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Os santos, os pecadores e o sofrimento de ambos
Espiritualidade

Os santos, os pecadores
e o sofrimento de ambos

Os santos, os pecadores e o sofrimento de ambos

Ambos os ladrões crucificados ao lado de Jesus sofreram por seus pecados, mas foi bem diferente a forma como cada um respondeu à sua pena. O sofrimento é um dom oferecido a todos nós, sejamos santos ou pecadores, mas o modo como o recebemos muda tudo.

Joseph PearceTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere30 de Outubro de 2021Tempo de leitura: 3 minutos
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Há dois tipos de santos: os que são pecadores e os que não são. São pecadores os que estão sendo forjados, aqueles que ainda não enfrentaram a morte física neste exílio e vale de lágrimas, os que ainda combatem o bom combate pela Igreja militante; são também os que estão sendo purificados de seus pecados no Purgatório. Esses santos são pecadores que, pela graça de Deus, acolhem seus sofrimentos como meios de crescer em santidade. Os santos não-pecadores são aqueles que já foram alvejados no sangue do Cordeiro e agora estão eternamente diante dele na Igreja triunfante.

Há dois tipos de pecadores: os que se arrependem de seus pecados e aceitam o sofrimento provocado por ele, e os impenitentes, que põem a culpa de seu sofrimento em todos, menos em si mesmos. Se permanecerem obstinados na vida de pecado e continuarem a pôr a culpa de suas próprias misérias em outras pessoas, serão condenados a viver um inferno nesta vida, que será confirmado na outra.

O elemento comum aos santos e aos pecadores é a presença do sofrimento, que, assim como a morte, é inevitável. À exceção do céu, onde ele é derrotado, o sofrimento é, pelo visto, onipresente e só é aliviado pela doce consolação oferecida à alma em sofrimento, que anseia pelo conforto como quem anseia por água no deserto. Não é de estranhar, portanto, que o mistério do sofrimento, ou o que C. S. Lewis chamou de “problema da dor”, tenha intrigado a humanidade desde sempre. O Livro de Jó narra a luta com esse problema e parece solucioná-lo por meio de sua dissolução na inefável vontade de Deus. Homero, na Odisseia, resume o problema nas palavras de Zeus, que repreende a humanidade por culpar os deuses pelo sofrimento, quando na verdade o sofrimento decorre da própria irresponsabilidade do homem, embora ele acrescente, de forma intrigante, que algum sofrimento é “dado” pelos deuses. 

O mais perturbador dos sofrimentos é o que nos é “dado”. É relativamente fácil compreender que provocamos nosso próprio sofrimento e o de outras pessoas por causa de nossa imprudência, como proclama Zeus; mas o que temos de fazer em relação ao sofrimento que é simplesmente “dado” sem nenhum motivo aparente? O que dizer dos desastres naturais, como terremotos ou tornados? E a doença e a morte? De que modo podemos ver tais coisas como “dadas” ou como um dom? E se são dons de Deus, o que dizem sobre Ele?

“A Crucificação”, por Johannes Stradanus.

A forma como respondemos a essas perguntas diz muito sobre nós. O pecador arrependido, sabendo que fez muito para causar dano em si e em outros por sua própria irresponsabilidade e egoísmo, aceitará o sofrimento como dom que lhe é dado para aprender com ele e tornar-se um homem melhor e mais sábio. O pecador impenitente, que não se importa com o que fez nem consigo nem com outros, murmura de seu sofrimento, infligido quer a si, quer a outros, recusando-se a aceitá-lo como oportunidade para crescer em sabedoria e virtude.

Esse cenário é apresentado no Gólgota pelos dois ladrões crucificados ao lado da verdadeira Vítima inocente do sofrimento. O bom ladrão confessa seu pecado e aceita sua justa punição: pede perdão e o recebe. O mau ladrão recusa-se a confessar sua culpa, murmurando de seu sofrimento e exigindo que Deus o liberte. O primeiro ladrão aceita o sofrimento com humildade e é recompensado com o céu, tornando-se um santo no Paraíso. O outro ladrão murmura de seu sofrimento de forma orgulhosa e se condena ao inferno. Os dois sofreram igualmente por seus pecados, mas responderam de forma muito diferente. O sofrimento, portanto, é um dom, e tudo se resume a como o aceitamos.

Essa compreensão do mistério do sofrimento foi resumida de forma concisa e brilhante por Oscar Wilde, no poema Balada do Cárcere de Reading, inspirado em sua experiência de dois anos na prisão. “As leis eternas de Deus são amáveis e quebram o coração de pedra”, disse ele, pois “por onde o Senhor poderia entrar senão pelo coração partido”? Oscar Wilde foi durante muitos anos um pecador impenitente; mas, como o bom ladrão do Evangelho, foi por Cristo recebido na Igreja já em seu leito de morte. É assim que um grande pecador pode tornar-se santo: pela aceitação do sofrimento dado, sabendo que é um dom inestimável que tem o poder de partir o coração soberbo, no qual Cristo enfim poderá entrar para curá-lo.

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Muito antes do “Superman” homossexual...
Sociedade

Muito antes do
“Superman” homossexual...

Muito antes do “Superman” homossexual...

Muito antes de o Super-homem “sair do armário”, nossos problemas começaram quando passamos a praticar uma indiscriminada tolerância para com o pecado de nossos filhos — ou pior: quando abandonamos a própria noção de pecado.

Pedro Penitente27 de Outubro de 2021Tempo de leitura: 4 minutos
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[Este texto não é de autoria nem do Pe. Paulo Ricardo nem da Equipe Christo Nihil Praeponere, como se pode depreender do tom bastante pessoal com que foi escrito.]

Minha avó foi uma dessas pessoas que se converteu na idade adulta. Quando passou a conhecer a fundo a doutrina da Igreja, já havia criado todos os filhos. Por isso, na adolescência deles, se angustiou muito com a vida de pecado que levavam.

Seu filho mais novo, por exemplo, começou a namorar muito jovem e, como os demais de nossa época, tinha uma vida sexual ativa com a própria namorada. Minha avó sabia e não deixava de o advertir: dizia que aquilo estava errado, que aos olhos de Deus eles estavam no pecado etc. Seus conselhos, no entanto, só encontravam ouvidos moucos.

Um dia, porém, na sala da casa dela, meu tio decidiu estender um colchão em frente à TV, para ele e a namorada deitarem. A ideia era só essa mesma, e nada aconteceu além disso. Mas minha avó não podia deixar aquilo passar. (A essa altura, nem é preciso dizer que, para ela, era simplesmente impensável permitir que seu filho e a namorada dormissem juntos dentro de sua casa. Isso não era sequer uma hipótese.)

Voltando à história. Depois que a namorada de meu tio já tinha saído, minha avó e meu avô chamaram o meu tio num canto e lhe disseram o seguinte: “Olha, meu filho, nós já lhe dissemos várias vezes que não está certo o jeito que você e sua namorada estão namorando… Vocês estão fora da lei de Deus e nós sabemos disso. Mas dentro da nossa casa nós exigimos respeito. Nunca mais faça o que você fez hoje.”

Minha avó e meu avô nunca mais precisaram tocar no assunto. À época, meu tio continuou namorando errado — mas na casa dela os limites estavam bem claros. 

* * *

Lembrei-me dessa história hoje, enquanto lia o triste episódio da retaliação que sofreu um jogador brasileiro de vôlei por protestar contra o Superman “bissexual” nas histórias em quadrinhos. A única coisa que ele fez foi publicar um print da notícia em sua rede social, com o seguinte comentário: “A [sic] é só um desenho, não é nada demais. Vai nessa que vai ver onde vamos parar…”. Como resposta a sua manifestação, o clube onde ele joga decidiu afastá-lo, multá-lo e ainda pedir uma retratação pública de sua parte.

O episódio é lamentável porque ilustra muito bem o clima ditatorial em que nos encontramos. Não é mais permitido às pessoas ter e manifestar uma opinião diferente da que é propagada pela mídia e pelas instituições em geral. Qualquer mínima divergência é imediatamente recriminada, punida, silenciada.

O caso em questão diz respeito diretamente a nós, que seguimos Nosso Senhor Jesus Cristo e a doutrina moral católica. A Bíblia, por exemplo, está repleta de passagens condenando a prática homossexual. Vão censurar também a ela? Até quando os cristãos e suas posições terão lugar no “Admirável Mundo Novo” que está sendo forjado por nossos magistrados, jornalistas e engenheiros sociais?

* * *

Ao mesmo tempo, porém, “o buraco é mais embaixo”, como se costuma dizer. A um primeiro olhar, a história que contei de minha avó não tem nada a ver com o caso do “Super-homo”. 

Mas a verdade é que o problema que estamos examinando tem bem pouco a ver com a homossexualidade e seus praticantes. O grande mal mesmo começa lá atrás, quando os cristãos começaram a praticar uma indiscriminada tolerância para com o pecado de seus filhos. Pior: quando começaram a abandonar a própria noção de pecado. 

Primeiro foram as novelas, que introduziram em nossas casas o divórcio e a ideia de que não é preciso casar para se relacionar sexualmente com outra pessoa. A tudo isso nossos antepassados assistiram impassíveis, permitindo que as imagens nas telas penetrassem a mente de seus filhos para sempre. Eis a educação que a maior parte de nossas gerações passadas recebeu.

Depois vieram os programas indecentes de domingo à tarde, uma pornografia soft, destinada a educar os homens para a “sacanagem” e as mulheres para a completa imodéstia no vestir. Também contra isso, nossos pais nada falaram. 

Agora temos a internet, e o que antes se ministrava em gotas se converteu numa verdadeira enxurrada. Depois de toda a dessensibilização moral que sofreram nossos antepassados, agora um pai de família não consegue nem mesmo “torcer o nariz” para um herói dos quadrinhos que decidiu “sair do armário”.

É claro que, no meio de tudo isso, há vários outros fatores em ação, como nosso sistema educacional falido, repleto de ideias progressistas e irreligiosas; o abandono da moral católica por grande parte do clero; e uma virulenta ocupação de espaços e postos de poder por pessoas que, literalmente, se crêem acima do bem e do mal.

A primeira pedra que rolou lá em cima, porém, e deu origem a toda essa avalanche, foi justamente o abandono da sadia moral católica. Porque nos fechamos muito tempo atrás à Palavra de Deus, que estabelece na própria natureza das coisas o que é certo e o que é errado, agora nossas mãos estão atadas diante dos poderes deste mundo, que tomaram o lugar de Deus e determinam agora, a seu bel-prazer, o que é bom e o que é mau, o que se pode dizer e o que não se pode.

Antes do Superman, portanto, muita água já passou debaixo da ponte. Você mesmo talvez tenha escutado a história de minha avó e achado um exagero a reação dela à “aventura” do meu tio… Mas eram atitudes como a dela que nos impediam de chegar ao estado em que nos encontramos hoje.

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“Se é um símbolo, que se dane”
Doutrina

“Se é um símbolo, que se dane”

“Se é um símbolo, que se dane”

Para os protestantes, a Eucaristia é apenas um “símbolo” de Jesus, uma “representação” da Última Ceia, um “teatro” piedoso. Mas qual seria, então, a “grande coisa” a respeito deste sacramento? O que de mais haveria nele?

Equipe Christo Nihil Praeponere27 de Outubro de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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Se há uma coisa em que os protestantes são praticamente unânimes é a certeza de que os católicos somos idólatras. Mas não simplesmente por causa do culto aos santos e à Virgem Maria, como poderíamos pensar num primeiro momento. A principal “idolatria” de que somos culpados, e que eles não toleram, é o culto de adoração ao sacramento da Eucaristia.

Desta acusação porém não temos com o que nos defender, senão com o que disse o próprio Jesus a respeito de seu Corpo e de seu Sangue, que Ele nos daria como alimento: “Minha carne é verdadeira comida e meu sangue é verdadeira bebida” (Jo 6, 55). No discurso sobre o pão da vida, Nosso Senhor não fez uma parábola. Quando disse que todos deveriam consumir a sua carne, usou o verbo “comer” — que São Jerônimo verteu para o latim manducare, “mastigar”. Os discípulos mesmo compreenderam o “escândalo” daquelas palavras. Justamente por isso, dali em diante, muitos deixaram de o seguir (cf. Jo 6, 66). 

Na Última Ceia, com os Apóstolos, fiel ao que havia dito, não deixou mais uma vez a mínima margem a dúvidas: “Isto é o meu corpo” e “Este é o cálice do meu sangue” — e não: Isto simboliza o meu corpo, ou: Este líquido representa o meu sangue.

Também São Paulo, ao narrar o modo como os cristãos já celebravam os santos mistérios, disse transmitir simplesmente o que ele mesmo recebera (cf. 1Cor 11, 23). Ajuntou ainda que quem comesse e bebesse daquele pão e daquele cálice sem distinguir o Corpo e o Sangue do Senhor, estaria a comer e beber a própria condenação. Ora, se os elementos da Eucaristia fossem meros “símbolos”, por que uma pena tão grave — o inferno! — a quem deles abusasse?

São Justino, mártir do século II, foi ainda mais enfático ao descrever a Santa Missa. Sobre o momento da comunhão eucarística, ele dizia:

Em seguida, ao que preside aos irmãos é trazido pão e um copo de água e de vinho; tendo-os recebido, ele louva e glorifica ao Pai pelo nome do Filho e do Espírito Santo, e dá graças abundantes por estes dons dele recebidos. Depois que ele terminou as preces e a ação de graças, o povo todo aclama: Amém, que na língua hebraica é o mesmo que Assim seja. Pois bem, depois que aquele que preside terminou as preces e a ação de graças, e povo todo aclamou, os que entre nós são chamados diáconos distribuem a cada um dos presentes e levam aos ausentes o pão, o vinho e a água sobre os quais se deram graças… E não os tomamos como pão comum nem como bebida comum, senão que, assim como o Verbo de Deus feito carne, Jesus Cristo, nosso salvador, teve carne e sangue para a nossa salvação, assim também nos ensinaram que aquela alimentos — sobre os quais, pela prece que contêm as palavras dele, se deram graças e pela qual nosso sangue e nossas carnes, pela mutação, são nutridos —, são a carne e o sangue do mesmo Jesus encarnado (Apologias I 65-66: PG 6, 427-430; J 128s).

Só com as referências acima fica muito nítida a continuidade na doutrina eucarística da Igreja, e ela se verifica ainda nos primeiros anos da história cristã, mostrando que se trata de uma doutrina apostólica, antiquíssima, original. A acusação protestante de que idolatramos um “pedaço de pão” e um “cálice de vinho” não tem, pois, fundamento algum. Não é que prestemos culto de adoração a elementos inanimados; nós adoramos a Deus presente neles, pois Ele mesmo disse que ali estaria quando seus Apóstolos, repetindo o que Ele fez, dissessem suas palavras.

As coisas estão invertidas, portanto: não somos nós os idólatras; são os protestantes que estão em dívida com Deus, por não obedecer à doutrina eucarística por Ele estabelecida dois mil anos atrás.

Para eles, a Eucaristia é apenas uma “representação”, um “teatro” piedoso. Mas qual seria então a “grande coisa” a respeito deste sacramento? O que de mais haveria nele?

A escritora norte-americana Flannery O’Connor, católica, compreendera bem essa interrogação e fez questão de expô-la, certa vez, em um jantar com protestantes:

Certa vez, cinco ou seis anos atrás, alguns amigos me levaram para jantar com Mary McCarthy e seu esposo, o senhor Broadwater. (Ela escreveu aquele livro, A Charmed Life.) Deixou a Igreja aos 15 anos e é uma grande intelectual… Eu não havia ainda aberto minha boca, não me havendo em tal companhia nada que dizer. As pessoas que me levaram foram Robert Lowell e sua agora esposa Elizabeth Hardwick. Ter a mim ali presente era como ter um cachorro que, tendo sido treinado para dizer umas poucas palavras, acabou vencido pelo desconforto e as esqueceu. Bem, quase de manhã a conversa se voltou para a Eucaristia — que eu, como católica, obviamente deveria defender. A senhora Broadwater disse que, quando era criança e recebeu a Hóstia, pensara nela como sendo o Espírito Santo, por ser a pessoa “mais portátil” da Trindade; agora, ela pensava nela como um símbolo — e um muito bom, ela sugeria. Eu disse então, com uma voz bem trêmula: “Bem, se é um símbolo, que se dane” [Well, if it’s a symbol, to the hell with it]. Essa foi toda a defesa de que fui capaz, mas percebo agora que isso sempre será tudo que terei a dizer a esse respeito, fora de uma história, além de que esse é o centro da existência para mim; todo o resto da vida é prescindível.

As palavras desta mulher podem parecer fortes e até exageradas e desnecessárias, mas elas vão ao núcleo da nossa fé. O pão com que o povo de Israel fôra alimentado no deserto, por exemplo, caía literalmente do céu; não sem razão foi chamado pelo Autor Sagrado “pão dos anjos” (cf. Sl 77, 25). Ora, se a Eucaristia não passasse de um “símbolo” — como queria a interlocutora de Flannery O’Connor e como querem ainda hoje as denominações protestantes —, como não dizer que o antigo alimento mosaico era muito superior a ele? Não tinha dito o próprio Cristo, porém, ser Ele o verdadeiro “pão da vida”, do qual o maná não era senão uma figura? Os protestantes, com sua falta de fé eucarística, não terminam rebaixando, na prática, o Novo Testamento, a Nova Aliança?

São esses os verdadeiros questionamentos que precisam ser feitos. Nós católicos somos, de fato, ousados em nossa devoção eucarística e não tememos ser chamados de idólatras por isso. Mas ao nosso lado está o testemunho inequívoco das Escrituras e da Tradição ao longo dos séculos. Os protestantes, ao contrário, o que têm?


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Querem tirar o “sexo” das certidões de nascimento!
Sociedade

Querem tirar o “sexo”
das certidões de nascimento!

Querem tirar o “sexo” das certidões de nascimento!

Segundo associação médica dos Estados Unidos, informar o sexo dos bebês em um documento público perpetuaria “uma visão segundo a qual a designação do sexo é permanente, além de não reconhecer o espectro médico da identidade de gênero”.

Thomas GriffinTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere25 de Outubro de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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Recentemente, nos Estados Unidos, a American Medical Association House of Delegates (uma espécie de corpo legislativo da AMA, “Associação Médica Americana”) publicou uma declaração pedindo que “sexo” seja removido das certidões de nascimento como designação legal. Sandra Fryhofer, presidente do conselho da AMA, afirmou: “Designar o sexo masculino ou feminino nas certidões de nascimento e tornar pública essa informação implica perpetuar uma visão segundo a qual a designação do sexo é permanente, além de não reconhecer o espectro médico da identidade de gênero”. 

Na mesma declaração, a AMA pede que o sexo só “seja visível para uso médico e estatístico”. 

Claramente, o mundo da medicina parece ter-se tornado esquizofrênico. É irracional afirmar que o sexo é baseado na ciência e, ao mesmo tempo, que os sentimentos de uma pessoa podem superar a ciência. Estão esquecendo a realidade do sexo e como ela revela aquilo para o que foi feita a pessoa humana. A permanência é temida por nossa cultura porque leva ao sacrifício. Porém, a negligência do sacrifício conduz a relacionamentos sem amor e a vidas frustradas.

São João Paulo II.

Em setembro de 1979, o Papa São João Paulo II deu início às suas catequeses de Teologia do Corpo durante suas audiências gerais. Desse modo, iniciou um movimento de reconhecimento da santidade da pessoa humana enquanto descrevia o modo como o corpo revela nossa natureza. — Quem sou eu? Por que estou aqui? Como descrever a conexão entre meu corpo e minha alma? Como posso ser realmente feliz nesta vida?

As palavras dele tratam do sexo, mas também realçam o fato de que a ação sacrificial é a chave para a realização humana. O mundo atual é um parque de diversões para homens e mulheres que declaram poder ser quem quiserem e fazer o que bem entenderem. A liberdade sem limites é proposta como chave para destravar a verdadeira felicidade e realização das pessoas. A imposição da ética sexual contemporânea (a saber: quando se trata do corpo humano, não há certo e errado) é combatida da forma mais bela e pungente pela descrição que o Santo Padre faz do amor como dom de si. 

Aqui o Papa se inspirou em sua leitura de São João da Cruz e foi revigorado pelas palavras da Gaudium et Spes a respeito da identidade da pessoa humana, cujas raízes residem no fato de ela ter sido criada à imagem de Deus. João da Cruz explicou que os seres humanos só conseguem encontrar a verdadeira felicidade e realização quando reconhecem e vivenciam seu relacionamento com Deus como “um ciclo de mútua doação” [1].

“Esta semelhança torna manifesto que o homem, única criatura sobre a terra a ser querida por Deus por si mesma, não se pode encontrar plenamente a não ser no sincero dom de si mesmo” (Gaudium et Spes, 24). A espiritualidade de João da Cruz e essa afirmação do Vaticano II formaram a expressão e o fundamento da forma como João Paulo II compreende a pessoa humana.

Numa luta por apagar tudo o que faça referência à ideia de permanência, nossa cultura — e agora a AMA — deseja erradicar algo que está literalmente escrito em nossos corpos: o sexo. A tentativa de fazer isso tem a ver com a má interpretação daquilo que nos faz felizes e com a sobreposição de nossos sentimentos à nossa capacidade de nos sacrificar.

O ato conjugal é por natureza destinado a personificar a natureza radicalmente bela do amor sacrificial. Esse sacrifício acontece na relação sexual (na completa doação do corpo e da alma ao cônjuge), mas os esposos também são chamados a vivê-lo em todos os momentos de seu casamento (lavando a louça, cuidando dos filhos, permanecendo num emprego desagradável etc.). O sacrifício é necessário por causa daquele que nos criou e por causa de quem é Deus

A Trindade é o exemplo mais perfeito e excelente de amor, e como a pessoa humana é feita “semelhante a Deus”, só podemos nos realizar quando nos doamos de forma sincera. Por natureza, Deus dá de forma incondicional, por perfeito amor e em perfeita comunhão. Por essa razão, o amor deve ser permanente.

O sacrifício pode ser posto em prática no matrimônio (e deveria sê-lo), mas somos chamados a viver dessa firme atitude em relação a todos os que conhecemos — do chefe irritante no trabalho ao vizinho que sempre parece ser rude, e do sujeito que nos ultrapassa na estrada à pessoa no mercado cuja grosseria fica aparente a todo momento. Sacrifício significa que jamais podemos tratar alguém de um modo menos digno do que essa pessoa merece. Sua natureza humana implica que ela seja tratada com o devido respeito, e sim, com amor. 

Isso é observado de modo intenso no ato que gera novas vidas, mas também deve ser vivido fora do quarto. O amor entre marido e mulher é tão grande que, quando praticam o ato conjugal, participam da criação de uma nova pessoa com uma alma imortal. Homem e mulher fornecem a matéria, enquanto Deus infunde a alma. Nesse ápice da ação humana, vemos a beleza do que acontece quando nos doamos completamente.

O sentido esponsal do corpo (que homem e mulher podem doar livremente e que, ao fazê-lo, encontram seu verdadeiro eu) é personificado pelo fato de esse ato de amor impessoal ser tão grande, que seus efeitos duram para sempre (ou seja, outra pessoa humana é criada). Segundo estatísticas, a maioria dos casais faz uso de contraceptivos, e muitas crianças são concebidas apesar dessa barreira. Apesar de o amor do casal privar-se de algo e não ser plenamente sacrifical, a natureza do ato age não obstante essa carência. 

A natureza profunda da semelhança da pessoa humana em relação a Deus, bem como  o poder incomparável do ato conjugal, exigem uma reverência em relação ao corpo, a qual lhe realça o caráter sagrado. Ao mesmo tempo, a Teologia do Corpo nos leva a realizar sacrifícios por todas as pessoas que conhecemos. Quando fazemos isso (de formas concretas, que até podem parecer mundanas), trilhamos o caminho que conduz à santidade da vida e à alegria definitiva. Portanto, a AMA não entende de modo incorreto apenas a teologia, mas também como nossos corpos revelam quem somos.

Apesar de tantas pessoas se sentirem incompletas e lutarem contra a ansiedade e a depressão, a resposta a todos os nossos desejos reside no Pai que criou o universo, no Filho que deu sua vida por amor e no Espírito Santo que anima a Igreja.

A resposta também está em nossos corpos e na complementaridade entre homem e mulher: fomos feitos para a comunhão com outros e com Deus, e essa união é alcançada por meio de um dom de si sincero de nós mesmos, radical e permanente.

Referências

  1. A expressão, de Michael Waldstein, está contida na introdução que ele escreveu para o livro John Paul II. Man and Woman He Created Them. Boston: Pauline, 2006, p. 29.

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