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Por que se retrata com tanta crueza a Paixão de Cristo?

Muito antes das cenas sangrentas da Paixão segundo Mel Gibson, os artistas antigos já haviam cuidado de representar com dramaticidade os sofrimentos de Cristo. Mas por que retratar assim, afinal, com tanta crueza, as dores de nosso Salvador?

Neste mês de julho, dedicado ao Preciosíssimo Sangue de Cristo, a pintura acima, intitulada A Flagelação e confeccionada em 1729 pelo espanhol Nicolau Enríquez, pode ser para nós uma excelente fonte de meditação.

Muito antes das cenas sangrentas da Paixão segundo Mel Gibson — que tanto escandalizaram os críticos da "sétima arte" —, os artistas antigos já haviam cuidado de representar com dramaticidade os sofrimentos de Cristo, tudo a fim de impressionar seus espectadores e provocar-lhes a compaixão pela dor divina. O trabalho desses homens, portanto, não era simplesmente a "arte pela arte"; o que faziam tinha um sentido duplamente transcendente, pois superava tanto o ofício que eles dominavam quanto a sua própria existência neste mundo: a intenção de suas obras era revelar Deus e fazer despertar nas pessoas o sobrenatural.

Uma breve descrição deste quadro, fornecida pelo site Google Arts & Culture, pode nos ajudar a reparar em seus detalhes:

Ao centro jaz no solo a figura de Cristo que, humilhado sobre um charco de sangue, mostra suas costas totalmente descarnadas por causa dos numerosos golpes que recebe de uma multidão enfurecida. [...] Contrasta nesta tela a óleo a grande quantidade de personagens em movimento com rostos desfigurados pela ira e gestos violentíssimos, os quais, armados de facas, cilícios de pontas metálicas e correntes, açoitam a Cristo sem piedade. Jesus recebe este castigo com resignação e apenas atina a perguntar, através de uma vírgula que brota de sua boca: Quae utilitas in sanguine mea? ("Qual é a utilidade de meu sangue?"), chamando assim a meditar sobre o sentido da redenção.

Jesus está, portanto, sobre "um charco de sangue", com as "costas totalmente descarnadas", cercado de "facas, cilícios de pontas metálicas e correntes". Trata-se, sem dúvida, de uma cena "de grande intensidade e força emotiva". E qualquer semelhança com as cenas mais perturbadoras de "A Paixão de Cristo" não é mera coincidência.

Mas o que levam em conta esses artistas, afinal, para retratar com tanta crueza e morbidez as estações da Via Crucis?

A resposta deve ser encontrada, em primeiríssimo lugar, nas Sagradas Escrituras, especialmente nas predições do Antigo Testamento sobre o Cristo. Na liturgia da Sexta-feira Santa, a Igreja inteira canta, por exemplo, o Salmo 21, do qual é extraída a seguinte imagem:

Quanto a mim, eu sou um verme e não um homem;
sou o opróbrio e o desprezo das nações.
Riem de mim todos aqueles que me veem,
torcem os lábios e sacodem a cabeça. (v. 7-8)

A coluna vertebral de Cristo exposta no quadro faz-nos lembrar imediatamente de outros versículos deste mesmo Salmo, em que o Autor Sagrado diz: "Meus ossos estão todos deslocados" (v. 15); e ainda: " Eu posso contar todos os meus ossos" (v. 18).

Outra leitura proclamada na tarde da Sexta-feira da Paixão é a do profeta Isaías, também repleta de imagens fortíssimas:

Tão desfigurado ele estava que não parecia ser um homem ou ter aspecto humano [...]. Não tinha beleza nem atrativo para o olharmos, não tinha aparência que nos agradasse. Era desprezado como o último dos mortais, homem coberto de dores, cheio de sofrimentos; passando por ele, tapávamos o rosto; tão desprezível era, não fazíamos caso dele. A verdade é que ele tomava sobre si nossas enfermidades e sofria, ele mesmo, nossas dores; e nós pensávamos fosse um chagado, golpeado por Deus e humilhado! (Is 52, 14; 53, 2-4)

Esses versículos, somados aos relatos históricos dos Evangelhos — que narram a prisão, flagelação, coroação de espinhos e crucificação de Nosso Senhor —, são mais do que suficientes para nos colocar diante dos olhos um verdadeiro quadro de "horrores". Se nos fosse possível "torcer" as Escrituras, por assim dizer, teríamos o Preciosíssimo Sangue de Cristo escorrendo de suas páginas.

Ao longo da história da Igreja, no entanto, algumas pessoas também receberam, em continuidade com o "depósito da fé", revelações privadas sobre a Paixão do Senhor. Esse quadro de Nicolau Enríquez, por exemplo, foi feito a partir da obra La mística Ciudad de Dios, de Maria de Jesus de Ágreda. À parte a santidade de sua vida (Maria de Ágreda é ainda venerável) ou a ortodoxia de seus escritos (que alguns põem em questão), é impossível ler o que escreve essa monja sem se comover:

Por ordem, de dois a dois, o açoitaram com tão inaudita ferocidade que, humanamente, não se poderia cogitar, se Lúcifer não tivesse dominado o ímpio coração daqueles seus agentes.

Os dois primeiros açoitaram o inocentíssimo Senhor com cordas muito retorcidas, duras e grossas, empregando neste sacrilégio toda a raiva de sua indignação, e a força de seus músculos. Estes primeiros açoites cobriram todo o corpo deificado de nosso Salvador de grandes manchas roxas e vergões. Ficou entumecido, desfigurado, com o preciosíssimo sangue à flor da pele.

Cansados estes algozes, entraram em cena os dois seguintes. Com correias duríssimas continuaram a flagelação que abriu as esquimoses e vergões feitos pelos primeiros. O sangue divino rebentou, molhou todo o sagrado corpo de Jesus, salpicou as vestes dos sacrílegos esbirros e escorreu até o solo.

Retiraram-se estes verdugos para dar lugar aos terceiros que se serviram de novos flagelos de nervos de animais, quase tão duros como vime seco. Açoitaram o Senhor com maior crueldade, pois feriam nas próprias feridas que os primeiros tinham feito, e porque eram ocultamente instigados pelos demônios enfurecidos com a paciência de Cristo.

Estando rasgadas as veias do sagrado corpo, e todo ele uma só chaga, não encontraram os terceiros verdugos nenhuma parte sã para abrir outras.

Persistindo nos desumanos golpes, rasgaram a imaculada e virginal carne de Cristo nosso Redentor, caindo no solo muitos pedaços. Em muitos pontos das costas os ossos ficaram a descoberto, manchados pelo sangue, alguns na extensão de um palmo.

Para apagar totalmente aquela beleza que excedia a de todos os filhos dos homens (cf. Sl 44, 3), açoitaram-lhe o divino rosto, os pés e as mãos, sem deixar lugar por ferir, até onde puderam desafogar o furor e ódio que haviam concebido contra o inocentíssimo Cordeiro. O divino sangue correu pelo solo, acumulando-se em diversas poças.

Os golpes que lhe deram nos pés, nas mãos e na divina face, foram extremamente dolorosos, por serem estas partes mais nervosas, sensíveis e delicadas. A venerável face ficou entumecida e chagada até cegar os olhos pelo sangue e pelo inchaço. Além de tudo isto, cobriram-na de cusparadas imundíssimas que lhe lançaram juntamente com os golpes, fartando-o de opróbrios.

O número exato dos açoites recebidos pelo Salvador foi cinco mil cento e quinze, desde a planta dos pés até a cabeça. O grande Senhor e autor de toda a criatura, impassível por sua natureza divina, na condição de nossa carne ficou, por nosso amor, transformado em homem de dores, conforme a profecia de Isaías (53, 3), bem capacitado na experiência de nossas enfermidades, o último dos homens, reputado pelo desprezo de todos. [1]

É interessante como essas minúcias coincidem com as revelações de mesma natureza recebidas pela Beata Anna Catarina Emmerich — das quais Mel Gibson lançou mão para filmar "A Paixão de Cristo". Ainda que não devam necessariamente ser aceitas como de fé católica, o Catecismo esclarece, com sabedoria, que "o sentir dos fiéis sabe discernir e guardar o que nestas revelações constitui um apelo autêntico de Cristo ou dos seus santos à Igreja" (§ 67). Artistas como Mel Gibson e como Nicolau Enríquez, inspirados por esse " sentire cum Ecclesia", souberam fazer muito bem, com as obras que produziram, um verdadeiro chamado à conversão e à penitência. Se este não for um "apelo autêntico de Cristo" à sua Igreja, especialmente nestes tempos tenebrosos que atravessamos, nenhum outro é.

Por que retratar com tanta crueza, então, a Paixão de nosso Salvador? Em primeiro lugar, porque foi assim que tudo aconteceu. As Escrituras o atestam e as palavras dos místicos o confirmam, não há por que duvidar.

Uma segunda razão precisa ser levada em conta, porém, e ela diz respeito a nós. É conveniente contemplarmos Jesus assim, sobre "um charco de sangue" e com as "costas totalmente descarnadas", para nos lembrar a gravidade do nosso pecado. Sim, porque foram os nossos pecados — os pecados de todos os homens, de todas as épocas —, os meus pecados — as faltas que eu tenho cometido —, a causa de tanto sofrimento; a causa de o Sangue de Deus ter sido tão abundantemente derramado!

E, se é assim, se Cristo morreu de forma tão terrível — como Nicolau Enríquez pintou ou como Mel Gibson dramatizou —, então os nossos pecados têm uma dimensão que ainda não somos capazes de precisar adequadamente. Se foi por causa de nossas blasfêmias, de nossas impurezas e de nossa preguiça que morreu Jesus… em que grande erro incorrem aqueles que tratam o pecado como uma trivialidade! Se o preço de nossa libertação é o Sangue caríssimo de um Deus — de dignidade infinita —, com que cuidado deveríamos evitar o pecado e com que lágrimas de arrependimento não deveríamos chorar os que já cometemos! Se as carnes de Cristo foram arrancadas para nos salvar, a ponto de deixar expostos os seus ossos…!, com que cuidado não devemos zelar por conservar a nossa alma em estado de graça! Sic nos amantem — canta um hino de Natal — quis non redamaret? A quem nos amou tanto assim, como não amar de volta?

Seja este, portanto, o nosso principal objetivo nesta vida: corresponder ao amor apaixonado de Deus, que chega a fazer-se homem e derramar o próprio Sangue para ver-nos consigo, um dia, no Céu. Se até aqui temos sido inconstantes na vida da graça, mornos em nossa conduta, relapsos em nossos exames de consciência, é hora de reagirmos! Ouçamos enfim a voz do Sangue mais eloquente que o de Abel (cf. Hb 12, 24), e clamemos por misericórdia:

Sangue de Jesus, manando abundante na flagelação,
salvai-nos!

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referência

  1. Soror Maria de Ágreda. Mística cidade de Deus (trad. brasileira de Irmã Edwiges Caleffi), t. 3, l. 6, c. 20, n. 1339-1340. 2. ed. Ponta Grossa, Mosteiro Portaceli, 2000, p. 353.

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Por ti, eu, o teu Deus, me tornei teu filho

Foi para salvar o homem de seus pecados que o próprio Deus se submeteu a humilhações e a uma execução pública.

De uma antiga homilia no grande Sábado Santo:

"Por ti, eu, o teu Deus, me tornei teu filho; por ti, eu, o Senhor, tomei tua condição de escravo. Por ti, eu, que habito no mais alto dos céus, desci à terra e fui até mesmo sepultado debaixo da terra; por ti, feito homem, tornei-me como alguém sem apoio, abandonado entre os mortos. Por ti, que deixaste o jardim do paraíso, ao sair de um jardim fui entregue aos judeus e num jardim, crucificado.

Vê em meu rosto os escarros que por ti recebi, para restituir-te o sopro da vida original. Vê na minha face as bofetadas que levei para restaurar, conforme à minha imagem, tua beleza corrompida.

Vê em minhas costas as marcas dos açoites que suportei por ti para retirar de teus ombros o peso dos pecados. Vê minhas mãos fortemente pregadas à árvore da cruz, por causa de ti, como outrora estendeste levianamente as tuas mãos para a árvore do paraíso.

Adormeci na cruz e por tua causa a lança penetrou no meu lado, como Eva surgiu do teu, ao adormeceres no paraíso. Meu lado curou a dor do teu lado. Meu sono vai arrancar-te do sono da morte. Minha lança deteve a lança que estava dirigida contra ti.

Levanta-te, vamos daqui. O inimigo te expulsou da terra do paraíso; eu, porém, já não te coloco no paraíso mas num trono celeste. O inimigo afastou de ti a árvore, símbolo da vida; eu, porém, que sou a vida, estou agora junto de ti. Constituí anjos que, como servos, te guardassem; ordeno agora que eles te adorem como Deus, embora não sejas Deus.

Está preparado o trono dos querubins, prontos e a postos os mensageiros, construído o leito nupcial, preparado o banquete, as mansões e os tabernáculos eternos adornados, abertos os tesouros de todos os bens e o reino dos céus preparado para ti desde toda a eternidade."

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

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Homilia de Missa Votiva do Preciosíssimo Sangue de Cristo

Não foi por bens perecíveis, como a prata e o ouro, que fomos resgatados de nossa vã maneira de viver, mas pelo precioso sangue de Cristo.

O calendário da liturgia antiga dedicava o dia 1.º de julho à Festa do Preciosíssimo Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. Mesmo após a reforma litúrgica, no entanto, é bastante salutar que mantenhamos viva esta devoção, cuja origem consta nas próprias Escrituras:

"Porque vós sabeis que não é por bens perecíveis, como a prata e o ouro, que tendes sido resgatados da vossa vã maneira de viver, recebida por tradição de vossos pais, mas pelo precioso sangue de Cristo." ( 1 Pd 1, 18)

Para saber em que consiste esse culto e como podemos vivê-lo de maneira plena, divulgamos a você esta homilia especial feita pelo Padre Paulo Ricardo durante Missa votiva do Preciosíssimo Sangue de Nosso Senhor — Missa rezada na manhã de hoje, na Paróquia Cristo Rei, de Várzea Grande (MT).

Escute e aprofunde-se no mistério do sangue precioso que comprou a nossa salvação:

Para fazer download desta homilia, basta clicar aqui.

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Muito mais do que um memorial

Na Santa Missa, nós não só assistimos a um memorial, mas somos elevados à participação na natureza divina. Não só choramos a morte de Cristo, mas recebemos os frutos de Seu sacrifício de amor em nossa própria vida.

Quem quer que se detenha a contemplar por alguns minutos uma imagem do Senhor Morto — aquela tradicionalmente levada em procissão na noite da Sexta-feira Santa — não pode deixar de trazer à mente a imagem de um funeral. Quando sentimos saudades de alguém que já passou desta para a outra vida, é o seu corpo que vamos visitar no cemitério, como se os restos mortais de quem amamos pudessem, de alguma forma, trazer novamente a presença de quem se foi.

Durante "o grande silêncio" que pairava sobre a Terra naquela fatídica tarde do primeiro Sábado Santo, a religião cristã parecia fadada a um desfecho mais ou menos parecido: com Jesus morto, não restaria nada aos Seus seguidores, senão o luto — as lágrimas pela morte de mais um profeta e por promessas ainda em vista de se cumprirem — e o "amargo consolo" de possuir um cadáver trancado num sepulcro. Os eventos que se seguiram, no entanto, fugiam completamente de quaisquer roteiros humanos. Aquele corpo que mal acabara de ser descido da Cruz, frio, pálido, coberto pelas mais ignominiosas chagas, milagrosamente ressuscitou dos mortos; apareceu várias vezes aos discípulos de Cristo, vivo, resplandecente, glorioso; ascendeu prodigiosamente aos céus, à vista deles; e, por fim, se foi.

A um olhar desatento, essa privação poderia parecer um mal. Sim, o túmulo é uma lembrança "amarga", mas é melhor do que nada. Não é coisa muito dura que Cristo tenha subido aos céus e privado os Seus amigos de Sua presença física? Não seria melhor que ficasse em nosso meio para sempre?

A resposta para essas perguntas precisa ser medida de acordo com outros dados da Revelação. Santo Tomás de Aquino, por exemplo, diz que, "embora os fiéis, pela ascensão, tenham sido privados da presença corporal de Cristo, sua presença divina é constante entre os fiéis" [1]. Ele mesmo tinha prometido ficar conosco "todos os dias, até a consumação dos tempos" (Mt 28, 20). O que acontece é que muitas vezes nos esquecemos do modo admirável como Cristo permanece em nosso meio. Antes mesmo de morrer, Ele deixou aos que O amam um memorial que é, ao mesmo tempo, Sua presença viva e real. O seu nome é Eucaristia.

Em toda Santa Missa, pelas palavras da consagração — que repetem as que Jesus pronunciou na Última Ceia —, Ele mesmo desce de novo dos céus, escondendo-se sob as aparências do pão e do vinho, para a adoração e o alimento dos fiéis. Ninguém precisa esperar a Sexta-feira Santa para relembrar o sacrifício de Cristo — nem mesmo de uma escultura do corpo do Senhor. Ele está em toda Santa Missa, deitado sobre o altar; Ele está em todo tabernáculo, acessível a quem O quiser adorar.

Essa é uma realidade extraordinária, que deveria fazer arder o nosso coração, mas — como tudo o que é sagrado e grandioso — também corre o risco de ser obscurecida ou até mesmo impiedosamente negada.

É o que acontece quando as pessoas responsáveis pela liturgia, ignorando o devido valor que tem a Santa Missa, pretendem inovar e apresentar "alguma coisa diferente" à comunidade. Num domingo, é um teatro para encenar uma passagem do Evangelho; noutro, uma dança para levar a Bíblia ou as oferendas; noutro, uma campanha de conscientização política sobre o que quer que seja. Enquanto isso, o Senhor dos senhores, o Rei dos reis, o "Assunto dos assuntos", está esquecido na mesa do altar, como se fosse apenas mais um, e não o próprio centro da celebração. É como se fôssemos a um funeral e nos esquecêssemos qual a verdadeira finalidade do que está acontecendo: fazer memória.

Alguém poderá dizer que a Missa não é um funeral. É verdade, não é, mas se trata do memorial da morte do Senhor e da atualização do Seu sacrifício no Calvário, de modo que, diz o Santo Padre Pio de Pietrelcina, é preciso assistir a ela como São João e a Virgem Maria assistiram ao sacrifício da Cruz. Existe, é certo, uma radiante alegria na alma do cristão que vai à Missa, principalmente por saber que Cristo está vivo e ressuscitado. Ao mesmo tempo, porém, ele sabe que isso não lhe dá licença para banalizar. Jesus está em nosso meio verdadeiramente, mas continua sendo Deus, continua devendo ser adorado, respeitado e reverenciado. Ele está verdadeiramente ressuscitado, mas Sua morte na Cruz continua sendo o grande sinal do Seu amor por nós e o grande chamado a que O amemos de volta.

Fixe o seu olhar nesta verdade. Bem perto de você, daqui a pouco, estará sendo celebrado o Santo Sacrifício da Missa. Na pequenina capela que se esconde sob os arranha-céus das grandes cidades, quem vem? Não é nenhum astro musical, nenhuma estrela de cinema, nenhum filósofo ou intelectual, mas o próprio Jesus Cristo, em Corpo, Sangue, Alma e Divindade — o Deus feito homem, maior que tudo o que existe e que há de existir.

Ele vem, vem em toda Santa Missa, para nos alimentar, fazendo-nos beber de seu costado ferido pela lança [2]. Ali, nós não só assistimos a um memorial, mas tomamos parte da própria divindade, somos elevados à participação na natureza divina (cf. 2 Pd 1, 4). Não só choramos a morte de Cristo, mas recebemos os frutos de Seu sacrifício de amor em nossa própria vida. Não existe nada maior do que isso, e só quando descobrirmos a grandeza do tesouro que ali se esconde seremos verdadeiramente felizes.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Suma Teológica, III, q. 57, a. 1, ad 3.
  2. Cf. São João Crisóstomo, Homilias sobre o Evangelho de São João, 85, 3 (PG 59, 463).

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Por que vale a pena assistir de novo à “Paixão” de Mel Gibson

A grandeza do filme “A Paixão de Cristo”, de 2004, dificilmente será superada, não só porque é uma produção católica, mas porque se trata de uma verdadeira obra de arte.

A festa da Páscoa ocupa o centro da identidade e da missão da Igreja e tem reflexos não só no interior de seus átrios, mas na própria sociedade que a circunda. Vários dos símbolos integrantes da cultura ocidental, como o crucifixo, possuem um profundo significado místico. Feriados de que hoje as pessoas se servem simplesmente para descansar e festejar, como o Carnaval e o próprio Corpus Christi, mudam de data todos os anos por uma razão religiosa: de meados de março até o começo de abril, os cristãos — e, no Brasil, especialmente os católicos — se preparam para lembrar o evento mais importante de suas vidas: a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo, no período que é conhecido como Semana Santa.

Mesmo contando com uma data específica no calendário civil e religioso, os discípulos de Cristo são chamados a "fazer memória" da Paixão de seu Mestre sempre, e a razão disso se depreende do próprio significado desse evento: foi por esse fato histórico, ocorrido em Jerusalém, no ano 33 d.C., que a humanidade inteira foi salva de seus pecados e introduzida na própria vida divina. Com a "passagem" de Cristo da morte à ressurreição, todos os homens também são chamados a morrer para o pecado e para uma vida velha, e nascer, ressurgir, para uma vida nova de graça e santidade.

É essa a mensagem universal, contida nos Evangelhos, que é retratada pelo filme de 2004, The Passion of the Christ ("A Paixão de Cristo"), de Mel Gibson, ao qual vale a pena assistir novamente nesta Semana Santa. O filme começa, de fato, com a conhecida descrição de Isaías sobre o Servo Sofredor: "Ele foi ferido por causa de nossas transgressões, esmagado por causa de nossas iniquidades; por suas feridas somos curados" (Is 53, 5). Cristo não morreu por uma causa, não Se entregou simplesmente por uma "mensagem bonita" em que acreditava. Também os que morrem por razões humanas são capazes disso. Jesus de Nazaré morreu para salvar todos os homens e cada um deles em particular. Por esse motivo, a mensagem de "A Paixão de Cristo" toca a todas as pessoas, independentemente do clã a que pertençam.

Alguém pode perguntar o porquê da menção específica à "Paixão" de Mel Gibson, quando tantas outras obras artísticas retratam a vida de Jesus — desde as várias pinturas que hoje temos a um clique na Internet, passando pelos oratórios de Johann Sebastian Bach, até os filmes mais recentes ligados ao mesmo tema, como o lançamento Risen ("Ressurreição", no Brasil), com um foco nos episódios posteriores à Ressurreição. O que traz de novo, afinal, "A Paixão de Cristo"? Por que recomendar esse filme em especial — mesmo doze anos após o seu lançamento?

As respostas para essa pergunta são várias porque a produção de Mel Gibson é extraordinária em muitos sentidos: o realismo com que se representa o sofrimento de Cristo, o cuidado na escolha das personagens e na sua caracterização, o uso do aramaico e do latim para reproduzir os diálogos originais... Há muito sobre o que falar, tanto em relação aos bastidores quanto à exibição em si. Uma característica, no entanto, merece especial atenção: a "catolicidade" do filme, manifesta principalmente na alusão ao sacramento da Eucaristia e no destaque que é dado à figura de Nossa Senhora.

Cumpre falar, antes de qualquer coisa, da experiência pessoal com a fé católica que compartilham os principais envolvidos na produção cinematográfica.

Mel Gibson, o diretor, já falou em várias entrevistas sobre a sua identidade católica — ainda que muitos escândalos tenham obscurecido a sua reputação nos últimos anos. Jim Caviezel, que interpretou Jesus Cristo, revelou que comungava todos os dias antes das gravações. "Nós somos ambos católicos romanos", diz Caviezel, referindo-se a Mel. "Ele arrumou uma missa em latim para mim. Eu também recebia todo dia a comunhão eucarística antes de filmar".

As filmagens propriamente ditas constituíam uma verdadeira batalha espiritual, como confessa o protagonista (as perguntas vão em itálico e os negritos são nossos):

Como era o processo de maquiagem?
Nos períodos piores, demorava das 2h da manhã até as 10h. Precisava ficar curvado, e eles aplicavam a pele em mim. Era torturante, começou a me enfraquecer. Era difícil de engolir a comida, sentia frio o tempo todo, desloquei o ombro, lutei contra a hipotermia, sofri uma infecção no pulmão e uma pneumonia, tinha um corte de 35 centímetros nas minhas costas, esfolados e dores por causa das correntes, dores de cabeça severas e infecções na pele — e, um dia, fui atingido por um raio.

Como aconteceu?
Nós estávamos num penhasco, nos preparando para rodar o Sermão da Montanha e fui atingido por um raio. As pessoas começaram a gritar e me contaram que eu tinha fogo nos dois lados da cabeça e uma luz em volta de mim. Foi assustador.

Quanto você esteve perto de não sobreviver?
Muito perto. Usar a coroa parece desconfortável. Era muito difícil. Tinha dores de cabeça porque os espinhos eram presos por um fio na minha cabeça, já que o vento era demais. E tinha de focar com meu olho fechado, o que me levou a terríveis dores de cabeça também.

Quais foram os efeitos em você?
Foi muito cansativo. Tinha de duas a três horas de sono por noite. Você começa a ficar louco e a entrar em pânico. Não conseguia respirar, estremecia, não tinha paciência. E tive essas dores de cabeça, que me atormentavam.

De quanta força física você precisava para ficar na cruz?
Tinha de ir à academia depois da filmagem porque ia ficar na cruz o dia todo naquela posição estranha. Precisava de força. Finalmente, quando estava na cruz, foi tão ruim que, na hora em que digo, "Senhor, por que me abandonaste?", eu realmente senti aquilo! No subtexto, estava falando: "Você obviamente não se importa se eu faço este filme ou não, quem sabe se você existe?". Mas posso dizer que, passando por tudo isso, compreendi muito profundamente que Ele existe. Eu o amo mais agora do que nunca.

Além da fé católica do diretor e do ator principal do filme, vale lembrar o milagre da "conversão de Judas", que aconteceu no decorrer das filmagens. O italiano Luca Lionello, que interpretou Judas Iscariotes, se converteu à Igreja após o filme, atribuindo à Paixão a sua mudança de vida. Ele era ateu.

É claro que nenhuma dessas características produz necessariamente um bom espetáculo — para tanto, demanda-se talento artístico, além da fé. Essas referências, todavia, põem à luz como que "a alma" do filme, que não consistiu apenas em reproduzir "a arte pela arte", mas em externar o profundo senso religioso de seus realizadores. Além da óbvia alusão ao Novo Testamento, sabe-se, por exemplo, que Gibson lançou mão de algumas mensagens de Nosso Senhor a uma beata católica — a religiosa alemã Anna Catharina Emmerich —, as quais, embora não obriguem à fé, ajudam muito na meditação dos sofrimentos do Redentor.

A "catolicidade" da trama é muito nítida, além disso, na íntima conexão que se dá entre a celebração da Última Ceia e a cena da crucificação. A associação desses dois episódios não vem da cabeça de Mel, mas da doutrina católica, que vê nos dois sacrifícios — o da Eucaristia e o da Cruz — essencialmente o mesmo sacrifício [1], pelo que, quando celebra a Santa Missa, o sacerdote renova a entrega única e definitiva de Cristo e dá a todos os que O comungam colher em suas vidas os frutos de Sua oblação. Por isso, quando comungamos, diz um santo da Igreja [2], é como se nos aproximássemos do próprio Cristo pendente na Cruz para beber do sangue que brota de Seu lado ferido pela lança.

Igualmente notável é o tratamento especial dado à Mãe do Redentor ao longo de toda a história. Alguns críticos de matriz protestante questionaram essa "obsessão" com Maria — as suas aparições seriam "exageradas" e incompatíveis com a narrativa evangélica.

Para nós, católicos, no entanto, não havia surpresa nenhuma: a mesma piedade que fez Mel Gibson mostrar a Virgem das Dores permanentemente ao lado de seu Filho, seja na Sua vida oculta, seja na Sua agonia, não só faz ecoar os Evangelhos (cf. Lc 2, 51; Jo 19, 25-27), como constitui a mesma devoção que desde sempre inspirou os cristãos a cantarem louvores à Mãe de Deus — como no famoso hino medieval Stabat Mater —, a retratarem o seu luto nas inúmeras obras a que se deu o nome de Pietà, e a meditar durante a Quaresma o belíssimo e emocionante encontro entre o Filho e a Sua Mãe na Via Crucis:

Os cristãos sempre veneraram Nossa Senhora com honras e títulos especialíssimos — vide o Concílio de Éfeso e os louvores que o próprio Lutero, fundador do protestantismo, teceu à Mãe de Deus. São os protestantes modernos que tentam "inventar a roda" e talhar um cristianismo à sua própria medida, sem nenhuma referência à Mãe de Jesus ou aos Seus amigos mais íntimos, que são os santos. Nesse sentido, a "Paixão" de Mel Gibson não é um filme mariano porque é exagerado, mas simplesmente porque é verossímil.

Dita verossimilhança salta aos olhos, por exemplo, quando se assiste ao recém-lançado Risen ("Ressurreição"), do diretor Kevin Reynolds — aparentemente, uma tentativa de dar sequência à produção de Mel Gibson, mais restrita à narrativa da Paixão. No filme deste ano, de tendência assumidamente protestante, Nossa Senhora aparece tão somente na cena da crucificação, gritando histericamente no meio de uma multidão amorfa de pessoas. O retrato pode até não configurar propriamente um insulto, mas é de um reducionismo absurdo e revoltante. Tudo bem que o foco do filme tenha sido outro período da vida de Jesus — e, quanto a isso, talvez valha a pena escrever uma resenha especial sobre o filme inteiro —, mas nada justifica um tratamento tão frio e indiferente à Mãe de Deus, quando os próprios Evangelhos ressaltam a sua presença especial aos pés da Cruz, chegando mesmo a sustentar um diálogo com seu Filho (cf. Jo 19, 25-27). Aparentemente, para ignorar a Mãe de Deus, até mutilar indevidamente as Escrituras está valendo.

De qualquer modo, não é necessário servir-se de muitas comparações para concluir que a grandeza da "Paixão" de Mel Gibson dificilmente será superada. Não porque é uma produção católica, mas porque é uma verdadeira obra de arte — e, como toda arte autêntica, põe os seus admiradores em contato com o belo. Quando o tema da obra é o Verbo encarnado, então, ela vai elevada à enésima potência — ao infinito, melhor dizendo, de onde saiu o Cristo que padece por nós no Calvário.

Nesta Semana Santa, vale a pena assistir uma vez mais a The Passion of the Christ e redescobrir o grande mistério da nossa salvação. "De tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu o seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna" (Jo 3, 16). Creia firmemente nisso e deixe que essa verdade transforme a sua vida.

Por Equipe Christo Nihil Præponere

Referências

  1. Cf. Papa Pio XII, Carta Encíclica Mediator Dei (20 de novembro de 1947), n. 59-72.
  2. São João Crisóstomo, Homilias sobre o Evangelho de São João, 85, 3 (PG 59, 463).

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Como cordeiro levado ao matadouro

Mesmo carregando o pesado fardo do pecado e sofrendo as mais terríveis dores até a própria morte, Cristo “ficou calado, sem abrir a boca”.

São João Batista não foi o único a comparar Nosso Senhor a um cordeiro, quando disse a famosa frase: "Eis o Cordeiro de Deus, aquele que tira o pecado do mundo" (Jo 1, 29). No Antigo Testamento, ao profetizar sobre o servo sofredor, Isaías recorre à mesma analogia, porém, sob outro aspecto: "Oprimido, ele se rebaixou, nem abriu a boca! Como cordeiro levado ao matadouro ou ovelha diante do tosquiador, ele ficou calado, sem abrir a boca" (Is 53, 7).

O grande orador francês Jacques Bossuet, comentando esse exato trecho das Escrituras, tece as seguintes e belas considerações:

"Se um homem se vê incapaz de resistir à violência, ele pode às vezes salvar a si mesmo fugindo; se não pode evitar ser levado como prisioneiro, pode ao menos se defender quando é acusado; ou, se é privado dessa liberdade, pode sempre achar algum alívio na sua angústia, seja reclamando veementemente da injustiça com a qual está sendo tratado, seja gemendo e lamentando por causa de seus sofrimentos. Não no caso de nosso Divino Senhor. Por Sua própria vontade, Ele deixa de lado todos esses poderes; no Filho de Deus, eles foram todos agrilhoados, até mesmo a Sua língua foi amarrada. Quando O acusam, Ele não responde; quando O batem, Ele não murmura, nem mesmo um mínimo gemido ou suspiro, como os fracos e oprimidos proferem, na esperança de revirar alguma piedade nos corações de seus algozes. Ele não abre a boca (Is 53, 7). Mais do que isso, Ele nem mesmo desvia a Sua cabeça dos golpes cruéis que chovem sobre ela; Ele permanece imóvel, não fazendo esforço para fugir de nem uma única pancada." [1]

A imagem passada pelo panegirista é exata: ele não quis dar muita atenção ao fato de que Cristo, sendo Deus, podia fazer cessar todo aquele crime com um simples ato de vontade divina. Também enquanto homem, a Sua humilhação foi perfeita. Tão perfeita, que o profeta, ao falar de Seu silêncio, prefere compará-Lo a um cordeiro mudo que a um ser humano. Qualquer homem – discorre bem Bossuet – procuraria fugir, defender-se ou mesmo gritar contra aqueles que o prendiam. Cristo, não. Ele quis elevar ao extremo a imagem do cordeiro: tirou os pecados do mundo, mas sem gritar nem levantar a voz (cf. Is 42, 2); foi imolado verdadeiramente, mas em silêncio.

O Seu silêncio e paciência são ainda mais admiráveis se se leva em conta, como diz Santo Tomás de Aquino, que as dores que Ele sofreu são as maiores pelas quais um homem poderia passar [2]. Não apenas pelo gênero dolorosíssimo de sua morte, que foi a crucifixão. Os estudiosos modernos têm feito os seus cálculos e não hesitam em concluir que existem métodos de execução mais cruéis do que a morte na cruz. Sem entrar no mérito da questão, porém, não é apenas isso o que faz a paixão de Cristo ser o pior de todos os sofrimentos. É o fato de ser a Sua humanidade perfeitíssima o que tornam soberanamente piores os seus suplícios. Senão, vejamos.

Santo Tomás considera, entre as causas da dor interna do Redentor: " em primeiro lugar, todos os pecados do gênero humano". Essa dor nele "excedeu todas as dores de qualquer pessoa contrita, seja porque proveniente de uma sabedoria e caridade maiores, que fazem aumentar a dor da contrição, seja também porque foi uma dor por todos os pecados ao mesmo tempo" [3]. Em segundo lugar, o Aquinate põe a causa da "perda da vida corporal, que por natureza é horrível à condição humana". Noutro lugar, porém, além de ressaltar a repugnância natural de qualquer homem à morte, ele lembra que "Cristo foi virtuosíssimo. Logo, amou a sua vida de modo superlativo. Por isso, a dor pela perda de sua vida foi máxima" [4].

Como remate, o Doutor Angélico trata de ressaltar "a extensão do sofrimento pela sensibilidade do paciente":

"Porque Cristo tinha uma ótima compleição física, já que seu corpo fora formado milagrosamente por obra do Espírito Santo, (...) nele era agutíssimo nele o sentido do tato, com o qual se percebe a dor. Igualmente a alma, com suas forças interiores, captava de modo intenso todas as causas de tristeza."

Eis, pois, a grandeza da entrega de Cristo. Mesmo carregando o pesado fardo de todos os pecados; mesmo experimentando com agudez singular cada pancada, cada chicote, cada espinho, cada prego; mesmo tendo diante de Si a própria morte, Ele "ficou calado, sem abrir a boca".

Olhemos para o silêncio paciente do Cordeiro de Deus. Consideremos a insignificância dos sofrimentos por que passamos e, ao mesmo tempo, a impaciência com que enfrentamos todos eles; o pequeno ruído que fazem as dores que padecemos e, em contraste, os grandes murmúrios que soltamos diante delas; as cruzes serenas que nos visitam e, por outro lado, as palavras amargas com que as recebemos de Deus.

Por amor, entreguemos também nós a nossa vida, "como cordeiro levado ao matadouro", como "ovelha diante do tosquiador". Sem gritarias. Sem espalhafatos. Porque foi assim que morreu Nosso Senhor. E é também assim que queremos morrer, dia após dia, até o final das nossas vidas (cf. Lc 9, 23).

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Referências

  1. BOSSUET, Jacques. The Passion of Jesus Christ. In: Great French Sermons. London: Sands and Co., 1917. p. 80 (tradução nossa).
  2. Suma Teológica, III, q. 46, a. 6.
  3. Comentários às Sentenças de Pedro Lombardo, III, 15, q. 2, a. 3.
  4. Suma Teológica, III, q. 46, a. 6, ad 4.

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Os três pregos da cruz

​O desapego das coisas puramente terrenas deveria ser uma meta para todo cristão decidido a agradar somente a Deus.

O sorriso de Madre Teresa de Calcutá, sempre presente em toda e qualquer circunstância de sua vida, mesmo durante aqueles períodos de "noite escura", dos quais a bem-aventurada se lembrava com angústia em suas cartas, ainda hoje é capaz de impressionar. Quem olha para a imagem da beata enxerga o rosto de uma pessoa que, deixando-se consumir totalmente pelo fogo divino, fez desta nossa peregrinação terrestre um ato contínuo de amor e entrega a Deus. Ou seja, encontrou a felicidade, completando na própria carne as dores que faltaram aos sofrimentos de Cristo pelo seu Corpo, que é a Igreja (cf. Cl 1, 24).

Certamente, um modelo de vida semelhante pode causar, não obstante admirações, grandes perplexidades. Ainda mais em uma sociedade que já não sabe lidar com o sofrimento. Como é possível ser feliz na dor? A resposta a essa pergunta está na cruz. A alegria do homem é fazer a vontade de Deus. Contudo, por se tratar de algo nem sempre fácil — ao contrário, consiste muitas vezes em um verdadeiro martírio —, o cumprimento dessa vontade exige um desprendimento heroico acerca de todo e qualquer apego, seja material seja afetivo. O exemplo primordial de abnegação vem, sobretudo, de Cristo no Horto das Oliveiras. Suando sangue, o Senhor diz: "Pai, se é de teu agrado, afasta de mim este cálice! Não se faça, todavia, a minha vontade, mas sim a tua" ( Lc 22, 42).

Na vida de todos os santos se constata essa atitude do Jesus agonizante que, mesmo sofrendo, se regozija por cumprir o desejo do Pai. A confiança em Deus desperta no ser humano o dom do olhar sobrenatural, o qual ilumina o caminho para a verdadeira glória do céu. Como costumava dizer Santa Teresa d'Ávila, esta vida é como uma noite ruim, numa ruim pousada [1]. Nossa meta definitiva é, verdadeiramente, a eterna casa do Pai. Aqui, somos somente estrangeiros. Por isso São Paulo e Silas, dentro da prisão, mesmo diante da possibilidade da morte, cantavam um hino a Deus (cf. At 16, 25). Eles estavam convictos daquilo que Nossa Senhora também prometera em Lourdes a Santa Bernadette: "Não lhe prometo a felicidade neste mundo, somente no outro" [2].

Com efeito, o desapego das coisas puramente terrenas deveria ser uma meta para todo cristão decidido a agradar somente a Deus. "Quem me dera não estar atado senão por três pregos, nem ter outra sensação em minha carne que a Cruz" [3]. Era o que constantemente pedia São Josemaria Escrivá em suas meditações diárias. Neste propósito, o santo do cotidiano em nada menosprezava as obrigações e responsabilidades diárias do homem perante a sociedade. É fato que um verdadeiro cristão deve agir bem em todas os ambientes, transformando-os em ocasião de adoração perpétua a Deus. O que São Josemaria pedia era a graça de enxergar tudo como oportunidade de oblação ao Senhor, a sempre lembrar-se de que o fim de todas as nossas ações só pode ser um: o encontro com Jesus.

Foi este pensamento que encantou a então filósofa ateia Edith Stein, e a fez abandonar suas raízes judias para tomar o hábito das carmelitas. Ela compreendeu a ciência da cruz, por assim dizer, descobrindo o significado salvífico e redentor da paixão de Cristo. "O que nos salvará não serão as realizações humanas, mas a paixão do Cristo, na qual quero ter parte" [4]. Com estas palavras, a futura santa Teresa Benedita da Cruz renunciava ao seu prestigioso nome, à sua posição ao lado de um dos maiores filósofos modernos — Edmund Husserl —, aos seus bens materiais, a fim de alcançar a sétima morada, isto é, a plena conformação à vontade divina. A 2 de agosto de 1942, irmã Teresa cumpria seu desejo de tomar parte na paixão de Cristo, oferecendo-se em holocausto, durante o martírio no campo de concentração nazista, em Auschwitz.

Na homilia de sua canonização, o Papa João Paulo II assim descreveu o itinerário de conversão da santa [5]:

O amor de Cristo foi o fogo que ardeu a vida de Teresa Benedita da Cruz. Antes ainda de se dar conta, ela foi completamente arrebatada por ele. No início, o seu ideal foi a liberdade. Durante muito tempo, Edith Stein viveu a experiência da busca. A sua mente não se cansou de investigar e o seu coração de esperar. Percorreu o árduo caminho da filosofia com ardor apaixonado e no fim foi premiada: conquistou a verdade; antes, foi por ela conquistada. De facto, descobriu que a verdade tinha um nome: Jesus Cristo, e a partir daquele momento o Verbo encarnado foi tudo para ela. Olhando como Carmelita para este período da sua vida, escreveu a uma Beneditina: "Quem procura a verdade, consciente ou inconscientemente, procura a Deus".

A beleza do sorriso de Madre Teresa, o canto de Silas e São Paulo, a santificação no meio do mundo de São Josemaria Escrivá, o martírio de Santa Teresa Benedita da Cruz. Todas essas realidades, cuja eloquência do testemunho não nos deixa indiferentes, têm sua origem e fim no desprendimento das coisas da terra. Quem coloca seu coração em Deus transmite a luz de Cristo em sua face e atrai os outros para o céu — "Eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim. A minha vida presente, na carne, eu a vivo na fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim", escreve São Paulo aos Gálatas (2, 20).

A única coisa que deve nos prender a este mundo são os três pregos da cruz. Essa é a nossa meta cristã.

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Referências:

  1. Cf. Caminho, n. 703
  2. AV. 78. A impressionante história de Nossa Senhora de Lourdes.
  3. Caminho, n. 151.
  4. MIRIBEL, Elisabeth de. Edith Stein: como ouro purificado pelo fogo. 4 ed. Aparecida: Editora Santuário, 1998, pág. 63.
  5. Homilia do Papa João Paulo II na cerimônia de canonização de Edith Stein.

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O Calvário, ponto de encontro dos que amam

Não é possível que deixemos de sofrer simplesmente porque não podemos ser dispensados de amar.

Quando Jesus advertiu que, para segui-Lo, era preciso renunciar-se a si mesmo e tomar a sua cruz [1], talvez os discípulos não pensassem que Ele verdadeiramente tomaria uma “cruz", no sentido literal. De fato, após subir a Jerusalém, o Cristo “foi crucificado sob Pôncio Pilatos; padeceu e foi sepultado", como rezamos no Credo Niceno-Constantinopolitano. O próprio Deus foi estendido sobre um madeiro: “tomou a sua cruz". E pediu que o imitássemos.

É verdade, nem todos os cristãos são chamados a imitar Jesus derramando o seu sangue por Ele. Mas todos, sem exceção, devem carregar a sua cruz, dia após dia, a fim de dizer, com São Paulo: “Estou pregado à cruz de Cristo" [2]. Era com esta atitude espiritual que São Josemaría Escrivá recomendava que os cristãos olhassem para os crucifixos despojados de Cristo: “Quando vires uma pobre Cruz de pau, só, desprezível e sem valor... e sem Crucificado, não esqueças que essa Cruz é a tua Cruz: a de cada dia, a escondida, sem brilho e sem consolação..., que está à espera do Crucificado que lhe falta. E esse Crucificado tens de ser tu" [3].

No entanto, muitas pessoas parecem agir com temor da cruz, quando não com desprezo e desdém. Dizem, orgulhosamente, que o madeiro ao qual Jesus foi pregado não deve ser ostentado por ninguém e, contrapondo-lhe o milagre da ressurreição, rejeitam a exaltação da Santa Cruz como culto da dor e do masoquismo.

Ora, é verdade que a crucificação era uma das penas mais infames que se aplicava aos homens nos tempos do Império Romano. Porém, “na Paixão [de Cristo], a Cruz deixou de ser símbolo de castigo para se converter em sinal de vitória" [4]. Por sua obediência ao Pai, Jesus transformou aquilo que era maldição em salvação para todos os homens. “Sua sanctissima passione in ligno crucis nobis justificationem meruit – Pela sua santíssima paixão no madeiro da cruz, Ele mereceu-nos a justificação" [5], ensina o Concílio de Trento. E, do mesmo modo, o Vaticano II: “[Ele] mereceu-nos a vida com a livre efusão do seu sangue; n'Ele nos reconciliou Deus consigo e uns com os outros e nos arrancou da escravidão do demônio e do pecado" [6].

Por esse motivo, a Igreja saúda a cruz como “única esperança". No dizer de Santa Rosa de Lima, “ fora da cruz, não há outra escada por onde se suba ao céu".

Mais do que apontar o erro evidente desses “que se portam como inimigos da cruz de Cristo" [7], cabe perguntar qual atitude espiritual está por trás disso: o que faz as pessoas agirem com tanta indiferença, quando não com ódio, em relação à Cruz?

Essas pessoas, que até vão à igreja e começam uma vida de oração, ou não compreenderam o significado da redenção – e isto uma boa catequese e um ato de fé podem consertar – ou estão afetadas por uma “teologia da prosperidade", que, prometendo paraíso neste mundo, as aliena e faz que coloquem o coração nas coisas materiais e passageiras, ao invés das espirituais e eternas. Diante dos sofrimentos que Deus permite por que passem, fogem invariavelmente, até mesmo na oração, esquecendo-se de fazer a súplica do Pai-Nosso: “fiat voluntas Tua – seja feita a Vossa vontade".

Não devemos pedir a Deus que nos livre das cruzes, mas que nos ajude a suportá-las. Neste mundo, não é possível que sejamos privados de sofrer simplesmente porque não podemos ser dispensados de amar. A vontade de Deus é que sejamos santos, que O amemos, mas, para que isso aconteça, precisamos primeiro crucificar-nos para o mundo [8], purificar o nosso amor: “Cada dia um pouco mais – tal como ao esculpir na pedra ou na madeira –, é preciso ir limando asperezas, tirando defeitos da nossa vida pessoal, com espírito de penitência, com pequenas mortificações (...). Depois, Jesus vai completando o que falta" [9].

A verdade da Cruz é esta: o mesmo caminho que Deus fez para unir o Céu à Terra [10] é o que nós devemos percorrer para nos assemelharmos a Ele. Dois mil anos depois, o Calvário continua sendo o ponto de encontro dos que amam: de Jesus e de Seus santos.

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Referências

  1. Mc 8, 34
  2. Gl 2, 19
  3. Caminho, 178
  4. São Josemaría Escrivá, Via Sacra, IIª estação, 5
  5. Sessão 6ª, Decretum de iustificatione, c. 7: DS 1529
  6. Constituição pastoral Gaudium et spes, 7 de dezembro de 1965, n. 22
  7. Fp 3, 18
  8. Cf. Gl 6, 14
  9. São Josemaría Escrivá, Forja, 403
  10. Cf. Ef 1, 10