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Os domingos e festas não são dias quaisquer!
Doutrina

Os domingos e festas
não são dias quaisquer!

Os domingos e festas não são dias quaisquer!

Datas religiosas como a Sexta-feira Santa e Corpus Christi podem até ser feriados civis, mas o repouso que elas pedem não é o da simples ausência de trabalho. Os domingos e festas católicas têm um significado muito mais profundo, que precisa ser conhecido.

Equipe Christo Nihil Praeponere18 de Março de 2021Tempo de leitura: 12 minutos
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O que fazer quando uma autoridade local simplesmente decreta que o feriado da Sexta-feira da Paixão não será mais três dias antes da Páscoa, ou que Corpus Christi não será mais depois da Oitava de Pentecostes, ou que Finados não será mais em novembro, como sempre foi?

Infelizmente, esse quadro está se desenhando em vários lugares Brasil afora, devido ao novo aumento de restrições sociais por conta da pandemia do coronavírus. A ideia, pelo visto, é reforçar o distanciamento social e encher esse período de lockdown — seja o total ou o mitigado — com o máximo possível de feriados, para manter o comércio funcionando sem interrupções no resto do ano. 

Antes de qualquer coisa, a quem porventura, diante desses decretos do Poder Executivo, ainda esteja em dúvida sobre quando celebrar a Paixão de Cristo ou visitar seus entes falecidos no cemitério, sejam suficientes estas palavras de Jesus: “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mt 22, 21). Que em estado de calamidade as autoridades civis mexam no ano civil, com seus feriados civis, é perfeitamente compreensível. Agora, o calendário religioso, com suas festividades religiosas, tem outro caráter. Trata-se de celebrações da Igreja, e tão-somente a ela dizem respeito.

Sim, o fato de essas datas religiosas serem também feriados impacta a vida social e econômica dos cidadãos, mas o repouso que elas pedem não é a simples ausência de trabalho; as festas católicas — e com elas os domingos — têm um significado muito mais profundo. O fato de prefeitos e governadores brincarem com esses dias como quem move peças de xadrez e, pior ainda, de os católicos aceitarmos isso tranquilamente, mostra não só a falta de limites dos governantes, mas também a perda de princípios dos que somos governados. Se não nos incomoda que políticos mexam com nossas festas e dias santos, é porque há, em primeiro lugar, algo de muito errado conosco.

É claro que tentativas de se mexer no calendário cristão não nasceram com o coronavírus. Após a Revolução Francesa, por exemplo, os rebeldes anticlericais instauraram, de 1792 a 1805, um novo calendário, baseado não no ciclo litúrgico católico, mas no ciclo da natureza. A iniciativa não “vingou”, mas, para quem conhece a história da salvação, é impossível não associar o episódio à desolação do Templo de Jerusalém, no Antigo Testamento. Na Vulgata latina, o Salmo 73 traz uma redação que faz lembrar muito essas tentativas de intromissão no culto divino:

Quantas maldades cometeu o inimigo no santuário!
E os que te odeiam, gloriam-se (de te insultar) no meio da tua solenidade.
Hastearam os seus estandartes como troféus;
e não respeitaram nem as eminências nem as saídas.
Como num bosque de árvores, com machados
despedaçaram à porfia as suas portas;
com machado e martelo tudo derribaram.
Puseram fogo ao teu santuário;
na terra profanaram o tabernáculo do teu nome.
Disseram no seu coração com os das suas parentelas:
Façamos cessar na terra todos os dias de festa consagrados a Deus (v. 3-8).

Quiescere faciamus omnes dies festos Dei a terra; literalmente: “Façamos cessar na terra todos os dias de festa consagrados a Deus”. Como a Neovulgata já traz uma frase diferente, só quem segue a tradução bíblica do Pe. Matos Soares ou reza o Ofício Divino antigo lê esse versículo deste modo (mais especificamente, toda quinta-feira, na Hora Sexta) [1].

“A destruição do Templo de Jerusalém”, de Francesco Hayez.

É claro que cada situação tem suas circunstâncias e peculiaridades. A impiedade dos poderosos têm seus graus. Os governantes de nossos municípios e estados, com seus decretos muitas vezes mal escritos e desajeitados, não chegam nem perto da malícia dos revolucionários franceses. E esses, por sua vez, não cometeram mais atrocidades que os comunistas no século XX, campeões em matéria de perseguição religiosa. (Quem tiver a oportunidade, leia depois o que foi o Experimento Pitesti, na Romênia, e comprove por si mesmo; ou um pouco sobre a situação atual da China, extremamente hostil aos cristãos, seus ritos e símbolos.)

O que nos importa nesta matéria, porém, mais do que deplorar os desmandos dos que estão no poder, é identificar o que está por trás da aceitação pacífica desta ingerência descabida nos “dias de festa consagrados a Deus”.

Em primeiro lugar, o que enfraquece um povo a ponto de impedi-lo de resistir a ações como essa? Justamente a sua falta de identidade. Embora os brasileiros se gabem de ser “a maior nação católica do mundo”, a verdade é que decretos como os que citamos não teriam lugar numa sociedade verdadeiramente católica. Por quê? Porque um povo religiosamente sadio — desde as autoridades até o mais humilde dos súditos — está disposto a reconhecer, em tudo, o primado de Deus

Isso ficava evidente, entre outras coisas, na forma como antes eram construídas as cidades: justamente ao redor de uma igreja e de sua praça — isto é, justamente em torno do “domingo”, dia de culto a Deus e repouso do trabalho. Também era assim Jerusalém, a qual “não era tanto uma cidade com um Templo quanto um Templo com uma cidade construída à sua volta” [2].

O oposto disso é justamente o número 666, a marca da Besta, como explica o teólogo Scott Hahn: 

666 pode ser interpretado como degradação do número sete, que, na tradição israelita, representava perfeição, santidade e a aliança. O sétimo dia, por exemplo, foi declarado santo por Deus e destacado para descanso e adoração. O trabalho era feito em seis dias; entretanto, era santificado na adoração sacrifical representada pelo sétimo dia. O número “666”, então, representa um homem paralisado no sexto dia, servindo à besta, que se preocupa em comprar e vender (cf. Ap 13, 17) sem descanso para a adoração. Embora o trabalho seja santo, torna-se mau quando o homem se recusa a oferecê-lo a Deus [3].

O que está por trás desses tempos apocalípticos que vivemos, portanto, é justamente o esvaziamento do significado original do domingo e dos dias santos. Sim, nós sabemos: devido ao fechamento das igrejas e à suspensão do culto público em vários lugares, muitos estão impossibilitados de participar da Santa Missa... Mas o problema aqui é maior e muito mais antigo: já faz tempo que o domingo foi reduzido por muitos a puro “fim de semana”, mero repouso e diversão.

Os domingos e dias de festa

Foi justamente para lembrar aos católicos o real valor do domingo que o Papa S. João Paulo II, antes da virada do milênio, escreveu a Carta Apostólica Dies Domini. “Se, por sua natureza, é conforme à necessidade humana de descanso”, disse o Santo Padre, referindo-se à instituição do sábado, ainda no Antigo Testamento, “cumpre, não obstante, deduzir da seu sentido mais profundo, para que não se torne coisa comum e costumeira nem seja traído” (DD 13).

O Papa ensinava, antes de tudo, que o ato de reservar um dia da semana para Deus, mais do que uma observância ritual e externa, é um verdadeiro reconhecimento dele como Dominus, isto é, “Senhor”, não só do tempo e da história, mas de tudo que existe:

Na verdade, a vida inteira do homem e todo o seu tempo devem ser vividos como louvor e agradecimento ao Criador. No entanto, a relação do homem com Deus necessita também de momentos determinados de oração explícita, nos quais a relação se torna diálogo intenso, envolvendo toda a dimensão da pessoa. O “dia do Senhor” é, por excelência, o dia desta relação, no qual o homem eleva a Deus o seu cântico, tornando-se voz de toda a criação. Por isso mesmo é também dia de repouso: a interrupção do ritmo, muitas vezes oprimente, das ocupações exprime, com a linguagem figurada de “novidade” e “separação”, o reconhecimento da dependência de nós mesmos e de todo o universo de Deus. Tudo é de Deus! O dia do Senhor está continuamente a afirmar este princípio [...]. Ele nos lembra que a Deus pertencem o universo e a história, nem o homem pode dedicar-se à sua obra de cooperador do próprio Criador, sem estar constantemente consciente desta verdade (DD 15).

Enquanto, porém, os judeus guardavam o dia do sábado, nós, católicos — nas palavras de São Gregório Magno — “consideramos verdadeiro sábado a pessoa do nosso Redentor, nosso Senhor Jesus Cristo” (DD 18). Com a Encarnação do Verbo, o próprio Deus irrompeu na história humana; em Cristo, todas as coisas são recriadas. Por isso, mais do que a primeira Criação ou a libertação de Israel do Egito — motivos pelos quais a Lei mosaica impunha a guarda do sábado —, os cristãos desde o princípio guardam o domingo: Haec est dies, quam fecit Dominus: exsultémus, et laetémur in ea, “Este é o dia que o Senhor fez para nós, alegremo-nos e nele exultemos” (Sl 117, 24); este é o dia de nossa Páscoa semanal, quando recordamos a Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo, e nossa consequente libertação do pecado. 

Mas o domingo não evoca só um evento passado na história; ele é também, numa expressão dos Santos Padres, o “oitavo dia”:

Situado, relativamente à sucessão septenária dos dias, numa posição única e transcendente [...], o domingo significa o dia realmente único que virá após o tempo presente, o dia sem fim, que não conhecerá tarde nem manhã, o século imorredouro que não poderá envelhecer; o domingo é o prenúncio incessante da vida sem fim, que reanima a esperança dos cristãos e os estimula no caminho [...]. A celebração do domingo, dia simultaneamente “primeiro” e “oitavo”, impele o cristão para a meta da vida eterna (DD 26).

Domingo a domingo, a Igreja caminha para o último “dia do Senhor”, o domingo sem fim [...]. Isto faz com que o domingo seja o dia em que a Igreja, manifestando mais claramente sua índole “esponsal”, antecipa de algum modo a natureza escatológica da Jerusalém celeste. Ao reunir seus filhos na assembleia eucarística e educá-los para a expectativa do “Esposo divino”, ela realiza uma espécie de “exercício do desejo”, no qual saboreia antecipadamente a alegria dos novos céus e da nova terra, quando a cidade santa, a nova Jerusalém, descerá do céu, de junto de Deus, “bela como uma esposa que se ataviou para o seu esposo” (Ap 21, 2) (DD 37).

Isso significa que a vivência do domingo tem um significado para além desta vida: cada domingo é uma oportunidade de tocar o Céu enquanto ainda estamos aqui nesta terra. Não à toa, a Igreja preceitua que, neste dia (e em condições normais), seus filhos participem da Santa Missa. Emblemática é a história que os cristãos ucranianos contam de como seus antepassados descobriram a liturgia: 

Em 988, quando se converteu ao Evangelho, o príncipe Vladimir de Kiev enviou emissários a Constantinopla, a capital da cristandade oriental. Ali, eles participaram da liturgia bizantina na catedral da Sagrada Sabedoria, a igreja mais majestosa do Oriente. Depois de passar pela experiência do canto litúrgico, do incenso, dos ícones — mas, acima de tudo, da Presença —, os emissários enviaram esta mensagem ao príncipe: “Não sabíamos se estávamos no céu ou na terra. Nunca vimos tanta beleza… Não sabemos descrevê-la, mas disto temos certeza: ali, Deus habita entre a humanidade” [4].

É por isso que cada cristão que vive o domingo como um dia consagrado ao Senhor é uma ameaça ao nosso mundo pagão e materialista, para o qual só existem o aqui e o agora; uma ameaça aos tiranos deste mundo, que se crêem deuses e senhores do bem e do mal. 

O Papa S. João Paulo II recorda, a esse propósito, o “autêntico heroísmo com que sacerdotes e fiéis” observaram a obrigação de ir à Missa “em muitas situações de perigo e restrição da liberdade religiosa”, como foi o caso dos mártires de Abitinas: 

Quando, durante a perseguição de Diocleciano, viram suas assembleias interditas com a máxima severidade, foram muitos os corajosos que desafiaram o édito imperial, preferindo a morte a faltar ao sacrifício eucarístico dominical. Foi o caso dos mártires de Abitinas, na África proconsular, que responderam aos seus acusadores: “Foi sem qualquer temor que celebramos o domingo, porque não se pode deixar o domingo; assim manda a Lei”; “sine dominico non possumus — sem o domingo, não podemos viver”. Uma das mártires confessou: “Sim, fui à assembleia e celebrei o domingo com os meus irmãos, porque sou cristã” (DD 46).

Hoje, quando as igrejas e seus cultos são relegados, sem mais nem menos, à esfera das “atividades não essenciais”, como não recordar essas perseguições à Igreja e aos cristãos? Como não pensar que estamos em um sistema iníquo — que só “se preocupa em comprar e vender sem descanso para a adoração”? Como não pensar de imediato na marca da Besta de que fala o Apocalipse?

Não impressiona que, em tempos como estes, se multipliquem cada vez mais as ameaças à liberdade humana — desde a de ir e vir até a de ganhar o pão com o suor do próprio rosto. Afinal, quando é minada a primeira e mais fundamental das liberdades — isto é, a de adorar a Deus e celebrar os dias consagrados a Ele —, que mais pode restar ao homem, senão a submissão absoluta aos tiranetes da vez, que atuam como “pequenos deuses” neste mundo? 

Evidentemente, os primeiros que nos escravizam somos nós mesmos. Há quanto tempo o domingo já não é, para os católicos, o dies Domini? Diante dos flagelos dos últimos dias, esse é o momento apropriado para um exame de consciência. Para muitíssimos batizados, tragicamente, a qualificação da Missa como uma “atividade não essencial” só foi o carimbo público do que já estava decretado há muito tempo em suas vidas e na prática de suas famílias. Deus já não é essencial para muitos católicos, e não é de hoje.

Em La Salette, Nossa Senhora apareceu chorando justamente por causa do descaso do povo católico para com o domingo — descaso que envolvia não só a omissão dos próprios deveres religiosos em dias santos, mas também o trabalho frenético nesses mesmos dias. De lá para cá, infelizmente, a situação não melhorou muito; a própria cultura em que nos encontramos não favorece em nada o repouso dominical e o culto a Deus. Mesmo nessa condição adversa, todavia, somos chamados a dar testemunho de fidelidade, acolhendo o brado com que S. João Paulo II procurou acordar, há alguns anos, a consciência dos católicos: “Não tenhais medo de dar o vosso tempo a Cristo!” (DD 7).

Até lá, enquanto continuarmos nos recusando a reconhecer o domínio de Deus sobre tudo — especialmente o senhorio dele sobre o tempo que nos foi confiado —, continuaremos a ser escravos dos senhores deste mundo — e estarão sob ameaça não só os domingos e dias santos, mas inclusive esta coisa que chamamos de liberdade.

Notas

  1. Na tradução brasileira da Liturgia das Horas, mais fiel ao original hebraico, o alvo dos ataques dos inimigos são os templos e não propriamente os dias santos (no rito antigo, este salmo é rezado na Hora Média da terça-feira da III Semana).
  2. Scott Hahn, O Banquete do Cordeiro: A Missa segundo um convertido. São Paulo: Loyola, 2014, p. 70.
  3. Id., p. 84.
  4. Id., p. 109.

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Por que gostamos tanto de histórias de conversão?
Testemunhos

Por que gostamos tanto
de histórias de conversão?

Por que gostamos tanto de histórias de conversão?

Desde São Paulo e Santo Agostinho até os dias atuais, testemunhos de conversão sempre exerceram grande fascínio. Mas por que gostamos tanto dessas histórias? E com que espírito elas devem ser acolhidas, especialmente agora, com a internet?

Equipe Christo Nihil Praeponere13 de Março de 2021Tempo de leitura: 7 minutos
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A história de cada ser humano pode ser resumida em dois simples atos: o de Deus, que o busca e chama, e o seu, de resposta a esse chamado. 

O Catecismo da Igreja Católica começa falando justamente disso: “Deus, infinitamente Perfeito e Bem-aventurado em si mesmo, em um desígnio de pura bondade, criou livremente o homem para fazê-lo participar de sua vida bem-aventurada” (§1). Por isso, “o desejo de Deus está inscrito no coração do homem” (§27) e desde sempre ele o procura. De sua parte, Deus também vai ao encontro do homem que criou — é a Revelação, que vai acontecendo progressivamente ao longo do que se convencionou chamar, e com muito acerto, “história da salvação”: pois se há uma coisa que Deus faz, em todo o relato bíblico, é salvar o seu povo.

Desde o princípio, porém, Ele salva não só coletividades, mas pessoas bem concretas: Noé e Abraão, Isaac e Jacó, Moisés e Aarão, o Antigo Testamento está repleto de personagens históricas abençoadas diretamente por Deus.

É assim também agora, no tempo da Igreja. Jesus morreu por todos os homens, mas o cálice da salvação precisa ser bebido por cada um, como um remédio que só salva se for aplicado ao doente. É por isso que nós, católicos, vibramos não só com o relato da Paixão de Cristo, mas também com a aplicação de seus frutos na vida dos santos. Se interessa conhecer o modo como Deus nos salvou a todos, não é menos interessante saber como essa salvação acontece na biografia específica de cada um. 

Certos relatos de conversão, no entanto, chamam particularmente a atenção, seja pela fama e estatura da pessoa convertida, seja pelas coisas de que ela teve de abrir mão para dar o seu “sim” a Deus. 

Celebérrima nesse sentido é a conversão de São Paulo, que mereceu ser eternizada no próprio Cânon do Novo Testamento, nos Atos dos Apóstolos (c. 9). Nesse mesmo livro, estão registradas as inúmeras viagens que ele fez para pregar o Evangelho. Não fossem sua determinação e coragem verdadeiramente extraordinárias, Cristo demoraria muito mais para ser conhecido entre os povos — num tempo em que não havia nem Telegram nem telegrama.

Alguns anos mais tarde, Santo Agostinho deixaria seu testemunho gravado para sempre nas Confissões e, contemporânea a ele, Santa Maria Egipcíaca deixaria sua vida de pecados para se isolar até o fim da vida no deserto.

Como esses homens e mulheres, muitos outros houve, ao longo da história, que deixaram tudo o que tinham — cargos e riquezas, misérias e pecados — para seguir Nosso Senhor e entrar na sua Igreja. Também nossa época, marcada por um notável desenvolvimento das artes, das ciências, da tecnologia e dos meios de comunicação, tem os seus “convertidos famosos”. Só do século XX, podemos citar nomes como Edith Stein, Charles de Foucauld, Gertrud von le Fort, Eve Lavallière, Paul Claudel, G. K. Chesterton, Thomas Merton e Gabriel Marcel.

Os testemunhos desses e de muitos outros contemporâneos mostram como o apelo de Deus aos corações humanos é realmente universal, não conhecendo fronteiras de nenhum tipo. A única coisa que pode barrar a ação da graça divina no mundo é a nossa própria vontade, obstinada no mal e na incredulidade.

Duas possíveis conversões em nossos dias

Recentemente, notícias publicadas em sites católicos norte-americanos acenderam o alerta para a provável conversão de duas pessoas públicas com forte impacto sobre o mundo intelectual: trata-se do jornalista Milo Yiannopoulos e do professor de psicologia Jordan Peterson.

O professor Jordan Peterson.

O primeiro, um polemista conservador assumidamente homossexual, concedeu uma entrevista na qual disse ter abandonado a prática e declarou estar se consagrando a São José. Milo Yiannopoulos teve uma adolescência bastante conturbada, marcada por abusos sexuais (envolvendo inclusive um sacerdote católico), e nos últimos anos chegou a viver com um parceiro homossexual. Mesmo assim, nunca procurou “justificar” moralmente a vida que levava. No início de 2019, em uma conversa com Michael Voris, do site Church Militant, Milo chegou a ser desafiado a viver a castidade. Nos últimos meses, ele parece ter aceitado a proposta. 

O segundo, também conservador e autor do best-seller12 Regras para a Vida”, confessou num podcast estar muito próximo da fé em Cristo. Jordan Peterson já foi questionado inúmeras vezes sobre suas crenças, mas quase sempre respondeu evasivamente. Por mais de uma vez declarou: “Eu ajo como se Deus existisse, mas me aterroriza [pensar] que Ele de fato exista”. Depois de um período bem conturbado de sua vida, no entanto, em que enfrentou complicações médicas bastante sérias e chegou a entrar em coma, talvez algo tenha mudado em seu interior. Eis o que ele declarou recentemente (neste vídeo, a partir dos 40min35s), em tom emocionado (tradução e grifos nossos):

C. S. Lewis destacava isto, que a diferença entre Cristo e os deuses da mitologia estava em que há uma representação, uma representação histórica de Cristo também… Você pode debater se isso é ou não genuíno… Há ainda uma narrativa histórica, uma pessoa real que de fato viveu… O problema é que eu provavelmente acredito nisto, mas não sei, eu me impressiono com a minha própria crença, e eu não a entendo… Eu acredito que isso é inegável, o mundo objetivo e o mundo narrativo [se] tocam, e eu vi isso [acontecer] muitas vezes… E o exemplo definitivo disso deveria ser Cristo, e isso me parece estranhamente plausível. Eu ainda não sei o que fazer a respeito disso, em parte por se tratar de uma realidade assustadora demais na qual acreditar completamente; eu não sei o que acontece a quem acredita. 

Como se pode ver, as coisas ainda parecem um pouco confusas para o escritor canadense, mas a sua declaração mostra desde já uma abertura muito significativa à transcendência.

De nossa parte, o que nos cabe, em primeiríssimo lugar, é rezar por esses dois pensadores, para que continuem caminhando em direção a Deus. Ainda não é o momento de nos perguntarmos o que a conversão, seja de Milo seja de Peterson, tem a oferecer à Igreja e ao mundo. Como escreveu Kennedy Hall comentando a provável conversão de Jordan Peterson

Quando homens como Jordan Peterson parecem estar prestes a se converter a Cristo, de imediato nós pensamos no que eles podem oferecer à Igreja em seus esforços para converter o mundo. Isso é compreensível, mas talvez nós devamos olhar para isso de outra forma; não pensemos no que Peterson pode oferecer à Igreja, mas, antes, no que a Igreja poderia oferecer a ele — a salvação de sua alma. 

Uma cautela em tempos de internet

Por fim, mas não menos importante: lembremo-nos que todo cuidado é pouco com os anúncios de “conversões” na era da internet

O jornalista Milo Yiannopoulos.

Primeiro porque, diante da crise de ortodoxia que existe na Igreja Católica, é infelizmente muito comum o fenômeno das falsas conversões. A decisão de Milo, por exemplo, de levar uma vida casta, por quantos movimentos e organizações ditas “católicos” não seria vista como desnecessária! Quantos prelados não se apressariam em desencorajá-lo, chegando mesmo a procurar “elementos positivos” no estilo de vida homossexual! Infelizmente, para essas pessoas, basta se converter a qualquer coisa; mas nós sabemos: a única coisa que pode realmente salvar o homem é a conversão ao Deus verdadeiro, o abandono do mundo, a fidelidade aos Mandamentos.

Em segundo lugar, não só agora como sempre, a conversão não é obra de um só dia, mas na internet tudo é efêmero, instantâneo, passageiro. A própria exposição externa a que muitas figuras públicas se submetem é um fator negativo para o processo interior que precisa acontecer em toda conversão autêntica. 

Isso não significa pôr em dúvida a sinceridade da busca de Deus de ninguém. É, antes, um lembrete, tanto aos que se convertem quanto aos que ouvem falar de conversões, de que a graça de Deus habita em frágeis vasos de barro (cf. 2Cor 4, 7). Assim como quem ontem delinquia hoje pode se redimir, quem hoje se apresenta aos outros como modelo pode muito bem cair e escandalizar a muitos amanhã. Nenhuma conversão, por estupenda que seja, é garantia de segurança e impecabilidade. 

Por isso é tão importante fazer, no início da própria conversão, o mesmo retiro que fez São Paulo: antes de tornar-se “Apóstolo dos gentios”, ele foi para o deserto por três anos e, depois, para sua cidade natal, onde permaneceu dez anos escondido, em oração e recolhimento. Ou seja: o maior dos Apóstolos, mesmo depois de toda a sabedoria humana que havia acumulado em sua vida, mesmo depois de haver recebido o Batismo, julgou necessário ocultar-se aos olhos do mundo por treze anos antes de sair pregando o Evangelho! Por que nós, então, precisamos alardear aos quatro cantos do mundo que mudamos, que agora nos convertemos, que agora “fazemos e acontecemos”?

Sim, testemunhos de conversão são edificantes e é muito bom ouvi-los. Mas, enquanto houver mundo, estamos em guerra, sobretudo contra nossa carne e nossas vaidades. Tornemo-nos primeiro discípulos, para depois sermos missionários. Falemos primeiro com Cristo, antes de falarmos dele. E rezemos para que no caminho em direção a Deus não caiam os que estão de pé, e os que estão caídos se levantem — de uma vez e para sempre.

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Oração de Manassés: a súplica de um rei arrependido
Oração

Oração de Manassés:
a súplica de um rei arrependido

Oração de Manassés: a súplica de um rei arrependido

Este rei de Judá começou o seu governo praticando graves pecados e levando todo o povo de Deus à idolatria, à magia e à adivinhação. Atacado e levado por inimigos ao exílio, no entanto, Manassés se arrependeu e dirigiu a Deus a seguinte oração.

Preces LatinaeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Março de 2021Tempo de leitura: 3 minutos
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A Oração de Manassés é um texto apócrifo do Antigo Testamento que aparece, todavia, em edições da Septuaginta e em apêndices da Vulgata. É atribuída ao rei Manassés, de Judá, cujo reinado durou de 698 a 643 a.C. e cuja história está registrada em 2Rs 21, 1-18 e em 2Cr 33, 1-20. 

Depois de muitos anos cometendo pecados graves e levando todo o povo de Judá à idolatria, “à astrologia, à adivinhação e à magia”, Manassés foi atacado pelos assírios e exilado na Babilônia, e foi nessa situação de angústia que ele supostamente dirigiu a Deus a seguinte oração, de forte caráter penitencial

A Escritura relata que “o Senhor ouviu sua oração, reconduzindo-o a Jerusalém sobre seu trono”. A partir de então, ele “fez desaparecer do Templo do Senhor os deuses falsos… e atirou-os para fora da cidade”; depois, ainda “reconstruiu o altar do Senhor, e ofereceu sacrifícios de ação de graças e louvor”. 

A vida de Manassés é, assim, a ilustração perfeita da antífona que os católicos rezam ao longo de toda a Quaresma: “Vivo ego, dicit Dominus, nolo mortem peccatoris, sed ut magis convertatur et vivatVivo, diz o Senhor, não quero a morte do pecador, mas que se converta e viva”.

A versão original desta prece encontra-se no site Preces Latinae; a edição crítica Weber-Gryson omite vários trechos nela presentes, mas estes foram mantidos na tradução abaixo, por acentuarem a tônica penitencial da oração. O texto foi vertido à língua portuguesa por nossa equipe.


Senhor Deus onipotente de nossos pais Abraão, Isaac e Jacó e de toda a sua justa descendência; Senhor, que fizestes o céu e a terra com todo o seu ornato, que fendestes o mar com a palavra de vossa ordem, que fechastes o abismo e o assinalastes com o vosso terrível e louvável nome, a quem temem todas as coisas e tremem ante a face de vosso poder. Porque é insuportável a magnificência de vossa glória e insustentável a ira de vossa ameaça sobre os pecadores, imensa porém e investigável a misericórdia de vossa promessa, porque vós sois o Senhor altíssimo sobre toda a terra, benigno, lento para a cólera, cheio de clemência e paciente com a malícia dos homens.

Vós, porém, Senhor, segundo a vossa bondade prometestes a penitência e a remissão aos que pecaram contra vós; e, da multidão de vossas misericórdias, decretastes [dar] penitência aos pecadores, para a salvação.

E vós, portanto, Senhor, Deus dos justos, não impusestes penitência aos justos Abraão, Isaac e Jacó, a estes que contra vós não pecaram, mas impusestes a penitência por causa de mim, pecador.

Porque pequei acima do número das areias do mar, multiplicaram-se minhas iniquidades, Senhor, multiplicaram-se minhas iniquidades. E não sou digno de voltar-me e olhar para a altura do céu, pela multidão de minhas iniquidades.

Encurvei-me muito sob um vínculo de ferro, de modo que não posso elevar minha cabeça nem me é possível respirar, porque provoquei a vossa cólera e pratiquei o mal diante de vós, tencionando abominações e multiplicando ofensas.

E agora dobro os joelhos de meu coração rogando à vossa bondade, Senhor. Pequei, Senhor, pequei, e reconheço a minha iniquidade. Por isso vos peço suplicando, Senhor: perdoai-me, perdoai-me, não me façais perecer com minhas iniquidades nem, em vossa ira, me reserveis males para a eternidade nem me condeneis às entranhas ínfimas da terra. Porque vós sois, ó Deus, o Deus dos penitentes, e em mim mostrareis toda a vossa bondade. Porque me salvareis a mim, indigno, segundo vossa grande misericórdia. E vos louvarei sempre, todos os dias da minha vida. Porque vos louva todo o exército dos céus, e vossa é a glória pelos séculos dos séculos. Amém.

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“Meninx”? A resposta de Madre Angélica
Sociedade

“Meninx”?
A resposta de Madre Angélica

“Meninx”? A resposta de Madre Angélica

E se o Catecismo da Igreja Católica fosse escrito todo na chamada “linguagem inclusiva”? Em 1992, essa proposta quase se tornou realidade nos Estados Unidos, não fosse a luta de Madre Angélica para defender a fé e a Tradição da Igreja.

Equipe Christo Nihil Praeponere9 de Março de 2021Tempo de leitura: 8 minutos
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Querem ouvir uma história esquisita? 

Outro dia, um jornal narrava a situação de uma avó que perguntou ao neto, cujo aniversário se aproximava, quantos amigos ele convidaria para sua festa. Notando que o aniversariante só havia mencionado garotos, ela questionou se não viria nenhuma menina também. “Sim. Claro. É que você disse amigos, e não ‘amigues’”, corrigiu o pequeno militante, para perplexidade da anciã [1]. Segundo o jornal, episódios como esse têm se repetido cada vez mais entre a classe média progressista de alguns países. Uma coisa é certa: se ninguém tomar providências, dentro de poucos anos a linguagem humana que conhecemos cederá lugar a um delírio linguístico tão revolucionário quanto ridículo.

O potencial destrutivo desse empreendimento maluco salta aos olhos. Agora, imaginem que a Bíblia ou o Catecismo adotasse essa mesma linguagem em sua redação. Com que espanto, por exemplo, as senhoras do Apostolado da Oração não reagiriam a um texto que dissesse “menine”, e não “Menino Jesus”? Que perplexidade não tomaria o coração dos fiéis ao ouvirem de seus catequistas que Nosso Senhor escolheu “discípulxs”, e não “discípulos”?

Apesar de surreal, esse pesadelo quase aconteceu nos Estados Unidos, décadas atrás, não fosse a intervenção sábia de uma valente vovozinha: Madre Angélica, a fundadora da TV católica EWTN. A história é narrada em sua biografia pelo jornalista Raymond Arroyo (os grifos são nossos) [2]:

Foi uma intervenção do Cardeal Bernard Law, arcebispo de Boston, em um Sínodo Extraordinário dos Bispos, em 1985, que trouxe a lume o primeiro Catecismo universal da Igreja Católica em mais de 400 anos. Law, expressando um desejo episcopal amplamente difundido, pediu por um único volume que codificasse exatamente o que a Igreja acreditava e ensinava no período turbulento pós-Vaticano II. Abraçando a ideia, o Papa João Paulo II aprovou um comitê de redação em 1986.

A edição francesa original desse Catecismo, promulgado pelo Papa em outubro de 1992, vendeu mais de um milhão de cópias. A demanda do público internacional se intensificou, exigindo o lançamento das edições espanholas, asiáticas, italianas e africanas. Mas a edição em inglês, mergulhada num pântano linguístico e teológico, não estava disponível em lugar nenhum. Madre Angélica foi particularmente responsável pelo atraso.

Devido ao seu papel seminal na elaboração do Catecismo, era natural que o Cardeal Law supervisionasse a tradução da edição em inglês. Sob sua liderança, os tradutores adotaram uma abordagem inclusiva, retirando sistematicamente termos específicos de sexo e substituindo-os por alternativas neutras. Referências a “homem”, por exemplo, foram traduzidas por “humanidade”; “homens e mulheres” transformaram-se em “pessoas e família”. Em vez das palavras de Jesus: “Todas as vezes que fizestes isso a um destes pequeninos que são meus irmãos”, lia-se na nova tradução: “Todas as vezes que fizestes isso a um destes pequeninos que são membros de minha família”.

Em uma carta de dezembro de 1992, acompanhando o esboço final da edição em inglês, o Cardeal Law descreveu a tradução aos seus irmãos bispos como uma “abordagem moderada” em direção à linguagem inclusiva. Os bispos americanos aprovaram o esboço e o enviaram para a aprovação final de Roma. Uma tempestade de críticas surgiu.

“Eles não estão mudando a linguagem por razões orgânicas, mas por causa da pressão de alguns grupos que se dizem ‘ofendidos’”, declarou o Padre Joseph Fessio, editor da tradicional editora Ignatius Press. Fessio acreditava que a tradução se rendera aos progressistas e às feministas, que desejavam um ajuste do ensinamento católico às próprias agendas. “Há outros católicos que não querem a mudança, e eles foram ignorados”, disse Fessio.

No informativo de sua arquidiocese, o Cardeal Law defendeu a tradução por motivos culturais. “Houve um tempo em que a palavra ‘homem’ era geralmente compreendida… como todos os seres humanos”, ele escreveu. “Este nem sempre é o caso hoje, dada a mudança cultural em relação à inclusão”.

As religiosas de Madre Angélica haviam requisitado 150 catecismos em inglês para vendê-los em suas lojas quando a notícia da controvérsia chegou ao claustro. A espirituosa irmã Agnes, uma religiosa agraciada com beleza e coragem, ligou ao vendedor para expressar qual edição elas esperavam receber. Quando soube que eles haviam reservado cópias do catecismo da “tradução na linguagem inclusiva”, Agnes cancelou o pedido, presumindo que Madre Angélica faria o mesmo. Tivesse acontecido com qualquer outro grupo de irmãs, o incidente passaria despercebido, mas um claustro com um canal direto a milhões de católicos merecia um escrutínio minucioso.

O telefone do mosteiro tocou em 8 de janeiro de 1993. Era o Cardeal Law, ligando aparentemente para Madre Angélica a fim de discutir o cancelamento da compra dos livros e entregar-lhe uma mensagem do núncio papal. Rouca por um grave ataque de asma, Madre Angélica recusou a ligação. De acordo com a história do OLAM (N.T.: Our Lady of the Angels Monastery), o próprio núncio ligou para a EWTN, mas foi igualmente informado de que Madre Angélica não podia falar.

Mais tarde, o Bispo Raymond Boland, de Birmingham, telefonou para Madre Angélica a fim de lhe assegurar que a tradução do catecismo em linguagem inclusiva seria aprovada por Roma e que uma oposição pública seria vista como hostilidade à vontade da Igreja. Madre Angélica respondeu ao telefonema. De forma direta, ela disse ao bispo que não apreciava a linguagem inclusiva e lhe fez uma pergunta retórica: “Jesus foi… concebido pelo Espírito Santo e nasceu como um humano ou um indivíduo? Você não pergunta a uma mãe se o seu filho é um humano, você pergunta se é um menino ou uma menina”. Embora ela não tivesse sido diretamente responsável pelo cancelamento da compra dos livros, o que provocara o telefonema, a Madre estava muito feliz por expressar a própria opinião. A batalha havia começado.

Depois de revisar o esboço em inglês do Catecismo, o Vaticano convocou o Cardeal Law a Roma em fevereiro. No mesmo período, Madre Angélica tinha seus próprios assuntos a tratar na Cidade Eterna. Conforme se aproximava da Congregação para a Doutrina da Fé, viu o Cardeal Law sair do palácio, com um sorriso estampado em seu rosto carnudo.

“Oh! Olá, Madre. Eu ouvi que a senhora tem um encontro com o Cardeal Ratzinger. Agora, a senhora defenda aquela linguagem inclusiva. Ela é muito importante na América”, Angélica se lembra de o Cardeal lhe dizer. “E eu pensei: Ah! você deve saber por que eu estou aqui”.

Madre Angélica encontrou-se com o Cardeal Joseph Ratzinger, a autoridade doutrinal do Vaticano e, em última análise, o homem responsável pelo Catecismo. Em seu escritório, eles conversaram intensamente. Sentando-se, um pouco desconfortável, em uma cadeira estofada de veludo vermelho e dourado, que facilmente poderia ter-se passado por trono para a coroação de Napoleão, Angélica explicou o alcance da operação de seu canal 24h e de sua rede de ondas curtas. “Eu quero levar a Igreja por todo o mundo, e nós podemos fazer isso. Mas não podemos se for na linguagem inclusiva”, disse a Madre ao Cardeal. “Ela é terrível; muda a doutrina e muda tudo”. Depois de trocarem cordialidades, a Madre agradeceu ao Cardeal e partiu.

No fim das contas, o Vaticano rejeitou o esboço de “gênero neutro”, suspendendo a publicação do Catecismo em inglês por quase um ano e meio. Nesse ínterim, a Santa Sé exigiu sua própria tradução, fiel ao original francês, repleta de pronomes masculinos e terminologia específica de sexo…

Para além de todas as críticas e ressalvas, a intervenção de Madre Angélica nessa história foi apenas a reação normal de quem percebe que “o rei está nu”. 

Madre Angélica e o Papa S. João Paulo II.

O problema da chamada “linguagem inclusiva” é que ela é tudo, menos inclusiva. Explicamos: a língua é a identidade de um povo, o meio pelo qual uma tribo, nação ou civilização, seja antiga ou moderna, desenvolve sua cultura, arte, moral, virtudes e religiosidade. Como explica o historiador Christopher Dawson, “é somente por intermédio da língua que o homem pode transmitir a memória da experiência passada para as gerações futuras e, desse modo, gerar acúmulo de conhecimento que é a condição da cultura” [3]. Mais ainda: “Sem o idioma”, diz Dawson, “teria sido impossível ao homem libertar-se do domínio dos instintos que determinam a vida imutável da existência não humana” [4].

É claro que, aqui e ali, o idioma pode, e às vezes deve, sofrer alterações e evoluir, mas desde que essa evolução seja orgânica e não subverta sua ordem intrínseca. De outro modo, o nexo entre uma geração e outra fica comprometido como uma verdadeira Torre de Babel. O episódio narrado por aquele jornal citado no começo deste texto não ilustra apenas uma situação corriqueira de uma determinada família; ele ilustra a soberba de uma geração que, em vez de se sentar para ouvir os “causos” e aprender com a sabedoria dos antigos, prefere jogar todo o passado fora em nome de um arranjo social fictício, que vê luta de classes em cada esquina. A “linguagem inclusiva” está para o idioma como o movimento Black Lives Matter está para as estátuas de Winston Churchill ou Cristóvão Colombo. A questão é muito mais destruir do que incluir.

Que o Cardeal Bernard Law, cujo nome esteve envolvido mais tarde no escândalo de pedofilia que deu argumento ao filme Spotlight, não pudesse avaliar a consequência da sua famigerada tradução, é coisa sobre a qual não discutimos, pois não nos cabe julgar intenções. Mas, como percebeu Madre Angélica, um idioma não pode ser uma massinha de modelar para ser adaptado ao sabor de cada indivíduo. Se toda uma gramática é reestruturada simplesmente para agradar a determinado grupo, outro será desagradado. Como consequência, os conceitos vão perdendo sentido e a alfabetização se converte numa tarefa quase impossível, assim como a evangelização. 

Aliás, é justamente por isso que os grandes ditadores sempre investiram em propaganda e narrativas para subverter a ordem e dominar o povo. George Orwell representou muito bem essa “novilíngua” em sua obra 1984, cujo legado, como o de outros clássicos literários, agora está ameaçado precisamente por ela: a linguagem inclusiva.

Também a teologia corre um sério risco, caso queira ceder a grupos de pressão para se mostrar, digamos, mais “tolerante”: o de apresentar um Jesus tão humano, tão humano, que deixe até de ser homem.

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