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Leão XIII, São Miguel e o Combate Espiritual
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Leão XIII,
São Miguel e o Combate Espiritual

Leão XIII, São Miguel e o Combate Espiritual

“São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate…”: são a origem e a história desta oração, que tantos de nós dirigimos ao “príncipe da milícia celeste”, o tema de nosso mais novo curso.

Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Agosto de 2019
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São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate…”: eis a oração que tantos de nós, católicos, dirigimos insistentemente ao “príncipe da milícia celeste”, pedindo refúgio e proteção nas batalhas que travamos neste vale de lágrimas. 

Como você deve saber, essa oração foi composta há não muito tempo, por ninguém menos que o Papa Leão XIII, e depois de uma visão impressionante que ele teve, cujo teor Sua Santidade confidenciou a pouquíssimas pessoas e sempre com a devida reserva.

Mas não, não se trata de “teoria da conspiração”. As fontes mais abalizadas são concordes: houve de fato uma missiva celeste para que essa invocação a São Miguel Arcanjo fosse rezada. 

Nem é preciso dizer que as circunstâncias em que nos encontramos não fizeram diminuir em nada a urgência e importância desta devoção… Muito pelo contrário!

Para que batalhas, porém, essa oração foi composta? E como discernir, em meio às inúmeras histórias que circulam na internet, o que é verdade do que é lenda e fantasia? 

É o que você vai descobrir no mais novo curso de nosso site: “A Oração de São Miguel Arcanjo”!

O lançamento deste conteúdo exclusivo para alunos será no próximo dia 12 de agosto. Em 6 aulas, Padre Paulo Ricardo contará a história desta célebre oração e, sobretudo, aprofundará a teologia e a espiritualidade por trás delas, pois não só é verdade que os anjos nos auxiliam no combate espiritual desta vida, como São Miguel possui um papel preponderante nessa batalha.

Venha participar conosco desta jornada histórica e teológica! Para receber mais informações a respeito deste conteúdo, inscreva-se em nossa lista exclusiva de e-mails, clicando aqui, e aguarde nossas comunicações!

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A “soberba disfarçada” dos que não têm tempo para Deus
Espiritualidade

A “soberba disfarçada”
dos que não têm tempo para Deus

A “soberba disfarçada” dos que não têm tempo para Deus

Rezamos, então? Ah, sim, rezamos! Mas o fazemos do nosso modo e em nosso tempo. As regras, somos nós que as ditamos; os termos, nós que os estabelecemos. Rezamos, sim, mas os deuses, no fundo, somos nós.

Equipe Christo Nihil Praeponere24 de Julho de 2019
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No calendário litúrgico anterior à reforma litúrgica de Paulo VI, o Tempo depois de Pentecostes (correspondente ao “Tempo Comum” de agora) era inaugurado com a parábola do grande banquete (cf. Lc 14, 16-24). O texto, proclamado no domingo seguinte à grande solenidade de Corpus Christi (o 2.º depois de Pentecostes), servia de “complemento” para os ensinamentos desta grande celebração [1], lançando uma luz sobre toda a nossa vida espiritual.

Em primeiro lugar, o banquete a que faz referência Nosso Senhor nesta parábola pode significar várias coisas. Numa outra versão da mesma história, presente no Evangelho de S. Mateus (22, 1-14), Jesus fala mais propriamente de um banquete “nupcial”, ou seja, de um casamento. Com essa analogia, Ele quer fazer referência à união entre Deus e o homem que já aconteceu em Jesus Cristo (e à qual chamamos “união hipostática”), à que está acontecendo hoje em nossa vida de oração e em cada comunhão eucarística (pois incorporamos ao nosso o Corpo de Cristo) e, por fim, à que acontecerá no fim dos tempos, quando nos unirmos a Ele de modo total e definitivo.

Concentremo-nos no segundo sentido da comparação: nossa comunhão com Deus através da vida espiritual. À luz disso, as desculpas que os convidados apresentam ao longo da parábola nada mais são do que as desculpas que nós mesmos apresentamos para não procurarmos a Deus e nos unirmos a Ele através da oração e dos sacramentos. No Evangelho, é um homem que comprou uma fazenda e precisa governá-la; é outro que comprou umas juntas de bois e precisa vê-las; é outro que se casou e precisa cumprir seus deveres conjugais… Ou seja, ninguém desocupado; são justamente os “ocupados demais” que Nosso Senhor procura repreender. 

O problema não está, evidentemente, em ter ocupações, posses ou uma família a cuidar. A grande questão, aqui, é que esses homens não compreendem (ou não querem compreender) que toda a sua vida deveria girar em torno desse banquete que é a oração íntima com Deus. O fato mesmo de eles apresentarem desculpas para não comparecerem ao festim já constitui um absurdo. Seria como alguém dizer que está “ocupado demais” para comer, por exemplo; que tem muito o que fazer e, justamente por isso, deixará de se alimentar… Ora, mas não é justamente o alimento que dará forças a essa pessoa para desempenhar bem suas atividades? 

É com esses olhos que devemos enxergar as desculpas que tantos de nós arrumamos para não rezar: “não tenho tempo”, “estou muito ocupado”, “minha vida é uma correria” são o tipo de frase que só se deve usar para coisas dispensáveis ou insignificantes. Se achamos que a oração seja isso, então a verdade é que nós ainda não entendemos nada de cristianismo. Pior do que isso: não entendemos nada da realidade do nosso ser, que tem uma necessidade profunda de Deus, uma inquietude que não cessará jamais, enquanto não repousarmos nele. Se é essa a nossa postura, somos como o homem orgulhoso descrito pelo livro do Apocalipse: 

Dizes: Sou rico, faço bons negócios, de nada necessito — e não sabes que és infeliz, miserável, pobre, cego e nu. Aconselho-te que compres de mim ouro provado ao fogo, para ficares rico; roupas alvas para te vestires, a fim de que não apareça a vergonha de tua nudez; e um colírio para ungir os olhos, de modo que possas ver claro (3, 17-18). 

O homem que vive sem oração e, além disso, não se dá conta do quanto precisa de Deus, é exatamente isto: um “infeliz, miserável, pobre, cego e nu”, que se acha “rico”, homem de “bons negócios” e “de nada” necessitado. Ou seja, é um soberbo

Mas essa soberba… quantas vezes pode vir disfarçada de humildade! São Gregório Magno, comentando a frase com que os primeiros convidados pretendiam desculpar-se — “Peço-te que me dês por dispensado” (em latim: Rogo te, habe me excusatum) —, ensina que “aquele que se escusa de ir à ceia de quem o convida, seja por causa da fazenda, seja para experimentar as juntas de bois, simula palavras de humildade: com efeito, enquanto diz ‘rogo-te’, mas se recusa a ir, soa-lhe na voz humildade, mas soberba na ação (humilitas sona in voce, superbia in actione)” [2].

O verbo usado pelo autor sagrado é mesmo providencial: Rogo. Ora, rogar é uma espécie de oração. Logo, também os soberbos “rezam”. Não são pagãos os homens da parábola. Não se trata de descrentes, ateus ou incrédulos. Primeiro porque Nosso Senhor contou essa história aos judeus simbolizando nos primeiros convidados justamente o povo eleito que não O quis receber; mas depois, numa interpretação mais ampla, esses convidados “ocupados demais” somos nós mesmos, os religiosos que acreditamos em Deus, mas vivemos como se Ele não existisse.

Rezamos, então? Ah, sim, rezamos! Mas o fazemos do nosso modo, em nosso tempo; as regras, somos nós que as ditamos; os termos, nós que os estabelecemos; a data, nós que a definimos. Rezamos, sim, mas os deuses, no fundo, somos nós.

Mas poderia o verdadeiro Deus se contentar com um culto prestado deste modo, com uma oração assim soberba? Não, não poderia ser. Nosso Senhor diz que os seus O adorariam “em espírito e em verdade” (Jo 4, 23), e não exteriormente, de modo fingido e dissimulado. Por isso, o texto da parábola diz expressamente que o Senhor se irou com esses homens “ocupados demais”, e que não provariam jamais do seu banquete. Seus lugares seriam ocupados por outros: “os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos” (et pauperes, ac debiles, et caecos, et claudos). 

E por que eles? Porque é essa a disposição interior que Deus espera de nós; Ele quer que nos reconheçamos necessitados dele, que nos demos conta de nossa pobreza, de nossa debilidade, de nossa cegueira e de nossa inconstância; e não que nos consideremos “plenos” e “autossuficientes” a ponto de O abandonarmos e pensarmos que temos tudo aquilo de que precisamos. Porque essa postura, no fim das contas, não passa de uma ilusão. Pauperes, debiles, caeci et claudi somos todos. A diferença é que uns andam na verdade do que são (e, por isso, são humildes), enquanto outros escolheram deliberadamente viver numa mentira: a de que se bastam a si mesmos.

E quem se basta... infelizmente deixa de participar do admirabile commercium que aconteceu no momento da Encarnação: 

Deus veio a esta nossa pobre terra para realizar uma troca; para dizer-nos, como só um bom Deus poderia fazer: “Tu me dás a tua humanidade e eu te darei a minha divindade; tu me dás o teu tempo e eu te darei a minha eternidade; tu me dás o teu corpo frágil e eu te darei a redenção; tu me dás o teu coração partido e eu te darei amor; tu me dás o teu nada e eu te darei o meu Tudo.” [3]

Quem se basta continua “humano demais”; continua aprisionado no tempo tão passageiro desta existência; continua preso às necessidades tão corriqueiras deste corpo mortal; continua vivendo no mundo limitado dos próprios sentimentos; continua fechado em seu “nada” e, no fim, não ganha o Tudo que o Preciosíssimo Sangue de Cristo nos veio comprar.

Não nos esqueçamos, pois, que o Céu é um dom, que a vida sobrenatural é um presente de Deus, e não algo a que possamos ter “direito” com um simples crachá que nos identifique como católicos ou cristãos. Disponhamo-nos às transformações verdadeiras, profundas e radicais que Deus realmente deseja operar em nós. Mas sem desculpas, sem artifícios, sem subterfúgios. Podemos até enganar os outros, ou tentar enganar a nós mesmos; mas Deus non irridetur, “de Deus não se zomba” (Gl 6, 7): Ele conhece o mais íntimo de nosso coração.

Referências

  1. Dom Prósper Guéranger explica que, “quando ainda não se havia estabelecido a festa do Corpus Christi, este evangelho já estava assinalado para este Domingo. O Espírito divino que assiste a Igreja na ordenação de sua liturgia preparava deste modo, antecipadamente, o complemento dos ensinamentos desta grande solenidade.” (El Año Litúrgico, t. IV: El Tiempo despues de Pentecostes (I). Burgos: Editorial Aldecoa, 1955, p. 113)
  2. S. Gregório Magno, apud Santo Tomás de Aquino, Catena Aurea in Lucam, c. XIV, l. 4.
  3. Fulton Sheen, “The Infinity of Littleness” (de 24 dez. 1933), in: The Eternal Galilean, Washington: National Council of Catholic Men, 1934, p. 12.

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Um Papa forte que ainda desafia o mundo moderno
Doutrina

Um Papa forte
que ainda desafia o mundo moderno

Um Papa forte que ainda desafia o mundo moderno

À medida que o mundo ocidental se despojava do jugo suave de seu Redentor para, no lugar, se deixar seduzir por ideologias, erguia-se em Roma a voz do sucessor de São Pedro.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere24 de Julho de 2019
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Em meu último artigo, repassei algumas das grandes encíclicas sociais de Leão XIII, escritas com o fim de dar à Igreja uma orientação em sua delicada e difícil relação com os Estados modernos e as situações econômicas atuais. Leão XIII estava em luta contra a emergência de um estilo de vida e uma visão de mundo inteiramente secularizados, separados da herança cristã e obcecados com a busca de um progresso estritamente material. Ele foi um dos primeiros a destacar a magnitude das mudanças que estavam acontecendo, à medida que o mundo ocidental se despojava do jugo suave de seu Redentor para, no lugar, se deixar seduzir pelas ideologias da moda como o liberalismo, o materialismo, o consumismo, que prometiam expandir a liberdade, ao mesmo tempo que punham gradualmente abaixo as instituições naturais e sobrenaturais que sustentam e confortam o homem em sua peregrinação pela terra.

Neste artigo, eu gostaria de comentar a grande traços algumas encíclicas fantásticas de Leão XIII que merecem hoje o nosso estudo. Elas bem poderiam formar um excelente “syllabus” para um clube do livro ou para os grupos de leitura de nossas paróquias. A clareza delas, somada à sua força e relativa brevidade, é um dos melhores modelos em que se deviam inspirar os documentos do magistério papal.

Em sua encíclica sobre o matrimônio cristão, Arcanum Divinae (1880), Leão XIII fala do projeto original do Criador para o casamento e a família, e desenvolve uma crítica contundente contra algumas teorias “inovadoras” e a legislação liberal que, à época, estavam apenas começando a comprometer a instituição familiar. Lida agora, com 150 anos de vantagem, esta encíclica nos permite ver a precisão incrível de todas as predições feitas pelo Papa sobre os efeitos deletérios de tais leis e ideias. No entanto, e isto é o mais importante, o Papa também aprofunda o lado positivo da matéria. Esta encíclica, por si só, constitui o marco inaugural do ensinamento católico moderno sobre matrimônio e família.

Um dos primeiros atos do pontificado de Leão XIII foi a promulgação do documento “Sobre a restauração da filosofia cristã”, mais conhecido como Aeterni Patris (1880). O trabalho inacabado do Concílio Vaticano I, suspenso em 1870 por causa da Guerra Franco-Prussiana, incluía uma revisão e reforma completas do plano de estudos católico em filosofia e teologia. Leão XIII tomou para si esta missão, apoiado em sua experiência pessoal do poder sistemático, do gênio sintético e da relevância atemporal de Santo Tomás de Aquino. Aeterni Patris foi e ainda é a Carta Magna do movimento de restauração ou, melhor dizendo, de refortalecimento do tomismo. É notável esta encíclica por sua visão conjunta da história da intelectualidade cristã e por sua ponderada, embora decidida, preferência por Santo Tomás de Aquino.

Uma vez mais, foi para dar continuidade aos esforços do Concílio Vaticano I por articular a harmonia entre fé e razão e responder ao espírito arrogante do reducionismo histórico-crítico que Leão XIII redigiu sua encíclica sobre o estudo da Sagrada Escritura: a Providentissimus Deus (1893). A encíclica proclama com firmeza a inspiração divina, a inerrância e a infalibilidade do Texto Sagrado, além de reafirmar e explicar a doutrina católica tradicional acerca da dupla autoria, divina e humana, dos livros da Escritura; a sua consequente imunidade de todo erro; o vínculo inquebrantável entre Bíblia, Tradição e Magistério; e os vários sentidos da Escritura identificados pelos Padres da Igreja.

Leão XIII retratado por Franz von Lenbach.

Em 1896, Leão XIII trouxe à luz a encíclica Satis Cognitum, sobre a unidade da Igreja, na qual se abordam tão bem os fundamentos da eclesiologia que o Papa Paulo VI, em sua encíclica inaugural Ecclesiam Suam (1964), deu-lhe especial atenção como fonte primária para as futuras discussões no Concílio Vaticano II. Esta encíclica de Leão XIII confronta-se diretamente com a pergunta: teve Jesus real intenção de fundar uma Igreja, visível e hierarquicamente estruturada como um corpo de fiéis na terra, encarregada de pregar o seu Evangelho e estender aos confins do mundo os efeitos de sua Redenção? O Papa ordena de forma sucinta evidências tiradas da Escritura, o testemunho da Tradição e argumentos racionais para chegar à conclusão de que sim, há uma única Igreja de Cristo, com sua estrutura episcopal. Ao longo de todos os meus anos de estudos em eclesiologia e apologética, nunca encontrei nenhuma exposição deste tema que seja tão direta, bem ordenada, elegante e inspiradora como a de Leão XIII. 

Embora cada uma das quase cem encíclicas promulgadas por Leão XIII ofereça uma explicação penetrante da situação moderna, além de bons conselhos para os católicos, há pelo menos três delas, escritas na virada do século XIX para o XX, que me impressionaram durante anos como as mais representativas da profunda visão teológica do Papa, de seu fervor religioso tão animador e de sua ousada crítica cultural: trata-se de Annum Sacrum, sobre a consagração ao S. Coração (1899); Tametsi Futura, sobre Jesus Cristo, Redentor da humanidade (1900); e Mirae Caritatis, sobre a Santa Eucaristia (1902).

Todas elas nos falam do amor imenso que Deus manifestou por nós em Jesus Cristo, da misericórdia que Ele tem mostrado para conosco desde a queda de Adão, e da verdade divina, a única em que nossas inteligências podem encontrar paz em meio às tempestades de filosofias de vida cada vez mais confusas e contraditórias. O Papa não se contenta com afirmar que é esta a nossa terrível condição e qual é a nossa salvação; ele o expõe passo a passo, mostrando aonde nos podem, a nós homens modernos, levar as falsas filosofias de vida e como Deus nos pode resgatar do fosso de destruição que cresce cada vez mais com a nossa rejeição e desprezo de seu Evangelho. Sinto-me obrigado a dizer que teria sido de muito proveito que os Padres conciliares do Vaticano II houvessem estudado primeiro estes documentos antes de chegarem a Roma em 1962. Isto lhes teria dado a dose necessária de realismo, o refortalecimento do seu sensus catholicus, além de um modelo de brevidade e profundidade.

Neste “trio” de encíclicas, Leão XIII fomenta uma luta apaixonada pela conversão, a começar pela própria Igreja, movendo-se a partir daí em círculos concêntricos até abarcar a humanidade inteira. E, como todos os Papas antes e depois dele, Leão XIII nos convida a estar reunidos em torno do mais sublime de todos os sagrados mistérios na terra: a Santíssima Eucaristia, o Corpo e Sangue de nosso Redentor, e a deixá-lo nos unir em uma só Igreja, em um só Corpo, repleto daquela força vital que cura a queda dos filhos de Adão.

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O martírio das carmelitas de Compiègne
Santos & Mártires

O martírio das carmelitas de Compiègne

O martírio das carmelitas de Compiègne

A multidão comprime-se em volta da guilhotina. Entre os condenados, se vêem diversas mulheres de capa branca: são as dezesseis carmelitas do convento de Compiègne...

Henrique Elfes17 de Julho de 2019
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Praça do Trono, 17 de julho de 1794. — São cerca de oito horas da tarde. É verão e o céu ainda está claro. A multidão comprime-se em volta da guilhotina, erguida no centro da antiga Place du Thrône, atual Barriére de Vincennes. Junto dos degraus que conduzem ao cadafalso, o carrasco, Charles-Henri Sanson, espera respeitosamente de pé, flanqueado por dois ajudantes. O calor é opressivo, e em toda a praça reina um odor mefítico de sangue. 

Vindos da cidade, despontam os carroções. Hoje são dois, e vêm bastante cheios: ao todo, serão quarenta vítimas. Recebem-nas as exclamações e ameaças habituais, mas o barulho logo se abafa em murmúrios de espanto. Acontece que, entre os condenados, se vêem diversas mulheres de capa branca: são as dezesseis carmelitas do convento de Compiègne. Ao contrário dos seus companheiros de infortúnio, não deixam pender a cabeça nem choram ou gritam; trazem o rosto erguido, e a linha firme do corpo é sublinhada pelas mãos amarradas às costas. E cantam: aos ouvidos de todos, ressoam as notas quase esquecidas da Salve Rainha em latim e do Te Deum. Até para o mais empedernido dos basbaques presentes, é um espetáculo inaudito.

Quando os carroções param ao pé do cadafalso, o burburinho faz-se silêncio absoluto. Até essas mulheres histéricas, as chamadas “fúrias da guilhotina”, que sempre estão na primeira fila dos espectadores, emudecem.

As primeiras a descer são as carmelitas. Uma delas, a priora, Madre Teresa de Santo Agostinho, aproxima-se do carrasco e pede-lhe que lhes conceda uns minutos para poderem renovar os seus votos e que a deixe ser a última a sofrer a execução, para que possa animar cada uma das suas filhas até o fim. Sanson, o carrasco, alma delicada, concorda de bom grado.

Todas juntas, cantam o Veni Creator Spiritus. A seguir, renovam os seus votos religiosos. Enquanto rezam, uma voz de mulher sussurra na multidão: “Essas boas almas, vejam se não parecem anjos! Pela minha fé, se essas mulheres não forem diretas ao paraíso, é porque o paraíso não existe!…”

A priora recua até a base da escada. Tem nas mãos uma estatueta de cerâmica da Virgem Maria com o Menino Jesus ao colo. A primeira a ser chamada, a mais jovem de todas, é a noviça Constança. Ajoelha-se diante da Madre e pede-lhe a bênção. Segundo uma testemunha, ter-se-ia também acusado nesse momento de não haver terminado o ofício do dia. Com um sorriso, a Madre diz-lhe: “Vai, minha filha, confiança! Acabarás de rezá-lo no Céu”…, e dá-lhe a beijar a imagem. 

Constança sobe rapidamente os degraus, entoando o salmo Laudate Dominum omnes gentes, “Louvai o Senhor, todos os povos”. “Ia alegre, como se se dirigisse para uma festa”. O carrasco e seus ajudantes, com gesto profissional, dispõem-na debaixo da guilhotina. Ouve-se o golpe surdo do contrapeso, o ruído seco da lâmina que cai, o baque da cabeça recolhida num saco de couro. Sem solução de continuidade, o corpo é lançado ao carroção funerário.

Uma por uma, as freiras ajoelham-se diante da priora e pedem-lhe a bênção e permissão para morrer. Cantam o hino iniciado por Constança. Quando chega a vez da Irmã de Jesus Crucificado, que tem 78 anos, os jovens ajudantes do carrasco têm de descer para ajudá-la a vencer os degraus. Ela diz-lhes afavelmente: “Meus amigos, eu vos perdôo de todo o coração, tal como desejo que Deus me perdoe”.

Só falta a Madre. Com gesto simples e firme, beija a estatuinha e confia-a à primeira pessoa que tem ao lado. (Essa imagem foi devolvida mais tarde à Ordem e encontra-se hoje no Carmelo de Compiègne, novamente fundado em 1867.) Tem 41 anos, um rosto expressivo, nem muito bonito nem feio; o porte é, mais do que altivo, descontraído. Os olhos castanhos, sofridos, mas irradiando bondade, procuram os do Pe. Lamarche, que as confessara no dia anterior na prisão e que se encontra entre a multidão. Como quem tem pressa em concluir uma tarefa urgente, sobe por sua vez os degraus.

Agora tudo terminou. Pode-se cortar o silêncio como se fosse um queijo. Muitos dos assistentes choram baixinho. Anos mais tarde, encontrar-se-ão — registrados em cartas pessoais, diários íntimos e memoriais — os ecos da emoção que experimentaram e dos efeitos que ela lhes causou: muitos sentiram a necessidade de mudar de vida, de retomar a prática dos sacramentos, um ou outro de ingressar num convento… Um deles, um menino que presenciara a cena das janelas de um prédio situado em frente da guilhotina, guardou dela uma impressão tão profunda que, anos mais tarde, quando fazia o serviço militar, carregava sempre consigo as obras de Santa Teresa de Ávila e acabou por fazer-se sacerdote. “O amor vence sempre”, costumava dizer a Madre priora; “o amor vence tudo”.

Os corpos foram levados às pressas para o antigo convento dos agostinianos do Faubourg de Picpus. Lá foram lançados na fossa comum e cobertos de cal viva. Hoje há ali um gramado cercado de ciprestes, com uma simples cruz de ferro. É um lugar de silêncio e oração.

Na capelinha anexa a esse cemitério, há uma lápide que traz o nome das dezesseis mártires beatificadas em 27 de maio de 1906 por São Pio X.

Referências

  • In: Gertrud von le Fort. A última ao cadafalso: medo e esperança, trad. port. de Roberto Furquim. São Paulo: Quadrante, 1998, pp. 120-123.

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