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‘Isso não é um bebê!’: a tragédia de crianças nascidas vivas durante abortos
SociedadePró-Vida

‘Isso não é um bebê!’: a tragédia de
crianças nascidas vivas durante abortos

‘Isso não é um bebê!’: a tragédia de crianças nascidas vivas durante abortos

"As laterais da sacola pulsavam, como se alguém estivesse respirando dentro dela. Então, o saco parou de se mover."

Sarah TerzoTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere23 de Abril de 2015Tempo de leitura: 9 minutos
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Quando uma representante da Planned Parenthood testemunhou contra um projeto de lei da Flórida que defendia bebês nascidos vivos durante abortos malsucedidos, ativistas pró-aborto reclamaram que este cenário não era real. Situações como essas, no entanto, têm acontecido desde que o aborto se tornou legal nos Estados Unidos. Um número considerável de funcionários de clínica de aborto, médicos e ex-aborteiros tem quebrado o silêncio e falado sobre essas crianças a quem foi negada assistência médica depois do parto.

No livro The Ambivalence of Abortion ["A Ambivalência do Aborto"], a autora pró-aborto Linda Bird Francke recolheu o depoimento de várias pessoas envolvidas na indústria do aborto. Ela cita uma enfermeira, que conta a seguinte história:

" Tivemos um salino (tipo de aborto) que nasceu vivo. Eu corri para a enfermaria e pus aquilo em uma encubadora. Chamei o pediatra para ajudar, mas ele se negou. 'Isso não é um bebê. É um aborto!', ele disse." [1]

Embora o destino da criança não tenha sido revelado, é praticamente impossível que ela tenha sobrevivido sem assistência médica às lesões fatais de um aborto salino.

Em um procedimento desse gênero, uma solução salina cáustica é injetada no útero materno, envenenando o líquido amniótico e matando o bebê no curso de algumas horas. A mulher entra em trabalho de parto para dar à luz um bebê morto. Esse método foi abandonado na década de 1990 pelo grande número de abortos malsucedidos e porque era perigoso para a mulher. Foi substituído pela D&E ("dilatação e evacuação"), um procedimento brutal pelo qual o bebê é dilacerado com um fórceps e extraído pedaço por pedaço. Uma técnica similar à do envenenamento salino, que ainda é realizada hoje, consiste na injeção de digoxina diretamente no coração do feto. A substância "amolece" o cadáver, tornando mais fácil o ato de rasgá-lo e retirá-lo do útero. Abortos por digoxina são geralmente feitos nos últimos dois trimestres e, às vezes, também produzem nascidos vivos.

Em In Necessity and Sorrow: Life and Death in an Abortion Hospital ["Na Necessidade e no Sofrimento: Vida e Morte em um Hospital de Aborto"], Magda Denes, outra autora pró-aborto, relata o testemunho de Teresa Etienne, identificada como funcionária de uma clínica:

"A única vez em que pensei sobre aborto em termos de religião foi quando vi alguns fetos e um tinha nascido vivo. Eu realmente vi um deles, até senti a batida do coração. Eu o toquei. Parecia um bebê, mas era muito pequeno. Era realmente lindo. Muito calmo. Na verdade, estava começando a morrer. As batidas do coração estavam diminuindo. Ele estava indo para o Hospital Bellevue e um rapaz dizia: 'Eu não sei porque temos que levar isso pra lá, já que vai morrer de qualquer jeito. Por que passar por todo esse aborrecimento?" [2]

Um caso no qual um bebê nascido vivo foi morto por ação direta do aborteiro veio à luz quando funcionários de uma clínica revelaram o que aconteceu. Nas palavras do autor pró-vida Mark Crutcher:

"De acordo com cinco empregados de uma clínica de aborto, o aborteiro texano John Roe 109 (pseudônimo) estava realizando um aborto quando uma menina do tamanho de um pé (cerca de 30 cm) e com cabelo castanho claro nasceu. Eles confirmaram que o bebê se enrolava na mão de Roe e tentava respirar, enquanto ele segurava a placenta sobre o seu rosto.

Então, ele a jogou em um balde de água e vários empregados confirmaram que bolhas subiram até a superfície. Eles prosseguiram dizendo que Roe, então, 'soltou o feto dentro de um saco plástico... que foi amarrado e colocado no fundo da sala de operações. As laterais da sacola pulsavam, como se alguém estivesse respirando dentro dela. Então, o saco parou de se mover.' Uma testemunha diz que estava segurando o saco no qual Roe colocou a criança e, depois, pôs a sacola no freezer onde os fetos abortados eram armazenados." [3]

Aborteiros descrevem as suas experiências

No artigo Pro-Choice 1990: Skeletons in the Closet ["Pró-Escolha 1990: Esqueletos no Armário", literalmente], o ex-aborteiro Dr. David Brewer descreve a sua primeira participação em um procedimento de aborto tardio. A operação foi feita por histerotomia, um tipo de aborto no qual o bebê é tirado da barriga da mulher, de modo similar a uma secção cesariana.

"Eu me lembro de ver o bebê se movendo, debaixo das membranas da bolsa, assim que a incisão cesariana foi feita, antes que o médico a rompesse. Veio-me à mente: 'Meu Deus, aquilo é uma pessoa'. Então, ele rompeu a bolsa. E quando o fez, é como se viesse uma dor ao meu coração, assim como quando eu vi o primeiro aborto por sucção. Então, ele tirou o bebê, e eu não podia tocá-lo... Não podia mais ser um assistente. Apenas fiquei ali e a realidade do que estava acontecendo finalmente começou a entrar em meu cérebro e coração endurecidos.

Eles levaram aquele bebezinho que fazia pequenos sons e se movia e chutava, e o colocaram naquela mesa, em uma fria tigela de aço inoxidável. Enquanto fechávamos a incisão no útero e finalizávamos a cesariana, a todo momento eu conferia e via aquele pequeno ser se movendo naquela tigela. E ele, é claro, chutava e se movia cada vez menos com o passar do tempo. Lembro-me de ficar pensando e olhando para o bebê quando terminamos a cirurgia e ele ainda estar vivo. Era possível ver o seu peito se movendo, o seu coração batendo e o bebê tentando dar um pequeno suspiro. Aquilo realmente me atingiu e começou a me ensinar sobre o que o aborto realmente era." [4]

Brewer ainda realizaria mais abortos antes de eventualmente sair da indústria e se tornar um interlocutor pró-vida. Mais tarde, na sua carreira profissional, o mesmo David Brewer presenciou o drama de outro bebê nascido vivo depois de um aborto salino:

"Uma noite, uma mulher deu à luz e eu fui chamado a comparecer e examiná-la porque estava fora de controle. Entrei na sala e ela estava caindo aos pedaços, em um colapso nervoso, gritando e se debatendo. As enfermeiras estavam incomodadas porque não conseguiam trabalhar e do mesmo modo todos os outros pacientes, porque essa mulher estava gritando. Quando entrei, vi o seu pequeno bebê vítima de um aborto salino. Ele tinha nascido e ficou chutando e se movendo por um curto espaço de tempo, até finalmente morrer com aquelas terríveis queimaduras – porque a solução salina entra nos pulmões e os queima também."

O doutor Paul Jarrett, outro ex-aborteiro, conta a seguinte história:

"Como a solução salina hipertônica era muito tóxica se, ao invés do saco amniótico, fosse injetada na parede do útero, havia uma constante procura pela droga perfeita. A prostaglandina tornou-se agora a droga da vez, mas um dos primeiros experimentos era com ureia hipertônica. A maior desvantagem do seu uso era o problema dos nascidos vivos. Lembro-me de usar a solução em uma paciente que os residentes da psiquiatria nos trouxeram de sua clínica (...). Nunca esquecerei quando tirei o seu bebê de cerca de 900 gramas e ouvi os seus gritos: 'Meu bebê está vivo, meu bebê está vivo!'. Ele sobreviveu por vários dias."

Outros médicos testemunham o horror

Um médico que cuida de bebês prematuros descreve experiências que teve enquanto ainda fazia residência. Ele ajudou um médico a realizar um aborto terapêutico por histerotomia – técnica na qual o útero gravídico é removido como forma de tornar a pessoa estéril e, ao mesmo tempo, realizar um aborto.

"Eu já havia ajudado em duas outras histerotomias, uma por câncer no endométrio e outra por causa de um tumor benigno. Tinha sido ensinado durante os dois primeiros casos a 'sempre abrir o útero e examinar o seu conteúdo' antes de mandar a amostra para a patologia. Então, depois que o professor retirou o útero, eu – ansioso por mostrar-lhe que já tinha aprendido o procedimento padrão – perguntei-lhe se queria que eu o abrisse, ao que ele respondeu: 'Não, porque o feto pode estar vivo e então estaríamos diante de um dilema ético.'" [5]

Pouco tempo depois, o mesmo médico presenciou com os seus próprios olhos um bebê nascido vivo depois de um aborto:

"Algumas semanas depois, agora no departamento de obstetrícia, eu recuperei uma bolsa de fluído intravenoso que o médico residente havia pedido. O material era para ministrar prostaglandina, uma droga que induz o útero a contrair e expelir o que tem. O paciente fez o mínimo contato visual conosco. Algumas horas depois, eu vi o feto abortado ofegante e movendo as suas pernas em uma arrastadeira, que depois foi coberta com um pano." [5]

Então, ele descreve um aborto por nascimento parcial realizado sem sucesso em um bebê com hidrocefalia. Primeiro, ele conta o modo como o aborto seria realizado:

"O residente descreveu como ia tirar o corpo do bebê e, então, quando a cabeça estivesse presa, inserir o trocarte – um longo instrumento de metal com uma ponta afiada – através da base do crânio. Durante a fase final desse procedimento, ele indicou que moveria o tubo de sucção várias vezes de um lado ao outro do tronco cerebral, para garantir que o bebê nasceria morto. Vários dos pediatras residentes, incrédulos, disseram: 'Você está brincando' ou 'Você está inventando isso'..." [5]

Depois, descreve o resultado da operação:

"Depois, naquela tarde, o obstetra residente realizou o procedimento, mas, infelizmente, a criança nasceu com o coração batendo e alguns suspiros fracos e ofegantes. Então, o bebê foi trazido à UTI neonatal: era uma criança um pouco prematura, que pesava em torno de 2 quilos. Sua cabeça, em si, estava dilacerada. A cama estava suja de sangue e drenagem. Fiz o meu exame (nenhuma outra anomalia detectada), então anunciei a morte do bebê cerca de uma hora depois." [5]

O Dr. Ron Paul, que já foi candidato do Partido Republicano à presidência dos EUA, contou a seguinte história em uma propaganda de campanha:

"Aconteceu, uma vez, de eu entrar em uma sala de operações onde estavam realizando um aborto em uma gravidez avançada. Eles retiraram um pequeno bebê que era capaz de chorar e respirar, colocaram-no em um balde, puseram-no no canto da sala e fingiram que ele não estava lá. Desci pelo pátio de entrada e um bebê tinha nascido prematuro – um pouco maior que o bebê que tinham colocado no balde – e eles queriam salvar esse bebê. Ali, eram em torno de 10 médicos fazendo todo o possível para salvar a vida daquela criança.

Quem somos nós para decidir, para escolher e descartar uns e lutar para salvar a vida de outros? A menos que solucionemos isso e entendamos que a vida é preciosa e que devemos protegê-la, não seremos capazes de proteger a liberdade."

Esses incidentes são apenas a ponta do iceberg. Não se sabe exatamente, ao longo de todos esses anos, quantas crianças nasceram vivas e morreram silenciosamente – ou foram deixadas para morrer – sem que ninguém revelasse o que aconteceu a elas. 

Referências

  1. Linda Bird Francke. The Ambivalence of Abortion. New York: Laurel, 1982. p. 53.
  2. Magda Denes. In Necessity and Sorrow: Life and Death in an Abortion Hospital. New York: Basic Books, 1976. p. 39.
  3. In Mark Crutcher. Lime 5: Exploited by Choice. Denton, Texas: Life Dynamics Incorporated, 1996.
  4. David Kuperlain; Mark Masters. Pro-Choice 1990: Skeletons in the Closet. New Dimensions, October 1990.
  5. Hanes Swingle. A Doctor's Grisly Experience With Abortion. The Washington Times, July 23, 2003. p. A-18.

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O abraço da morte à nossa sociedade
Sociedade

O abraço da morte à nossa sociedade

O abraço da morte à nossa sociedade

A cultura da morte e seus ataques internos e externos a todos os fundamentos da nossa civilização

Equipe Christo Nihil Praeponere22 de Abril de 2015Tempo de leitura: 3 minutos
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Inicialmente, quando se fala de cultura da morte, a primeira coisa que salta aos olhos de quem se defronta com tal expressão é o debate acerca da legalização do aborto, ou seja, o embate entre aqueles que são favoráveis à vida e aqueles que são favoráveis ao direito de decidir, como costumeiramente é conhecida a opção pelo aborto. A realidade, porém, é muito mais abrangente, pois as ações desencadeadas pela cultura que fomenta a morte não se restringem a este aspecto nefasto de suas atividades. Já há alguns anos, os reais objetivos de tal cultura têm assumido contornos cada vez mais claros diante de nossos olhos, pois parece haver um esforço contínuo para introduzir, de forma às vezes ostensiva às vezes amenizada, uma semente de destruição que acabaria por minar o edifício que sustenta a nossa civilização.

Identificar a cultura da morte com a "indústria" ou esforços para a disseminação do aborto e de todos os métodos contraceptivos não chega a ser um equívoco, mas, não é uma visão completa daquilo que ela verdadeiramente almeja. Quando se quer destruir um edifício para levantar uma nova construção, dois caminhos podem ser tomados: o da explosão, ou seja, algo que venha de fora e acabe por arrasar toda a estrutura existente; ou o da implosão, quando se destrói a construção antiga a partir de dentro, fazendo com que ela mesma venha abaixo porque perdeu a força para se sustentar.

A cultura da morte também age assim. Em alguns momentos parece desferir ataques explosivos, que são externos, ostensivos e bastante claros, pois têm o objetivo de chocar, de desestabilizar para que, por meio do alarde provocado, as situações por ela defendidas ganhem respaldo ou aceitação na sociedade. Tal é a tática que muitas vezes se utiliza para as questões relativas ao aborto, especialmente no que diz respeito a tratá-lo como se fosse simplesmente uma decisão entre ter ou não um filho, como se não houvesse outra realidade a ser implicada nesta situação a não ser o corpo da própria mulher e a decisão de fazer ou não algo com este corpo que lhe pertence, sem levar em consideração, em nenhum momento, a existência de mais uma vida, ainda no ventre materno, que deveria gozar de toda a proteção possível por parte da sociedade.

O outro caminho, não menos danoso, porém muito mais sutil e ardiloso, é o caminho da implosão, que consiste num ataque contínuo, sistemático, lento e progressivo contra tudo aquilo que se constituiu num alicerce para a nossa sociedade. Alvo deste movimento implosivo são os três pilares da civilização ocidental: a filosofia grega, o direito romano e a moral judaico-cristã. No prefácio do livro O Calvário e a Missa, o venerável Fulton J. Sheen salienta que a Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo foi erigida num ponto de convergência, numa encruzilhada entre estas três grandes civilizações, para que seu gesto redentor estendesse a universalidade da Redenção também sobre essas esferas da sociedade.

Hoje, o alvo da cultura da morte é a tentativa de implodir, a partir de dentro, a estrutura que sustenta a sociedade humana, baseada nestes três alicerces: filosofia, direito e moral. A filosofia se torna cada vez mais instrumentalizada, como se fosse uma justificativa para determinados comportamentos ao invés de se constituir numa autêntica busca pela verdade, lançando suas artimanhas também numa nova abordagem do processo educacional, que não seria nada mais do que mera propaganda ideológica, esquecendo-se completamente de seu objetivo de ser um caminho para se alcançar a sabedoria; o direito, por meio da negação da existência de um direito natural e na sua utilização para legitimar novos comportamentos e criminalizar a oposição aos mesmos; a moral que, ao sofrer toda espécie de crítica e de racionalização, é substituída por um novo padrão no qual a família e toda a sociedade são vistas de uma maneira totalmente nova, numa inversão de valores e desprezo pelas instituições tradicionais.

A cultura da morte, a partir destas poucas constatações, não se refere simplesmente ao direito ou não ao aborto ou à militância para que o mesmo se constitua num direito. Ela tem um objetivo muito maior. Quer colocar abaixo toda a estrutura que sustenta a nossa civilização e não deixará de empreender esforços para destruir a filosofia, o direito e a moral, para então levantar o seu novo edifício, uma nova sociedade, verdadeira quimera que é uma prefiguração dos piores pesadelos que um homem poderia imaginar. O abraço a que ela convida o homem não é apenas dirigido a um aspecto de sua vida, isto é, a seu pensamento, seu comportamento, ou às relações que estabelece na sociedade e, principalmente, na família. A cultura da morte quer, na realidade, abraçar o homem todo, em todas as suas dimensões, e não somente a um indivíduo, mas a todos os homens.

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Cardeal Brandmüller: “Uma mudança do dogma é impensável”
Doutrina

Cardeal Brandmüller:
“Uma mudança do dogma é impensável”

Cardeal Brandmüller: “Uma mudança do dogma é impensável”

“Quem conscientemente pensa uma mudança do dogma ou insistentemente demanda isso, é um herege, ainda que use a púrpura romana”, declarou o cardeal

LifeSiteNews.comTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere20 de Abril de 2015Tempo de leitura: 7 minutos
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O Cardeal Walter Brandmüller tem sido uma das principais vozes críticas às propostas circulantes no Sínodo Extraordinário sobre a Família, que correm o risco de subverter a doutrina católica sobre os Sacramentos e sobre a moral. Ele foi um dos cinco cardeais a contribuir com o livro Remaining in the Truth of Christ ["Permanecer na Verdade de Cristo"], que condenou a proposta do Cardeal Walter Kasper de liberar a Comunhão àqueles que vivem em uniões sexuais irregulares.

Eis a entrevista concedida pelo pelo Cardeal Brandmüller ao Dr. Maike Hickson, do LifeSiteNews.

LifeSiteNews: O senhor poderia apresentar mais uma vez para os nossos leitores, de modo claro, qual o ensinamento da Igreja Católica a respeito do matrimônio e da sua indissolubilidade, como tem sido constantemente ensinado através dos séculos?

Cardeal Brandmüller: A resposta pode ser encontrada no Catecismo da Igreja Católica, dos parágrafos 1638 a 1642.

"Do Matrimônio válido origina-se entre os cônjuges um vínculo que, por sua natureza, é perpétuo e exclusivo; além disso, no matrimônio cristão, os cônjuges são robustecidos e como que consagrados por um sacramento especial aos deveres e à dignidade de seu estado.

O consentimento pelo qual os esposos se entregam e se acolhem mutuamente é selado pelo próprio Deus. De sua aliança se origina também diante da sociedade uma instituição firmada por uma ordenação divina. A aliança dos esposos é integrada na aliança de Deus com os homens: O autêntico amor conugal é assumido no amor divino.

O vínculo matrimonial é, pois, estabelecido pelo próprio Deus, de modo que o casamento realizado e consumado entre batizados jamais pode ser dissolvido. Este vínculo que resulta do ato humano livre dos esposos e da consumação do casamento é uma realidade irrevogável e dá origem a uma aliança garantida pela fidelidade de Deus. Não cabe ao poder da Igreja pronunciar-se contra a disposição da sabedoria divina."

(...)

LifeSiteNews: A Igreja pode admitir à Sagrada Comunhão casais recasados, mesmo que o seu segundo casamento não seja válido aos olhos da Igreja?

Cardeal Brandmüller: Isso seria possível se esses casais tomassem a decisão de viver no futuro como irmãos. Essa solução é especialmente válida quando o cuidado pelas crianças não permite uma separação. A decisão por tal caminho seria uma expressão convincente de penitência pelo ato passado e prolongado de adultério.

LifeSiteNews: A Igreja pode lidar com o tema do matrimônio de uma maneira pastoral que seja diferente do seu ensino constante? Pode a Igreja por si mesma mudar a sua doutrina sem cair, ela mesma, em heresia?

Cardeal Brandmüller: É evidente que a prática pastoral da Igreja não pode permanecer em oposição à sua doutrina imutável, muito menos ignorá-la. Da mesma maneira, um arquiteto poderia, talvez, construir uma ponte maravilhosa. Se não presta atenção às leis da engenharia estrutural, no entanto, ele corre o risco de fazer desmoronar a sua construção. Assim, também, toda prática pastoral, para não falhar, deve seguir a Palavra de Deus. Uma mudança da doutrina ou do dogma é impensável. Quem, porém, conscientemente o pensa, ou insistentemente demanda isso, é um herege – ainda que use a púrpura romana.

LifeSiteNews: Toda essa discussão sobre a admissão dos recasados à Santa Eucaristia não é também uma expressão do fato de que muitos católicos não acreditam mais na presença real e, de certa maneira, acham que recebem na Sagrada Comunhão apenas um pedaço de pão?

Cardeal Brandmüller: De fato, há uma insolúvel contradição interna em uma pessoa que quer receber o Corpo e Sangue de Cristo e unir-se a Ele, quando, ao mesmo tempo, despreza conscientemente o Seu mandamento. Como isso pode dar certo? São Paulo diz sobre esse problema: "Quem come e bebe indignamente [o Corpo e Sangue do Senhor], come e bebe a própria condenação" (1 Cor 11, 27). Mas, você está certo. Muitos católicos sequer acreditam na presença real de Cristo na hóstia consagrada. Qualquer um pode perceber isso na maneira como muitos – inclusive sacerdotes – passam em frente ao sacrário sem fazer uma genuflexão.

LifeSiteNews: Por que existe nos dias de hoje um ataque tão forte, dentro da Igreja, à indissolubilidade do matrimônio? Uma possível resposta poderia ser a de que o espírito de relativismo entrou na Igreja, mas deve haver mais razões. O senhor poderia citar algumas? Não são todas essas razões um sinal da crise de fé dentro da própria Igreja?

Cardeal Brandmüller: É evidente, se certos padrões morais, que eram aceitos por todas as pessoas, sempre e em todos os lugares, não são mais reconhecidos, então, cada um faz de si mesmo a sua própria norma moral. Isso tem a consequência de que as pessoas fazem o que agrada a elas. Acrescente-se a isso a abordagem individualista de vida que a reputa como uma chance única para a autorrealização – e não como uma missão do Criador. É evidente que tais atitudes são expressão de uma perda de fé profundamente arraigada.

LifeSiteNews: Nesse contexto, é possível afirmar que se falou muito pouco nas últimas décadas sobre a doutrina da queda e do pecado original. A impressão dominante era a de que o homem seria bom em tudo. Na minha visão, isso levou a uma atitude laxa em relação ao pecado. Agora, que nós vemos o resultado dessa atitude de laxismo – uma explosão de condutas desumanas em todas as áreas possíveis da vida humana –, isso não deve ser uma razão para a Igreja ver que a doutrina sobre a queda foi confirmada e para, por conta disso, proclamá-la de novo?

Cardeal Brandmüller: De fato, isso é verdade. O tópico "pecado original", com as suas consequências – a necessidade da Redenção através do sofrimento, morte e ressurreição de Cristo – tem sido largamente suprimido e esquecido há um bom tempo. E, no entanto, não se pode entender o curso do mundo – e da própria vida pessoal – sem essas verdades. É inevitável que essa negligência das verdades essenciais leve a um estilo de vida imoral. Você está certo: deve-se finalmente pregar de novo sobre este tópico, e com claridade.

LifeSiteNews: Os elevados números de abortos, especialmente no Ocidente, têm feito um grande estrago, não somente pelos bebês que são mortos, mas também pelas mulheres (e homens) que decidem matar os seus filhos. Não deveriam os prelados da Igreja tomar uma posição firme a respeito dessa terrível verdade e tentar mover as consciências desses homens e mulheres, também em atenção à sua própria salvação? Não tem a Igreja o dever de defender com insistência esses pequeninos que não podem se defender por si mesmos, porque sequer lhes é permitido viver? "Deixai vir a Mim as criancinhas..."

Cardeal Brandmüller: Aqui se pode dizer que a Igreja, especialmente sob o governo dos últimos papas, bem como sob o pontificado do Santo Padre Francisco, não deixou nenhum espaço para dúvida quanto ao caráter abominável do assassinato das crianças não nascidas no ventre. Isso não deixa nenhuma dúvida também a todos os bispos. Outra questão, porém, é em que circunstâncias e de que forma o ensinamento da Igreja tem sido testemunhado e apresentado na esfera pública. Aqui é onde a hierarquia certamente pode fazer mais. Basta pensar na participação de cardeais e bispos em marchas pró-vida.

LifeSiteNews: Quais passos o senhor recomendaria para a Igreja fortalecer o chamado à santidade e mostrar o caminho para alcançá-la?

Cardeal Brandmüller: Certamente, cada um deve testemunhar a fé de modo que se encaixe em sua situação particular. De que forma isso pode acontecer, depende das circunstâncias específicas. Abre-se aí todo um campo para a criatividade.

LifeSiteNews: O que o senhor tem a dizer sobre as recentes declarações do bispo Franz-Josef Bode, de que a Igreja Católica deveria se adaptar cada vez mais às "realidades da vida" das pessoas de hoje e ajustar desse modo o seu ensinamento moral? Estou certo de que o senhor, como historiador da Igreja, tem diante de seus olhos outros exemplos da história da Igreja, nos quais ela foi pressionada de fora a mudar a doutrina de Cristo. Poderia mencionar alguns desses exemplos, e como a Igreja respondeu, no passado a tais ataques?

Cardeal Brandmüller: É absolutamente claro, e também não é novidade, que a proclamação do ensinamento da Igreja deva se adaptar às situações da vida concreta da sociedade e dos indivíduos, para que a mensagem seja ouvida. Mas isso se aplica somente ao modo de proclamação, e não a todo o seu conteúdo inviolável. Uma adaptação da doutrina moral não é aceitável. "Não vos conformeis a este mundo" (Rm 12, 2), diz o Apóstolo São Paulo. Se o bispo Bode ensina algo diferente, ele se acha em contradição com o ensinamento da Igreja. Será que ele está consciente disso?

LifeSiteNews: Está permitido à Igreja Católica na Alemanha seguir os seus próprios caminhos na questão da admissão dos recasados à Santa Eucaristia e, portanto, decidir independentemente de Roma, como declarou o Cardeal Reinhard Marx após o recente encontro da Conferência Episcopal Alemã?

Cardeal Brandmüller: As bem conhecidas afirmações do Cardeal Marx estão em contradição com o dogma da Igreja. Elas são irresponsáveis sob um ponto de vista pastoral, porque expõem os fiéis à confusão e a dúvidas. Se ele pensa que pode tomar nacionalmente um caminho independente, ele coloca a unidade da Igreja em risco. Resta dizer: o padrão obrigatório para todo o ensino e prática da Igreja são suas doutrinas claramente definidas.

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‘Este bebê está vivo!’: a emocionante história da pequena Hope
Pró-Vida

‘Este bebê está vivo!’: a emocionante
história da pequena Hope

‘Este bebê está vivo!’: a emocionante história da pequena Hope

Como age a indústria da morte diante de um aborto malsucedido? Qual o destino dos bebês que milagrosamente sobrevivem à crueldade dos seus agressores?

Sarah TerzoTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere17 de Abril de 2015Tempo de leitura: 4 minutos
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Em 2013, o estado da Flórida, nos Estados Unidos, debateu um projeto de lei que previa assistência médica a crianças nascidas vivas durante procedimentos malsucedidos de aborto. Uma representante da Planned Parenthood — a maior rede de abortos norte-americana — foi escolhida para responder por que a organização se opunha a essa legislação. Em um vídeo chocante, ela diz que a decisão sobre o que fazer com a criança, ainda que esteja viva e respirando, deveria ser do médico e da mulher que escolheu o aborto. Em outras palavras, deveria ser permitido matar aquele bebê.

A ideia de que, uma vez marcado para o aborto, um bebê deve ser morto, esteja dentro ou fora do útero, é chocante para muitas pessoas. Mas, quão comum é o fenômeno de crianças nascidas vivas depois de procedimentos de aborto? Não se sabe exatamente, em termos estatísticos, com que frequência isso acontece. Afinal, é conveniente que maior parte desses casos nunca venha à luz. Mas um número suficiente deles foi documentado. É o caso da menina Hope, cuja história chocou os Estados Unidos no final do século XX.

Em 1999, Hope nasceu, apesar de sua mãe estar no meio de um procedimento de aborto.

O aborteiro, Dr. Martin Haskell, estava realizando um aborto por nascimento parcial ("partial birth-abortion", em inglês) em uma jovem mulher. Em um procedimento desse tipo, assim como nos métodos mais usados de dilatação e evacuação, o colo do útero da mulher é dilatado com as laminárias – pequenas lâminas que expandem gradualmente. Então, ela vai para casa. A morte e retirada do feto, propriamente ditas, são feitas um ou dois dias depois da introdução das lâminas, quando elas tiveram tempo suficiente para expandir.

Nesse caso particular, depois de deixar a clínica, a mulher começou a sentir cólicas e foi à unidade de emergência no Centro Médico Bethesda North, em Cincinnati, Ohio, onde ela deu à luz um bebê vivo, do sexo feminino. De acordo com um artigo publicado em The Southeast Missourian, o bebê foi colocado dentro de um prato e posto à parte para ser jogado fora. Quando mandaram a enfermeira levar "aquilo" para o laboratório, Shelly Lowe viu o bebê ofegante e se movendo, e disse: "Eu não consigo fazer isso... Este bebê está vivo".

Os médicos se negaram a dar qualquer assistência médica ao bebê, que era estimado em pelo menos 22 semanas. Lowe deu à criança o nome de Hope e segurou a menina, cobrindo-a com um cobertor e cantando para ela, até que ela morresse. "Eu queria que ela se sentisse querida. Ela era uma recém-nascida perfeitamente formada, entrando prematura no mundo, sem que pudesse optar por outro caminho."

A menina Hope sobreviveu por três horas, enquanto Lowe a segurava e outras enfermeiras a observavam. Os funcionários do hospital que cuidaram do bebê relatam sentimentos constantes de tristeza e luto, mas também de paz — "paz porque ela foi confortada e acalentada até que desse o seu último suspiro", conta a enfermeira Connie Boyles. "Eu sentei e a segurei. Achava que ninguém deveria morrer sozinho", disse Lowe, à época, durante uma coletiva de imprensa com grupos pró-vida locais. "Nós a batizamos. Dei-lhe o nome de Hope ("esperança", em inglês) porque eu esperava que ela conseguisse sobreviver".

O certificado de óbito do bebê reforça a tragédia de sua breve existência. A causa da morte foi identificada como "prematuridade extrema em consequência de aborto induzido", que é listada como um modo "natural" de morte. Não lhe foi dado nenhum nome oficial e, ao fim de tudo, o corpo da criança — cuja existência foi resumida em duas simples expressões: "nunca se casou" e "nunca trabalhou" — foi cremado.

À época, as enfermeiras que trouxeram à tona a história de Hope foram criticadas e rejeitadas pela comunidade médica por suas declarações. Lowe enfrentou tanta perseguição, que foi quase que obrigada a aposentar. Grupos abortistas ("pro-choice", em inglês) também atacaram as funcionárias em comunicados à imprensa. "Nós estamos extremamente preocupados com a negligência exibida pelas empregadas que foram à mídia com essa história", declarou, na ocasião, Vicki Saporta, diretora executiva da Federação Nacional do Aborto ("National Abortion Federation", em inglês). "Nenhuma mulher deveria temer que a sua experiência médica pessoal fosse usada por políticos e organizações anti-escolha como instrumento para promover uma agenda política".

É digno de nota que nenhum dos artigos que contaram a história da pequena Hope revelou o nome da mulher que cometeu o aborto. Em outras fontes jornalísticas, o incidente chegou a ser descrito como "o aborto espontâneo de um feto inviável de 22 semanas".

Uma porta-voz da Planned Parenthood declarou à Associated Press que estava preocupada porque "o que parecia uma situação muito difícil e trágica estava sendo usado para propósitos políticos". A organização abortista não especificou se a tragédia estava no fato de Hope ter morrido após ter nascido viva ou no fato mesmo de ela ter nascido viva — embora você, leitor, possa supor muito bem qual seja a resposta. No fim das contas, se aquele aborto tivesse tido sucesso, Hope teria morrido sem que ninguém tomasse as suas dores ou sequer se preocupasse com a sua existência. Eis a cruel verdade por trás de todo o palavrório de "escolha" e "direitos da mulher": tudo não passa de uma grande farsa para disseminar a indiferença e promover a morte.

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