CNP
Christo Nihil Præponere"A nada dar mais valor do que a Cristo"
Evangelize compartilhando!
Todos os direitos reservados a padrepauloricardo.org®
O choro da salmista e a beleza da liturgia
Liturgia

O choro da salmista e a beleza da liturgia

O choro da salmista e a beleza da liturgia

“Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?”, cantou entre lágrimas a salmista Carolina Andrade, que emocionou os católicos neste Domingo de Ramos. O ocorrido nos ajuda a redescobrir a beleza da liturgia e sua importância para nossas vidas.

Equipe Christo Nihil Praeponere9 de Abril de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
imprimir

O cenário era desolador e, ao mesmo tempo, belo. Uma igreja praticamente vazia — o Santuário do Pai das Misericórdias, na Canção Nova —, em pleno Domingo de Ramos, dava o tom para que a salmista, Carolina Andrade, ecoasse o refrão do Salmo 21, com uma emoção cortante: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?” As imagens logo foram espalhadas pelas redes sociais, ganhando o coração dos fiéis que, nestes dias de isolamento, se sentiram unidos àquela prece de dor e clemência.

As circunstâncias impostas pela pandemia da Covid-19 criaram a ocasião perfeita para refletirmos sobre o significado da liturgia católica e a sua influência em nossas vidas, especialmente no que se refere à Santa Missa. Apesar da dimensão fundamentalmente espiritual do culto cristão, há quem não admita a celebração privada da Eucaristia, como se o sacrifício só tivesse valor se celebrado em público. Para o teólogo liberal Massimo Faggioli, por exemplo, as Missas ditas privadamente seriam uma espécie de “onanismo litúrgico”. (Dada a natureza vulgar e, sobretudo, blasfema da comparação, nem nos atrevemos a pensar qual seria a concepção dele para a liturgia com o povo.)

É fato que, após o Concílio Vaticano II, por uma compreensão equivocada da liturgia, a Santa Missa foi reduzida à “celebração de um sinal que correspondesse a um vago sentimento de comunidade” [1]. Com isso se deu permissão a todo tipo de experiências que, no mais das vezes, só serviram para desfigurar a genuína beleza dos ritos e autorizar a arbitrariedade dos liturgistas, quando o próprio Concílio enfatizou que a liturgia deveria contribuir “em sumo grau” para os fiéis exprimirem na vida e manifestarem aos outros “o mistério de Cristo e a autêntica natureza da verdadeira Igreja” [2].

A beleza e a eficácia da liturgia têm sua origem justamente no fato de que ela não é uma invenção humana, mas já “existia antes de que nós tivéssemos participado dela, porque foi iniciada na Santíssima Trindade” [3]. Por isso, adverte o Catecismo, “nem mesmo a autoridade suprema da Igreja pode mudar a liturgia a seu bel-prazer, mas somente na obediência da fé e no respeito religioso do mistério da liturgia” (n. 1125). É apenas porque participamos da vida divina de Cristo que podemos interagir com o sacrifício de adoração, ação de graças, contrição e intercessão da Santa Missa. Ao longo dos séculos, a Igreja cuidou para que a essência desse culto fosse bem vivida através dos ritos de cada tradição litúrgica válida, num desenvolvimento orgânico e espiritual.

A participação na Missa é, por isso mesmo, uma ação pela qual o homem deve empenhar todo o seu ser, corpo e alma, na devoção ao Senhor. Esse empenho diz respeito não tanto à execução de gestos e tarefas aleatórias, mas à participação espiritual e afetiva no mistério celebrado. Afinal, “quem não sabe apreciar o valor gratuito (ou seja, da graça) da beleza, em especial da beleza litúrgica, dificilmente conseguirá realizar um ato adequado de culto divino” [4]. Portanto, o homem não precisa inventar nada de novo; ele só precisa abrir-se ao mistério, acolher amorosamente a Palavra de Deus, que, na liturgia santa, se traduz por meio de cada rito, símbolo, gesto ou palavra.

Entrementes, o que deixou o canto da salmista Carolina Andrade particularmente belo foi o fato de ela não ter usado nenhum recurso vocal ou gestual extravagante, típico de certa música gospel, para prender a atenção dos demais (também porque não havia gente para isso); o que ela fez foi simplesmente transmitir aquilo que ela recebeu da liturgia: a Palavra viva da Sagrada Escritura, que é palavra de vida eterna. Os câmeras da TV Canção Nova ainda tiveram a sensibilidade de não explorar a emoção da jovem, cortando a transmissão para o crucifixo no centro do altar. Porque a razão de ser da liturgia é Jesus; Ele é o protagonista; Ele, e somente Ele, portanto, deve ser o centro da nossa atenção.

Essa verdade precisa ser particularmente lembrada agora, que nos encontramos privados do Santíssimo Sacramento. A celebração litúrgica não é um ato isolado, de uma comunidade local que se reúne narcisisticamente, mas uma realidade transcendente, mística, espiritual, que une o Céu e a terra, o visível e o invisível, e é capaz de alimentar mesmo os que estão lá fora. Quem se emocionou com o que viu na TV, por exemplo, pôde tomar parte no ato de fé da salmista, entrando em comunhão com a pessoa de Jesus, para além da recepção da Eucaristia. Pois quando rezamos liturgicamente, com o empenho do nosso coração, somos capazes de adentrar no mistério de Nosso Senhor e realizar uma verdadeira refeição espiritual — que às vezes, não sempre, pode reverberar em nossas emoções.

Note-se que de modo algum estamos negando a importância do culto público a Deus ou da Comunhão sacramental pelos fiéis. As Missas televisionadas mesmo não servem para os fiéis cumprirem o preceito dominical. O que queremos mostrar é que a Missa, antes de ser um encontro social, é um sacrifício místico, oferecido pelos sacerdotes em favor de seu povo, ainda que ele não esteja fisicamente presente. E esse mesmo povo pode unir-se “em espírito e em verdade” (Jo 4, 23) aos seus sacerdotes, sobretudo nesta ocasião particular de pandemia, oferecendo o sofrimento de não poderem estar na igreja. Uma comunhão espiritual vivida com tal intensidade tem um poder santificador que não podemos menosprezar; sem dúvida, nem se compara ao que significa receber sacramentalmente o Corpo e o Sangue do Senhor, mas deve servir para repararmos as inúmeras comunhões distraídas que já fizemos, bem como as incontáveis irreverências e abusos litúrgicos com que tantas vezes colaboramos em nossa ânsia por “inculturar” o santo sacrifício do Calvário. 

As últimas Semanas Santas, no Brasil, foram marcadas por abusos litúrgicos tão escandalosos que chocariam até o mais liberal dos liturgistas. Neste ano, porém, a maioria dos sacerdotes não terá à sua frente uma plateia a entreter, mas terá de se voltar sozinha ao crucifixo, a fim de oferecer o sacrifício propter nos, homines. Num desafio de fé à teologia mambembe que lhes ensinou a celebrar a Missa como se fosse um concerto, muitos finalmente terão a oportunidade de descobrir a beleza de uma importante verdade da liturgia católica: por mais que se voltem ao povo, é a Deus que eles sempre oferecem o sacrifício do altar (versus Deum, isto é, voltados para Deus). Eis a ocasião oportuna, um verdadeiro kairós, para “redescobrir e valorizar a obediência às normas litúrgicas”, como expressão da beleza da “Igreja, una e universal que preside na caridade” [5].

Sem as desculpas comuns, eles terão tempo suficiente para se paramentar com as devidas vestes litúrgicas (alva, cíngulo, estola e casula), observando as piedosas orações. Nem precisarão recorrer à Oração Eucarística II para terminar mais rápido a celebração. E que bela oportunidade será para purificar devidamente os vasos sagrados, sem a pressa habitual que faz com que tantas partículas sagradas se percam. A Comunhão eucarística, enfim, poderá ser feita com grande generosidade, num verdadeiro ato de ação de graças. Os sacerdotes que souberem aproveitar espiritualmente tudo isso certamente colherão graças abundantes.

Mas também os fiéis somos desafiados a redescobrir a verdadeira natureza da Missa, agora precisamente que sentimos como se Deus nos houvesse abandonado. Temos diante de nós a situação dos israelitas no deserto: podemos manter a fé piedosamente, enquanto Moisés (ou seja, o sacerdote) sobe sozinho o monte para interceder por nós, ou podemos construir um bezerro de ouro, esquecendo-nos de todas as graças com as quais Ele nos cumulou por tanto tempo, apesar de nosso desprezo. No entanto, para que essa última opção não seja realidade, temos de viver a Missa em nossos corações, como povo sacerdotal, fazendo repetidos atos de fé no culto que nossos sacerdotes estão oferecendo a Deus pela Igreja.

No fim das contas, é a fé católica que está em jogo. A Semana Santa nos convida a viver a Paixão de Cristo não apenas como recordação de algo passado, mas como atualização da doação gratuita de Jesus pela nossa salvação. E isso exige de nós um empenho do coração, pelo qual nossos afetos estejam todos voltados para o Senhor. Do contrário, Ele olhará para nossas lágrimas externas e dirá: “Chorai por vós mesmos e por vossos filhos… Se, de fato, fazem isto ao lenho verde, que não acontecerá ao seco?” (Lc 23, 29-30).

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Lições da Semana Santa em tempos de pandemia
Liturgia

Lições da Semana Santa
em tempos de pandemia

Lições da Semana Santa em tempos de pandemia

Pessoas em todo o mundo estão sofrendo — com a doença, o cuidado dos que estão doentes, a solidão ou a separação da família e de amigos. De repente, não estamos mais apenas lembrando os eventos da Semana Santa. Estamos vivendo-os.

Michele ChronisterTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere7 de Abril de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
imprimir

Eu vivo para a Semana Santa.

Sei que não estou só em meu amor pela Semana Santa e pelo Tríduo Pascal. Quando estudava na Universidade de Notre Dame, eu era um dos muitos estudantes que faziam fila às portas da Basílica do Sagrado Coração por horas antes de elas serem abertas para as liturgias do Tríduo. Eu não era a única que corria para garantir um lugar. E não era a única que tinha de se virar com qualquer espaço disponível — mesmo que esse lugar fosse no chão.

Assisti às liturgias do Tríduo em diferentes estados e dioceses, e embora poucas pessoas fossem tão extremas em seu entusiasmo quanto meus colegas de graduação da Notre Dame, em todas as paróquias das quais participei eu encontrava pessoas devotas das liturgias mais sagradas do ano. Desde que cheguei à idade da razão, perdi alguns dias específicos do Tríduo, mas jamais ele inteiro. Mesmo grávida e sofrendo de hiperêmese gravídica, não suportava a ideia de perder o Tríduo. 

Mas neste ano vejo-me na mesma situação de muitos leigos espalhados pelos Estados Unidos e pelo mundo — numa diocese em que as Missas públicas foram suspensas como parte de um esforço por “achatar a curva” e retardar a disseminação de uma pandemia. Este ano só poderei assistir às liturgias do Tríduo em meu laptop escorado num altar doméstico provisório na sala de estar

Porém, mesmo que a região onde moro não tivesse de seguir a política de confinamento e eu pudesse participar do Tríduo Pascal, não veria exatamente as mesmas belas práticas litúrgicas que havia memorizado no coração. Até as liturgias do Tríduo foram alteradas por causa da estranha época em que estamos vivendo.    

Não sou a única a lamentar por isso. As redes sociais estão cheias de leigos desolados por não poderem participar das liturgias do Domingo de Ramos, do Tríduo e até do Domingo de Páscoa.

Esse certamente não será o Tríduo que desejávamos; apesar disso, poderá ser o mais autêntico que vivemos até agora.

Um mistério re-presentado

O mistério pascal não é apenas um evento histórico que recordamos todos os anos. O propósito da Semana Santa e do Tríduo não é somente relembrar coisas que aconteceram dois mil anos atrás. Ao contrário, a Semana Santa torna presente outra vez aqueles mistérios sagrados. De fato, é isso que acontece toda vez que vamos à Missa. Quando o sacerdote eleva a hóstia na consagração, não é simplesmente como se estivéssemos ao pé da cruz — nós realmente estamos ao pé da cruz. O sacrifício de Cristo não ocorre várias vezes. Seu sacrifício único e perfeito foi suficiente. O dom da Missa está precisamente no fato de aquele sacrifício tornar-se presente outra vez para nós (“re-presentado”). Isso também faz parte do dom da Semana Santa. Por meio da celebração daquelas liturgias e Missas, compreendemos que somos uma parte do mistério pascal — uma realidade viva que ainda está se desvelando.

Nós tomamos parte no drama da Semana Santa todos os anos, mas é fácil cair no hábito de participar dele como espectador. É fácil enxergá-lo como mera comemoração do sofrimento, morte e ressurreição de Cristo, sem lembrar do papel que somos convidados a exercer nesse mistério.  

Uma pandemia e um convite

Nos outros anos, tínhamos de encontrar formas de mantermo-nos concentrados durante a Semana Santa. No domingo, levávamos para casa os ramos distribuídos na Missa e os colocávamos atrás das imagens e crucifixos em nossos lares. Íamos à Missa, jejuávamos na Sexta-feira Santa, pedíamos que um padre abençoasse a refeição de Páscoa… mas parmanecíamos distraídos. Na ausência de sofrimento, é fácil esquecer que também precisamos da cruz

Mas este ano é diferente.

Pessoas de todos os lugares do mundo estão sofrendo — com a doença, a enfermidade de um ente querido, o cuidado dos que estão doentes, a solidão ou separação da família e de amigos. De repente, não estamos mais apenas lembrando os eventos da Semana Santa. Estamos vivendo-os. Como os Apóstolos, estamos separados da presença de Cristo, nossas igrejas estão fechadas e a Eucaristia não se encontra à nossa disposição. Estamos no Cenáculo, assustados; não ousamos ter esperança. Como todos os que estão ao pé da cruz, tentamos permanecer firmes, ainda que à beira do colapso. De repente, deparamos com muito sofrimento. De repente, o sofrimento tornou-se inevitável. 

Mas, quando estivermos em nossos próprios cenáculos na manhã do Domingo de Páscoa, é nosso dever escutar e permanecer em silêncio, a fim de que possamos ouvir o Cristo ressuscitado dirigir também a nós aquelas palavras de esperança: “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não vo-la dou como o mundo a dá. Não se perturbe o vosso coração, nem se atemorize!” (Jo 14, 27).

Nesta Semana Santa, somos convidados a uma experiência muito real da cruz, abraçando seja qual for o sofrimento por que estejamos passando. Mas também somos convidados a lembrar que a cruz é, verdadeiramente, nossa única esperança. 

Cristo venceu a morte. E como fez com os Apóstolos, tomados pelo medo, Ele estende a mão para nós — aquela que porta suas chagas glorificadas — e nos diz: “Coragem! Eu venci o mundo” (Jo 16, 33).

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

As profecias sobre o coronavírus
Sociedade

As profecias sobre o coronavírus

As profecias sobre o coronavírus

Com o surto do novo coronavírus no mundo, começam a surgir, aqui e ali, “profecias” apocalípticas, supostas “mensagens” de Nossa Senhora e outras formas de previsão sobre o futuro da humanidade. O que pensar a respeito de tudo isso?

Equipe Christo Nihil Praeponere7 de Abril de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
imprimir

Com o surto do novo coronavírus no mundo, começam a surgir, aqui e ali, “profecias” apocalípticas, supostas “mensagens” de Nossa Senhora e outras formas de previsão sobre o futuro da humanidade. É natural que o ser humano se preocupe com o amanhã, sobretudo numa situação de calamidade pública. Mas é preciso critério para não nos deixarmos levar pelo pânico. A autenticidade dessas visões depende muito do quanto elas nos levam à verdadeira conversão do coração, provocada pelo temor de Deus, e não por um estado de desespero mundano.

No início dos anos 2000, falava-se muito sobre o fim do mundo, ou bug do milênio, que provocaria um verdadeiro caos na humanidade. Entre as tantas previsões “nostradâmicas” que havia, o Vaticano divulgou na mesma época o texto dos segredos de Fátima, “a mais profética das aparições modernas”, segundo o Cardeal Joseph Ratzinger. Pelo seu teor e contundência, a mensagem refletia “uma visão profética comparável às da Sagrada Escritura”, afirmou Ratzinger à época, uma vez que tratava da salvação da humanidade. Todavia, isso não a isentou de controvérsias dentro e fora da Igreja.

O reconhecimento de uma autêntica profecia é comprometido pelo contexto da falsa profecia. Como notou o Papa Paulo VI, o povo não está mais inclinado a acreditar na Igreja e em seu ensino, mas “no primeiro profeta profano que nos vem falar em algum jornal ou em algum movimento social, para recorrer a ele pedindo-lhe se tem a fórmula da verdadeira vida”. É o que estamos vendo acontecer hoje, quando muitos estão se aproveitando do momento para emplacar agendas ideológicas e controlar a população através da coação. Essa situação só demonstra como o tema do profetismo é atual e muitíssimo relevante para uma adequada compreensão da realidade.

De algum modo, há um paralelo muito interessante entre o tempo atual e o tempo do profetismo bíblico, do qual se podem obter luzes para os nossos problemas. Precisamos entender, em primeiro lugar, que lugar ocupa o profeta no âmbito da fé e da sociologia, para depois reconhecermos a voz do verdadeiro mensageiro de Deus no meio de tantos outros intermediários, sobretudo no contexto de ameaças distópicas.

A missão do profeta

Diante de um Ocidente tão paganizado, podemos pensar na aliança de Deus com o povo de Israel. Quando este se esqueceu do seu compromisso, o Senhor levantou profetas para reconduzi-lo de volta ao caminho seguro da Palavra. Os profetas enfrentaram autoridades e, pior ainda, tiveram de disputar violentamente o coração dos homens, constantemente assediado por falsos visionários. Nos dias de hoje, essa mesma dificuldade é vivida pela Igreja, no confronto com aquilo que Paulo VI chamou de “profetismo profano”.

Na tradição bíblica, o profeta vai além das visões sobre o futuro. Ele faz parte da dinâmica da Revelação e, em razão disso, a sua mensagem precisa ser acolhida no conjunto do “depósito da fé”. A marca distintiva do profeta de Deus é, então, a de não servir simplesmente a uma curiosidade humana sobre o futuro, mas a de revelar a própria face do Senhor e, do mesmo modo, “o caminho para o autêntico ‘êxodo’, o qual consiste em que, em todos os caminhos da história, deve ser procurado e encontrado o caminho para Deus como autêntica direção” [1].

Neste sentido, o critério da autenticidade profética na tradição bíblica é a “homogeneidade ou, melhor, continuidade” [2]. Isso quer dizer que o profeta não é o homem dos “pruridos de novidades”, como diz São Paulo, mas alguém que coloca o povo numa linha em conformidade com a fé de sempre, a Promessa dos pais. Essa homogeneidade é, portanto, a da fé, “na proclamação do único e verdadeiro Deus... Na história sobretudo; na concordância entre a Palavra e a realidade como o tempo a revela, aos poucos” [3].

Com efeito, uma profecia não é verdadeira simplesmente porque apresenta uma série de calamidades e destruições. Ao contrário, é o dogma da fé que realmente importa. Por isso, a dificuldade de reconhecermos o verdadeiro profeta “evoca uma crise particularmente dolorosa com a qual se chocou a fé bíblica” [4]. Então entra em cena aquilo que é próprio da fé, segundo a fórmula clássica da Carta aos Hebreus: não é uma certeza experimental, no sentido das ciências naturais, mas “é a substância das coisas que se esperam; a prova das coisas que não se veem” (11, 1).

Deus levantou profetas ao longo da história para despertar o dom sobrenatural da fé no coração dos homens, uma vez que sem fé é impossível agradar a Deus. Na disputa atual entre “profetas de Deus” e “profetas profanos”, portanto, a fé dos Apóstolos é que deve ser o objeto principal. E, ainda que a Revelação já esteja encerrada e não se deva um assentimento necessário às revelações “privadas”, estas, quando verdadeiras, ajudam a Igreja a viver a Revelação de Cristo mais plenamente numa determinada época da história, de modo que “o sentir dos fiéis sabe discernir e guardar o que nestas revelações constitui um apelo autêntico de Cristo ou dos seus santos à Igreja” (Catecismo da Igreja Católica, n. 67).

Neste sentido é que o Magistério, repetindo a indicação dos profetas do Antigo Testamento, também ilumina a inteligência dos fiéis, dando critérios de como saber reconhecer uma autêntica mensagem de Deus nos “sinais dos tempos”. Esses critérios referem-se, obviamente, à coerência da mensagem com aquilo que é a fé verdadeira, às qualidades pessoais do mensageiro, à isenção de erros com relação ao dogma e, finalmente, à devoção sadia e à abundância de frutos espirituais. Em suma, todo o movimento profético católico serve para assegurar que aquela dramática pergunta de Cristo tenha, afinal, uma resposta positiva: “Quando vier o Filho do homem, encontrará fé sobre a terra?” (Lc 18, 8).

Os católicos diante do coronavírus

À luz do que aprendemos, a crise do coronavírus deve ser encarada como uma oportunidade de profunda conversão e retorno à fé de sempre. Se as profecias têm um sentido, ele não pode ser outro senão o do restabelecimento da verdadeira religião em nossos corações. Não é hora para especulações apocalípticas e desespero, mas para a oração, o jejum e a caridade. Em muitos lugares, temos notícias de igrejas fechadas, mortes de sacerdotes e Missas canceladas. Diante disso, restam-nos a penitência e a expiação vicária, pedindo perdão a Deus pelas inúmeras vezes que sujamos a Igreja com nossos pecados, abusos litúrgicos e irreverências para com a Eucaristia, agora que muitos já nos encontramos privados dela. Porque é para isso que servem esses momentos: para nos distanciar do mundo e voltar nossas almas a Deus.

Temos de reconhecer nossa infidelidade à aliança com Deus. A blasfêmia tornou-se direito em muitos lugares e a idolatria tomou conta das almas. Sem dúvida, a humanidade já foi longe demais no desrespeito à lei natural, à lei de Deus. Essa crise mundial que nos angustia é, nesse contexto, uma chance de revermos nossa finitude, nossa pequenez e necessidade de um Deus verdadeiro, vivo, pessoal, que se compadece de seus filhos. É hora de voltarmos a esse Deus, voltarmos à fé de nossos pais, à fé de Abraão, pela qual inúmeros cristãos, antes de nós, deram a vida a fim de conservá-la intacta.

A perseverança na verdadeira fé é necessária porque ela é o alimento dos “eleitos”, aqueles por cujo testemunho Deus promete o encurtamento da tribulação. Ela é fundamental para nos preservar dos falsos cristos e falsos profetas que surgirão nesses dias, fazendo “grandes prodígios e maravilhas para enganar, se possível, até os eleitos” (Mt 24, 24). Jesus dá-nos a seguinte orientação: “Quando virdes, pois, a abominação desoladora, de que falou o profeta Daniel, instalada no lugar santo, os que estiverem na Judeia, fujam para as montanhas” (Mt 24, 15). Nas Sagradas Escrituras, a “montanha” é o lugar para o encontro com Deus. Subamos, portanto, às montanhas de nossas almas, às moradas mais altas do castelo, a fim de que Deus envie logo seus anjos, “com forte som de trombeta, para reunir seus eleitos desde os quatro ventos, de uma extremidade dos céus à outra” (Mt 24, 31).

Referências

  1. Joseph Ratzinger, Jesus de Nazaré: do batismo à transfiguração. São Paulo: Planeta, 2007, p. 23.
  2. Louis Monloubou, Os profetas do Antigo Mandamento. São Paulo: Paulinas, 1986, p. 77.
  3. Id., ibid.
  4. Id., ibid.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

A “tolice” de quem se sacrifica pelo próximo
Doutrina

A “tolice”
de quem se sacrifica pelo próximo

A “tolice” de quem se sacrifica pelo próximo

Nestes tempos de pandemia, o que mais precisamos é de padres como John Hollowell, que se dispôs a assumir uma cruz pela salvação do próximo. Mas o protestantismo distorceu tanto o significado do sofrimento, que agora muitos confundem amor com... tolice.

Equipe Christo Nihil Praeponere3 de Abril de 2020Tempo de leitura: 12 minutos
imprimir

As reações à nossa matéria sobre o padre que ofereceu o próprio câncer em expiação pelos pecados de pedofilia na Igreja foram bem interessantes, para dizer o mínimo. Da parte dos católicos, naturalmente, a notícia serviu para confirmar a doutrina da Igreja acerca do sofrimento redentor de Cristo, ao qual podemos nos unir os batizados com nossos próprios sofrimentos. Entre o público geral (aqui incluindo católicos mal catequizados), todavia, o gesto corajoso do padre John Hollowell foi visto com desconfiança e repulsa.

Entre os que não leram o texto (e ainda assim se sentiram no direito de julgar o padre, como se ele tivesse cometido algum crime) e os que o leram (mas não entenderam nada), houve, por exemplo, quem se perguntasse sobre a necessidade de toda aquela exposição. “Ele não poderia sofrer em silêncio?”, perguntou um leitor. Outros, mais incrédulos, questionaram como tal oferta serviria para apagar as cicatrizes de quem viveu o crime de pedofilia. “Isso é uma bobeira e um voto de tolo”, afirmou outro comentarista, dizendo que Deus “não recebe esse tipo de oração”.

O pe. John Hollowell, da diocese de Indianápolis (EUA).

Ao fim e ao cabo, a maior parte dos que se escandalizaram parecia ter a opinião comum (e protestante) de que ninguém precisa oferecer sacrifícios pelos outros porque, de fato, Jesus já ofereceu um sacrifício definitivo por nós na Cruz. No texto anterior, chegamos a comentar, ainda que brevemente, como essa visão unilateral sobre a Paixão de Cristo levou a uma revolução teológica que culminou na própria negação da necessidade da Cruz. Se tivessem se dado ao trabalho de ler o artigo com atenção, talvez esses leitores não nos teriam brindado com tantos comentários estabanados e grosseiros. 

Seja como for, o imbróglio nos dá a chance de voltarmos ao assunto com mais rigor e profundidade. O tema é de suma importância, sobretudo agora nos tempos de coronavírus, quando necessitamos de tantas almas dispostas ao sacrifício heroico pela salvação dos irmãos.

O caráter definitivo do sacrifício de Jesus

De que o sacrifício de Jesus na Cruz foi definitivo e suficiente para a salvação do gênero humano não há dúvida alguma. Apenas Nosso Senhor poderia expiar os pecados da humanidade, porque, pela união hipostática, somente Ele é o pontífice que une o céu e a terra, a natureza humana e a divina. “De tal modo Deus amou o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3, 16), afirma São João em seu Evangelho. Por isso, toda a vida de Jesus, mas especialmente a sua crucificação, serviram para redimir e dar um novo significado aos sofrimentos dos homens. Com a Cruz, explica São João Paulo II na carta apostólica Salvifici Doloris, “Cristo aproximou-se do mundo do sofrimento humano, sobretudo pelo fato de ter ele próprio assumido sobre si este sofrimento” (n. 16).

Acontece, porém, que o sofrimento não foi erradicado do mundo após a crucificação de Jesus. Ele permanece aqui, no meio de nós, e afeta crentes e não crentes, homens e mulheres, adultos e crianças, como se fosse uma condição da natureza. Aquela “vida nova” que Jesus nos deu com a sua Paixão, diz o Catecismo da Igreja Católica, nós a trazemos “em vasos de barro”, porque “vivemos ainda na ‘nossa morada terrena’, sujeita ao sofrimento à doença e à morte” (n. 1420). Sim, continuamos a sofrer na nossa carne. Jesus morreu e, aparentemente, permanecemos na mesma: ainda há homicídios, guerras, doenças, depressão, histeria e outros tipos de dores, sejam físicas ou morais. Jesus ressuscitou, mas seguimos enterrando nossos familiares e amigos. Ele venceu o pecado, mas ainda existem Judas no meio do clero.

Notem que as mesmíssimas questões levantadas contra o padre John Hollowell podem também ser feitas a Jesus. Aliás, elas já são feitas por muitas pessoas que relativizam a atividade espiritual da Igreja, julgando-a uma alienação incapaz de erradicar a dor dos pobres, dos doentes e dos famintos. Com isso, nega-se o valor da oração e dos sacramentos. O certo, para esses senhores, seria a luta pela igualdade absoluta, de modo que todos os homens pudessem desfrutar dos bens materiais em idênticas condições. Infelizmente, esse pensamento ideológico e mentiroso também contaminou muitos dentro da Igreja, como foi o caso dos padres operários e teólogos da libertação.

Mas em que consistiu, então, a Paixão de Cristo?

É preciso entender, em primeiro lugar, que a Encarnação de Cristo e a sua Paixão não tinham o objetivo de inaugurar um “mundo melhor”, entendido como um paraíso utópico aqui na terra, onde todas as dores e contrariedades seriam sanadas. Nunca é o bastante lembrar destas palavras do Senhor: “Pobres sempre tereis entre vós” (Jo 12, 8). Antes de tudo, Jesus veio para nos revelar a face amorosa de Deus, e apenas um coração muito duro, adverte o Papa Bento XVI, pode achar isso pouco [1].

“Ele nos trouxe Deus: agora conhecemos o seu rosto, agora podemos chamar por Ele. Agora conhecemos o caminho que como homens devemos percorrer neste mundo”, insiste o Papa [2]. E é a partir dessa boa nova de Jesus que o sofrimento humano tem outra conotação. O nosso fardo se converte no fardo de Cristo: “Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para vós, pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mt 11, 29-30).

Os sofrimentos do Corpo místico de Cristo

A pergunta que geralmente nos fazemos quando experimentamos alguma provação mais ou menos pesada, quando as coisas saem fora dos trilhos e não correspondem ao planejado, é: por quê? Por meio da Revelação, sabemos que a raiz do mal no mundo se deve ao pecado original. Por outro lado, a história de Jó mostrou também que o sofrimento não é simplesmente um castigo, mas uma situação da qual nem sequer os justos podem se furtar. E o profeta Isaías expôs o mesmo drama com toda clareza nos versos sobre o Servo sofredor, que “tomou sobre si nossas enfermidades” e “carregou-se com as nossas dores” (42, 2-6). Tratava-se de um homem inocente a quem, no entanto, não era estranho o sofrimento. Em razão disso, a Igreja jamais pretendeu dar uma resposta, em sentido estrito, à questão do sofrimento, que é um mistério dos desígnios de Deus para cada ser humano.

A Paixão de Jesus, consequentemente, não significou tanto uma resposta ao porquê do sofrimento quanto um para quê. O Filho do Homem veio para servir e fazer a vontade do Pai; Ele veio para assumir a natureza humana e torná-la participante da vida divina. Com isso, explica São João Paulo II, Jesus “não só realizou a Redenção através do sofrimento, mas também o próprio sofrimento humano foi redimido” (Salvifici Doloris, n. 19). A partir daí, todo membro do Corpo místico de Cristo pode, por meio da graça batismal, participar da obra da Redenção, oferecendo suas próprias dores para a salvação do gênero humano. Tal atitude não implica uma negação do sacrifício definitivo de Jesus, mas a aplicação desse mesmo sacrifício ao longo da história, em virtude da união mística de todo batizado à cabeça da Igreja, que é Jesus.

Assim se entende por que Nosso Senhor fez esta exigência a nós: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16, 24). Ele não aboliu a cruz dos outros com a própria crucificação, mas permitiu que sofrêssemos ao seu lado pela redenção de todos os homens. O sofrimento pessoal, que antes era causa de angústia, tornou-se, com a Paixão de Jesus, causa meritória: podemos merecer a salvação de nossos irmãos, reparando seus pecados com a nossa oferta de amor. Por isso São Paulo exortava os cidadãos de Roma a oferecerem seus corpos “como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus”. “É este o culto espiritual que lhe deveis prestar” (Rm 12, 1), insistia São Paulo; uma crença abstrata não é o bastante.

“A ajuda do padre” (Venezuela, 1962), fotografia de Hector Rondón Lovera.

Os textos do Novo Testamento estão repletos de versículos sobre a expiação vicária que os cristãos devem fazer como membros do Corpo místico de Cristo. Na Segunda Carta de São Paulo aos Coríntios, lemos que “por toda a parte levamos sempre no corpo os sofrimentos de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste no nosso corpo” (4, 8-11.14). Em outra passagem, o mesmo Apóstolo escreve acerca do conhecimento de Cristo: “Poderei conhecê-lo, a ele e à força da sua Ressurreição, e ser integrado na participação dos seus sofrimentos, transformado numa imagem da sua morte, com a esperança de chegar à ressurreição dos mortos” (Fl 3, 10-11). E o mesmo ensina São Pedro aos seus fiéis: “Alegrai-vos, antes, na medida em que participais nos sofrimentos de Cristo, para que também vos alegreis e rejubileis na sua gloriosa aparição” (1Pe 4, 13).

Alguém poderia afirmar, porém, que essa participação na Cruz de Cristo nada tem a ver com oferecimento de sacrifícios uns pelos outros. Mas as palavras de São Paulo, mais uma vez, não deixam dúvida: “Carregai os fardos uns dos outros; assim cumprireis a lei de Cristo” (Gl 6, 2). O Apóstolo chega a ser ainda mais ousado, afirmando que completa na própria carne “o que falta aos sofrimentos de Cristo pelo seu corpo, que é a Igreja” (Cl 1, 24). Ele, obviamente, não nega a completude da Redenção, mas sabe que ela não se encerra com o evento histórico do Gólgota, mas deve se perpetuar misticamente em cada membro do Corpo místico. É o que diz São João Paulo II:

Isto significa apenas que a Redenção, operada por virtude do amor satisfatório, permanece constantemente aberta a todo o amor que se exprime no sofrimento humano. Nesta dimensão — na dimensão do amor — a Redenção, já realizada totalmente, realiza-se em certo sentido constantemente. Cristo operou a Redenção completa e cabalmente; ao mesmo tempo, porém, não a fechou: no sofrimento redentor, mediante o qual se operou a Redenção do mundo, Cristo abriu-se desde o princípio, e continua a abrir-se constantemente, a todo o sofrimento humano. Sim, é algo que parece fazer parte da própria essência do sofrimento redentor de Cristo: o fato de ele solicitar a ser incessantemente completado (grifos nossos) (Id., n. 24).

Os efeitos da expiação vicária

No horizonte da Redenção está a transformação do gênero humano pelo amor. Jesus veio para cumprir a profecia do profeta Ezequiel: “Tirarei de vosso corpo o coração de pedra e vos darei um coração de carne. Porei em vós o meu espírito e farei com que andeis segundo minhas leis e cuideis de observar os meus preceitos” (36, 26). Os preceitos divinos se resumem a dois: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. E é apenas pela graça batismal que o homem pode receber esse novo coração e mergulhar na Paixão redentora de Jesus para andar na sua lei e observar os seus preceitos.

A graça que recebemos no Batismo deve crescer conforme a nossa generosidade, dispondo-nos a amar Jesus no serviço aos nossos irmãos. Isso precisa gerar em nós a virtude da caridade, sem a qual é impossível agradar a Deus. Porque “se eu gastasse todos os meus bens no sustento dos pobres”, explica São Paulo, “e até entregasse meu corpo para me gloriar, mas não tivesse amor, de nada me aproveitaria” (1Cor 13, 3). O que importa na dinâmica do sofrimento, portanto, é a configuração a Cristo, que acontece por meio da aceitação de nossas dores pela salvação dos irmãos. Afinal de contas, “ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo 15, 13).

Diante das dificuldades e injustiças que sofremos, nosso coração é frequentemente tentado a vacilar, escolhendo como resposta ora a vingança, ora a trapaça. Queremos ordenar as coisas à nossa medida, a partir de nossas ideias e paixões. Jesus, entretanto, mostrou-nos outro caminho e nos associou à sua Paixão para que pudéssemos dar testemunho da sua Cruz, “escândalo para os judeus e loucura para os gentios” (1Cor 1, 23). Ele nos fez entender que, diante de uma cruz inevitável, devemos abraçá-la amorosamente até o dia final, quando teremos nossa ressurreição.

O testemunho da cruz é sempre um remédio para os males do mundo e um conforto aos corações despedaçados. Por isso, toda pessoa que padece pode sentir-se amada novamente quando encontra alguém disposto a experimentar um pouco da dor alheia. É assim com doentes em fase terminal, é assim com pessoas depressivas, é assim com vítimas de alguma violência. Por mais que nossas mortificações não apaguem de fato a experiência dolorosa dos nossos irmãos, elas ao menos servem para nos conectar a eles, proporcionando-lhes alegria, amizade, compaixão e cuidado. Não se trata de julgar nossa dor como igual, maior ou menor que a deles, até porque não é uma competição. Trata-se de amar o outro e colocar-se em seu lugar como um amigo. Hoje chamam isso de empatia. Mas os católicos sempre o viveram como a Paixão de Cristo.

O oferecimento do padre John Hollowell é, portanto, a verdadeira oração que Deus recebe, o testemunho público do amor de Jesus e um gesto concreto de solidariedade por quem sofre. Certamente ele não substitui as medidas judiciais e assistenciais que devem ser tomadas contra os crimes que ocorreram. Mas, como outro Simão Cirineu, esse sacerdote se aproxima do Coração do próprio Cristo crucificado, que se ofereceu como vítima inocente pelos pecados de todos os homens.

É próprio da fé católica, especialmente entre os sacerdotes, a disposição a assumir uma cruz em benefício dos outros, como fizeram tantos padres e religiosos durante a peste negra; como fez São Maximiliano Kolbe, que se ofereceu aos nazistas no lugar de um judeu; como fez o padre Armindo Maria de Oliveira, que durante o surto de gripe espanhola em Cuiabá (MT) ofereceu-se a Deus como vítima para que nenhum de seus fiéis morresse pela enfermidade etc. Ao fazerem isso, esses homens não negaram o único sacrifício de Cristo, mas se uniram a ele pelo bem dos filhos de Deus.

E nada disso, nenhum desses exemplos é tolice. Isso se chama amor.

Referências

  1. Papa Bento XVI, Jesus de Nazaré. São Paulo: Planeta, 2007, p. 54.
  2. Id., ibid.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.