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O Cristo Redentor e seu significado para o Brasil
Espiritualidade

O Cristo Redentor
e seu significado para o Brasil

O Cristo Redentor e seu significado para o Brasil

Em 12 de outubro de 1931, no Rio de Janeiro, era inaugurada pelo Cardeal Sebastião Leme, no alto do Corcovado, a imagem do Cristo Redentor. Mas com que propósito foi erigido esse monumento e qual o seu significado, hoje, para esta Terra de Santa Cruz?

Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Outubro de 2021Tempo de leitura: 6 minutos
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No período da República Velha, as autoridades civis empreenderam uma série de reformas cujo escopo era a geração de um país que nada mais tivesse a ver com a fé católica. Cortada a raiz da religião, com a separação entre Igreja e Estado, os republicanos secularizaram escolas e cemitérios, inventaram o casamento civil e promulgaram uma Constituição sem sequer citar o nome de Deus. Para eles, era tempo de erigir um Estado liberal, maçônico e positivista, a tão sonhada sociedade da ordem, do progresso e do amor, onde reinaria a “liberdade de consciência” contra o “obscurantismo medieval” que a Igreja encarnava.

Não demorou muito para que esse projeto desmoronasse. Da pena de Ruy Barbosa vieram os mais severos vitupérios contra o que havia se tornado a República na mão das oligarquias. Segundo o então senador, o contrapeso aos desmandos do Executivo estaria no Supremo Tribunal Federal, “essa instituição criada sobretudo para servir de dique, de barreira e de freio às maiorias parlamentares, para conter as expansões do espírito do partido”.

O episcopado brasileiro, por sua vez, tendeu a uma solução mais auspiciosa: a restauração católica. Liderados pela figura imponente do Cardeal Sebastião Leme, arcebispo do Rio de Janeiro, o clero e o laicato saíram a campo para impregnar de novo a sociedade brasileira com o espírito religioso sob o qual ela havia nascido. Com isso, a Igreja punha em prática a lição do Papa Pio XI na encíclica Quas Primas, mostrando que o “acúmulo de males” que invadira o país não tinha outra causa senão o afastamento do Estado e da maioria dos homens em relação à Pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo. “Certa esperança de verdadeira paz entre os povos”, com efeito, “nunca brilhará enquanto os indivíduos e as nações negarem e rejeitarem o império de nosso Salvador” (cf. Quas Primas, 1).

Em 1931, o Cardeal Sebastião Leme inaugurou a imagem do Cristo Redentor no alto do Corcovado, no Rio de Janeiro, como símbolo máximo dessa restauração católica de que o Brasil tinha necessidade. Das palavras notáveis proferidas pelo eminente prelado naquele 11 de outubro, ao término do Congresso para o Cristo Redentor, vale a pena recolhermos aqui algumas e meditarmos sobre elas.

Primeiro,

quando um país há no mundo em que chegam a arregimentar um verdadeiro exército para uma guerra de extermínio ao nome de Deus, deve à pessoa do Papa chegar consoladora a notícia de que, nas outras bandas do mar, existe um povo que faz questão de ser fiel a Cristo Rei, fiel à Santa Igreja, fiel ao Soberano Pontífice.

Dom Sebastião Leme fazia referência à União Soviética, cujos tentáculos comunistas já desgraçavam o leste do mundo tanto por suas ideias subversivas como pelos gulags. Também neste nosso lado do globo, o México padecia sob governos de cunho marxista e anticristão. Por essa razão, devia ser mesmo motivo de grande júbilo para a Igreja universal saber que um país das proporções do Brasil — em meio à ameaça socialista, e depois de toda a campanha secularista da República — preferia colocar-se do lado de Cristo Rei, para que Ele reinasse sobre suas instituições e todo o seu povo. De fato, em 1955, o senador Nereu Ramos faria a grande consagração do Brasil ao Sagrado Coração de Jesus, em nome de todo o Parlamento, e diante do Cristo Redentor.

Segundo, o Cardeal Leme advertiu em todo caso que, “se os homens persistirem na contumácia das competições políticas regionais e pessoais, tudo isto irá estraçalhando a unidade da pátria”. Providencialmente, o Brasil foi visitado nesta mesma década por Nossa Senhora, que trouxe a seguinte mensagem às duas videntes de Cimbres, Pernambuco: “Minhas filhas, virão tempos calamitosos para o Brasil! Dizei a todo o povo que se aproximam três grandes castigos, se não fizer muita penitência e oração”. Dentre esses castigos estaria uma guerra civil, aos moldes da espanhola, que levaria o Brasil a um mar de sangue. Na Espanha, o país ficara dividido entre os sectários do general Franco e os revolucionários de Moscou. De modo semelhante, as guerras políticas colocariam os brasileiros nos braços do comunismo, a não ser que eles se devotassem ao Sagrado Coração de Jesus e ao Imaculado Coração de Maria.

Terceiro, jurando fidelidade ao Brasil e à integridade da Pátria, o Cardeal Leme exortou o povo lá reunido ao gesto piedoso e confiante:

Ó Pátria, ajoelha-te junto à cruz do Redentor, junto à cruz de onde nasceste grande e cresceste imensa. Brasil! Ó pátria, conserva-te de joelhos diante de Cristo Redentor porque assim poderás apresentar-te de pé diante das outras nações, adorando um só Cristo Redentor.

Inspirado no obelisco da Praça de São Pedro, no Vaticano, o cardeal mandou cravar aos pés do Cristo Redentor a seguinte frase: “Christus vincit, Christus regnat, Christus imperat, et Brasiliam suam ab omni malo defendat!Cristo vence, Cristo reina, Cristo impera, e contra todos os males defenda o seu Brasil!”. Com esta confiança, ele entendia que a nação brasileira jamais seria vencida “pelo estrangeiro invasor, nem retalhada pela guerra civil”.

Finalmente, Dom Leme encerrou o seu discurso com este augúrio: “Seremos o doce império em que não há lugar para tiranias. Nem a tirania de capitalismos vorazes. Nem a tirania da demagogia sangrenta. Nem a tirania dos potentados. Nem a tirania do povo”. Porque, afinal de contas, 

Cristo impera, e o seu império é o império da paz, do amor, da misericórdia e do perdão. Aqui na terra enluarada pela visão branca do Cristo não há vencedores nem vencidos. Somos todos irmãos, filhos da mesma pátria, membros da mesma família.

O Cristo Redentor foi inaugurado com uma Missa e bênção solenes no dia 12 de outubro de 1931. Aos 90 anos, a imagem encontra-se agora sob a ameaça de um projeto de lei, que pede a desapropriação do seu terreno com o intuito de que o Estado resguarde “a área para que os atos litúrgicos de todas as religiões sejam mantidos”. Tal notícia apenas compõe o mosaico de desvios e rixas no qual o Brasil é retratado, especialmente pela infidelidade ao Reinado Social de Jesus Cristo. Mitigado o dogma da fé, não há verdadeira sorte para o destino de uma nação que aposta as suas fichas mais em instituições irresponsáveis que na promessa de salvação de Nosso Senhor.

Na encíclica Quas Primas, Pio XI afirma sobre a harmonia e a paz dos povos que “é evidente que quanto maior o reino [de Cristo] e mais amplamente ele abraça o gênero humano, mais o vínculo de fraternidade que os une se enraíza na consciência dos homens”. O Cristo Redentor de braços abertos faz alusão a essa fraternidade, que só pode ser radicada nele e em nenhum outro princípio. Em 26 de outubro de 1922, quando ainda se iniciava a construção desse monumento, o sempre memorável Dom Aquino Corrêa fazia o seguinte voto: “que o século nascente, irradiando novas glórias por sobre a Pátria querida, possa ver, acima de todas elas, o Cristo Redentor a viver e reinar, mais do que nas alturas do Corcovado, na elevação moral da consciência católica de cada brasileiro” (Discursos, v. 2, t. 1. Brasília: Imprensa Nacional, 1985, p. 114). 

Preservar esse sinal tanto no alto do Corcovado como, principalmente, no coração dos brasileiros é a batalha mais urgente por ora... et haec omnia adicientur vobis, “e tudo o mais vos será dado em acréscimo”.

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São Francisco de Assis e a resposta ao chamado de Deus
Santos & Mártires

São Francisco de Assis
e a resposta ao chamado de Deus

São Francisco de Assis e a resposta ao chamado de Deus

Há uma lição a ser aprendida em cada detalhe da vida do Poverello de Assis, e com sua conversão não é diferente. Francisco luta com o chamado de Deus, resiste por um tempo, mas depois aceita. Naquela noite, ao fim de sua última festa, chega o momento da graça.

Sarah MettsTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Outubro de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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No dia 4 de outubro, a Igreja celebra a festa de São Francisco de Assis, o “pequeno pobre homem” cuja vida inspira pessoas de todas as religiões há mais de 800 anos. G. K. Chesterton disse de São Francisco: “Foi um poeta cuja vida inteira foi um poema”. Certamente, a maioria de nós está familiarizada com os principais acontecimentos do poema: São Francisco abraça o leproso; Cristo pede-lhe que reconstrua sua Igreja; São Francisco despe-se e renuncia a todos os seus bens; arrisca a vida para pregar ao Sultão; e torna-se a primeira pessoa a receber os estigmas.

A desvantagem de estar familiarizado com a vida de um santo, porém, é que ela começa a parecer mais um conto de fadas e menos um relato verdadeiro da fé e do heroísmo de uma pessoa real, que pode ser uma inspiração para vivermos hoje de maneira diferente. Seria uma tragédia fazer isso com São Francisco, porque sua vida transborda de inspiração para quem deseja viver o Evangelho e aproximar-se de Deus. Embora as histórias de Francisco a pregar aos pássaros, a domesticar o lobo de Gubbio e a jejuar por quarenta dias com meio pão de forma sejam belas e profundamente comoventes, pode ser difícil para algumas pessoas ver como esses eventos podem ser aplicados aos problemas que enfrentamos hoje. Para aqueles que sentem ter pouco em comum com São Francisco, que fez tantos milagres, pode ser útil olhar para ele antes de sua conversão. Isso pode nos ajudar a lembrar que ele era um homem real, com ambições, desejos e fraquezas reais assim como nós, mas que foi capaz, com a graça de Deus, de escolher as coisas do céu em vez das coisas do mundo.

São Francisco de Assis, retratado por José de Ribera.

São Francisco de Assis nasceu no final de 1181 ou no início de 1182, filho de Pedro e Pica Bernardone. Seus biógrafos concordam que Francisco foi criado no luxo e na vaidade da época. Francisco aprendeu latim, o catecismo e a ler e escrever na escola; mas, quando jovem, foi mais influenciado pelas histórias de cavaleiros e contos de cavalaria que aprendeu com os trovadores que se espalharam da França para a Itália. Esses poetas cantavam sobre as lendas de Carlos Magno, do Rei Artur e de bravos cavaleiros, e essas histórias tiveram um grande impacto no jovem Francisco. Ele era generoso com seus amigos e com os pobres e, a certa altura, resolveu nunca recusar esmola a quem lha pedisse. Tomás de Celano, um dos seus primeiros biógrafos, diz: “Evitando ferir alguém e sendo muito cortês com todos, ele se fez amado universalmente”. Esses traços, seu amor pelos contos de cavalaria, sua generosidade para com os pobres e sua cortesia para com todos que encontrava, permaneceram sempre com Francisco e foram as sementes da grande santidade que mais tarde marcaria sua vida.

Francisco cresceu em uma época de guerras constantes, quando as cidades lutavam continuamente entre si e a fama era conquistada na batalha. Quando Francisco tinha cerca de 25 anos, surgiu uma disputa entre os príncipes alemães e o Papa Inocêncio III, e a guerra eclodiu. Como muitos outros soldados da Itália, Francisco decidiu juntar-se aos exércitos papais. Ele gastou uma pequena fortuna preparando as roupas, armaduras e equipamentos de que precisaria para a batalha, e então partiu às pressas para a Apúlia, no sul da Itália. No caminho, encontrou um cavaleiro vestido de trapos e, com pena, Francisco tirou as vestes bordadas que levava e deu-lhas. Naquela noite, dormiu e teve um sonho. Nele, a casa do pai estava cheia de armas e soldados, e uma linda princesa seria sua noiva. Quando acordou, ficou por um momento cheio de alegria; mas, depois de refletir um pouco, Francisco ficou perturbado, porque concluiu que o sonho não simbolizava a honra e a glória terrena que tanto desejava. Ele continuou sua jornada e, na noite seguinte, parou em Espoleto. Enquanto dormia, ouviu uma voz dizendo-lhe que voltasse ao próprio país, onde lhe seria revelado o que devia fazer a seguir. No dia seguinte, ele voltou a Assis, onde ficou claro para as pessoas que o conheciam que Francisco era um homem mudado. 

Como de costume, os amigos o convidaram para uma festa e ele aceitou. Entretanto, não podia mais desfrutar da farra e da bebida e, então, no fim daquela noite, quando todos saíram do salão de festas, ele começou a rezar. Seu biógrafo, Tomás de Celano, escreve:

Foi então que a graça divina desceu sobre ele, iluminando-o quanto ao nada das vaidades terrenas e revelando-lhe as realidades invisíveis. De repente, foi inundado por uma tal torrente de amor, submerso em tal doçura, que ficou ali imóvel, sem ver nem ouvir nada. Com o tempo, perdeu todo o gosto pelos negócios e gradualmente se foi afastando do mundo.

Depois dessa revelação, nada mais no mundo o satisfazia, e ele só encontrava contentamento nas coisas de Deus. Mesmo que ainda não soubesse exatamente o que Deus o estava chamando a fazer, ele começou a investir o tempo em orações e meditações, confiando em que Deus lhe mostraria o caminho. Conhecemos o resto da história e sabemos do incrível impacto que a vida de São Francisco teve nas pessoas que ele conheceu em vida e em todos aqueles que leram ou ouviram falar dele nos últimos oito séculos. Há uma lição a ser aprendida em cada detalhe e acontecimento da vida de São Francisco, e com esta história não é diferente. Nela, vemos o desejo de Francisco de fazer grandes coisas, coisas heróicas; sua generosidade para com todos; e sua cortesia para com todas as pessoas que conheceu. Esses elementos foram o terreno fértil para o seu crescimento na graça de Deus. Vemos Francisco lutar com o chamado de Deus, resistir por um tempo, mas depois aceitar. Naquela noite, ao final da última festa em que estaria com os amigos, chegou o momento da graça: ele experimentou o consolo de Deus e viu claramente o vazio do mundo. Depois, passou algum tempo em oração, sem saber o que fazer a seguir, mas confiando em que Deus o ajudaria.

Cada um de nós pode aplicar esse exemplo na própria vida. Talvez os resultados não sejam tão notáveis como os da vida de São Francisco. Mas se persistirmos na caridade e nas boas obras; se ouvirmos a voz de Deus quando Ele nos chama; e se permanecermos abertos quando Ele nos mostrar que poder, popularidade, dinheiro e posses — tudo o que o mundo nos oferece — nunca nos irá satisfazer, nós seremos mudados. Viveremos com mais simplicidade, para poder dar mais aos necessitados; seremos cheios da alegria que só Deus pode nos dar; sem dúvida, estaremos mais próximos de Deus e poderemos compartilhar nossa fé com mais autenticidade. Ainda nesta vida, experimentaremos um pouco do que escreveu São Paulo e do que Francisco viveu tão lindamente: “Coisas que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou, tais são os bens que Deus tem preparado para aqueles que o amam” (1Cor 2, 9).

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Sem mosteiros e oração contemplativa, a Igreja morrerá
Espiritualidade

Sem mosteiros e oração
contemplativa, a Igreja morrerá

Sem mosteiros e oração contemplativa, a Igreja morrerá

A vitalidade missionária e externa da Igreja é diretamente proporcional à vitalidade da vida contemplativa nela escondida, assim como o aspecto de uma pessoa depende da saúde do seu coração.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Outubro de 2021Tempo de leitura: 4 minutos
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Na primeira semana de outubro, o calendário litúrgico da Igreja Católica nos apresenta um trio de religiosos, sendo uma carmelita, um franciscano e um cartuxo — ou melhor, a mais famosa carmelita moderna, o fundador dos franciscanos e o fundador dos cartuxos: Santa Teresa de Lisieux, São Francisco de Assis e São Bruno de Colônia. Cada um deles nos recorda de um modo diferente o seguimento radical de Cristo na pobreza, na castidade e na obediência; no silêncio, na solidão e na penitência; na contemplação, na liturgia e na caridade fraterna. “Não antepor nada à obra de Deus”, isto é, à liturgia sagrada, disse São Bento de Núrsia, que também disse: “Não preferir nada ao amor de Cristo”. Onde ainda se dá esse testemunho radical da primazia e da centralidade de Cristo?

Ao longo de minha vida, o Senhor me abençoou com visitas a muitos mosteiros e conventos, tanto na Europa como nos Estados Unidos, onde homens e mulheres vivem a vida religiosa de forma plena: liturgia solene cantada, um cronograma exigente, jejum e abstinência, muito estudo e lectio divina, trabalho manual... O pacote completo. 

Em muitos casos, esses monges e religiosas vivem uma vida, em essência, pouco diferente da vida dos pais e mães do deserto dos tempos antigos, como se a modernidade, com suas complexidades cada vez maiores e uma confusão cada vez mais profunda, não tivesse nada de importante a lhes dizer. E eles estão certos: ela só poderia falar-lhes de forma lúgubre do mundo, da carne e do demônio, enquanto eles estão buscando o céu, a graça e Deus, para si e para outros. Não precisam estar atualizados, na correria com todas as outras pessoas, num desejo frenético de ser notado, de ser relevante, de estar na vanguarda. Na verdade, é o mundo que precisa desesperadamente desses monges e religiosas, de sua oração, de sua paz. Por serem irrelevantes e imperceptíveis em sua jornada diária de oração e penitência, eles possuem um remédio que cura as vítimas da mudança implacável, da atividade frenética e da autocomiseração.

Essas visitas não me deixaram apenas impressionado. Mudaram minha forma de pensar sobre o que é realmente importante na vida e na Igreja. 

Enquanto participava dos bastidores da vida de cristãos para quem a Eucaristia, pão dos anjos descido do céu, é verdadeiramente a fonte e o ápice de todo o seu ser e fonte de sua alegria, comecei a me dar conta da magnitude da morte que a vida religiosa tradicional sofreu no período posterior ao Concílio Vaticano II. Nos mosteiros e casas religiosas, regras com séculos de existência foram subitamente descartadas; hábitos foram modificados ou abandonados; a rotina diária de oração foi duramente reduzida ou mesmo substituída por novidades insignificantes; a Santa Missa perdeu o espírito contemplativo, rebaixada a experimentos arbitrários e subjetivos. Locais que foram epicentros de devoção em cidades, províncias e países não podiam mais oferecer a leigos sedentos a concentração da oração e a pureza de visão que ardentemente desejavam. Os que conhecem as estatísticas sabem o que aconteceu: em poucos anos, a vida monástica colapsou em quase todos os lugares, já que muitos abandonaram suas vocações. Congregações e ordens inteiras desapareceram da face da terra. 

Embora um número muito maior de fiéis tenha sido prejudicado pelas inovações e pela dissidência nas paróquias e dioceses, a perda da plenitude da vida cristã vivida nos conventos e mosteiros, em total conformidade com Cristo, Sumo Sacerdote e Vítima, foi um golpe devastador no coração do Corpo Místico de Cristo na terra. Se a oração é o oxigênio da alma, como o Padre Pio disse certa vez, o colapso da vida monástica representou uma desoxigenação da força vital da Igreja. Tem-se afirmado com frequência que a vitalidade missionária e externa da Igreja é diretamente proporcional à vitalidade da vida contemplativa nela escondida, assim como o aspecto de uma pessoa depende da saúde do seu coração.

Foi somente porque a Igreja se convenceu da verdade dessa relação indissolúvel entre atividade e contemplação, trabalho e oração, exterior e interior, que ela declarou uma carmelita enclausurada, Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face, copadroeira das missões junto com São Francisco Xavier, o qual batizou centenas de milhares de pagãos. É como se nos dissessem: não haverá Xavieres se não houver Pequenas Flores

Temos a sorte de estar vivos exatamente agora, em meio à fase inicial de recuperação, à medida que o número de comunidade religiosas autênticas de homens e mulheres cresce rapidamente, pela misericórdia de Deus, apesar da masmorra, do fogo e da espada (ou de seus equivalentes eclesiásticos). Que o Senhor, que ama a fecundidade da vida escondida, a joia da contemplação celeste e o sol ardente da justiça interior, possa ter misericórdia de nós e nos salvar, pois Ele é benigno e ama a humanidade, e a Ele glorificamos, Pai, Filho e Espírito Santo, hoje e sempre para todo o sempre. Amém.

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O que todo católico precisa saber sobre os anjos
Doutrina

O que todo católico
precisa saber sobre os anjos

O que todo católico precisa saber sobre os anjos

O teólogo dominicano Pe. Serge Thomas-Bonino, secretário da Comissão Teológica Internacional e renomado especialista em anjos, explica fatos surpreendentes que todo católico deveria saber sobre estes nossos companheiros celestiais.

Solène TadiéTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Outubro de 2021Tempo de leitura: 11 minutos
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Depois de desaparecer da maioria dos lugares teológicos e filosóficos da era moderna, as questões relacionadas à angelologia recentemente retornaram ao Ocidente por meio de movimentos espirituais pós-modernos como a Nova Era.

Esse interesse crescente pelos anjos nas sociedades contemporâneas, no entanto, está dando origem a distorções perigosas da concepção metafísica cristã do mundo. 

Alertado pelas numerosas perversões deste importante elemento da fé cristã, o Padre Serge-Thomas Bonino, secretário da Comissão Teológica Internacional e reitor da faculdade de filosofia da Pontifícia Universidade de Santo Tomás de Aquino, em Roma, esforçou-se para fornecer sólidos fundamentos teológicos para a crença na existência de anjos por meio de seu livro Angels and Demons: A Catholic Introduction [N.T.: “Anjos e Demônios: uma Introdução Católica”, sem tradução portuguesa, livro que consta na bibliografia de nosso curso Anjos e Demônios]. 

Pe. Serge-Thomas Bonino.

O Padre Pio reafirmava incansavelmente a importância da oração ao próprio anjo da guarda; por sua vez, o Padre Bonino está convencido de que a figura angelical dá às criaturas humanas um antegozo da beleza e da grandeza de Deus. Segundo ele, o afastamento de muitos cristãos de seus companheiros celestiais, aliado ao atual clima de confusão espiritual, evidencia a urgente necessidade de falar desses espíritos, intermediários entre os domínios humano e divino, como via de evangelização.

Com a proximidade da festa dos Santos Arcanjos, 29 de setembro, e da dos Anjos da Guarda, 2 de outubro, o site norte-americano National Catholic Register buscou os valiosos insights de Bonino sobre esse assunto espiritual, muitas vezes negligenciado.


Frequentemente, denunciamos um “sequestro” da angelologia pelos movimentos da Nova Era, enquanto os próprios cristãos têm-se afastado gradualmente do tema. Como você explica esse fenômeno?

— Em primeiro lugar, é importante dizer que os anjos não são centrais para o cristianismo; a questão central é o mistério de Deus e de Cristo. Sua existência é, no entanto, um fato que a Escritura e a Tradição da Igreja sempre sustentaram, aprofundaram e apoiaram. Portanto, esta não é uma verdade opcional, embora não seja essencial. 

Penso que, nos últimos séculos do cristianismo, houve o desejo de “desmitologizar” a fé cristã de uma forma que nem sempre foi relevante e inteligente. Para dizê-lo de forma mais popular, às vezes jogávamos o bebê fora com a água junto.

Certamente, nos tempos antigos, a figura dos anjos estava ligada a certa cosmologia que não é mais a nossa. Mas a existência dos anjos e de suas ações na vida da Igreja e na dos seres humanos sempre foram elementos muito presentes na Escritura, e a Igreja sempre ensinou essa verdade. No Catecismo da Igreja Católica, há uma parte muito importante dedicada ao mundo invisível (cf. § 325–354), que também mencionamos no Credo (“todas as coisas visíveis e invisíveis”). 

Então, temo que os anjos, da forma como são apresentados nas espiritualidades da Nova Era, tenham muito pouco a ver com os anjos cristãos. Eles não são realmente seres espirituais, mas tipos de fantasmas ou “dublês”. Eles são uma invenção da imaginação. Portanto, a crença nos anjos deve ser sempre evangelizada. Significa que devemos pensar no mundo e, principalmente, nos anjos segundo os grandes mistérios do cristianismo, não segundo a nossa própria imaginação ou projeção. 

A perda de consideração pelos anjos da guarda é uma consequência da perda da fé do povo nas culturas e sociedades cristãs? 

— A doutrina relacionada aos anjos da guarda está intrinsecamente ligada à fé na Providência divina. Provavelmente, é a fé na Providência a que mais sofre, hoje em dia, de certa fraqueza. Vimos isso durante a crise do coronavírus. Deus nunca foi realmente levado em conta durante todo esse tempo. A melhor coisa que se disse foi que Deus apoiou os enfermos e os esforços da equipe médica, mas o fato de que o cosmos e os eventos estão todos nas mãos de Deus não é mais tão óbvio para muitos cristãos, infelizmente. 

Por isso, acredito que a devoção aos anjos da guarda é uma forma de lembrar que a Providência tem uma dimensão cotidiana e diz respeito aos detalhes próprios de nossas vidas. 

Qual é o papel específico do anjo da guarda na vida humana?

— Os anjos da guarda são um instrumento da Providência. Não são executores indiferentes, porque tudo o que fazem é fruto de sua própria caridade para conosco. Uma coisa que costumamos esquecer é que os anjos fazem parte da comunhão dos santos. No céu, eles participam da alegria da visão de Deus. Eles estão unidos a Deus e, portanto, desejam o que Deus deseja: a nossa salvação. Eles querem que os seres humanos se santifiquem. Assim, os anjos da guarda estão, por amor, a serviço do homem para o guiar no caminho que o conduz a Deus. 

No entanto, como todos devem saber, esse caminho está cheio de armadilhas. Por isso, precisamos da ajuda de nossos anjos da guarda, a qual pode assumir milhares de formas diferentes. Eles podem nos inspirar bons pensamentos e resoluções. Gosto de citar o lindo filme Wings of Desire, de Wim Wenders [“Asas do Desejo”, em português], em que vemos anjos da guarda circular pela cidade de Berlim. Em uma cena que se passa em um ônibus em Berlim, vemos um homem totalmente desesperado. Ele pensa que desperdiçou a vida; ele até considera o suicídio. Nesse ponto, vemos um anjo da guarda aparecer (o personagem não o vê) e colocar o braço em volta de seus ombros, sem dizer nada. Podemos sentir que ele está transmitindo algo. Ouvimos a ruminação interna do homem parar de repente, enquanto seus pensamentos vão aos poucos para outra direção. Ele começa a ver alguns aspectos positivos na vida: lembra-se de um gesto simpático que recebeu de um amigo; lembra-se das pessoas que se importam com ele e finalmente começa a ganhar um novo coração.

Esta cena é, a meu ver, uma forma muito bonita de explicar a ação dos anjos da guarda, que podem nos inspirar bons pensamentos e desejos. Eles também podem agir em circunstâncias externas de nossas vidas para nos proteger em tempos difíceis, para evitar acidentes, favorecer o encontro com outras pessoas e assim por diante. Todas essas ações pertencem à Providência, que se concretiza por meio deles. 

A festa dos anjos da guarda é realmente uma celebração da Providência divina, que usa cada criatura para nos guiar em direção ao nosso Criador. Essas criaturas podem, é claro, ser anjos, nossos parentes no céu, mas também nossos pais, amigos ou padres.

Quais são os principais erros da concepção pós-moderna de anjos? 

— Há um primeiro erro, que não é especificamente pós-moderno e que os cristãos também podem cometer. Trata-se de uma espécie de infantilização do relacionamento com o anjo da guarda, de pensar que ele está aqui para realizar todos os nossos desejos. Nossos anjos da guarda não devem executar nossos desejos, mas realizar a vontade de Deus para nós, fazer que desejemos o que Deus quer para nós. 

Então, eu penso que o anjo pós-moderno é uma espécie de reação ao enfraquecimento de nossa relação com o cosmos. Já que o cosmos é visto como uma espécie de grande máquina inerte que somente a ciência poderia explicar — como é o caso da mentalidade contemporânea —, então os sonhos são necessários. Portanto, nós [como sociedade secular] compensamos a aridez e o desencanto do mundo reencantando-o de forma puramente antropocêntrica, imaginando criaturas estranhas que estariam a nosso serviço. Eles não são mais criaturas a serviço dos planos de Deus. Esta é a grande diferença entre os anjos cristãos e as figuras que podemos encontrar na cultura contemporânea. 

Qual é a diferença concreta entre arcanjos e anjos da guarda?

“Retábulo dos Três Arcanjos”, de Marco d’Oggiono.

— Na Escritura, encontramos várias categorias de anjos. Posteriormente, elas foram sistematizadas por Pseudo-Dionísio, o Areopagita, na obra Sobre a hierarquia celeste, onde se distinguem nove categorias de anjos. Nesta hierarquia, os anjos mais elevados, os querubins e serafins, são os que estão mais voltados para a adoração a Deus. Todos os anjos adoram a Deus, mas alguns deles estão mais dedicados a isso. Os outros anjos, que estão mais próximos do mundo material, são enviados por Deus para ajudar os seres humanos na terra. A categoria “mais baixa” — se é que posso usar esse termo, considerando que são infinitamente superiores a nós — são os simples anjos. E logo acima estão os arcanjos, que têm missões importantes no que diz respeito à história da humanidade. Foi, por exemplo, o arcanjo Gabriel quem anunciou a boa-nova da Encarnação a Maria. Essas categorias nunca foram formalmente definidas pela Igreja, mas fazem parte de uma venerável tradição. Então, digamos que os arcanjos estão acima dos anjos da guarda, como um general está acima de um soldado. 

Que poder os anjos têm, em suas ações, sobre os anjos decaídos?

— Eles têm o poder de cumprir as ordens de Deus contra os demônios. Portanto, seu poder sobre os demônios depende do poder de Deus sobre os demônios. Deus permite que o diabo faça coisas que podem, de alguma forma, ser boas para uma pessoa. Por exemplo, Ele pode deixar um demônio nos tentar para nos tornar mais fortes, para nos tornar capazes de mostrar mais caridade em nossa vida, para crescer espiritualmente. Entretanto, Deus também pode prevenir algumas ações demoníacas porque isso atrapalharia seu plano, e os anjos sempre realizam a sua vontade. Portanto, eles são capazes de prevenir algumas ações dos demônios contra os seres humanos. 

Santo Tomás de Aquino costumava dizer que um anjo da guarda é atribuído a cada criatura humana desde a sua concepção, a fim de evitar os perigos que vêm dos demônios, que obviamente desejam a morte dos homens.

Qual é o poder de intercessão específico dos anjos, em comparação com o dos santos?

Eles têm o mesmo poder. Os anjos, precisamente porque pertencem à comunhão dos santos, rogam por nós. É por isso que os invocamos durante a Ladainha de Todos os Santos, e até começamos com eles, depois da Virgem Maria.

Mas os anjos têm uma dupla mediação, ou seja, uma mediação ascendente e uma mediação descendente. Por um lado, trazem e nos transmitem a ternura de Deus e, por outro, nos fazem subir a Deus em oração e intercedem por nós. É por isso que a Bíblia diz que eles oferecem incenso a Deus, pois o incenso é o símbolo da oração que sobe a Deus. Vemos isso claramente na Sagrada Escritura, que nos diz que os anjos sobem sobre o Filho de homem (cf. Jo 1, 51), ou seja, fazem as nossas orações subirem a Deus e, depois, descerem para nós as bênçãos de Deus, transmitindo-nos bons pensamentos e graças. 

Como a Igreja poderia se reapropriar da angelologia, aproveitando o crescente interesse das pessoas por essas criaturas celestiais? 

Devemos continuar evangelizando as crenças das pessoas em relação aos anjos, como a Igreja sempre fez no passado. Acho que nosso ensino sobre os anjos não deve ocupar o centro das atenções, mas é importante, pois nos lembra a dimensão espiritual da existência. 

O simples fato de pensar em um mundo angelical, que é um mundo puramente espiritual, seria uma boa maneira de lutar contra o materialismo subjacente do mundo e fazer as pessoas entenderem que não existem apenas realidades materiais. A pregação sobre os anjos convida-nos a ter uma ideia maior e mais bela de Deus, como recorda a Liturgia dos Santos Anjos que celebraremos. Na verdade, o prefácio diz: “É a vós que glorificamos, ao louvarmos os anjos, que criastes e que foram dignos do vosso amor. A admiração que eles merecem nos mostra como sois grande e como deveis ser amado acima de todas as criaturas”.

Pensar na beleza do mundo angélico nos permite vislumbrar a beleza e a grandeza de Deus

Hoje em dia, ao pensar no que é um ser humano, duas referências vêm à mente.

A primeira é a de um macaco. Ensinamos às crianças que os seres humanos são uma espécie de macaco aperfeiçoado. É verdade que temos um enraizamento no mundo animal, isso é certo. Mas lembrar que também temos um enraizamento no mundo espiritual e que nossos parentes mais próximos podem não ser chimpanzés, mas anjos, muda nossa percepção da humanidade. Somos chamados a essa reflexão quando o Senhor diz que seremos “como os anjos no céu” (Mt 22, 30). Ele não diz que seremos como chimpanzés em suas bananeiras, mas como anjos.

O segundo modelo é o de um robô. Quando tentamos pensar sobre a pessoa humana, tendemos a compará-la com o que um robô pode ou não pode fazer. E pensar que nosso verdadeiro modelo, através do qual devemos nos considerar, é um anjo e não um robô, ajuda a colocar a pessoa humana em seu devido lugar. 

Assim, o homem terá uma noção de sua grandeza, e isso o fará entender que ele não é uma espécie de robô fracassado porque algumas de suas funções nem sempre funcionam muito bem, nem uma espécie de super-macaco, mas um parente encarnado dos anjos. Na verdade, por meio de sua alma, o ser humano está em contato próximo com o mundo espiritual dos anjos. Esta é uma boa maneira de nos aproximar de Deus. Portanto, os anjos podem ser bons intermediários para nos levar a Deus. 

Existe alguma oração específica aos santos anjos que costuma rezar e queira recomendar aos nossos leitores?

— Eu mencionaria, é claro, a oração ao nosso anjo da guarda. E há orações muito bonitas durante a Missa na festa dos Santos Arcanjos e Anjos da Guarda. Então, podemos orar a eles de maneira muito simples e direta, como oramos aos santos. 

Assim como o arcanjo Rafael guiou o jovem Tobias em sua jornada a Ecbátana (cf. Tb 5, 5-15), podemos invocá-lo também, pedindo-lhe que seja nosso companheiro de viagem, tanto para uma viagem física quanto para nossa jornada espiritual em direção a Deus.

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