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A prostituta barrada na porta da igreja
Santos & Mártires

A prostituta barrada na porta da igreja

A prostituta barrada na porta da igreja

“Mas quando eu pisei no limiar da porta, por onde todos entraram, fui impedida por uma força que não me deixou entrar... Era como se um destacamento de soldados estivesse lá de pé, se opondo à minha entrada.”

Equipe Christo Nihil Praeponere5 de Abril de 2019
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É uma constante na arte sacra a figura de Santa Maria Egipcíaca, que viveu de 344 a 421. Sempre impressionaram os artistas sua vida de penitência no deserto e o episódio milagroso de sua última comunhão, recebida das mãos de um monge chamado Zózimo.

Foi a ele que esta santa contou toda a sua história, a qual chega até nós graças a um relato intitulado Vita Sanctae Mariae Aegyptiacae, Meretricis, atribuído a São Sofrônio de Jerusalém [1].

Quem tiver tempo, deve fazer a si mesmo o favor de ler inteiro este edificante relato. Não devem nos assustar os fatos miraculosos que rondam a vida dessa santa — e que a crítica moderna insiste em desacreditar —, pois prodígio algum que aconteceu em sua vida se compara à transformação que lhe aconteceu na alma. Lembremo-nos sempre que, como dizem Santo Agostinho e Santo Tomás [2], a justificação do ímpio é obra maior do que a criação do céu e da terra, pois estes passarão, mas a glória dos bem-aventurados no Céu não passará jamais.

Maria do Egito (seu lugar de nascimento) começa sua história contando como deixou a casa paterna, aos 12 anos, e foi para Alexandria, onde perdeu a virgindade e entregou-se à luxúria por cerca de 17 anos. “Eu era como um fogo de depravação pública”, ela confessa, “e não era por amor ao ganho. Frequentemente, quando eles desejavam pagar-me, eu recusava o dinheiro. Agia dessa maneira para fazer com que tantos homens quantos fosse possível desejassem possuir-me, fazendo de graça o que me dava prazer.” Ela se prostituía, portanto, não tanto por dinheiro, mas por um “desejo insaciável e uma paixão irreprimível por deitar-me na lama”.

Um dia, ela embarcou com inúmeros líbios e egípcios rumo a Jerusalém. Eram peregrinos que iam à Terra Santa para a festa da Exaltação da Santa Cruz. Ela ia movida não por desejo religioso, mas sim pela vontade de “ter mais amantes que pudessem satisfazer” suas paixões. Sem dinheiro e sem alimento, como se manteria Maria? “Eu tenho um corpo e, ao invés de pagar pela viagem, o porei à disposição”, ela dizia.

De fato, assim ela fez. Para dar a Zózimo uma ideia do abismo em que se achava, é com estas palavras que ela descreve sua viagem a Jerusalém:

Como poderei relatar o que aconteceu depois disso, ó homem de Deus? Que língua pode narrar, ou que ouvidos podem ouvir tudo o que aconteceu naquela embarcação durante a viagem? Como eu então forçava aqueles pobres moços, até mesmo contra a sua vontade! É inominável a turpíssima depravação que eu então lhes ensinei. Estou surpresa, Pai, de como o mar suportou as luxúrias da minha iniquidade, de como a terra não abriu suas mandíbulas e me arrojou viva no inferno, eu, que tantas almas havia prendido nas teias da morte.

Chegando à Terra Santa, Maria continuou “vivendo o mesmo tipo de vida, talvez até pior”: além dos rapazes que seduziu em alto mar, continuou a se entregar ainda “a muitos outros, tanto da cidade quanto estrangeiros que lá estavam”.

Já aqui essa história nos convida à meditação. Comecemos por constatar que, infelizmente, exemplos da vida pregressa como a de Santa Maria Egipcíaca não são muito difíceis de encontrar hoje em dia. Na verdade, eles estão a apenas um clique de distância. O que são, de fato, os sites de pornografia senão uma reunião, seleta e artificiosamente elaborada, dessas pessoas perdidas, entregues aos prazeres da carne e que “ensinam” a seus usuários todo tipo de depravação? E nossos homens, o que se tornaram senão frequentadores assíduos desses “prostíbulos virtuais”, sem os quais não conseguem mais passar e levar uma vida saudável?

Homens e mulheres afundados na lama da impureza, e não se sabe quem está mais sujo: eis a situação em que nos encontramos. Mas quantas dessas pessoas não morrem nesse estado? Esta, sim, é a maior tragédia de todas. Maria Egipcíaca recebeu de Deus a graça — como veremos — de se arrepender dos pecados que cometeu, levar uma vida de penitência e morrer em estado de amizade com Deus. Mas e nós, quanto tempo mais esperaremos para nos convertermos e mudarmos de vida? Até quando continuaremos a ignorar o Deus que nos procura e quer a nossa salvação?

A quem se encontra em estado de graça, não é menos forte a meditação a fazer: o que seríamos de nós, se tivéssemos partido deste mundo em pecado mortal? O que seria de nossa alma se naquela noite em que dormimos afastados de Deus, naquele dia em que lhe voltamos as costas (até prometendo para nós mesmos buscar a Confissão no dia seguinte), o que aconteceria se naquela hora fôssemos chamados para a prestação de contas que dá início à eternidade?

Pensemos nessas coisas e tenhamos sempre um coração agradecido a Deus por sua misericórdia nos ter atingido como atingiu esta sua filha, Santa Maria Egipcíaca. Mas deixemos que agora fale ela, sem interrupções, de como se deu o bonito milagre de sua conversão:

O dia sagrado da Exaltação da Cruz despontou, enquanto eu ainda estava à caça de jovens. Ao amanhecer, vi que todos corriam para a igreja. Então, corri com o resto deles. Quando a hora da sagrada elevação se aproximou eu estava tentando abrir caminho entre a multidão, que lutava para chegar às escadarias. Finalmente, com grande dificuldade, consegui ir me espremendo quase até às portas da igreja, de onde a vivificante árvore da Cruz estava sendo mostrada ao povo. Mas quando eu pisei no limiar da porta, por onde todos entraram, fui impedida por uma força que não me deixou entrar. Entretanto, completamente ignorada pela multidão, me encontrei sozinha no pórtico da igreja. Pensando que isto tivesse acontecido devido à minha fraqueza de mulher, comecei novamente a abrir caminho com os cotovelos no meio da multidão. Mas era em vão meu esforço. Novamente meus pés pisaram no limiar onde outros iam entrando na igreja, sem encontrar nenhum obstáculo. Eu somente parecia não ser aceita na igreja. Era como se um destacamento de soldados estivesse lá de pé, se opondo à minha entrada. Mais uma vez fui excluída pela mesma força poderosa e novamente fiquei no limiar.

Havendo tentado por três ou quatro vezes, finalmente me senti esgotada e não tendo mais forças para empurrar e ser empurrada, fui para o lado e permaneci num canto do pórtico. E então, com grande dificuldade, começou a despontar algo em mim e comecei a perceber a razão pela qual eu estava sendo impedida de ver a Cruz vivificante. A palavra da salvação gentilmente tocou os olhos do meu coração e revelou-me que era minha vida impura que fechava a entrada para mim. Comecei a chorar e lamentar e bater no meu peito e a suspirar das profundezas do meu coração. E assim permaneci chorando, quando vi acima, um ícone da Santíssima Mãe de Deus. E voltando para ela meus olhos do corpo e da alma eu disse: “Ó Senhora, Mãe de Deus, que deste à luz na carne a Deus, a Palavra; eu sei, ó quão bem eu sei, que não há nenhuma honra ou louvor para ti, quando alguém tão impura e depravada como eu olha para teu ícone, ó sempre Virgem, que mantiveste vosso corpo e alma na pureza. Certamente inspiro desprezo e desgosto ante tua pureza virginal. Mas já ouvi que Deus, que nasceu de ti, se tornou homem para chamar pecadores à conversão. Então, ajuda-me, pois não tenho outro auxílio. Ordena que os portais da igreja se abram para mim. Permite-me ver a venerável árvore na qual Ele que nasceu de ti, sofreu na carne e na qual Ele derramou seu preciosíssimo Sangue pela redenção dos pecadores e para mim, indigna como sou. Seja minha testemunha fiel diante de teu Filho que eu nunca mais corromperei meu corpo na impureza da fornicação, mas tão logo eu veja a árvore da Cruz, renunciarei ao mundo e às suas tentações e irei aonde quer que me conduzas.”

Assim falei e como se recobrasse nova esperança, com fé firme e sentindo alguma confiança na misericórdia da Mãe de Deus, deixei o lugar onde tinha ficado rezando. E fui novamente, misturada à multidão que fazia seu caminho dentro do templo. E ninguém parecia impedir-me, ninguém estorvou minha entrada na igreja. Fiquei possuída de tremor e estava quase à beira do delírio. Tendo chegado tão próximo das portas, o que eu não conseguira antes, como se a mesma força que me impedira agora abrisse caminho para mim, eu agora entrava sem dificuldade e me encontrei no lugar santo. E então vi a Cruz vivificante. Vi também os Mistérios de Deus e como o Senhor aceita o arrependimento. Jogando-me ao chão, adorei aquela terra santa e tremendo, beijei-a. Então saí da igreja e fui àquela que prometeu ser minha segurança, ao lugar onde eu selei meu voto. E dobrando meus joelhos diante da Virgem Mãe de Deus dirigi a ela estas palavras: “Ó amável Senhora, tu me mostraste teu grande amor por todos os homens. Glória a Deus, que aceita o arrependimento de pecadores através de ti. O que mais posso lembrar ou dizer, eu que sou tão pecadora? É hora para mim, ó Senhora, de cumprir meu voto, de acordo com o teu testemunho. Agora, conduz-me pela mão pelo caminho do arrependimento!”

E ao dizer estas palavras ouvi uma voz do alto: “Se tu atravessares o Jordão irás encontrar glorioso repouso”. Ouvindo esta voz e crendo que eram para mim, gritei para a Mãe de Deus: “Ó Senhora, Senhora, não me abandones!”

A história é bela e comovedora. Maria estava ainda afundada em seu pecado, à procura de mais pessoas a quem ensinar suas imoralidades, e Deus lhe mostrou — fortiter et suaviter, como só Ele é capaz — que sua vida desregrada precisava mudar.

“Santa Maria do Egito”, por José de Ribera.

Ela então caiu em si e recorreu a quem? A Maria, Mãe de Deus! Mas se foi Deus quem a fez despertar de seu sono de pecado, por que recorrer a outrem? Se é Ele que salva, por que dirigir-se a ela? Ora, muito simples — e Santa Isabel o intuiu no Evangelho (cf. Lc 1, 43), e os primeiros cristãos o entenderam ao compor a oração Sub tuum praesidium, e Maria do Egito demonstrou ter entendido o mesmo com sua súplica: assim como Deus quis desposar a humanidade na Encarnação servindo-se de Maria, Ele quer se unir a nossas almas também através dela.

Santo Tomás diz algo parecido ao comentar a passagem das bodas de Caná: observando que o evangelista diz primeiro: “achava-se ali a mãe de Jesus”, para só depois mencionar a presença de Cristo e de seus Apóstolos (cf. Jo 2, 2) na festa, o Aquinate afirma que “a bem-aventurada Virgem, mãe de Jesus, está presente nos matrimônios espirituais como aquela que une os esposos [nuptiarum consiliatrix], pois é por sua intercessão que as almas se unem a Cristo pela graça” [3].

Maria do Egito dá testemunho, no entanto, de que a intercessão de Nossa Senhora não só a uniu a Cristo, como a manteve firme nessa união. Depois de deixar aquela igreja em Jerusalém, atravessar o rio Jordão e chegar ao deserto (onde ela passou, como se sabe, o resto de seus dias), as batalhas que ela travou com o demônio foram intensas, e em todas elas foi a Mãe de Deus que a valeu:

Creia-me, Pai, por dezessete anos vivi nesse deserto lutando contra feras selvagens — desejos loucos e paixões. Quando ia me alimentar eu costumava lamentar a carne e o peixe que eu tinha em abundância no Egito. Lamentava também não ter vinho que eu apreciava tanto, pois eu bebia muito vinho quando vivia no mundo, enquanto aqui eu nada tinha, nem mesmo água. Queimava-me até sucumbir de sede. Um desejo atroz de canções libertinas também me perturbavam e me confundiam grandemente, levando-me quase a cantar canções satânicas, que eu tinha aprendido antes. Mas quando esses desejos me vinham, eu batia no peito e me recordava do voto que tinha feito antes de vir para o deserto. Em meus pensamentos voltava-me para o ícone da Mãe de Deus que me tinha recebido e a quem clamava na oração. Implorava-lhe para dar caça a esses pensamentos, diante dos quais minha alma estava sucumbindo. E depois de chorar por longo tempo e batendo no peito, eu costumava ver uma luz que parecia brilhar sobre mim de algum lugar. E depois da violenta tempestade finalmente vinha a paz.

E como posso dizer-lhe sobre os pensamentos que me instavam à fornicação, como posso expressá-los a ti, Pai? Um fogo inflamava meu miserável coração que parecia queimar-me completamente e me despertava uma sede de abraços. Tão logo esse desejo me surgia, eu jogava-me ao solo e molhava-o de lágrimas, como se visse diante de mim minha testemunha, que tinha me aparecido em minha desobediência e que parecia ameaçar punição para o castigo. E eu não me erguia do chão (algumas vezes ficava lá prostrada por um dia e uma noite), até que a calma e a doce luz descesse e me iluminasse e pusesse em fuga os pensamentos que me possuíram. Mas sempre eu voltava os olhos de minha mente para minha protetora, pedindo-lhe para estender seu auxílio a uma que estava afundando rápido nas dunas do deserto. E sempre a tive como meu socorro e aquela que aceitava meu arrependimento. E assim vivi por dezessete anos, entre constantes perigos. E desde então a Mãe de Deus me auxilia em tudo e me conduz como se pela mão fosse.

Santa Maria do Egito recebeu ainda, antes de morrer, uma visita especial de Jesus sacramentado: aquela que, por sua impureza, se vira impedida de entrar na casa de Deus, por sua penitência terminou “atraindo” o próprio Deus para o seu deserto.

Assim acaba sua história neste mundo, assim Santa Maria do Egito nasce para o Céu. Há uma porção de detalhes de sua biografia dos quais poderíamos extrair ainda um sem número de lições, mas deixemos isso para outra ocasião. Por ora, sirvamo-nos desse belo relato de conversão para meditarmos em nossa própria vida, no modo como Deus nos visitou para fazer-nos entrar em sua Igreja, e em como Ele nos chamou para fazer penitência no deserto desta vida.

Em primeiro lugar, alegremo-nos por tantas “portas fechadas” em nossa cara ao longo desta vida; bendigamos ao Senhor por todas as “desgraças” que nos sucederam, mas que se revelaram, ao fim e ao cabo, grandes instrumentos da Providência para a nossa salvação! A frase pode estar banalizada, mas, de fato, Deus nos fecha portas agora porque tem outras para nos abrir. Dizendo de outro modo, é melhor que nos sejam negadas certas coisas aqui, que soframos certas penas aqui, que nos sejam fechadas certas portas aqui, do que sermos barrados na entrada do Reino dos céus.

Mas se as palavras “penitência”, “deserto” e “sofrimento” nos parecem duras e nos fazem querer desanimar, não nos esqueçamos da grande paz e doçura que acompanham a entrega dos que amam a Deus — paz e doçura que os mundanos não encontram em seus pecados!

Com efeito, quem olhasse para Maria Egipcíaca prostituída, antes de seu encontro com Cristo crucificado, com que pena não veria, no fundo de seu olhar, o vazio angustiante de quem estava gastando todas as suas energias numa procura vã de felicidade! Aquela mulher sensual nunca imaginaria a reviravolta que aconteceria em sua vida… E, no entanto, se colocássemos lado a lado, no leito de morte, a Maria pecadora e a Maria penitente, e perguntássemos a uma e a outra se se arrependia da vida que tinha levado… a primeira certamente diria que sim — e daria tudo para voltar atrás e refazer-se —, mas a segunda com certeza responderia que não

Por quê? Porque Santa Maria do Egito, a Penitente, havia encontrado, no deserto com Deus, a paz que o mundo não pode dar (cf. Jo 14, 27). Dali ela seguiria rumo à Jerusalém celeste, sim; rumo à Terra Prometida do Céu, onde não há luto, nem lágrimas, nem dor, nem escuridão. Mas já aqui, através da fé, ela pôde experimentar um prelúdio de tudo isso — e de ter entregado sua vida ao Amor ela não poderia arrepender-se jamais [4].

Referências

  1. O texto latino completo pode ser consultado facilmente na Patrologia Latina, v. 73, col. 672-690, mas há uma tradução em português do relato no site ortodoxo Ecclesia.
  2. Cf. S. Th. I-II, q. 113, a. 9.
  3. Comentário ao Evangelho de São João, II, 1, n. 343.
  4. A frase: “Não! Não me arrependo de me ter entregue ao Amor!” faz parte do testamento de Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face (cf. Últimos Colóquios, Caderno Amarelo, 30 set.).

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“Socializar” sim, mas não na Missa
Liturgia

“Socializar” sim, mas não na Missa

“Socializar” sim, mas não na Missa

Se há uma experiência de “comunidade” própria da liturgia, definitivamente ela não consiste em acenar aos circundantes, compartilhar notícias, apertar-lhes as mãos ou “dialogar” de improviso com um padre.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere3 de Abril de 2019
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A liturgia da Igreja tem como fim principal a honra e a glória de Deus, e com isso a santificação de nossas almas, levando-nos a uma intimidade sempre mais profunda com Jesus Cristo. Ao perseguir esses fins, ela favorece a fraternidade entre os homens; na verdade, ela mesma cria essa fraternidade, pois é só na adoração em comum do Pai, através de seu divino Filho, que os homens são de fato irmãos. O problema com a noção contemporânea de “fraternidade” não é só a sua completa falsidade, mas o fato de ela ter sido retirada do único contexto em que fazia algum sentido e separada da única fonte da qual ela realmente poderia se originar.

É comum que as pessoas de convicções “liberais” ou “progressistas” acusem os católicos tradicionais de enfatizarmos sobremaneira o aspecto divino e transcendente da liturgia, a ponto de negligenciarmos seus aspectos imanentes e humanos — a saber, que Deus nos deu a liturgia para nosso próprio benefício (“o sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado”), e que se trata de um ato comunitário que expressa e consolida nosso vínculo social uns com os outros.

Ora, que a liturgia seja um ato público e coletivo, e que ela redunde em nosso benefício, são coisas de que não restam dúvidas: Deus é a perfeição absoluta, a bondade imutável e nada do que fizermos acrescentará ao que Ele é. Ao mesmo tempo, é bom e conveniente que nós, enquanto povo de Deus, nos dirijamos a Ele e tenhamos consciência de nosso próximo como um concidadão da casa de Deus. (De qualquer modo, o caráter público da liturgia não se manifesta pelo número de pessoas nela presente, mas sim pela ação, que se estende no tempo e no espaço, de Cristo como Sumo Sacerdote e Cabeça de seu Corpo Místico; é por isso que mesmo uma “Missa privada”, só com a presença do sacerdote, é ainda assim um ato público e coletivo.)

Dito isso, precisamos tomar cuidado ao menos para que a nossa compreensão do sentido de comunidade esteja em sintonia com a real natureza da Igreja.

Primeiro e acima de tudo, a liturgia nos coloca diante de Deus e de seus anjos e santos. Reverência, solenidade e majestade são características do culto divino precisamente porque não se trata de mera aglomeração de pessoas, mas sim de um momento em que nosso mundo se abre à vida e à graça da Jerusalém celeste. Na liturgia, nós nos unimos a todos os santos que adoraram a Deus no passado, a todos que O adoram no presente (estejam eles perto de nós, nos bancos da mesma igreja, ou em qualquer outro lugar do mundo) e também, de uma forma só por Deus conhecida, em sua onisciência e amor de predileção, a todos que O adorarão nos séculos vindouros. Portanto, não é apenas a “nossa” liturgia, o ato de uma comunidade local particular; há sempre, associada a ela, uma dimensão cósmica, universal e eterna.

Essa gloriosa realidade da comunhão dos santos deve transformar de maneira definitiva o modo como nós prestamos culto público a Deus. A liturgia em si mesma não é — e só se depreciaria se se tornasse isto — uma reunião para acenar aos circundantes, compartilhar notícias, apertar-lhes as mãos, “dialogar” de improviso com um padre ou coisa do gênero. Esse tipo de coisa pode ter o seu lugar apropriado antes e depois da Missa, e fora do lugar de culto, mas certamente não é da sua essência e mui frequentemente constitui um sério obstáculo para participar dos santos mistérios e atingir os fins inerentes a toda liturgia.

A experiência de comunidade própria da liturgia é uma experiência de adoração em comum, com todos os rostos e corações voltados para o sacrário, atentos às verdades divinas que estão sendo anunciadas e ao sacrifício divino que está sendo renovado. Em um paradoxo bem conhecido na vida dos santos, é geralmente quando mais nos esquecemos de nós mesmos e dos mais próximos, concentrando-nos com intensidade na Missa, que as sementes da verdadeira caridade para com o próximo e para com nós mesmos são plantadas com mais profundidade em nossas almas.

Observações semelhantes podem ser feitas quanto ao papel da palavra e da música. É inquestionável que nossas almas se elevam e a nossa consciência de unidade se fortalece na igreja quando, por exemplo, o povo responde dignamente e em uníssono na Missa, ou quando cantamos juntos músicas piedosas e ricas em doutrina, como são os cantos gregorianos, sempre recomendados pela Igreja. Tudo isso são formas apropriadas de nutrir e expressar a fé.

O ideal da participação plena, verdadeira e ativa na liturgia tem como meta formar a alma católica, forjar o caráter do cristão. Isso nos sugere também como não devem ser a palavra e a música na liturgia: a abordagem não pode ser do tipo “eu tenho de dizer ou cantar alguma coisa o tempo todo”, pois isso acaba se tornando uma espécie de agitação, que distrai e impede a espiritualidade.

“Falar” não significa preencher o espaço de ruído, assim como “cantar” não significa formar um coro animado cujas vozes precisam todas ser ouvidas. As palavras a ser pronunciadas devem ser uma resposta a algo que já se teve a oportunidade de escutar no silêncio da alma; as canções a ser entoadas devem antes enriquecer e instruir, e não simplesmente ser “qualquer coisa” para ocupar o espaço e o tempo.

Dessa perspectiva, só o que se pode fazer é esperar pelo dia em que os sacerdotes, bem como os demais encarregados do ministério de liturgia, começarão a prezar pelo silêncio, a meditação, a reflexão sobre os veneráveis textos que nos legou a nossa fé e a escuta das arrebatadoras melodias do canto gregoriano. Não seria difícil (e incontáveis seriam os benefícios de) substituir músicas banais por melodias gregorianas que tivessem um tom mais doce nos lábios e uma influência mais duradoura na mente. Não seria difícil (e um grande passo seria) se pudéssemos ter uma igreja em silêncio antes da Missa, uma santa quietude durante a Oração Eucarística e uma atmosfera de paz após a Missa para os que desejassem estender sua ação de graças (com o celebrante dando primeiro o exemplo). Ficar sentado e recolher-se por cinco minutos com a mente em Deus é algo que exige e promove mais maturidade espiritual do que cantar por uma hora.

Nossos antepassados, na liturgia romana tradicional, compreendiam bem o valor do recolhimento: “‘Parai e sabei, conhecei que eu sou Deus, que domino as nações, que domino a terra!’ Conosco está o Senhor do universo! O nosso refúgio é o Deus de Jacó!” (Sl 45, 11-12). Os silêncios da liturgia antiga dão à alma tempo para absorver os mistérios e refletir tanto sobre a Palavra de Deus a nós revelada e transmitida quanto sobre a sua vinda até nós através da Eucaristia. A alma tem a ocasião de ganhar profunda consciência da misericórdia, da glória e da presença divinas. “Conosco está o Senhor do universo! O nosso refúgio é o Deus de Jacó!”

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Os sacrifícios de um rei em meio à guerra
Santos & Mártires

Os sacrifícios
de um rei em meio à guerra

Os sacrifícios
de um rei em meio à guerra

Os sacrifícios que teve de fazer, em meio à guerra, o Beato Carlos da Áustria, último rei do Império Austro-Húngaro, iluminam as cruzes que aparecem em nossa vida… sem as procurarmos.

Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Abril de 2019
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A memória litúrgica do Beato Carlos da Áustria é celebrada no dia 21 de outubro, mas o dia de seu nascimento para o Céu (que a Igreja chama de dies natalis) é hoje, 1.º de abril. Morria neste mesmo dia, portanto, em 1922, o último monarca do Império Austro-Húngaro.

Mencionamos este fato porque entender em que condições se deu a morte deste grande servo de Deus é fundamental para entender também a sua santidade.

Comecemos por observar que, embora havendo nascido em território austríaco, Carlos morreu exilado na Ilha da Madeira, território português. Seu desterro, no entanto, foi apenas o “coroamento” de um punhado de sacrifícios que as circunstâncias históricas exigiram que ele fizesse:

Na época em que o Beato Imperador Carlos foi exilado para a Ilha da Madeira, sua vida já era uma vida feita de sacrifícios pelos outros. Ele perdera sua pátria, seu Império e seu trono. Seu próprio povo confiscou-lhe a fortuna privada e suas propriedades. Sem dinheiro, sem amigos e sem condições de ganhar a vida, tinha para sustentar a esposa, sete filhos e um outro ainda por nascer. Foi forçado a viver, sob a vigilância estrangeira, numa ilha distante, numa casa desagradavelmente úmida que não tinha condições de ser habitada [1].

De sua terra natal, portanto, ao estrangeiro; do palácio imperial a um casebre inóspito; da abundância à carestia: eis as drásticas mudanças enfrentadas pelo imperador e por sua família.

O Beato Carlos da Áustria.

Mas — deixemos claro desde o princípio — é evidente que não foi o fato de o Beato Carlos ter perdido o que perdeu, o que fez dele um santo. Afinal de contas, quantos homens e quantas famílias não perdem suas casas, seus bens, tudo o que têm, enfim, e não são beatificados? Se a privação das coisas deste mundo fosse uma virtude em si mesma, poderíamos canonizar todos os materialmente pobres e condenar sem mais ao inferno os ricos e abastados...

Mas não, o Evangelho é muito claro ao dizer que são “bem-aventurados os pobres em espírito” (beati pauperes spiritu) e é a eles que pertence o Reino dos céus (Mt 5, 3). Não basta, portanto, perder; tudo depende do modo como recebemos as perdas das mãos de Deus. Não basta, pois, ser pobre, não possuir coisas materiais; o que importa sobretudo é viver o desapego, “o que importa — nas palavras do Apóstolo — é que os que têm mulher vivam como se a não tivessem; os que choram, como se não chorassem; os que se alegram, como se não se alegrassem; os que compram, como se não possuíssem; os que usam deste mundo, como se dele não usassem” (1Cor 7, 29-31). E por quê? “Porque a figura deste mundo passa”.

Ah, caro leitor, se existe uma verdade que deve entrar em nossa mente e coração é esta: a figura deste mundo passa.

Estamos falando da morte. Pois bem, lembremo-nos que, com a morte tudo se acaba, tudo se perde. O bem-aventurado Carlos, por exemplo: a pátria de que ele foi exilado, o Império que ele viu dissolver-se, o trono que ele teve de abandonar, as propriedades que lhe foram tomadas… tudo isso ele já teria de deixar ao partir deste mundo. A grande graça recebida por ele — mas que para o mundo é desgraça — foi desapegar-se de tudo isso antes de morrer: ao perder o que tinha com o coração unido ao de Cristo, o imperador aprendeu a viver aquela pobreza de espírito de que fala o Evangelho — e que é também, no dizer de Santo Afonso de Ligório, uma espécie de morte: “Bem-aventurados os que, ao morrer, já se acham mortos para as afeições terrenas. Estes não temem a morte, antes a desejam e abraçam alegremente. Em vez de separá-los dos bens que amam, une-os ao Sumo Bem, que é o único objeto digno de amor e que os tornará eternamente felizes” [2].

Para dar um exemplo de como o Beato Carlos enfrentou bem todas as suas perdas, consideremos o relato seguinte, de uma testemunha chamada Maria Lackner, e que passou a última virada de ano do imperador em sua casa, na Ilha da Madeira (nesta altura, o rei já havia perdido tudo e, dentro de três meses, viria a óbito):

À tarde, como devoção de encerramento do ano, houve na capela da casa uma solene Bênção Eucarística. Estávamos apenas o Imperador, a Imperatriz e nós. Também foi rezado o Te Deum. Atrás de nós, ficava um ano que tinha sido o mais duro da vida do Servo de Deus. Ele encontrava-se longe da pátria, no exílio; na mais drástica necessidade material; estava separado de seus filhos e não sabia o que o dia seguinte haveria de lhe trazer de mal. Durante o Te Deum, nós, um após o outro, fomos nos silenciando, porque a dor nos fazia fugir a voz. Somente o Servo de Deus manteve-se firme e entoou forte e claramente o cântico ambrosiano até o fim, acentuando cada palavra. (...) Olhei-o com admiração. Percebia-se com toda evidência que para ele, naquele momento, existia apenas Deus — ninguém mais — e que aquele Te Deum era um íntimo diálogo entre Deus e o seu mais fiel servidor. Na época, ele não sabia se tornaria a ver seus filhos, não sabia o que o dia seguinte haveria de lhe trazer, e contudo, rezou com muito fervor aquela oração de ação de graças [3].

“Para ele, naquele momento, existia apenas Deus — ninguém mais”. O Beato Carlos havia aprendido o sentido de seu reinado: entregar tudo Àquele de quem ele tudo havia recebido. Tanto que, ao final de sua vida, ele dirá à sua esposa: “Deus deu-me a graça de que, sobre a terra, não exista mais nada que eu não esteja pronto a sacrificar por seu amor, para o bem da Santa Igreja” [4].

Para se medir como era radical a sua vivência da pobreza, basta ter em mente que era “seu guarda-roupa de tal modo exíguo, que foi preciso pedir de volta um casaco que, algum tempo atrás, o Rei tinha dado a um de seus criados, para que fosse sepultado com ele” [5]. Foi tão grande o desapego deste monarca que nem uma roupa para lhe servir de mortalha!

Seu exemplo pode nos deixar espantados e poderíamos até nos perguntar, em nosso íntimo, se não seria exagerado demais chegar a esse ponto, ainda mais um rei, com um nome a zelar e uma dignidade a manter…

Mas seria suficiente para acabar com nosso escândalo lembrar que o Rei de todo o universo, o próprio Deus, Senhor do céu e da terra, morreu como um criminoso, despojado de suas vestes e sem ter sequer onde reclinar a cabeça. Queremos porventura exemplo de pobreza maior do que esse? De que perdas teríamos nós a reclamar sobre essa terra, se o próprio Tudo não se apegou ciosamente do ser igual a Deus, mas fez-se em tudo aos homens semelhante e morreu obedecendo até à morte, e morte ignominiosa numa cruz (cf. Fl 2, 7-8)? Que pobrezas haveremos de lamentar, se o nosso Deus nasceu pobre numa manjedoura, foi mais pobre ainda em sua vida e morreu paupérrimo [6], nada lhe restando “a não ser um madeiro” [7]?

Aprendamos, pois, com os exemplos de Nosso Senhor e do Beato Carlos da Áustria o que significa “amar a Deus sobre todas as coisas”: a nós, se não for pedido a pobreza absoluta, é preciso ao menos estarmos dispostos a sacrificar tudo o mais por causa dEle. Talvez não nos seja necessário sequer ir atrás de perdas e mortificações… Os acontecimentos da vida podem estar exigindo de nós, hic et nunc, aqui e agora, o sacrifício de um hábito qualquer, o sacrifício de um bem que possuímos, o sacrifício de uma pessoa de que gostamos… E nós, em nosso egoísmo, talvez ainda estejamos resistindo interiormente à vontade de Deus, recusando-nos a entregar aquilo que Ele manifestamente nos pede!

Nesses casos, caro leitor, em que “a Cruz aparece sem a procurarmos”, estejamos atentos: “é Cristo que pergunta por nós. E se por acaso, perante essa Cruz inesperada, e talvez por isso mais escura, o coração manifesta repugnância”, sigamos o conselho de São Josemaría Escrivá: sem darmos consolos a nosso coração, digamos-lhe “como em confidência: “Coração: coração na Cruz, coração na Cruz!” [8].

Referências

  1. Novena pedindo a intercessão e canonização do Beato Imperador Carlos da Áustria, 2.º dia.
  2. Preparação para a morte, II, 3.
  3. Giovanna Brizi, A vida religiosa do Beato Carlos da Áustria, 2.ª ed., Rio de Janeiro, Edições Lumen Christi, 2014, pp. 11-12.
  4. Ibid., p. 67.
  5. Ibid., p. 72.
  6. Pauper in nativitate, pauperior in vita et pauperrimus in cruce”, em: Tratado da Paixão do Senhor, II, 3 (PL 184, 639).
  7. São Josemaría Escrivá, Via Sacra, n. 10.
  8. Ibid., n. 5.

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Os olhos arregalados de quem viu o Invisível
Espiritualidade

Os olhos arregalados
de quem viu o Invisível

Os olhos arregalados
de quem viu o Invisível

Se não podemos ver o Invisível com os olhos físicos, como Santa Joana d’Arc teve a graça de ver, que O vejamos ao menos com os olhos da fé, na oração!

Equipe Christo Nihil Praeponere29 de Março de 2019
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É famosa na arte sacra a cena de Santa Joana d’Arc recebendo a visita de figuras celestiais. Os retratos são inspirados na biografia da santa, que com 13 anos teria visto e ouvido pela primeira vez São Miguel Arcanjo, príncipe da milícia celeste.

Mas o que esse santo anjo lhe disse ou deixou de lhe dizer, deixemos para outra hora. O que nos importa agora é usar como matéria para nossa meditação uma dessas obras fabulosas: “Joana d’Arc escutando as vozes”, óleo sobre tela, de Eugene Thirion.

Essa pintura é como um “chacoalhão”, pois desperta-nos do sono de tibieza em que tantas vezes nos encontramos, desanimados com as coisas espirituais e sem vontade de cumprir com nossos deveres de oração. Ela mostra uma Joana d’Arc com os olhos arregalados — não de pavor como quem vê uma assombração, mas de maravilhamento, como quem depara com um mistério, com uma realidade nobre e elevada, diante da qual tudo o mais que está ao seu redor se esvanece e parece um nada.

O arcanjo São Miguel, por sua vez, com a boca entreaberta bem atrás da santa, transmite-lhe uma mensagem bem ao pé do ouvido, como se só ela a devesse escutar, e mais ninguém. A missão que ela teria de levar a cabo nos anos seguintes seria pública e conhecida de todos, sua armadura seria vista e seguida por muitíssimos franceses… mas a origem divina de seu chamado devia permanecer, pelo menos a princípio, calada bem no fundo de seu coração, como um segredo.

O que isso tem a ver conosco que, via de regra, não recebemos a mesma graça que foi concedida a Joana? O que essa imagem transmite a nós, que temos de nos virar com a dura realidade ao nosso redor e com um Deus escondido, inacessível, distante e que tantos em nossa época chegam a dizer que não existe?

Em primeiro lugar, o que precisamos entender — não só para não cairmos no ateísmo, mas até para que tenhamos uma experiência religiosa autêntica — é que Deus quer falar ao coração de todos os seres humanos. Essa comunicação acontece conosco, muitas vezes, por uma desgraça que nos acontece, por uma pregação que ouvimos, e também deixa fortes efeitos em nossos sentidos, podendo levar-nos tanto aos arrepios quanto às lágrimas. Mas a iluminação divina que gera tudo isso dá-se primeira e fundamentalmente na alma; os olhos que se arregalam diante de Deus são, antes de tudo, os do nosso espírito; como exclama Santo Agostinho em suas Confissões: “Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava do lado de fora” (X, 38).

Os olhos arregalados de Santa Joana d’Arc impressionam-nos, portanto, por ser uma experiência que todos nós já fizemos, em alguma medida, na nossa vida de oração. É aquele momento em que se acende uma luz dentro de nós; em que Deus mostra uma verdade à nossa inteligência e convida a nossa vontade a rezar… E nós, de nossa parte, se aceitamos esse “convite” de Deus, se lhe abrimos a porta do nosso coração e permitimos que Ele venha “cear” conosco (cf. Ap 3, 20), saímos desse encontro alimentados por suas graças, numa verdadeira “refeição espiritual”.

A analogia com um alimento é muito apropriada, pois esse contato frequente e contínuo com Deus precisa tornar-se realmente “o pão nosso de cada dia”, sem o qual definharemos e… viremos a óbito espiritual.

Precisamos de exemplos de como isso acontece? Não conseguimos enxergar, em nossa própria alma, os efeitos da falta de oração? Ó, miseráveis de nós, que não nos amarguramos por estar distantes de Deus! Miseráveis de nós, cegos, que não percebemos a necessidade profunda e vital que temos do Senhor! Miseráveis de nós, pois Deus está conosco, mas nós não estamos com Ele (cf. Confissões, X, 38)!

Mas olhemos também ao nosso redor: quantas pessoas que tinham fé, que iam à igreja, que recebiam os sacramentos e que buscavam uma vida relativamente católica… quantas dessas pessoas nós já não vimos se afastarem do caminho, pessoas que hoje estão entregues ao mundo e nem católicas se dizem mais! Por que essas coisas acontecem? Deus por acaso as abandonou? O que faz tantos à nossa volta deixarem de perseverar? Que erro essas pessoas cometeram, e que nós precisamos evitar custe o que custar?

Joana d’Arc escutando suas vozes”, de Léon-François Bénouville.

Ah, olhando para a imagem de Santa Joana d’Arc, fica fácil perceber o erro que aqui se esconde: o que acontece a tantos de nós é que deixamos de “arregalar” os olhos da alma na oração! Tornamo-nos insensíveis à voz e às visitas de Deus! Seduzidos por aquilo que nos dão os sentidos do corpo, abandonamos o contato com as realidades sobrenaturais!

Pedimos atenção para que ninguém se confunda, achando que estamos a tratar de uma experiência sensorial… Não, nós não estamos atrás de sensações gostosas, lágrimas de emoção e arrepios na nuca! O que precisamos é de um alimento que fortifique a nossa alma e que nos faça viver como Santo Moisés, que “caminhava com tanta segurança como se estivesse vendo o invisível” (Hb 11, 27).

“Com tanta segurança como se estivesse vendo o invisível”: eis aqui o segredo! Estamos o tempo todo em contato com o que vemos, com o que ouvimos, com o que tocamos… Pois bem! Nosso esforço deve ser justamente no sentido contrário: aumentar o contato com o que não vemos, com o que não podemos ouvir, com o que não podemos tocar. E a única maneira de fazer isso é através da oração, que é o exercício da . Precisamos da oração para nos desvencilharmos das ilusões do mundo e ficarmos atentos às coisas que realmente importam — as únicas que importam!

Portanto, se não podemos ver o Invisível com os olhos físicos, como Santa Joana d’Arc teve a graça de ver, que O vejamos ao menos com os olhos da fé! E trabalhemos neste ofício com todo o empenho de nossa alma. Lembremo-nos do que “São Camilo de Lélis, ao aproximar-se de alguma sepultura”, costumava se perguntar: “Se estes mortos voltassem ao mundo, que não fariam pela vida eterna? E eu, que disponho de tempo, que faço por minha alma?” (S. Afonso M.ª de Ligório, Preparação para a morte, I, 3).

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