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O jejum das Quatro Têmporas
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O jejum das Quatro Têmporas

O jejum das Quatro Têmporas

Quem já faz sua abstinência de carne às sextas-feiras, observando o mandamento da Igreja, tem agora mais um sacrifício para oferecer a Deus, de estação a estação. Saiba em que consiste essa piedosa prática litúrgica, hoje esquecida, mas jamais abolida.

Equipe Christo Nihil Praeponere3 de Março de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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As Quatro Têmporas (Quatuor Tempora, em latim) são celebrações litúrgicas da Igreja, ligadas às mudanças das quatro estações e instituídas para a santificação do ano civil. Eram consideradas tempos especiais de vigília e oração, durante os quais a Igreja procedia à ordenação de novos sacerdotes e recomendava aos católicos o jejum e a abstinência de carne.

Olhando-as a partir do hemisfério sul, temos:

  • as Têmporas da Quaresma, na primeira semana deste tempo litúrgico, marcando o início do outono;
  • as Têmporas de Pentecostes, celebradas na Oitava desta solenidade, marcando o início do inverno;
  • as Têmporas de São Miguel, na terceira semana de setembro, entre a Exaltação da Santa Cruz (14 de setembro) e o dia de São Miguel Arcanjo (29 de setembro), que indicam a passagem da primavera; e
  • as Têmporas do Advento, na terceira semana deste tempo litúrgico, anunciando a chegada do verão.

Sobre essas últimas, a propósito, o Pe. Paulo Ricardo gravou uma aula, à qual vale a pena assistir:

Segundo a Legenda Áurea, do bem-aventurado Tiago de Varazze, teria sido o Papa São Leão Magno a estabelecer, no século V, essas comemorações. O Liber Pontificalis faz referência ao Papa Calisto, nos anos 200, mas sua origem, provavelmente, é ainda anterior a isso, datando da época dos Apóstolos.

Havia nelas, em primeiro lugar, uma relação de continuidade com o Antigo Testamento (cf. Zc 8, 19), pois os judeus costumavam jejuar quatro vezes por ano: uma por ocasião da Páscoa; uma antes de Pentecostes; outra antes da Festa dos Tabernáculos, em setembro; e uma última, por fim, antes da Dedicação, que se dava em dezembro. Desde o começo, também, essa instituição serviu como uma forma de “cristianizar” os festivais pagãos que aconteciam em Roma, em torno da agricultura e das estações.

Os dias em que se faziam esses jejuns sazonais eram a quarta, a sexta-feira e o sábado: 

  • a quarta, por ser o dia em que o Senhor foi traído por Judas Iscariotes; 
  • a sexta, por ser o dia de sua crucificação; e 
  • o sábado, por ser o dia em que ele passou no túmulo e no qual os Apóstolos ficaram de luto por sua morte. 

Também essa é uma prática imemorial, mencionada, por exemplo, pelo Didaquê, um dos mais antigos escritos cristãos de que se tem notícia.

Da Cidade Eterna a observância das Quatro Têmporas se difundiu por todo o Ocidente ainda na Alta Idade Média, sendo confirmada mais tarde pela autoridade de vários pontífices romanos — dentre eles, o Papa São Gregório VII, que reinou na Igreja de 1073 a 1085. 

O alcance desse costume foi tão amplo a ponto de influenciar a culinária do Extremo Oriente: o tempurá, prato feito à base de mariscos e vegetais, nasceu no Japão do século XVI graças à atuação de missionários espanhóis e portugueses.

As Têmporas hoje

Uma celebração assim tão importante não poderia simplesmente ser abolida, sem mais nem menos. E de fato não foi, ainda que a sua influência tenha diminuído a olhos vistos.

No Missal de 1962, as Têmporas eram observadas como “férias de segunda classe”, dias feriais de especial importância, que se sobrepunham inclusive a certas festas de santos. Cada dia tinha a sua Missa própria. Hoje, no entanto, ficou sob o encargo das conferências episcopais e das dioceses determinar o tempo e o modo de celebração das Quatro Têmporas, de acordo com prescrição da Sagrada Congregação para o Culto Divino. Em 1966, a Constituição Apostólica Paenitemini, do Papa Paulo VI, confirmou todas as sextas-feiras do ano como dias penitenciais, mas, ao mesmo tempo, os jejuns das Têmporas deixaram de ser obrigatórios.

Por que continuar jejuando, afinal, nessas épocas específicas do ano, é novamente o beato Tiago de Varazze que nos explica. O escritor medieval apresenta em sua Legenda Áurea pelo menos oito razões para mantermos essa piedosa tradição, ainda que ela tenha caído no esquecimento em nossos dias. A mais significativa dessas razões está ligada aos quatro temperamentos, pois

o sangue aumenta na primavera, a bílis no verão, a melancolia no outono e a fleuma no inverno. Consequentemente, jejua-se na primavera para debilitar o sangue da concupiscência e da louca alegria, pois o sanguíneo é libidinoso e alegre. No verão, para enfraquecer a bílis do arrebatamento e da falsidade, pois o bilioso é por natureza colérico e falso. No outono, para acalmar a melancolia da cupidez e da tristeza, pois o melancólico é por natureza invejoso e triste. No inverno, para diminuir a fleuma da estupidez e da preguiça, pois o fleumático é por natureza estúpido e preguiçoso.

Sob essa perspectiva, o jejum das Quatro Têmporas converte-se em uma forma de atenuarmos as tendências desordenadas de nossos temperamentos.

Mas, além de estar relacionada às estações do ano, a prática das Têmporas também se relaciona intimamente com o sacerdócio católico, pois era costume da Igreja de Roma (que depois se estendeu a toda a cristandade) ordenar os seus padres justamente nesses dias de jejum, mais especificamente na vigília de sábado para domingo. A ideia que transparecia era muito clara: o povo obter de Deus, com suas orações e penitências, a graça de um clero digno e santo.

O rol de motivos por que devemos fazer penitência não se esgota, evidentemente, nestas linhas. Assim como as quatro estações vão se substituindo ano após ano, e sem nenhuma trégua, assim também nós, conscientes da fragilidade de nossa carne e desejosos de reparar os Corações Imaculados de Jesus e de Maria pelos tantos pecados contra eles cometidos, devemos viver em atitude permanente de mortificação.

É verdade, o termo “morte” pode soar mal aos ouvidos modernos. Muitos gostariam, na verdade, se pudessem, de apagá-lo de quaisquer pregações, homilias ou documentos da Igreja. Nos Evangelhos, entretanto, as palavras de Nosso Senhor não podiam ser mais claras: 

Se alguém quer vir após mim, renegue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me (Lc 9, 23).

Se o grão de trigo não cai na terra e não morre, fica sozinho. Mas, se morre, produz muito fruto. Quem tem apego à sua vida vai perdê-la; quem despreza a sua vida neste mundo vai conservá-la para a vida eterna (Jo 12, 24-25).

Por isso, a quem nos vier perguntar, em tom de zombaria, por que queremos morrer observando jejuns e abstinências, respondamos com caridade, mas convictos: nós não somos “masoquistas”, só o que queremos é amar a Jesus Cristo, que nos amou primeiro e se entregou por cada um de nós (cf. Gl 2, 20).

É nesse contexto que se insere o jejum das Quatro Têmporas. Fiquemos de olho, pois, no calendário litúrgico antigo e atentemo-nos aos dias em que a Igreja convida seus filhos a mais esse ato de generosidade (ainda que vivido de forma privada). Viver em família essa tradição pode ser tanto uma forma de testemunho para o mundo moderno, tão dado aos prazeres da carne, quanto uma oportunidade para formar os próprios filhos na escola da santidade. Quem já faz sua abstinência de carne às sextas, portanto, observando o mandamento da Igreja, tem agora mais um sacrifício para oferecer a Deus — lembrando sempre que quem ama, longe de contentar-se com o “mínimo” das obrigações, o que mais deseja, na verdade, é dar o “máximo” de si próprio. 

Mesmo que doa, portanto, não deixemos de nos doar! Sirva-nos de modelo Santa Jacinta Marto, vidente de Fátima, que tinha o comer alimentos amargos como um de seus “sacrifícios habituais” e que, um dia, interpelada por sua prima para que deixasse de comer as bolotas dos carvalhos, porque amargavam muito, deu-lhe, em sua simplicidade, esta bela lição: “Pois é por amargar que o como, para converter os pecadores.”

Referências

  • Jacopo de Varazze, Legenda áurea: vidas de santos. Trad. de Hilário Franco Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, pp. 236-238.
  • Francis Mershman, Ember Days. The Catholic Encyclopedia, v. 5. New York: Robert Appleton Company, 1909.
  • Michael P. Foley, The glow of the Ember Days. The Latin Mass Magazine, vol. 17:4. Disponível em inglês no Rorate Caeli e em português no Salvem a Liturgia!.

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Quarta-feira de Cinzas: liturgia de morte
Liturgia

Quarta-feira de Cinzas: liturgia de morte

Quarta-feira de Cinzas: liturgia de morte

A celebração com a qual se dá início à Quaresma pode ser considerada, de certa forma, como uma “liturgia de morte”, pois assim como Cristo passou pela Cruz, “também nós devemos morrer para nós mesmos, a fim de renascermos para a vida eterna”.

Equipe Christo Nihil Praeponere25 de Fevereiro de 2020Tempo de leitura: 3 minutos
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A liturgia da Quarta-feira de Cinzas nos chama à verdadeira conversão: “Rasgai o coração, e não as vestes; e voltai para o Senhor, vosso Deus; ele é benigno e compassivo, paciente e cheio de misericórdia, inclinado a perdoar o castigo” (Jl 2, 13). 

A conversão do coração é a dimensão fundamental deste tempo singular de graça que nos preparamos para viver na Quaresma. Além disso, as palavras do profeta Joel sugerem-nos a motivação profunda que nos torna capazes de voltar a percorrer o caminho rumo a Deus, que é “a consciência de que o Senhor é misericordioso e que cada homem é seu filho muito amado, chamado à conversão” [1]. Pela Palavra, somos motivados a uma verdadeira transformação de vida, a morrer para o pecado e a viver para Deus por meio de Jesus Cristo (cf. Rm 6, 11).

Na antiga praxe da Igreja Católica, o sacramento da Penitência era público e o rito de imposição das cinzas dava início ao caminho penitencial dos fiéis que seriam absolvidos de seus pecados na celebração da manhã da Quinta-feira Santa. Por volta do século IX, o gesto da imposição das cinzas — obtidas com a queima dos ramos abençoados no Domingo de Ramos do ano anterior — associado ao sacramento da Penitência caiu em desuso. Porém, a imposição das cinzas estendeu-se a todos os fiéis e foi inserida na celebração da Santa Missa da Quarta-feira de Cinzas, depois da homilia. A fórmula que acompanhava a imposição foi alterada com o tempo. No início, usava-se somente a fórmula: “Recorda-te que tu és pó, e ao pó voltarás” (Gn 3, 19). Mais tarde, acrescentou-se a fórmula opcional: “Convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1, 15).

Perceba-se portanto como, desde o Antigo Testamento, as cinzas já simbolizavam a brevidade da vida (cf. Gn 18, 27; 30, 19; Sb 2, 2s), a penitência e a conversão (cf. Est 4,1.3; Jr 6, 26; Jn 3, 6). No centro da celebração litúrgica da Quarta-feira de Cinzas, há justamente esse gesto simbólico, oportunamente explicado pelas palavras das Escrituras que o acompanham. A imposição das cinzas — cujo significado, fortemente evocativo da condição humana, é salientado pela primeira fórmula contemplada pelo rito penitencial: “Recorda-te que tu és pó, e ao pó voltarás” (Gn 3, 19) — lembra a caducidade da nossa existência e convida-nos a considerar a vaidade de nossos projetos, quando não fundamentamos a nossa esperança no Senhor. 

A segunda fórmula prevista pelo rito: “Convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1, 15), ressalta, por sua vez, quais são as condições indispensáveis para percorrermos o caminho da vida em Cristo: “São necessárias uma concreta transformação interior e adesão à palavra de Cristo” [2].

Segundo o Papa S. João Paulo II, a liturgia da Quarta-feira de Cinzas pode ser considerada, de certa forma, como uma “liturgia de morte”, pois remete para as funções da Sexta-Feira da Paixão. Nesta celebração, o rito litúrgico da Quarta-feira de Cinzas encontra o seu pleno cumprimento. “Com efeito, é naquele que ‘se humilhou a si mesmo, tornando-se obediente até à morte, e morte de cruz’ (Fl 2, 8), que também nós devemos morrer para nós mesmos, a fim de renascermos para a vida eterna” [3].

Desde os seus primórdios, a Igreja indica alguns meios úteis para seguir este caminho de morte, de renúncia de nós mesmos. Em primeiro lugar, neste caminho, é necessária a adesão humilde e dócil à vontade de Deus, acompanhada pela oração incessante (cf. 2Ts 5, 17). Também são muito apropriadas as formas penitenciais típicas da tradição cristã, como a abstinência, o jejum, a mortificação e a renúncia mesmo aos bens que nos são legítimos. De modo particular, são importantíssimos os gestos concretos de solidariedade e de ajuda ao próximo, que o Evangelho segundo Mateus nos recorda com a palavra “esmola” (6, 2ss). 

Tudo isto, que deveria fazer parte da vida de todo cristão, “é reproposto com maior intensidade durante o período quaresmal, que representa, a este propósito, um ‘tempo forte’ de treinamento espiritual e de generoso serviço aos irmãos” [4].

Seguindo, pois, o caminho tradicional da Igreja, comecemos o tempo da Quaresma com verdadeiros propósitos de penitência e de ascese, para que, mortos para este mundo, vivamos uma vida nova e ressuscitemos com Nosso Senhor Jesus Cristo para a vida eterna (cf. Rm 6, 4s). Que Nossa Senhora das Dores, imagem da compaixão divina pela humanidade, nos ajude a viver bem esse tempo de morte para nós mesmos.

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Deixe a leitura da Bíblia transformar seu coração nesta Quaresma
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Deixe a leitura da Bíblia
transformar seu coração nesta Quaresma

Deixe a leitura da Bíblia transformar seu coração nesta Quaresma

Ao longo deste tempo propício de oração e penitência, podemos assumir como propósito a prática da “lectio divina”, a fim de que o nosso coração seja amaciado pela Palavra de Deus.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere21 de Fevereiro de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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Já que nos estamos aproximando do início da Quaresma, é bom refletir sobre como iremos vivê-la, de modo que nos purifiquemos de nossos pecados e nos preparemos para a celebração da Ressurreição do Senhor. De fato, temos de pensar em que orações e penitências faremos antes antes que a Quarta-feira de Cinzas caia de repente sobre nós. Era justamente esse o objetivo do antigo tempo da Septuagésima, ainda observado pelas comunidades que utilizam o rito romano tradicional.

Em nossos propósitos, precisamos ser específicos ao invés de vagos. Devemos também incluir algo positivo, e não apenas negativo (como “abandonar” isso ou aquilo), embora, é claro, seja uma penitência libertadora renunciar não apenas à sobremesa ou à bebida alcoólica, mas a algo que, para muitos, doeria na carne, como televisão, filmes, internet somente aos domingos etc. Aqui, porém, quero concentrar-me em uma prática positiva que, de tão frutífera, pode ser mantida por nós mesmo depois do tempo quaresmal: a lectio divina.

Os Padres do Deserto, que foram os primeiros monges a escolher a solidão no deserto do Egito, podem ensinar-nos muitas lições, pois lutaram contra o mundo, a carne e o diabo e deixaram-nos sua sabedoria na forma de metáforas e aforismos.

O monge Abba Poemen disse certa vez: “A natureza da água é suave, a da pedra é dura. Mas, se a água cai incessantemente, gota a gota, sobre a pedra, acaba por desgastá-la. O mesmo acontece com a palavra de Deus. Ela é suave e nosso coração duro; mas quem a ouve com frequência, abre seu coração ao temor de Deus”.

Nosso problema fundamental é a dureza de coração; por isso, buscamos do lado de fora alguma fonte que nele possa gerar uma abertura para o Espírito Santo, algo que o amoleça, melhor dizendo, como uma rocha a transformar-se no solo onde a nova vida pode crescer. Deus nos deu a Bíblia por muitas razões, mas certamente uma delas consiste em permitir que sua Palavra opere sobre nós, dia após dia, a fim de “derreter” esse coração congelado, penetrar nele e gerar vida. Meditar a Palavra de Deus é indispensável para que ela se torne conatural a nós, como o ar que respiramos, a água que bebemos, a luz que nos permite ver, o alimento que nos sustenta.

Em seu livro Cistercian Europe: Architecture of Contemplation (lit., “Europa Cisterciense: Arquitetura da Contemplação”, sem tradução portuguesa), Terryl Kinder escreve: “A lectio divina não deve ser compreendida da forma como entendemos a leitura hoje em dia, apenas para extrair informações. Ela constitui, na verdade, outra forma de leitura, que visa a transformação interior. É uma lenta ruminação das palavras da Escritura”. Kinder nos recorda que as palavras devem ser lidas lentamente com o movimento dos lábios, e não apenas de forma silenciosa na própria mente, como costumamos fazer quando lemos um texto qualquer. O objetivo de pronunciar as palavras suave e repetidamente é dar a elas espaço para “respirar”, escavar nossas memórias, ser absorvidas e influenciar nossos pensamentos. Kinder também afirma:

Na lectio divina — diferentemente da lectio scholastica (isto é, da leitura para o estudo ou por curiosidade) —, as palavras são mastigadas, digeridas e absorvidas como os alimentos o são; e assim como o alimento físico é metabolizado e transformado no material do próprio corpo, na lectio divina, o alimento espiritual dos textos sagrados é metabolizado e transformado na substância da própria alma. É uma assimilação do texto a si mesmo.

Dom Magrassi, na obra Praying the Bible: An Introduction to Lectio Divina (lit., “Rezando a Bíblia: uma Introdução à Lectio Divina”, sem tradução portuguesa), dá ênfase a esse mesmo aspecto:

O texto bíblico [...] obviamente não revela todas as suas riquezas ao ser ouvido pela primeira vez. Muito menos pode adentrar de imediato nas profundezas da vida humana e tornar-se um elemento vital do mundo interior de cada um. Essa escuta requer meditação amorosa, calma, reflexiva e pessoal sobre o texto [...]. Não basta comer o alimento; é preciso assimilá-lo, ou como diriam os antigos, “ruminá-lo”.

Essa imagem de uma vaca mastigando sua comida, além de divertida e simples, é ao mesmo tempo profundamente verdadeira. É grande o benefício que temos a receber, ao escolhermos um Evangelho, ou uma Epístola de São Paulo, e fazermos dele uma leitura lenta, capítulo por capítulo, ao longo da Quaresma — até mesmo relendo partes desse mesmo texto por mais de um dia seguido. Também podemos utilizar com fruto um missal quotidiano, para ler atentamente uma ou outra leitura da Missa do dia. É bom que as Escrituras sejam lidas na Missa, mas esse momento geralmente passa rápido demais para ser bem aproveitado. Precisamos “cavucar” mais de uma vez. Quando caminhamos lentamente por uma leitura a sós, algo que talvez tenhamos ouvido várias vezes na Missa sem prestar muita atenção pode, de repente, atingir-nos e transformar-nos.

Assim, nas palavras de Dom Magrassi, “o aprofundar-se torna-se personalização”: Deus fala ao seu povo, sim, mas Ele também está falando a cada pessoa. Sua Palavra é tão inesgotavelmente poderosa que é “feita sob medida” para mim: “Sua Palavra assume um tom e uma ressonância especiais para mim, revelando um plano especial e único que Ele tem para a minha vida [...]. O que o Senhor disse primeiro a todos, ouço-o como destinado para mim. Ouço uma Palavra que responde aos meus problemas, ilumina os meus passos e expressa o meu ideal”.

Onde aprendemos a ouvir? No silêncio, quando não estamos trabalhando, agindo ou fazendo algo, mas apenas estando presentes. Temos de combater nossa tendência decaída ao ativismo e à agitação, tornando-nos, na contramão disso, mendigos humildes que tudo recebem das mãos do Senhor. É claro que, ao recebermos algo, precisamos fazer algo com o dom recebido, de modo que não há contradição entre receptividade e ação, ser e fazer. Mas há uma primazia da primeira sobre a segunda, que é largamente negligenciada, ou mesmo negada, pelo pelagianismo da civilização moderna. Enquanto o lema do cristão é: “O que você tem que não recebeu de Deus?” (cf. 1Cor 4, 7); o do homem moderno ocidental é: “Eu sou, por minhas próprias forças, um homem pronto”.

Nesta Quaresma, sejamos primeiro receptores da Palavra de Deus, como Nossa Senhora, a fim de que possamos ser, então, seus fiéis cumpridores. Separe dez ou quinze minutos (ou mais, se puder) da primeira parte do seu dia, sente-se com a Bíblia (e talvez uma xícara de café ou de chá, que alguns consideram uma ajuda indispensável à oração da manhã), inicie com uma oração e comece a ler uma breve passagem lentamente, pronunciando as palavras com os lábios, repetindo os versículos, ponderando e deixando que as palavras extraiam de você uma resposta em suas próprias palavras, na forma de uma oração ao Senhor.

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Professora ocultista: para salvar o planeta, extinguir a espécie
Sociedade

Professora ocultista:
para salvar o planeta, extinguir a espécie

Professora ocultista: para salvar o planeta, extinguir a espécie

Para Patricia MacCormack, professora de filosofia na Inglaterra e “feiticeira ocultista”, não há outra solução para o problema ambiental a não ser “suprimir gradualmente a reprodução” humana.

Jonathon van MarenTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere21 de Fevereiro de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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No dia 23 de janeiro deste ano, a editora Bloomsbury Academic publicou uma chamada para ação a todos que se preocupam com as “mudanças climáticas”. The Ahuman Manifesto: Activism for the End of the Anthropocene (em português, literalmente, “O Manifesto Anti-humano: Ativismo para o Fim do Antropoceno”), de Patricia MacCormack, professora de filosofia continental [1] na Anglia Ruskin University, vai direto ao ponto e defende a solução definitiva para o aquecimento global: a extinção da espécie humana.

Ela confessa ser uma “feiticeira ocultista”. De fato, já deu palestras — muitas vezes com roupas que imitam trajes de bruxa e guardam semelhança assustadora com o que vemos no programa Drag Queen Storytime [2] — sobre a “invocação” ou “convocação” de demônios, segundo ela, uma prática importante para os movimentos feminista e queer. Ela diz que a invocação de demônios não está completamente isenta de riscos, porque a “loucura é tão provável quanto o êxtase”. Tudo isso ela diz sem um pingo de ironia.

MacCormack não é aquele tipo de ativista ambiental hesitante segundo o qual deveríamos salvar o planeta por causa dos nossos filhos. O que ela acha, na verdade, é que, absolutamente, crianças não deveriam sequer existir.

MacCormack — pesquisadora que tem “publicações nas áreas de filosofia continental, feminismo, teoria queer, teoria pós-humana, filmes de horror, modificação corporal, direitos dos animais/abolicionismo, cinessexualidade e ética” — já defendeu que os animais são iguais aos seres humanos. Agora ela diz que os seres humanos deveriam sair de cena por completo. 

O resumo do livro descreve sua tese da seguinte maneira: 

Abrindo espaço para o ativismo, a prática artística e a ética afirmativa, ao mesmo tempo que apresenta alguns fenômenos especificamente modernos como cultos da morte, política identitária intersecional e escravização capitalista de organismos humanos e não humanos a ponto de provocar uma “zumbidade”, O Manifesto Anti-humano explora caminhos que nos levam a construir o ser humano de modo diferente; especificamente, temos de ir além do niilismo, do pós e do transhumanismo, e abandonar o privilégio humano. Isso deve acontecer para que possamos pensar ativamente e viver visceralmente com conectividade (atual ou virtual), paixão e graça rumo a um mundo novo.

Numa tradução mais ou menos precisa, essa bobagem quer dizer que o ápice do progresso humano deve ser a extinção da espécie humana. MacCormack tenta apresentar o “apocalipse como um começo otimista”, mas para outras espécies, que ficarão numa situação muito melhor depois que nós todos morrermos (uma ótima hipótese para se considerar, de acordo com ela). De acordo com o Cambridge News, o livro dela “argumenta que, devido ao dano causado a outros seres vivos na terra, deveríamos começar a suprimir gradualmente a reprodução”. 

Os ambientalistas fanáticos são uma ameaça muito maior à civilização humana do que a própria mudança climática precisamente por esta razão: eles querem tomar o poder por meio da declaração de um suposto estado de emergência, e tão logo sejam bem-sucedidos com base em tais premissas, vão usá-lo para implementar um estado de emergência real. Sabemos o que acontece quando o Estado usa seu poder para controlar a reprodução de milhões de pessoas: esterilizações forçadas, sequestro de mulheres para arrancar os bebês de seus ventres, trauma provocado por famílias desestruturadas e crise cultural. O nome dado a isso foi “política do filho único”, e só começou a ser suprimida na China há pouco tempo. Seu resultado: 336 milhões de abortos e um sofrimento incomensurável.

Pelo menos MacCormack não tenta apresentar suas propostas de forma adocicada. “Cheguei a essa ideia a partir de dois caminhos”, disse ela ao Cambridge News. “Meu encanto pelo feminismo e pela teoria queer me levou à filosofia; portanto, interesso-me há um bom tempo pelos direitos reprodutivos [eufemismo para aborto], e esse interesse me levou a procurar mais informações sobre os direitos dos animais. Foi então que me tornei vegana. A premissa fundamental do livro é a seguinte: estamos na era do Antropoceno, a humanidade causou um monte de problemas e um deles foi a criação deste mundo hierárquico no qual homens brancos, heterossexuais e fisicamente aptos têm êxito, e pessoas de diferentes raças, gêneros, sexualidades e aquelas que portam alguma deficiência lutam para ter sucesso.” 

Ela prossegue: “O livro também argumenta que precisamos suprimir a religião e outros poderes dominantes como a igreja do capitalismo ou o culto da individualidade, já que isso faz as pessoas agirem a partir de regras impostas, em vez de responderem refletidamente às situações com as quais se deparam.” Provavelmente, MacCormack acredita que a extinção da espécie humana seja um exemplo de resposta refletida aos fatos com os quais nos deparamos, embora ela não explique como fará com que as pessoas se preocupem com as “mudanças climáticas” ao eliminar a principal motivação apresentada para legitimar a preocupação com tais mudanças: a preservação do planeta para as pessoas e sua descendência. Ela reconhece isso e observa que “todos aceitam as ideias do livro até saberem que terão de colocá-las em prática”.

Há não muito tempo, a expressão “culto da morte” era considerada sinistra, e não uma descrição ambiciosa da espécie humana. No momento, MacCormack pode ser considerada radical, mas ela representa o futuro do ativismo ambientalista: energicamente hostil à espécie humana e defensor da “eliminação da reprodução”. Os programas de rádio tradicionais frequentemente organizam debates com pessoas que decidiram não ter filhos para preservar o planeta para outras crianças. MacCormack vai um pouco além dessa tendência. Os ativistas ambientais estão plenamente convencidos da própria retidão, e estão completamente dispostos a usar o poder do Estado para impor suas soluções a todos nós.

Deveríamos ouvir com muito cuidado as soluções propostas por eles.

Notas

  1. Expressão criada por filósofos analíticos para descrever algumas tradições filosóficas oriundas da Europa continental.
  2. Evento infantil iniciado em 2015 por Michelle Tea, ativista que trabalha para promover, dentre outras causas, a ideologia LGBT para crianças.

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