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São José teve verdadeiros sentimentos paternais por Jesus
Santos & Mártires

São José teve verdadeiros
sentimentos paternais por Jesus

São José teve verdadeiros sentimentos paternais por Jesus

“A natureza não é mais veemente no amor do que a graça”. Deus ateou na alma de São José um amor ardentíssimo pelo Filho de sua Esposa, não inferior ao que lhe teria se fosse seu próprio filho por natureza, mas incomparavelmente maior em intensidade e pureza.

Pe. Bonifacio LlameraTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere19 de Novembro de 2021Tempo de leitura: 3 minutos
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São José, por seu coração, foi verdadeiramente pai de Cristo, já que, segundo o princípio de Santo Anselmo, “a natureza não é mais veemente no amor do que a graça” [1]; ao contrário, a graça, muito mais poderosa do que a natureza, ateou em sua alma um amor ardentíssimo pelo Filho de sua Esposa, não inferior ao que lhe teria se fosse seu próprio filho por natureza, mas incomparavelmente maior em intensidade e pureza.

A vontade de Deus, infinitamente mais eficaz do que a natureza, deu ao santo Patriarca um coração paternal, concedendo-lhe de um modo muito mais excelente todos os sentimentos paternais que um pai pode ter por seu filho e até “uma faísca do amor infinito” que o Pai tem pelo seu Filho unigênito, como disse Bossuet:

Talvez pergunteis — disse — de onde ele [São José] tomou esse coração paternal, se a natureza não lho deu? Acaso estas inclinações naturais podem ser adquiridas por livre escolha, e a arte pode imitar o que a natureza escreve nos corações? Se São José não é pai, como teria um amor paternal? Aqui devemos compreender que o poder divino atua em nossa obra. Devido a tão excelso poder, São José tem um coração de pai; e já que a natureza não lho ofereceu, Deus, por sua própria iniciativa, concede-lhe um. Deus, o verdadeiro Pai de Jesus Cristo, que o gerou desde toda eternidade, ao escolher o divino José para servir de pai terreno do seu Filho único, fê-lo de tal forma que colocou um raio, uma faísca do amor infinito que tem por seu Filho. Esta é a causa da transformação do coração de José, é o que lhe dá um amor de pai; e como é certo que o justo José sente em si mesmo um coração paternal formado de uma só vez pela ação de Deus, sente também que Deus lhe ordena empregar sua autoridade de pai [2].

Esse é o motivo primordial pelo qual o Papa Leão XIII apresenta o santo Patriarca, suplicando-lhe sua proteção universal: “Nós vos suplicamos, pelo amor paternal que tivestes ao Menino Jesus…”

É evidente que Deus pôs em São José um coração verdadeiramente paternal, de modo que sentisse por seu Filho o mesmo amor que experimentam em seu íntimo aqueles que são pais por natureza. Ele não é “pai” só por natureza, mas algo muito mais perfeito, como podemos deduzir do princípio anteriormente exposto. Não só devemos chamar-lhe pai, senão que diremos com São Bernardino, uma vez mais, “crer que existiam nele todos os sentimentos paternais de amor e dor para com o seu amado Jesus”.

São José teve um amor ardentíssimo por Jesus: “Não amou menos a Jesus, seu filho adotivo, do que o tivera amado se fosse seu filho natural; amou-o mais porque a graça é mais veemente do que a natureza. Quantas vezes colocou o Menino sobre suas pernas, levou-o em seus braços; quantas vezes o beijou e apertou afetuosamente contra seu peito” [3].

Bem escreve Faber: “Amava Jesus com um amor filial tão grande que, repartido entre todos os pais do mundo, a todos faria felizes num grau que eles mesmos não poderiam crer. Este amor excede em grandeza e santidade tudo o que já existiu de amor paterno; sua paternidade era tão grandiosa, magnânima e distinta que todas as outras deste mundo poderiam dela participar sem esgotá-la” [4].

Sua solicitude paterna é proporcional ao amor. Quem poderá descrever a solicitude de José para com Jesus e Maria? Basta-nos recordar seus cuidados e sacrifícios, vendo-o caminhar a Belém, fugir para o Egito e viver silencioso e diligente em Nazaré. Sobre as tantas virtudes que o santo praticou em sua vida oculta foram escritas muitas páginas vívidas e belas.

Certamente, este sentimento paternal responde a um gênero de paternidade especialíssima e admirável, firmemente fundamentada no vínculo sagrado do contrato matrimonial com Maria, a Mãe de Jesus, e animada pela graça divina, que fez brotar no coração dele os maiores afetos de ternura paternal e a mais generosa entrega em corpo e alma durante toda a vida ao serviço de Jesus Cristo, o Filho de Maria, sua Esposa, e Redentor de todo o gênero humano.

Referências

  1. S. Anselmo, De offic. I, 1, 7 (PL 36, 14).
  2. Bossuet, S. Joseph, son ministère, sa vie intérieure, Premier panégyrique de S. Joseph. Oeuvres: Liège, vol. 1, 1866, p. 564.
  3. J. Miecowiense, Discursus praedicabiles super litanias lauretanas B. V. M., discurso 118. Nápoles, 1856, p. 210.
  4. Faber, Bethlehem. Marietti: Torino, vol. 1, 1869, p. 247.

Notas

  • Original: Pe. Bonifacio Llamera, “San José tuvo verdaderos sentimientos paternales hacia Jesucristo”. In: Teología de San José. Madrid: BAC, 1953, pp. 113-114.

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A geração anônima
Sociedade

A geração anônima

A geração anônima

Os fins não justificam os meios quando se trata de gerar uma vida. Embora a infertilidade possa ser uma luta, ninguém “merece” um filho. Quando se usam técnicas antiéticas para produzir filhos, são as próprias crianças que terminam pagando o preço final.

Ben BroussardTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere17 de Novembro de 2021Tempo de leitura: 3 minutos
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O Center for Bioethics and Culture [“Centro de Bioética e Cultura”] produziu cinco anos atrás um documentário sobre doação de esperma. Anonymous Father’s Day [“Dia dos Pais Anônimos”, disponível na íntegra no YouTube] conta todos os fatos sobre a prática e destaca histórias pessoais, contadas por crianças concebidas por doadores. Ao longo de uma hora, o alcance da chamada “tecnologia de reprodução assistida” é discutido francamente pelos mais afetados.

Os Estados Unidos continuam sendo um dos poucos países onde a “tecnologia reprodutiva” não é regulamentada. Entre 30.000 e 60.000 crianças são concebidas anualmente por doação de esperma.

Com o aumento de relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo e mães solteiras, esse número só aumentou. Muitas pessoas hoje estão dispostas a gastar grandes somas para produzir filhos. Estima-se que essa compra e venda não regulamentada de seres humanos equivalha a uma indústria anual de 3,3 bilhões de dólares.

Sucesso sobre nossos tempos. — O custo material empalidece em comparação com o enorme fardo posto sobre as pessoas que foram produtos dessas tecnologias. Querer saber de onde se veio e conhecer a própria história pessoal é perfeitamente natural. Para crianças nascidas e criadas por seus pais biológicos, traçar a árvore genealógica é uma tarefa simples. Não assim para quem foi produzido por inseminação artificial.

O estigma social, mesmo em discutir o tópico, permanece generalizado. O “Dia dos Pais Anônimos” mostra as lutas de crianças produzidas por doadores, que agora cresceram e procuram seus pais. Torna-se claro que todo o marketing em favor da prática gira em torno da felicidade e do altruísmo dos pais. A triste realidade é que as crianças vão crescer com um vazio existencial, sem nunca conhecer o verdadeiro pai e a motivação para a sua geração.

A ascensão da internet tem visto um número crescente desses indivíduos vir a público. Grupos de apoio e redes sociais para pessoas concebidas por doadores estão agora difundidos. O sequenciamento de DNA forneceu outro caminho para encontrar respostas. Um senhor entrevistado conseguiu localizar doze de seus meio-irmãos e meio-irmãs. Estima-se que seu pai doador tenha entre 500 e 1.000 filhos.

A geração anônima. — Os legisladores tentaram diminuir muitos dos dilemas éticos da doação anônima. A Suécia foi a primeira a proibir a doação anônima de gametas, com outros países seguindo o exemplo. Mesmo com a regulamentação, no entanto, as crianças ainda são tratadas como mercadoria a ser comprada e vendida à vontade. Mais crianças concebidas por doadores estão chegando à conclusão de que a única solução real é proibir a prática.

Os apoiadores mais veementes respondem sem pestanejar que isso significa proibir o ato que as trouxe à existência. Elas não deveriam apoiar uma indústria que lhes deu vida? Pela mesma lógica, uma pessoa concebida num estupro deveria apoiar o estupro porque foi esse o ato que a trouxe à existência. É claro que os fins não justificam os meios quando se trata de gerar uma vida.

Embora a infertilidade possa ser uma luta, ninguém “merece” um filho. Quando se usam técnicas antiéticas para produzir filhos, são as próprias crianças que pagam o preço final.

Uma conclusão óbvia sobre o casamento. — Haverá uma pressão crescente para proibir o “Dia das Mães” e do “Dia dos Pais”. Mas as pessoas concebidas por doadores estão falando sobre a importância da maternidade e da paternidade. Uma mãe e um pai que criam seus filhos biológicos, em um relacionamento de compromisso por toda a vida, eis o que há de melhor para os filhos. O “Dia dos Pais Anônimos” deixa claro que também é o melhor para a sociedade.

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“Caos e trevas” da Idade Média
Educação

“Caos e trevas” da Idade Média

“Caos e trevas” da Idade Média

Pela Idade Média professamos sempre a maior veneração, nela saudando uma das mais férteis e gloriosas quadras do espírito humano. Se ela foi em algum momento um caos, confesse-se ao menos: sobre aquela escuridão pairava o espírito de Deus.

Carlos de Laet17 de Novembro de 2021Tempo de leitura: 8 minutos
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A Idade Média! “Época de trevas, caos em que se imergiram as luzes da antiga civilização, pulverizada pelo formidável embate dos bárbaros…”. Com estas e outras declamações parece-nos estar ouvindo algum pedante que só tenha aprendido da história o que rezam os manuais franceses, e que da tomada da Bastilha faça datar a carta de alforria do gênero humano.

Pois muito em verdade vos dizemos que pela Idade Média professamos sempre a maior veneração, nela saudando uma das mais férteis e gloriosas quadras do espírito humano.

Se na Idade Média definitivamente se afundou o gênio antigo, foi para abrir lugar às civilizações oriundas do Evangelho e que tinham de alagar o mundo, não para destruí-lo qual novo dilúvio, mas para impregná-lo de futurosas colheitas, como no vale egípcio as inundações do rio benfazejo.

Se a Idade Média foi nalgum momento um caos, confessai ao menos que sobre aquela escuridão pairava o espírito de Deus, a cuja voz não tardou o abismo a estremecer banhado em luz...

Percorramos em brevíssima sinopse as diversas províncias do saber humano, e em todas elas veremos como brilhou o inculcado período das trevas.

“Santo Tomás de Aquino”, por José Risueño.

Na filosofia brevemente haveremos de aludir a Santo Agostinho, qualificado por Villemain como um dos gênios mais vastos e prontos de que se gloria a humanidade; Escoto Erígena, continuador do neoplatonismo eclético de Alexandria, preparador do realismo escolástico, engenho transviado nos devaneios do panteísmo, mas certamente poderoso engenho e talvez inspirador das atrevidas imaginações de Espinosa; Santo Anselmo, que antes de Bacon proclamou a aliança necessária entre a fé e a razão; Roscelino, seu adversário, e que até à heresia foi arrastado pelo calor na defesa das doutrinas nominalistas; Abelardo, mais célebre pelas suas românticas aventuras do que pelo valor dialético que dele fez um dos primeiros professores da Europa; S. Bernardo, seu infatigável antagonista e de Pedro de Bruys e de Arnaldo de Bréscia, campeão da tolerância em prol dos judeus perseguidos e que preencheu a vida impugnando cismas, reconciliando príncipes e consolando povos; S. Tomás de Aquino, o Anjo da Escola, cujas obras, no dizer de Cousin, são um dos maiores monumentos erguidos pela humana inteligência, e no Concílio de Trento figuraram entre os livros dignos de consulta logo após as Sagradas Escrituras... Para que mais nomes depois destes?

Olhai para as letras. Enquanto lá dentro dos mosteiros e casas pias zelosamente se guardam os primores da antiguidade que, a seu tempo divulgados, devem produzir os portentos da Renascença, cá por fora poeta o povo pela boca dos seus trovadores e minnesingers. Na Alemanha são os Niebelungen, na Espanha o Poema do Cid e o Romancero, em França a Canção de Rolando — pedindo meças todos eles às epopéias homéricas na opulência da invenção e na sublime simplicidade, verdadeiras Ilíadas sem Homero, como acertadamente lhes chamou alguém.

Mais tarde, porém ainda dentro do período medieval, vemos na Itália Dante precedido por seu mestre Brunetto Latini; e Petrarca, ainda medievo, posto que já tomado pelo movimento da Renascença: Dante e Petrarca, isto é, o poema épico e a composição lírica em suas mais arrojadas e formosas construções.

Que diremos então da poesia onde exclusivamente se fazia sentir a inspiração cristã? Dos cânticos de Giovani Mariconi, mais conhecido por S. Francisco de Assis, do Stabat Mater de Jacopone de Todi, ou do Dies Irae de Tomás Celano, obras primas entre as que mais o são, eternos acentos de piedade ou inextinguíveis gritos de dor, que vão atravessando os séculos e constantemente repetidos pela devoção?

Se das letras nos trasladarmos ao domínio das ciências, a começar pela jurisprudência, haveramos de reconhecer, com Muratori e Savigny, a permanência do direito romano, que, à sombra das instituições eclesiásticas, subsistiu em toda a Europa Medieval de par com as bárbaras leis dos vencedores; e posteriormente assistiremos, na cultíssima Bolonha, e sob o influxo do letrado Irnério, à renovação dos estudos jurídicos e à formação daquela erudita escola que principiou por Acúrsio, o ídolo dos jurisconsultos, para terminar em Bartolo, hoje esquecido, mas que por muitos anos teve após si e suas glosas a longuíssima cauda dos Bartolistas. Em o nosso século das luzes muito pasma que por mulheres estejam sendo cultivados o direito ou a medicina; e todavia, durante a escuridão medieval, Novella, filha de Giovanni d’Andréa, professor bolonhês, substituía o pai na sua cátedra magistral da Universidade, e ali professava o direito, mal escondida por uma cortina que, di-lo ingênuo cronista, tinha por objeto impedir que a gentileza da preletora absorvesse a atenção dos estudantes.

Em Salerno um refugiado, o monge cartaginês Constantino, vertia os autores de medicina gregos e árabes, e assim preparava o florescimento da escola cuja popularidade ainda subsiste, perpetuada por célebre coleção de preceitos sanitários. E aí também com os homens emulavam as damas, de uma das quais guardou a memória Orderico Vital, assegurando que com ela dificilmente competiam os esculápios do seu tempo.

Nem somente na Itália. Na península irmã, a ibérica, que arraigado preconceito nos mostra civilizada pela invasão maometana, está hoje provado que muito ao contrário foram os invadidos que poliram os invasores. A cultura hispano-muçulmana, como pondera o douto catedrático granadense Eguilaz e Yanguas, baseando-se nos estudos de Xavier Simonet e outros, não foi obra dos árabes, mas dos renegados cristãos, judeus e mozarabes que foram primeiro os validos e logo os diretores intelectuais dos emires e califas, a quem forneceram a flor dos poetas, retóricos e historiadores [1]. E que copiosa e esplêndida florescência, essa desabrochada no generoso terreno de Espanha! No palácio de Hescham, o 2.o. Ommiada, incompleto catálogo mencionava quarenta e quatro mil volumes. O autor de um dicionário biográfico do XIII século cita mil e duzentos historiadores, cada qual em sua especialidade. Gramática, poesia, eloqüência, política, direito, teologia, ciências naturais — tudo figura nos mil e oitocentos manuscritos da época, ainda hoje conservados na biblioteca do Escorial e insignificantes restos da enorme coleção estragada pelo incêndio de 1672. Eis o obscurantismo da Idade Média na atrasadíssima península espanhola!

“São Domingos”, retratado por Fra Angelico.

Um lance de olhos às belas-artes. Na pintura é Fra Angélico ou Giovanni da Fiosole, rejeitando o arcebispado de Florença, para fazer da pintura uma suprema elevação a Deus, e realizando na miniatura como nas grandes composições o ideal da beleza cristã; são Huberto e sobretudo João Van Eick, criando a pintura a óleo, e cultivando com igual excelência o retrato, a história, a paisagem, os animais e as flores; é, finalmente, Masaccio, o sublime extravagante, em cujos quadros aprenderam Rafael e Miguel Ângelo.

Foi durante a Idade Média que se cobriu a Europa dessas magníficas igrejas, que ainda hoje são o orgulho de tantas cidades: Nossa Senhora de Paris, Santa Gudula de Bruxelas, as catedrais de Burgos, de Toledo, de Estrasburgo, onde em 1277 o arquiteto Erwin atirava a cento e quarenta e dois metros de altura a soberba flecha do edifício; e a Batalha, esse edifício de pedra entoado sobre a vitória de Aljubarrota...

Em 1378 Schwartz revoluciona a arte da guerra, ou inventando a pólvora, como querem alguns, ou ensinando aos venezianos a aumentar o cumprimento dos canhões; Flavio Gioja descobre ou divulga a bússola e assim depara seguro guia para longínquas viagens; Gutemberg, Faust e Schoeffer operam a transição da gravura de letras para a imprensa de caracteres móveis e espalham pelo mundo os conhecimentos arquivados nos pergaminhos dos eruditos... Que movimento e que luz no malsinado período das trevas!

Se o Renascimento se inicia com as prodigiosas descobertas de Vasco da Gama e de Colombo, não esqueçamos que já em 1448 o sumo pontífice Nicolau V, pela bula Ex injuncto, que figurou na exposição histórico-européia de 1892, fitava os olhos de sua evangélica solicitude nas terras glaciais da Groelândia e aos bispos de Skalholt e de Hola assinalava a existência de povos pagãos e propínquos àquelas regiões. A América, pela Groelândia conhecida em 986, pela Terra Nova percorrida no ano 1000 e ainda pelo Vinland que provavelmente corresponde ao atual estado de Massachussets — a América, dizíamos, é também uma conquista da barbaria medieval.

Henrique, o Navegador, ínclito filho de D. João I de Portugal.

À Idade Média pertence ainda aquela pensativa e simpática figura de Henrique, o Navegador, sob cujas instruções, de 1419 a 1447, se foram descobrindo Madeira, os Açores, o Cabo Bojador e o Verde, e que em 1438 lançava na escola de Sagres os fundamentos do poderio marítimo português...

Isto pelo caminho do Oceano, pois que por terra e muito antes já Marco Polo atravessava toda a Ásia, desde a Armênia até ao Japão; Rubruquis, enviado por Luís IX para catequizar a Tartária, esclarecia a Europa sobre os costumes dos mongóis; e Plano Carpino atingia em suas pregações o coração da Tartária, passando além do Kithai ou Kashgar.

Quanto aos progressos da liberdade política, um só reparo e por satisfeitos os danos. Leia-se a Magna Carta, pedra angular do direito constitucional inglês: “Nenhum homem livre seja capturado ou metido na cadeia, ou desapossado, ou desterrado, ou de qualquer modo seja privado de qualquer propriedade sua, ou da sua liberdade ou de seus livres hábitos; nem contra ele iremos, nem o faremos prender, se não pelo julgamento legal dos seus pares, ou segundo a lei do país”. Acordava-se nisto em 1215; e preciso é que decorram quase cinco séculos para chegarmos à lei dos suspeitos da Revolução Francesa...

Eis o que foi a Idade Média, tão increpada de obscurantismo, como que para expiar perante o livre pensamento moderno o crime de sua fé cristã, sob cujo amparo realizou tantos e tais cometimentos...

Referências

  1. Leopoldo de Eguílaz y Yanguas. In: Glossario etimologico de las palabras españolas. Granada: La Lealtad, 1886, p. IX. E logo acrescenta: “Se os árabes, cuja incapacidade para o exercício das artes e das ciências reconhece o próprio Aben Jaldun, tivessem sido os realizadores daquela civilização, como se lastimar que a África, presa também a seu domínio, vegetasse na barbaria até que os espanhóis lhes transmitissem sua cultura?”

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A vida após a morte e o erro das Testemunhas de Jeová
Doutrina

A vida após a morte e o
erro das Testemunhas de Jeová

A vida após a morte e o erro das Testemunhas de Jeová

Devido a uma leitura equivocada das Sagradas Escrituras, as Testemunhas de Jeová não acreditam na vida após a morte tal como a entendemos. De acordo com eles, nossas almas simplesmente “dormem” no além-túmulo, perdendo toda a consciência que tinham.

J. P. NunezTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere9 de Novembro de 2021Tempo de leitura: 6 minutos
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Gosto de escrever sobre as Testemunhas de Jeová. Eles são uma seita perigosa, que ataca a ignorância das pessoas sobre as Escrituras e a história da Igreja. Por isso, os católicos precisam saber como refutar suas crenças errôneas e argumentos sofísticos. Precisamos ser capazes de defender a nós mesmos e a nossos entes queridos de seu falso evangelho. Então, devemos ter, pelo menos, um pouco de familiaridade com sua teologia característica e as razões pelas quais eles estão erradas.

Normalmente, quando escrevo sobre as Testemunhas de Jeová, concentro-me em sua negação da divindade de Jesus, pois essa é a crença mais conhecida deles. Muitas vezes, é a primeira coisa sobre a qual falam quando batem à sua porta. No entanto, essa é a doutrina mais óbvia, mas não a única falsa que eles ensinam. Eles também defendem uma série de outras crenças errôneas, entre as quais a negação da vida após a morte. De acordo com eles, nossas almas perdem toda a consciência quando morremos, então não existe vida após a morte como normalmente a entendemos.

Céu ou ressurreição? — À primeira vista, isso pode parecer ridículo. O ponto principal do cristianismo não é que Jesus abriu as portas do céu para nós, para que possamos ir para lá quando morrermos? Bem, sim e não. Embora essa explicação não esteja errada, ela não capta a plenitude de nossa esperança como cristãos.

Sim, acreditamos que nossa alma continua viva após a morte, mas o que normalmente pensamos como vida após a morte não é realmente nosso objetivo final. Em vez disso, como professamos todos os domingos na Missa, nosso objetivo final é “a ressurreição dos mortos”. Quando Jesus voltar, no final da história humana, os mortos ressuscitarão como Ele, e desfrutaremos da bem-aventurança eterna com nossos corpos e almas reunidos.

Se lermos as Escrituras com atenção, descobriremos que, na maioria das vezes, quando se fala sobre nossa esperança futura, quase sempre se fala sobre a ressurreição, não uma vida sem corpo no céu (e.g., 1Cor 15, 20-23; 1Ts 4, 14-16). Na verdade, é muito difícil encontrar passagens que falem sobre o que chamamos de céu, então a crença das Testemunhas de Jeová nesse assunto não é tão ridícula quanto pode parecer à primeira vista. Compreende-se o porquê de eles pensarem que a Bíblia ensina a ressurreição ao invés da vida sem corpo, e não a ressurreição junto com a vida sem corpo (antes da ressurreição).

A morte como sono. — Na verdade, existem até algumas passagens que parecem negar qualquer tipo de vida após a morte antes da ressurreição. Por exemplo, a Bíblia muitas vezes descreve a morte como “sono” (At 7, 60; 1Ts 4, 14), e há até uma passagem do Antigo Testamento que diz explicitamente que os mortos não estão cônscios de nada:

Com efeito, os vivos sabem que hão de morrer, mas os mortos de nada sabem. Para eles não há mais recompensa, porque sua lembrança jaz no esquecimento [...] Tudo o que tua mão encontra para fazer, faze-o com todas as tuas faculdades, pois que na região dos mortos, para onde vais, não há mais trabalho, nem ciência, nem inteligência, nem sabedoria (Ecle 9, 5.10).

À primeira vista, essas passagens parecem bastante convincentes. Se a morte é como o sono, e se os mortos “nada sabem” e “não há mais trabalho, nem ciência, nem inteligência, nem sabedoria”, então devem estar inconscientes. Caso encerrado, certo?

Problemas com os argumentos. — Não exatamente. Embora esses argumentos possam parecer fortes no início, na verdade, eles são muito frágeis. Para começar, vejamos o texto do Eclesiastes. Se o interpretarmos literalmente, também teremos de negar que alguém se lembre dos mortos (“sua lembrança jaz no esquecimento”), mas isso obviamente não é verdade. Não nos esquecemos das pessoas imediatamente quando morrem. Leva gerações para que a memória de alguém se perca e, no caso de pessoas famosas, pode levar séculos ou até milênios.

O autor do Eclesiastes sabia disso, então ele claramente não pretendia que levássemos suas palavras ao pé da letra. Em vez disso, ele estava simplesmente falando hiperbolicamente, exagerando para captar a tragédia da morte. Se ele estava fazendo isso em uma parte da passagem, é lógico que fizesse o mesmo no restante dela também. Ele não quis dizer que os mortos literalmente deixam de existir ou que literalmente não têm consciência de nada. Ele estava simplesmente exagerando para enfatizar o quão ruim realmente é a morte.

Quando nos voltamos para as passagens que descrevem a morte como sono, descobrimos que a interpretação das Testemunhas de Jeová também é incerta. Como sabemos que “dormir” não é apenas um eufemismo, como nossa expressão moderna “falecer”? Usamos esse eufemismo para amenizar um pouco a dor da morte e é perfeitamente possível que os autores bíblicos tenham feito algo semelhante. Na verdade, as Escrituras usam linguagem metafórica com bastante frequência (por exemplo, Jesus não é literalmente uma porta, apesar do que diz em Jo 10, 9), então o mero fato de elas descreverem a morte como sono é inconclusivo; ele é consistente com qualquer um desses pontos de vista. Portanto, se realmente queremos descobrir o que acontece depois da morte, precisamos examinar alguns outros textos menos ambíguos.

O bom ladrão. — Então, o que a Bíblia realmente diz que podemos esperar entre a morte e a ressurreição? É certo que não diz muito, mas se a lermos com atenção, diz mais do que o suficiente para refutar as Testemunhas de Jeová. Vamos começar provavelmente com a história mais famosa de todas as Escrituras: a crucificação de Jesus. Os Evangelhos nos dizem que Jesus foi crucificado entre dois criminosos, e um deles pediu misericórdia a Ele enquanto pendiam em suas cruzes (cf. Lc 23, 42). Em resposta, Jesus prometeu a ele: “Em verdade te digo: hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23, 43).

“A Crucificação”, por Johannes Stradanus.

Esta é uma declaração muito simples, mas nos diz tudo o que precisamos saber. Se os mortos estão inconscientes e não podem sentir tristeza, felicidade ou qualquer outra coisa, então Jesus estava mentindo e esse homem não foi para o paraíso naquele dia. Em vez disso, ele foi dormir e, mesmo depois de 2 mil anos, Jesus ainda não cumpriu sua promessa.

Mas, sabemos que não é o caso. Jesus não era mentiroso; então, se Ele disse que aquele homem estaria com Ele no paraíso naquele mesmo dia, deve ter sido verdade. A alma desse homem deve ter ido para o que hoje chamamos de céu, e ele deve ter passado a experimentar desde então as alegrias de estar lá, com Deus.

“Com Cristo”. — Vejamos a seguir o ensino de São Paulo sobre o assunto. Como os outros autores do Novo Testamento, ele também diz muito pouco sobre o estado de nossas almas entre a morte e a ressurreição, mas há uma passagem de suas cartas que muito claramente toca nessa questão. No primeiro capítulo de Filipenses, ele diz que está dividido entre dois desejos. Por um lado, deseja permanecer vivo e ajudar as igrejas sob seus cuidados, mas, por outro, também deseja morrer “para estar com Cristo” (Fl 1, 21-24).

O significado desta passagem é difícil de entender, por isso precisamos lê-la com atenção. São Paulo não diz explicitamente que ficará consciente depois de morrer, mas essa é a única maneira de dar sentido ao que ele diz. Se não, por que ele teria um desejo intenso de morrer e estar “com Cristo”? Isso não soa como se ele esperasse ficar inconsciente até a ressurreição. Pelo contrário, ele parece acreditar em que iria para o céu e experimentaria a bem-aventurança de estar com Jesus.

A verdade sobre a vida após a morte. — Existem várias outras passagens que poderíamos examinar também, mas essas duas são o suficiente para encerrar o caso para nós [1]. O ensino claro das Escrituras é que nossa alma permanecerá desperta e consciente depois que morrermos. A Bíblia, é claro, descreve a morte como “sono”, mas isso é apenas um eufemismo, muito parecido com a nossa maneira de dizer que as pessoas “falecem”. Não se trata de uma descrição literal. 

Então, também neste ponto as Testemunhas de Jeová estão erradas. Isso mostra mais uma vez como elas simplesmente distorcem a Palavra de Deus a fim de que se adeque ao seu falso evangelho.

Notas

  1. Lembrando sempre que, diferentemente dos protestantes, nós, católicos, nos guiamos em matéria de fé e moral pelo Magistério da Igreja, e não por um livre exame dos textos das Escrituras. Os Apóstolos — a cujos sucessores estamos sujeitos — receberam autoridade de Cristo Jesus (cf. Lc 10, 16) muito antes que os livros do Novo Testamento fossem escritos e que o cânon definitivo deles fosse estabelecido (N.T.).

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