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“Meu corpo, minhas regras”: o vídeo que não deu certo
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“Meu corpo, minhas regras”:
o vídeo que não deu certo

“Meu corpo, minhas regras”: o vídeo que não deu certo

Encenado por atores globais como uma apologia à legalização do aborto, o que “Meu corpo, minhas regras” conseguiu foi só aumentar ainda mais o repúdio da população brasileira a essa prática.

Equipe Christo Nihil Praeponere13 de Novembro de 2015Tempo de leitura: 4 minutos
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O vídeo "Meu corpo, minhas regras", encenado por atores da Rede Globo e assistido mais de 1 milhão de vezes na Internet – e já negativado por mais de 170 mil usuários –, tentou ser uma apologia da legalização do aborto. O que a produção conseguiu, no entanto, foi aumentar ainda mais o repúdio do povo brasileiro a essa prática – e à dramaturgia global, ainda que por tabela.

Primeiro, porque a falácia do título já é bem clara. Não dá para falar de "meu corpo, minhas regras", quando se lida com a vida de outro ser humano. Embora se tente retratar o aborto como "uma decisão da mulher", o que está em jogo não é o seu corpo, mas o de outra pessoa. O que uma mãe traz em seu útero não é mera extensão do seu corpo, não é um seu membro físico, muito menos uma propriedade sobre a qual ela possa agir como bem entende. Trata-se, ao contrário, de uma nova vida humana, de um ser absolutamente independente – e não é preciso ser perito em biologia ou medicina para sabê-lo, muito embora sejam muitas as personalidades do mundo científico a atestar a humanidade do não-nascido. Para estas breves linhas, é suficiente citar o famoso médico e geneticista francês Jérôme Lejeune, para quem, "se um óvulo fecundado não é por si só um ser humano, ele não poderia se tornar um, pois nada é acrescentado a ele".

No fundo, a resposta para a mentira do vídeo está contida no próprio vídeo, bem no seu início, quando se comenta o fato de "todo ser humano existir através da gravidez". O protagonista de toda gestação – as mães sabem, os atores da Rede Globo sabem, todo o mundo sabe – é o bebê que está em desenvolvimento, o novo "ser humano" que floresce na barriga da mulher.

Isso não significa desprezar as dificuldades psicológicas que uma mãe enfrenta durante a gravidez, nem os dramas reais com que ela deve lidar, seja no ambiente familiar, seja no seu relacionamento conjugal, por conta do filho que traz em seu seio. Ao contrário, muitas vezes, são justamente as circunstâncias adversas sob as quais corre uma gravidez que fazem os holofotes da vida se voltarem para a mulher. Afinal, as mães constituem as primeiríssimas pessoas a cercarem de proteção e cuidados os seus filhos, ainda quando são as mais frágeis e indefesas das criaturas. Isso cria em torno delas uma aura tão sublime, a ponto de serem comparadas pelas Escrituras com o próprio Deus. "Acaso uma mulher esquece o seu neném, ou o amor ao filho de suas entranhas?", pergunta retoricamente o profeta Isaías. "Mesmo que alguma se esqueça, eu de ti jamais me esquecerei!" (Is 49, 15).

Por tudo isso, o aborto não é uma mera quebra de "tabus religiosos", mas uma afronta à própria natureza. Nisso, o mundo animal tem muito a ensinar ao feminismo abortista. Enquanto as senhoritas de peruca azul clamam "Meu corpo, minhas regras", os animais ditos "selvagens" defendem suas crias com unhas e dentes. Enquanto seres humanos clamam por um pretenso "direito ao aborto", as galinhas reúnem os seus pintainhos debaixo das suas asas – tendo merecido inclusive a menção do próprio Jesus Cristo nos Evangelhos (cf. Mt 23, 37).

Não custa, todavia, repetir: a rejeição ao aborto não se restringe a grupos nem a argumentos religiosos. Não é preciso ser cristão para ser contrário ao aborto. Basta ser um pouco humano e saber o que significa ter empatia com a vida e o sofrimento alheios.

Mas, em todo o vídeo, há algo que provoca ainda mais a indignação e a repulsa do público brasileiro. Trata-se da flagrante maldade, estampada nos rostos e nas falas dos atores do vídeo.

Se muitas vezes os defensores do aborto vieram a público com máscaras, tentando disfarçar o seu intento com dramas comovedores, desta vez, não há nada por trás. "O rei está nu", completamente, exposto em toda a sua malícia. O modo como os atores estão caracterizados, a expressão maquiavélica nos seus olhares, a maquiagem que os deixa disformes, os comentários sujos, zombando inclusive da virgindade de Nossa Senhora, não são nada casuais: constituem o figurino perfeito para uma produção desse gênero, pois mostram exatamente de onde vem a "cultura da morte".

Por isso, os atores e atrizes que participaram do vídeo "Meu corpo, minhas regras" estão de parabéns. Nunca alguém conseguiu reproduzir com tanta perfeição personagens tão más, tão cruéis e tão sem coração. Nem os piores vilões da Rede Globo descem tão baixo.

Triste e digno de pena é que essas celebridades pensem da mesma forma na vida real; por isso, elas só merecem a nossa mais profunda lástima.

Esperamos, sinceramente, que os artistas envolvidos nessa peça de extremo mau gosto mudem de ideia e, um dia, descubram o valor precioso e inviolável que tem em si mesma toda vida humana. Inclusive as suas.

Notas

  • P.S.: Em tempo: é hora de redobrarmos os nossos esforços para a aprovação do PL 5069. Para entender do que se trata este importante projeto de lei e o que fazer para ajudar a nossa nação na luta contra o aborto, clique aqui. O futuro das nossas crianças depende de você!

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Um plano diabólico contra a Eucaristia
Liturgia

Um plano diabólico contra a Eucaristia

Um plano diabólico contra a Eucaristia

O diabo quer levar as almas para o inferno através da profanação do Santíssimo Sacramento.

Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Novembro de 2015Tempo de leitura: 7 minutos
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A encarnação de Deus é um evento fundamental para o gênero humano. Depois da aliança com Noé e Abraão, depois da libertação do Egito, depois de todos os profetas terem anunciado a mensagem salvífica e a promessa de uma redenção definitiva, Aquele que é desde sempre e para sempre fez-Se um de nós para nos elevar, assim, à condição de filhos do Pai (cf. Jo 1, 12). São João explica o significado desse acontecimento singular com palavras belíssimas: "Nisto consiste o amor: não em termos nós amado a Deus, mas em ter-nos Ele amado, e enviado o seu Filho para expiar os nossos pecados" (1 Jo 4, 10). O homem pode agora amar porque recebeu o amor de quem o é por natureza, de quem Se desfez de sua dignidade real, assumindo um corpo de carne, para curar o coração humano, ferido pelo pecado. Essa é a alegria do Evangelho.

Jesus Cristo, "verdadeiro Deus e verdadeiro homem", redimiu a natureza humana em todas as suas dimensões. Por causa da culpa original, cujo salário é a morte, nenhum homem poderia mais alcançar a vida eterna (cf. Rm 6, 23). Os portões do Céu haviam se fechado e nada, senão o sacrifício do cordeiro de Deus (cf. Hb 7, 26), poderia abri-los novamente. Na cruz, Cristo humilhado entrega-Se em um verdadeiro holocausto — não simbólico, como eram os sacrifícios do Antigo Testamento —, pelo qual perdoa cada falta dos homens para conceder-lhes de novo a posse da vida eterna. Jesus padeceu uma dor fora das possibilidades de um homem qualquer, a fim de resgatar-nos das mãos do diabo.

É natural, portanto, que as pessoas pensem ser a morte de cruz a mais grave das humilhações de Cristo. Mas Ele não Se limitou ao sacrifício cruento do madeiro. Na noite anterior à sua morte, reuniu-Se com os apóstolos na celebração de sua derradeira páscoa. Os relatos bíblicos contam que, tomando o pão e o vinho, Jesus deu graças, elevou-os ao céu e disse: "Isto é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de mim […] Este cálice é a Nova Aliança em meu sangue, que é derramado por vós" ( Lc 22, 19-20).

Com a instituição da Santa Missa, isto é, da celebração eucarística, Jesus antecipou sua paixão; tornou-Se alimento para a nossa alma. É por isso que os santos são unânimes em dizer que, ao esconder-Se sob o véu do sacramento, no pão e no vinho, Jesus humilhou-Se ainda mais do que na encarnação, pois enquanto nesta, por um lado, Ele assumiu o corpo do homem, que é "imagem e semelhança de Deus" (Gn 1, 27), na Eucaristia, por outro, colocou-Se totalmente aos seus cuidados, na fragilidade das partículas eucarísticas. "Mais humilhação e mais aniquilamento na Hóstia Santíssima; mais que no estábulo, e que em Nazaré, e que na cruz. Por isso, como estou obrigado a amar a Missa!", assim resumia São Josemaria Escrivá [1].

O Santo Sacrifício da Missa é a mais perfeita das celebrações de culto a Deus. Tamanha é a reverência da Igreja à sua sacra liturgia, que ela não se preocupa em exagerar no louvor e no zelo. Pelo contrário, o Magistério convida-nos insistentemente a uma opção preferencial pela Eucaristia, pois dela extraímos as forças necessárias ao apostolado com nossos irmãos, mormente com aqueles que mais sofrem. É neste sentido que se deve compreender este discurso surpreendente de São Bernardo de Claraval: "Fica sabendo, ó cristão, que mais se merece participar devotamente de uma Santa Missa do que distribuir todas as riquezas aos pobres ou fazer peregrinações por toda a terra" [2]. É claro que São Bernardo — de cuja regra monástica podemos extrair um exímio exemplo de austeridade e atenção aos pobres — não desmerecia o trabalho social; mas, antes, fazia valer aquelas palavras sempre válidas de Nosso Senhor: "Nem só de pão vive o homem, mas [...] de tudo o que sai da boca do Senhor" (cf. Mt 4, 4; Lc 4, 4; Dt 8, 3).

O zelo do cristão pela Hóstia Santa justifica-se por aquilo que explicamos acima. Jesus Eucarístico é o pobre dos pobres, que Se submete aos nossos cuidados. Jesus Eucarístico é, outrossim, o remédio salutar para nossas imperfeições. Na oração do Pai Nosso, após a súplica para que se realize a vontade de Deus no Céu e na Terra, pedimos-Lhe que nos dê, hoje, o "pão nosso de cada dia". Esse pão, diferentemente do que se costuma pensar, não é o pão comum, o alimento material. Trata-se, na verdade, da divina Eucaristia, conforme esclarece Santa Teresa d'Ávila: "Está Ele a ensinar-nos a fixar a nossa vontade nas coisas do Céu, e a pedir a graça de começarmos a gozar dele aqui debaixo: e havia de meter-nos em coisas tão baixas como pedir de comer?" [3]. Santa Teresa demonstra que o "pão nosso de cada dia" é deveras o meio pelo qual o Pai tornou possível ao homem realizar a vontade d'Ele "assim na Terra como no Céu". De fato, a Eucaristia "é o remédio mais válido e radical contra as idolatrias de ontem e de hoje" [4].

Eis o porquê de Satanás fazer guerra à Santa Missa. Ele odeia todos os sacramentos, especialmente a Eucaristia e a confissão. Em nossos dias, assistimos com perplexidade a inúmeros insultos ao sacrifício eucarístico, às vezes mesmo dentro da Igreja. É seu plano diabólico levar os fiéis a comunhões sacrílegas, pois, desse modo, ele consegue tanto profanar a dignidade deste augusto sacramento como também ganhar almas para o inferno, através do pecado da indiferença. Notem o que diz São Paulo: "Todo aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será culpável do corpo e do sangue do Senhor" (1 Cor 11, 27). O apóstolo fala à comunidade de Corinto, onde parece estar ocorrendo graves profanações. "Essa é a razão por que entre vós há muitos adoentados e fracos, e muitos mortos", explica (1 Cor 11, 30). Deus permite que essas mazelas se perpetuem para arrependermo-nos e "não sermos condenados com o mundo" (1 Cor 11, 32).

Um dos sinais mais evidentes de que há ofensas à Eucaristia em uma comunidade é a divisão. Onde reina a fofoca, a luta por cargos, o desprezo mútuo e a indiferença, não pode haver verdadeiro culto a Deus. Esse lugar é a casa do diabo. Nada prospera porque estão como que amarrados pela idolatria. Aqueles que não conseguem desenvolver apostolado frutífero em um determinado local, examinem, portanto, de que maneira as pessoas deste mesmo local, dessa comunidade, paróquia etc., costumam tratar o Santíssimo Sacramento. Não há de assustar-se acaso descobrir profanações e, até, rituais de magia negra. Os sintomas de delitos como esses são exatamente os descritos anteriormente.

Nas aparições de Fátima, a Virgem Santíssima suplicou pela reparação às ofensas cometidas contra o seu Imaculado Coração e o Sagrado Coração de seu Filho. Com efeito, o anjo de Portugal fez o mesmo pedido, ensinando as três crianças a rezar aquela famosa oração: "Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-vos. Peço-vos perdão por aqueles que não creem, não adoram, não esperam e não vos amam". Ao longo da história, os santos pregaram a necessidade da chamada hora santa, um tempo de adoração ao Santíssimo, no intuito de consolar a Deus pelas ofensas cometidas contra seu santo nome. Temos, enfim, esta grande exortação de Santo Agostinho: "Ninguém come essa carne, sem antes a adorar; pecaríamos se não a adorássemos" [5].

A própria Liturgia, quando bem celebrada, segundo as normas estabelecidas pela Madre Igreja, é um excelente meio de reparação aos ataques contra a santidade de Nosso Senhor na Eucaristia. A sabedoria do Magistério estabeleceu essas diversas normas e sinais externos para auxiliar a natureza decaída do homem a contemplar mais facilmente a divindade de Cristo, seja pela maneira de se receber a comunhão, seja pela orientação dos atos litúrgicos. É o que explica esta nota do Concílio de Trento: "A natureza humana é tal que não pode ser facilmente elevada à meditação das coisas divinas, sem ajudas externas: por conta disso a Igreja, como uma mãe amorosa, estabeleceu certos ritos [...] para tornar mais evidente a majestade de um sacrifício tão grande" [6]. Essa reverência se completa ainda mais pela ação de graças que todo fiel deveria fazer por algum tempo após o término da celebração. São Charbel Makhluf não perdia a oportunidade de render louvores a Deus, antes e após a Missa, chegando a passar mais de três horas em atitude de adoração.

A Eucaristia é a fonte e o ápice da nossa vida cristã. Sobretudo neste tempo de neopaganismo, é nosso dever defendê-la de todos os ataques malignos, demonstrando, por meio de nossas atitudes, a sacralidade de sua natureza. Salvando a Eucaristia, a Eucaristia nos salvará.

Referências

  1. Cf. São Josemaría Escrivá, Caminho. Trad. port. de Alípio M. de Castro. 9.ª ed., São Paulo: Quadrante, p. 171, n. 533.
  2. Catilina Rivas. A Santa Missa: Testemunho de Catalina. Trad. port. Lívia Barbosa Burin. 1.ª ed., São Paulo: Secretariado de Nossa Senhora, Rainha da Paz, 2004, p. 9.
  3. Santa Teresa d'Ávila, Caminho de Perfeição. Trad. port. das Carmelitas Descalças do Convento de Santa Teresa do Rio de Janeiro. Petrópolis: Vozes, 2014, p. 200.
  4. Bento XVI, Homilia para Solenidade de Corpus Christi, de 22 mai. 2008.
  5. Santo Agostinho, Enarrationes in Psalmos 98, 9 (PL 37, 1264).
  6. DS 1746.

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O mistério atesta a imensidão que nos espera
Doutrina

O mistério atesta a
imensidão que nos espera

O mistério atesta a imensidão que nos espera

"Esta vida terrena não tem nenhum sentido, destacada da vida eterna": palavras do Cardeal Siri, em uma breve reflexão sobre a vida eterna, os mistérios de Deus e os limites do conhecimento humano.

Cardeal Giuseppe SiriTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere10 de Novembro de 2015Tempo de leitura: 4 minutos
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Um documento publicado pela Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé – Carta sobre algumas questões respeitantes à escatologia – recordou oportunamente pontos basilares e imprescindíveis da certeza cristã. Naturalmente, isso suscitou surpresa naqueles que queriam que não se falasse mais sobre esses assuntos e fez explodir a ira de certos cultores da considerada teologia da "esperança" (e falamos daqueles que acenderam apenas a esperança de "acomodações" neste mundo, onde é bem notável que nada se "acomoda" perfeitamente).

Consideramos dever de nossa revista fazer algumas claras e precisas observações a esse propósito. A íntegra do documento citado retrata a "vida após a morte", ou seja, a vida eterna, que se segue necessariamente à vida terrena.

Esta vida terrena não tem nenhum sentido, destacada da vida eterna: não tem justificativa, carece de finalidade, é uma piada de mau gosto, na qual restam insolúveis os problemas postos pelo espírito humano, as suas aspirações de imortalidade, a ânsia de amor rumo ao infinito, os vínculos sagrados do sangue e da amizade – todas essas coisas que são a negação clamorosa de um "nada" após a morte.

Os materialistas de todas as espécies, mesmo aqueles (e não são poucos) camuflados de teólogos, quiseram minimizar o medo e o horror com os quais se abre o cortejo da morte: e obtiveram este efeito (triste para eles) de tornar a "vida após a morte" o mais imponente entre os problemas humanos.

Pensando bem, não é pouca coisa dizer que, sem a "vida eterna", tudo se torna piada e zombaria e a vida terrena fica sem propósito.

Apesar disso, em toda parte, como que vestidos de uma certa indiferença em relação à substância da questão, muitos procuram fazer explorações ocultas do "além": bruxaria, necromancia, espiritismo, portadores de percepções extrassensoriais e parapsicólogos; alguns, de parecer diverso, chegam a arriscar olhares libidinosos ao outro lado da grande cortina. Todos, com exceção dos porta-vozes oficiais das teses materialistas, são fascinados pelas aventuras conduzidas ao redor dessa cortina. Isso não significa que Deus não permita extrapolações nas coisas humanas, especialmente no que diz respeito às criaturas mais estultas e desobedientes, os demônios (não é por nada que existem os exorcismos).

Não é totalmente impossível – na verdade, é bem real – que Deus queira estabelecer verdadeiros contatos entre o Céu e a terra (a divina liturgia celebra alguns desses ilustres e benéficos contatos), não abrindo, porém, a nenhum mortal, a visão direta da vida após a morte. Naturalmente, não se pode incluir nessa afirmação os grandes místicos, que, voltando à dimensão do nosso vale de lágrimas, nem sempre puderam traduzir aquilo que experimentaram. Assim, é lícito dizer (ou melhor, advertir) que, em todo esse combate laico sobre os limiares da vida eterna, as pessoas em geral estão confinadas a permanecer dentro dos limites da fantasia, da imaginação.

E a razão é simples. Nenhum de nós seria capaz de perceber nada de material em cinco dimensões. Meter em nossa pequena capacidade receptiva algo de próprio da vida eterna é bem mais, infinitamente mais, que tentar conjugar um universo em cinco dimensões.

A imaginação não pode ser e não será jamais, por si mesma, uma fonte teológica.

A Teologia retira as suas informações de uma fonte que vem da eternidade, isto é, da Revelação, ou das fontes explicitamente autorizadas por ela. Ela parte de fontes oficiais e seguras.

A Teologia fala com certeza.

A afirmação da vida eterna domina toda a divina revelação: o pecado original obstrui o caminho à vida eterna; o Verbo se faz homem para reabrir a porta da vida eterna; o Reino, do qual se fala sobretudo no primeiro Evangelho, de Mateus, recolhe tudo dessa grande aventura divina e se faz perene na vida eterna; a moral é regulada por uma Lei e está sujeita a um julgamento que perderia todas as razões de ser sem a vida eterna; o prêmio está na vida eterna; o mérito existe em ordem à vida eterna. Essas não são opiniões, mas doutrina revelada.

As informações que temos sobre a vida eterna são escassas, mas suficientes para sustentar a grande fadiga de fazer-nos chegar dignamente. As afirmações relativas aos dois estados antitéticos da eternidade são breves, demarcadas por linhas que conduzem ao infinito. As informações são poucas para que possamos procurar praticar, com mais força, o exercício da Fé; as margens do mar infinito, que nos obrigam a entrar, dão força para a ascensão no mérito.

O grande respeito por esse complexo doutrinal consiste em não querer vesti-lo de fantasia para torná-lo mais humano. A imaginação se desgastaria, tentando receber coisas que ultrapassam as representações sensíveis.

As descrições da liturgia eterna no livro do Apocalipse são indicativas de um conteúdo que o intelecto pode receber apenas de algum modo; são imagens, com descrições adaptadas aos sentidos, para colocar a inteligência diante de coisas que não podem ser representadas (como é a matéria em relação aos Sacramentos). O respeito e a prudência guiam o caminho ao "além". Mas essa Teologia, quando acompanhada da reflexão orante e da contemplação, pode levar a níveis altíssimos, aos quais não podem chegar a imaginação ou a representação construída com elementos colhidos pelos sentidos... Os limites que se experimentam nessa investigação teológica são o testemunho de que a realidade, à qual devemos chegar na vida eterna, está bem além de nossa inteligência. Se fosse diferente disso (e não é), significaria que não esperamos nada muito maior do que aquilo que somos capazes de ver agora, ainda que simplesmente por representação intelectual... O mistério atesta a imensidão que nos espera!

Referências

  • Giuseppe Siri. L'aldilá tra fantasia e teologia. In: Renovatio, XIV (1979), 4, pp. 445-448.

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Cuidado se você não sofre tentações!
Espiritualidade

Cuidado se você não sofre tentações!

Cuidado se você não sofre tentações!

São melhores as amarguras e as provações da batalha, que preparam o Céu, à paz e à tranquilidade deste mundo, que pavimentam a estrada para o inferno.

Equipe Christo Nihil Praeponere6 de Novembro de 2015Tempo de leitura: 4 minutos
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Uma famosa oração, atribuída a Santo Agostinho, e rezada por quem se prepara para a Santa Escravidão a Nossa Senhora, possui uma frase digna de profunda meditação: “Ó Jesus, anátema seja quem não Vos ama. Aquele que não Vos ama seja repleto de amarguras."

Mas, desde quando os santos rezam a Deus pedindo que as pessoas fiquem amarguradas?

Qual é, afinal, o sentido dessas palavras de Agostinho, aparentemente tão severas?

O desejo desse doutor da Igreja é bem simples: que os homens amem a Deus!

E ninguém pense que se trata de uma petição qualquer. As palavras de Agostinho – que não fazem mais que ecoar as do próprio Cristo no Pai Nosso – são a coisa mais importante e valiosa que se pode pronunciar em favor daqueles que se ama. Pois, que bem maior podemos dar aos que amamos, senão Deus mesmo, o único que pode trazer felicidade ao nosso coração? Nenhum bem deste mundo pode saciar a nossa alma e, ainda que pudesse, a morte o levaria embora e o tiraria de nossas mãos... Deus, ao contrário, não só alegra os Seus nesta vida, como lhes reserva uma eternidade ao Seu lado.

A condição para gozar dessa bem-aventurança eterna é uma só: amar a Deus. Por isso, diz São Paulo: "Para aqueles que O amam, Deus preparou coisas que nenhum olho viu, nem ouvido ouviu e nem coração jamais pressentiu" (1 Cor 2, 9).

São muitas, todavia, as coisas que nos afastam dessa divina recompensa, e uma delas são as falsas alegrias do mundo, que substituem o lugar de Deus e nos fazem esquecer d'Ele.

É por isso que, no decorrer de nossa vida, somos assaltados por tantas dificuldades, tristezas, perdas e acidentes – aquilo que as pessoas comumente chamam de "desgraças", embora a única verdadeira desgraça nesta e na outra vida seja estar afastado de Deus. Todas essas coisas, se vivemos na graça da amizade com Cristo, não devem nos preocupar, já que "tudo concorre para o bem dos que O amam" (Rm 8, 28). Mas, se, ao contrário, vivemos na desgraça do pecado, sem desejo de nos emendarmos e mudarmos de vida, tudo o que nos acontece serve-nos como castigo.

Não nos impressionemos! Embora isso não se ouça mais dos púlpitos de nossas igrejas e certos pregadores cheguem a dizer o contrário, é verdade que Deus castiga. Às vezes, Ele permite que os males desta vida nos visitem, não por ódio ou maldade, mas justamente porque Ele nos ama e quer a nossa salvação! Afinal, qual é o pai que, vendo o seu filho afastar-se e correr velozmente em direção ao abismo, não prefere que ele se acidente, a vê-lo precipitar-se no fosso? Qual é o pai que, vendo o seu filho destruir-se no mundo das drogas, não procura intervir de alguma forma, mesmo que o remédio às vezes lhe doa?

É por isso que Santo Agostinho reza pedindo: "Aquele que não Vos ama seja repleto de amarguras."

Sim, Senhor, que sejamos repletos de amarguras, enquanto não Vos amarmos por inteiro! Que sejamos repletos de angústias e tristezas, só para que procuremos a única e verdadeira alegria de nossa alma, que sois Vós! Que percamos o que for preciso, só para ganhar a única e verdadeira riqueza, que sois Vós! Que morramos para este mundo e percamos a própria saúde, só para ganhar a única e verdadeira vida, que sois Vós!

E assim, em coro, unamo-nos a Santo Agostinho e a todos os santos de Deus, em ação de graças pelas cruzes e sofrimentos que nos visitam e nos convidam à conversão. Alegremo-nos verdadeiramente com as santas amarguras que o Senhor nos manda, porque também elas são um sinal do Seu grande amor por nós.

Ao contrário, comecemos a preocupar-nos quando, mesmo em nossa infidelidade e impenitência, tudo estiver aparentemente tranquilo e estivermos levando uma vida pacífica e confortável, sem as provações de Deus – nem as tentações do demônio [1]. É o terrível sinal de que já fomos comprados pelo mal e que, por isso, nem mesmo o diabo precisa nos tentar mais.

"Cuidado se você não sofre tentações!"advertia o Santo Cura de Ars. "Talvez você ache que as pessoas que são mais tentadas, são indubitavelmente, os beberrões, os provocadores de escândalos, as pessoas imodestas e sem vergonha que deitam e rolam na sujeira e na miséria do pecado mortal, que se enveredam por toda espécie de maus caminhos. Não, meu caro irmão! Não são essas pessoas!"

"As pessoas mais tentadas – continua São João Maria Vianney – são aquelas que estão prontas, com a graça de Deus, a sacrificar tudo pela salvação de suas pobres almas, que renunciam a todas as coisas que a maioria das pessoas buscam ansiosamente. E não é um demônio só que as tenta, mas milhões de demônios procuram armar-lhes ciladas."

Prefiramos, pois, as amarguras e tentações da batalha, que preparam o Céu, à paz e à tranquilidade deste mundo, pois são elas que pavimentam a estrada para o inferno.

Notas

  1. Para uma distinção teológica entre as "provações", que vêm de Deus, e as "tentações", que vêm do demônio, vale a pena ler o Comentário de Santo Tomás de Aquino ao Pai Nosso, n. 78-80, tratado do qual, aliás, se pode tirar grande proveito espiritual.

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