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O caso Charlie Gard e a doença de uma civilização

O mundo moderno precisa urgentemente redescobrir o homem interior para aprender a amar de verdade. Caso contrário, Charlie Gard e sua família serão apenas a primeira vítima de um tribunal insano.

O chocante caso do bebê Charlie Gard, sentenciado à morte pelo Tribunal Europeu dos "Direitos Humanos" contra todos os esforços dos pais para salvá-lo, traz à baila uma questão sobre a qual Gustavo Corção meditava já na década de 1970: qual seria a causa da doença mortal que está destruindo a civilização?

Para o escritor católico, a resposta parecia ser uma só: " O falso amor de si mesmo, que, voltado para as coisas exteriores e para o prazer sensível de sua dominação, nos leva até o esquecimento e o desprezo de Deus" [1]. Bom cristão e filósofo tomista, Corção não buscou uma solução inovadora para um problema que, como qualquer pessoa mentalmente sadia pode perceber, está na sociedade desde o pecado de nossos primeiros pais. Ele apenas observou o mundo a sua volta para certificar-se mais uma vez daquilo que a teologia católica sempre ensinou: o homem, ferido em sua natureza, negligencia a vida interior — a única coisa necessária — para agitar-se com as panelas do fogão; esquece-se do homem interior — e, consequentemente, de Deus — para viver das exterioridades.

O que ocorre, porém, é que esse amor enlouquecido pelas coisas exteriores gera uma desvalorização do próprio homem. Este não vale mais por si mesmo, mas apenas pelo que produz e por seu potencial de satisfação.

A sentença do Tribunal Europeu sobre a situação do pequeno Charlie Gard é um exemplo flagrante disso. Os juízes daquela corte não pensaram nem na alma do garoto nem na sacralidade inviolável de sua vida; consideraram-no apenas do ponto de vista prático da questão: para que serviria um bebê, cuja saúde se encontra gravemente debilitada? Não seria melhor deixá-lo morrer logo para abreviar seu sofrimento? Nesses termos, note-se, a diferença entre um cachorro agonizante na rua e uma criança gravemente enferma na clínica pediátrica é meramente circunstancial. O tratamento dispensado a eles, seja pelo veterinário, seja pelo médico, é exatamente o mesmo. Ambos vão morrer porque não servem para mais nada.

Aliás, é bem possível que em alguns lugares, como no Brasil, por exemplo, os tribunais constranjam o veterinário por certa indelicadeza com o cão (vide o recente caso do ator e chefe de cozinha Rodrigo Hilbert, que está sendo processado por matar uma ovelha e cozinhá-la em rede nacional). À vida humana, por sua vez, nenhum valor será dado senão o do utilitarismo.

Em 1939, o psicólogo judeu Erich Fromm anunciou uma descoberta que, sem dose de ironia, Gustavo Corção chamou de "sensacional". Tratava-se da constatação de que no íntimo do ser humano haveria uma tensão aparentemente irremediável: o cabo de guerra entre o egoísmo (ou amor próprio) e o altruísmo (ou amor ao próximo). Essa tensão, por conseguinte, estaria na base dos conflitos morais e psicológicos gerados no mundo moderno, cujas ideologias ora pendem para os extremos do individualismo e da concorrência selvagem, ora para os coletivismos forçados e campos de concentração. "É espantoso como podem duas doutrinas contraditórias ser ensinadas, uma ao lado da outra, dentro da mesma cultura [...]. E essa confusão é uma das causas mais eficazes do desamparo e do desconcerto do homem moderno", escrevia Fromm em seu artigo para a revista americana Psychiatry [2].

Apesar de Erich Fromm ter tido o mérito de redescobrir a velha antropologia cristã dos dois amores — daí o elogio de Gustavo Corção —, o mesmo psicólogo não pôde, infelizmente, encontrar a solução para o dilema. É aqui então que a sabedoria de Santo Tomás de Aquino, o doutor comum, vale mais uma vez. Em uma das questões de sua Suma Teológica, Santo Tomás trata justamente de distinguir o falso amor de si mesmo pelo verdadeiro amor-próprio:

Costumamos censurar os que se amam a si mesmos quando eles se amam segundo sua natureza sensível, e a ela obedecem. Isto, na verdade, não é o mesmo que amar-se por sua natureza racional, querendo para si os bens que pertencem à perfeição da razão, e é desta maneira que o homem se ama a si mesmo com caridade. [3]

Eis aí a resposta para o problema do mundo moderno: há, sim, um amor sadio de si mesmo com caridade, por meio do qual os homens podem amar também seus irmãos e até seus inimigos. Mas esse amor só pode ser adquirido pela ascese, pelo mergulho profundo na alma, onde habita a Santíssima Trindade, como descobriram Santa Elisabete e Santo Agostinho. Conhecendo-se a si mesmo interiormente, a pessoa humana conhece também a Deus; descobre-se uma criatura ao mesmo tempo miserável e amada pelo Divino Criador. E com esse amor incondicional de seu Senhor, ama seus irmãos por reconhecer neles a imagem e semelhança dAquele Outro a quem tudo deve, inclusive a própria existência.

Quem ousaria negar que o amor de um São Francisco de Assis ou de uma Santa Teresa de Calcutá pelos pobres e enfermos teria outra origem senão a incrível vida de oração e mortificação que ambos levavam no silêncio de seus quartos? Será que os juízes do Tribunal Europeu tratariam o bebê Charlie Gard com o mesmo desprezo se soubessem reconhecer nele o Menino Jesus?

De fato, o mundo moderno precisa urgentemente redescobrir o homem interior para aprender a amar-se verdadeiramente e, com isso, amar os seus irmãos. Caso contrário, Charlie Gard e sua família serão apenas a primeira vítima de um tribunal insano.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Gustavo Corção, Meditações sobre a ruína do mundo, in O Globo (26 de fevereiro de 1977).
  2. Erich Fromm, Análise do homem, 13. ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1983, p. 14.
  3. Suma Teológica, II, II, q. 25, a. 4.

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Amar ao próximo primeiro

O amor de Deus ocupa o primeiro lugar na ordem dos preceitos, mas o amor do próximo é o primeiro na ordem da execução.

"O amor de Deus ocupa o primeiro lugar na ordem dos preceitos", evidentemente, "mas o amor do próximo ocupa o primeiro lugar na ordem da execução": é o que ensina Santo Agostinho, no Ofício das Leituras deste dia 3 de janeiro. A razão disso é bem simples e consta das próprias Escrituras: "Quem não ama o seu irmão, a quem vê, não poderá amar a Deus, a quem não vê" (1Jo 4, 20).

Atentos à preciosa lição deste santo padre da Igreja, disponhamos o nosso coração ao serviço do próximo, na certeza de que, servindo à carne que o próprio Deus assumiu para a nossa salvação, seremos elevados à plena participação da natureza divina (cf. 2Pd 1, 4) e alcançaremos vitória sobre as paixões de nossa própria carne.

Do Tratado sobre o Evangelho de São João, de Santo Agostinho, bispo
(Tract 17, 7-9: CCL 36, 174-175)

O duplo preceito da caridade

Veio o Senhor, mestre da caridade, cheio de caridade, cumprir prontamente a palavra sobre a terra (cf. Rm 9, 28 Vulg.), como dele foi anunciado, e sintetizou a lei e os profetas nos dois preceitos da caridade.

Recordai comigo, irmãos, quais são esses dois preceitos. É preciso que os conheçais profundamente, de tal modo que não vos venham à mente só quando vo-los lembramos, mas os conserveis sempre bem gravados em vossos corações. Recordai-vos em todo momento de que devemos amar a Deus e ao próximo: a Deus de todo o nosso coração, de toda a nossa alma, e de todo o nosso entendimento; e ao próximo como a nós mesmos (cf. Mt 22, 37-39).

Esses dois preceitos devem ser sempre lembrados, meditados, conservados na memória, praticados, cumpridos. O amor de Deus ocupa o primeiro lugar na ordem dos preceitos, mas o amor do próximo ocupa o primeiro lugar na ordem da execução. Pois, quem te deu esse duplo preceito do amor não podia ordenar-te amar primeiro ao próximo e depois a Deus, mas primeiramente a Deus e depois ao próximo.

Entretanto, tu que ainda não vês a Deus, merecerás vê-lo se amas o próximo; amando-o purificas teu olhar para veres a Deus, como afirma expressamente São João: "Quem não ama o seu irmão, a quem vê, não poderá amar a Deus, a quem não vê" ( 1Jo 4, 20).

Ouviste o mandamento: Ama a Deus. Se me disseres: "Mostra-me a quem devo amar", que responderei senão o que disse o mesmo São João: "A Deus, ninguém jamais viu" ( Jo 1, 18)? E para pensares que está absolutamente fora de teu alcance ver a Deus, o mencionado apóstolo afirma: "Deus é amor: quem permanece no amor, permanece com Deus" (1Jo 4, 16). Ama, pois, o teu próximo e procura no teu íntimo a origem deste amor; lá verás a Deus o quanto agora te é possível.

Começa, portanto, a amar o próximo. Reparte o pão com o faminto, acolhe em casa o pobre sem abrigo; quando encontrares um nu, cobre-o, e não dês as costas ao teu semelhante (cf. Is 58, 7).

Procedendo assim, o que alcançarás? "Então brilhará a tua luz como a aurora" ( Is 58, 8). Tua luz é o teu Deus; ele é a aurora que despontará sobre ti depois da noite desta vida. Essa luz não conhece princípio nem ocaso, porque existe eternamente.

Amando o próximo e cuidando dele, vais percorrendo o teu caminho. E para onde caminhas senão para o Senhor Deus, para Aquele que devemos amar com todo o nosso coração, com toda a nossa alma, de toda a nossa mente? É certo que ainda não chegamos até junto do Senhor; mas já temos conosco o próximo. Ajuda, portanto, aquele que tens ao lado, enquanto caminhas neste mundo, e chegarás até junto daquele com quem desejas permanecer para sempre.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

| Categoria: Como Ser Família

Como lidar com um amor não correspondido?

Amar e não ser correspondido é causa de dor e frustração. Por trás dessa experiência, no entanto, mora um problema de fundo nem sempre percebido: talvez nós, sem repararmos no nosso egoísmo, estejamos “amando” errado.

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O que devemos fazer quando o amor que temos por uma pessoa não é correspondido? Essa pergunta esconde uma dor e uma angústia bastante comuns hoje em dia, sobretudo entre os mais jovens. No entanto, ela só pode ser respondida adequadamente se tivermos bem claro em que consiste o verdadeiro amor humano.

Os tempos atuais, marcados por certo romantismo burguês, costumam pensar que o amor é algo que se sente. Por isso, já não é estranho que boa parte das pessoa acredite estar amando somente enquanto experimenta alguma sensação de prazer ou satisfação. E nem lhes passa pela cabeça que talvez a sua forma de "amar" seja não só a causa de seus sofrimentos, mas também uma manifestação de egoísmo.

Mas, afinal, o que significa amar de verdade? Como sair de si mesmo, fazendo pouco caso dos próprios interesses, quase sempre mesquinhos e fúteis, e passar a querer apenas o bem do amado, mesmo que dele nada se receba em troca?

É o que o Padre Paulo Ricardo explica neste novo vídeo do nosso projeto dedicado especialmente à família.

Se você tem passado por um problema semelhante ou conhece alguém que não se sinta correspondido, não deixe de compartilhar esse conteúdo. Ajude-nos a evangelizar e a divulgar #ComoSerFamilia!

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| Categoria: Espiritualidade

Ser cristão, uma fecunda "perda de tempo"

​A uma sociedade que abandonou a fé e considera um "desperdício" ser cristão, a grande Santa Teresinha do Menino Jesus tem uma resposta a oferecer.

O vocalista da banda de rock AC/DC, Brian Johnson, considera todas as religiões "uma perda de tempo". O músico é parte de uma cultura que relegou a fé, a metafísica e a transcendência para o segundo plano, como se fossem temas pouco importantes – quando não "fantasiosos". É a geração que acredita que "Deus morreu", que não sabe – ou não quer – rezar porque não está na moda, e que vive, em última instância, sem um sentido pelo qual viver. Tragicamente, antes de acharem que os religiosos perdem tempo indo à igreja, para eles, só o fato de viver já é uma grandíssima perda de tempo.

A palavra "perda", no entanto, não é totalmente estranha ao vocabulário dos Evangelhos. Deixando de lado a descrença e a provocação de Brian Johnson, é preciso concordar que o seguimento de Jesus comporta uma certa renúncia, não só do tempo que se tem, mas de todas as coisas. É o próprio Senhor quem o ensina:

"Quem ama pai ou mãe mais do que a mim, não é digno de mim. E quem ama filho ou filha mais do que a mim não é digno de mim. E quem não toma a sua cruz e não me segue, não é digno de mim. Quem buscar sua vida a perderá, e quem perder a sua vida por causa de mim a encontrará." (Mt 10, 37-39)

"Todo aquele que tiver deixado casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, filhos ou campos, por causa do meu nome, receberá cem vezes mais e terá como herança a vida eterna." (Mt 19, 29)

"Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz, cada dia, e siga-me. Pois quem quiser salvar sua vida a perderá, e quem perder sua vida por causa de mim a salvará." (Lc 9, 23-24)

"Se alguém vem a mim, mas não me prefere a seu pai e sua mãe, sua mulher e seus filhos, seus irmãos e suas irmãs, e até à sua própria vida, não pode ser meu discípulo." (Lc 14, 26)

"Quem se apega à sua vida, perde-a; mas quem não faz conta de sua vida neste mundo, há de guardá-la para a vida eterna." (Jo 12, 25)

Não se pode enganar as pessoas "maquiando" ou adaptando as partes mais duras do ensinamento de Cristo. As exigências da fé cristã são, de fato, muito sérias. O amor que Nosso Senhor pede por parte dos que desejam segui-Lo chega a soar escandaloso: é preciso preferi-lo aos próprios parentes, à própria esposa, à própria vida!

O que não se pode perder de vista é o precioso tesouro escondido no campo (cf. Mt 13, 44), a razão que faz com que tantos homens e mulheres, de todos os povos e nações, de todas as raças e línguas, vendam tudo o que têm, deixem tudo o que possuem e transformem tudo o que são, só para se fazerem cristãos. Ao lado da perda que traz consigo o seguimento do Evangelho, há um ganho infinitamente superior e absolutamente incomparável: a amizade de Deus nesta vida e a felicidade perfeita no Céu.

Santa Teresinha do Menino Jesus sabia muito bem disso. Em um de seus poemas, ela dialoga com o Evangelho, na parte em que Maria de Betânia lava os pés do Senhor com "perfume de nardo puro e muito caro". O discípulo traidor, ao ver tamanho "desperdício", comenta: "Por que esse perfume não foi vendido por trezentos denários para se dar aos pobres?" ( Jo 12, 5). Santa Teresinha põe essa mesma indagação na boca do mundo e compõe os belos versos seguintes:

"Vivre d'Amour, quelle étrange folie!"
Me dit le monde, "Ah! cessez de chanter,
e perdez pas vos parfums, votre vie,
Utilement sachez les employer!..."
T'aimer, Jésus, quelle perte féconde!...
Tous mes parfums sont à toi sans retour,
Je veux chanter en sortant de ce monde:
"Je meurs d'Amour!"

"Viver de Amor, que estranha loucura!"
Diz-me o mundo: "Ah, cessa de cantar,
não percas teus perfumes, tua vida,
Utilmente procura empregá-los!..."
Amar-te, Jesus, que perda fecunda!...
Todos meus perfumes são teus sem retorno,
Eu vou cantar ao sair deste mundo:
"Eu morro de Amor!" [1]

Amar Jesus, diz Santa Teresinha, é uma perte féconde, uma "perda fecunda". Não há nada maior com que gastar os nossos anos, o breve tempo que se nos afigura nesta vida, que com o amor de Deus, porque, no final, Ele será o único que nos restará, a melhor parte, que não nos será tirada (cf. Lc 10, 42). A "perda de tempo" dos que amam a Deus é, portanto, o "santo desperdício" de quem ganha a eternidade!

Não temamos, pois, "perder o nosso tempo" com as coisas de Deus! Gastar as nossas horas diante do Santíssimo Sacramento, com o Santo Rosário, com as conversações celestes! "Desperdiçar" a nossa juventude "confinado" em uma igreja ou "aprisionado" em casa com a própria família! Tenhamos sempre diante dos olhos Aquele que é o motivo de nossas loucuras ( folies), na certeza da fé de que Deus sabe recompensar os que O amam e n'Ele esperam [2]; de que, como diz o Papa Bento XVI, quem escolhe Jesus não perde nada, ganha tudo [3]!

Lembremo-nos também que não fomos nós, na verdade, quem O amamos primeiro, mas Ele; não somos nós quem subimos, com nossas próprias forças, ao Céu, mas é Ele quem desce a nós.

Amemo-Lo, pois, amemo-Lo com todas as forças de nossa alma. "Se nos custava antes amá-Lo, não nos custe agora retribuir-Lhe o amor" [4], diz Santo Agostinho. Pensemos em todos os bofetões, cusparadas, flagelos e espinhos que o próprio Deus sofreu por nossa causa e simplesmente consolemos o Seu Coração, rendamos-Lhe a nossa gratidão. E, um dia, com Santa Teresinha, no Céu, possamos também nós cantar que perdemos fecundamente a nossa vida, vivendo – e morrendo – de Amor!

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Poesia 17 ("Viver de Amor").
  2. A fé como meio de alcançar a graça do Espírito Santo, 7. In: Introdução ao Cristianismo. Acesso em: 26 nov. 2015.
  3. Cf. Homilia na Missa de Coroação e início do pontificado (24 de abril de 2005).
  4. De Catechizandis Rudibus, IV, 7 (PL 40, 314).

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Cuidado se você não sofre tentações!

São melhores as amarguras e as provações da batalha, que preparam o Céu, à paz e à tranquilidade deste mundo, que pavimentam a estrada para o inferno.

Uma famosa oração, atribuída a Santo Agostinho, e rezada por quem se prepara para a Santa Escravidão a Nossa Senhora, possui uma frase digna de profunda meditação: “Ó Jesus, anátema seja quem não Vos ama. Aquele que não Vos ama seja repleto de amarguras."

Mas, desde quando os santos rezam a Deus pedindo que as pessoas fiquem amarguradas?

Qual é, afinal, o sentido dessas palavras de Agostinho, aparentemente tão severas?

O desejo desse doutor da Igreja é bem simples: que os homens amem a Deus!

E ninguém pense que se trata de uma petição qualquer. As palavras de Agostinho – que não fazem mais que ecoar as do próprio Cristo no Pai Nosso – são a coisa mais importante e valiosa que se pode pronunciar em favor daqueles que se ama. Pois, que bem maior podemos dar aos que amamos, senão Deus mesmo, o único que pode trazer felicidade ao nosso coração? Nenhum bem deste mundo pode saciar a nossa alma e, ainda que pudesse, a morte o levaria embora e o tiraria de nossas mãos... Deus, ao contrário, não só alegra os Seus nesta vida, como lhes reserva uma eternidade ao Seu lado.

A condição para gozar dessa bem-aventurança eterna é uma só: amar a Deus. Por isso, diz São Paulo: "Para aqueles que O amam, Deus preparou coisas que nenhum olho viu, nem ouvido ouviu e nem coração jamais pressentiu" (1 Cor 2, 9).

São muitas, todavia, as coisas que nos afastam dessa divina recompensa, e uma delas são as falsas alegrias do mundo, que substituem o lugar de Deus e nos fazem esquecer d'Ele.

É por isso que, no decorrer de nossa vida, somos assaltados por tantas dificuldades, tristezas, perdas e acidentes – aquilo que as pessoas comumente chamam de "desgraças", embora a única verdadeira desgraça nesta e na outra vida seja estar afastado de Deus. Todas essas coisas, se vivemos na graça da amizade com Cristo, não devem nos preocupar, já que "tudo concorre para o bem dos que O amam" (Rm 8, 28). Mas, se, ao contrário, vivemos na desgraça do pecado, sem desejo de nos emendarmos e mudarmos de vida, tudo o que nos acontece serve-nos como castigo.

Não nos impressionemos! Embora isso não se ouça mais dos púlpitos de nossas igrejas e certos pregadores cheguem a dizer o contrário, é verdade que Deus castiga. Às vezes, Ele permite que os males desta vida nos visitem, não por ódio ou maldade, mas justamente porque Ele nos ama e quer a nossa salvação! Afinal, qual é o pai que, vendo o seu filho afastar-se e correr velozmente em direção ao abismo, não prefere que ele se acidente, a vê-lo precipitar-se no fosso? Qual é o pai que, vendo o seu filho destruir-se no mundo das drogas, não procura intervir de alguma forma, mesmo que o remédio às vezes lhe doa?

É por isso que Santo Agostinho reza pedindo: "Aquele que não Vos ama seja repleto de amarguras."

Sim, Senhor, que sejamos repletos de amarguras, enquanto não Vos amarmos por inteiro! Que sejamos repletos de angústias e tristezas, só para que procuremos a única e verdadeira alegria de nossa alma, que sois Vós! Que percamos o que for preciso, só para ganhar a única e verdadeira riqueza, que sois Vós! Que morramos para este mundo e percamos a própria saúde, só para ganhar a única e verdadeira vida, que sois Vós!

E assim, em coro, unamo-nos a Santo Agostinho e a todos os santos de Deus, em ação de graças pelas cruzes e sofrimentos que nos visitam e nos convidam à conversão. Alegremo-nos verdadeiramente com as santas amarguras que o Senhor nos manda, porque também elas são um sinal do Seu grande amor por nós.

Ao contrário, comecemos a preocupar-nos quando, mesmo em nossa infidelidade e impenitência, tudo estiver aparentemente tranquilo e estivermos levando uma vida pacífica e confortável, sem as provações de Deus – nem as tentações do demônio [*]. É o terrível sinal de que já fomos comprados pelo mal e que, por isso, nem mesmo o diabo precisa nos tentar mais.

"Cuidado se você não sofre tentações!", advertia o Santo Cura de Ars. "Talvez você ache que as pessoas que são mais tentadas, são indubitavelmente, os beberrões, os provocadores de escândalos, as pessoas imodestas e sem vergonha que deitam e rolam na sujeira e na miséria do pecado mortal, que se enveredam por toda espécie de maus caminhos. Não, meu caro irmão! Não são essas pessoas!"

"As pessoas mais tentadas – continua São João Maria Vianney – são aquelas que estão prontas, com a graça de Deus, a sacrificar tudo pela salvação de suas pobres almas, que renunciam a todas as coisas que a maioria das pessoas buscam ansiosamente. E não é um demônio só que as tenta, mas milhões de demônios procuram armar-lhes ciladas."

Prefiramos, pois, as amarguras e tentações da batalha, que preparam o Céu, à paz e à tranquilidade deste mundo, pois são elas que pavimentam a estrada para o inferno.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere


* Para uma distinção teológica entre as "provações", que vêm de Deus, e as "tentações", que vêm do demônio, vale a pena ler o Comentário de Santo Tomás de Aquino ao Pai Nosso, n. 78-80, tratado do qual, aliás, se pode tirar grande proveito espiritual.

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Por que a 'educação sexual' não é a solução

Em um mundo tomado pela pornografia e pela sexualização cada vez mais precoce, não resta outro caminho senão educar os jovens para o amor.

Falou-se aqui, há alguns dias, que a pornografia está construindo a "cultura do estupro". É que os homens, imersos no universo do sexo pornográfico, olham para o ato sexual cada vez mais como uma "oportunidade". O que interessa é alcançar o clímax sexual, sejam quais forem os meios. Nessa lógica, as mulheres – que deveriam ser as suas companheiras de vida, respeitadas e amadas – se convertem em mero "instrumento" para a obtenção de um prazer fácil e passageiro.

Transformadas, assim, em objeto de satisfação do ego masculino, a sua dignidade e liberdade são abusivamente jogadas na lata do lixo – primeiro, na mente masculina, deformada pela constante exposição a material pornográfico; depois, na vida real, por meio de abusos concretos. Não existe fronteira que separe o território da pornografia do império da violência.

A pergunta é – e é este o tema deste texto: como solucionar esse problema? No mesmo artigo publicado em The Telegraph, falando sobre a ruína total da adolescência por conta da pornografia, Claire Lilley oferece uma sugestão perigosa para o problema. Para a ativista britânica, cabeça da NSPCC (sigla em inglês para "Sociedade Nacional de Prevenção à Crueldade com Crianças"), o governo deveria ser acordado "para assegurar que os jovens recebam lições claras sobre relações sexuais saudáveis".

A jornalista Allison Pearson, comentando a ideia de Lilley, faz notar, ironicamente, que, no enfrentamento desse problema, de nada adiantam "demonstrações de como colocar camisinha em uma banana".

As suas palavras acendem um alerta para o mundo e fazem recordar um ensinamento da Igreja para o qual o mundo virou as costas. Em 2009, durante viagem a África, o Papa Bento XVI foi questionado se o modo de a Igreja enfrentar a AIDS não era "irrealista e ineficaz", ao que ele afirmou que não se pode superar os problemas relacionados à sexualidade simplesmente com "a distribuição de preservativos". Ao contrário – dizia ele –, eles só "aumentam o problema" [1].

Escândalo! Quando o Papa ousou dizer o óbvio – já atestado inclusive por um especialista no assunto –, o mundo ocidental rasgou as vestes. Mas é isso mesmo. Não se pode simplesmente descartar "as verdades resultantes do conhecimento natural (...), mesmo que essas verdades sejam contemporaneamente ensinadas por uma religião específica, pois a verdade é uma só" [2]. Não é preciso ser católico para reconhecer que uma capa de látex não é solução nenhuma para a decadência moral da sociedade.

Também é muito fácil perceber por que distribuir camisinhas só faz aumentar o problema da degradação sexual. Sem "uma humanização da sexualidade", que renove o homem espiritualmente e "inclua um novo modo de comportar-se um com o outro" [3], a camisinha só torna mais fácil a conquista do prazer venéreo, sem que ele esteja ligado a nenhuma consequência. O preservativo é um material que diz: "Eu uso você, depois me levanto e vou embora". Pode até preservar o casal envolvido de ter um filho ou pegar uma DST, mas não preserva o casal da chaga do egoísmo, nem evita que o ser humano seja destruído em sua dignidade. É apenas uma solução aparente e externa para um problema muito mais profundo, que diz respeito à própria alma humana.

Qual a salvação, então? – alguém perguntará. – Aulas de "educação sexual"? – Absolutamente, não. Ninguém precisa "aprender a fazer sexo". Nenhum ser humano – muito menos uma criança – precisa ser exposto a professores "colocando camisinhas em bananas" ou ensinando a masturbação, sob o pretexto de "prevenção" ou conhecimento do próprio corpo. As pessoas não são descartáveis, sexo não é parque de diversões e, acrescente-se, escolas não são para isso.

O que o homem precisa é ser educado para o amor. É aprender de seu pai como se deve tratar uma dama e sustentar uma família; é receber de sua mãe como se deve ornar o próprio corpo e cuidar do seu lar; é ver na sua casa o sentido por trás de toda a sexualidade humana. Porque o homem não é um animal como qualquer outro. Para além de seu corpo, existe nele uma alma, alma esta que, sem amor, jamais poderá ser plenamente saciada.

A despeito de uma sociedade que considera "normal" vender o próprio corpo e de uma cultura que vulgarizou o sexo e esvaziou totalmente o significado do amor, urge resistir valorosamente, ensinando às crianças – principal e primeiramente dentro de casa – que o mundo real, criado por Deus, não é como ensinam os filmes de Hollywood ou as novelas da Rede Globo. Os jovens precisam descobrir, desde a mais tenra idade, a equação divina inscrita no coração do homem: sexo é sinônimo de família.

Por isso, a solução para o mal da pornografia e para a banalização da sexualidade só tem um nome: família. Enquanto os laços familiares não forem restaurados, não será possível tirar a humanidade do lamaçal de pecado e destruição em que ela se encontra. Que ressoe bem forte nos corações dos pais e educadores o apelo vibrante do Papa São João Paulo II: "Família, torna-te aquilo que és!" [4].

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Vale a pena assistir, também sobre este assunto, à Aula ao Vivo n. 75: Educação sexual das crianças e adolescentes.

Referências

  1. Papa Bento XVI, Entrevista aos jornalistas durante viagem aérea para a África (17 de março de 2009).
  2. Congregação para a Doutrina da Fé, Nota sobre algumas questões relativas à participação dos católicos na vida política (24 de novembro de 2002), n. 6.
  3. Papa Bento XVI, Entrevista aos jornalistas durante viagem aérea para a África (17 de março de 2009).
  4. Papa João Paulo II, Exortação Apostólica Familiaris Consortio (22 de novembro de 1981), n. 17.

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Lembre-se de quem você é

O homem não pode verdadeiramente declarar-se filho de Deus sem uma "determinada determinação" de tornar-se santo como o Pai é santo

A filiação divina é o fundamento da vida cristã. O ministério público de Jesus inicia-se com estas palavras: "Eis meu Filho muito amado em quem ponho minha afeição" (Mt 3, 17). Essa é a novidade trazida pela encarnação de Cristo. Ao entregar seu único filho, a fim de que por Ele se operasse a redenção do gênero humano, Deus manifestou sua profunda essência paterna. Diferentemente do que apregoava Ário, nunca houve um tempo em que Deus não foi pai. Com efeito, é seu querer fazer que o homem atinja a perfeição cristã, conduzindo-o pelo caminho do amor, da fé e da esperança, até o dia em que o reunirá "e o apertará sobre seu seio" (cf. Is 40, 10-17).

O reconhecimento da paternidade divina, por sua vez, exige uma urgente mudança de vida. O homem não pode verdadeiramente declarar-se filho de Deus sem uma determinada determinação — como dizia Santa Teresa d'Ávila — de tornar-se santo como o Pai é santo [1]. Não pode servir a dois senhores. A santidade deve ser nossa única meta nesta vida. Todavia, para que possamos atingi-la, é necessário o auxílio da graça. Amamos com o amor de Deus. A lógica da santidade cristã, portanto, é esta: Deus me ama (pela fé, cremos no seu amor), eu amo Deus (pela caridade, devolvo seu amor a Ele e ao próximo). E isso se realiza mediante a esperança. Esperamos em Deus a purificação de nossas faltas para que possamos urgentemente amá-lO "em espírito e em verdade" (Jo 4, 24). Pois "quem pôs a sua esperança em Cristo vive dela, e traz já em si mesmo algo do gozo celestial que o espera" [2].

A consciência de que, pelo batismo, somos filhos de Deus — e, por isso, chamados a uma dignidade superior — revela-nos a nós mesmos. Assim, quem se esquece da paternidade divina, esquece sua própria identidade. No clássico-infantil O rei leão, enxergamos essa realidade, de maneira alegórica, na cena em que o pai de Simba, Mufasa, aparece nas nuvens para recordar a condição real do filho. Após um olhar profundo para o lago onde vê o rosto do pai — que poderíamos encarar como o olhar profundo para nossa alma —, Simba escuta a vós de Mufasa, que lhe diz: "You have forgotten me, / you have forgotten who you are and so forgotten me. / Look inside yourself. / You are more than what you have become. / You are my son. / Remember who you are. — Você se esqueceu de mim, / você esqueceu quem você é e se esqueceu de mim / Olhe para dentro de você. / Você é muito mais do que pensa que é. / Você é meu filho. / Lembre-se de quem você é". Guardadas as devidas proporções, as palavras do personagem infantil ajudam-nos a recordar a exortação de um grande santo da Igreja, a saber, São Leão Magno: "Reconhece, ó cristão, a tua dignidade. Uma vez constituído participante da natureza divina, não penses em voltar às antigas misérias da tua vida passada. Lembra-te de que cabeça e corpo és membro" [3].

De fato, Deus nos ama. É justamente essa a razão pela qual, na oração do Pai-Nosso, Jesus se dirige a Ele não só pelo pronome "Pai"; Ele diz "Abba, Pai", que em hebraico significa "papai". Com esta expressão, Jesus demonstra seu livre abandono, sua confiança filial. Faz-se como uma criança. "Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai celestial dará o Espírito Santo aos que lho pedirem" (Lc 11, 13). Mesmo no pecado, Deus não nos abandonou à própria sorte, não deixou a ovelha perdida. Ao contrário, enviou seu próprio Filho para nos revelar a sua face e tornar-nos participantes de sua glória.

"Na tarde desta vida, aparecerei diante de vós de mãos vazias" [4]. Nesta frase, com a qual Santa Teresinha do Menino Jesus fez sua livre oferenda ao amor misericordioso, encerra-se toda a doutrina da filiação divina. Quem tem a Deus por Pai não pode ser outra coisa senão uma alma confiante. Ela, embora saiba o valor dos méritos, não procura ser amada por eles, mas unicamente pela graça do Pai. Não procura recompensas nem honrarias. Procura somente o amor. Sabe-se uma pequena ave, um fraco passarinho que, ficando em seu posto, não se aflige "se nuvens escuras vierem esconder o Astro de Amor", pois "sabe que além das nuvens seu Sol brilha sempre, que seu brilho não poderia ser eclipsado um só instante" [5]. Assim, voa para seu querido Sol nas asas de suas irmãs águias.

Os grandes santos da Igreja, a exemplo de Santa Teresinha, foram forjados sobretudo pela paternidade divina. Eles receberam o amor do Pai e, acolhendo-o em seu coração, sentiram a força para levar a mensagem salvífica até os confins do mundo. Em especial, mais do que qualquer outro santo, a Virgem Maria soube acolher a paternidade de Deus-Pai para ser a Mãe de Deus-Filho e, desse modo, cooperar para a redenção do gênero humano. Benditos são, portanto, aqueles que acreditam no amor de Deus.

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Referências

  1. Mt 5, 1-12.
  2. FERNÁNDEZ-CARVAJAL, Francisco. Falar com Deus: meditações para cada dia do ano. Vol. 7º: Festas litúrgicas e Santos (2). Índices. Julho-dezembro — 3ª ed. — São Paulo: Quadrante, 2005, pág. 186
  3. Catecismo da Igreja Católica, 2784
  4. Teresa de Lisieux, Oferenda ao amor misericordioso
  5. Manuscrito B, 5r

| Categoria: Espiritualidade

Amor: matar ou morrer?

A identidade do amor autêntico está estampada na Cruz: quando se ama, não se mata, mas, verdadeiramente, se morre

O amor entre o homem e a mulher, firmado desde o princípio como união indissolúvel[1] e antes de ser elevado por Cristo à dignidade de sacramento, foi, de algum modo, perturbado pelo pecado original. As consequências da desobediência do homem afetaram profundamente a comunhão conjugal. "Multiplicarei os sofrimentos de teu parto; darás à luz com dores, teus desejos te impelirão para o teu marido e tu estarás sob o seu domínio"[2], diz Deus à primeira mulher. Assim, "sua atração mútua, dom do próprio Criador, transforma-se em relações de dominação e cobiça"[3] e aquele projeto primeiro do Criador, ainda subsistente, encontrou um inimigo na própria carne, deformada pelo mal.

A simples observação da realidade faz notar que as desordens entre homem e mulher "parecem ter um caráter universal"[4]. A literatura bíblica oferece o exemplo de Susana, que, coagida por dois anciãos, foi vítima de falso testemunho e quase morreu injustamente. O escritor sagrado diz que "os dois anciãos, que a observavam (...), puseram-se a desejá-la", "perverteram assim a sua mente e desviaram seus próprios olhos, de modo a não olharem para o Céu e não se lembrarem dos seus justos julgamentos"[5].

Na peça "Titus Andronicus", de William Shakespeare, os corações de outros dois homens – Demetrius e Chiron – também são corrompidos pelo desejo de dominação. Ao revelar o seu plano de possuir Lavínia, Demetrius diz os seguintes versos: " She is a woman, therefore may be woo'd; / She is a woman, therefore may be won; / She is Lavinia, therefore must be loved. – Ela é mulher, deve ser cortejada; / Ela é mulher, deve ser conquistada; / Ela é Lavínia, e deve ser amada"[6]. A verdade de que a mulher deve ser "cortejada, conquistada, amada" serve, aqui, de pretexto para a defesa de um amor egoísta e cruel, como se vê ao longo da tragédia. Após estuprar Lavínia, os dois godos cortam-lhe a língua e as mãos, mostrando que "a aparente exaltação do corpo pode bem depressa converter-se em ódio à corporeidade", como indica o Papa Bento XVI:

"O eros degradado a puro 'sexo' torna-se mercadoria, torna-se simplesmente uma 'coisa' que se pode comprar e vender; antes, o próprio homem torna-se mercadoria. Na realidade, para o homem, isto não constitui propriamente uma grande afirmação do seu corpo. Pelo contrário, agora considera o corpo e a sexualidade como a parte meramente material de si mesmo a usar e explorar com proveito. Uma parte, aliás, que ele não vê como um âmbito da sua liberdade, mas antes como algo que, a seu modo, procura tornar simultaneamente agradável e inócuo. Na verdade, encontramo-nos diante duma degradação do corpo humano, que deixa de estar integrado no conjunto da liberdade da nossa existência, deixa de ser expressão viva da totalidade do nosso ser, acabando como que relegado para o campo puramente biológico."[7]

Ao contrário do que sucedeu a Lavínia – e quase aconteceu a Susana –, a mulher não deve ser subjugada, mas verdadeiramente amada, em sua integridade e liberdade. O esposo do Cântico dos Cânticos, por exemplo, refere-se à sua esposa como a um "jardim fechado", uma "fonte lacrada"[8]. O bem-aventurado João Paulo II, ao comentar esse trecho das Escrituras, escreve que essas metáforas indicam que o homem está disposto a receber sua mulher como "dona de seu próprio mistério"[9]. "Se o amante quer entrar nesse 'jardim' e participar do mistério da mulher, não pode invadi-lo à força ou tentar arrombar a porta"[10], como fizeram os dois anciãos do livro de Daniel[11], mas, esperar o "sim", imagem do consentimento matrimonial, dado livremente pela mulher: "Eu sou do meu amado"[12].

O amor que Deus tem pelo homem, respeitando a sua liberdade, esperando com paciência o seu "sim", é a imagem da comunhão que deve existir entre o homem e a mulher. A partir da redenção de Cristo, este amor chega ao grande sacrifício da Cruz, no qual está estampada a identidade do autêntico "amor livre": quando se ama, não se mata, mas, verdadeiramente, se morre.

Os relatos trágicos de "amores" humanos advindos de uma liberdade mutilada demonstram até onde o homem pode chegar, fechando-se em si mesmo; ao contrário, o retrato de até onde ele pode chegar, com Deus, não se encontra frequentemente na literatura comum, senão na vida dos santos. É no exemplo de suas vidas que se manifesta o excelso modelo do matrimônio: o amor esponsal de Cristo por Sua Igreja.

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Referências

  1. Cf. Gn 2, 24
  2. Gn 3, 16
  3. Catecismo da Igreja Católica, parágrafo 1608
  4. Catecismo da Igreja Católica, parágrafo 1606
  5. Dn 13, 8-9
  6. Original disponível na íntegra, Act II, Scene I. Cf. SHAKESPEARE, William. Tragédias e comédias sombrias. Trad.: Barbara Heliodora. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2006. p. 46
  7. Papa Bento XVI, Carta encíclica Deus caritas est, 25 de dezembro de 2005, n. 5
  8. Ct 4, 12
  9. Papa João Paulo II, Audiencia General, 30 de maio de 1984, n. 4
  10. Christopher West. Teologia do corpo para principiantes (Trad. Cláudio A. Casasola). Porto Alegre: Editora Myrian, 2008. p. 110
  11. Cf. Dn 13, 16
  12. Ct 6, 3