| Categoria: Espiritualidade

Por que se retrata com tanta crueza a Paixão de Cristo?

Muito antes das cenas sangrentas da Paixão segundo Mel Gibson, os artistas antigos já haviam cuidado de representar com dramaticidade os sofrimentos de Cristo. Mas por que retratar assim, afinal, com tanta crueza, as dores de nosso Salvador?

Neste mês de julho, dedicado ao Preciosíssimo Sangue de Cristo, a pintura acima, intitulada A Flagelação e confeccionada em 1729 pelo espanhol Nicolau Enríquez, pode ser para nós uma excelente fonte de meditação.

Muito antes das cenas sangrentas da Paixão segundo Mel Gibson — que tanto escandalizaram os críticos da "sétima arte" —, os artistas antigos já haviam cuidado de representar com dramaticidade os sofrimentos de Cristo, tudo a fim de impressionar seus espectadores e provocar-lhes a compaixão pela dor divina. O trabalho desses homens, portanto, não era simplesmente a "arte pela arte"; o que faziam tinha um sentido duplamente transcendente, pois superava tanto o ofício que eles dominavam quanto a sua própria existência neste mundo: a intenção de suas obras era revelar Deus e fazer despertar nas pessoas o sobrenatural.

Uma breve descrição deste quadro, fornecida pelo site Google Arts & Culture, pode nos ajudar a reparar em seus detalhes:

Ao centro jaz no solo a figura de Cristo que, humilhado sobre um charco de sangue, mostra suas costas totalmente descarnadas por causa dos numerosos golpes que recebe de uma multidão enfurecida. [...] Contrasta nesta tela a óleo a grande quantidade de personagens em movimento com rostos desfigurados pela ira e gestos violentíssimos, os quais, armados de facas, cilícios de pontas metálicas e correntes, açoitam a Cristo sem piedade. Jesus recebe este castigo com resignação e apenas atina a perguntar, através de uma vírgula que brota de sua boca: Quae utilitas in sanguine mea? ("Qual é a utilidade de meu sangue?"), chamando assim a meditar sobre o sentido da redenção.

Jesus está, portanto, sobre "um charco de sangue", com as "costas totalmente descarnadas", cercado de "facas, cilícios de pontas metálicas e correntes". Trata-se, sem dúvida, de uma cena "de grande intensidade e força emotiva". E qualquer semelhança com as cenas mais perturbadoras de "A Paixão de Cristo" não é mera coincidência.

Mas o que levam em conta esses artistas, afinal, para retratar com tanta crueza e morbidez as estações da Via Crucis?

A resposta deve ser encontrada, em primeiríssimo lugar, nas Sagradas Escrituras, especialmente nas predições do Antigo Testamento sobre o Cristo. Na liturgia da Sexta-feira Santa, a Igreja inteira canta, por exemplo, o Salmo 21, do qual é extraída a seguinte imagem:

Quanto a mim, eu sou um verme e não um homem;
sou o opróbrio e o desprezo das nações.
Riem de mim todos aqueles que me veem,
torcem os lábios e sacodem a cabeça. (v. 7-8)

A coluna vertebral de Cristo exposta no quadro faz-nos lembrar imediatamente de outros versículos deste mesmo Salmo, em que o Autor Sagrado diz: "Meus ossos estão todos deslocados" (v. 15); e ainda: " Eu posso contar todos os meus ossos" (v. 18).

Outra leitura proclamada na tarde da Sexta-feira da Paixão é a do profeta Isaías, também repleta de imagens fortíssimas:

Tão desfigurado ele estava que não parecia ser um homem ou ter aspecto humano [...]. Não tinha beleza nem atrativo para o olharmos, não tinha aparência que nos agradasse. Era desprezado como o último dos mortais, homem coberto de dores, cheio de sofrimentos; passando por ele, tapávamos o rosto; tão desprezível era, não fazíamos caso dele. A verdade é que ele tomava sobre si nossas enfermidades e sofria, ele mesmo, nossas dores; e nós pensávamos fosse um chagado, golpeado por Deus e humilhado! (Is 52, 14; 53, 2-4)

Esses versículos, somados aos relatos históricos dos Evangelhos — que narram a prisão, flagelação, coroação de espinhos e crucificação de Nosso Senhor —, são mais do que suficientes para nos colocar diante dos olhos um verdadeiro quadro de "horrores". Se nos fosse possível "torcer" as Escrituras, por assim dizer, teríamos o Preciosíssimo Sangue de Cristo escorrendo de suas páginas.

Ao longo da história da Igreja, no entanto, algumas pessoas também receberam, em continuidade com o "depósito da fé", revelações privadas sobre a Paixão do Senhor. Esse quadro de Nicolau Enríquez, por exemplo, foi feito a partir da obra La mística Ciudad de Dios, de Maria de Jesus de Ágreda. À parte a santidade de sua vida (Maria de Ágreda é ainda venerável) ou a ortodoxia de seus escritos (que alguns põem em questão), é impossível ler o que escreve essa monja sem se comover:

Por ordem, de dois a dois, o açoitaram com tão inaudita ferocidade que, humanamente, não se poderia cogitar, se Lúcifer não tivesse dominado o ímpio coração daqueles seus agentes.

Os dois primeiros açoitaram o inocentíssimo Senhor com cordas muito retorcidas, duras e grossas, empregando neste sacrilégio toda a raiva de sua indignação, e a força de seus músculos. Estes primeiros açoites cobriram todo o corpo deificado de nosso Salvador de grandes manchas roxas e vergões. Ficou entumecido, desfigurado, com o preciosíssimo sangue à flor da pele.

Cansados estes algozes, entraram em cena os dois seguintes. Com correias duríssimas continuaram a flagelação que abriu as esquimoses e vergões feitos pelos primeiros. O sangue divino rebentou, molhou todo o sagrado corpo de Jesus, salpicou as vestes dos sacrílegos esbirros e escorreu até o solo.

Retiraram-se estes verdugos para dar lugar aos terceiros que se serviram de novos flagelos de nervos de animais, quase tão duros como vime seco. Açoitaram o Senhor com maior crueldade, pois feriam nas próprias feridas que os primeiros tinham feito, e porque eram ocultamente instigados pelos demônios enfurecidos com a paciência de Cristo.

Estando rasgadas as veias do sagrado corpo, e todo ele uma só chaga, não encontraram os terceiros verdugos nenhuma parte sã para abrir outras.

Persistindo nos desumanos golpes, rasgaram a imaculada e virginal carne de Cristo nosso Redentor, caindo no solo muitos pedaços. Em muitos pontos das costas os ossos ficaram a descoberto, manchados pelo sangue, alguns na extensão de um palmo.

Para apagar totalmente aquela beleza que excedia a de todos os filhos dos homens (cf. Sl 44, 3), açoitaram-lhe o divino rosto, os pés e as mãos, sem deixar lugar por ferir, até onde puderam desafogar o furor e ódio que haviam concebido contra o inocentíssimo Cordeiro. O divino sangue correu pelo solo, acumulando-se em diversas poças.

Os golpes que lhe deram nos pés, nas mãos e na divina face, foram extremamente dolorosos, por serem estas partes mais nervosas, sensíveis e delicadas. A venerável face ficou entumecida e chagada até cegar os olhos pelo sangue e pelo inchaço. Além de tudo isto, cobriram-na de cusparadas imundíssimas que lhe lançaram juntamente com os golpes, fartando-o de opróbrios.

O número exato dos açoites recebidos pelo Salvador foi cinco mil cento e quinze, desde a planta dos pés até a cabeça. O grande Senhor e autor de toda a criatura, impassível por sua natureza divina, na condição de nossa carne ficou, por nosso amor, transformado em homem de dores, conforme a profecia de Isaías (53, 3), bem capacitado na experiência de nossas enfermidades, o último dos homens, reputado pelo desprezo de todos. [1]

É interessante como essas minúcias coincidem com as revelações de mesma natureza recebidas pela Beata Anna Catarina Emmerich — das quais Mel Gibson lançou mão para filmar "A Paixão de Cristo". Ainda que não devam necessariamente ser aceitas como de fé católica, o Catecismo esclarece, com sabedoria, que "o sentir dos fiéis sabe discernir e guardar o que nestas revelações constitui um apelo autêntico de Cristo ou dos seus santos à Igreja" (§ 67). Artistas como Mel Gibson e como Nicolau Enríquez, inspirados por esse " sentire cum Ecclesia", souberam fazer muito bem, com as obras que produziram, um verdadeiro chamado à conversão e à penitência. Se este não for um "apelo autêntico de Cristo" à sua Igreja, especialmente nestes tempos tenebrosos que atravessamos, nenhum outro é.

Por que retratar com tanta crueza, então, a Paixão de nosso Salvador? Em primeiro lugar, porque foi assim que tudo aconteceu. As Escrituras o atestam e as palavras dos místicos o confirmam, não há por que duvidar.

Uma segunda razão precisa ser levada em conta, porém, e ela diz respeito a nós. É conveniente contemplarmos Jesus assim, sobre "um charco de sangue" e com as "costas totalmente descarnadas", para nos lembrar a gravidade do nosso pecado. Sim, porque foram os nossos pecados — os pecados de todos os homens, de todas as épocas —, os meus pecados — as faltas que eu tenho cometido —, a causa de tanto sofrimento; a causa de o Sangue de Deus ter sido tão abundantemente derramado!

E, se é assim, se Cristo morreu de forma tão terrível — como Nicolau Enríquez pintou ou como Mel Gibson dramatizou —, então os nossos pecados têm uma dimensão que ainda não somos capazes de precisar adequadamente. Se foi por causa de nossas blasfêmias, de nossas impurezas e de nossa preguiça que morreu Jesus… em que grande erro incorrem aqueles que tratam o pecado como uma trivialidade! Se o preço de nossa libertação é o Sangue caríssimo de um Deus — de dignidade infinita —, com que cuidado deveríamos evitar o pecado e com que lágrimas de arrependimento não deveríamos chorar os que já cometemos! Se as carnes de Cristo foram arrancadas para nos salvar, a ponto de deixar expostos os seus ossos…!, com que cuidado não devemos zelar por conservar a nossa alma em estado de graça! Sic nos amantem — canta um hino de Natal — quis non redamaret? A quem nos amou tanto assim, como não amar de volta?

Seja este, portanto, o nosso principal objetivo nesta vida: corresponder ao amor apaixonado de Deus, que chega a fazer-se homem e derramar o próprio Sangue para ver-nos consigo, um dia, no Céu. Se até aqui temos sido inconstantes na vida da graça, mornos em nossa conduta, relapsos em nossos exames de consciência, é hora de reagirmos! Ouçamos enfim a voz do Sangue mais eloquente que o de Abel (cf. Hb 12, 24), e clamemos por misericórdia:

Sangue de Jesus, manando abundante na flagelação,
salvai-nos!

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referência

  1. Soror Maria de Ágreda. Mística cidade de Deus (trad. brasileira de Irmã Edwiges Caleffi), t. 3, l. 6, c. 20, n. 1339-1340. 2. ed. Ponta Grossa, Mosteiro Portaceli, 2000, p. 353.

| Categoria: Santos & Mártires

A Primeira Comunhão de Santa Maria Goretti

Preocupada tão somente com a presença do seu grande Senhor, Maria Goretti, com 10 anos, fez a sua Primeira Comunhão verdadeiramente como uma “santa”.

No dia 16 de julho do ano de 1901, Maria Goretti fazia a sua Primeira Comunhão.

Candura de um lírio que abre sua corola ao primeiro beijo do sol, dia de íntima união no amplexo divino, é assim que nos representamos o primeiro encontro de Maria com Jesus Sacramentado.

Sua Primeira Comunhão não foi, como para outras suas colegas, um rápido contato com Deus, que apenas de leve roça a superfície da alma. O luxo que pela única vez aparentava, as rendas e o vaporoso véu de pequenina esposa de Jesus não lhe tolhiam o recolhimento. Preocupada tão somente com a presença do seu grande Senhor, ela fez a sua Primeira Comunhão como uma " santa", afirma D. Assunta.

Nunca como naquele dia sentiu o vazio das riquezas, dos prazeres e das atrações terrenas. Nunca como naquele dia sentiu a imperiosa necessidade de só firmar-se em Deus, única realidade inabalável e imensa. E a resolução de repudiar todas as lisonjas do mundo com seus encantos sedutores nasceu, naquela alminha, espontânea e decisiva.

"A pureza acima de tudo e a fidelidade às três Ave Marias" diárias, constituíram os temas das exortações que precederam a grande solenidade; "e foi isso um desígnio do Céu, diz Mons. Signori, para que a menina progredisse e se firmasse ainda mais no exercício da virtude angélica, pela qual daria, dentro em breve, a vida".

O recolhimento de Marieta era visível. Quando, depois da Comunhão, as crianças se reuniram na sacristia para agradecer ao sacerdote celebrante, ela se conservou tranquila e silenciosa, isolada num canto, toda absorvida no seu Deus. Manteve-se assim o dia inteiro, completamente alheia aos brinquedos dos irmãozinhos, deixando transparecer do seu rosto um contentamento inigualável.

"Tão somente cinco vezes, diz Mons. Signori, a piedosa menina teve a ventura de receber no seu coração ao Deus de amor e de pureza: a primeira a 16 de junho de 1901; a segunda, pouco depois, no Santuário de N. Sra. das Graças, protetora de Nettuno; a terceira na Páscoa de 1902; a quarta na Igreja de Campomorto; a quinta na hora da morte."

A Primeira Comunhão vem marcar uma nova etapa na vida de Maria. "Verá que daqui em diante serei melhor", dissera à sua mãe; os fatos provariam com que seriedade fizera aquela promessa. Já tão amorosa e serviçal em casa, começou a prodigar sua dedicação também aos vizinhos, grandes ou pequenos. Sempre diligente em aliviar o trabalho e as fadigas do próximo, com graça e desembaraço, desfazia as brigas que nasciam entre irmãos e colegas na hora dos folguedos, ou amainava as tempestades que os vizinhos levantavam porque uma galinha andava ciscando nas sementeiras ou porque os pequenos pisavam na horta.

Dedicada até o sacrifício, tudo fazia sem alarde, aparentemente como a coisa mais natural, na realidade movida pela caridade sobrenatural. Discreta, sabia dissimular aquilo que a caridade exigia encoberto; jovial e amável nas horas de recreio, atendia a todos como a mãezinha daquele bando de crianças.

Era, porém, junto aos doentes que a sua dedica­ção revelava-se admirável. Visitava-os com frequência e tratava-os como a mais suave irmã, servindo-os até nas mais humildes tarefas. Quantas vezes lhe foi dado ver no olhar comovido dos pobres enfermos a gratidão sincera dos humildes! Se "a maior prova de amor é sacrificar-se por aquele que se ama", Maria dava essa prova.

Pela manhã levantava-se muito cedo, junto com a mãe, e, depois das orações costumeiras, arrumava a casa, despertava os irmãos, preparava-lhes roupas e comida. Em seguida, desempenhava-se nas obrigações diárias. Era notável o seu espírito de mortificação nas coisas naturais: não tinha olhos, ouvidos, gostos e desejos senão para os deveres de casa e para suas devoções de igreja. O tempo disponível empregava-o em trabalhos úteis, e, quando cansada do dia cheio, tomava o merecido repouso, ajoelhava-se com os irmãos aos pés da cama, para as orações da noite. Inú­til dizer que aí o querido papai era sempre relembrado.

Seus princípios de ascética não iam além dos mais simples e comuns da vida cristã. " É preciso fazer isto, porque é nosso dever: é vontade de Deus. Não devemos fazer aquilo, porque é pecado; desagrada a Jesus." Era esse o eixo de toda a sua vida sobrenatural em que fôra educada e em que educava também seus irmãos. "Agora que receberam a Jesus, costumava dizer-lhes, devem ser sempre muito bonzinhos."

Não lhe faltavam, de certo, defeitos naturais, próprios da sua idade: impulsos que era preciso reprimir, indolências para despertar, inclinações para orientar. Mas o que a caracterizava era o apego a seus deveres e à lei de Deus resumido neste heróico lema: antes a morte do que o pecado.

E não eram palavras vãs. Sabia que o demônio procura infiltrar-se nos corações através de coisas aparentemente sem importância, até chegar a dominar a alma e desviá-la de Deus. Vigiava, pois, para conservar aquela pureza, que repele com energia as menores culpas e os menores defeitos.

Acima de tudo, cultivava o amor pelo seu Jesus. Sentia-se cheia desse fogo sobrenatural, que o Senhor trouxe à terra. Não eram transportes místicos, quais encontramos nas vidas dos grandes santos, e, sim aquele amor simples e cândido de uma criança privilegiada, que sabia repetir, mais na prática do que com as palavras, a maravilhosa expressão de S. Pedro: "Mestre que tudo sabeis, vós sabeis também quanto eu vos amo!"

[...]

A assistência à Santa Missa aos Domingos e dias de guarda criava muitas vezes para a família Goretti um sério problema. Nem sempre havia Missa em Ferriere e era preciso ir a Campomorto, ou mesmo até Nettuno. O sol abrasador do verão, ou então, castigados pela gélida ventania dos meses de dezembro e janeiro, sem falar nas chuvas torrenciais da primavera e nas penetrantes garoas do outono, tornavam a viagem mais penosa e até mais longa.

Ainda assim, Maria nunca faltava, a todos edificando, não só pelo seu bom comportamento na igreja, senão também quando a caminho dela. É do Reverendo Pe. Miguel Faina, Passionista, o seguinte depoimento: "Indo à Missa dominical na capela de Campomorto, e passando diante de rapazes que costumavam atirar gracejos às moças que entravam na igreja, a menina corava ouvindo lisonjear sua beleza. Não lhes dava, porém, a menor atenção; caminhava rapidamente, sem imitar suas colegas, que tanto se agradavam com tais cumprimentos."

Levava, geralmente, pela mão um ou outro de seus irmãos, com quem rezava durante o tempo do Santo Sacrifício. " Sempre pontual, era a primeira a entrar e a última a sair." Mantinha tal recolhimento e fervor que as próprias comadres, sempre dispostas a comentar a vida alheia, admiravam-na, e, não a conhecendo, indagavam de onde vinha aquele anjo de menina.

Nem era só para ouvir Missa que procurava a igreja. Agradava-lhe também assistir às cerimônias litúrgicas e aos sermões do seu vigário que entendia à perfeição. Assim é que, numa Sexta-feira Santa, após o Sermão das "Três Horas de Agonia", repetiu­-o em seus pontos principais à mãe e aos irmãozinhos, não poupando lágrimas e suspiros.

Sentia-se principalmente atraída a visitar Jesus Sacramentado. A Primeira Comunhão deixara-lhe tais saudades que, por vezes, enfrentava uma viagem de duas horas a pé, tão somente para saciar sua sede de amor pelo Divino Prisioneiro.

Evitando toda distração, concentrava-se para ouvir a voz de Deus. Como quiséramos conhecer os suaves colóquios dessa pequenina esposa de Jesus, em lua de mel. Que propósitos de fidelidade teria ela confiado ao Coração adorável do seu Divino Esposo?


Do livro Santa Maria Goretti, mártir da pureza, do Pe. J. C. M. Colombo,
2. ed. Paulinas, 1949, pp. 47-54.

| Categoria: Testemunhos

Como se converteu o assassino de Santa Maria Goretti?

Conheça o testamento espiritual e a história de conversão de Alexandre Serenelli, o homem que matou Santa Maria Goretti.

"Se o grão de trigo não cair em terra e morrer, fica a sós consigo; mas se morrer produzirá muito fruto" ( Jo 12, 24). O grão de trigo contém um germe secreto de renovação e fecundidade. Mas até quando não se desagregar no sulco, permanecerá sozinho na esterilidade. Pelo contrário, uma vez atirado ao solo, e aí apodrecer, retomará a plenitude da vida e produzirá muitos frutos. Porventura, não seriam as palavras do Divino Mestre o mais oportuno elogio da morte trágica de Marieta? Seus restos mortais, dissolvendo·se pouco a pouco no túmulo transformaram-se em fonte de vida. Quantos desalentados encontraram à beira da sepultura dessa jovem mártir o ânimo para as lutas, quantos enfermos a saúde, e, acima de tudo, quantos pecadores a sua regeneração!

A mais impressionante foi, sem dúvida, a do pró­prio assassino. Digna de um Agostinho arrependido, a conversão desse infeliz constitui, ao lado do martírio, a mais fúlgida glória a aureolar a fronte de Santa Maria Goretti. Não será fora de propósito refazer-nos até aquele doloroso dia de 5 de julho de 1902 e acompanhar o pobre Alexandre até os baixios onde se enlameara, para que mais apareça a ação maravilhosa da gra­ça a reerguê-lo até os cimos da regeneração.

Após o crime, Alexandre fechara-se no seu quarto, e jogando o ferro ensanguentado atrás de um caixote, estendera-se na cama, aguardando os acontecimentos. Era esta a atitude dos heróis dos seus romances, quando nada mais lhes restava a fazer…

A chegada dos Carabineiros não o assustou. Não se levantou para recebê-los quando o chamaram, mas preferiu deixar que arroubassem a porta. Isto parecia-lhe mais digno de sua façanha. Foi, então, algemado. Entretanto, os soldados não se arriscaram a levá-lo. A multidão ardia de ódio contra o assassino. Queria linchá-lo a todo custo. Foi preciso, portanto, esperar os socorros da polícia a cavalo. E quando, finalmente, Alexandre apareceu entre os guardas rompeu uma explosão de ira. Entre o agitar-se das foices e dos facões reboavam os gritos de: "Morra o assassino!" Aquele povo parecia uma malta de revoltosos sedentos de justiça, não já os piedosos cristãos que, minutos antes, murmuravam orações. Não foi pequeno o trabalho da polícia, porém, com habilidade e com ameaças, conseguiu abrir caminho e pôr a salvo o criminoso.

No processo o réu demonstrou o mais revoltante cinismo. Confessou friamente o crime, e não se pejou de revelar abertamente suas torpes intenções. Foi, então, pronunciada a sentença:

Os jurados declaram Alexandre Serenelli culpado do homicídio premeditado para conseguir a realização de outro crime… A corte estabelece que seja aplicada a Alexandre Serenelli a pena máxima e o condena à prisão de trinta anos; e à vigilância especial da Pública Segurança por três anos; e à interdição perpétua de todo serviço público.

Em seguida, foi transferido para a cidade de Noto, na Sicília, a fim de lá expiar a pena merecida. O ambiente não parecia o mais propício para resipiscências, e, de fato, os primeiros anos de reclusão não acusaram mudança alguma: sempre o mesmo cinismo e o mesmo desprezo.

Entrementes, o sangue da sua vítima implorava misericórdia. " Quero vê-lo perto de mim no céu", dissera na hora de manifestar publicamente o seu perdão, e aquelas derradeiras palavras continuavam a ecoar diante do trono de Deus como uma súplica infalível.

Certa vez Sua Excelência, Dom Blandini, Bispo do lugar em visita às prisões, manifestou o desejo de avistar-se com Alexandre Serenelli. Levado à cela foi por ele acolhido com a mesma indiferença com que encarava toda espécie de autoridade. Que lhe viria contar esse Padre? Já o imaginava. Ele, porém, não era homem de tremer diante das ameaças do invisível. Assim como desacatara a justiça humana, assim também ele não temia a própria justiça divina… Qual foi, ao invés, a sua admiração quando viu aquele Bom Pastor sentar-se-lhe ao lado, interessar-se por ele, indagar da saúde, da vida que levava na prisão e, ainda, prontificar-se para diminuir-lhe a pena. Como era diferente esse Padre real das vulgaridades com que seus jornais o descreviam! Como lhe calavam na alma aquelas palavras afetuosas! Como feriam aquele coração que nunca experimentara os carinhos maternos.

Ao despedir-se, Sua Excelência deixou-lhe, para distrair-se, algumas publicações católicas, livros e revistas e, também, uma pequena biografia de Maria Goretti. Maria Goretti?! Oh, ele devia conhecê-la muito bem essa menina! Que se diria aí que ele não soubesse! Levado aparentemente pela curiosidade, e mais acertadamente pela graça, abriu então aquele livrinho e começou a ler, de início com displicência, depois com interesse, e depois… depois com o arrependimento a erguer-se impiedoso naquele coração de pedra. Foi na leitura das Epístolas de S. Paulo que o pecador Agostinho encontrou o caminho da conversão. Foi na leitura da vida dos santos que o soldado Iná­cio de Loiola iniciou sua regeneração. E Alexandre Serenelli, que na leitura dos jornais perversos precipitara-se no abismo, avistava, nas páginas que narravam o heroísmo de sua vítima, a escada que o ajudaria a sair das suas misérias. A virtude da pequena mártir fulgurou-lhe em todo o seu esplendor e o crime por ele perpetrado em toda a sua hediondez. Começou, então, a compreender que era realmente "um monstro" e pela primeira vez, depois de longos anos, Alexandre chorou…

É neste momento que ele inicia a subida ao Calvário, em cujo cimo expiará ao lado do Divino Salvador, junto ao Bom Ladrão, todo o horror do seu crime. Dia e noite a lembrança do passado avivava-se-lhe na mente; e o delito, que parecia não ter deixado outro rastro afora o tormento físico da prisão, rasgava-lhe agora na alma um sulco profundo. Ninguém mais o reconhecia. Aquele cinismo revoltante mudara-se em nuvens de tristeza que o deixavam abatido. Não era difícil adivinhar o novo drama que se iniciava naquela pobre alma. A angústia daquele arrependimento deixava suspeitar um desfecho precipitado, e, talvez, teríamos um novo Judas, se uma suave Advogada do céu não lhe arredasse as pedras de tropeço…

Data deste tempo um sonho que veio reanimá­-lo. "Parecia-me estar — conta ele próprio — num jardim cheio de lírios. De repente, vi aparecer Marieta, que, toda vestida de branco, colhia daquelas flores e, passando-as para as minhas mãos, dizia-me: Toma. Eu aceitava-as e assim que as beijava com grande devoção, transformavam-se em chamazinhas cintilantes." E conclui: " Tenho esperança de salvar-me, pois tenho uma Santa no Paraíso que reza por mim."

Não permitia que lhe diminuíssem a culpabilidade. Não, não havia atenuantes. Ele só era o responsável, pois "sabia perfeitamente o que estava fazendo". Por que apelar para discutidas enfermidades mentais derivadas dos parentes? "No dia do crime, insistia, eu estava com pleno conhecimento de tudo."

Não lhe bastava no entanto, arrepender-se e recriminar-se. Sentia a necessidade de uma reparação, de uma confissão pública que o cobrisse de humilha­ções e que exaltasse até o céu a sua vítima. Auxiliado por um companheiro, dirigiu ao mesmo Bispo que o visitara uma carta, em que não sabemos se mais admirar a coragem com que se declara culpado ou o louvor com que enaltece sua vítima. "Detesto — escreve — e abomino um homicídio tão bárbaro, que hoje amargurado lamento, por saber que tirei a vida a uma pobre inocente, a qual até o último momento quis conservar a sua honra, preferindo morrer tão cedo, antes que render-se aos meus vis desejos e cuja resistência me levou a dar um passo tão horrível quão lamentável. Publicamente detesto a minha vil ação e peço perdão a Deus, à infeliz e desolada família da vítima, do enorme pecado que cometi; e espero que eu também poderei obter o perdão, como tantos outros nesta miserável vida o obtiveram… e paz… e até as bênçãos da nobre extinta…"

[...]

O encontro de D. Assunta Goretti e Alexandre Serenelli.

Véspera de Natal do ano do Senhor de 1937.

Trinta e cinco anos são decorridos daquela tarde ensoalhada da Campanha Romana, em que uma camponezinha de doze anos escreveria para sempre o seu nome entre as virgens que acompanham o Cordeiro Divino.

Dia gélido nas terras italianas. O coração do inverno. Em Corinaldo, assim como em todas as aldeias da Itália, as famílias dos lavradores recolhem-se nos estábulos, aquecendo-se com o calor dos animais. Raros transeuntes atravessam as ruas. Só um homem arrasta-se vagarosamente como que alheio a toda essa onda de frio. Cinquenta e cinco anos. Mal vestido. Um tanto curvo. Segue passo a passo para a casa de D. Assunta.

— Quem quer falar com ela? perguntam-lhe.

— Alexandre Serenelli.

D. Assunta não tarda a aparecer. Forte ainda, apesar dos seus setenta anos, o cabelo branco a aureolar-lhe o rosto sulcado de rugas, o pobre homem a reconhece perfeitamente. A cena é rápida. Sem mesmo cumprimentá-la, atira-se-lhe aos pés e suplica:

— D. Assunta, perdoe! Pode perdoar-me?

Não imaginemos cenas romanescas, lutas íntimas a preceder a hora final, o coração a bater violentamente. O povo dos campos é o povo simples e a resposta é igualmente simples.

— Como não perdoar? Perdoou o Senhor. Perdoou-lhe minha filha. Como não hei de perdoar eu?

Na manhã seguinte D. Assunta e Alexandre Serenelli ajoelhavam-se um ao lado do outro, na mesma mesa Eucarística.

[...]

Quando D. Assunta era interrogada no Processo de Beatificação de sua filha se estava disposta a conceder o perdão ao assassino, não hesitou em responder afirmativamente. Mas· o público protestou: "Nós, porém, não lhe perdoaremos". Retrucou, então aquela verdadeira cristã: "E se o Senhor não perdoasse a nós?"

Por que, pois, negar o abraço fraternal a esse filho pródigo, para o qual já nosso Pai Celeste mandou preparar o banquete festivo?


Do livro Santa Maria Goretti, mártir da pureza, do Pe. J. C. M. Colombo,
2. ed. Paulinas, 1949, pp. 90-97.

*

É amplamente conhecido o fim que teve o penitente Alexandre Serenelli. Passando o resto de seus dias "como jardineiro do Convento dos Padres Capuchinhos", na província de Macerata, região das Marcas, o rapaz foi "totalmente integrado na família divina, separado do mundo", e marchou "em passos largos no caminho da regeneração mais completa".

Partiu para a eternidade, enfim, no dia 6 de maio de 1970, deixando à Igreja o seguinte testamento:

Tenho quase 80 anos de idade, próximo a concluir a minha jornada. Olhando meu passado, reconheço que na minha primeira juventude trilhei um falso caminho: o caminho do mal, que me levou à ruína. Vejo através da imprensa que a maioria dos jovens seguem sem se incomodar o mesmo caminho; eu também não me incomodava. Tinha perto de mim pessoas de fé e que praticavam o bem, mas eu não me importava, cego por uma força bruta que me impulsionava para o mau caminho. Fui consumido por décadas por um crime passional que hoje me horroriza a memória. Maria Goretti, hoje santa, foi o anjo bom que a Providência colocou adiante dos meus passos para me salvar. Eu ainda trago no coração suas palavras de repreensão e perdão. Ela rezou por mim, intercedeu por seu assassino. Foram quase 30 anos de prisão. Se eu não fosse menor de idade, teria sido condenado à prisão perpétua. Aceitei o julgamento merecido, admiti a minha culpa. Maria foi realmente a minha luz, a minha protetora. Com sua ajuda, comportei-me bem nos 27 anos de prisão e procurei viver honestamente quando a sociedade me aceitou de volta entre os seus membros. Os filhos de São Francisco, os Frades Menores Capuchinhos das Marcas, com caridade seráfica me acolheram, não como escravo, mas como a um irmão. Moro com eles há 24 anos e agora vejo o tempo passar com serenidade, aguardando o momento de ser admitido à visão de Deus, de poder abraçar meus entes queridos, de estar perto do meu anjo da guarda e de sua querida mãe, Assunta. Aqueles que lerem esta carta, que a tenham como exemplo para escapar do mal e seguir o bem, sempre. Acho que a religião com seus preceitos não é algo que se pode desprezar, mas é o verdadeiro conforto, a única via segura em todas as circunstâncias, mesmo as mais dolorosas da vida. Paz e bem.

Macerata, 5 de maio de 1961
Alexandre Serenelli

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

| Categorias: Política, Sociedade

Uma lição de masculinidade para o nosso tempo

Os Founding Fathers amaram o próximo quando, primeiramente, amaram o “Juiz Supremo”, amaram suas famílias, a natureza humana e seus direitos inalienáveis, e por tudo isso empenharam as próprias vidas.

4 de julho de 1776 é a data em que 13 colônias da América, chefiadas por homens dispostos a perder suas vidas, suas fortunas e sua sagrada honra, puseram fim à tirania de uma coroa corrupta e puderam dar um grito de liberdade e autonomia. A Independência dos Estados Unidos foi conquistada graças a esforços corajosos e viris, o que torna esse feriado americano algo emblemático não somente para os filhos do Tio Sam, mas também para todo o Ocidente — este cada vez mais calejado por causa da febre de pusilanimidade que invadiu a sua cultura.

É questionável se, nos dias de hoje, aqueles homens que assinaram a Declaração de Independência Americana — empenhando, para isso, seus bens mais preciosos — teriam a mesma coragem de lutar e sacrificar-se por um mesmo ideal. A completa ausência de personalidades viris na sociedade contemporânea é um fenômeno espantoso. A ojeriza contra virtudes como força e coragem impregnou-se tanto nos espíritos, que se tornou quase um pecado portar-se de maneira mais masculina. A própria opinião pública faz pressão sobre os jovens para que vivam mais o seu "lado feminino". E o resultado disso se reflete não somente no seu vestuário — cada vez mais fresco —, mas também — e mais gravemente — na sua maneira de lidar com conflitos e decisões sérias.

Vejam, por exemplo, o comportamento dos líderes políticos. Com raríssimas exceções, é praticamente impossível encontrar um que inspire segurança e paternidade. Ao contrário, a esmagadora maioria deles parece mais preocupada com a estética diante das câmeras, com o discurso ambíguo e a imagem de bom mocinho, do que com tomadas de decisões objetivas, ainda que estas venham a desagradar a algum grupo.

É claro que todo esse afrouxamento de caráter não se desenvolveu espontaneamente. Tratou-se de um grave equívoco filosófico e teológico, de cujos resultados muitos grupos sedentos por poder têm se aproveitado.

Em sua Análise sobre o homem, o psicólogo Erich Fromm explica que, no século XVIII, a filosofia de Immanuel Kant desenvolveu uma espécie de "consciência culpada". Esse filósofo alemão, piedoso e escrupuloso que era, retirou a moralidade da ordem do amor para colocá-la na ordem da justiça. E, nessa visão, toda ação humana deve ser absolutamente desinteressada; a moral torna-se um "imperativo categórico", ou seja, um dever social que está acima de qualquer direito: mesmo sob uma ditadura, nenhuma pessoa pode reivindicar algo para si. O que Kant conseguiu produzir, por conseguinte, foi "a mais glacial atmosfera ética jamais proposta ao homem" [2].

Notem: o que rege a coragem de um homem para defender sua vida e a de sua família é o amor e a ordem com que ele ama essas mesmas coisas. Mas Kant condenou o amor, chamando-o de interesseiro. Para ele, os homens devem defender suas famílias não porque as amam, mas porque é seu dever. O homem que defende sua família por amor é entendido pela filosofia kantiana como alguém egoísta. Enfim, Kant separou as virtudes da caridade e da fortaleza. E, como dizia Chesterton, as virtudes separadas umas das outras ficam loucas. Sem o motor do amor, na verdade, todas as demais virtudes, como a fortaleza e a justiça, perdem o seu elã e a covardia toma conta do espaço.

Em sua análise, Fromm adverte que essa condenação do amor em nome do puro dever foi assumida pela cultura ocidental, de modo que as pessoas facilmente deixaram de lutar para se submeterem a uma falsa autoridade superior:

"Não seja egoísta" é uma frase que foi usada para impressionar milhões de crianças, em gerações sucessivas. Seu significado é um tanto impreciso; a maioria das pessoas diria que não se deve ser egoísta, sem consideração ou preocupação com os outros. Na verdade, geralmente quer dizer mais do que isso. Não ser egoísta implica não se fazer o que se quer, desistir de suas próprias vontades em benefício dos que detêm autoridade. "Não seja egoísta", em última análise, tem a mesma ambiguidade que tem no calvinismo. Além de seu sentido óbvio, quer dizer "não ame a si mesmo", mas submeta-se a algo mais importante do que você, a um poder exterior ou à sua interiorização, o "dever". "Não seja egoísta" transforma-se em uma das mais poderosas ferramentas para suprimir a espontaneidade e o livre desenvolvimento da personalidade. Sob a pressão desse slogan, pede-se à gente todo sacrifício e submissão completa. [3]

Não há como ler essas linhas terríveis do psicólogo judeu sem pensar nos efeitos trágicos que essa propaganda demagoga teria causado àquelas 13 colônias americanas, caso seus homens tivessem sido contaminados por tal servilismo. Ao contrário, é porque eles nutriam um sadio amor de si mesmo que puderam defender seus compatriotas da opressão estrangeira. A cultura contemporânea, por outro lado, criou homens passivos e incapazes de qualquer reação viril, porque suas personalidades foram tomadas pelo "amolecimento", pela "docilidade sem virtude", pela "mansidão sem brio", pela "resignação sem mérito" [4]. Em poucas palavras: eles deixaram de ser homens.

A Independência dos Estados Unidos é, sem dúvida, uma lição de virilidade para o nosso tempo. Os Founding Fathers, sim, amaram verdadeiramente ao próximo quando, primeiramente, amaram o "Juiz Supremo" e a "Divina Providência", amaram suas famílias, a natureza humana e seus direitos inalienáveis, e por tudo isso empenharam suas vidas. A medida do amor ao próximo é, afinal, o amor de si mesmo: "Amarás o próximo como a ti mesmo" (Mc 12, 31). Os "pais fundadores" deste tolerante Ocidente, por sua vez, não amam nem o Juiz Supremo, nem suas famílias, nem a natureza humana e seus direitos inalienáveis. Exatamente por essa razão ele se encontra prostrado diante da ameaça terrorista e de tantos outros projetos megalomaníacos de poder global.

"Sê enérgico. — Sê viril. — Sê homem. — E depois... sê anjo" [5]. Talvez nunca esse conselho de São Josemaria Escrivá tenha valido tanto como nos dias de hoje.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Erich Fromm, Análise do homem, 13. ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1983, p. 107-115.
  2. Gustavo Corção, Dois amores e duas cidades, Rio de Janeiro: Agir, 1967, v. 2, p. 86.
  3. Erich Fromm, op. cit., p. 113-114.
  4. Gustavo Corção, op. cit., p. 87.
  5. Caminho, n. 22.

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O caso Charlie Gard e a doença de uma civilização

O mundo moderno precisa urgentemente redescobrir o homem interior para aprender a amar de verdade. Caso contrário, Charlie Gard e sua família serão apenas a primeira vítima de um tribunal insano.

O chocante caso do bebê Charlie Gard, sentenciado à morte pelo Tribunal Europeu dos "Direitos Humanos" contra todos os esforços dos pais para salvá-lo, traz à baila uma questão sobre a qual Gustavo Corção meditava já na década de 1970: qual seria a causa da doença mortal que está destruindo a civilização?

Para o escritor católico, a resposta parecia ser uma só: " O falso amor de si mesmo, que, voltado para as coisas exteriores e para o prazer sensível de sua dominação, nos leva até o esquecimento e o desprezo de Deus" [1]. Bom cristão e filósofo tomista, Corção não buscou uma solução inovadora para um problema que, como qualquer pessoa mentalmente sadia pode perceber, está na sociedade desde o pecado de nossos primeiros pais. Ele apenas observou o mundo a sua volta para certificar-se mais uma vez daquilo que a teologia católica sempre ensinou: o homem, ferido em sua natureza, negligencia a vida interior — a única coisa necessária — para agitar-se com as panelas do fogão; esquece-se do homem interior — e, consequentemente, de Deus — para viver das exterioridades.

O que ocorre, porém, é que esse amor enlouquecido pelas coisas exteriores gera uma desvalorização do próprio homem. Este não vale mais por si mesmo, mas apenas pelo que produz e por seu potencial de satisfação.

A sentença do Tribunal Europeu sobre a situação do pequeno Charlie Gard é um exemplo flagrante disso. Os juízes daquela corte não pensaram nem na alma do garoto nem na sacralidade inviolável de sua vida; consideraram-no apenas do ponto de vista prático da questão: para que serviria um bebê, cuja saúde se encontra gravemente debilitada? Não seria melhor deixá-lo morrer logo para abreviar seu sofrimento? Nesses termos, note-se, a diferença entre um cachorro agonizante na rua e uma criança gravemente enferma na clínica pediátrica é meramente circunstancial. O tratamento dispensado a eles, seja pelo veterinário, seja pelo médico, é exatamente o mesmo. Ambos vão morrer porque não servem para mais nada.

Aliás, é bem possível que em alguns lugares, como no Brasil, por exemplo, os tribunais constranjam o veterinário por certa indelicadeza com o cão (vide o recente caso do ator e chefe de cozinha Rodrigo Hilbert, que está sendo processado por matar uma ovelha e cozinhá-la em rede nacional). À vida humana, por sua vez, nenhum valor será dado senão o do utilitarismo.

Em 1939, o psicólogo judeu Erich Fromm anunciou uma descoberta que, sem dose de ironia, Gustavo Corção chamou de "sensacional". Tratava-se da constatação de que no íntimo do ser humano haveria uma tensão aparentemente irremediável: o cabo de guerra entre o egoísmo (ou amor próprio) e o altruísmo (ou amor ao próximo). Essa tensão, por conseguinte, estaria na base dos conflitos morais e psicológicos gerados no mundo moderno, cujas ideologias ora pendem para os extremos do individualismo e da concorrência selvagem, ora para os coletivismos forçados e campos de concentração. "É espantoso como podem duas doutrinas contraditórias ser ensinadas, uma ao lado da outra, dentro da mesma cultura [...]. E essa confusão é uma das causas mais eficazes do desamparo e do desconcerto do homem moderno", escrevia Fromm em seu artigo para a revista americana Psychiatry [2].

Apesar de Erich Fromm ter tido o mérito de redescobrir a velha antropologia cristã dos dois amores — daí o elogio de Gustavo Corção —, o mesmo psicólogo não pôde, infelizmente, encontrar a solução para o dilema. É aqui então que a sabedoria de Santo Tomás de Aquino, o doutor comum, vale mais uma vez. Em uma das questões de sua Suma Teológica, Santo Tomás trata justamente de distinguir o falso amor de si mesmo pelo verdadeiro amor-próprio:

Costumamos censurar os que se amam a si mesmos quando eles se amam segundo sua natureza sensível, e a ela obedecem. Isto, na verdade, não é o mesmo que amar-se por sua natureza racional, querendo para si os bens que pertencem à perfeição da razão, e é desta maneira que o homem se ama a si mesmo com caridade. [3]

Eis aí a resposta para o problema do mundo moderno: há, sim, um amor sadio de si mesmo com caridade, por meio do qual os homens podem amar também seus irmãos e até seus inimigos. Mas esse amor só pode ser adquirido pela ascese, pelo mergulho profundo na alma, onde habita a Santíssima Trindade, como descobriram Santa Elisabete e Santo Agostinho. Conhecendo-se a si mesmo interiormente, a pessoa humana conhece também a Deus; descobre-se uma criatura ao mesmo tempo miserável e amada pelo Divino Criador. E com esse amor incondicional de seu Senhor, ama seus irmãos por reconhecer neles a imagem e semelhança dAquele Outro a quem tudo deve, inclusive a própria existência.

Quem ousaria negar que o amor de um São Francisco de Assis ou de uma Santa Teresa de Calcutá pelos pobres e enfermos teria outra origem senão a incrível vida de oração e mortificação que ambos levavam no silêncio de seus quartos? Será que os juízes do Tribunal Europeu tratariam o bebê Charlie Gard com o mesmo desprezo se soubessem reconhecer nele o Menino Jesus?

De fato, o mundo moderno precisa urgentemente redescobrir o homem interior para aprender a amar-se verdadeiramente e, com isso, amar os seus irmãos. Caso contrário, Charlie Gard e sua família serão apenas a primeira vítima de um tribunal insano.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Gustavo Corção, Meditações sobre a ruína do mundo, in O Globo (26 de fevereiro de 1977).
  2. Erich Fromm, Análise do homem, 13. ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1983, p. 14.
  3. Suma Teológica, II, II, q. 25, a. 4.

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Ladainha em honra ao Preciosíssimo Sangue de Cristo

Neste mês de julho, especialmente dedicado ao Sangue de Cristo, aprenda a rezar a litania em honra à preciosíssima seiva que nos conquistou a salvação.

O texto desta litania em honra ao Preciosíssimo Sangue de Cristo foi composto pela Sagrada Congregação dos Ritos — hoje, Congregação para o Culto Divino — e promulgada pelo Papa João XXIII no dia 24 de fevereiro de 1960. A sua forma é mais antiga, na verdade, pois textos similares podem ser encontrados em livros de orações do início do século XX. Aos fiéis que a recitarem devotamente concede-se indulgência parcial. Para acessar a versão latina da oração, clique aqui.

Senhor, tende piedade de nós.
Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós.

Jesus Cristo, ouvi-nos.
Jesus Cristo, atendei-nos.

Deus Pai dos céus, tende piedade de nós.
Deus Filho, redentor do mundo tende piedade de nós.
Deus Espírito Santo, tende piedade de nós.
Santíssima Trindade, que sois um só Deus, tende piedade de nós.

Sangue de Cristo, Sangue do Filho Unigênito do Eterno Pai, salvai-nos.
Sangue de Cristo, Sangue do Verbo de Deus encarnado, salvai-nos.
Sangue de Cristo, Sangue do Novo e Eterno Testamento, salvai-nos.
Sangue de Cristo, correndo pela terra na agonia, salvai-nos.
Sangue de Cristo, manando abundante na flagelação, salvai-nos.
Sangue de Cristo, gotejando na coroação de espinhos, salvai-nos.
Sangue de Cristo, derramado na cruz, salvai-nos.
Sangue de Cristo, preço da nossa salvação, salvai-nos.
Sangue de Cristo, sem o qual não pode haver redenção, salvai-nos.
Sangue de Cristo, que apagais a sede das almas e as purificais na Eucaristia, salvai-nos.
Sangue de Cristo, torrente de misericórdia, salvai-nos.
Sangue de Cristo, vencedor dos demônios, salvai-nos.
Sangue de Cristo, fortaleza dos mártires, salvai-nos.
Sangue de Cristo, virtude dos confessores, salvai-nos.
Sangue de Cristo, que suscitais almas virgens, salvai-nos.
Sangue de Cristo, força dos tentados, salvai-nos.
Sangue de Cristo, alívio dos que trabalham, salvai-nos.
Sangue de Cristo, consolação dos que choram, salvai-nos.
Sangue de Cristo, esperança dos penitentes, salvai-nos.
Sangue de Cristo, conforto dos moribundos, salvai-nos.
Sangue de Cristo, paz e doçura dos corações, salvai-nos.
Sangue de Cristo, penhor de eterna vida, salvai-nos.
Sangue de Cristo, que libertais as almas do Purgatório, salvai-nos.
Sangue de Cristo, digno de toda a honra e glória, salvai-nos.

Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, perdoai-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, ouvi-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, tende piedade de nós, Senhor.

V. Remistes-nos, Senhor com o Vosso Sangue.
R. E fizestes de nós um reino para o nosso Deus.

Oremos:
Todo-Poderoso e Eterno Deus, que constituístes o Vosso Unigênito Filho, Redentor do mundo, e quisestes ser aplacado com o seu Sangue, concedei-nos a graça de venerar o preço da nossa salvação e de encontrar, na virtude que Ele contém, defesa contra os males da vida presente, de tal modo que eternamente gozemos dos seus frutos no Céu. Pelo mesmo Cristo, Senhor nosso. Assim seja.

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O marxismo desmascarado por um Papa

Numa época em que a ideologia socialista ainda faz a cabeça de muitos, principalmente nas universidades, foi de um Papa que veio a resposta a um dos problemas fundamentais do marxismo: o materialismo econômico.

Normalmente, não se espera que venha do Papa uma reconstrução completa da história do socialismo desde o fim do século XIX. O Papa Bento XVI brindou-nos, no entanto, com um admirável e necessário lembrete do que foi e ainda é o socialismo, e por que ele deu errado. O que fazer senão render-se à sua capacidade intelectual? Ele discerniu o problema fundamental de que inúmeros acadêmicos têm fugido já há 100 anos.

Ele fez isso, mais ainda, numa época em que a ideologia socialista parece ter resistido intacta ao colapso do experimento comunista. Visite os departamentos de ciências humanas da maioria dos campi universitários, por exemplo, e você ainda encontrará intelectuais elucubrando sobre as glórias da teoria socialista. Os estudantes, por sua vez, ainda são encorajados a pensar que ela possa dar certo.

E a União Soviética? Dizem-nos que não era socialismo de verdade. Que tal o nazismo — a palavra alemã para "nacional-socialismo"? Isso tampouco. E quanto ao crescente empobrecimento de países uma vez ricos e agora com governos social-democráticos? Ou ao fracasso do microssocialismo nos Estados Unidos, onde comunidades inteiras vivendo de subsídios governamentais estão sendo agora castigadas com níveis assustadores de patologia social? Nada disso, eles dizem, é socialismo.

Bento XVI não. Ele quer falar sobre o assunto. O tema se encaixa perfeitamente na sua mensagem de esperança. Devemos esperar, afinal, que a nossa salvação venha de Deus ou de alguma transformação material?

As passagens se encontram em sua excelente encíclica Spe Salvi, de 2007. Ele trata desta virtude cristã fundamental e explica o que são a esperança e a salvação, bem como o que elas não são.

A história está repleta de intelectuais que imaginaram poder salvar o mundo — e como resultado criaram o inferno na terra. O Papa inclui os socialistas entre eles, e Karl Marx em particular. Eis um intelectual que imaginou serem possíveis a salvação sem Deus e a criação de algo próximo ao Reino dos céus na terra, bastando que se ajustassem, para tanto, as condições materiais do homem.

A história, na visão de Marx, não é nada mais do que os choques e desmantelamentos dessas forças materiais. Não haveria algo como uma "natureza humana ordenada". Deus como autor da história certamente não existiria. Tampouco assuntos que seguissem determinadas linhas de moralidade. Somos antes puxados de um lado para o outro por grandes forças impessoais. Mas seria possível submetermos essas forças ao nosso controle, para nosso próprio proveito, se déssemos os passos certos.

E que passos seriam esses, na visão de Marx? As classes trabalhadoras desapropriadas deveriam tomar de volta o que é seu por direito das classes capitalistas exploradoras. Chamem isso de "roubo em massa", se quiserem — o importante seria dominar as forças produtivas da sociedade. De qualquer forma, é nesse rumo que caminharia a história, segundo Marx; só precisaríamos dar-lhe um empurrão na direção certa para que atingíssemos a glória do socialismo. E como isso funcionaria? Bem, Marx nunca chegou a pensar muito nisso. E por que ele deveria? As grandes forças impessoais da história cuidariam de tudo. Seu único trabalho era descrever os grandes eventos que culminariam no ambiente revolucionário. O que viria logo depois não seria tanto uma questão de "ciência burguesa", mas algo que deveríamos aceitar simplesmente com base na fé… a fé de que, em algum lugar, algum dia e de alguma forma, o socialismo começará a funcionar brilhantemente.

Pode parecer bizarro, mas não é tão estranho assim. Olhando para o mundo antigo, vemos que muitos dos maiores intelectuais imaginavam que chegaria um momento em que os problemas de economia — como escassez, propriedade, cálculo e dinheiro — todos desapareceriam, dando lugar à utopia. Alguém poderia dizer que isso não passa de um anseio pelo Jardim do Éden, mas há um fato crítico sendo ignorado: a natureza humana é a mesma agora como sempre foi. Haverá sempre uma necessidade de avançar para além do estado de natureza. O problema econômico é insolúvel. Afirmar simplesmente que um novo mundo irá magicamente surgir traz à tona outras questões cruciais como, por exemplo, como iríamos nos alimentar, nos vestir e abrigar as pessoas.

O Papa Bento XVI sintentiza perfeitamente o problema:

Com a vitória da revolução, porém, tornou-se evidente também o erro fundamental de Marx. Ele indicou com exatidão o modo como realizar o derrubamento. Mas não nos disse como as coisas deveriam proceder depois. Ele supunha simplesmente que, com a expropriação da classe dominante, a queda do poder político e a socialização dos meios de produção, ter-se-ia realizado a Nova Jerusalém. Com efeito, então ficariam anuladas todas as contradições; o homem e o mundo haveriam finalmente de ver claro em si próprios. Então tudo poderia proceder espontaneamente pelo reto caminho, porque tudo pertenceria a todos e todos haviam de querer o melhor um para o outro.

O socialismo não inclui um plano para o mundo pós-revolucionário. Uma vez que os economistas descobriram essa falha central, eles tiraram vantagem disso e mostraram que o socialismo não tinha em mente um sistema nem para resolver o problema econômico fundamental de alocar recursos escassos para necessidades ilimitadas, nem certamente para criar a nova riqueza que seria necessária para sustentar uma população em crescimento.

Mesmo assim, a revolução aconteceu:

Assim, depois de cumprida a revolução, Lenin deu-se conta de que, nos escritos do mestre, não se achava qualquer indicação sobre o modo como proceder. É verdade que ele tinha falado da fase intermediária da ditadura do proletariado como de uma necessidade que, porém, num segundo momento ela mesma se demonstraria caduca. Esta "fase intermediária" conhecemo-la muito bem e sabemos também como depois evoluiu, não dando à luz o mundo sadio, mas deixando atrás de si uma destruição desoladora. Marx não falhou só ao deixar de idealizar os ordenamentos necessários para o mundo novo; com efeito, já não deveria haver mais necessidade deles.

A "destruição desoladora" a que se refere Bento XVI é uma alusão à guerra ocorrida logo após a revolução. Milhões morreram de fome e chacinados. Ficou claro para Lenin que ele deveria recuar, antes que não houvesse mais ninguém a ser governado. Foi o que ele fez — e na hora certa, com a Nova Política Econômica. Mas a ditadura continuou. E, com ela, o empobrecimento maciço da população.

Então, por que Marx nunca explicou como funcionaria o socialismo?

O fato de ele não dizer nada sobre isso é lógica consequência da sua perspectiva. O seu erro situa-se numa profundidade maior. Ele esqueceu que o homem permanece sempre homem. Esqueceu o homem e a sua liberdade. Esqueceu que a liberdade permanece sempre liberdade, inclusive para o mal. Pensava que, uma vez colocada em ordem a economia, tudo se arranjaria. O seu verdadeiro erro é o materialismo: de fato, o homem não é só o produto de condições econômicas nem se pode curá-lo apenas do exterior criando condições econômicas favoráveis.

Assim o Papa colocou os problemas de economia no seu devido lugar: trata-se de um assunto prático que precisa ser resolvido dentro de uma moralidade e de uma antropologia sadias. O socialismo fracassa por uma razão simples e específica: ele não possui um sistema que dê preço aos fatores de produção e que torne o cálculo econômico possível. Os preços advêm da troca entre a mesma propriedade privada e aquilo que o socialismo distribui.

E, mesmo assim, o problema moral com o socialismo é ainda mais profundo: ele exalta o furto como uma ética e ignora o direito humano à liberdade.

Seria muito bom que todos os católicos interessados em economia lessem esta encíclica. Alguns já estão entendendo a mensagem: a Igreja Católica na Venezuela trabalhou duro contra o perigoso plano de Hugo Chávez para a nacionalização e planificação da economia. Um dia, o mundo virá a aprender as lições que a história do socialismo ensinou — e que o Papa emérito Bento XVI com tanta maestria já deixou explícitas.

Por Rev. Robert A. Sirico — Crisis Magazine | Tradução e adaptação: Equipe CNP

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Bebê é sentenciado à morte por Tribunal Europeu dos “Direitos Humanos”

Descubra o que está por trás da sentença de morte do pequeno Charlie Gard, o bebê cuja vida e família foram simplesmente “atropeladas” pela decisão irrecorrível de um tribunal.

A pior ditadura é a do Poder Judiciário. Contra ela, não há a quem recorrer."
(Ruy Barbosa)

Está-se passando no Reino Unido um caso terrível, ao qual os jornais aqui, de forma geral, não deram um pingo de atenção. Mas eles deveriam. Porque, se olharmos bem de perto, podemos enxergar nele o nosso futuro, bem como o nosso presente.

Charlie Gard é um bebê de apenas 10 meses com uma doença rara chamada "síndrome de depleção do DNA mitocondrial". Trata-se de uma condição genética gravíssima, que leva ao mal funcionamento dos órgãos, lesões cerebrais e outros sintomas. O hospital infantil Great Ormond Street, de Londres, sob cujos cuidados estava o garoto, declarou que não há mais nada a ser feito por ele e determinou que fossem desligados os aparelhos que o mantêm vivo. No parecer dos médicos, o menino deveria "morrer com dignidade", mas os pais, Chris Gard e Connie Yates, definitivamente não estão de acordo.

Este é o ponto mais importante a ser entendido: os pais não estão insistindo para que Charlie se mantenha ligado aos aparelhos. O que eles querem é tirá-lo do hospital e levá-lo aos Estados Unidos para ser submetido a uma forma de terapia experimental, e que um médico norte-americano já concordou em ministrar à criança. Chris e Connie conseguiram levantar mais de 1,6 milhão de libras para financiar este último e desesperado esforço para salvar a vida de seu filho. Tudo o que eles precisavam do hospital britânico era a liberação da criança aos cuidados dos pais — o que não parece ser um pedido assim tão absurdo. Eles deixariam o país, então, e tentariam a sorte com este tratamento no exterior: mesmo que fosse pequena a chance de isso dar certo, seria sem dúvida melhor do que simplesmente ficar sentado, assistindo ao seu filho morrer.

É aqui, então, que as coisas se tornam verdadeiramente insanas e barbáricas. O hospital se recusou a entregar Charlie de volta aos seus pais. A questão foi parar na Justiça e, finalmente, o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos acaba de proibir os pais de levarem o seu filho para receber tratamento nos Estados Unidos. De acordo com a sentença, é um "direito humano" de Charlie expirar na sua cama de hospital em Londres; os pais não estão autorizados a tentar salvar a sua vida; faz parte "de seu maior interesse" simplesmente morrer.

Na Europa, a "morte com dignidade" sobrepõe-se a todos os direitos.

Na Europa, uma mãe pode matar o seu filho, mas não pode mantê-lo vivo.

Mais uma vez, trata-se de algo barbárico.

Tenho ouvido muitas pessoas racionalizando essa decisão demente com o argumento de que "os médicos entendem melhor" sobre o assunto. Isso pode muito bem ser relevante e verdadeiro em situações nas quais os familiares tentam forçar os médicos a tratamentos que eles, como profissionais, sabem que não funcionarão. Mas não é isso o que está acontecendo aqui. A única coisa que esses pais estão tentando "forçar" os médicos a fazer é liberar o seu filho, a fim de que ele possa ser levado a médicos diferentes, em um país diferente. Os médicos podem até ser a autoridade final a respeito de que medidas eles pessoalmente tomariam, mas não são a autoridade final sobre a vida em si mesma. Uma coisa é eles dizerem: "Eu não farei este tratamento"; outra bem diferente é eles sentenciarem: "Vocês não estão autorizados a pedir este tratamento a ninguém. A criança deve morrer." A primeira afirmativa é razoável; a segunda é bárbara e chama-se eutanásia.

Tenho visto algumas pessoas nas redes sociais qualificando o caso como "inimaginável" ou "incompreensível". Trata-se certamente de algo terrível, mas infelizmente não foge à minha compreensão nem excede os limites de minha capacidade imaginativa. Esses tipos de casos são inevitáveis na Europa e, a menos que aconteça uma mudança drástica no curso das coisas, em breve se tornarão comuns também deste lado do Atlântico. Já está tudo sendo cuidadosamente delineado nesse sentido. Basta levar em consideração os dois seguintes fatores.

Primeiro, é isso o que acontece quando os direitos dos pais são subordinados ao Estado.

Esse caso trouxe à tona algumas questões de relevância máxima. Quem deve deter a palavra final sobre uma criança? Devem ser os seus pais, ou um grupo de médicos, juízes e burocratas? Se os pais não têm precedência em uma situação que envolva a vida e a morte, que direito eles possuem? Se eu não tenho poder de decisão quando a vida de meu filho está em jogo, que raio de poder, então, realmente me cabe?

Na Europa, é assim que as coisas têm funcionado: um pai pode até ter alguma "jurisdição" sobre as menores minúcias da vida diária de seus filhos, mas, quando se trata das grandes questões — como eles serão educados, como devem levar a vida, em que devem acreditar, quando devem morrer —, é cada vez mais da alçada do Estado determiná-las. Como diz um especialista em "ética médica" de Oxford, os direitos dos pais estão "no coração" das decisões médicas mais importantes, mas "tudo tem limites". Chris e Connie aparentemente atingiram os "limites" de sua autoridade parental e, agora, devem resignar-se enquanto seu filho agoniza até a morte. São esses, observem bem, os tais "limites" a que querem constringir a família. Você é pai até um certo ponto, a partir do qual o relacionamento com seu filho não conta para absolutamente mais nada.

Segundo, é isso o que acontece quando a vida humana deixa de ser vista como algo sagrado.

Qual o problema em levar uma criança aos Estados Unidos para receber tratamento? Pode não funcionar, é claro, mas por que não tentar? Os pais conseguiram levantar dinheiro suficiente para pagar tudo, incluindo uma ambulância aérea para transportar o bebê até a unidade de tratamento. Ninguém está sendo excessivamente onerado aqui. Ninguém está sendo forçado a fazer algo que não queria fazer. Existe alguma coisa a perder?

Olha, respondeu o Tribunal, só não vale a pena o transtorno. Eles analisaram todas as variáveis, usando as suas várias formulações, e chegaram à conclusão de que não faz sentido passar por todo esse transtorno na pequena esperança de salvar a vida de um ser tão "insignificante". Sim, eles usaram a desculpa de que a criança está "sofrendo" — e eu tenho certeza que está —, mas isso não justifica proibir os pais de esgotarem todas as opções possíveis para aliviar o sofrimento do seu filho. Morrer não é um plano de tratamento para o sofrimento. Morrer é morrer. É a destruição da vida. Todos nós vamos experimentar a morte um dia, mas a sua inevitabilidade não anula o valor e a dignidade da vida humana.

Tudo isso se resume, no fim das contas, ao fato de que os poderes vigentes não vêem o valor fundamental da vida. É por isso que você escuta essas pessoas falarem mais frequentemente da "dignidade" da morte do que da dignidade da vida. Eles defendem com unhas e dentes o "direito" de morrer, mas dão de ombros para — quando não militam contra — o direito à vida. As leis na Europa refletem essa ênfase na morte ao invés da vida: lá se matam as crianças nos ventres e, depois que nascem, a eutanásia espera por elas ( sejam doentes terminais ou não). Uma vez que o "direito de morrer" é colocado acima do direito à vida, a morte continua a ganhar terreno e a devorar cada vez mais pessoas. A morte é uma força destrutiva. A que pode mais ela conduzir, senão à aniquilação?

Nós na América não estamos tão mal a este ponto, mas chegaremos lá. Só nos Estados Unidos, já matamos centenas de milhares de crianças no ventre de suas mães, e frequentemente falamos com admiração de pessoas que tomaram a "corajosa" decisão de cometer suicídio. Também nós, em muitas situações, infelizmente colocamos a autoridade do Estado acima dos direitos dos pais. Nosso sistema educacional está construído sobre essa filosofia.

Por isso, eu repito, tudo já está sendo delineado. Prepare-se para o que há de vir. E reze por esses pais que estão perdendo a alma de seu filho para o Estado Leviatã.

Por Matt Walsh — The Blaze | Tradução e adaptação: Equipe CNP