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Quando vamos nos render? Jamais!
Pró-Vida

Quando vamos nos render? Jamais!

Quando vamos nos render? Jamais!

A aprovação do aborto na Argentina pode ter sido uma derrota para o movimento pró-vida, mas nem de longe é o fim da nossa guerra contra a cultura da morte. Esta está apenas começando e, contando com a graça de Deus, nós não nos renderemos nunca.

Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Janeiro de 2021Tempo de leitura: 8 minutos
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A notícia de que, nesta última quarta-feira, 30 de dezembro, o Senado argentino aprovou por 38 votos a favor e 29 contra a maldita prática do aborto suscita tantos sentimentos, tanta indignação, tristeza, desânimo e lamúria — seja pela vileza dos que se obstinam na cultura da morte, seja pela carnificina que se seguirá daqui para frente —, que é preciso medir bem as palavras antes de colocar no papel o que vem à mente. E deve ser assim porque a situação, embora trágica, não pode ser tratada ao sabor de nossas paixões, mas à luz da razão e da graça. Como diria o Papa Pio XII: “O preceito da hora presente não é lamento, mas ação” (Radiomensagem de Natal, 1942).

Por isso este artigo saiu apenas agora, não tendo a pretensão de simplesmente lamentar o fato. Uma equipe esportiva, quando sofre uma derrota, não pode perder tempo escrevendo notinhas à imprensa com justificativas esdrúxulas sobre o próprio fracasso. De lamentos e desculpas esfarrapadas, convenhamos, o inferno está cheio. Ao contrário, é preciso voltar a campo, reorganizar a equipe, estudar o adversário, identificar os pontos fracos, traçar uma linha de combate e partir atrás da vitória. A vida humana sofreu mais um ataque hediondo neste final de 2020. Agora, mais do que antes, é nosso dever moral protegê-la, santificá-la e devolver-lhe a verdadeira dignidade. É dentro desse espírito que queremos, portanto, dirigir estas linhas aos nossos alunos, amigos, leitores aleatórios e, sobretudo, às mulheres em geral.

Feministas comemoram aprovação do aborto na Argentina.

As feministas que saíram às ruas de Buenos Aires para comemorar a nova lei traziam, na sua maioria, vestes verdes. Dentro do senso comum, o verde pode indicar “sorte” ou “esperança”, mas é também a cor dos frutos que ainda não amadureceram. O signo de uma mulher madura é justamente a maternidade. (Não necessariamente a maternidade biológica, mas a capacidade de se entregar maternalmente por alguém, sobretudo pelos mais pequeninos e indefesos.) Notamos que uma moça se torna mulher não apenas pela primeira menstruação, mas quando ela desenvolve aquele senso maternal que fascina tanto as crianças. (Santa Teresinha, por exemplo.) Nesse sentido, o verde das vestes feministas não podia ser mais revelador: trata-se de pessoas imaturas e que, pior ainda, reivindicam o direito à eterna imaturidade.

É uma grande ilusão achar que a legalização do aborto tem algo a ver com a dignidade da mulher ou de quem quer que seja. Se a questão fosse realmente a violência doméstica ou o risco à saúde, os militantes chamados “pró-escolha” lutariam apenas por essas duas possibilidades (ainda que sejam também inaceitáveis, atenção), e não por uma lei arbitrária e irresponsável para um suposto direito ao aborto legal, seguro e gratuito. Porém, o que vemos na maior parte dos casos é a procura indiscriminada do aborto, e por motivos os mais subjetivos: carreira, emprego, beleza, prêmios, indisposição etc. (“As vidas que devem ser salvas estão nas granjas e matadouros, não em nossos úteros”, dizia o cartaz de uma feminista.) E ninguém que reivindique uma insanidade dessas — ou pior, celebre-a como uma conquista olímpica — pode ser considerado uma pessoa madura. Porque não estamos falando de uma escolha entre fumar cigarro ou não, mas de tirar a vida do próprio filho.

Mas essa deficiência de caráter, caros leitores, não é uma exclusividade delas, que fique claro, e sim de toda a sociedade. Em um texto após a decisão do Senado, o presidente argentino Alberto Fernández disse que “o aborto seguro, legal e gratuito é lei. Hoje somos uma sociedade melhor, que amplia os direitos das mulheres e garante a saúde pública”. Em outras palavras, o que esse senhor está dizendo é que, agora, homens e mulheres podem igual e livremente viver suas sexualidades, porque têm a garantia paternalista do Estado. E se acaso houver uma gravidez inconveniente sob qualquer aspecto, basta abortá-la. Eis a sociedade dos sonhos de todo adolescente mimado que quer viver seus prazeres irresponsavelmente e com o respaldo dos outros.

O aborto é o corolário de uma geração moral e afetivamente fraca, que não aprendeu a virtude do sacrifício e da responsabilidade pelo próximo. A começar pela secularização do casamento, homem e mulher deixaram de se unir num vínculo sagrado e indissolúvel, cuja finalidade deveria ser a formação de uma família, numa entrega amorosa pela salvação um do outro, para simplesmente assinar um contrato civil de convivência. Mas contratos podem ser rompidos a qualquer hora e por diferentes razões, como em qualquer sociedade. Daí se introduziu o divórcio, apareceram os anticoncepcionais, o sexo se tornou lazer e o resto da história todos já sabem: relacionamentos rotativos, abusivos e tóxicos, como costumam dizer. Mas dentro de uma dinâmica na qual um serve para o outro apenas como instrumento de prazer, só podia dar nisso. Quem identificou cedo a pedra que rolou da montanha, causando esta avalanche que sofremos hoje, foi Gustavo Corção:

Para a criança, ao contrário, a união dos pais é física, metafísica e necessária. Melhor do que os filósofos e teólogos, a criança vê, “d’un simple régard”, o vínculo que faz dos pais um bloco, uma base. É uma experiência afetiva e intelectual de uma importância enorme para a criança essa primeira apreensão da realidade familiar.

Assim como se abrem os olhos para o jogo das leis naturais, abrem-se também para essa realidade de pedra que a protege, que a envolve, como paredes de uma casa viva. Por isso, a separação dos cônjuges terá para a criança um aspecto de alucinação. Não se trata apenas de um afastamento livremente consentido de duas pessoas que livremente se uniram. Não será apenas a quebra de um juramento ou a rescisão de um contrato. A separação dos pais, para a criança, é um absurdo. Não é um drama moral, é uma tragédia cósmica. Não é conflito de duas pessoas, é conflito dos elementos constitutivos do universo. O mundo enlouqueceu se os pais se separam. Na mente infantil, a repercussão afetiva e intelectual significa um abalo de todas as fundamentais experiências até então colhidas. É como se a água deixasse de molhar, o sol deixasse de brilhar, a pedra deixasse de ser dura. Não é muito difícil extrapolar as consequências de tão brutal experiência: os psiquiatras estão aí para dizer no que dão os filhos do divórcio [1].

Eles dão no aborto. Afinal, é mais prático tirar a vida do filho do que se submeter a um processo dispendioso de guarda e pensão alimentícia, não é mesmo? Ora, a mentalidade divorcista conduziu a isso, partindo do princípio de que o interesse dos cônjuges, e não o das crianças, está em primeiro lugar. Gerações e gerações inteiras cresceram e foram educadas sem pai ou sem mãe ou mesmo sem os dois, concluindo que não há vínculos definitivos nem instituições invioláveis. Acontece que, sem esse resguardo familiar, o amadurecimento afetivo, psicológico e, inclusive, biológico torna-se problemático. Resta a noção de que, na vida, o importante mesmo é o bem-estar individual e a realização dos próprios projetos. (O aborto foi aprovado nos Estados Unidos justamente com o argumento do direito à privacidade.) E que se danem os demais.

A ausência paterna e materna, consequentemente, se faz sentir hoje em todos os âmbitos sociais, inclusive dentro da Igreja, como reconheceu recentemente o Papa: “Na sociedade atual, muitas vezes os filhos parecem ser órfãos de pai. A própria Igreja de hoje precisa de pais” (Patris corde, n. 7). E isso explica o silêncio de alguns e a perplexidade de outros em relação a temas tão urgentes. É que, como descreve o profeta Jeremias, “os pastores ficaram estúpidos” e, por isso, “todo o seu pastoreio se dispersou” (Jr 10, 21). Mas não podemos ficar mais calados, como cães mudos. É necessária uma resistência varonil e paternal contra essa cultura mortífera que se vai alastrando cada vez mais sobre nossas famílias.

Em 1940, quando as hordas nazistas já haviam tomado boa parte da Europa e ameaçavam a soberania do Império Britânico, o primeiro ministro inglês Winston Churchill recusou-se a apertar as mãos do Führer em qualquer tipo de concordata, lançando-se bravamente contra aquilo que definiu como “uma monstruosa tirania, que não tem precedente no sombrio e lamentável catálogo dos crimes humanos”. Na contramão de um parlamento pusilânime e diplomático, o estadista encorajou os ingleses à resistência, pondo-se à frente do seu povo, sob pena de oferecer “sangue, sofrimento, lágrimas e suor”. Em um de seus mais célebres discursos, Churchill declarou: “Temos diante de nós muitos, muitos e longos meses de luta e sofrimento. Os senhores perguntam: qual é nosso plano de ação? Posso dizer: é travar guerra, por mar, terra e ar, com todo o nosso poder e com toda a força que Deus possa nos dar”. Hoje os historiadores são praticamente unânimes em reconhecer na atitude de Churchill, que à época parecia loucura, um fator decisivo para a derrocada de Hitler.

Essa é a atitude que se espera de homens e mulheres maduros. Decerto, os nossos tempos estão ameaçados por uma tirania ainda mais cruel e sanguinolenta do que aquela dos anos 1940. As raposas Jezabel e Herodes se levantaram mais uma vez contra a verdade e a inocência. A nós, pois, servem perfeitamente as palavras do anjo ao profeta Elias: “Levanta-te e come! Ainda tens um longo caminho a percorrer” (1Rs 19, 7). Temos de rezar muito, estudar muito e trabalhar muito. Porque é nosso dever descer à arena para “combater o bom combate”, em defesa de nossos filhos, de nossas famílias e da nossa fé, sabendo principalmente que “a nossa luta não é contra o sangue e a carne, mas contra os principados, as potestades, os dominadores deste mundo tenebroso, os espíritos malignos espalhados pelo espaço” (Ef 6, 12). 

Seja qual for o poder diabólico em nosso caminho, contando com o auxílio da graça de Deus, uma coisa é certa: nunca vamos nos render!

Referências

  1. Citação do artigo “Os inocentes castigados”, presente no livro Claro Escuro.

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Não é de hoje que nós falamos de São José...
Cursos

Não é de hoje
que nós falamos de São José...

Não é de hoje que nós falamos de São José...

...mas, neste Ano Jubilar dedicado ao Padroeiro da Santa Igreja, temos uma ocasião especialíssima para conhecer com ainda mais profundidade e amar com ainda mais fervor o Patriarca da Sagrada Família!

Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Janeiro de 2021Tempo de leitura: 2 minutos
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Não é de hoje que nós, do site do Padre Paulo Ricardo, falamos de São José, assim como não é de agora, obviamente, o culto de veneração especial que a Igreja lhe tributa. 

O Santo Padre proclamou, no entanto, para 2021, um Ano Jubilar de São José: ocasião especialíssima para conhecermos com ainda mais profundidade e amarmos com ainda mais fervor o Patriarca da Sagrada Família!

É por isso que estamos preparando para você e sua família um Curso de Férias justamente sobre o pai virginal do Redentor e a devoção que nós, católicos, devemos ter para com ele. 

Para receber atualizações relativas a esse novo conteúdo, é só se cadastrar aqui! Mas desde já anote em sua agenda o nosso cronograma de lançamento!

  • 19/1, terça-feira, às 21h: transmissão de abertura das inscrições para o curso, com Pe. Paulo Ricardo;
  • 26/1, terça-feira, às 21h: lançamento oficial de nosso curso, com publicação de todas as aulas que o compõem e transmissão da 1.ª aula para alunos.

Para que você entre conosco na expectativa deste conteúdo e, ao mesmo tempo, vá se preparando para as nossas aulas, queremos recomendar 7 matérias e meditações que já publicamos sobre São José e que desde agora farão você crescer em amor a ele: 

  1. Como São José pode ajudar a salvar o nosso século?, Equipe CNP — Oxalá abríssemos os nossos olhos e compreendêssemos, como São José entendeu, que sempre o mais urgente a fazer é rezar!
  2. O que São José nos ensina com seu silêncio?, Equipe CNP — “Quem não encontrar mestre que lhe ensine oração”, diz Santa Teresa de Ávila, “tome ao glorioso São José por mestre e não errará no caminho.”
  3. São José não é um santo qualquer!, Equipe CNP — Os católicos amamos todos os santos da Igreja e até elegemos um e outro como santo de devoção. Mas São José… São José é especial. Afinal, a que outro santo Deus chamou de pai?
  4. São José, o patriarcado e os homens de hoje, Equipe CNP — O patriarcado é uma coisa ruim? Entenda nesta matéria por que as famílias precisam de homens e como eles podem se tornar pais segundo o coração puríssimo de São José.
  5. Deus escolheu José, e a mais ninguém, Edward Healy Thompson — Da tribo de Judá e dos filhos de Davi, haviam de surgir grandes patriarcas, célebres líderes para o povo e reis da mais alta nobreza, mas Deus não escolheu a nenhum deles; só a José.
  6. São José, o maior de todos os santos, Edward Healy Thompson — Constituído chefe da Sagrada Família, posto imediatamente a serviço do Deus-Homem, São José transcende em dignidade todos os outros santos, pois foi estabelecido em uma ordem superior a todas as outras na Igreja.
  7. É hora da “Consagração a São José”!, Brian Fraga — Por que precisamos, agora mais do que nunca, encomendar-nos a São José? É o que explica nesta entrevista o Pe. Donald Calloway, autor de um recente livro devocional que propõe todo um roteiro de consagração ao pai virginal de Jesus.

Isso é tudo... por enquanto! Oportunamente entraremos em contato com você para mais atualizações e novas informações e publicações em nosso site. Fique atento!

Desde já, tendo qualquer dúvida quanto ao curso ou dificuldade no acesso ao nosso material, não hesite em falar conosco! Estamos à disposição através do e-mail suporte@padrepauloricardo.org, do telefone (11) 4933-0425 ou do WhatsApp, clicando aqui. Deus abençoe você!

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Não passe o Ano Novo como um pagão!
Espiritualidade

Não passe o Ano Novo como um pagão!

Não passe o Ano Novo como um pagão!

Hoje em dia, são poucas as pessoas que festejam no sentido verdadeiro do termo. O homem moderno está familiarizado apenas com o relaxamento do trabalho, a dissipação nas suas “férias” e a determinação um tanto sombria de escapar do tédio e da depressão.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere30 de Dezembro de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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O fim do ano civil é uma época em que certa melancolia tende a dominar as pessoas, pois somos colocados diante da inevitável passagem do tempo, que, por sua vez, nos aproxima da morte. Essa consciência momentânea da evanescência de todas as coisas explica, ao menos em parte, por que nesta época há tanta folia que, muitas vezes, termina em embriaguez e estupor. Ao que parece, nada é mais fácil do que beber para esquecer a mortalidade — um “antídoto” quase tão eficaz quanto engolir pílulas anticoagulantes enquanto se tem uma hemorragia. 

S. João Crisóstomo, aquele pregador destemido da Igreja antiga, lembrava frequentemente aos cristãos de Antioquia que eles precisavam abandonar os caminhos de seus vizinhos pagãos e abraçar um modo de vida mais moderado e, por essa razão, mais alegre (isso muitos estoicos, epicureus e cristãos antigos tinham em comum). Como todos os Padres da Igreja, ele estava familiarizado com o fenômeno generalizado de crentes mais ou menos comprometidos que sucumbiam à pressão turbulenta de seus compatriotas descrentes — a reincidência social pela qual, mesmo contra nossa consciência e caráter, acabamos seguindo os maus costumes dos nossos tempos.

Eis o que o arcebispo “boca de ouro” tinha a dizer:

Ai das casas que em nada se diferenciam de refúgios de prazer! Tirai, eu vos imploro, estas coisas do meio de vós! Que as casas dos cristãos, e dos batizados, sejam livres do coro do demônio: sejam antes refinadas, hospitaleiras e santificadas pela oração fervorosa. Reuni-vos para entoar salmos, hinos e cânticos espirituais. Permiti que a palavra de Cristo, e o sinal de Cristo, esteja em vossos corações, em vossos lábios e em vossas frontes, em vosso comer e em vosso beber, em vossas conversas, em vossos banhos, em vossos aposentos, em vosso ir e em vosso vir, na alegria e na tristeza; de modo que, de acordo com o ensinamento de São Paulo, quer comais, quer bebais, ou o que quer que façais, tudo seja feito no nome de Nosso Senhor Jesus Cristo (cf. 1Cor 1, 31; Col 3, 17), que vos chamou para a sua graça. Pois foi Ele quem vos perdoou as vossas antigas ofensas, e é Ele que vos promete recompensa por haverdes emendado de vida.

Em sua poderosa luta de séculos contra a idolatria e a heresia, a Igreja primitiva levou a sério sua obrigação de elevar preces ao Senhor nos dias santos. Esta é uma ocupação digna de um rei — ou seja, de cada um dos batizados. Num artigo publicado no site New Liturgical Movement, Gregory DiPippo observa que os primeiros cristãos estavam perfeitamente cientes de que sua maneira de “virar o ano” era decisivamente diferente da forma com que o faziam os pagãos à sua volta, os quais não perdiam a oportunidade de entregar-se à veneração de ídolos hedonistas.

O Rito Romano preservou alguns traços da reação dos primeiros cristãos à celebração pagã do Ano Novo; no rito ambrosiano tradicional, esse aspecto do dia é muito mais pronunciado. Nas Vésperas, o Salmo 95 é cantado com a antífona: “Todos os deuses das nações são demônios; mas o nosso Deus fez os céus”; e o Salmo 96 com a antífona: “Confundidos sejam todos os que adoram ídolos, e os que se gloriam nas suas estátuas”. A primeira oração das Vésperas e da Missa diz: “Deus todo-poderoso e eterno, que ordenais aos que participam da vossa mesa se abstenham dos banquetes do diabo, concedei ao vosso povo, nós vos pedimos, que, rejeitando o sabor da profanação mortal, possa apresentar-se de mente pura para a festa da salvação eterna”. Todas as sete antífonas das Matinas e a maioria das antífonas das Laudes referem-se à rejeição da adoração de ídolos. No rito ambrosiano, há duas leituras antes do Evangelho; sobre a circuncisão, a primeira delas é a abertura da “carta de Jeremias” (que, na Vulgata, está em Baruc 6, 1-6), na qual o profeta exorta o povo a não se curvar diante dos ídolos dos babilônios. A grande antiguidade desta tradição se demonstra pelo fato de que esta leitura é preservada no Missal Ambrosiano, no texto da versão em latim antigo, ao invés do latim da Vulgata.

Apesar de falar muito da antiguidade cristã, os reformadores da Igreja do século XX mostraram uma tendência notável de adotar a frouxidão moderna no lugar do rigor antigo, de abreviar a oração em vez de ampliá-la, de adotar a noção mundial de “celebração” em lugar do chamado do Evangelho à conversão e à imitação de Cristo.

Você já parou para se perguntar por que, por séculos e séculos, os católicos falavam de “oferecer o Santo Sacrifício”, enquanto, depois do Concílio, as pessoas só parecem falar em “celebrar Missa” ou mesmo “celebrar a Eucaristia” (um barbarismo linguístico)? Nos tempos modernos, como Josef Pieper aponta, poucas pessoas experimentaram a verdadeira festa — o abraço festivo da vida como um presente de Deus, a ser devolvido a Ele “com interesse” na forma de adoração solene acompanhada de reuniões sociais, cantos e festas em companhia uns dos outros. Em vez disso, os modernos estão familiarizados apenas com o relaxamento do trabalho, a dissipação nas suas “férias” e a determinação um tanto sombria de escapar do tédio e da depressão.

Quase todo psiquiatra que se preze redescobriu um pedaço da sabedoria ancestral: a melhor maneira de superar o abatimento que nos aflige em nossa mortalidade é cultivando a gratidão. Em vez de murmurar sobre como as coisas estão ruins (pois, sem dúvida, neste vale de lágrimas, sempre haverá muito do que reclamar!), por que não parar e pensar nas várias coisas pelas quais se pode agradecer? S. Paulo nos diz: “Em todas as circunstâncias, dai graças, porque esta é a vosso respeito a vontade de Deus em Jesus Cristo” (1Ts 5, 18). Aqueles que redigem um “diário de gratidão” descobrem que isso os muda para melhor.

Vamos dar um passo adiante. Em vez de ficar repetindo o mantra “ai de mim!…”, por que não repetir calma e lentamente a oração: “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem misericórdia de mim, pecador”? Em vez de beber até o esquecimento, por que não se retirar ao quarto e rezar no seu íntimo ao Pai celeste, que lhe dará de beber de uma fonte que o mundo não conhece? Quando tivermos dado a Deus o “dízimo” do nosso tempo, haverá tempo suficiente para passar na companhia de amigos e familiares, mas desta vez com sentido e realização.

Desde o século IV, a Igreja Católica entoa o grande hino ambrosiano de ação de graças, o Te Deum, como parte do Ofício Divino, e em ocasiões especiais como a consagração de um bispo, a canonização de um santo, as profissões religiosas e, quando reis e rainhas governavam a terra, nas coroações reais. Uma dessas ocasiões especiais é a véspera de Ano Novo, quando é costume cantar ou recitar o Te Deum para agradecer a Deus por suas bênçãos no ano que acaba de terminar e pedir sua bênção para o ano que se inicia. A Igreja até atribui uma indulgência plenária a esta prática. (O texto do hino pode ser encontrado em muitos lugares online.)

Não seria esta a melhor maneira de sair do ano velho e entrar no ano novo?

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É hora de recuperar nossa visão sobrenatural!
Espiritualidade

É hora de recuperar
nossa visão sobrenatural!

É hora de recuperar nossa visão sobrenatural!

Numa época excessivamente científica, que abandonou o dom da fé, tudo o que está relacionado ao sobrenatural é considerado supersticioso e descartado. A verdade, porém, é Deus age em nossas vidas constantemente, ainda que não nos demos conta.

Constance T. HullTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere29 de Dezembro de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
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Nós do Ocidente perdemos a visão sobrenatural. Aquilo que outrora era evidente para os cristãos tornou-se obscuro para nós. A conexão entre o mundo espiritual e o material, parte do cotidiano das pessoas na Idade Média e no início da história da Igreja, deu lugar ao super-racionalismo da era pós-iluminista que vivemos hoje.

Para nos adequarmos aos tempos e parecermos relevantes, nós, membros da Igreja, muitas vezes jogamos fora o coração da fé em benefício da “cabeça”. Tudo o que está relacionado ao sobrenatural é considerado supersticioso e descartado; além disso, tentamos convencer nossos contemporâneos de que não somos mais um povo que enxerga o aspecto espiritual das coisas. Isso não é apenas uma injustiça e uma falta de caridade com os nossos irmãos em Cristo ao longo dos séculos; é também uma mentira. 

A adoção dessa perspectiva fez a Igreja ficar cada vez mais desconectada do sagrado na vida cotidiana. Relegamos o culto apenas aos domingos ou, durante esta pandemia, a uma tela de computador ou de televisão. Faltam aos nossos templos beleza e transcendência objetivas; além disso, eles foram reduzidos a um utilitarismo brando e sem sentido. Raramente procuramos elevar nosso olhar para o céu.

Embora sejamos cristãos, essa forma de ver o mundo se impregnou na nossa vida cotidiana. Não procuramos mais encontrar a Deus nos detalhes da vida diária. Não é assim que deveríamos viver. Em sua brilhante encíclica Fides et Ratio, São João Paulo II afirma: 

Assim, a história constitui um caminho que o Povo de Deus há-de percorrer inteiramente, de tal modo que a verdade revelada possa exprimir em plenitude os seus conteúdos, graças à acção incessante do Espírito Santo (cf. Jo 16, 13). Ensina-o também a constituição Dei Verbum, quando afirma que “a Igreja, no decurso dos séculos, tende continuamente para a plenitude da verdade divina, até que nela se realizem as palavras de Deus”. A história torna-se, assim, o lugar onde podemos constatar a ação de Deus em favor da humanidade. Ele vem ter conosco, servindo-se daquilo que nos é mais familiar e mais fácil de verificar, ou seja, o nosso contexto cotidiano, fora do qual não conseguiríamos entender-nos (§11–12).

Nosso dia a dia não deveria ser visto como um padrão sem sentido. Deus age no tempo neste exato momento. Estamos vinculados às pessoas que estão ao nosso redor por meio de nossa natureza comum e de nossa comunhão com a Santíssima Trindade. Deus age por meio de nós e dessas pessoas. Infelizmente, os católicos tendem a enxergar uns aos outros como um oceano de estranhos sem rosto, e não como irmãos em Cristo — um vínculo muito mais profundo do que somos capazes de compreender ou imaginar.

Essa perda de visão sobrenatural é parcialmente responsável pela nossa crescente irrelevância na cultura ocidental. Se quisermos apenas nos adequar aos que estão à nossa volta, não poderemos oferecer algo radicalmente diferente à cultura. Perdemos de vista a radicalidade da mensagem do Evangelho e o fato de que ela existe para transformar cada aspecto de nossa vida e nos ajudar a enxergá-la de uma forma inteiramente nova. Nós deveríamos enxergar com os olhos do Cristo crucificado.

Recentemente, deparei com a visão sobrenatural vivida na prática. Isso me chamou a atenção porque Cristo tem operado muitas coisas em minha vida espiritual para me ajudar a enxergar com os olhos da fé, apesar de minhas dúvidas constantes, tão endêmicas na Igreja ocidental por causa de nossa ênfase excessiva no racionalismo e no materialismo — tanto em sua forma científica como em sua  forma consumista —, que nos levaram a questionar tudo e a não confiar em ninguém, nem mesmo em Deus.

Fui a uma paróquia que fica do outro lado da cidade para rezar as Vésperas e participar da adoração. Lá conheci o novo vigário paroquial, que olhou para mim e disse: “Você veio aqui nesta noite por um motivo.” Como já era esperado, ele era africano, embora eu não soubesse de qual país. A fé está crescendo na África, apesar de estar decaindo aqui no Ocidente.  

Naquele momento, entendi concretamente em que medida devemos viver nossa vida de acordo com a fé sobrenatural. Para aquele sacerdote, cada encontro com uma pessoa fazia parte do plano de Deus. A Igreja não parou de ensinar isso; ao contrário, é uma realidade espiritual que nós escolhemos ignorar ou abandonar. Esquecemos que Deus age principalmente por meio de nossas relações com outras pessoas. Quando estamos abertos às suas inspirações, o Espírito Santo muitas vezes tenta nos guiar por meio de nossos irmãos em Cristo.

Ao longo dos nossos dias, quantas vezes achamos que outras pessoas ou situações são um incômodo, um aborrecimento ou um fardo? Dos pais e sua relação com os filhos aos sacerdotes e o pastoreio de seu rebanho, em nossos dias agitados e muitas vezes sem fé, todos nós esquecemos que Deus age em todos os momentos de nossa vida, inclusive no menor dos detalhes.  

Boa parte de nossa vida está repleta de sentido e carregada de espiritualidade, mas não conseguimos perceber isso. A perda de visão sobrenatural nos torna cegos para a maravilhosa tapeçaria que Deus deseja tecer em nossa vida. Uma tapeçaria que também está interligada com as pessoas ao nosso redor, que Deus deseja unir num só corpo. Os ensinamentos da Igreja sobre a comunhão não são sentimentalistas, mas um reflexo da profunda realidade de nossa interligação e de como devemos responder a Deus. 

Cada pessoa que encontramos ao longo do dia está ali por um motivo. Pode parecer irrelevante, mas na vida eterna ficaremos completamente impressionados com o fato de que as menores das interações faziam parte de um plano maior de Deus para nós. Veremos que certos dias de nossa vida tiveram mais sentido espiritual e que Deus estava agindo neles num nível mais elevado, particularmente em sua relação com o calendário litúrgico. Enxergaremos a importância de datas e épocas. Os judeus compreendem isso; por essa razão têm grande estima pelo simbolismo dos números e nomes.   

Muitas vezes, quando estamos atrasados e aparentemente trombamos com todos os obstáculos imagináveis (seja quando todos os semáforos estão vermelhos ou quando temos de parar e esperar o trem passar), Deus pode muito bem estar nos protegendo, ou talvez tenhamos de conhecer alguém no trajeto no tempo perfeito de Deus. Vi isso acontecer há alguns meses quando estava saindo da igreja após a Missa diária.

Estava dirigindo pela região central da cidade quando um pedestre passou diante de mim inesperadamente, obrigando-me a frear o carro. Então, prossegui em direção ao semáforo seguinte, que estava verde. Quando me aproximava do cruzamento, uma van cruzou o sinal vermelho em alta velocidade. Se o pedestre não tivesse passado na frente do meu carro, a van teria batido em mim. Provavelmente teria tirado minha vida e teria deixado minha filha gravemente ferida, pois ela estava do lado direito do banco traseiro. Deus levantou o véu e permitiu que eu o enxergasse em ação na minha vida de forma tangível. Isso me serviu como lembrete de que Deus age em nossas vidas constantemente, ainda que não tenhamos consciência disso.

Num dia normal, são inúmeros os momentos em que me pedem que leve uma mensagem ou faça algo por uma pessoa e, então, acabo me cruzando com ela. Muitas vezes, é o Espírito Santo confirmando o que Ele quer que seja feito. Se alinharmos nossa visão com a visão sobrenatural de Cristo, enxergaremos as conexões e seremos capazes de cooperar plenamente com as inspirações do Espírito Santo. Se sucumbirmos à incerteza ou se eliminarmos o sobrenatural de nossa vida cotidiana, dando lugar a uma visão de mundo mais racionalista, seremos incapazes de nos entregar ao Espírito Santo. Seremos limitados no modo como vivemos nossa vida de discípulos cristãos porque, essencialmente, viveremos nossos dias às cegas.

Numa época excessivamente científica, que abandonou o dom da fé, devemos recuperar uma vida de fé sobrenatural. Enxergar a ação de Deus em nossa vida cotidiana não é superstição. Quando fazemos isso, enxergamos além daquilo que está diante de nós e alcançamos o coração da própria Santíssima Trindade. A visão sobrenatural nos permite cooperar com as inspirações dela e aceitá-las, de modo que ela possa operar seu plano divino por meio de nós. Devemos ser veículos de seu divino amor. Não podemos responder a esse chamado se abandonamos o coração de nossa fé, que nos faz enxergar com os olhos de Deus, e adotamos uma compreensão puramente racionalista das coisas. É hora de recuperar nossa visão sobrenatural.

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