CNP
Christo Nihil Præponere"A nada dar mais valor do que a Cristo"
Evangelize compartilhando!
Todos os direitos reservados a padrepauloricardo.org®
O que o autor de “O Senhor dos Anéis” pensava sobre o casamento
Doutrina

O que o autor de “O Senhor
dos Anéis” pensava sobre o casamento

O que o autor de “O Senhor dos Anéis” pensava sobre o casamento

Carta de J. R. R. Tolkien para o seu filho Michael revela visão profundamente cristã e realista do escritor a respeito do matrimônio. “A fidelidade no casamento cristão”, ele admite, “acarreta em grande mortificação”.

Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Outubro de 2015Tempo de leitura: 10 minutos
imprimir

Além de escrever com excelência, J. R. R. Tolkien – o autor de "O Senhor dos Anéis", "O Hobbit" e "O Sillmarillion" – foi também um devotado católico e dedicado pai de família. É o que se percebe pela leitura de suas obras e, sobretudo, de suas biografias e cartas pessoais.

Uma delas, endereçada a seu filho Michael [1], é de grande preciosidade. Contém a visão nitidamente cristã de Tolkien em relação ao casamento e lança uma luz extraordinária na doutrina moral da Igreja sobre a sexualidade.

Companheiros em um naufrágio

A carta em questão foi escrita em março de 1941 e descreve todo um itinerário do relacionamento entre homem e mulher, desde a clássica distinção entre os tipos de amor até a redenção do casamento por Jesus.

Tolkien começa sua narrativa pela famosa história da Queda:

"Este é um mundo decaído. A desarticulação do instinto sexual é um dos principais sintomas da Queda. O mundo tem 'ido de mal a pior' ao longo das eras. As várias formas sociais mudam, e cada novo modo tem seus perigos especiais: mas o 'duro espírito da concupiscência' vem caminhando por todas as ruas, e se instalou em todas as casas, desde que Adão caiu."

O romantismo do autor d'O Senhor dos Anéis não obscurece a visão que ele tem da realidade. Estamos marcados pelo pecado original e, nessa condição, não só o ser humano é capaz de ter sexo sem levar em conta o espírito da pessoa com quem se envolve – "para o grande dano de sua alma (e corpo)" –, como a própria relação de amizade "que deveria ser possível entre todos os seres humanos é praticamente impossível entre um homem e uma mulher":

"O diabo é incessantemente engenhoso, e o sexo é seu assunto favorito. Ele é da mesma forma bom tanto em cativá-lo através de generosos motivos românticos ou ternos quanto através daqueles mais vis ou mais animais. Essa 'amizade' tem sido tentada com freqüência: um dos dois lados quase sempre falha. Mais tarde na vida, quando o sexo esfria, tal amizade pode ser possível. Ela pode ocorrer entre santos. Para as pessoas comuns ela só pode ocorrer raramente: duas almas que realmente possuam uma afinidade essencialmente espiritual e mental podem acidentalmente residir em um corpo masculino e em um feminino e ainda assim podem desejar e alcançar uma 'amizade' totalmente independente de sexo. Porém, ninguém pode contar com isso."

Na "romântica tradição cavalheiresca" – nota Tolkien –, é possível perceber uma relativa dose de virtudes humanas, que fazem o amor meramente natural desfrutar, "se não de pureza, pelo menos de fidelidade, abnegação, 'serviço', cortesia, honra e coragem". Só isso, porém, não é suficiente para remir a sexualidade de sua decadência. Esse amor "pode ser muito nobre", ele admite, mas:

" Ele tende a tornar a Dama uma espécie de divindade ou estrela guia (...). Isso é falso, é claro, e na melhor das hipóteses fictício. A mulher é outro ser humano decaído com uma alma em perigo.

Ele leva (ou, de qualquer maneira, levou no passado) o rapaz a não ver as mulheres como elas realmente são, como companheiras em um naufrágio, e não como estrelas guias.

Um resultado observado é que na verdade ele faz com que o rapaz torne-se cínico. Leva-o a esquecer os desejos, necessidades e tentações delas. Impõe noções exageradas de 'amor verdadeiro', como um fogo vindo de fora, uma exaltação permanente, não-relacionado à idade, à gestação e à vida simples, e não-relacionado à vontade e ao propósito.

Um resultado disso é fazer com que os jovens — homens e mulheres — procurem por um 'amor' que os manterá sempre bem e aquecidos em um mundo frio, sem qualquer esforço da parte deles; e o romântico incurável continua procurando até mesmo na sordidez das cortes de divórcio."

A graça que aperfeiçoa a natureza

"Gratia non tollit, sed perficit naturam – a graça não destrói a natureza, mas a leva à perfeição" [2], ensina Santo Tomás de Aquino. Assim também, a Redenção operada por Jesus não transforma o casamento de modo "mágico", como se todos os defeitos de nossa natureza decaída sumissem num estalar de dedos. Tolkien mostra compreender bem isso, quando, ao falar sobre o casamento à luz da graça, explica em que consiste a natureza, tanto do homem, quanto da mulher:

"Você pode encontrar na vida (como na literatura) mulheres que são volúveis, ou mesmo puramente libertinas — não me refiro a um simples flerte, o treino para o combate real, mas às mulheres que são tolas demais até mesmo para levar o amor a sério, ou que são de fato tão depravadas ao ponto de desfrutar as 'conquistas', ou mesmo que apreciem causar dor — mas essas são anormalidades, embora falsos ensinamentos, uma má criação e costumes deturpados possam encorajá-las.

Muito embora as condições modernas tenham modificado as circunstâncias femininas, e o detalhe do que é considerado decoro, elas não modificaram o instinto natural. (...) Uma mulher jovem, mesmo uma 'economicamente independente', como dizem agora (o que na verdade geralmente significa subserviência econômica a empregadores masculinos ao invés de subserviência a um pai ou a uma família), começa a pensar no 'enxoval' e a sonhar com um lar quase que imediatamente. Se ela realmente se apaixonar, o navio naufragado pode de fato acabar nas rochas.

De qualquer maneira, as mulheres são em geral muito menos românticas e mais práticas. Não se iluda com o fato de que elas são mais 'sentimentais' no uso das palavras — mais espontâneas com 'querido' e coisas do gênero. Elas não querem uma estrela guia. Elas podem idealizar um simples jovem como um herói, mas elas não precisam realmente de tal deslumbramento tanto para se apaixonarem como para permanecerem assim. Se elas possuem alguma ilusão, é a de que podem 'remodelar' os homens. Elas aceitarão conscientemente um canalha e, mesmo quando a ilusão de reformá-lo mostrar-se vã, continuarão a amá-lo.

Elas são, é claro, muito mais realistas sobre a relação sexual. A não ser que sejam corrompidas por péssimos costumes contemporâneos, elas via de regra não falam de modo 'obsceno'; não porque sejam mais puras do que os homens (elas não são), mas porque não acham isso engraçado. Conheci aquelas que aparentavam achar isso engraçado, mas é fingimento. Tais coisas podem lhes ser intrigantes, interessantes, atraentes (em boa parte atraentes demais): mas é um interesse natural honesto, sério e óbvio; onde está a graça?

Elas precisam, é claro, ser ainda mais cuidadosas nas relações sexuais (...). Erros lhes causam danos física e socialmente (e matrimonialmente). Mas elas são instintivamente monogâmicas, quando não-corrompidas.
Os homens não são. Não há por que fingir. Os homens simplesmente não o são, não por sua natureza animal. A monogamia (ainda que há muito venha sendo fundamental às nossas idéias herdadas) é para nós, homens, uma porção de ética 'revelada', em concordância com a fé e não com a carne. Cada um de nós poderia gerar de forma saudável, por volta dos nossos 30 anos, algumas centenas de filhos e apreciar o processo."

"Para um homem cristão, não há saída"

"Este é um mundo decaído, e não há consonância entre nossos corpos, mentes e almas. Entretanto, a essência de um mundo decaído é que o melhor não pode ser alcançado através do divertimento livre, ou pelo o que é chamado 'auto-realização' (em geral um belo nome para auto-indulgência, completamente hostil à realização de outros aspectos da personalidade), mas pela negação, pelo sofrimento. A fidelidade no casamento cristão acarreta nisto: grande mortificação.

Para um homem cristão não há saída. O casamento pode ajudar a santificar e direcionar os desejos sexuais dele ao seu objeto apropriado; a graça de tal casamento pode ajudá-lo na luta, mas a luta permanece. A graça não irá satisfazê-lo — tal como a fome pode ser mantida à distância com refeições regulares. Ela oferecerá tantas dificuldades à pureza própria desse estado quanto fornece facilidades. Homem algum, por mais que amasse verdadeiramente sua noiva quando jovem, viveu fiel a ela como esposa na mente e no corpo, sem um exercício consciente e deliberado da vontade, sem abnegação. Isso é dito a poucos — mesmo àqueles educados 'na Igreja'. Aqueles de fora parecem que raramente ouviram tal coisa.

Quando o deslumbramento desaparece, ou simplesmente diminui, eles acham que cometeram um erro, e que a verdadeira alma gêmea ainda está para ser encontrada. A verdadeira alma gêmea com muita freqüência mostra-se como sendo a próxima pessoa sexualmente atrativa que aparecer. Alguém com quem poderiam de fato ter casado de uma maneira muito proveitosa 'se ao menos...'. Por isso o divórcio, para fornecer o 'se ao menos...'.

E, é claro, via de regra eles estão bastante certos: eles cometeram um erro. Apenas um homem muito sábio no fim de sua vida poderia fazer um julgamento seguro a respeito de com quem, entre todas as oportunidades possíveis, ele deveria ter casado da maneira mais proveitosa! Quase todos os casamentos, mesmo os felizes, são erros: no sentido de que quase certamente (em um mundo mais perfeito, ou mesmo com um pouco mais de cuidado neste mundo muito imperfeito) ambos os parceiros poderiam ter encontrado companheiros mais adequados.

Mas a 'verdadeira alma gêmea' é aquela com a qual você realmente está casado. Na verdade, você faz muito pouco ao escolher: a vida e as circunstâncias encarregam-se da maior parte (apesar de que, se há um Deus, esses devem ser Seus instrumentos ou Suas aparências). (...) Neste mundo decaído, temos como nossos únicos guias a prudência, a sabedoria (rara na juventude, tardia com a idade), um coração puro e fidelidade de vontade."

Conselhos de um homem casado

Tolkien e sua esposa, Edith. Retrato de 1966.

J. R. R. Tolkien, como se sabe, foi um homem casado. Tendo vivido em boa parte do século XX, o escritor presenciou a reascensão do divórcio no mundo, mas, em sua sabedoria, decidiu não participar da confusão. O casamento dele com Edith Bratt durou 55 longos anos, até que a morte os separasse.

Desde o princípio, porém, ele havia compreendido que o amor está necessariamente ligado à renúncia e à abnegação de si mesmo. Quando conheceu Edith, aos 16 anos, ele ficou instantaneamente encantado e chegou mesmo a começar um namoro com a moça. O seu "guardião" e pai espiritual, no entanto, temendo que o romance atrapalhasse a sua formação, aconselhou-o a não mais ver Edith, até que ele chegasse à maioridade.

"Tive de escolher entre desobedecer e magoar (ou enganar) um guardião que havia sido um pai para mim, mais do que a maioria dos pais verdadeiros, mas sem qualquer obrigação, e 'desistir' do caso de amor até que eu completasse 21", ele escreve. "Não me arrependo de minha decisão, embora ela tenha sido muito difícil (...). Por quase três anos eu não vi ou escrevi à minha amada. Foi extremamente difícil, doloroso e amargo."

Com 24 anos, eles finalmente se casaram e deram início a um relacionamento feliz e duradouro, do qual vieram quatro filhos: John (que se tornou padre), Michael, Christopher e Priscilla.

Numa época em que membros do próprio clero veem (e chegam a pregar) a castidade como algo inatingível, as palavras de Tolkien são uma lufada de ar fresco para muitos jovens casais que querem entregar-se a Deus pelo sacramento do Matrimônio. Mostram que continua sendo um erro gravíssimo concluir "que a norma ensinada pela Igreja é em si própria apenas um 'ideal' que deve posteriormente ser adaptado, proporcionado, graduado" [3], como se Deus nos mandasse o impossível e o impraticável.

Com as nossas próprias forças, é verdade, a luta pela pureza e pela perfeição será sempre árdua e praticamente fadada ao fracasso. Com a graça de Deus, no entanto, ela não só é possível, como deve ser a meta para a qual caminhamos com sempre maiores amor e fervor.

"Cristo redimiu-nos!": brada o Papa São João Paulo II, em sua encíclica Veritatis Splendor [3]. Mais que filhos de Adão e Eva, somos, agora, filhos de Jesus e Maria! Percorramos, pois, confiante e generosamente o caminho da Cruz, que, neste mundo, é o único caminho para amarmos a Deus.

Escutemos, por fim, um último conselho do autor d'O Senhor dos Anéis a seu filho, Michael, e vejamos se não são as palavras acaloradas de um pai que ama o seu filho e quer vê-lo no Céu:

"Da escuridão da minha vida, tão frustrada, coloco diante de você a única grande coisa para se amar sobre a terra: o Santíssimo Sacramento. Nele você encontrará romance, glória, honra, fidelidade e o verdadeiro caminho de todos os seus amores sobre a terra. Mais do que isso, você encontrará a Morte: pelo divino paradoxo, o qual encerra a vida e demanda a entrega total; e ainda pelo único gosto (ou antegosto) do qual o que você procura em seus relacionamentos terrenos (amor, fidelidade, alegria) pode ser mantido ou tomar aquela compleição de realidade – de duração eterna – que todo coração humano deseja."

Referências

  1. Carta n. 43, a Michael Tolkien (6-8 de março de 1941). In: As Cartas de J. R. R. Tolkien (org. de Humphrey Carpenter e trad. de Gabriel Oliva Brum). Curitiba: Arte & Letra, 2006.
  2. Suma Teológica, I, q. 1, a. 8, ad 2.
  3. Carta Encíclica Veritatis Splendor (6 de agosto de 1993), n. 103.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Crescimento do ocultismo aumenta demanda por exorcistas na Igreja
Notícias

Crescimento do ocultismo aumenta
demanda por exorcistas na Igreja

Crescimento do ocultismo aumenta demanda por exorcistas na Igreja

Congresso de exorcistas na Itália denuncia epidemia de práticas ocultas e satânicas no mundo. “Esperamos a nomeação de um maior número de exorcistas na Igreja”, pede padre italiano.

AvvenireTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere30 de Setembro de 2015Tempo de leitura: 3 minutos
imprimir

Formação e debates para levantar barreiras às agressões do mal e saber reconhecer aquelas "portas e janelas" abertas à ação do demônio. São os objetivos do congresso nacional de exorcistas italianos que acaba de concluir-se em Roma. É o primeiro após o reconhecimento oficial, dado em junho de 2014, da Associação Internacional de Exorcistas, que conta com 400 sacerdotes inscritos de todo o mundo. Um ponto de partida importante para trabalhar com ânimo nesse campo, como sublinha o presidente da associação, o padre Francesco Bamonte, em reunião com cerca de 150 exorcistas da Itália.

"Enviamos uma carta com a cópia dos estatutos a todos os bispos italianos e aos bispos das nações onde operam as nossas secretarias linguísticas", explica o padre Bamonte. "Na carta, evidenciamos o agravar-se da atual emergência do ocultismo e do satanismo e, portanto, a necessidade do empenho pela formação de todos os sacerdotes e pela preparação deles ao discernimento prévio dos vários casos relativos a esse fenômeno. Também esperamos a nomeação de um maior número de exorcistas na Igreja e a promoção de uma formação permanente deles."

Durante os trabalhos, interviram, entre outros, o cardeal Agostino Vallini, vigário do Papa para a diocese de Roma, o arcebispo Filippo Iannone, vice-gerente de Roma, e Giovanni D'Ercole, bispo de Ascoli Piceno. Junta-se a eles também o encorajamento do Papa Francisco.

Em suma, a Igreja tem o dever de estar preparada para acolher os pedidos de ajuda de quem acredita ter – ou tem efetivamente – distúrbios ligados à ação do maligno. Também porque o acesso a práticas perigosas é cada vez mais fácil, principalmente entre os mais jovens.

É o que pensa o frei Benigno Palilla, franciscano exorcista da arquidiocese de Palermo, dando exemplos de como é fácil cair nas redes que abrem espaço para o maligno. O espiritismo, por exemplo.

Cena famosa do filme "O Exorcista", de 1973.

"Difundiu-se nas escolas, com uma rapidez impressionante, o jogo 'Charlie, Charlie'. Trata-se de dois lápis sobrepostos em forma de cruz, que estão em equilíbrio. Embaixo, há uma folha de papel com a palavra 'sim' de um lado e 'não' do outro. Pergunta-se a Charlie se ele está presente. O lápis sozinho se move, virando para o 'sim'. Bem – observa frei Benigno –, se não há uma causa natural, como o vento, o lápis por si só não pode mover-se. Se se move, pode-se dizer que há uma entidade que a move. Ora, essa entidade não pode ser Deus, porque Ele não se presta a esse tipo de coisa. De onde só pode ser o demônio. É ele quem é invocado por meio desse jogo, que, para ser mais preciso, não se trata de um jogo, mas de uma sessão espírita, onde se invoca um espírito maligno."

É assim também com a chamada psicografia ou com aqueles que supostamente têm o poder mediúnico de estabelecer contato com defuntos. Normalmente, a razão pela qual se recorre aos espíritos ou a outras práticas ocultas é resolver qualquer problema familiar ou de saúde.

Atenção!, esclarece o frei Benigno, "o demônio nunca cura uma pessoa de uma doença, mas somente suspende os sintomas por um certo tempo. A doença, portanto, permanece. Acontece aqui o mesmo que se dá quando alguém se dirige a um mafioso para receber benefícios. Ele certamente os obtém, mas o preço a pagar se verá em seguida. De fato, esse recurso cria um vínculo, e esse vínculo é exigente, pois requer disponibilidade total a qualquer pedido. O mesmo acontece quando se recorre a um ocultista e, através dele, ao demônio."

Mas também há um aspecto psicológico gravíssimo para quem entrega a própria vida e as próprias decisões a um amuleto ou a um mago: "O ocultismo contribui para criar uma mentalidade do 'não fazer', do 'não agir', à espera de algum 'poder externo'."

Na luta contra o maligno, os exorcistas têm uma aliada extraordinária: Nossa Senhora. "No decorrer de nosso ministério de exorcistas – explica o padre Bamonte –, testemunhamos várias vezes que o Rosário, quando bem rezado, é particularmente temido pelo demônio. Certa vez, enquanto tentava arrebentar a coroa que eu tinha colocado no pescoço de uma pessoa atormentada, o demônio exclamou com raiva: 'Quem se agarra a essa corrente não se perderá jamais!'."

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Padre iraquiano revela drama de “Igreja dos mártires” no Oriente Médio
Notícias

Padre iraquiano revela drama de
“Igreja dos mártires” no Oriente Médio

Padre iraquiano revela drama de “Igreja dos mártires” no Oriente Médio

“Não chamem o que acontece em meu país de conflito”, disse o sacerdote. “O nome disso é genocídio.”

Equipe Christo Nihil Praeponere29 de Setembro de 2015Tempo de leitura: 4 minutos
imprimir

"Há mais mártires hoje do que nos primeiros tempos da Igreja", disse certa vez o Papa Francisco, em uma frase que sintetiza a condição dos cristãos no Oriente Médio. De fato, não há palavra para definir melhor o que são esses valentes seguidores de Cristo: o martírio, que eles aceitam corajosa e generosamente, eleva-os à perfeita imitação de Jesus, ao ponto mais alto da caridade, como está escrito: "Ninguém tem amor maior que aquele que dá a vida por seus amigos" (Jo 15, 13).

É o que mostra o testemunho do padre Douglas Al-Bazi, pároco da igreja de Mar Elia, em Erbil, no Iraque.

No dia 23 de agosto, o sacerdote aproveitou o conhecido Encontro de Rímini para falar sobre os "mártires de hoje", vítimas do regime de terror que se espalha em todo o Oriente Médio pelo Estado Islâmico.

"Quem acha que o ISIS não representa o Islã, está errado", disse o padre. " O ISIS representa cem por cento o Islã. Se alguém diz: 'Não, eu tenho amigos muçulmanos, eles são legais'. Sim, eles são legais aqui. Mas, lá, eles são assassinos". As palavras do sacerdote são uma resposta clara e inequívoca ao discurso recente de um chefe de Estado, para quem 99,9% dos muçulmanos seriam contrários ao islamismo radical.

Durante a sua fala, o pe. Al-Bazi ressaltou a sua pertença à "Igreja dos mártires", que ele também chamou de "Igreja de sangue". "Antes de 2003, éramos mais de 2 milhões de cristãos no Iraque. Agora, não passamos de 200 mil", ele conta. O clérigo mantém dois abrigos para refugiados na região onde trabalha e acolhe todos os dias milhares de famílias, vindas das mais diversas regiões do Médio Oriente. "Não chamem o que acontece em meu país de conflito. O nome disso é genocídio."

"Como sacerdotes no Iraque e no Oriente Médio, nós vivemos uma missão única", ele diz. "Não sabemos se saíremos da igreja ou voltaremos a ela vivos. Quando estava em Bagdá, eles implodiram uma igreja na minha frente. Eu mesmo sobrevivi duas vezes a bombas que estouraram bem próximas a mim, e já fui atingido na perna por uma AK-47, uma espécie de Kalashnikov. (...) Ainda acredito que, mais cedo ou mais tarde, eles irão me matar."

O padre também revela detalhes dos dias em que foi mantido refém por terroristas muçulmanos. O sequestro aconteceu depois da celebração de uma Missa dominical, quando a estrada que dava acesso à igreja foi bloqueada e o sacerdote foi levado para um lugar desconhecido. De imediato, um dos sequestradores quebrou o seu nariz, acertando-o com o joelho. Com as mãos atadas e os olhos vendados por 9 dias, o padre Douglas permaneceu quatro dias sem tomar sequer um copo d'água.

Quando começaram as negociações para libertá-lo, o sacerdote conta que já tinha a sua morte como certa. "Eu achava que eles iriam me matar, atirar em mim. Quando falei com outro padre por telefone, com o viva-voz ligado, disse a ele: 'É isso, eu não vou mais voltar'. Então, ele disse: 'Fiquem com o padre Douglas. Nós vamos inclui-lo como um de nossos mártires, podem ficar com ele'."

"Naquele dia – continua o padre –, eles ficaram irritados e me levaram para outro quarto. Quando falavam comigo, eles ligavam a TV em um canal muçulmano e aumentavam o volume. Assim, se eu gritasse, nenhum vizinho ouviria a minha voz. Eles também faziam isso para mostrar aos outros quão religiosos eles eram, ouvindo o Corão todos os dias."

"Um deles bateu em meu dente e eu senti que ele sangrava. Ele me disse: 'Não se preocupe. Você tem muitos dentes e nós temos a noite inteira.' Depois disso, eles bateram em minhas costas com o martelo e quebraram a minha coluna."

O pe. Al-Bazi conta que só foi libertado depois que a sua comunidade pagou o resgate aos sequestradores. "Eu, é claro, nunca me esqueço do que aconteceu durante aqueles 9 dias, que é exatamente o mesmo que está acontecendo agora a muito cristãos no Oriente Médio".

O sacerdote iraquiano também relata que, quando estava acorrentado, usava os anéis da corrente para rezar o Santo Terço. "Quando me acorrentaram, eles me prenderam com um cadeado grande. Com os 10 anéis suspensos, eu rezava o meu Rosário: os 10 anéis eram as Ave-Marias e o cadeado era o Pai Nosso."

Durante o dia, os sequestradores se reuniam e procuravam "direção espiritual" com ele. "Eles costumavam pedir a minha opinião como pai espiritual. Um deles perguntava: 'O que eu devo fazer com a minha mulher?' E eu, acorrentado e com venda nos olhos, dizia: 'Vamos lá, seja amável com ela, chame-a de meu bem, meu amor...' À noite, eram essas mesmas pessoas que me batiam."

Ele continuou o seu testemunho com um apelo e um alerta. "Minha Igreja – diz ele – ainda está na Sexta-Feira Santa. Ajude-nos a passar para o Domingo da Ressurreição. (...) Sejam a nossa voz. Falem! E acordem. O câncer está às suas portas! Eles vão destruir vocês! Os cristãos no Oriente Médio e no Iraque são o único grupo que viu o rosto do demônio: o Islã".

No fim, portando uma mensagem de esperança, o padre concluiu fazendo uma bela analogia da perseguição aos cristãos com a Cruz de Cristo. "Jesus disse: Tomem a sua cruz, e nós estamos fazendo isso. Porém, mais importante que carregar a cruz é segui-Lo, e isso significa aceitar, resistir e comprometer-se até o fim. Eu acredito que eles vão nos destruir no Oriente Médio, mas acredito também que a última palavra a sair de nossa boca será: Jesus nos salva. Nunca vamos desistir. (...) Nós pertencemos a Jesus, não à terra. Jesus é a nossa terra, a nossa Terra Prometida. Deixem meu povo chegar à Terra Prometida. Ajam!"

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

As Origens do Rosário (I)
Virgem Maria

As Origens do Rosário (I)

As Origens do Rosário (I)

Embora manifeste o caráter único da piedade cristã e as riquezas da teologia católica, o Rosário é um fenômeno universal e presente, sob aspectos diversos, em várias tradições religiosas.

Equipe Christo Nihil Praeponere28 de Setembro de 2015Tempo de leitura: 5 minutos
imprimir

I. A universalidade dos cordões de oração

1. O desejo de Deus e a oração. — «O desejo de Deus», diz o Catecismo, «está inscrito no coração do homem, já que o homem é criado por Deus e para Deus» [1]. Todo ser humano, com efeito, sente dentro de si uma certa inclinação que o impele a transcender-se e procurar a razão de sua existência. De fato, a sede radical por um Princípio está de tal forma impressa em nosso espírito, que não seria de todo errado afirmar que a inteligência de que somos dotados está orientada antes para a sacralidade que se manifesta na ordem criada do que para a criação pura e simples [2]. «O homem está à procura de Deus», pois ele, embora ferido pelo pecado, conserva ainda «o desejo daquele que o chama à existência» [3] e Se lhe revela mediante a natureza, «com o ser, o sentido e a finalidade que a ela são próprios» [4]. Ora, ainda que O conheçam de modo obscuro ou O ignorem completamente, todas as religiões testemunham essa busca essencial pela única e verdadeira divindade [5]: «Porque, do nascente ao poente, meu nome é grande entre as nações e em todo o lugar se oferecem ao meu nome o incenso, sacrifícios e oblações puras» (Ml 1, 11).

Entre as múltiplas formas que o homem tem encontrado ao longo da história para traduzir esta sua busca de Deus, a oração ocupa, ao lado do culto e dos sacrifícios rituais, um lugar de destaque [6]. Apesar de ambíguas e dissonantes entre si, as diversas tradições religiosas parecem coincidir no fato de que o homem tende a desenvolver a necessidade de repetir uma série mais ou menos encadeada de preces. Quer se deva ao desabrochar espontâneo da piedade e do desejo de união com Deus, quer a uma suposta função mágico-religiosa atribuída à linguagem, é certo que, se não todas, ao menos uma boa parte das religiões de que se tem notícia chegou a criar não só esquemas fixos e recursivos de oração como também a lançar mão de alguma estratégia de contagem; tais recursos são tão universais, que poderiam considerar-se expressões constitutivas da nossa religiosidade natural. Se levarmos em conta, por exemplo, os benefícios que o papa Adriano I concedeu em 782 à comunidade monacal de Santo Apolinário em Classe, sob a condição de que os monges rezassem seiscentos «Kyrie eleison» por dia, seremos levados a admitir que àquela época a cristandade latina já elaborara algum método para computar tantas orações [7].

2. A presença do «rosário». — Com efeito, a técnica mais comum e globalmente difundida é a dos cordões de oração ou «rosários», para usar uma designação genérica. Constituído por nós ou contas, o «rosário» tem uma origem tão antiga quanto a própria humanidade; e embora seja difícil rastrear-lhe as origens, a sua simplicidade e praticidade talvez lhe tenham permitido ser inventado e reinventado, descoberto e redescoberto ao largo dos séculos. Um rápido lance d'olhos sobre a quase universalidade de sua presença em algumas religiões porá em evidência a disposição natural do espírito humano para o diálogo incessante com Deus.

Com base nas esculturas e baixos-relevos descobertos por Austen Henry Layard nas ruínas assírias de Nimrud e Kuyunjik, supõe-se que já os antigos ninivitas possuíssem pequenos cordões para rezar. Um dos monumentos encontrados apresenta, pois, duas figuras femininas em atitude de oração diante de uma árvore sagrada [8]; elas mantêm elevada uma das mãos e, com a outra, seguram uma pequenina grinalda ou pulseira de contas [9]. Também alguns muçulmanos, principalmente os sufis, servem-se há tempos do «masbaha», um colar de 33, 66 ou 99 contas utilizado de modo especial na prática do «dhikr»; trata-se de uma devoção islâmica—estruturalmente similar a algumas cristãs, mencionadas mais adiante—que consiste na repetição de determinadas preces ou dos noventa e nove nomes por que Alá é designado tanto no Alcorão quanto na Suna. O famoso explorador veneziano do século XIII, Marco Polo, deixou-nos um curioso relato sobre uma de suas expedições à «Província de Maabar», localizada possivelmente na costa oeste da Índia peninsular. Como fosse levado à presença do rei, o navegante notou que o monarca

[...] usa também, preso ao pescoço e caindo sobre o peito, um fino cordão de seda em que se prendem 104 grandes pérolas e rubis de alto preço. A razão por que ele usa este cordão [...] é que, de acordo com o que dizem, todos os dias, de manhã e ao anoitecer, ele tem de fazer 104 orações aos seus ídolos. Essa é a religião e os costumes desta gente. E assim fizeram todos os reis seus predecessores [10].

Pouco mais de três séculos depois, tendo chegado ao Japão a vinte de agosto de 1549, São Francisco Xavier, talvez algo surpreso, registrou em carta aos seus companheiros da Europa que todos os japoneses, fossem bonzos (isto é, monges budistas) ou do povo, costumavam rezar «por contas» cujo número superava cento e oitenta. «Quando rezam continuadamente», escreve, «nomeiam em cada conta o Fundador da seita que têm.» [11] Algumas dessas «contas» a que se refere o Apóstolo do Oriente, também chamadas «shō-zoko-jiu-dzu», são comuns à quase totalidade das seitas budistas japonesas [12]. O cristianismo, por seu lado, conhece os cordões de prece desde pelo menos o século IV. No entanto, o talvez mais primitivo relato que se tenha de um sistema de contagem entre os cristãos é do bispo de Helenópolis, na Bitínia, e discípulo de São João Crisóstomo, Paládio da Galácia, em cuja História Lausíaca se narra a vida de um certo monge, identificado às vezes com São Paulo, o Simples (ca. 225-339), que se propusera orar sem cessar e, para isso, estabelecera trezentas orações fixas: para cada prece concluída o eremita lançava fora um dos trezentos seixos que carregava consigo no seio da túnica [13].

Como quer que seja, o uso de pedrinhas ou calhaus seria aos poucos abandonado, dando lugar, sobretudo no oriente cristão, ao «komboskini» (κομποσκοίνι) — de que trataremos noutra oportunidade —, presumivelmente obra do Abba São Pacômio de Tabenisi (ca. 292-348), pai do cenobitismo e discípulo de Santo Antão, o Grande. O antigo uso, porém, parece ter-se preservado ainda por alguns séculos no ocidente, pois há registros de que para alguns eremitas e ascetas dedicados a fazer um grande número de orações, como, por exemplo, o popular santo anglo-medieval Godric de Finchale, as lapides calculares eram o recurso mais comum e óbvio [14]. Mas o surgimento do que hoje na Igreja latina se conhece por Santo Rosário, devoção essencialmente mariana, só se processaria paulatinamente, em meio a embates entre a ortodoxia católica e a heresia albigense.

Falaremos nos próximos artigos a respeito deste rico e complexo processo em que a própria Providência divina, por meio da Santíssima Mãe de Nosso Senhor, dispensou à pobre humanidade o remédio para «as causas mais difíceis», a oração «que tem não só a simplicidade duma oração popular, mas também a profundidade teológica duma oração adaptada a quem sente a exigência duma contemplação mais madura.» [15]

Referências

  1. Catecismo da Igreja Católica (CIC), 27.
  2. V., e. g., Mircea Eliade, Tratado de História das Religiões. Trad. port. de Fernando Tomaz e Natália Nunes. 4.ª ed., São Paulo: Martins Fontes, pp. 39-40, § 11.
  3. CIC, 2566.
  4. Michael Schmaus, Teologia Dogmatica. Trad. esp. de Raimundo D. Baldrich e Lucio G. Ortega. Madrid: Rialp, 1960, vol. 1, p. 189, § 30.
  5. CIC, loc. cit.; cf. Chantepie de la Saussaye, Manual of the Science of Religion. Trad. ing. de Beatrice S. Colyer-Fergusson. Londres, Nova Iorque: Longmans, Green, and Co., 1891, pp. 71-72.
  6. V. CIC, 2567.
  7. Cf. Philipp Jaffé, Regesta Pontificum Romanorum. Berlim: Veit et socius, 1851, p. 209, n. 1866.
  8. Cf. Mircea Eliade, op. cit., pp. 216-217, § 96.
  9. Austen H. Layard, The Monuments of Niniveh. Londres: John Murray, 1853, p. [16], plate 7.
  10. Colonel H. Yule (ed.), The Book of Sir Marco Polo. Londres: John Murray, 1871, vol. 2, p. 275.
  11. São Francisco Xavier, Obras Completas. Trad. e org. de Francisco de S. Baptista. Braga, São Paulo: Editorial A. O. e Loyola, 2006, doc. 96 (29 jan. 1552), p. 566, n. 29.
  12. Cf. J. M. James, "Descriptive Notes on the Rosaries (jiu-dzu) as Used by the Differents Sects of Buddhists in Japan", in: Transactions of the Asiatic Society of Japan. Yokohama: R. Meiklejohn and Co., 1881, vol. 9, pp. 173-183; James Hastings (ed.), Encyclopædia of Religion and Ethics. Nova Iorque: Charles Scribner's Sons, 1908, vol. 10, pp. 851-852.
  13. Cf. Historia ad Lausum, c. XXIII (PG 34, 1068B); v. Cuthbert Butler, The Lausiac History of Palladius. Cambridge: Cambridge University Press, 1904, vol. 2, p. 63.
  14. Joseph Stevenson (ed.), Libellus de Vita et Miraculis S. Godrici. Londres: J. B. Nichols and Son, 1847, pp. 225-226, c. 108, § 213.
  15. João Paulo II, Carta Apostólica "Rosarium Virginis", de 16 out. 2002, n. 39 (AAS 95 [2003] 32).

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.