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“Um filme perigoso”, mas para quem?
Pró-Vida

“Um filme perigoso”, mas para quem?

“Um filme perigoso”, mas para quem?

Apesar de alguns crerem que Unplanned “não é um filme ideal para se ver na reabertura dos cinemas”, não há nada mais apropriado para os brasileiros assistirem agora do que à verdade nua e crua sobre o que realmente é um aborto.

Equipe Christo Nihil Praeponere21 de Outubro de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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“Um filme perigoso...”. Assim um grupo pró-aborto do Canadá rotulou o longa Unplanned, que estreou esta semana nos cinemas brasileiros. Considerado “polêmico” por parte da “crítica especializada”, a produção chegou a ser censurada ou restringida para maiores de 16 anos, como foi o caso no Brasil. Mas qual seria a razão para tanto alarde? Por que esse filme de baixo orçamento preocupou tanto os defensores do aborto, fazendo-os endossar notas de repúdio, ameaças e até campanhas de boicote?

A resposta é simplesmente esta: escândalo dos escândalos para quem deseja matar bebês no ventre materno, Unplanned, lançado aqui como 40 Dias: O Milagre da Vida, conta a história de Abby Johnson, uma ex-diretora da clínica Planned Parenthood, nos Estados Unidos, que, após ter visto por ultrassom um procedimento de aborto, decidiu abandonar as fileiras da empresa para engrossar o apelo dos pró-vida. O filme se baseia no livro autobiográfico de Abby, cujo primeiro capítulo já publicamos aqui anos atrás. Trata-se de um relato comovente e, ao mesmo tempo, chocante que, verdade seja dita, é realmente “muito perigoso” para os advogados do aborto; mas não porque incentive alguma violência — não, o filme nem de longe sugere isso —, e sim porque expõe um dado bastante inconveniente: a legalização do aborto jamais serviu para a proteção das mulheres, pois, ao fim e ao cabo, a questão sempre foi o poder, a formação de uma indústria extremamente lucrativa que se tornou um império multinacional às custas de milhões de vidas inocentes.

A reviravolta na história de Abby começou precisamente quando ela se deu conta disso. Depois de oito anos iludida, julgando que a Planned Parenthood era apenas mais uma ONG para garantir os “direitos reprodutivos” da mulher e o acesso a métodos contraceptivos, ela descobriu que, no fim das contas, a instituição para a qual trabalhava tinha uma meta bem mais prática: ter lucros provendo abortos. Não interessava a saúde das pacientes. Não interessava a vida das mulheres. Não interessava sequer a ideologia. A verdade veio à tona quando Abby, após ter questionado a orientação para aumentar os procedimentos abortivos, foi formalmente repreendida pela empresa. “Aborto é o que paga o seu salário”, ouviu de sua supervisora. 

De fato, a Planned Parenthood, fundada em 1916 pela ativista Margaret Sanger, tornou-se uma instituição poderosíssima mundo afora, graças a verbas governamentais e doações de grupos como Rockfeller e Ford. Paralelamente, o fornecimento do chamado “aborto seguro” é uma de suas principais fontes de renda, dado que outros serviços têm sido menos procurados, segundo o relatório anual da empresa. Em 2019, o rendimento total da Planned Parenthood ficou em torno de US$ 1,6 bilhão. Entre os anos de 2017 e 2018, foram realizados mais de 330 mil abortos pela instituição, com preços de US$ 350 a US$ 900 cada, dependendo do tempo de gestação. Quanto mais adiantada for a gravidez, mais caro o aborto.

Unplanned não é, decerto, uma produção para vencer 11 estatuetas do Oscar, mas só por apresentar esse lado obscuro do movimento pró-aborto — que, de outro modo, dificilmente chegaria à opinião pública — já vale o ingresso. Trata-se de um filme panfletário? Pode ser, em alguns momentos. Mas que filme, hoje em dia, poderia gabar-se de não sê-lo? Desde que Hollywood abandonou o bom senso da moral para mergulhar de vez na baixeza e no politicamente correto, a maior parte das grandes produções é agora marcada por panfletagem ideológica, e predominantemente de esquerda (o que só deve piorar com a nova orientação da Academia de Cinema para a defesa da “diversidade”). Unplanned, portanto, não é só oportuno, mas necessário para romper uma narrativa única, sobretudo quando uma atriz do porte de Michelle Willians, por exemplo, sobe ao palco para receber o Globo de Ouro e atribui a conquista do prêmio ao aborto que cometeu anos atrás, e isso sob aplausos da imprensa.

As ONGs pró-aborto sempre tiveram a seu favor os grandes meios de comunicação, que trabalham diuturnamente para forjar a ideia de que se trata de uma “questão de saúde pública”, coisa por si só abjeta, porque supõe que uma mulher precisa matar o próprio filho “com segurança” para manter-se saudável. Para isso, não se envergonham de publicar matérias alarmistas, as tais “fake news”, sobre supostos números de mortes em casos de abortamento clandestino. E pintando uma imagem cinicamente “humanista”, tentam ganhar a opinião pública por meio de um discurso sobre “direitos humanos” e “igualdade de gênero”. É o suprassumo da hipocrisia que, diante de um filme como Unplanned — uma produção modesta, sim, mas perfeitamente capaz de atrair a audiência —, não pode se sustentar de pé, a não ser pelo uso da força e da difamação. Daí toda a campanha de boicote e censura contra o filme, a pretexto de um perigo de violência e ataques contra clínicas e médicos que fazem aborto.

Mas se há uma coisa que o espectador não verá durante 1h49min de cenas é alguma incitação à violência. Ao contrário, os roteiristas tiveram a sensibilidade de deixar bem evidente a diferença entre os grupos de pró-vida, como o 40 dias pela Vida, e os de pessoas isoladas que agem mais pelas paixões do que pela razão. No fundo, o que há é uma crítica severa a quem pretende salvar vidas por métodos desumanos. Unplanned mostra que a verdadeira defesa da vida não é feita por discursos de ódio ou ataques pessoais, o que nos igualaria ao outro lado, mas pela doação de si mesmo, pelo sacrifício dos próprios interesses em benefício dos outros. Nesse sentido, a única violência explícita que o espectador que for ao cinema deve esperar é aquela mesma do aborto, cuja consequência é sempre mortal.

De resto, apesar de alguns crerem que Unplanned “não é um filme ideal para se ver na reabertura dos cinemas”, não há nada mais apropriado para os brasileiros assistirem agora do que à verdade nua e crua a respeito do que é mesmo um abortamento, sobretudo após o caso da menina de 10 anos, de São Mateus (ES), que foi tão explorado e deturpado pela militância pró-aborto. Porque o verdadeiro “perigo” não é um filme no cinema, mas o que essas ONGs ditas “humanistas” vêm tramando há anos por debaixo dos panos para instituir a matança de bebês no nosso país.

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O ateísmo é o “novo normal”
Sociedade

O ateísmo é o “novo normal”

O ateísmo é o “novo normal”

Antigamente, era necessário algum esforço para ser ateu. Hoje, é a pessoa religiosa que tem de se rebelar contra a ideia de que Deus não existe. É a pessoa de fé que precisa ter coragem para aderir à sua crença num ambiente altamente secularizado e hostil a ela.

David CarlinTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere20 de Outubro de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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Este texto não foi escrito pelo Pe. Paulo Ricardo; trata-se de uma tradução, feita por nossa equipe, de um texto do professor David Carlin. A análise dele é feita a partir da observação do que tem acontecido recentemente nos Estados Unidos, lugar onde ele reside. Mas as manifestações criminosas do último fim de semana no Chile, que incluíram incêndios de igrejas católicas históricas, têm muito a ver com a situação que ele descreve abaixo. 

O texto original foi publicado em 4 de setembro no site The Catholic Thing, ou seja, bem antes dos fatos dos últimos dias. Mas ele fala de um colapso civilizacional que não é de hoje, nem do fim de semana passado. Daí a atualidade e importância do tema.


Não posso prová-lo, mas tenho a forte impressão de que, hoje, o ateísmo é a posição “padrão” dos americanos bem educados, relativamente ricos e com menos de 40 anos. 

Quando falo de ateus, penso em três categorias: (1) os ateus sinceros, pessoas bastante francas em relação à sua descrença; (2) os ateus tímidos, também conhecidos como agnósticos, que não creem em Deus, mas gostam de dizer a si e aos outros que são tolerantes em relação ao assunto (embora não o sejam); (3) os ateus indiferentes, cuja convicção da inexistência de Deus é tão grande, que não se importam em atribuir ao seu estado de espírito o rótulo de ateu ou agnóstico.

Também deveríamos observar que o ateísmo tem muitos “companheiros de viagem” semiateus entre protestantes, católicos e judeus progressistas. 

Antigamente, era necessário algum esforço para ser ateu nos Estados Unidos. Era preciso realizar certo esforço mental e moral. A pessoa tinha de se rebelar contra a existência de Deus, uma coisa dada por certa. Além disso, era preciso encontrar razões para rejeitá-la. Finalmente, faltava coragem ou obstinação para aderir a essa perspectiva, apesar de ela contar com poucos apoiadores.

Em contrapartida, é fácil ser ateu nas primeiras décadas do glorioso século XXI. Quase tão fácil quanto respirar.

A situação mudou. Hoje, é a pessoa religiosa bem instruída que tem de se rebelar contra a ideia de que Deus não existe, o que é, agora, dado por certo. É a pessoa de fé que precisa encontrar razões para rejeitar a descrença. É o teísta que precisa ter coragem ou obstinação para aderir à sua crença num ambiente altamente secularizado e hostil a ela.

A menos que alguma grande revolução religiosa ocorra, é provável que o ateísmo se dissemine nos níveis menos instruídos e privilegiados da sociedade. Existe uma espécie de princípio segundo o qual as crenças e valores das elites culturais da sociedade cedo ou tarde se disseminam entre as massas, ainda que de forma diluída. Na Idade Média, por exemplo, as crenças e valores cristãos dos sacerdotes, monges e freiras se espalharam entre as massas semicristianizadas, ainda que o cristianismo das massas fosse diluído com muitas doses de heresia e superstição.

Nos grandes dias da atividade missionária dos jesuítas, estes compreendiam que, se quisessem converter uma sociedade para o catolicismo, teriam de começar não pelos camponeses, mas pelo rei e a corte. Converta-se o rei, e o campo logo se converterá também.

Em resumo, em poucas décadas os Estados Unidos poderão ser uma sociedade em que elites ateias liderarão massas semiateias. Já é possível antever a formação dessa estrutura social. Elites ateias tendem a predominar em nossas grandes instituições dedicadas à “educação cultural” do público: instituições como o jornalismo, a indústria do entretenimento e as nossas melhores faculdades e universidades.

Tudo isso é bastante estranho, já que, ao longo da história da espécie humana, algum tipo de teísmo (ou politeísmo) foi praticamente universal. Quase todas as pessoas acreditavam em Deus (ou em deuses). Quase todos acreditavam que algum poder (ou poderes) divino sobrenatural governava o mundo. 

Isso funcionou assim por tantos milênios, que alguns criteriosos pesquisadores concluíram que os seres humanos são religiosos por natureza. Há algo em nossa natureza que nos impele a crer em Deus (ou deuses). O ateísmo, portanto, era algo raro e artificial. Mais ou menos como a homossexualidade. 

Naturalmente, por vivermos numa época extraordinária de esclarecimento científico e psicológico, a maior parte de nossas elites culturais aderiu ao novo entendimento de que a homossexualidade não é nem um pouco antinatural. Depois de fazerem essa grande descoberta, deveríamos nos surpreender com o fato de terem descoberto algo ainda mais importante, ou seja, que o ateísmo também não é antinatural?

Imaginemos que o ateísmo passe a predominar na sociedade. Isso causará algum dano significativo nas gerações que virão? Aqueles que, ao longo da vida, acreditaram na existência de Deus responderão que sim. Mas talvez este seja apenas um “preconceito” da nossa parte. Temos, pois, bons motivos para temer o triunfo do ateísmo?

Sugiro dois: por um lado, se Deus não existe, então a moralidade humana não tem fundamento divino; mas, se não possui fundamento divino, deve ter um fundamento exclusivamente humano. A moralidade terá de ser reconhecida como algo criado exclusivamente pelo homem. Ora, se é algo feito apenas pelo homem, então pode ser modificado por ele de forma súbita e radical. O que ontem se considerava mau (o assassinato, por exemplo) poderá, hoje, ser considerado bom. É claro que facilitaremos essa transição usando nomes suaves. Não chamaremos assassinato de “assassinato”. Chamaremos de aborto, eutanásia ou de qualquer outro nome suave que possamos encontrar.

Por outro lado, se Deus existe (ao menos o Deus racional no qual sempre creram a teologia e a filosofia ocidentais, em oposição ao Deus um tanto arbitrário do islamismo), então faz sentido crer que a natureza, criatura de Deus, é inteligível; que a natureza pode ser compreendida pela razão humana. Se nos livrarmos desse Deus racional, também nos livraremos da Criação racional. Abriremos as portas para crenças arbitrárias (por exemplo, a de que um homem se torna mulher apenas por sentir-se assim). Abriremos as portas para as mais selvagens superstições. As pessoas serão incentivadas a crer em qualquer coisa de que gostarem. 

Não me agrada a ideia, por ser já um homem velho, de que, em breve, terei de deixar o espetáculo terrivelmente interessante da história humana. Outras vezes, no entanto, agradeço a Deus por saber que não serei espectador do colapso total de nossa outrora magnífica civilização.

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Escolhendo tudo: uma lição de Santa Teresinha
Espiritualidade

Escolhendo tudo:
uma lição de Santa Teresinha

Escolhendo tudo: uma lição de Santa Teresinha

Quando nos aproximamos de Deus com a cesta da nossa vida, tendemos a esconder nossas fraquezas, pecados e feridas, oferecendo-lhe só o que nos parece mais agradável. Ele age conosco, porém, como na história da pequena Teresa, e nos diz: “Eu escolho tudo!”

Jim AndersonTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere14 de Outubro de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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Em sua autobiografia, História de uma alma, S. Teresinha conta uma bela história sobre um incidente de infância. Sua irmã mais velha, Leônia, que já estava muito grande para brincar de boneca, trouxera uma cesta com materiais para fazer vestidos de boneca para as irmãs mais novas, Celina e Teresa. A boneca de Leônia estava na cesta, em cima dos materiais. Ela ofereceu a cesta às irmãs, dizendo: “Queridas, escolham o que quiserem”. Celina, a mais velha das duas, pegou uma bola de lã que havia chamado sua atenção, mas Teresa, que tinha apenas dois anos, simplesmente afirmou: “Eu escolho tudo!” e, sem fazer cerimônia, pegou a cesta, a boneca e tudo o mais!  

Esse episódio reflete a postura de Teresa durante toda a vida, como ela conta em História de uma alma (Manuscrito A, 10r-10v): 

Este pequeno episódio de minha infância é o resumo de toda a minha vida; mais tarde, quando dei com a perfeição, compreendi que para se tornar santa era preciso sofrer muito, procurar sempre o mais perfeito e esquecer-se a si mesma, compreendi que havia muitos graus na perfeição e que cada alma era livre de responder às solicitações de Nosso Senhor, de fazer pouco ou muito por ele, numa palavra, de escolher entre os sacrifícios que ele pede. Então, como nos dias de minha infância exclamei: “Meu Deus, escolho tudo. Não quero ser santa pela metade, não tenho medo de sofrer por vós; a única coisa que temo é guardar minha vontade, tomai-a vós, pois ‘escolho tudo’ o que quiserdes!...”

Embora a pequena Teresa ilustre, com sua precoce e vibrante audácia, a profundidade do desejo humano — um desejo que, no final das contas, só é saciado por Deus —, creio que seja possível extrair outra reflexão desse relato.

Deus fala a cada um de nós com o mesmo desejo entusiasta manifestado por Teresa quando nos apresentamos diante dEle com a cesta da nossa vida — muitas vezes, com temor e tremor — e a oferecemos a Ele pedindo-lhe que pegue algo dela. É claro que oferecemos, imediatamente, as partes preferidas: as que julgamos mais agradáveis a Ele, as que podemos oferecer com mais segurança ou as que supostamente não nos custarão muito.

Porém, há outros aspectos da vida que estamos menos dispostos a oferecer a Deus: nossas fraquezas, pecados e feridas; os rancores e queixas que guardamos secretamente; as partes da nossa humanidade ferida que nos atormentam e constrangem; todas as partes da nossa personalidade que estão cheias de imperfeições.

Isso também pode nos deixar irritados. O mandamento de Jesus: “Sede perfeitos como o vosso Pai celestial é perfeito” parece impossível de cumprir, algo flagrantemente absurdo de pedir a um ser humano! Conscientes da fraqueza e da escuridão que se escondem em nosso coração, nós, como Marta diante do sepulcro de Lázaro, clamamos: “Senhor, já cheira mal!”, e muitas vezes nos afastamos dEle e nos escondemos em nossas feridas.

Mas o amor não se satisfaz facilmente. Deus age como a pequena Teresa. Olhando para a cesta que somos nós, Ele diz sem meios termos: “Eu escolho tudo!” Em momentos como esse, brotam em nosso coração as palavras que Ele dirigiu a Marta: “Não te disse eu: se creres, verás a glória de Deus?”   

E o que é a glória de Deus? Irineu nos diz: “A glória de Deus é o homem plenamente vivo!” Aos olhos de Deus, isso é a perfeição — ser perfeito como pessoa humana é ser humano de modo autêntico e pleno, assim como Deus é perfeito sendo plenamente divino.  

S. João Paulo II disse a mesma coisa com outras palavras, exortando as famílias a “tornarem-se o que são”. Mas precisamos da graça de Jesus Cristo, que é “a ressurreição e a vida”, para renovar, restaurar, curar, aperfeiçoar e elevar todos os aspectos da nossa humanidade — os bons, os maus e os feios — à plenitude da imagem e semelhança de Deus. Isso significa ser plenamente humano, entregando a Deus tudo o que somos e temos para que, em contrapartida, possamos aceitar tudo dEle, como o fez Teresa.

É uma troca admirável: o nosso tudo (que, na verdade, não é nada) pelo tudo de Deus (que, na verdade, é Tudo). Nessa troca de tudo por tudo, ficamos com a parte boa do negócio.

Esse é o núcleo do gênio de S. Teresinha e de sua pequena via. Deus nos encontra quando aceitamos voluntariamente nossa imperfeição, fraqueza, pobreza e carência. Com a confiança de uma criança, Teresinha nos encoraja a confiarmos que até o menor passo em direção a Deus é suficiente para receber seu amor e misericórdia. Podemos ter certeza de que, se estivermos dispostos a nos aproximar de Deus tanto quanto possível — ainda que seja um caminho curto —, Ele fará a diferença em sua ternura e bondade.

Esse também é o núcleo do espírito missionário de S. Teresinha, padroeira das missões, pois, como sugere outra santa mulher, Catarina Doherty, o primeiro campo de qualquer missão é o coração humano — onde são tomadas todas as decisões favoráveis ou contrárias a Deus e ao próximo. Só precisamos aceitar humildemente nossas fraquezas como oportunidades para encontrar a Deus em profundidades cada vez maiores, e assim abrir nosso coração a Ele de forma mais plena, permitindo que Ele escolha tudo e transforme tudo em seu amor.

João Paulo II descreve a autêntica formação humana como um movimento que parte do autoconhecimento, passa pela aceitação de si e chega à doação de si. Isso requer uma visão integral da pessoa humana em todos os aspectos de seu ser — físico, espiritual, emocional, social e intelectual — e implica a Redenção e o aperfeiçoamento de todos esses aspectos em Cristo.

E Teresinha nos ensina isso. “Teresa é Mestra para o nosso tempo”, escreveu João Paulo em Divini Amoris Scientia, a Carta apostólica em que ele a proclamou Doutora da Igreja, “Mestra de vida evangélica, particularmente eficaz ao iluminar os caminhos dos jovens, aos quais compete ser protagonistas e testemunhas do Evangelho junto das novas gerações”. 

Sem dúvida, já vi esse testemunho ao longo de meus anos de trabalho como formador de jovens — uma miríade de esperanças, alegrias e vidas restauradas pela entrega inocente ao amor de Deus. Talvez nestes dias, como nunca antes, em meio ao medo disseminado pela pandemia, ao crescimento do isolamento e da divisão, da agitação social e da animosidade crescente mesmo no seio da Igreja, necessitemos de uma mestra como Teresinha, que pode nos ajudar a entregarmos tudo para escolhermos Tudo.

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Pode um cientista ainda levar a sério o Milagre do Sol?
Virgem Maria

Pode um cientista
ainda levar a sério o Milagre do Sol?

Pode um cientista ainda levar a sério o Milagre do Sol?

Em razão do número e da variedade de testemunhas oculares, além do choque político e eclesial que se seguiu ao evento, tudo o que sobre ele sabemos aponta para um milagre público extraordinário e com altíssimo grau de credibilidade.

Pe. Andrew PinsentTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Outubro de 2020Tempo de leitura: 3 minutos
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A pergunta na chamada implica que a resposta esperada é: não; mas, como antigo físico de partículas, a minha resposta é: por que não? Contra o preconceito comum, uma perspectiva científica não descarta milagres, e o evento de Fátima é, na visão de muitos, particularmente crível.

Com relação a milagres em geral, o preconceito de costume contra eles assume uma de duas formas. A primeira alega que um ponto de vista científico exclui milagres, erroneamente definidos como um rompimento das forças da natureza ou, especificamente, com a física. Este preconceito repousa num mal-entendido sobre o alcance das leis científicas, que descrevem de forma simplificada como sistemas ideais, tomados isoladamente, se comportam. Essas leis nos permitem realizar feitos extraordinários, como a viagem final que a espaçonave Cassini empreendeu em 2017 através dos anéis de Saturno.

Mas essa leis nada nos dizem sobre o que acontece quando um sistema não é isolado, muito menos quando um agente pessoal e livre nele intervém. Para dar um exemplo: se eu jogar uma maçã no ar, a sua trajetória será semelhante a uma parábola que pode ser prevista a partir da posição inicial e impulso da maçã; mas essa previsão nada diz sobre o que eu decido fazer ou não com a maçã. Ora, se eu posso intervir para mudar a trajetória de uma maçã, então (presumivelmente) Deus todo-poderoso pode fazer o mesmo. E muito mais. Portanto, não existem problemas reais em relação aos milagres do ângulo das leis científicas, uma vez que descrever como um sistema se comporta na ausência de interferências externas não diz nada sobre se uma intervenção pode ocorrer ou ocorre de fato.

Uma segunda forma de preconceito alega que uma combinação de causas naturais pode e deve ser encontrada para explicar o que aparenta ser milagroso, reduzindo o extraordinário ao previsível. Para dar apenas um exemplo: não é incomum entre padres e professores já de certa idade, que acham milagres embaraçosos, a ideia de que Jesus, na multiplicação dos pães, teria alimentado cinco mil pessoas dividindo a comida que elas mesmas trouxeram consigo. Seria um símbolo de “partilha”. 

Explicações como estas dificilmente quadram com as contas reais, menos ainda com a reação das testemunhas. Além disso, não são explicações necessárias ou úteis. Obviamente, nós devemos ter senso crítico na hora de avaliar relatos de milagres particulares, que deveriam ser sinais excepcionais num mundo de seres criados com as suas próprias potências naturais. Mas determinar, antes de considerar quaisquer evidências, que milagres são impossíveis ou nunca acontecem é contra o espírito de investigação crítica, além de uma declaração de desespero. Afinal de contas, se nenhum milagre acontece, é porque estamos presos num mundo de potências naturais, inadequados para a nossa felicidade e condenados à decadência e à morte individual e, finalmente, cósmica.

Pessoas presentes na Cova da Iria, em 13 de outubro de 1917, olhando para o Sol.

Como então avaliar o milagre de Fátima, especialmente o Milagre do Sol, de 13 de outubro de 1917? Este evento acompanhou a última de seis aparições de Nossa Senhora à Beata Lúcia Santos, de 10 anos, e seus primos, os santos Jacinta e Francisco Marto. Houve uma multidão de testemunhas, contadas em dezenas de milhares, sem contar o testemunho de professores universitários e repórteres, compilados mais tardes no livro de John Haffert Meet the Witnesses of the Miracle of the Sun (“Conheça as testemunhas do Milagre do Sol”). Por exemplo, Avelino de Almeida, de O Século (um jornal anticlerical do governo), que anteriormente zombava das crianças, escreveu que o Sol fazia movimentos súbitos e incríveis, “fora de todas as leis cósmicas”.

Hoje, a Igreja não exige que aceitemos o milagre, mas afirma apenas que as aparições de Nossa Senhora são dignas de fé [1]. No entanto, em razão do número e da variedade de testemunhas oculares, além do choque político e eclesial em Portugal que se seguiu ao evento, tudo o que sobre ele sabemos aponta para um milagre público extraordinário e com altíssimo grau de credibilidade.

As aparições da Virgem ocorreram quatro séculos após o início da Reforma Protestante, em 1517, e dois séculos depois da fundação da primeira Grande Loja maçônica, em Londres, no ano de 1717, marcos da apostasia das nações do catolicismo para o indiferentismo religioso. No dia mesmo do Milagre do Sol, em 1917, os sovietes assumiram o controle militar da Rússia, preparando o caminho para que o comunismo ateu começasse a ruinosa dominação de grande parte do mundo, perseguindo a Igreja e levando a mortes cruéis dezenas de milhões de pessoas.

Não surpreende, pois, que Deus nos tenha concedido um milagre espetacular, com avisos severos de arrependimento e penitência, para aprendermos a responder ao dom de sua graça, para a salvação de nossas almas e do mundo.

Notas

  1. A revelações privadas como a de Fátima não estão obrigados a prestar assentimento de fé divina os fiéis a quem elas não foram imediata e certamente dirigidas, embora convenha prestar-lhes assentimento de fé humana, na medida em que a autoridade da Igreja prudencialmente as reconhece como autênticas, isto é, livres de todo indício razoável de fraude, engano, manipulação etc. e de quaisquer elementos que contradigam o conteúdo da Revelação pública. Por isso, não peca contra a fé quem não crê, v.gr., nas revelações de Fátima ou em outras aparições marianas particulares, embora nisto possa haver certa indocilidade culposa ao Magistério eclesiástico, quando ele mesmo reconhece a autenticidade destas manifestações e as propõe aos fiéis, especialmente pela Liturgia, como dignas de fé e conformes à doutrina cristã (Nota da Equipe CNP).

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