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O que não podíamos, o Sangue de Cristo fez por nós
Espiritualidade

O que não podíamos,
o Sangue de Cristo fez por nós

O que não podíamos, o Sangue de Cristo fez por nós

“Que poderei retribuir ao Senhor...?” O Salmo 115, que a Igreja por séculos fez constar em sua Liturgia, tem uma lição a nos passar: o sacrifício que não podíamos oferecer a Deus, Ele mesmo veio oferecer em nosso lugar.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Julho de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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A virtude da religião, explica Santo Tomás de Aquino, é o hábito da justiça pelo qual damos ao Deus Todo-Poderoso o que lhe devemos como nosso Criador e Senhor: seu direito à adoração adequada, tanto em nossas ações externas (por exemplo, louvando-o com os lábios, curvando-nos diante dele) e atos internos (como a humilde submissão da mente e do coração em adoração). Como Ele é nosso Criador e soberano Senhor, de quem dependemos em nosso ser e em nossa vida, em nossas atividades e para a nossa felicidade, a Ele nós devemos tudo: cada parte de nós mesmos, corpo e alma.

Esse retorno não é algo que possamos fazer tal como Ele merece, mas podemos dar o máximo que é possível a uma criatura. Para o homem antes da Queda, essa virtude teria assumido a forma de um “sacrifício racional”, no qual ele não apenas ofereceria a Deus adoração, louvor e ação de graças, mas também a silenciosa homenagem de todas as criaturas. Ao fazerem isso em determinados horários todos os dias, permanecendo sempre em comunhão de amor e confiança, Adão e Eva, antes da Queda, tinham uma vida religiosa perfeita.

A Queda mudou tudo. Agora, o homem age contra aquilo que deve a Deus — age, na verdade, na medida do possível, contra o próprio Deus, pois o Senhor, que está presente em suas leis, é amado quando são obedecidas, mas desprezado, quando desobedecidas. Adão e Eva agora vivem em um mundo que se voltou contra eles, como eles mesmo se voltaram contra o seu Criador e Senhor. Eles precisam trabalhar para sobreviver, sofrendo no trabalho, sofrendo no nascimento. Eles se cansam, se frustram e vacilam. O pior de tudo é que, quando se voltam para Deus, não é com a familiaridade íntima de uma criança, mas com a consciência abalada de um renegado, tentando compensar uma ofensa de gravidade quase infinita.

Para os filhos caídos de Adão, portanto, a virtude da religião deve necessariamente assumir a forma de um culto sacrificial pelo qual Deus é honrado e também aplacado. O derramamento de sangue simboliza a morte da própria vontade egoísta: derramar a vida, dolorosamente, para restaurar o que foi perdido e mostrar que pertence apenas a Deus. “Sem derramamento de sangue, não há perdão dos pecados” (Hb 9, 22).

Deus deu a Israel a Antiga Lei como um sistema, uma forma estabelecida de adoração que tornaria necessária a vinda de um Mediador e Redentor, de alguém que, em si mesmo, pudesse oferecer a Deus uma adoração verdadeiramente digna de seus direitos sobre toda a Criação. Poder-se-ia chamar toda a Antiga Lei de grande “ritual do ofertório”, pelo qual a vítima foi preparada na presciência de Deus, em antecipação à vinda do Messias, o Cordeiro de Deus. A consagração corresponde à morte deste Cordeiro no altar da Cruz. A Comunhão significa tomar parte na salvação que nos foi adquirida ao preço do seu Sangue precioso.

Somente Cristo, portanto, realiza de modo perfeito a virtude da religião, e nós temos o privilégio incomparável de sermos inseridos em sua própria adoração. A Missa latina tradicional expressa essa verdade em um momento pungente, escondido da vista do leigo, mas não do seu conhecimento, caso ele acompanhe as orações em um missal.

Quando está prestes a tomar o Preciosíssimo Sangue, o sacerdote no rito antigo pronuncia o verso do Salmo: Quid retribuam Domino pro omnibus, quae retribuit mihi? (Sl 115, 12), “Que poderei retribuir ao Senhor por todas as coisas que ele me deu?” Ele pega o cálice com mais dois versos: Calicem salutaris accipiam, et nomen Domini invocabo. Laudans invocabo Dominum, et ab inimicis meis salvus ero (Sl 115, 4; 17, 4), “Tomarei o cálice da salvação e invocarei o nome do Senhor. Louvando, clamarei ao Senhor e serei salvo dos meus inimigos”.

Em seguida, ele se benze com o cálice em forma de cruz e, segurando a patena sob ele, toma o Preciosíssimo Sangue após pronunciar as palavras: Sanguis Domini nostri Jesu Christi custodiat animam meam in vitam aeternam, “Que o Sangue de nosso Senhor Jesus Cristo preserve a minha alma para a vida eterna”.

Em STh II-II 80, 1, Santo Tomás cita o Sl 115, 12: “Que poderei retribuir ao Senhor por tudo o que ele me deu?”, como testemunho bíblico da virtude da religião, pela qual damos o que podemos ao Senhor, embora nunca possamos dar o suficiente, pois nunca lhe retribuímos um dom equivalente ao que Ele nos deu. A colocação deste versículo no ponto mais alto da Missa, em que se bebe o Sangue do Senhor, enfatiza o aspecto da justiça na Liturgia. O homem se esforça para voltar-se a Deus, e o melhor retorno que ele pode fazer é, de fato, comungar o Corpo de Jesus Cristo e permitir que Ele mesmo agradeça ao Pai dentro e através de quem comunga.

É por isso que o sacerdote, logo em seguida, acrescenta: “Beberei o cálice da salvação e invocarei o nome do Senhor”. O Justo e Santo vem, por misericórdia, habitar em seu interior, para que o homem possa, unido a Cristo, oferecer-se a Deus como uma oblação digna. O cristão incorporado a Cristo tem o “Deus de Deus, luz da luz”, dentro de si, e entre o Pai e o Filho há o amor mais elevado e a mais sublime justiça, como se cada um deles estivesse eternamente dando ao outro a sua perfeita retribuição. O Pai não apenas gera o Filho, mas nele se compraz e o recebe no amor eterno e recíproco que é o Espírito Santo. A Sagrada Comunhão coloca o fiel nesta circumincessão ou habitação mútua das Pessoas divinas. É por isso que o cálice é mencionado como “calicem salutis perpetuae”: o cálice da salvação eterna.

É como se esse pequeno ritual nos estivesse dizendo: “Sim, ó homem, para vós é impossível retribuir justamente ao Senhor por tudo o que Ele vos deu”, mas “a Deus nada é impossível” (Lc 1, 37).

Como ensina a Madre Matilde do Santíssimo Sacramento (1614–1698):

A Missa é um mistério inefável no qual o Pai eterno recebe homenagens infinitas: nela Ele é adorado, amado e louvado como merece; e é por isso que somos aconselhados a receber a Comunhão com frequência, a fim de cumprirmos para com Deus, por meio de Jesus, todas as nossas obrigações. Isso é impossível sem Jesus Cristo, que entra em nós para realizar o mesmo sacrifício da Santa Missa.

A sequência dos versículos do Salmo, uma vez sorvido o cálice, conclui apropriadamente: “Louvando, clamarei ao Senhor e serei salvo dos meus inimigos”. Que motivo de louvor: receber o próprio Senhor, Aquele a quem clamamos! Que proteção contra nossos inimigos! O Senhor nos salvará, porque, na Santa Comunhão, Ele vem habitar em nós, aplicar-nos os méritos de sua morte e aumentar nossa participação em sua vida ressuscitada.

A tristeza dos católicos por não poderem assistir à Missa e receber Nosso Senhor sacramentalmente deve intensificar nosso desejo espiritual pelo santo sacrifício e por uma participação cada vez mais frutuosa, sempre que o Senhor quiser que tenhamos de novo a felicidade de participar do seu banquete. Somos chamados a fazer o que pudermos e a nos entregar nas mãos de Deus, usando as palavras de nosso Salvador na Cruz: “Pai, em tuas mãos eu entrego o meu espírito” (Lc 23, 46).

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Sagrado Coração, venha a nós o vosso Reino
Sociedade

Sagrado Coração,
venha a nós o vosso Reino

Sagrado Coração, venha a nós o vosso Reino

Os católicos não precisamos sentar diante dos portões da cidade, tentando em vão chamar a atenção das causas populares do momento. Entre nós está a fonte de toda a vitalidade, que é Jesus. Nele está a resposta para todos os problemas de nossa época, sejam eles quais forem.

Jane StannusTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere30 de Junho de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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À Espera dos Bárbaros”, poema de Konstantínos Kaváfis sobre o colapso da civilização, descreve uma Roma tão desanimada e desmoralizada, que já quase não possui esperança alguma. Ela se agarra aos bárbaros como a sua última tábua de salvação — há rumores de que as hordas barbáricas se aproximam, sem dúvida para saquear e queimar, mas também para construir, talvez, um novo império a partir das ruínas do antigo.  

Mas numa mudança repentina que se assemelha a um soco, Kaváfis puxa o tapete de Roma. Não há bárbaros. De nada adiantará que se reúnam, esperando por ventos e turbilhões fora do reino que venham a determinar o seu destino. Se há qualquer salvação para Roma, ela deve vir de dentro.

Ao observar nossas nações e a Igreja, nós, católicos, nos perguntamos onde foi parar a vitalidade da nossa fé. Onde está o ardor missionário que converterá a América e o mundo? Onde está o ímpeto que deveria levar os católicos de hoje a perseverar na prática da religião e na transmissão de uma fé vibrante para a geração vindoura? Onde estão o destemor e a firmeza das eras da fé, que eram como anéis de luz a cingir o mundo?

Talvez devêssemos tentar aproveitar uma força vital de nossa própria época. Que movimento vigoroso poderíamos acolher em nosso meio a fim de conferir nova relevância à nossa Igreja? Talvez devêssemos acolher o Antifa em nossas igrejas e apoiar os seus membros na luta por justiça social. Ou poderíamos explorar o vigor do movimento pró-imigração, ou o movimento ambientalista, ou talvez montar o irascível touro do marxismo. “Um dia”, escreveu Teilhard de Chardin num ímpeto de otimismo prepotente, “depois de dominar os ventos, as ondas, as marés e a gravidade, deveremos dominar para Deus as energias do amor, e então, pela segunda vez na história do mundo, o homem terá descoberto o fogo”. 

Palavras radiantes. Mas toda essa procura fora da Igreja de Cristo por sinais dos tempos, energias do amor, forças da história e ventos de mudança equivale simplesmente a aguardar a chegada dos bárbaros. Somos cidadãos decrépitos de um império moribundo ou membros vivos do Corpo Místico de Cristo?

Esse Corpo Místico possui o centro pulsante das forças do verdadeiro amor: o Sagrado Coração de Jesus, no qual encontramos a resposta para todos os problemas de nossa época, sejam eles políticos, filosóficos ou espirituais. Não precisamos sentar diante dos portões da cidade, tentando em vão chamar a atenção das causas populares do momento. Temos entre nós a fonte de toda a vitalidade, que é Jesus Cristo, o mesmo ontem, hoje e sempre.

No Sacratíssimo Coração de Jesus nós encontramos a solução para as nossas sociedades cada vez mais confusas e divididas. Somente o amor de Cristo e a sua bondade podem mudar os corações cheios de ódio e as mentes dominadas por ideias errôneas e falsos juízos. Sua autoridade amorosa pode ensinar os nossos policiais, pais e líderes a combinar mansidão e força. Na encíclica Haurietis Aquas, de 1956, Pio XII disse que o Sagrado Coração de Jesus “é a escola mais eficaz do amor de Deus”, que é “o fundamento sobre o qual o reino de Deus é construído nos corações dos indivíduos, das famílias e das nações”.

No Sacratíssimo Coração de Jesus nós encontramos a cura para as nossas personalidades feridas e fraturadas. Seu divino Coração de carne nos ensina a bondade da humanidade física e nos ajuda a rejeitar teorias gnósticas que, por desprezar completamente o corpo humano, afirmam que a vontade humana é livre para o modificar e redefinir como quiser, ou para o eliminar através da eutanásia ou do aborto. Sua humanidade perfeita nos faz ter a esperança de que, por meio de seu amor e de sua graça, as nossas feridas e erros, sejam eles resultado das nossas ações ou da injustiça e crueldade de outras pessoas, podem ser curados.   

Os nossos problemas políticos também podem ser resolvidos se recorrermos ao Sagrado Coração. Leão XIII escreveu com tristeza na encíclica Annum Sacrum, de 1899, que trata da separação entre Igreja e Estado: “Essa política tende praticamente à eliminação da fé cristã em nosso meio e, se fosse possível, à eliminação de Deus mesmo da terra”. No entanto, é por meio de Cristo, como nos diz São Paulo, que aprouve ao Pai “reconciliar consigo todas as criaturas, por intermédio daquele que, ao preço do próprio sangue na cruz, restabeleceu a paz a tudo quanto existe na terra e nos céus” (Col 1, 20). Como poderemos ter paz na terra sem o Príncipe da Paz?

Em sentido oposto, como os papas ensinaram diversas vezes e como Pio XI reiterou na encíclica Quas Primas, em 1925: “Quando os homens reconhecerem, na vida pública como na privada, que Cristo é Rei, a sociedade finalmente receberá as maiores bênçãos da verdadeira liberdade, da disciplina bem ordenada, da paz e da harmonia”. Esse reconhecimento não requer uma mudança de regime. Tanto as estruturas democráticas quanto as monárquicas possuem a capacidade e o dever de reconhecer que toda lei tem por fundamento a lei de Cristo; toda justiça, a justiça de Cristo; e toda ordem, a ordem de Cristo.

Eles devem, além disso, reconhecer de modo formal que Cristo é o Rei dos reis e o governante de todas as nações, com o que só estarão reconhecendo a realidade daquilo que é. Pois o Filho de Deus nos governa independentemente de nós escolhermos ou não, em nossa fantasia de grandeza, reconhecer esse fato; mas a nossa busca por ordem e justiça estará condenada desde o início se nos recusarmos a fundamentá-la no amor que move o sol e todas as estrelas.  

Amigos católicos, parem de esperar pelos bárbaros. Temos no seio da Igreja uma fonte de vitalidade, uma força de amor suficiente para transformar todas as coisas em Cristo: o Sacratíssimo Coração de Jesus, com a sua divindade e humanidade, os seus santos poderes legislativos e judiciários, a sua realeza sagrada e infinita.

Essa é a maior das causas e a única, pois contém o que é bom e digno em todas as causas menores, excluindo todo o resto. Essa é a energia de amor que temos de aproveitar caso queiramos mudar o mundo.

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Contra tudo e contra todos: o triunfo da Igreja Católica no Japão
História da Igreja

Contra tudo e contra todos:
o triunfo da Igreja Católica no Japão

Contra tudo e contra todos: o triunfo da Igreja Católica no Japão

Os católicos japoneses realizaram uma das maiores façanhas da história da salvação: resistir por 250 anos a uma campanha de aniquilação, sem nenhum sacerdote, transmitindo fielmente a fé ao longo de uma dúzia de gerações e em isolamento total.

Church MilitantTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere24 de Junho de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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Uma das demonstrações mais extraordinárias de fidelidade de todos os tempos é também uma das mais desconhecidas. Isso é trágico não apenas porque a história da Igreja Católica no Japão é importante por direito próprio, mas pelo que ela tem a nos ensinar sobre esperança.

O cristianismo (que por séculos foi exclusivamente católico romano) foi levado ao litoral japonês por São Francisco Xavier por volta da metade do século XVI. Após algumas tentativas e erros, ao longo das cinco décadas seguintes centenas de milhares de japoneses se converteram à fé. O catolicismo no Japão começou a prosperar e florescer. A cidade portuária de Nagasaki tornou-se um próspero centro para católicos.

No entanto, essa era de ouro só foi possível porque o Japão passava por uma enorme guerra civil que já durava um século: o Período Sengoku. Senhores da guerra, chamados daimiôs, estavam muito ocupados em lutas intestinas para se preocuparem com ameaças externas. A chegada dos portugueses levou riqueza e armas de fogo a muitos deles. Os europeus foram tolerados por causa do afluxo de riquezas e dos armamentos de ponta que traziam consigo. E aonde quer que fossem, levavam também o catolicismo. Comunidades cristãs começaram a brotar em todas as partes das ilhas japonesas.

São Francisco Xavier, o primeiro a quem os católicos japoneses devem o dom da fé. Imagem de Maryland, EUA.

Mas a oposição ao catolicismo já começava a se cristalizar. Na Batalha de Nagashino em 1575, mosquetes europeus foram decisivos para a derrota de Takeda Shingen e seu clã. A batalha facilitou o eventual surgimento do clã Tokugawa, que viria a ser catastrófico para os católicos.

Em 1600, o Período Sengoku estava se acalmando, e a violência esporádica contra cristãos já havia começado três anos antes. O clã Tokugawa finalmente obteve o controle de toda a nação e o seu líder foi transformado em xogum, comandante do exército.

Com um Japão unido, o xogunato Tokugawa começou a prestar atenção ao que ocorria no restante do Pacífico. Naquele momento, os poderes europeus apropriavam-se da riqueza material da Ásia e colonizavam a China e as Filipinas de forma agressiva. Temendo que o cristianismo fosse uma ferramenta das nações ocidentais e recordando o papel que os europeus tiveram no Período Sengoku, os japoneses começaram a reprimir os católicos. 

O catolicismo também entrou em conflito com muitas sensibilidades japonesas. O conceito de inferno e a dura condenação da atividade homossexual (que naquela época era muito comum no Japão) eram ofensivos a muitos japoneses. Essas características fizeram do catolicismo um alvo fácil para autoridades que desejavam classificá-las como “não-japonesas”. Os católicos romanos no Japão seriam perseguidos, de forma muito concreta, em parte por causa de sua rejeição da homossexualidade. O catolicismo era visto como uma afronta às religiões tradicionais predominantes, um ataque aos valores japoneses e algo traiçoeiro.

Em 1614, a perseguição tornou-se política oficial. Todos os missionários e todo o clero foram expulsos, e todos os convertidos deveriam ser mortos. Qualquer membro do clero que ousasse permanecer era executado.

O xogunato teve êxito ao decapitar completamente a Igreja Católica no Japão. Em poucos anos, todos os sacerdotes foram assassinados ou banidos. Os cristãos remanescentes foram obrigados a viver na clandestinidade. Aqueles que eram identificados eram torturados e executados.

Entretanto, durante a década de 1630, o Japão começou a fechar-se completamente para o mundo exterior, rompendo todo contato com nações estrangeiras. Qualquer estrangeiro que desembarcasse em solo japonês era condenado à morte. Todo japonês que deixava o país era proibido de retornar.

Em 1644, o último jesuíta remanescente foi arrancado de seu esconderijo e morto. A partir daquele momento, os leigos católicos no Japão ficaram completamente sozinhos, sem sacerdotes e sem qualquer possibilidade de comunicação com Roma. O Japão entrou num período de trevas.

Nem mesmo o império romano e o muçulmano, ou as polícias estatais da União Soviética e da Alemanha Oriental conseguiram suprimir o cristianismo de forma tão absoluta. Para os católicos japoneses sobreviventes, aqueles expurgos foram apenas o começo.

Todos os que se mantinham obstinadamente fiéis à fé eram condenados à morte, apenas descobertos. As execuções realizadas pelas autoridades japonesas eram brutais o suficiente para causar desconforto no mais cruel torturador romano. Muitos métodos são demasiado repulsivos para serem narrados aqui. Os afortunados eram crucificados, decapitados ou queimados vivos. Muitos outros tinham um fim terrível após dias de tortura.

Mas onde abundou o pecado, superabundou a graça. A hediondez da morte que os mártires sofreram só era igualada pela coragem que demonstravam quando chegava a sua hora. Durante o extermínio do clero, sacerdotes abençoavam as multidões à medida que caminhavam para a sua execução, prometendo que outros mestres viriam substituí-los (ao fim e ao cabo, a promessa deles se cumpriria). Os que eram queimados beijavam a estaca a que eram atados, agradecidos por serem considerados dignos de sofrer o martírio pela fé.   

São Paulo Miki, uma das primeiras vítimas da violência anticristã, chegou a proferir um sermão da cruz, uma façanha física incrível se considerarmos os efeitos da crucifixão no sistema respiratório. 

A Igreja no Japão teve de se adaptar para sobreviver. Entrou na clandestinidade, e os católicos japoneses passaram a ser conhecidos como Kakure Kirishitans ou “cristãos ocultos”. As primeiras coisas eliminadas foram a Bíblia e outros textos (inclusive litúrgicos). Os católicos tiveram de suprimir todas as provas físicas de sua existência. A Bíblia, os ritos litúrgicos e a própria fé tiveram de ser memorizados e transmitidos oralmente.

Todas as imagens ou símbolos eram feitos de modo que parecessem artefatos budistas ou xintoístas. Esculturas de Jesus eram feitas de tal maneira que Ele ficasse parecido com Buda. Toda representação visual de Nossa Senhora era feita do mesmo modo.

Até o culto litúrgico era camuflado. As celebrações litúrgicas (não havia sacerdotes para oferecer a Missa) assumiam várias superficialidades budistas enquanto conservavam sua essência católica.

Quando o rastro dos católicos esfriava, o governo japonês decidia expô-los. Exigia que os cidadãos recebessem um certificado da hierarquia budista, afirmando a sua conformidade religiosa.

Além disso, as autoridades começaram a instituir uma política chamada Fumi-e. A população era obrigada a pisar em imagens de Cristo e da Virgem Maria. Qualquer um que recusasse a fazê-lo era torturado até renunciar à fé. Os que não aceitavam eram executados. Os católicos enfrentavam uma variedade repugnante de mortes. Eram inclusive arremessados em vulcões ativos.

A Igreja resistiu. Os que eram forçados a passar pelo Fumi-e “batizavam-no”, por assim dizer, considerando-o uma prática litúrgica que celebrava o perdão de Cristo.

Essa situação permaneceu inalterada por 250 anos. A Igreja no Japão só saiu das sombras quando o país voltou a abrir as portas para o mundo na metade do século XIX.

O Pe. Bernard-Thadée Petitjean foi um dos primeiros a pisar em solo japonês após a reabertura das fronteiras. Quando lá chegou, em 1865, foi abordado por uma mulher que lhe perguntou se era sacerdote do Papa em Roma. Surpreso por ela saber o que era um sacerdote, e mais ainda o Papa, ele avançou. Uma vez convencida da identidade dele, ela apresentou-o à igreja clandestina, uma comunidade semiatrofiada espiritualmente, mas perseverante, que em dois séculos e meio jamais havia visto um sacerdote

O Pe. Petitjean descobriu que os católicos ocultos do Japão realizaram uma das maiores façanhas da história da salvação. Resistindo por 250 anos a uma campanha de aniquilação, sem nenhum sacerdote, os japoneses conseguiram transmitir a fé ao longo de uma dúzia de gerações em total isolamento. O rito romano do batismo e o calendário litúrgico permaneceram intactos. Quando a interdição do catolicismo foi suspensa em 1867, mais de 30 mil católicos saíram do anonimato. Hoje o Japão tem 500 mil católicos.

Vivemos em tempos obscuros, e não vemos bons sinais quanto ao futuro. Mas os mártires e os católicos ocultos do Japão mostram-nos que a fé pode perdurar mesmo quando somos minoria e, despojados de nossos pais espirituais, somos cercados e caçados como animais.

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“Na saúde e na doença”, desde o princípio
Testemunhos

“Na saúde e na doença”, desde o princípio

“Na saúde e na doença”, desde o princípio

Eles estavam de casamento marcado. Mas a pandemia do coronavírus veio e revirou tudo. Conheça a história destes jovens casais católicos, que começaram a viver “na alegria e na tristeza, na saúde e na doença”, desde o primeiro dia de suas núpcias.

Pe. Roger LandryTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere24 de Junho de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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“Prometo ser fiel, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amar-te e respeitar-te todos os dias da minha vida”. 

No dia do casamento, a maioria dos casais faz esses votos olhando para o futuro, rezando para que tenham muito mais momentos bons do que ruins, muito mais bem-estar do que doença.

Porém, durante a pandemia, enquanto o mundo enfrenta a pior doença global em um século e milhões de pessoas passam por momentos verdadeiramente difíceis, aquelas palavras assumem um sentido adicional.

Uma das coisas que mais têm me impressionado e inspirado nos últimos meses é o número de casais que tenho preparado para o Matrimônio e se têm mostrado dispostos — de modo profético e corajoso — a pronunciar e a viver aquelas palavras hoje.

Mesmo tendo de reduzir a lista de convidados de centenas a apenas dez pessoas.

Mesmo tendo de adiar festas e lua de mel.

Mesmo tendo de superar vários obstáculos para conseguirem permissão para contrair matrimônio e inventarem soluções para vestidos, ternos, flores e outros elementos básicos de uma cerimônia de casamento, porque os seus fornecedores foram tachados de negócios “não essenciais” e tiveram de fechar as portas.

Em suma, mesmo tendo de abrir mão de muitos elementos de um  “casamento dos sonhos”.

Um jovem casal me disse que rezaram para descobrir o que Deus queria deles durante esta pandemia. Concluíram que Ele lhes pedia que dessem testemunho do sacramento do Matrimônio.

“Não podemos fazer nada a respeito das decisões tomadas quanto à disponibilidade dos sacramentos do Batismo, da Eucaristia, da Confissão, da Confirmação e da Unção dos Enfermos durante a crise”, disseram-me. “Mas, na medida em que a decisão está sob o nosso controle, desejamos mostrar aos nossos familiares, aos nossos colegas católicos e todas as outras pessoas o quanto o sacramento do Matrimônio é importante”.

Há duas semanas, celebrei em Atlanta a Missa nupcial de um casal acompanhado apenas por familiares próximos. Todos os outros convidados, inclusive os amigos mais próximos, tiveram de assistir à celebração pela internet. O noivo me disse o seguinte durante as nossas sessões de preparação em Nova Iorque: “Matrimônio significa unir-se a outra pessoa e a Deus, e amar essa pessoa em cada reviravolta, mudança e acontecimento inesperado que a vida nos proporciona”.  

Não pude deixar de dizer o seguinte durante a homilia: “Sem dúvida, a vida os colocou numa situação inesperada durante os dois últimos meses; mas, unidos, conseguirão superá-la. Todos os que aqui estão presentes e os que assistem à transmissão online torcem por vocês neste início de vida conjugal”. 

Não obstante, muitos amigos e familiares que não puderam estar presentes na igreja organizaram, logo após a cerimônia, um alegre momento para cumprimentar de carro o novo casal. 

Outro casal está se preparando para o Matrimônio em julho, em San José, onde reside a família da noiva. Na semana passada, eles me disseram que havia ocorrido um problema: o estado da Califórnia estava concedendo licenças de casamento apenas aos casais em que uma das parte residisse no estado, a fim de evitar, teoricamente, os chamados destination weddings (cerimônias realizadas em local diferente da cidade de origem dos noivos, muitas vezes no lugar da lua de mel) e a possibilidade de transmitir o novo coronavírus. Esta foi a resposta deles: “Padre, se não conseguirmos uma licença lá, seria possível nos casarmos em Connecticut, Nova Iorque ou qualquer local onde pudermos conseguir uma licença?” Eu disse a eles que ficaria honrado em celebrar o seu casamento em qualquer igreja católica do planeta

Disse-me outro casal, ambos de famílias numerosas, que, compreensivelmente, estavam frustrados porque só teriam uns poucos irmãos na cerimônia: “O mais importante, padre, é que o senhor, nós dois e as nossas duas testemunhas estarão lá, porque desse modo o casamento poderá acontecer”.

Manifestaram, porém, a sincera esperança de que a sua diocese lhes permitiria celebrar uma Missa nupcial, para poderem receber, depois de vários meses, a Sagrada Eucaristia. Fico feliz em dizer que a diocese acabou de retirar a suspensão das Missas públicas. Além disso, a igreja onde se casarão é tão grande, que todos os familiares e amigos que esperavam convidar no início poderão comparecer sem dificuldades, respeitando plenamente as novas orientações de distanciamento social e do percentual de ocupação.   

Nenhuma dessas decisões foi tomada sem desconforto. Alguns casais que estou preparando para o Matrimônio neste ano também decidiram adiar a celebração para 2021, porque não conseguem imaginar uma cerimônia sem a presença de todos os amigos e familiares, ou sem uma alegre recepção depois dela. Independentemente da decisão, quando esses casais ficaram noivos e começaram a falar comigo, nenhum deles jamais imaginou que teria de postergar um dia tão esperado por causa de uma pandemia.  

No entanto, percebi algumas características comuns aos casais que escolheram manter as datas. 

A primeira delas é uma forte consciência de sua vocação. Sabem que são chamados por Deus ao Matrimônio e querem responder prontamente a Ele.

Como parte da preparação para o Matrimônio, quando um casal me diz que espera ser abençoado por Deus com filhos, embora pretenda esperar uns dois anos antes de tentar engravidar, recordo-lhe gentilmente que uma das grandes tentações do demônio é nos fazer pensar que “sempre há tempo”.

Eu lhes pergunto: “Se soubessem que ficariam casados por apenas cinco anos antes de um dos dois falecer heroicamente, isso mudaria o que vocês pensam a respeito do momento adequado para começar a ter filhos?” Essa pergunta sempre os leva a mudar de cabeça e de planos.

Fiquei muito satisfeito quando um dos casais, ao ser confrontado com a decisão de adiar ou não o Matrimônio, disse o seguinte: “Padre, se, pela vontade de Deus, só conseguirmos ficar casados por cinco anos antes que um de nós dê a vida para salvar a do outro”, disse a futura esposa, “preferimos passar esse tempo como marido e mulher. Nossa vocação é o Matrimônio, não o noivado!

A segunda característica é um profundo apreço pelo que acontece no sacramento do Matrimônio, a convicção e a fé em dar prioridade ao vínculo criado por Deus, antes que à presença de todos os familiares e amigos na celebração, à recepção, à viagem de lua de mel e às diversas coisas que, embora belas e significativas, eles não consideram tão importantes. Numa época em que muitos noivos vivem juntos e outros se comportam como se fossem casados, em geral os casais que escolhem manter as datas tratam o casamento como um acontecimento em que Deus cria algo profundamente novo, uma comunhão consigo e entre o casal, desejada por eles e que não pretendem adiar.  

O terceiro traço é o seguinte: aqueles que mantêm a data de Matrimônio estão vivendo de forma patente a castidade. Como qualquer outro casal, esses noivos sentem desejo um pelo outro, mas sabem que, do ponto de vista moral, só poderão consumá-lo e tornar-se uma só carne quando Deus os unir. Não estão dispostos a esperar mais um ano para terem enfim uma celebração completa, pois esperaram ansiosamente a vida inteira para encontrar a pessoa certa e começar a “receber com amor os filhos que Deus lhes enviar e educá-los segundo a lei de Cristo e da Igreja”.

A decisão de se casarem em plena pandemia e em tempos difíceis é um poderoso anúncio de que os noivos levam realmente a sério o que professam um ao outro em seus votos. De forma dramática, eles põem em prática aquelas palavras desde o primeiro dia de sua convivência conjugal. E dão à Igreja e ao mundo um belo, estimulante e instigante testemunho.

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