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Estratagemas cismáticos
Igreja Católica

Estratagemas cismáticos

Estratagemas cismáticos

A situação caótica em que a Igreja vive hoje é resultado do esquecimento ou da rejeição de uma verdade simples: o que Deus ordena é bom, o que Ele proíbe é mau. Deus é amor, e sua verdade é expressão de seu amor. Viver contra a verdade significa viver contra Ele.

Pe. Gerald E. MurrayTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere24 de Maio de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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[Este texto não é de autoria do Pe. Paulo Ricardo. Foi escrito pelo Pe. Gerald Murray, publicado no site norte-americano The Catholic Thing e traduzido para o português por nossa equipe.]

A recente tentativa, por parte de clérigos e leigos progressistas, de forçar a Igreja Católica a abandonar doutrinas que eles consideram inaceitáveis em matéria de moral sexual, inclui, necessariamente, esforços por modificar a linguagem com que a Igreja apresenta essas doutrinas em documentos oficiais, como o Catecismo. Uma das estratégias empregadas funciona como uma espécie de ataque autocontraditório: um ensinamento é considerado ininteligível às pessoas do nosso tempo por usar uma linguagem filosófica obscura. A um só tempo, o ensinamento é condenado como cruel e ofensivo, porque essas mesmas pessoas do nosso tempo, ao que parece, são perfeitamente capazes de entender a linguagem e o sentido do ensinamento. Elas simplesmente não gostam dele.

Outra estratégia consiste simplesmente em ridicularizar o ensinamento como disparatado, absurdo e constrangedor no mundo em que vivemos. Se o consenso reinante entre as pessoas informadas e inteligentes quanto ao que é certo ou errado considera uma doutrina católica incompatível com a própria maneira de ver as coisas, então é a Igreja que tem a obrigação de rejeitar tal doutrina. Por quê? Porque o “progressivo” consenso moral e ético das sociedades ocidentais ditas “avançadas” tem de ser agora a única norma aceitável para julgar qualquer comportamento. Os líderes da Igreja que abraçam essa visão abandonaram, evidentemente, os ensinamentos da Igreja e são os arquitetos e construtores da “igreja do que está acontecendo agora”.

A grave ameaça que essas táticas de pressão representam para os ensinamentos da Igreja sobre a homossexualidade está bem documentada em um recente artigo escrito pelo jornalista Edward Pentin. Alguns bispos e padres são os principais promotores de uma campanha persistente para que a Igreja abandone a doutrina segundo a qual os atos homossexuais são intrinsecamente desordenados. Em consonância com o Antigo e o Novo Testamento e com a longa história do pensamento moral católico, a Igreja nos ensina que esses atos são intrinsecamente maus e jamais poderão ser moralmente bons, em circunstância alguma.

Por que isso está acontecendo? Como pastor de almas, sei bem como as pessoas tentam defender e justificar seus pecados das mais variadas formas. Uma das táticas é convencer-se de que, já que você não é má pessoa, mas boa e amável, então seus desejos e escolhas de vida também devem ser bons: eles devem vir de Deus.

Além disso, se a Igreja diz que a escolha de envolver-se em atos homossexuais é errada, é ela, na verdade, que deve estar errada. A pessoa que quer pecar de consciência tranquila pode até já ter visto essa linha de pensamento ser defendida por um “padre simpático e atencioso”, que é um tipo de “herói” — há inúmeros deles hoje em dia, alguns dos quais são inclusive celebridades.

Outro pretexto é alegar que, como tantas pessoas ignoram os ensinamentos da Igreja e muitos bispos e padres andam dizendo por aí que Deus quer abençoar relacionamentos homossexuais, então deve estar tudo bem. “Progredir na moralidade” significa que os atos homossexuais, proibidos em tempos “primitivos”, e agora tacitamente tolerados, não tardarão em ser finalmente aprovados pelos que estão a cargo da Igreja, tudo porque uns profetas pioneiros triunfaram em sua incansável insistência. Abaixo o velho, viva o novo!

Mas a realidade é completamente diferente. A Igreja ensina que os atos homossexuais são sempre gravemente imorais, pois Deus revelou essa verdade. Deus é amor, e sua verdade é expressão de seu amor. Viver contra a verdade significa viver contra Deus. Todo pecado, especialmente o mortal, ofende a Deus e causa dano espiritual a quem o pratica e a outros. 

A situação caótica em que a Igreja vive hoje é resultado do esquecimento ou da rejeição de uma verdade simples: o que Deus ordena é bom, o que Ele proíbe é mau. Os atuais esforços de bispos e leigos alemães para negá-lo põem a Igreja em perigo de cisma, o que ficou patente na indignação com que receberam a notícia de que o Vaticano proibíra bênçãos a “uniões de pessoas do mesmo sexo”.

Nós temos um dever — e, portanto, uma razão gravíssima — de viver e agir em completa obediência à lei de Deus. Temos o dever igualmente sério de convencer os outros a viver de acordo com o que Deus, em sua bondade, ordena.

Quando pastores da Igreja dizem às pessoas que elas estão fazendo “algo bom” ao cometer atos de sodomia, e que irão abençoar suas promessas mútuas de sodomia, eles estão traindo integralmente sua missão. Ao invés de tirar as pessoas do pecado e levá-las para a virtude, que agrada a Deus, esses falsos pastores as estão conduzindo ao pecado, afastando-as de Cristo.

A crença infundada de que a união de pessoas do mesmo sexo, baseada no uso imoral das faculdades sexuais (dadas ao homem por Deus para a propagação da espécie e como expressão do amor marital, na união física divinamente ordenada entre marido e mulher), é “digna” da bênção de Deus gera um escândalo horrível e promove uma enorme confusão na cabeça das pessoas quanto ao casamento, ao sexo e ao nosso dever de obedecer à lei de Deus.

É lamentável que tantos bispos e sacerdotes estejam hoje induzindo as pessoas ao erro, levando-as a envolver-se em atos homossexuais ou a aprová-los, ensinando que Deus mesmo aprovaria e abençoaria algo que a Igreja sempre ensinou — e sempre ensinará — ser um comportamento gravemente imoral. Esses falsos “mestres” têm de ser corrigidos fraternalmente e chamados a arrepender-se e retratar-se.

Precisamos dar a seus atos o nome certo: são artimanhas para eliminar ou redefinir a verdade de Deus em função de preferências humanas. Não podemos deixar que isso aconteça, e devemos resistir pelo bem das almas e pela preservação da verdade que nos foi confiada por Cristo e sua Igreja.

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Por que o Espírito Santo aparece em línguas de fogo?
Espiritualidade

Por que o Espírito Santo
aparece em línguas de fogo?

Por que o Espírito Santo aparece em línguas de fogo?

Notai quanto vai de dizer a ensinar. Não diz Cristo: “o Espírito Santo vos dirá o que Eu vos tenho dito”; mas diz: “O Espírito Santo vos ensinará o que Eu vos tenho dito”; porque o pregador, ainda que seja Cristo, diz; o que ensina é o Espírito Santo.

Pe. António Vieira21 de Maio de 2021Tempo de leitura: 3 minutos
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Os sermões, as verdades, a doutrina que pregamos não é nossa, é de Cristo. Ele a disse, os Evangelistas a escreveram, nós a repetimos. Pois, se estas repetições são tantas e tão continuadas, e a doutrina que pregamos não é nossa, senão de Cristo, como fazem tão poucos progressos nela, e como aprendem tão pouco os que a ouvem? Nas palavras que propus temos a verdadeira resposta desta tão nova admiração.

Ille vos docebit omnia quaecumque dixero vobis: “O Espírito Santo — diz Cristo — vos ensinará tudo o que Eu vos tenho dito” (Jo 14, 26). Notai a diferença dos termos, e vereis quanto vai de dizer a ensinar. Não diz Cristo: “o Espírito Santo vos dirá o que Eu vos tenho dito”; nem diz: “o Espírito Santo vos ensinará o que Eu vos tenho ensinado”; mas diz: “O Espírito Santo vos ensinará o que Eu vos tenho dito”; porque o pregador, ainda que seja Cristo, diz; o que ensina é o Espírito Santo. Cristo diz: Quaecumque dixero vobis, “Tudo o que eu vos disse”; o Espírito Santo ensina: Ille vos docebit omnia, “Ele vos ensinará tudo”. O Mestre na cadeira diz para todos, mas não ensina a todos. Diz para todos, porque todos ouvem; mas não ensina a todos, porque uns aprendem, outros não

“Pentecostes”, de Juan Bautista Maíno.

E qual é a razão desta diversidade, se o Mestre é o mesmo, e a doutrina a mesma? Porque, para aprender, não basta só ouvir por fora, é necessário entender por dentro. Se a luz de dentro é muita, aprende-se muito; se pouca, pouco; se nenhuma, nada. O mesmo nos acontece a nós. Dizemos, mas não ensinamos, porque dizemos por fora; só o Espírito Santo ensina, porque alumia por dentro: Ministeria forinsecus adjutoria sunt, cathedram in caelo habet, quia corda docet [“Os ministérios são simples auxílios pois operam exteriormente; só ensina os corações Aquele que tem sua cátedra no Céu”], diz Santo Agostinho. Por isso até o mesmo Cristo pregando tanto, converteu tão pouco. Se o Espírito Santo não alumia por dentro, todo o dizer, por mais divino que seja, é dizer: Quaecumque dixero vobis; mas se as vozes exteriores são assistidas dos raios interiores da Sua luz, logo qualquer que seja o dizer, e de quem quer que seja, é ensinar; porque só o Espírito Santo é O que ensina: Ille vos docebit.

Por que vos parece que apareceu o Espírito Santo hoje sobre os apóstolos, não só em línguas, mas em línguas de fogo? Porque as línguas falam, o fogo alumia. Para converter Almas, não bastam só palavras; são necessárias palavras e luz. Se quando o pregador fala por fora, o Espírito Santo alumia por dentro; se quando as nossas vozes vão aos ouvidos, os raios da Sua luz entram ao coração, logo se converte o mundo. Assim sucedeu em Jerusalém neste mesmo dia. Sai São Pedro do cenáculo de Jerusalém, assistido deste fogo divino, toma um passo do Profeta Joel, declara-o ao povo, e, sendo o povo a que pregava aquele mesmo povo obstinado e cego, que poucos dias antes tinha crucificado a Cristo, foram três mil os que naquela pregação O confessaram por verdadeiro Filho de Deus, e se converteram à fé. 

Oh admirável eficácia da luz do Espírito Santo! Oh notável confusão vossa, e minha! Um pescador, com uma só pregação e com um só passo da Escritura, no dia de hoje converte três mil infiéis; e eu, no mesmo dia, com cinco e com seis pregações, com tantas Escrituras, com tantos argumentos, com tantas razões, com tantas evidências, não posso persuadir um cristão. Mas a causa é porque eu falo e o Espírito Santo, por falta de disposição nossa, não alumia

Divino Espírito, não seja a minha indignidade a que impeça a estas almas, por amor das quais descestes do Céu à terra, o fruto de vossa santíssima vinda: Veni Sancte Spiritus, et emitte caelitus lucis tuae radium, “Vinde, Senhor, e mandai-nos do céu um raio eficaz de vossa luz” — não pelos nossos merecimentos, que conhecemos quão indignos são, mas pela infinita bondade Vossa, e pela intercessão de Vossa Esposa santíssima.

Referências

  • Padre António Vieira, Sermão do Espírito Santo (pregado na cidade de São Luís do Maranhão, na Igreja da Companhia de Jesus, em ocasião que partia ao Rio das Amazonas uma grande missão dos mesmos religiosos), § I.

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A Igreja se “esqueceu” do Espírito Santo até a década de 1960?
Liturgia

A Igreja se “esqueceu”
do Espírito Santo até a década de 1960?

A Igreja se “esqueceu” do Espírito Santo até a década de 1960?

O Espírito Santo não era a “pessoa esquecida” da Trindade até a sua redescoberta no século XX. Nada poderia estar mais longe da verdade, como pode confirmar qualquer um que conheça a liturgia tradicional e a história da Igreja.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere21 de Maio de 2021Tempo de leitura: 9 minutos
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Lembro-me claramente de ter ouvido mais de uma vez, quando criança, professores e pregadores supostamente bem-intencionados dizerem algo semelhante a isto: “Durante muito tempo, a Igreja se esqueceu do Espírito Santo, por assim dizer, e com o Vaticano II nós nos lembramos dele. Estamos na era do Espírito”. 

Curiosamente, a era do Espírito fundiu-se a tal ponto com o espírito da época (zeitgeist), que nos restou apenas o “espírito do Concílio”. Na prática, isso significou que os carismas concedidos pelo Espírito Santo à Igreja ao longo do tempo foram progressivamente atacados e banidos. Numa paródia do Batismo, e com um exorcismo às avessas, membros do clero pareciam empenhados em livrar o catolicismo do seu bom espírito e enterrar-se num mundo subterrâneo, em vez de morrer e ressuscitar com Cristo.

Naturalmente, essa ideia de que a Terceira Pessoa foi esquecida é apenas mais uma das “lendas negras” do período pós-Vaticano II. Na verdade, é fácil encontrar observações significativas, doutrinais e devocionais sobre o Espírito Santo na pregação e nas orações de todas as épocas da Igreja — sobretudo em sua liturgia tradicional, na qual o sacerdote pronuncia diariamente estas magníficas palavras: Veni, Sanctificator omnipotens aeterne Deus, et benedic hoc sacrificium tuo sancto nomini praeparatum, “Vinde, ó Santificador, Deus eterno e todo-poderoso, e abençoai este sacrifício para a glória do vosso nome”.

O rito romano tradicional celebra até hoje a vinda do Espírito Santo com uma majestosa Missa de Pentecostes. A Missa solene é precedida pelo canto Veni, Creator Spiritus, quando todos os presentes se ajoelham durante o primeiro verso em humilde súplica. O canto Vidi aquam vem em seguida, enquanto o sacerdote asperge o povo com água benta e cantamos sobre a água da graça que flui do lado de Cristo, ainda que o Espírito proceda de sua boca. O primeiro de muitos aleluias ressoa por toda a igreja. A Missa propriamente dita começa com o intróito Spiritus Domini e o Kyrie, repetido nove vezes, em sua amplitude trinitária. O duplo aleluia inclui as petições Emitte Spiritum tuum, “Enviai o vosso Espírito”, e Veni, Sancte Spiritus, “Vinde, Espírito Santo”, sendo que nos ajoelhamos novamente durante o segundo (levamos a sério essas invocações!). Em seguida vem a magnífica sequência de Pentecostes, que tem início, mais uma vez, com Veni, Sancte Spiritus. Tudo isso mesmo antes de o Evangelho ser cantado!  

Missa Tridentina na igreja de São Sulpício (Paris, 2013). Créditos: Academia Christiana.

Há mais — muito mais. Da antiguidade até o século XX, a Igreja celebrou tradicionalmente o Pentecostes durante uma semana (uma Oitava), tal como ela faz na Páscoa e no Natal, reconhecendo-a como festa da mais alta importância. Todos os dias os Próprios proclamam aleluias. Todos os dias as leituras exaltam os sacramentos de iniciação, que são eficazes pelo poder do Espírito. Todos os dias, ajoelhamo-nos durante o Veni, Sancte Spiritus, antes da Sequência de Ouro. O Prefácio de Pentecostes vincula a Ascensão de Cristo, o fato de Ele estar sentado à direita de Deus e o derramamento do Espírito de adoção sobre os filhos de Deus. O Cânon Romano usa um Communicantes e um Hanc igitur especiais. Quarta, sexta e sábado da Oitava são Têmporas com leituras e orações especiais. A Terça, ofício do meio da manhã, começa todos os dias com o hino Veni, Creator Spiritus, e mais uma vez a primeira estrofe é cantada de joelhos. Essa semana é, de todos os pontos de vista, uma homenagem e uma súplica dignas da Pessoa divina.

Finalmente, todo domingo posterior à Oitava de Pentecostes é denominado “Domingo depois de Pentecostes”, envolvendo em paramentos verdes a longa temporada de plantio e colheita, até chegarmos ao Último Domingo depois de Pentecostes e iniciarmos um novo ciclo com o Advento.

Quase tudo o que acabei de descrever foi abolido na reforma litúrgica do final da década de 1960. Portanto, quem é realmente culpado “de esquecer-se da Terceira Pessoa da Trindade”?

Uma Igreja tradicional atenta ao Paráclito também pode ser identificada na maravilhosa encíclica de Leão XIII Divinum Illud Munus, de 1897 — por acaso, o mesmo ano do falecimento de S. Teresinha do Menino Jesus, quando ela começaria a cobrir os fiéis com rosas do céu, numa imitação infantil do dom do Espírito em línguas de fogo. 

A lúcida exposição sobre o “lugar” do Espírito Santo na Trindade e a sua presença e ação em Cristo, na Igreja, na alma humana e no mundo faz de Divinum Illud Munus uma verdadeira obra-prima da prosa teológica e espiritual. Vemos em suas páginas uma demonstração de como a doutrina aparentemente complicada de Santo Tomás pode “ganhar vida” nas mãos de quem a compreende de verdade. O Papa Leão escreve com grande sensibilidade:

Hoje, pressentindo avizinhar-se o término de nossa vida, experimentamos o mais vivo desejo de recomendar ao Espírito Santo, que é o amor vivificante, todas as realizações empreendidas durante o nosso pontificado, para que Ele as faça florescer e frutificar [...]. Almejamos ardentemente, assim, reavivar e fortalecer nas almas a fé no augusto mistério da Santíssima Trindade, e, sobretudo, aumentar e tornar nelas mais fervorosa a devoção para com o Espírito Divino, a quem todos os que trilham os caminhos da verdade e da justiça devem as maiores graças obtidas.

O Papa examina todos os aspectos da doutrina sobre o Espírito Santo. Aqui, por exemplo, fala do mistério de Pentecostes tal como se aplica aos Apóstolos:

A Igreja, que já existia em estado embrionário, havendo recebido a existência do lado aberto do segundo Adão, como que dormindo no lenho da cruz, nasceu maravilhosamente para a luz do mundo no tão celebrado dia de Pentecostes. Nesse mesmo dia começou o Espírito Santo a repartir seus benefícios no Corpo Místico de Cristo, com aquela admirável efusão que o profeta Joel previra há tempos (cf. Jl 2, 28-29); pois o Paráclito “pairou sobre os Apóstolos, para que fossem coroados de novos diademas espirituais, formados por línguas de fogo sobre suas cabeças” (São Cirilo de Jerusalém, Catequese, 17). Então, escreve São João Crisóstomo, os Apóstolos “desceram do monte, não trazendo nas mãos as tábuas de pedra, como o fez Moisés, mas carregando na alma o Espírito Santo e comunicando-o com profusão aos outros como um grande tesouro e um rio de verdades e de graças” (São João Crisóstomo, In Matth., hom. 1; cf. 2Cor 3, 3). Desse modo se realizou a promessa de Cristo a seus Apóstolos sobre o envio do Espírito Santo, que em pessoa, mediante suas inspirações, deveria levar a bom termo a transmissão da doutrina do mesmo Jesus Cristo.

E, mais uma vez, em relação à Igreja:

Para reconhecer a instituição divina da Igreja não há prova mais convincente do que o seu resplendor e glória provindos dos carismas que o Espírito Santo lhe outorgou em profusão. Baste dizer que, assim como Cristo é a Cabeça da Igreja, assim o Espírito Santo é a sua alma.

A obra de santificação é sempre associada ao Espírito Santo: 

Essa regeneração ou renovação começa para o homem pelo Batismo; nesse sacramento é expelido da alma o espírito imundo, e nela penetra pela primeira vez o Espírito Santo, que a torna semelhante a si: “O que nasceu do Espírito é espírito” (Jo 3, 7). Doa-se a ela ainda, em grau mais perfeito, para lhe outorgar a fortaleza e o vigor da vida cristã, no sacramento da Confirmação; por ele é que os mártires e as virgens triunfaram dos atrativos da corrupção.

Em seguida, o Papa Leão XIII diz algo que deveria nos fazer estremecer de reverência e encanto:

Deus, pela sua graça, reside na alma do justo como em um templo, de maneira completamente íntima e singular; daí os fortes liames de caridade que estreitissimamente unem a alma a Deus, sobrepujando a amizade do amigo ao melhor dos amigos, e a fazem gozá-lo em delícias inexcedíveis. Essa admirável união, denominada “inabitação”, não difere, a não ser por sua condição ou estado, daquela que possuem os habitantes do céu na posse beatífica de Deus; e, não obstante seja um efeito realíssimo de toda a Trindade divina: “Viremos a ele e faremos nele nossa habitação” (Jo 14, 23), é, contudo, considerada obra peculiar do Espírito Santo. Porquanto também no homem perverso podemos deparar reflexos do poder e sabedoria de Deus; mas só o justo participa do amor divino, característica do Espírito Santo.

Analisemos com cuidado o que o Papa nos ensina aqui. A união entre Deus e uma alma em estado de graça só difere em grau ou modo do estado de visão beatífica. Quando Deus habita em nossa alma pela graça santificante e sua principal virtude, a caridade, desfrutamos nesta vida da mesma união que os santos e anjos desfrutam na pátria celeste. As diferenças são acidentais: Deus é visível ou invisível; possuímo-lo de forma mutável ou imutável. Por importantes que sejam essas diferenças, a própria união as supera de longe: Deus é realmente possuído por nós. Essa é a essência da santidade. A compreensão da inabitação de Deus é, em última análise, o antídoto mais eficaz contra o pecado mortal: não queremos perdê-lo, nem agora nem na eternidade.

Em seguida, o Papa Leão XIII expõe o ensinamento de Santo Tomás sobre os dons do Espírito Santo. Aqui também recordamos que um Doutor da Igreja do século XIII possuía não somente compreensão teológica, mas um profundo conhecimento empírico. Quando fala de seus dons, Santo Tomás ressalta a absoluta necessidade da assistência especial do Espírito Santo — todos os dias, ao longo de todo o dia —, caso queiramos chegar ao fim glorioso que Deus nos reserva, porque ele está muito acima de nossa capacidade natural. Em certo sentido, ele excede inclusive o enorme poder das virtudes teologais. É como rezamos com o salmista: “Que vosso Espírito de bondade me conduza pelo caminho reto” (Sl 142, 10), a Terra Prometida, o Paraíso. Só o Espírito de Deus nos pode conduzir até lá; o nosso espírito, por aperfeiçoado que esteja, não é o bastante.

Santo Tomás vai mais longe e argumenta que precisamos dos sete dons do Espírito Santo não apenas para alcançar o fim último, mas também para atingir qualquer um dos fins particulares aos quais aspiramos como cristãos — isto é, se quisermos atingi-los como filhos de Deus, agindo por meio de sua sabedoria, conhecimento, fortaleza etc. Podemos até fazer a coisa certa por virtude natural, mas ainda assim não conseguiremos fazê-la “divinamente bem”, como uma refeição que não só é comestível, mas também saborosa. Para isso, temos de rezar e nos colocar à disposição do Espírito Santo, para que as nossas ações sejam guiadas por Ele e para que sejamos os seus instrumentos, pondo em prática as nossas próprias faculdades de juízo e deliberação. Nesse sentido, não pode haver apostolado verdadeiramente católico sem oração mental, como nos mostram os Atos dos Apóstolos de forma emblemática.

Afinal de contas, o Espírito Santo não era a “pessoa esquecida” da Santíssima Trindade até a sua redescoberta pelo “movimento carismático” ou pela “renovação conciliar” no século XX. Nada poderia estar mais longe da verdade, como pode confirmar qualquer pessoa familiarizada com a vida dos santos, com a história das grandes Ordens religiosas e das missões e com a doutrina, as devoções e a literatura tradicionais. Na verdade, o Dom do Deus Altíssimo jamais poderia ser esquecido pela Igreja, já que Ele age em todos os sacramentos, em todos os atos de culto divino, em todas as moções da alma em direção a Deus e em todas as pessoas santas que já viveram.

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São Bernardino de Sena, voz para um mundo em declínio
Santos & Mártires

São Bernardino de Sena,
voz para um mundo em declínio

São Bernardino de Sena, voz para um mundo em declínio

Quando parecia ter “acabado o vinho” da virtude e da graça, e a Cristandade, decaída, voltava-se ao paganismo, uma figura especialmente eleita se levantou, apontando para Aquele que tudo pode solucionar.

Ir. Maria Beatriz Ribeiro Matos, EP20 de Maio de 2021Tempo de leitura: 12 minutos
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Pelas ruas tortuosas de Siena, um rapaz caminha. A cidade, ocupada em seus trabalhos e intrigas, não o nota. De porte mediano e varonil, semblante agradável e olhar alegre, ele tem inúmeros amigos e todos o estimam; no entanto, está só. Ao menos pensa estar só… Um pouco atrás, escondida entre as casas, uma senhora segue seus passos. Sua fisionomia contrasta com a do jovem, pois anda apreensiva, como se estivesse prestes a se deparar com algo indesejável.

Sim, Tobia estava preocupada. Amava aquele rapaz como a um filho. Embora fossem primos, uma grande diferença de idade os separava, e ela o vira crescer. Filho da nobre família dos Albizzeschi, Bernardino perdera a mãe antes dos três anos e, nem completara os seis, o pai também, ficando entregue aos cuidados de suas três tias — Diana, Pia e Bartolomea — e da prima Tobia, que dele cuidaram e o educaram com todo o esmero.

Bernardino sempre fora muito recatado e suas tutoras haviam se empenhado para que o ambiente no qual transcorreu sua infância não lhe manchasse a inocência. O menino correspondeu a esse desvelo, e à piedade natural se acrescentou a virtude. Entretanto, o tempo tinha passado e Bernardino tornara-se moço. Suas tias e Tobia temiam por ele. Muito o alertaram sobre os perigos do pecado e as más tendências que, ao longo dos séculos, perverteram os jovens.

Um dia, porém, respondendo às suas advertências, Bernardino surpreendera Tobia:

— Estou, de fato, encantado por uma dama muito nobre. Daria minha vida para me alegrar com sua presença, e não dormiria à noite se passasse o dia sem tê-la visto.

Alguns dias depois, Bernardino voltou ao assunto:

— Vou agora ver a minha bela amiga.

— Mas quem é ela? Onde mora? — perguntou-lhe Tobia.

— Além da Porta Camollia.

Nada mais podendo dele saber, a prima, intrigada, decidiu espioná-lo. E ali estava ela, esgueirando-se pelas esquinas da cidade de Siena, na tentativa de não ser vista.

Chegando, por fim, à Porta Camollia, Bernardino parou e, diante de Nossa Senhora Assunta aos Céus, ali representada numa bela pintura, ajoelhou-se. O que ele Lhe disse, Tobia certamente nunca soube, mas o fervor e o enlevo transmitidos por seu semblante deixavam entrever que aquele convívio era mais do Céu que da terra. Depois, levantando-se, o rapaz retornou à casa.

Tobia, sempre às escondidas, voltou a segui-lo durante vários dias, e saiu sempre edificada. Até que conseguiu fazer o primo declarar quem era a nobre dama da qual falava:

— Minha mãe — respondeu ele —, já que vós mandais, direi o segredo de meu coração. Estou apaixonado pela Bem-Aventurada Virgem Maria, Mãe de Deus; sempre A amei, por Ela tenho abrasado o coração e a Ela é que desejo ver. N’Ela queria eu fixar para sempre o meu olhar com a veneração que Lhe é devida.

A aurora de uma vida sob o auspício da Mãe de Deus

“Nossa Senhora e o Menino com São Bernardino”, por Rutilio Manetti.

Se grande era o afeto de Bernardino pela Santíssima Virgem, mais excelente era o d’Aquela que o havia amado primeiro. Sim, pois antes mesmo que o conhecimento desse menino se abrisse para as coisas do mundo, antes que seus olhos se encantassem com a criação, antes ainda que sua língua inexperiente balbuciasse as primeiras palavras, Maria o tinha escolhido para Si.

Uma dúvida não tardou a despontar no seu coração juvenil: como dedicar-se a Ela? Em que estado de vida Ela o queria? E foi então que a peste, tão temida e indesejada, bateu às portas de Siena. Bernardino, com apenas dezessete anos, dedicou-se heroicamente no auxílio aos doentes. Depois de quatro meses, esgotado pelos seus trabalhos, caiu ele próprio vítima da peste e parecia estar próximo do fim. Porém, contra a expectativa de muitos, sua saúde se restabeleceu.

O que fazer dessa vida que Maria lhe devolvia? — continuava se perguntando ele. A religião o atraía sobremaneira; seria essa a vontade de Deus? Cheio de fervor juvenil — tantas vezes avesso à prudência e ao “bom senso” — Bernardino tenta a vida de ermitão. Com o seu característico humor, narrará mais tarde essa insólita experiência:

Quero contar-lhes o primeiro milagre que fiz. Isso aconteceu antes de me tornar frade […]. Tomei a resolução de querer viver como um Anjo e não como um homem. Pensei em instalar-me numa floresta e comecei a perguntar a mim mesmo: “Que farás na floresta? Que comerás?’” Respondia-me: “Farei como os Santos Padres; comerei erva quando tiver fome e beberei água quando tiver sede”. […] E, depois de invocar o nome bendito de Jesus, pus na boca uma porção de ervas amargas e comecei a mastigar. Mastigo e mastigo, mas não querem descer. Não podendo engolir, pensei: “Bebamos um pouco d’água”. Pois sim, a água descia e a erva continuava na boca. Bebi vários goles d’água com uma só porção de ervas e não consegui engolir [1].

Dissuadido da vida solitária, por haver compreendido não ser esta a via para a qual a Providência o destinava, seus olhos se voltam para os Frades Menores. Entusiasma-se pela sua regra, e o chamado divino se confirma num sonho. Despojando-se das honras de seu sangue e dos bens terrenos, Bernardino toma o hábito de São Francisco. Era o dia 8 de setembro de 1402, festa da Natividade de Nossa Senhora e data em que ele cumpria vinte e dois anos.

Assim, foi sempre sob o manto protetor da Rainha dos Céus que ele deu os grandes passos de sua vida, como contava:

Nasci no dia da Natividade da Bem-Aventurada Virgem, e no mesmo dia […] renasci, entrando para a Ordem do Seráfico Pai Francisco; neste dia professei os votos na Ordem, neste dia celebrei a primeira Missa e pronunciei o primeiro sermão ao povo sobre a Bem-Aventurada Virgem, de cujo amor e graça espero neste dia também partir desta vida [2].

Incansável dedicação e zelo pelas almas

Em certa ocasião, o jovem franciscano foi assistir a uma pregação de São Vicente Ferrer, cujas palavras sacudiam as multidões, apontando a modorra e o paganismo em que a Cristandade se afundava. No dia anterior, Bernardino conversara pessoalmente com o dominicano, saindo cheio de gratidão e consolo. E São Vicente, discernindo o chamado de seu interlocutor, previu durante o sermão o futuro que o esperava:

Ó meus filhos, está nesta reunião um religioso da Ordem dos Frades Menores, que, em breve, será um homem ilustre em toda a Itália; sua palavra e seus exemplos hão de produzir grandes frutos entre o povo cristão. Exorto-vos, pois, a render graças a Deus; roguemos-Lhe, todos juntos, que cumpra o que me revelou [3].

Algum tempo se passaria até a profecia realizar-se. Por muitos anos, Bernardino se escondeu nas brumas do anonimato. No silêncio do convento, ele subiu os degraus da virtude e do conhecimento, para depois, sobre o púlpito, transmitir não apenas a doutrina, mas irradiar a santidade. E era por ela movidas que as multidões concurrebant ad ecclesias instar formicarum, “acorriam às igrejas como formigas” [4].

Seu zelo incansável vai edificar e converter multidões na Itália, imersa então no neopaganismo renascentista. De 1419 a 1422, sua voz ecoa na Lombardia, acentuadamente em Bérgamo, Como, Mântua, Cremona, Placência e Bréscia. Em cada cidade, detém-se algumas semanas, para logo buscar, a pé, na cidade vizinha, almas a quem fazer o bem.

Método vivo e original de mover os corações

No púlpito, sua genialidade e virtude se unem para atrair os pecadores à amizade com Deus. Conta-se, por exemplo, que chegando à cidade de Perúgia, na Úmbria, encontrou um povo indiferente aos assuntos da Fé, afeito a contínuas e ferozes guerras intestinas. Embora muitos comparecessem às pregações, Frei Bernardino não se dava por satisfeito. Um dia, perante o público reunido, anunciou:

Caros habitantes de Perúgia, em pouco tempo eu lhes mostrarei o diabo.

Com a curiosidade acesa, no dia seguinte o auditório se multiplicou. E, ao cabo de alguns dias, o pregador declarou:

— Vou cumprir minha promessa e vou lhes mostrar não só um demônio, mas vários.

Todos o fitavam, atentos, imaginando que profundeza haveria de se abrir para o pai das trevas tornar-se visível.

— Olhai-vos uns aos outros — prosseguiu Frei Bernardino — e vereis demônios!

E num tom de extrema gravidade, que não admitia gracejo, o Santo advertiu ao povo que praticava as obras de Satanás e, por isso, merecia ser chamado seu filho. Finalmente a graça, conduzida por Frei Bernardino, atingiu o coração daquela gente e a conversão foi completa.

Com um homem de Deus não se brinca!

Anos depois, porém, a discórdia e a violência reinavam novamente na cidade e o Santo franciscano lá retorna.

— Deus viu vossas dissensões, que Ele detesta — disse, subindo ao púlpito — e me mandou a vós, como seu Anjo, para falar aos homens de boa vontade.

Quatro sermões se seguem, e Bernardino luta para reconciliar aquelas almas. No último dia, conclui solenemente:

— Que todos os homens de boa vontade, desejosos de paz, coloquem-se à minha direita.

O povo, comovido, deslocou-se em massa para a direita do Santo. Todos, exceto um que, desafiante, conservou-se sozinho com sua família à esquerda. Então, o humilde franciscano mostra que o seu zelo também o transformava, na necessidade, em implacável juiz.

— Eis-te sozinho — disse ao infeliz —, obstinado em teu erro. Eu te exorto, em nome de Deus, uma vez mais, a perdoar aos outros, de coração, o que possam ter feito contra ti e tua família. Se não me escutares, podes estar certo de que não voltarás vivo para casa.

Ora, com um homem de Deus não se brinca… Aquele desgraçado não desistiu de sua má conduta e, apenas chegando à casa, morreu, sem receber os Sacramentos da Igreja.

Ao nome de Jesus, todo joelho se dobrará… até na Renascença

Muitos dos sermões de São Bernardino se conservaram para a posteridade. Em estilo fácil, atraentes, repletos de metáforas e exemplos, permitem reconstituir o ambiente que em torno dele se criava e, de certa forma, sentir a graça que sobre ele pairava. Sermões que foram palco de uma grande batalha, à qual o santo franciscano se dedicaria de corpo e alma.

De fato, ao passarmos as páginas que compõem a história de São Bernardino, não podemos desconsiderar a difícil conjuntura na qual se encontrava o mundo, e como a humanidade tomava um rumo completamente oposto ao que a Igreja lhe indicara ao longo dos séculos. Dando as costas ao Sangue que os redimira e inebriando-se com as coisas da terra a ponto de esquecerem-se do Céu, os homens voltavam a embriagar-se com o “vinho velho” do paganismo. Era a brilhante, mas em tantos aspectos reprovável, Renascença que chegava. Expulsava-se Deus de seu trono, e em seu lugar o homem se sentava.

Os frutos de tal inversão de valores não se fizeram esperar: discórdias e guerras, imoralidades e desvarios passaram a formar parte do cotidiano. Faltava alguém que, como Nossa Senhora nas Bodas de Caná, indicasse à humanidade: “Fazei tudo o que Ele vos disser” (Jo 2, 5), e a reconduzisse a Jesus. Foi este o papel verdadeiramente marial de São Bernardino.

Por exemplo, reinava grande desavença política entre os habitantes de Veneza, como, aliás, em muitas outras cidades da Península Itálica. As casas eram identificadas por um ­azulejo com o nome ou as armas da família, o qual indicava também o partido dos moradores. Quando Frei Bernardino por lá passou, seu coração inflamado proclamou a todos o nome de Cristo, e os venezianos, comovidos, trocaram as marcas da discórdia por um azulejo com o Santíssimo Nome de Jesus.

E assim, percorrendo as cidades, Frei Bernardino deixava atrás de si o nome de Jesus marcado nos lares e, sobretudo, gravado nos corações.

Acusado de heresia…

Não podia ficar inativo o antigo inimigo enquanto o santo franciscano lhe arrancava das mãos tantas almas. E eis que, em Roma, Frei Bernardino é acusado de heresia. Heresia?! Sim, pois houve quem quisesse enxergar aspectos de idolatria na sua forma de venerar o nome de Jesus!

“São Bernardino de Sena e São João de Capistrano”, por Alonso Cano.

O Papa Martinho V convoca o ilustre pregador para apresentar explicações na Cidade Eterna. O momento é de grande comoção, sobretudo para os católicos italianos, que tanto tinham recebido de Frei Bernardino. Todos parecem temer, menos ele. Muitos que antes o aplaudiam, agora o ultrajam.

Um dia, ao verem com admiração como, após receber grandes insultos, ele se recolhia para estudar calmamente em sua cela, respondeu: “Cada vez que entro em minha cela, todas as injúrias ficam do lado de fora; nenhum ultraje se atreve a entrar comigo, de modo que não me causam nem empecilho, nem desgosto” [5].

Para defender a honra do mestre ofendido, um discípulo seu, também renomado pregador, comparece à Cidade Eterna, portando um ostensivo estandarte no qual se lê o Nome de Jesus: trata-se do audacioso capuchinho São João de Capistrano. Finalmente, ambos comparecem diante do Pontífice e procede-se a um debate entre eles e os opositores. A vitória de Bernardino, ou melhor, de Jesus, é completa; o Papa, em reparação, ordena uma procissão em honra de seu Santíssimo Nome, que a partir de então passa a figurar no alto das igrejas e no cimo dos telhados, também em Roma.

Últimos esforços, dedicação inteira

Mesmo sentindo-se já próximo de seu fim, Frei Bernardino não descansa. Pelo contrário, sedento de almas, vai à busca daquelas que sua caridade ainda não lograra alcançar, e aos que disso procuravam dissuadi-lo, responde: “Não ignoro que estou velho e pouco apto a suportar o cansaço; porém, o amor que me urge, obriga-me, enquanto puder mexer a língua, a nunca deixar de anunciar a Palavra de Deus, a exortar as populações e, para esta obra, empreender viagens, mesmo que fossem em longínquas terras” [6].

O Reino de Nápoles é o seu próximo destino. Em 30 de abril de 1444, ele deixa Siena secretamente. No caminho, despede-se da velha cidade de Perúgia, de onde parte para visitar por última vez o Convento de Santa Maria dos Anjos, em Assis. Em Espoleto, suas forças começam a faltar. Quando atinge a Cittaducale, na fronteira com o reino napolitano, Bernardino sobe pela última vez a um púlpito. Em Áquila, é obrigado a repousar no mosteiro franciscano.

E então, com sessenta e quatro anos de idade, dos quais quarenta e dois enquanto religioso e, no mínimo, vinte como pregador, Frei Bernardino entrega sua bela alma a Deus. Quisera ele morrer na festa da Natividade ou da Assunção, mas Jesus lhe pedira a renúncia a esse santo desejo. Era a véspera da Ascensão do Senhor.

Decerto, no Céu Bernardino dizia a Deus as palavras que seus irmãos cantavam piedosamente na capela ao render-lhe as últimas homenagens: “Meu Pai, tornei teu nome conhecido aos homens que me deste, e agora rogo por eles, não pelo mundo, pois venho a Ti. Aleluia” [7].

Referências

  1. São Bernardino de Siena. Le prediche volgari. Siena: Tip. Edit. all’inseg. di S. Bernardino, 1884, v. II, p. 351-353.
  2. Paul Thureau-Dangin. São Bernardino de Sena: um pregador popular na Itália da Renascença. Petrópolis: Vozes, 1937, p. 27, nota 14.
  3. Idem, p. 37.
  4. Idem, p. 55.
  5. Idem, p. 101-102.
  6. Idem, p. 248.
  7. Idem, p. 254.

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