| Categoria: Sociedade

Qual o problema de ser “bela, recatada e do lar”?

Polêmica que causou alvoroço nas redes sociais é uma ótima oportunidade para refletirmos sobre os valores que temos transmitido aos nossos filhos.

Reportagem publicada esta semana na revista Veja causou alvoroço nas redes sociais, depois de descrever Marcela Temer, a esposa do vice-presidente da República, como uma mulher "bela, recatada e 'do lar'". Aparentemente, os adjetivos não foram bem aceitos pelo público na Internet. Alguns veículos de comunicação chamaram a matéria de "machista" e "intolerante".

Agora abstraiam, por um momento, da figura de Marcela Temer, do conteúdo do artigo e de qualquer conotação política que ele tenha. O verdadeiro debate aqui é de natureza moral. Qual é, no fim das contas, o problema de uma mulher ser ou mesmo identificar-se como "recatada, modesta e do lar"? De onde surgem tantas reações negativas a esse perfil?

A resposta para essa pergunta deve ser encontrada no tsunami cultural que tem devastado o mundo todo, principalmente a partir da década de 70. Tudo começou com uma simples "onda" (alguns sutiãs queimados aqui, outros livros de protesto acolá), mas, graças à atuação da mídia, as coisas tomaram proporções catastróficas. Até algum tempo atrás, ser "bela, recatada e do lar" não só era uma característica comum às mulheres, como toda a sociedade estava projetada para formar as mulheres deste modo, seja dentro da família, seja dentro das escolas. "Modéstia", "recato", "pudor" e "maternidade" nem sempre foram xingamentos. Antes de as pessoas enlouquecerem, eram todas metas que os pais almejavam para a educação das suas filhas. Protestos para usar shortinho nas escolas eram impensáveis há alguns anos.

Por que o quadro social e familiar mudou tanto?

As feministas dirão que os tempos são outros, porque as mulheres se emanciparam. Os fatos mostram, no entanto, que os tempos são péssimos, porque as mulheres, na verdade, se deixaram manipular. E é fácil demonstrar como.

Olhemos, em primeiro lugar, para o que aconteceu esta semana nas redes. Não é curioso que os protestos ao perfil "bela, recatada e do lar" tenham viralizado com tanta rapidez, ganhando espaço até mesmo nos veículos informativos de grande circulação? — Vejam, dizem as notícias, trata-se de mulheres esclarecidas, que não se deixam enganar pelo discurso do patriarcado opressor e misógino! Elas resistem à manipulação! — A pergunta que deve ser feita é: que grande mérito existe em "resistir" a um discurso com o qual já ninguém está mais de acordo? Qual a grande coisa em criticar "vestidos na altura dos joelhos" quando quase nenhuma mulher os usa? O que há de "resistência" em falar mal das donas de casa, quando o que as mulheres querem é justamente ficar longe de casa? É muito fácil falar de "empoderamento" quando se é carregado pela correnteza de um rio. Só uma coisa verdadeiramente viva é capaz de nadar contra a corrente.

Dizendo mais claramente, não é preciso ter coragem nenhuma para usar um shorts curto ou uma blusa decotada quando está todo o mundo fazendo o mesmo. Ousadia quem tem é a mulher que, em tempos de pouco tecido, escolhe cobrir o seu corpo com respeito; que, em tempos de ódio à maternidade, escolhe ter uma família numerosa; que, em tempos de depravação geral, escolhe viver o recato e a decência. Essa é uma mulher de bravura, que não adere simplesmente às "modas" do momento.

Quanto à ideologia por que morre de amores a nossa elite cultural, um olhar acurado às suas raízes justifica ainda mais o uso do termo "manipulação". O movimento feminista adora falar de "libertação sexual" e de "empoderamento da mulher", apontando o dedo à Igreja, à imagem da Virgem Maria e à família burguesa, como se fossem eles os grandes inimigos da emancipação feminina.

A verdade é que nada escraviza tanto as mulheres quanto o feminismo moderno. O feminismo que lhes diz que não serão felizes enquanto não tiverem uma carteira de trabalho e não se sujeitarem a seus patrões (para substituir os maridos de que elas querem prescindir). O feminismo que lhes diz que não serão livres enquanto não transformarem os seus úteros em túmulos (para que não sacrifiquem a sua "realização profissional"). O feminismo que lhes diz que não serão iguais enquanto não superarem os homens em imoralidade e em depravação. E, por fim, o feminismo que lhes diz que não deveriam sequer ter a opção de ficar em casa para cuidar dos próprios filhos, porque isso ajudaria a perpetuar "os mitos da família, da maternidade e do instinto materno". Palavras da ativista Simone de Beauvoir, documentadas para quem as quiser ler.

Na verdade, o grande problema de uma "mulher, recatada e do lar" — seja quem for, desde Nossa Senhora a uma humilde mãe de família — é que ela lembra às pessoas do nosso tempo o fracasso da educação que temos recebido e repassado aos nossos filhos e filhas. Nós deixamos de acreditar no amor e já estamos convencidos de que não é possível viver senão movidos por nossas carências afetivas e impulsos sexuais desordenados.

Educar uma pessoa — qualquer pessoa, seja mulher, seja homem — para a virtude, para o respeito ao próprio corpo e ao próximo, é tarefa difícil, que exige paciência, dedicação e perseverança. Mas nós, pelo visto, não queremos nada disso. Estamos satisfeitos com nossa medíocre "felicidade animal", com nosso desleixo generalizado, com nossa falta de amor próprio.

Enquanto tivermos alma, no entanto, o profundo vazio de nosso coração continuará clamando bem alto para que voltemos à casa do Pai. E sentirmo-nos orgulhosos por comer a lavagem dos porcos só vai aumentar ainda mais a nossa miséria.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Leia também: Qual o problema de ser "bela, recatada e do lar"? (II).

Sugestões

| Categoria: Sociedade

O feminismo e os seus tabus

Mulheres são vítimas de violência sexual e doméstica? Verdade. Devem lutar por respeito e dignidade? De acordo. O aborto resolverá esses problemas? Mentira.​

A repercussão negativa que o vídeo Meu corpo, minhas regras causou na opinião pública evidencia mais uma vez a enorme rejeição do povo brasileiro à legalização do aborto. As últimas pesquisas sobre o assunto apontam para um crescimento vertiginoso no número dos defensores da vida — o que tem se revelado a principal "pedra no sapato" das fundações internacionais, cujos projetos de controle populacional acabam sempre barrados.

É de conhecimento público a pressão que a ONU e outras instituições — Ford, Rockfeller, MacArthur etc. — fazem para legalizar o aborto em países subdesenvolvidos. Os motivos para essa insistente militância são diversos e levaria um tempo enorme explicá-los. Por ora, basta saber que, quase como em todo tipo de negócio, a legalização do aborto envolve luta pelo poder e muito… muito dinheiro. Veja, por exemplo, a lucrativa indústria fundada pela Federação Internacional de Planejamento Familiar (IPPF), com direito à venda de fetos abortados e outras monstruosidades.

No Brasil, sabe-se que a Fundação MacArthur investiu milhões, durante mais de trinta anos, para aprovar o aborto em nossa legislação. Tais esforços, porém, não surtiram o efeito esperado justamente porque a população, apesar de toda a atuação da mídia no sentido contrário, mantém-se ainda firme no respeito ao nascituro. Mudar essa realidade, de fato, requer mais que propaganda. O ser humano está naturalmente inclinado à preservação da própria espécie, assim como outros animais [1]. Nem os inúmeros vícios de que padece a sociedade brasileira são capazes de extinguir esse instinto tão forte de empatia e autopreservação.

Não espanta que as feministas estejam, agora, dedicadas a descaracterizar essa sensibilidade natural, acusando-a de ser "machista", "retrógrada", "hipócrita", entre outros rótulos infamantes. Não é verdade, porém, que sejamos contra o aborto porque não nos importamos com a mulher. Ao contrário do que sugere a cineasta Petra Costa, somos contrários ao aborto porque sabemos do valor da vida humana, seja em relação à mulher seja em relação ao bebê. Uma mulher católica, não feminista, fundou a Pastoral da Criança, a qual presta apoio a muitas famílias carentes, enquanto as autoproclamadas "vadias" fingem defender a causa feminina com pichações na Catedral da Sé. E nem precisamos falar das tantas obras de caridade, orfanatos, hospitais — como os de Irmã Dulce, por exemplo —, cujo serviço prestado à sociedade ajuda precisamente a suprir as lacunas deixadas pela ineficiência do Estado, para fazer corar de vergonha qualquer um que se atreva a atacar os cristãos. É uma afronta, além de uma grande calúnia, responsabilizar a Igreja pelos males sofridos pelas mulheres.

A diretora de "Meu corpo, minhas regras" também se diz surpreendida com a reação agressiva dos que assistiram ao vídeo. Mesmo sem endossar os comentários mais ofensivos, precisamos perguntar, como não sentir indignação quando um grupo de artistas — os quais, novela após novela, representam papéis que reforçam o desrespeito à dignidade da mulher — decide juntar-se para supostamente combater esse mesmo desrespeito, promovendo o aborto mais ou menos desta maneira: "Mulher, se você acha que deve matar seu filho no ventre, mate-o"?

Ainda segundo a cineasta, a questão do aborto "é sensível ou tabu em diversas crenças". Vejam, ela quer falar de tabus! Vamos começar, então, pelo financiamento internacional das campanhas pró-aborto. Se as feministas estão tão preocupadas com a saúde pública, por que odeiam tanto a ideia de uma CPI do aborto? Vamos falar, ainda, dos falsos números de abortos clandestinos, divulgados pelas ONGs, a fim de alarmar a população. Ou você acha mesmo que, em um ano, 30 mil mulheres querem abortar, mas não podem porque proibido, e no outro, apenas sete mil procuram o procedimento, porque legalizado?

Mulheres são vítimas de violência sexual e doméstica? Verdade. Devem lutar por respeito e dignidade? De acordo. O aborto resolverá esses problemas? Mentira. Curiosamente, o discurso feminista resume todo o drama das mulheres, como exploração, violência e preconceito, à defesa intransigente da legalização do aborto, como se este fosse provocar uma diminuição nos casos de estupro, aumento de salários, mais participação feminina em cargos políticos e por aí vai. Trata-se de uma associação ridícula sem qualquer base na realidade. Pelo contrário, temos razões suficientes para afirmar que uma possível legalização do aborto apenas aumentaria a opressão sobre a mulher. Notem: é conveniente para um namorado covarde e irresponsável — ou para sua família — forçar a namorada a interromper a gravidez indesejada. É o que já vemos acontecer em grande parte dos casos. E isso se torna ainda mais fácil com o chamado "aborto legal". Na prática, o aborto tornar-se-ia mais um método anticoncepcional, como já acontece em outros países. Onde está a libertação?

Ademais, os efeitos colaterais de um aborto na vida da mulher são gravíssimos. Embora as feministas não pesquisem isso — como revelou Débora Diniz em um recente debate no Senado —, estudos sérios, científicos, confirmam "uma forte associação entre aborto e desordens mentais" [2]. A pergunta que não quer calar é por que até hoje a ANIS nunca fez um estudo especializado sobre esse assunto. Teme o resultado?

A verdade é que toda essa gritaria feminista dos últimos dias deve-se principalmente ao Projeto de Lei 5069, o qual, se aprovado, deverá pôr uma pedra sobre o seu plano de legalizar o aborto no Brasil. Por isso, várias mentiras têm sido espalhadas ao vento acerca dessa proposta, com o intuito de impedir sua aprovação pelo Senado. O que o projeto realmente quer, todavia, é "garantir um atendimento mais humano, mais digno e mais seguro para mulheres que tenham sido vítimas de violência sexual", além de "levar os responsáveis por esse covarde crime à justiça, identificando-os e punindo-os exemplarmente". A oposição das feministas apenas comprova a má fé de quem não está minimamente preocupado com as mulheres — e não vai descansar até que transforme os seus úteros em verdadeiros cemitérios de crianças.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Comissão Teológica Internacional, Em busca de uma ética universal: novo olhar sobre a lei natural (6 de dezembro de 2008).
  2. Associations Between Abortion, Mental Disorders, and Suicidal Behaviour in a Nationally Representative Sample. Canadian Journal of Psychiatry 55.4 [Apr 2010]: 239-47.

| Categoria: Sociedade

Por que querem destruir a família?

Leia este texto e entenda por que, na luta pela família, está em jogo o destino do próprio ser humano.

Os debates travados recentemente nas casas legislativas de todo o país – por conta da inclusão da "ideologia de gênero" nos Planos Municipais de Educação –, dão ensejo para que se pergunte por que, afinal, alguns indivíduos querem destruir a família. Já soaria absurdo se uma única pessoa se propusesse a fazê-lo – não tanto pela magnitude do trabalho que deveria empreender, mas pela própria insanidade que tal ideia carrega consigo. Que dizer, então, de um grupo estrategicamente organizado de pessoas determinadas justamente para esse fim?

Cabe dizer, em primeiro lugar, que não se trata de "história da carochinha" ou "teoria da conspiração". Existem, de verdade, movimentos ideologicamente comprometidos com a destruição da família. De Engels, no final do século XIX – para quem o casamento monogâmico não passa de uma "forma de escravização de um sexo pelo outro" [1] –, até as autoras feministas contemporâneas – como Kate Millett, que pede o fim de tabus como "a homossexualidade" e "as relações sexuais pré-matrimoniais e na adolescência", tendo em vista o desaparecimento da família [2]: são inúmeros os documentos que comprovam haver uma elite intelectual articulada para fazer sumir da face da terra a instituição familiar. Não é porque a Rede Globo ou os principais canais de notícias não reportam essas coisas, que elas deixam de ser verdadeiras. Levando em conta que é a própria mídia a promover certos hábitos e estilos de vida, facilmente se entende o porquê de seu silêncio.

Para entender, todavia, o que está na raiz do pensamento contrário à família, é preciso reconhecer o problema antropológico que o precede. Antes que se insurgissem contra o casamento, os arquitetos da engenharia social em curso traçaram o seu próprio conceito de ser humano – um conceito que, embora seja uma visão distorcida da realidade, já esteve em voga noutras épocas. Trata-se da separação radical entre o corpo e a alma. "O filósofo que formulou o princípio 'cogito, ergo sum' (penso, logo existo), acabou por imprimir à concepção moderna do homem o caráter dualista que a caracteriza. É típico do racionalismo contrapor radicalmente, no homem, o espírito ao corpo e o corpo ao espírito." [3]

Pela revelação divina, porém – como também pela razão natural [4] –, o homem pode compreender que é substancial e simultaneamente a junção de duas realidades: uma material, a que se chama corpo, e outra espiritual, a que se chama alma. Essa é a chave para entender o matrimônio como o único "significado teleológico intrínseco e adequado da sexualidade humana" [5] – já que é o único lugar em que são satisfeitos tanto o aspecto procriativo quanto o aspecto unitivo do ato sexual. Só no casamento o sexo pode ser vivido levando em conta a integridade do ser humano.

Serve como prova dessa verdade a curiosa e notável diferença que há entre o comportamento sexual dos animais e o da espécie humana. Diferentemente dos cachorros, dos coelhos ou dos macacos, que acasalam para procriar e estão plenamente satisfeitos depois do coito, o homem é capaz de fazer obstinada e repetidamente o mesmo ato sexual, em busca de um "algo mais" que não é possível encontrar na mera união dos corpos. Daí vem aquela terrível sensação de vazio depois do chamado "sexo casual". Trata-se de um clamor silencioso da alma, alertando que a sexualidade humana é muito mais que uma realidade animal.

Por outro lado, homens também não são anjos. No outro extremo do dualismo moderno, está a mentalidade gnóstica de que "o espírito é bom, mas a carne é má". Aqui deitam as raízes de uma ideologia que pretende eliminar as diferenças entre os sexos masculino e feminino, pois vê no homem "só espírito e vontade" [6], podendo a sua natureza ser manipulada como lhe apetece.

Não surpreende que uma das pioneiras da agenda de gênero, a feminista Margaret Sanger, estivesse ligada a grupos de matriz antropológica esotérica e gnóstica. Para acreditar nessas teorias insanas, de fato, é preciso ser profundamente religioso. Seja a "revolução sexual" utópica prevista por Shulamith Firestone – depois da qual "as diferenças genitais entre os seres humanos não mais importariam culturalmente" [7] –, seja o mito do "homem andrógino" da teosofia: nunca a modernidade esteve tão próxima dos falidos cultos pagãos e gnósticos da Antiguidade.

O Papa Francisco mostrou captar a essência dessa ideologia quando apontou, em sua encíclica Laudato Si', para a necessidade de se "ter apreço pelo próprio corpo na sua feminilidade ou masculinidade". Em uma referência inequívoca à "teoria do gênero", o Papa escreveu que "não é salutar um comportamento que pretenda cancelar a diferença sexual, porque já não sabe confrontar-se com ela" [8].

No fundo – como alertou certa feita o Papa Bento XVI –, "na luta pela família, está em jogo o próprio homem" [9]. Não se destrói a célula mater da sociedade sem que se atinja de modo irreversível o ser humano. E esse processo, tragicamente, não é um desencadeamento natural ou simples obra do zeitgeist (o "espírito dos tempos"). Ao contrário, trata-se de um trabalho meticulosamente articulado e muito bem medido para implantar um projeto cruel e perverso de poder.

Não acredita? Então, estude! Não é preciso um ato de fé para dar crédito às verdades explicadas aqui. Consultar a bibliografia indicada logo abaixo pode ser um bom começo para entender de vez por que, afinal, querem acabar com a sua família. Mãos aos livros!

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. ENGELS, Friedrich. A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado (trad. Leandro Konder). 9. ed. Civilização Brasileira: Rio de Janeiro, 1984, p. 70.
  2. MILLETT, Kate. Política Sexual (trad. Alice Sampaio, Gisela da Conceição e Manuela Torres). Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1974, p. 10.
  3. Papa João Paulo II, Carta Gratissimam Sane às famílias (2 de fevereiro de 1994), n. 19.
  4. Cf., e.g., Santo Tomás de Aquino, Suma contra os gentios, II, cp. 46-101.
  5. GONDREAU, Paul. The Natural Ordering to Marriage as Foundation and Norm for Sacramental Marriage. In: The Thomist 77 (2013): 41-69, p. 44.
  6. Papa Bento XVI, Discurso à Cúria Romana na apresentação de votos natalícios (21 de dezembro de 2012).
  7. FIRESTONE, Shulamith. The Dialectic of Sex: the Case for Feminist Revolution. Farrar, Straus and Giroux: New York, 2003, p. 11.
  8. Papa Francisco, Carta Encíclica Laudato Si' (24 de maio de 2015), n. 155.
  9. Papa Bento XVI, Discurso à Cúria Romana na apresentação de votos natalícios (21 de dezembro de 2012).

| Categoria: Sociedade

Esoterismo, racismo e discriminação: as origens da agenda de gênero

Conheça as origens obscuras da agenda de gênero e saiba qual a ligação dessa teoria com a Ku Klux Klan, a maior organização racista dos Estados Unidos.

Margaret Sanger, em foto de 1961 (AP).

Recentemente, em sua coluna, Renzo Puccetti explicou, com riqueza de argumentos, por que é absurdo comparar a sentença da Suprema Corte dos Estados Unidos, que obriga os estados federados a introduzir o "matrimônio" homossexual, a decisões precedentes tomadas contra a discriminação racial, que declararam ilegítimas as limitações aos matrimônios entre americanos brancos e negros.

Gostaria de dar um passo a mais e devolver a acusação de racismo ao remetente. De fato, embora a informação tenha sido totalmente escondida e censurada, é a própria teoria do gênero que nasce e se desenvolve em ambientes racistas, chegando a estar relacionada com a organização racista por excelência dos Estados Unidos, a Ku Klux Klan.

Em um artigo anterior, no qual respondia à falácia da moda, segundo a qual "a teoria de gênero não existe", trazia à luz as duas versões clássicas, às quais todos os futuros sequazes da gender theory fizeram referência. A primeira é a da filósofa francesa Simone de Beauvoir, para quem "não se nasce mulher, torna-se mulher" [1] e cada um – ainda que ela pensasse sobretudo nas mulheres – tem direito a escolher o próprio gênero, masculino ou feminino, independentemente do sexo biológico. Na segunda versão, teorizada por Judith Butler, o gênero absorve totalmente o sexo e cada um pode decidir que coisa quer ser em uma gama que já não prevê apenas duas possibilidades – homem ou mulher –, mas três, cinco, cinquenta ou infinitas.

É possível traçar ainda um outro itinerário, que a partir de Beauvoir e Butler não segue adiante, mas vai para trás. A teoria do gênero não teria nascido sem uma série de precursores que formularam, muitos anos antes, versões que podemos chamar de prototípicas, ainda que não fossem tão sofisticadas e radicais como as de Butler. A principal dessas proto-teóricas do gênero é a americana Margaret Sanger (1879-1966). Comparadas com as teorias posteriores, as ideias de Sanger parecem ser até moderadas. Mas, sem ela, não existiriam as futuras teorias do gênero.

As biografias oficiais de Sanger apresentam-na como uma heroína feminista que, movida por compaixão para com as mulheres que morriam de parto depois do décimo filho recorrendo a perigosos abortos clandestinos, dedicou a sua vida à propaganda dos anticoncepcionais, aceitando até a prisão e o exílio. Mas a sua verdadeira história é um pouco diferente.

Não se pode compreender Margaret Sanger prescindindo de seus interesses esotéricos. Sanger parte das ideias da Sociedade Teosófica. Em 1936, ela é convidada a falar à sede mundial dessa sociedade, em Adyar, na Índia. O seu discurso, publicado no órgão da Sociedade Teosófica, The Theosophist, explica exatamente a relação entre a sua teoria do feminismo e do gênero e a sua interpretação das doutrinas teosóficas.

Ainda que muito estudada hoje em dia, particularmente pela influência crucial que teve na arte moderna através de pintores do calibre de Kandinsky e Mondrian, a Sociedade Teosófica talvez deva ser brevemente apresentada aos não especialistas. Ela foi fundada em 1875, em Nova Iorque, pelo coronel e advogado americano Henry Stell Olcott e por uma das mais importantes figuras da história do esoterismo, a nobre russa Helena Petrovna Blavatsky. A sua doutrina central é que, com a ajuda dos Mestres, os quais não são espíritos, mas homens particularmente evoluídos que vivem por centenas de anos e residem em um centro misterioso entre a Índia e o Tibete, a humanidade – a qual, no seu estado atual, é o resultado de um processo cósmico de decadência com elementos claramente gnósticos – é chamada a um processo de evolução. Isso se dá através do progressivo aparecimento na Terra de sete raças-raiz, cada uma dividida em sete sub-raças. Segundo Blavatsky, em seu tempo se estava na vigília do aparecimento da sexta sub-raça da quinta raça-raiz, espiritualmente superior à precedente e que se teria manifestado nos Estados Unidos.

Esclareçamos de pronto um equívoco, difundido na literatura não especializada. A teoria das raças-raiz de Blavatsky é aberta a várias interpretações, mas a Sociedade Teosófica condenou todas as interpretações de tipo racista, afirmando que as diversas "raças" deveriam, em todo caso, colaborar harmoniosamente entre si. Todavia, as interpretações racistas existem, ainda que a Sociedade Teosófica as tenha denunciado como errôneas. Na Alemanha, desenvolveu-se no início do século XX uma corrente chamada "ariosofia", que interpreta a teoria teosófica das raças na base de um primado racista da raça ariana. Um ávido leitor das publicações "ariosóficas" na Áustria era um rapaz chamado Adolf Hitler. A própria Sanger, como se sabe da leitura dos diários de personalidades teosóficas da época, não foi particularmente bem acolhida em Adyar, ainda que sua conferência esteja publicada na revista da Sociedade Teosófica. Tampouco sua interpretação da "raça nova" correspondia, de fato, àquela da direção teosófica oficial.

Resta o fato de que, na base de especulações esotéricas, Sanger pensava que estava para surgir uma nova raça, superior às precedentes e que se manifestaria nos Estados Unidos. Que tem a ver tudo isso com o gênero? A própria Sanger explica. As suas ideias de tipo gnóstico levaram-na à convicção de que a diferença sexual entre homem e mulher era algo de mau, assim como o modo como as mulheres traziam os filhos ao mundo. Seriam consequências de um processo de degeneração e não existiriam na idade de ouro originária, aquela do andrógino, ou seja, de uma pessoa humana na qual coexistiriam os caracteres masculinos e femininos e formas de geração diferentes do parto. Libertar a mulher com os anticoncepcionais do seu papel de mãe seria o primeiro passo para permitir às mulheres – e consequentemente também aos homens – que escolhessem o próprio gênero, quem e que coisa gostariam de ser, iniciando um processo de retorno ao andrógino originário. Não se trata ainda da teoria de gênero como a conhecemos hoje, mas já é o seu núcleo fundamental.

A nova raça em marcha rumo à superação do sexo biológico poderia emergir, continuava Sanger, só onde a humanidade fosse intelectual e culturalmente mais avançada: na América, e entre os americanos brancos e de origem nórdica e europeia. Dos inúmeros imigrantes italianos Sanger não tinha uma boa opinião. "Os negros e os europeus do sul – escrevia – são intelectualmente inferiores aos americanos nativos": uma expressão que o movimento "nativista" utilizava para excluir do número dos "verdadeiros americanos" os imigrantes vindos da Itália. Em uma famosa citação, Sanger comparava os afroamericanos a uma "erva daninha a extirpar", através de uma severa política de eugenia que deveria incluir a esterilização forçada. Quanto aos aborígenes australianos, considerava-os "apenas um grau acima dos chimpanzés". Certamente, eram muitos os defensores da teoria das raças e da eugenia, mas apenas Margaret Sanger ligava a eugenia ao gênero: extirpada a erva daninha, a "raça nova" poderia finalmente emergir na marcha rumo à androginia e à superação da escravatura biológica da diferenciação sexual.

Mal acolhida pela Sociedade Teosófica, Sanger encontrou terreno fértil para suas ideias na Ku Klux Klan, a organização americana criada para perpetuar a discriminação racial contra os afroamericanos e ao mesmo tempo – o que geralmente se omite – para propagar um anticatolicismo feroz com base no mito da América "branca, anglo-saxã e protestante" (WASP, na sigla em inglês). Muitos filmes apresentam a Ku Klux Klan como uma organização masculina. Os historiadores – a partir da obra fundamental de Kathleen Blee, Women of the Klan ["Mulheres do Klan"] – têm feito notar que, na KKK "histórica", do período entre guerras, as mulheres tiveram, na verdade, um papel essencial.

Margaret Sanger colaborou com a Ku Klux Klan, aperfeiçoou suas ideias sobre raça e gênero em diálogo com as mulheres do Klan e falou com frequência a um público entusiasmado de ativistas da organização racista encapuzadas e aplaudentes. Algumas fotografias que podem ser encontradas na Internet representando Sanger em diálogo com o Klan são falsas, confeccionadas com Photoshop. As reuniões do Klan eram secretas e as fotografias são raras. Mas, para confirmar a ligação entre Sanger e a KKK, incluindo conferências a mulheres encapuzadas, não é preciso reportar-se aos seus críticos ou aos críticos da teoria do gênero. Ela mesma o conta em sua autobiografia, minimizando e justificando, certamente, mas admitindo a relação e falando de "dezenas" de convites por parte da Ku Klux Klan.

Alguém poderia objetar citando atitudes hostis aos homossexuais por parte da Ku Klux Klan. Outros poderiam replicar citando os nomes de um certo número de dirigentes do Klan e de organizações coligadas que eram homossexuais ou bissexuais. Mas é um debate que nos levaria muito longe. O tema deste artigo, de fato, é outro. Quis mostrar como a formulação arquetípica da teoria do gênero, a de Margaret Sanger, nasce de uma interpretação desviada – e não compartilhada pela grande maioria dos teósofos – de ideias sobre a raça da Sociedade Teosófica e nasce em diálogo com o racismo americano representado pela Ku Klux Klan. A ideia central é que essa na qual se pode escolher se se é homem ou mulher é uma nova humanidade, uma "raça nova" que poderá nascer somente entre a elite iluminada "branca, anglo-saxã e protestante" e não entre os negros, os "europeus do sul" e os católicos, "intelectualmente inferiores" e destinados a ser extirpados como erva daninha. Desapareceram essas ideias racistas entre os defensores do gênero? Olhando o ar de superioridade com o qual eles atacam manifestações como a da Praça San Giovanni e a chamam de "medievais", eu não me permitiria estar tão seguro disso [2].

Por Massimo Introvigne | Tradução: Equipe CNP

Referências

  1. N. do T.: O Papa Bento XVI citou a teoria de gênero de Simone de Beauvoir durante o tradicional discurso de Natal à Cúria Romana, em 2012.
  2. N. do T.: É possível acrescentar que, olhando o ódio e o rancor com o qual eles atacaram os cristãos que foram às casas legislativas para pedir a retirada dos termos "gênero" e "orientação sexual" dos Planos Municipais de Educação no Brasil, a gnose e o racismo por trás dessa ideologia estão mais vivos do que nunca.

| Categorias: Sociedade, Notícias

União Europeia quer mães britânicas fora de casa

Ideólogos estão preocupados porque porcentagem de mães britânicas em casa é o dobro da média da União Europeia. A solução seria prover creches financiadas pelo Estado.

O Conselho Europeu, com sede em Bruxelas, órgão composto pelos chefes de governo da União Europeia e que determina a agenda política da organização, fez uma crítica às mães britânicas por quererem ficar em casa para cuidar de seus filhos.

Um relatório do Conselho aponta que "a porcentagem de mulheres britânicas inativas ou em trabalho a tempo parcial por conta de responsabilidades pessoais e familiares (12,5%) foi quase o dobro maior que a média da União Europeia (6,3%) em 2013" e considera isso um "desafio social" que o governo britânico deve se empenhar para eliminar, provendo mais creches financiadas pelo Estado.

O relatório também critica o fato de que haja mais mulheres que homens trabalhando a tempo parcial. "A diferença na parcela de trabalho a tempo parcial entre mulheres (42,6%, em 2013) e homens (13,2%, em 2013) é uma das maiores da União Europeia", diz o documento.

Às recomendações do Conselho se seguiram respostas indignadas dos britânicos, que dizem que o Estado não deve interferir na opção de mães que escolhem ficar em casa. "São as famílias britânicas que devem decidir como lidar com a educação dos seus filhos, sem coação do governo britânico ou de burocratas europeus. Essa é apenas mais uma tática de bullying para fazer com que as mães abandonem seus filhos pequenos em casa", disse Laura Perrins, do grupo Mothers at Home Matter ["Mães em casa são importantes"], a The Telegraph.

Em outro artigo publicado no jornal inglês, Perrins critica o feminismo moderno, que "ignora a maternidade e está focado apenas no mercado de trabalho". "Esse é o meu problema com o feminismo moderno", escreve. "Ele está apenas preocupado com a igualdade de 'planilha', como com quantas mulheres são executivas, bancárias ou comerciantes. Se você não está trabalhando fora, simplesmente não conta". A articulista considera que, "se quiser ser uma verdadeira irmandade, o feminismo deve aceitar e respeitar a escolha de uma mulher de permanecer em casa e cuidar de sua família".

Ela também responde à afirmação de que mulheres que ficam em casa estão "desperdiçando o seu potencial". "Educar a próxima geração de cidadãos é uma contribuição crucial não apenas para a família, considerada individualmente, mas para a sociedade como um todo", diz. "Pode não ser glamouroso e, acredite-me, pode ser entediante às vezes, mas é algo que conta. Todas as pequenas coisas que uma mãe ensina ao seu filho todo o dia, todos os dias: isso conta".

Para Perrins, está muito claro que a responsabilidade pela educação das crianças não pode ser transferida abusivamente para o Estado. "A criação, educação e transmissão de valores morais e culturais para as próximas gerações é um papel desafiador e importante – diz ela – e não é algo que possa ser cumprido eficazmente em creches comunitárias".

A mãe e articulista britânica também pede uma mudança de mentalidade. "A maternidade só será uma barreira para a igualdade se a sociedade escolher assim e definir que são apenas os esforços no trabalho assalariado que 'importam'". Trata-se, como diz o escritor G. K. Chesterton (também ele britânico), da "estranha ideia de que as mulheres são livres quando servem os seus empregadores, mas escravas quando ajudam os seus maridos".

Perris conclui rebatendo as acusações de que o trabalho doméstico tornaria as mulheres desiguais. "Se criar a próxima geração de cidadãos é visto como algo sem sentido ou inferior ao trabalho fora de casa, que seja: as donas de casa são 'menos iguais'", afirma. "Mas essa é a opinião dos políticos e das feministas, não a contribuição da mãe. Para os seus filhos e a sua própria família, ela é inestimável".

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

| Categoria: Sociedade

A nova velha polêmica da Igreja e dos anticoncepcionais

​A mulher não precisa de anticoncepcionais para ser livre. Ela precisa de dignidade.

A página do Padre Paulo Ricardo no Facebook foi alvo de uma enxurrada de protestos ferozes na última semana. O motivo da celeuma foi este vídeo aqui. Nele, Padre Paulo explica os perigos que existem no uso da chamada pílula anticoncepcional. "Usando um simples anticoncepcional, você, mulher, pode transformar o seu útero num túmulo, e matar muitas crianças sem saber", afirma o sacerdote. A reação foi imediata. Sobraram ataques pessoais, faltaram argumentos.

É preciso esclarecer, em primeiro lugar, que o vídeo em questão não traz nenhuma citação bíblica, nenhuma pregação religiosa, nenhum sermão moralista. Quem se deu ao trabalho de assisti-lo sabe do que se trata. Abortos Ocultos apenas apresenta um histórico do que eram as pílulas anticoncepcionais quando surgiram, no início da década de 1960, e no que se transformaram após as denúncias do movimento pró-vida. A princípio, diz Padre Paulo, os anticoncepcionais eram verdadeiras "bombas de hormônio". Isso provocava efeitos colaterais terríveis para o organismo da mulher. Os produtores, então, decidiram diminuir a quantidade dessas substâncias, a fim de que não causassem os danos apresentados até aquele momento. O anticoncepcional tornou-se, assim, um "contraceptivo de componentes combinados".

Eis aí. Um desses componentes, de fato, impede apenas a ovulação. Ora, todo mundo sabe que não existe aborto se o óvulo não é fecundado. Até um estudante de ensino fundamental sabe disso. O problema está no outro componente. Trata-se de um hormônio para impedir a implantação do embrião no útero da mulher, isto é, o hormônio provoca um aborto. Isso não é teoria da conspiração nem fanatismo religioso. Está tudo descrito nas bulas desses remédios. Ou melhor, estava. Porque depois das denúncias do movimento pró-vida, os produtores de anticoncepcionais magicamente excluíram essas informações de suas clientes. Assim funciona a indústria da contracepção. Vale tudo em nome do lucro e da cultura da morte.

Para que não reste dúvida, leiam vocês mesmos as bulas dos remédios citados no vídeo aqui, aqui e aqui. Informar-se não dói. É libertador!

O engodo feminista

O movimento feminista celebra a contracepção como uma grande conquista das mulheres. Daí a fúria contra o vídeo. Afinal de contas, agora elas podem supostamente ter sexo como os homens. Não precisam preocupar-se com gravidez. Não precisam preocupar-se com casamento. Não precisam preocupar-se com família. E chamam isso de liberdade. Ocorre que as pílulas anticoncepcionais — para além dos efeitos abortivos, que por si só já bastariam para repudiar a produção desses venenos — trouxeram problemas gravíssimos às mulheres, tanto no aspecto psicológico quanto no social.

Há poucos meses, a revista Época publicou uma reportagem bombástica sobre vítimas dos anticoncepcionais. Uma das entrevistadas, segundo a revista, precisou amputar os dez dedos dos pés, devido a complicações causadas pelo remédio. E tem mais. Ela conta que sofreu três paradas cardíacas e embolia pulmonar. Apesar disso, denuncia Época, pouco se tem feito no Brasil — ao contrário de outros países, onde já existe uma regulamentação mais firme a respeito — para esclarecer a população quanto ao risco que oferecem as pílulas contraceptivas. É praxe médica, diz a reportagem, manter o silêncio: "Poucos são os que relatam às autoridades os casos de complicações após o uso de pílula". Perguntar não ofende: Onde estão as senhoras que vociferaram contra o Padre Paulo Ricardo no Facebook neste momento? Onde estão as vozes feministas que dizem defender as mulheres em nome dos "direitos reprodutivos"?

Infelizmente, a reportagem de Época falha ao endossar outros métodos contraceptivos como alternativa às pílulas. Essa é a questão. Os métodos contraceptivos artificiais fundamentam uma ideologia: a falsa ideologia de que a mulher só será livre quando for completamente desvinculada da figura materna.

Trata-se de um ataque orquestrado à dignidade da mulher. Notem: as pílulas anticoncepcionais não trouxeram a liberdade sexual às mulheres, mas tornaram-na um objeto de consumo masculino. Agora os homens podem "usá-las" sem correr o "risco" de engravidá-las. Podem praticar a torpeza do "sexo sem compromisso". E isso é devastador tanto para o homem quanto para a mulher. Argumentam alguns: "Ah, mas agora as mulheres também podem usar os homens e ter sexo sem compromisso". Exatamente. E a dignidade humana que vá para o lixo.

Desde que o sexo se tornou um lazer, o ser humano ficou refém de suas próprias paixões e dos interesses ideológicos. Paulo VI, na profética encíclica Humanae Vitae, havia alertado para isso:

"Considerem, antes de mais, o caminho amplo e fácil que tais métodos abririam à infidelidade conjugal e à degradação da moralidade. Não é preciso ter muita experiência para conhecer a fraqueza humana e para compreender que os homens — os jovens especialmente, tão vulneráveis neste ponto — precisam de estímulo para serem fiéis à lei moral e não se lhes deve proporcionar qualquer meio fácil para eles eludirem a sua observância. É ainda de recear que o homem, habituando-se ao uso das práticas anticoncepcionais, acabe por perder o respeito pela mulher e, sem se preocupar mais com o equilíbrio físico e psicológico dela, chegue a considerá-la como simples instrumento de prazer egoísta e não mais como a sua companheira, respeitada e amada."

"Pense-se ainda seriamente na arma perigosa que se viria a pôr nas mãos de autoridades públicas, pouco preocupadas com exigências morais. Quem poderia reprovar a um governo o fato de ele aplicar à solução dos problemas da coletividade aquilo que viesse a ser reconhecido como lícito aos cônjuges para a solução de um problema familiar? Quem impediria os governantes de favorecerem e até mesmo de imporem às suas populações, se o julgassem necessário, o método de contracepção que eles reputassem mais eficaz? Deste modo, os homens, querendo evitar dificuldades individuais, familiares, ou sociais, que se verificam na observância da lei divina, acabariam por deixar à mercê da intervenção das autoridades públicas o setor mais pessoal e mais reservado da intimidade conjugal." [1]

Sejamos francos. A realidade descrita pelo Beato Paulo VI não é precisamente a que vivemos hoje? Em Portugal, reportamos aqui, causou escândalo a história da mãe Liliane Melo, a qual foi obrigada pelo Estado a submeter-se a uma cirurgia de esterilização. Essas são as consequências dos métodos contraceptivos artificiais.

Os "pingos nos is" e mais um pouco de informação

Certas vozes reclamaram: "Temos que 'botar' um monte de filho no mundo, então? A Igreja vai pagar a conta?" Não é segredo para ninguém o apreço e o apoio que a Igreja presta àquelas famílias que têm muitos filhos. Elas são uma "esperança para a sociedade", como disse o papa Francisco recentemente. Muitas pessoas confundem, no entanto, famílias numerosas com falta de responsabilidade. Engano comum. A doutrina da Igreja é clara em ensinar a "paternidade responsável", que é a generosidade dos pais na abertura à vida, conforme as suas próprias condições. Trata-se de uma capacidade de doação e entrega a Deus. Filhos são sempre um "dom" de Deus, nunca um estorvo. Neste sentido, o Método de Ovulação Billings tem se mostrado um ótimo instrumento para o exercício da desejável "paternidade responsável", pois além de sempre favorecer a abertura do casal à vida, permite que marido e mulher se conheçam melhor e aprendam juntos a viver a continência necessária ao matrimônio.

A mentalidade contraceptiva, no entanto, criou um relacionamento egoísta entre o casal, imprimindo a ideia de que "criança" é algo ruim. Nascem, assim, várias desculpas para a contracepção. A maior delas seria o custo financeiro. Impressiona, todavia, que tantos casais que se recusam a ter filhos não reclamem de dispender gastos consideráveis em alimentação e tratamento veterinário a seus cães e gatos de estimação. Pesquisa recente do IBGE revela que, no Brasil, o número de animais domésticos por casal está ultrapassando o número de crianças. Nunca foi tão real o perigo, apontado pelo Catecismo da Igreja Católica [2], de que as pessoas dirijam aos animais "o afeto devido exclusivamente às pessoas".

O problema, portanto, parece ser de outra ordem. É que, na verdade, os filhos tiram as pessoas de sua "zona de conforto". Como Padre Paulo mesmo coloca em outro vídeo, "ter uma família numerosa tem o seu preço": quem faz uma escolha pela vida, deve estar disposto a renunciar às férias em Cancún, ao seu iate ou à sua casa na praia. Além disso, educar esses pequenos — diferentemente de adestrar animais — é um trabalho custoso, que demanda dedicação integral e um desenvolvimento especial do próprio caráter. Não se pode, de fato, "pôr filhos no mundo" e negligenciar a sua formação. É preciso sair do mundo do próprio ego — dos "meus planos", da "minha carreira", do "meu lazer" — para entrar de cabeça nesse universo novo e exigente. No fim das contas, a raiz da esterilidade do "novo mundo" não passa de um egoísmo disfarçado sob a máscara de "prudência".

No que diz respeito às mulheres, acrescente-se ainda o fator cultural: vivemos em um tempo avesso e hostil à maternidade. Quando Simone de Beauvoir declarou, com todas as letras, que, enquanto "os mitos da família, da maternidade e do instinto materno" não fossem destruídos, as mulheres continuariam a ser oprimidas [3], ela trazia à luz os projetos mais obscuros do movimento feminista — projetos que estão a pleno vapor ainda hoje. O discurso de "empoderamento" e "independência" da mulher, aliado a uma completa subversão da própria identidade feminina, não é um "processo automático de progresso da humanidade", como muitas vezes se pensa. Trata-se de um discurso artificialmente construído — e que, infelizmente, só trouxe frustração e infelicidade às mulheres.

Vejam, mulheres, que São João Paulo II deixou uma herança belíssima a vocês, com a sua carta apostólica Mulieris Dignitatem. Vale a pena redescobri-la. Vocês não precisam de anticoncepcionais para serem livres. Vocês precisam de dignidade. O cristianismo sabe disso há muito tempo. Parece que o feminismo não.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Carta Encíclica Humanae Vitae (25 de julho de 1968), n. 17.
  2. Catecismo da Igreja Católica, 2418.
  3. "Sex, Society and the Female Dilemma". Saturday Review (14 de junho de 1975). p. 20.

| Categoria: Sociedade

Precisamos falar das mentiras sobre a legalização do aborto

Há anos o movimento abortista utiliza jogos linguísticos para manipular a opinião pública

"Mas a hora vem, a hora chegou, em que a vocação da mulher se realiza em plenitude (...) Por isso, no momento em que a humanidade conhece uma mudança tão profunda, as mulheres iluminadas do espírito do Evangelho tanto podem ajudar para que a humanidade não decaia" [1]. Assim se expressavam os padres conciliares ao término do Concílio Vaticano II, vislumbrando o sublime chamado da mulher perante a sociedade: a irradiação do amor. Mas essa, infelizmente, parece não ser a proposta de alguns meios de comunicação, que rezam mais na cartilha das grandes empreiteiras do aborto que nas máximas do decálogo.

Na sua edição de novembro, a revista TPM lançou uma campanha humilhante na internet, a fim de despertar um famigerado debate a respeito da legalização do aborto [2]. Com a hashtag # precisamosfalarsobreaborto, a publicação incentivou seus leitores a postarem supostos números e pesquisas sobre o tema nas redes sociais, além de fotos com o cartaz do movimento. À ideia, como era de se esperar, somaram-se vozes de alguns artistas já nacionalmente conhecidos por suas posições, no mínimo, controversas.

Um dos sinais de decadência de uma sociedade, dizia o filósofo Mário Ferreira dos Santos, é quando, em assuntos importantes, a população passa a dar ouvidos a artistas e atletas [3]. A revista TPM é a mesma que em 2007, durante a visita do Papa Bento XVI ao Brasil, fazia chacota de católicos e cristãos dizendo-se "super a favor do amor. Mas, sim, a gente já deve ter feito várias piadas sobre casamento" [4]. Na reportagem agora em questão, o auge da vigarice intelectual sai da boca de um comediante — sim, segundo a TPM, alguém muito relevante para palpitar neste assunto: "Um dia, espero, ainda vamos achar a proibição do aborto um absurdo, assim como achamos um absurdo a escravidão ou o holocausto". Esta é a lógica da delinquência: impedir que um bebê seja assassinado pela própria mãe é o mesmo que segregar negros e brancos ou mandar judeus para câmaras de gás. Eis os nossos "formadores de opinião". Eis a voz de quem encontra eco nos meios de comunicação brasileiros.

Prestem atenção: aborto significa retalhar uma vida indefesa. E, vá lá, ainda que não se pudesse dizer com toda certeza se o embrião em desenvolvimento é ou não um ser humano — embora os estudos de embriologia já não manifestem qualquer dúvida sobre a humanidade do feto —, seríamos do mesmo modo obrigados a optar pela via da prudência, isto é, a preservação da vida, pois existiria a possibilidade de se tratar de um ser humano. Olavo de Carvalho está certo quando diz: "À luz da razão, nenhum ser humano pode arrogar-se o direito de cometer livremente um ato que ele próprio não sabe dizer, com segurança, se é ou não um homicídio" [5]. A lei moral exige isso. Os defensores do aborto, por outro lado, não só se recusam a admitir um debate franco a respeito do início da vida, mas também, não se sabe com que autoridade, assumem a responsabilidade de escolher quem merece ou não viver. Isso não é diálogo, isso é imposição, como bem observou o editorial do jornal Gazeta do Povo: apesar do título, a campanha da revista pede debate, "mas não dá espaço aos argumentos pró-vida e já indica qual deveria ser o seu resultado: o apoio à descriminalização" [6]. Não é preciso ser nenhum filósofo para perceber a trapaça.

TPM diz: "A cada dois dias uma brasileira morre em decorrência de um aborto ilegal". É falso. Segundo dados do próprio SUS — os quais podem ser acessados por qualquer indivíduo que tenha acesso à internet —, o número de mortes anuais por aborto ilegal no Brasil não chega a cinquenta [7]. No ano de 2012, foram registradas 69 mortes por aborto: 13 foram espontâneos, 11 para a classificação "outros tipos de aborto", 40 por razões "não especificadas" e apenas 5 por falhas durante o procedimento. Outra mentira que se costuma aventar: o número de abortos ilegais é consequência da legislação vigente, que restringe a prática. Ora, seguindo esse raciocínio, teríamos de descriminalizar o homicídio por causa dos 60 mil assassinatos que ocorrem todos os anos no Brasil. Trata-se, evidentemente, de uma grande boçalidade. A Rússia, onde o aborto é legalizado desde a era soviética, viu-se obrigada a impor limites à sua atual legislação, dada a quantidade absurda de abortamentos realizados no país: o número de abortos é maior que o de nascimentos [8].

De fato, o principal entrave para estas discussões é justamente o lobby que se faz em cima de números e pesquisas duvidosas. Há anos o movimento abortista utiliza jogos linguísticos para manipular a opinião pública. Na década de 1970, o falecido médico americano Bernard Nathanson — até então conhecido como o "rei do aborto" — ficou horrorizado ao perceber, por meio do ultrassom, o que ocorria com o feto durante a operação. A sua descoberta resultou no famoso documentário "O grito silencioso" [9]. Anos mais tarde, ele revelaria a farsa a respeito dos números de abortos clandestinos nos Estados Unidos [10]:

É uma tática importante. Dizíamos, em 1968, que na América se praticavam um milhão de abortos clandestinos, quando sabíamos que estes não ultrapassavam de cem mil, mas esse número não nos servia e multiplicamos por dez para chamar a atenção. Também repetíamos constantemente que as mortes maternas por aborto clandestino se aproximavam de dez mil, quando sabíamos que eram apenas duzentas, mas esse número era muito pequeno para a propaganda. Esta tática do engano e da grande mentira se se repete constantemente acaba sendo aceita como verdade.

Com efeito, a revista TPM presta um enorme desserviço à sociedade brasileira, sobretudo às mulheres, ao reproduzir dados e opiniões de ONGs que, sabe-se muito, são, no mais das vezes, grandes parceiras das fundações internacionais — cujas intenções são, inegavelmente, o controle da natalidade [11]. Primeiro, é um atentado à soberania nacional. Segundo — e mais importante —, um crime contra a dignidade humana. Raciocinem: que mais pode gerar gravidezes indesejadas e, por conseguinte, abortos — sejam legais sejam ilegais — que o estímulo à "cultura do descarte", como denuncia o Papa Francisco? A própria revista TPM admite: "nunca fomos a favor de casar virgem". O Brasil segue na lista dos países onde os jovens iniciam a vida sexual mais cedo. Ora, o recorde não se deve a outra coisa senão à so called "educação sexual". Desde o ensino fundamental, os adolescentes são ensinados a se considerarem uma espécie de mercadoria para comprar e vender. E a mídia em geral é a principal promotora desse tipo de comportamento, incentivando a pornografia, o adultério, relações promíscuas etc. Eles inoculam o veneno para sugerirem o remédio.

Ademais, diferentemente da propaganda que se faz, é preciso frisar que a legalização do aborto não se trata de uma iniciativa em defesa das mulheres pobres. Ao contrário, é uma clara vertente da ciência eugenista. Basta lembrar, por exemplo, o projeto macabro idealizado pela senhora Margaret Sanger, a fundadora da poderosa Federação Internacional de Paternidade Planejada (IPPF). Ela dizia: "Nós queremos exterminar a população negra" [12]. Hoje, nos Estados Unidos, 40% das gravidezes de mulheres negras terminam interrompidas graças a essa política [13]. Diga-se o óbvio: não são os pró-vida que se assemelham aos nazistas.

O lamentável caso de Jandira Magdalena dos Santos Cruz, a jovem de 27 anos que veio a falecer após complicações durante um aborto clandestino, tendo depois o corpo mutilado pelos assassinos, apenas elucida o que João Paulo II já havia observado na Carta Apostólica Mulieris Dignitatem [14]:

O fato narrado no Evangelho de João pode apresentar-se em inúmeras situações análogas em todas as épocas da história. Uma mulher é deixada só, é exposta diante da opinião pública com "o seu pecado", enquanto por detrás deste "seu" pecado se esconde um homem como pecador, culpado pelo "pecado do outro", antes, co-responsável do mesmo. E, no entanto, o seu pecado escapa à atenção, passa sob silêncio: aparece como não responsável pelo "pecado do outro"! Às vezes ele passa a ser até acusador, como no caso descrito, esquecido do próprio pecado. Quantas vezes, de modo semelhante, a mulher paga pelo próprio pecado (pode acontecer que seja ela, em certos casos, a culpada pelo pecado do homem como "pecado do outro"), mas paga ela só e paga sozinha! Quantas vezes ela fica abandonada na sua maternidade, quando o homem, pai da criança, não quer aceitar a sua responsabilidade? E ao lado das numerosas "mães solteiras" das nossas sociedades, é preciso tomar em consideração também todas aquelas que, muitas vezes, sofrendo diversas pressões, inclusive da parte do homem culpado, "se livram" da criança antes do seu nascimento. "Livram-se": mas a que preço? A opinião pública de hoje tenta, de várias maneiras, "anular" o mal deste pecado; normalmente, porém, a consciência da mulher não consegue esquecer que tirou a vida do próprio filho, porque não consegue apagar a disponibilidade a acolher a vida, inscrita no seu "ethos" desde o "princípio".

Infelizmente, essa opinião pública denunciada pelo Santo Padre é a mesma a instrumentalizar a morte de Jandira para a causa abortista. Assim, induzem muitas mulheres ao erro, submetendo-as à pressão machista, a qual, vejam só, as feministas juram combater. No documentário Blood Money, há vários depoimentos de mulheres que se submeteram a um aborto e ainda hoje vivem as sequelas físicas e psíquicas do crime [15]. A Igreja não é alheia a esse sofrimento. É justamente por conhecer o coração das mulheres que o Magistério se manifesta inegociavelmente a favor da vida. Já ficou provado: aborto não é solução. É, antes, um dos problemas. Por isso, mais do que falar sobre aborto, é preciso falar das mentiras que geralmente estão associadas às suas propostas de legalização. A revista TPM precisa descobrir isso.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Mensagem do Concílio Vaticano II às mulheres
  2. Precisamos falar sobre aborto in TPM
  3. DOS SANTOS, Mário Ferreira. Invasão vertical dos bárbaros. São Paulo: É Realizações, 2012.
  4. Papa Bento XVI in TPM
  5. Olavo de Carvalho, A lógica do aborto, in Diário do Comércio (14 de outubro de 2010).
  6. Precisamos mesmo falar sobre aborto in Gazeta do Povo (23 de novembro de 2014).
  7. Dados do Sistema Único de Saúde. Aprenda a pesquisar essas informações neste vídeo: Em 45 segundos…
  8. Rússia aprova restrições ao aborto para tentar debelar colapso populacional, in Zenit (03 de dezembro de 2013).
  9. O grito silencioso
  10. Eu fiz cinco mil abortos
  11. AV.25: A nova estratégia mundial do aborto. Veja também: Fundação Ford e Anis.
  12. Margaret Sanger: "We want to exterminate the Negro Population." Her wish is coming true, in LifeNews.
  13. The Negro Project
  14. João Paulo II, Carta Apostólica Mulieris Dignitatem (15 de agosto de 1988), n.14. Veja também: Ex de Jandira é indiciado por apoio a aborto no Rio.
  15. Blood Money: aborto legalizado

| Categoria: Sociedade

Corte inaugura “direito à blasfêmia” na França

Corte francesa absolve feministas que invadiram Catedral de Notre Dame e condena vigias “por violência contra as militantes”

Em fevereiro do ano passado, algumas ativistas do movimento feminista Femen, famosas por suas exibições internacionais desnudas, decidiram “comemorar" a renúncia do Papa Bento XVI invadindo a Catedral de Notre Dame, em Paris, com inscrições no corpo que diziam: “ Pope no more - Papa não mais" e “Pope Game Over". Além dos transtornos causados pela invasão do templo e pelo ultraje ao sentimento religioso dos católicos presentes, as militantes teriam danificado três sinos da igreja com bastões de madeira, segundo informações das agências internacionais.

Notícias recentes reportam que as feministas foram “absolvidas por ato na Notre Dame". A Justiça penal da França não só decidiu “inocentar nove ativistas do movimento feminista Femen", como “condenou três vigias da catedral que haviam tentado interromper a ação das militantes a multas que vão de 300 euros a 1 mil euros (...) por violência contra as militantes"!

Não, você não leu errado. É isso mesmo. As ativistas invadiram Notre Dame e saíram… impunes. Ao contrário, os vigias “malvados", que não deixaram que as militantes “expressassem o seu pensamento", foram condenados pelo tribunal a pagar multas.

Mas, o absurdo não para por aí. A Justiça francesa “considerou que não havia provas suficientes de que as ativistas haviam danificado o sino" da igreja! Ou seja, não tem problema nenhum em invadir a catedral, gritar e insultar a religião católica… contanto que os sinos da igreja permaneçam intactos. Está liberado entrar em templos religiosos e fazer o escarcéu… contanto que não se danifique nenhum móvel ou objeto do local. “Se alguém jura pelo Santuário, não vale; mas se alguém jura pelo ouro do Santuário, então vale!" (Mt 23, 16), decretam os fariseus do século XXI.

Os jornalistas que falam sobre a absolvição das jovens do Femen também estão obcecados com os sinos. “No julgamento, as militantes do Femen contestaram ter danificado o sino, alegando que haviam coberto os bastões de madeira com feltro" - “O advogado dos representantes da Notre Dame, por sua vez, disse que a proteção se descolou e que as ativistas tocaram o sino com um bastão sem proteção" - “A Justiça considerou que não havia provas suficientes de que as ativistas haviam danificado o sino". Ora, quem é que pode se preocupar com um sino, ainda que de ouro, quando o santuário está sendo profanado? “Insensatos e cegos! Que é mais importante, o ouro ou o Santuário que santifica o ouro?" (Mt 23, 17).

Mas, em uma cultura materialista, as pessoas não são capazes de enxergar nada além do que captam os seus sentidos. Veem o ouro, mas já não conseguem contemplar a beleza do santuário. O edifício da igreja já não é nada mais do que cimento e tijolos. Non est Deus (Sl 53, 1): não há Deus, nem nada sagrado e transcendente pelo qual viver.

O bárbaro da modernidade já não é capaz de elevar-se… esforça-se por esquecer que seus antepassados faziam o sinal da cruz ao passar em frente a uma capela; trabalhavam duro para conseguir o pão de cada dia para os seus filhos; e iam à Missa todos os domingos, pois tinham consciência de que, se o Senhor não construísse as suas casas e cuidassem de suas cidades, em vão trabalhariam os construtores e vigiariam as sentinelas (cf. Sl 126, 1). Então, para não mais lembrar que a Europa um dia foi cristã, eles, com uma impiedade animalesca, precisam pôr abaixo tudo o que lhes lembra este passado glorioso, quando os homens, justamente por adorarem a Deus, eram homens de verdade, de corpo e de alma.

Inna Schevchenko, uma das fundadoras do Femen, comemorou a sentença da Corte francesa. “É um bom exemplo para os outros países. Isso nos encoraja a continuarmos com nossa ação. Temos orgulho de saber que a blasfêmia é um direito e que não seremos condenadas por isso", afirmou.

O tempora, o mores! Para esta triste época, em que a impunidade é encorajada, o ateísmo é acolhido como “religião oficial" do Estado e a blasfêmia não só é praticada, como transformada em “direito", não resta senão suplicar a Cristo que suscite nos corações dos cristãos o amor a Deus e o empenho de, mais uma vez, salvar o Ocidente da barbárie.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere - Fonte: BBC Brasil