta recentemente durante uma hora de adoração eucarística. Não podia deixar de pensar nisso enquanto estava na igreja, olhando fixamente para a hóstia pequena e branca, o Cristo escondido perante meus olhos.

Lembro-me do momento em que meu coração foi completamente cativado por Cristo. Na época, eu tinha seis anos, e o episódio ocorreu após a celebração de uma Missa dominical. Minha mãe perguntara ao sacerdote se ele poderia explicar-me o que era a Missa. Lembro-me do sorriso radiante no rosto dele enquanto me levava gentilmente pela mão até o altar. Curiosa, olhei para a bela estrutura de mármore enquanto ele pegava o cálice e apontava para a pedra ao lado dele (era a pedra da aliança de casamento de sua avó). O padre me disse que era um cálice especial usado para armazenar o precioso sangue de Cristo. Não pronunciei nenhuma palavra, pois certamente estava tentando compreender aquilo da melhor maneira possível. Tinha apenas seis anos.

Então, o padre virou-se e apontou para a caixa dourada atrás do altar. Ajoelhou-se ao meu lado e me perguntou: “Sabe quem está ali?” O silêncio tomou conta de mim, enquanto permanecia de pé e refletia profundamente, até sussurrar que ali estavam as hóstias. Em seguida ele disse: “Sim, mas quem está ali?” Olhei vagamente para o tabernáculo. Meus olhos estavam fixos na estrutura dourada. Finalmente o padre apontou de novo e disse: “Jesus está ali. Jesus está no sacrário.”

Fiquei completamente admirada com suas palavras, e minha vida nunca mais foi a mesma. A partir daquele momento, depois de cada Missa eu me ajoelhava sobre os genuflexórios revestidos de veludo azul, localizados na capela de Nossa Senhora, de onde era possível ver o santuário. Lá eu permanecia, olhando fixamente para o tabernáculo durante o período que podia permanecer na igreja. Sempre que minha mãe e eu passávamos de carro diante de uma igreja, eu sempre ficava com vontade de entrar nela para ver Jesus.

Depois que aprendemos que Jesus Cristo, Deus feito homem, está real e verdadeiramente na Eucaristia, como poderíamos negar a verdade? Cristo se entrega a nós na Eucaristia — Corpo, Sangue, Alma e Divindade — e quer que recebamos as graças preciosas que Ele nos comunica por meio da Sagrada Comunhão, para que nos unamos à Trindade numa relação ainda mais profunda. Cristo quer que o desejemos e espera por nós em todos os sacrários espalhados pelo mundo. Ele está realmente presente para nós na Eucaristia.   

O dom de si que Jesus nos faz na Eucaristia é um amor que está além das palavras. Naquela pequena hóstia está o mais profundo amor que se pode imaginar, dado a nós pelo dom do sacerdócio em cada Missa que se celebra. O Filho de Deus vem até mim, apesar da minha fraqueza e dos meus pecados.

Nós, católicos, estamos unidos em torno da mesa do Senhor por meio da recepção do verdadeiro Corpo e Sangue de Cristo. A Eucaristia supera a divisão e nos une numa só Igreja, santa, católica e apostólica. Pode ser que jamais nos conheçamos pessoalmente, mas a recepção da Sagrada Comunhão nos une no Corpo místico de Cristo

Não devemos esquecer essa verdade jamais. “Vejo vocês” na Eucaristia.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Até as águas se abrem diante da Eucaristia
Igreja Católica

Até as águas se abrem diante da Eucaristia

Até as águas se abrem diante da Eucaristia

Em 1433, durante uma inundação em Avignon, na França, um milagre eucarístico aconteceu: diante do Santíssimo exposto, a água que entrara na Capela da Santa Cruz partiu-se ao meio, como as águas do mar Vermelho com Moisés...

Joan Carroll CruzTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere2 de Junho de 2021Tempo de leitura: 3 minutos
imprimir

Após ter erradicado com sucesso a heresia albigense, que, entre outras afrontas, negava a Presença Real, Luís VIII, rei da França, jurou providenciar uma manifestação pública em reparação aos sacrilégios cometidos pelos hereges.

A cidade escolhida para isso foi Avignon e a data definida pelo rei, 14 de setembro de 1226, festa da Exaltação da Santa Cruz. Uma procissão com a Santa Eucaristia estava planejada, com término na nova capela construída em honra à Santa Cruz.

Nela, à espera da procissão, estava o rei vestido de saco, com uma grossa corda à cintura e uma vela na mão. Com ele estavam o cardeal Legate, a corte inteira e uma multidão de fiéis. Encabeçava a procissão o bispo Corbie, que levou o Santíssimo Sacramento pela cidade. Tal era a devoção do rei à Santa Eucaristia, e tão transformada pela graça estava a multidão que compareceu ao ofício, que o Santíssimo Sacramento passou a noite toda exposto e assim ficou por muitos dias, até que o bispo achou por bem que a Eucaristia ali permanecesse exposta perpetuamente, costume a que deram continuidade seus sucessores, com a aprovação do Santo Padre.

O zelo do povo acabou dando origem a uma piedosa confraria conhecida como Penitentes Cinzas. Na Capela da Santa Cruz, durante 200 anos, seus membros aproveitaram o privilégio de fazer adorações perpétuas. Ao cabo desse tempo, aconteceu ali um milagre extraordinário.

Interior da atual Capela da Santa Cruz, em Avignon.

Para compreendê-lo melhor, precisamos considerar primeiro onde a cidade está localizada. Avignon situa-se às margens do rio Ródano, enquanto o distrito em torno da cidade é banhado pelo rio Durance e por um afluente do rio Vaucluse. A cidade sofrera mais de uma vez os efeitos de inundações devastadoras.

Em 1433, os rios ficaram cheios por conta de fortes chuvas e transbordaram, inundando a cidade toda. Em 29 de novembro, as águas puseram em perigo a capela dos Penitentes Cinzas. As chuvas eram tão intensas, que os diretores da confraria temiam que o Santíssimo Sacramento fosse atingido pelas águas em aluvião. Para evitá-lo, decidiram tirar a Eucaristia do ostensório.

Arranjado um barco, alguns membros remaram sobre ruas inundadas até a capela. Ao abrirem a porta, descobriram com grande espanto que a água que entrara na capela tinha-se partido ao meio, como as águas do Mar Vermelho na época de Moisés. Diante deles, havia águas à direita e à esquerda, mas um espaço aberto ia da porta até o altar. Duas testemunhas caíram de joelhos diante do milagre, enquanto os outros se apressaram em espalhar a notícia.

Um trecho dos registros da capela diz o seguinte sobre o milagre:

Grande foi o milagre nesta capela quando a água a invadiu no ano de 1433. Na manhã de segunda, 29 de novembro, as águas começaram a subir muito forte. Dentro da capela, elas subiram à altura do altar-mor. Sob o altar havia livros de papel e pergaminhos, panos, toalhas e relicários, nenhum dos quais estava sequer molhado, apesar de, no dia seguinte, terça-feira, a água não ter parado de subir. No próximo dia, quarta-feira, as águas começaram a recuar… 

No dia 1.º de dezembro, quando a água começou a baixar, uma multidão concentrou-se na capela para testemunhar por si mesma o fato de os livros, papéis e tudo o que fora posto sob o altar estarem perfeitamente secos.

O milagre deu origem a um aumento espantoso da devoção ao Santíssimo Sacramento. Discutiu-se como homenagear e comemorar adequadamente o ocorrido. Decidiu-se por fim que o dia 30 de novembro, no qual o milagre foi reconhecido pela primeira vez, se havia de celebrar como festa especial.

Por muitos anos, neste aniversário, os Penitentes Cinzas tiravam os sapatos e, de joelhos, iam da porta até ao altar da capela.

Infelizmente, em 1793, no auge da Revolução Francesa, a Capela da Santa Cruz foi destruída. Terminado porém esse período terrível, a capela foi reconstruída graças à generosidade de uma família nobre. Após a conclusão da capela, o arcebispo de Avignon renovou o privilégio de outrora: o de ser uma capela de adoração perpétua. Diz-se que o privilégio continua até os dias atuais.

Referências

  • Joan Carroll Cruz. Eucharistic Miracles and Eucharistic Phenomena in the Lives of the Saints. Charlotte: TAN Books, 2010, pp. 153-155.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

As hóstias milagrosas de Daroca
Igreja Católica

As hóstias milagrosas de Daroca

As hóstias milagrosas de Daroca

“Seis hóstias embebidas em sangue e coladas nos corporais”: este milagre eucarístico do século XIII aconteceu em Daroca, na Espanha, e foi considerado pelo Papa um sinal do céu para que se instituísse a festa de Corpus Christi.

Pe. Rafael IbargurenTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere2 de Junho de 2021Tempo de leitura: 4 minutos
imprimir

Enquanto continuamos a sentir o vazio da presença eucarística (teremos a emblemática procissão de Corpus Christi pelas ruas de nossas cidades?), saiamos do prosaico dia-a-dia em que vivemos e nos desloquemos no espaço e no tempo para a Espanha, ou Las Españas, no século XIII [1]. 

Daroca, uma bela cidade medieval em Aragão, que já fora uma vila celta e mais tarde uma cidade romana, localizada a cerca de 80 km de Saragoça, foi escolhida por Deus para ser a guardiã de um maravilhoso milagre eucarístico. Ainda hoje, apesar da descristianização generalizada, em Daroca são solenemente celebrados (pelo menos até 2019…) a Semana Santa e o Corpus Christi.

Os muçulmanos, em seu esforço por conquistar toda a Península Ibérica, rondavam Daroca. As tropas cristãs de Aragão foram então organizadas para defender e reconquistar suas terras. Católicos de Daroca, Teruel e Calatayud estavam se preparando para a batalha. Eram 23 de fevereiro de 1239.

O pároco de Daroca, Pe. Mateo Martínez, estava celebrando a Missa e havia consagrado seis hóstias para a comunhão dos capitães das tropas. De repente, um ataque inimigo forçou a suspensão da Missa, e o padre correu apressadamente para uma montanha próxima, a fim de esconder, envoltas em corporais, as hóstias já consagradas.

No ataque, os cristãos saíram vitoriosos, e os comandantes pediram ao sacerdote que lhes desse a comunhão em ação de graças pela vitória. O padre foi até o lugar onde havia escondido o Santíssimo Sacramento para que não fosse profanado e, para seu espanto, encontrou as seis hóstias embebidas em sangue e coladas nos corporais.

Os comandantes da guerra ficaram encantados com a visão do milagre e o consideraram um sinal de que seriam vitoriosos no futuro ataque. Eles pediram ao clérigo que colocasse os corporais manchados de sangue em uma moldura para elevá-los como um estandarte. Com ele, retornaram à batalha, obtendo novas vitórias.

Os corporais de Daroca.

Os seis comandantes eram de lugares diferentes e, naturalmente, cada um queria que os corporais fossem para sua própria cidade, para serem homenageados na respectiva catedral ou templo. Eles discutiram e discutiram… ninguém cedia, e eles não entraram em acordo. Eles decidiram, então, fazer um sorteio. E a própria cidade de Daroca acabou sendo escolhida para ser a sede desse tesouro precioso.

Dois dos chefes, porém, não aceitaram. Então, uma solução singular foi proposta: os corporais seriam colocados nas costas de uma mula árabe, capturada na conquista, que nunca antes pisara terras cristãs. Eles a deixariam perambular pelo tempo que quisesse e, onde ela parasse, ali seria definitivamente o lugar escolhido para as relíquias ficarem. O plano foi executado.

A mula, com o tesouro às costas, pôs-se em marcha e andou por doze dias uma distância de cerca de 200 km, beirando as cidades, sem entrar em nenhuma. Por fim, caiu exausta diante da Igreja de São Marcos… na cidade de Daroca, para a qual retornou! Ali permaneceram os corporais, que, mais tarde, foram levados para a atual Basílica de Santa Maria dos Sagrados Corporais, onde são venerados em uma capela decorada com pinturas que evocam o milagre.

Existem tradições interessantes, transmitidas por gerações, sobre a jornada da mula. Contam que vários milagres aconteceram em sua jornada: cânticos de anjos, demônios que abandonaram possessos, conversões etc.

Alguns anos após o milagre, em 1261, uma delegação de Daroca viajou a Roma para informar Urbano IV — um Papa que muito amava a Eucaristia — sobre o milagre eucarístico em sua cidade. O pontífice foi contemporâneo da religiosa Santa Juliana de Cornillon, de Liège, Bélgica, que tanto trabalhou pela instituição de uma festa própria para o Santíssimo Sacramento. Na época, Urbano IV, que já havia sido canonista em Liège, estava em Orvieto, onde declarou outro famoso milagre eucarístico, o de Bolsena, e instituiu em 1264 a festa de Corpus Christi. O milagre eucarístico de Daroca foi considerado mais um sinal do céu para que a festa de Corpus Christi, hoje solenidade, fosse estabelecida.

Santo Tomás de Aquino, que providencialmente esteve na ocasião com o Papa, compôs hinos para a própria Missa de Corpus Christi. Mais tarde, o sábio santo dominicano seria nomeado padroeiro da cidade de Daroca. E, em 1444, o Papa Eugênio IV concedeu indulgências e jubileus a serem celebrados em Daroca. Foi esse Pontífice quem declarou autênticos outros milagres eucarísticos: o de Walldurn, na Alemanha, e o de Ferrara, na Itália. Foi um tempo de fé ardente… 

Alguém pode se perguntar: por que em tempos de fé robusta os milagres acontecem com relativa frequência e, na sociedade materialista de hoje, os milagres são tão raros ou quase inexistentes? Os milagres não tocariam os corações e alimentariam a fé sonolenta das pessoas?

Claro que não. Porque os milagres são, precisamente, presentes de Deus para almas que têm fé, que estão dispostas a acreditar. “Se não ouvirem a Moisés e aos profetas, tampouco se deixarão convencer, ainda que ressuscite algum dos mortos”, disse Abraão ao homem rico da parábola, que ardia no inferno (Lc 16, 31).

De qualquer forma, todos os dias, em todos os momentos e em milhares de lugares, acontece um milagre muito maior e mais impressionante do que todos os outros: a transubstanciação. Na Missa, pelas palavras da consagração, proferidas pelo próprio Cristo pela voz do sacerdote, e por obra do Espírito Santo, pão e vinho tornam-se Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Nosso Senhor.

Não se valoriza adequadamente este milagre supremo, e se pretendem outros, que seriam “inúteis”!

Notas

  1. Este texto foi escrito em 2020, mas, como as restrições devido à pandemia do coronavírus persistem, esta introdução ainda é bem apropriada para o momento que vivemos.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.