| Categorias: Pró-Vida, Política

É isto o que eles tramam às escondidas!

Sob o pretexto de “combater a violência contra as mulheres”, corre no Congresso Nacional mais um projeto de lei para liberar o acesso ao aborto no Brasil.

Alguns dias atrás, o presidente Michel Temer recebeu uma comitiva de parlamentares mulheres que foram pedir apoio do governo às suas pautas. O pedido principal era o apoio ao PL 7371/2014, que cria um fundo para "combater a violência contra as mulheres". Se verdadeiro fosse, nada haveria a opor, pois certamente não há quem desaprove o combate à violência, especialmente contra as mulheres.

O problema reside no fato de que este projeto vem complementar a Lei 12.845/2013, sancionada pela ex-presidente Dilma Rousseff em 1º de agosto de 2013. Esta lei mudou o conceito de violência sexual, considerando-a "qualquer forma de atividade sexual não consentida" (art. 2.º). Isto possibilitou uma enorme ampliação do acesso ao aborto, tornando-o literalmente livre, na medida em que qualquer pessoa, mesmo dentro de um matrimônio, mas, que esteja desejando o aborto, possa se dirigir a qualquer unidade de saúde equipada para este serviço, afirmando que teve uma relação sexual não consentida.

Esta lei também ampliou a oferta de aborto no Brasil quando determina, em seu art. 3.º, "o atendimento imediato, obrigatório em todos os hospitais integrantes da rede do SUS". Então, passamos de uma rede de aproximadamente 200 unidades hospitalares, que oferecia este serviço às vítimas de estupro, para uma rede de mais de 6.000 hospitais. É evidente que a maioria destas unidades não estão capacitadas a oferecer o serviço, e o governo não dispõe de recursos para tal fim, vez que até esparadrapo e gaze faltam nestas unidades.

Portanto, este fundo que se pretende criar não é para combater a violência contra as mulheres, mas será usado para expandir estas unidades, construir "salas de parto" e financiar a compra de equipamentos e treinamento dos profissionais de saúde para o aborto, conforme explicitado no texto do projeto de lei, in verbis:

Art. 3.º Os recursos do Fundo Nacional de Enfrentamento à Violência Contra as Mulheres serão aplicados em:
I - implantação, reforma, manutenção, ampliação e aprimoramento dos serviços e equipamentos;
II - formação, aperfeiçoamento e especialização dos serviços de garantia de direitos e assistência às mulheres; e
III - aquisição de material permanente, equipamentos imprescindíveis ao funcionamento dos serviços.

Algumas pessoas desavisadas insistem em dizer que o PL 7371/2014 não se refere ao aborto, e são as mesmas pessoas que também não percebiam que a Lei 12.845/2013 se referia ao aborto, até que foi publicada a Portaria 415, de 21 de maio de 2014, que inclui o procedimento "interrupção da gestação/antecipação terapêutica do parto previstas em lei e todos os seus atributos" na Tabela de Procedimentos, Medicamentos, Órteses/Próteses e Materiais Especiais do SUS.

Para quem ainda acha que estamos a falar de uma "teoria da conspiração", basta assistir aos trechos recém-divulgados de uma conferência interna realizada em 2015, pelo Dr. Olímpio Morais, durante a qual o médico, famoso por sua militância nessa área, explica o próximo passo para implementar sua "estratégia de redução de danos", por ele qualificada de revolucionária (vídeo acima).

Desde que foi reconduzido à presidência da Câmara, o deputado Rodrigo Maia tem incluído esse projeto na pauta de discussão legislativa todas as semanas. Considerando que a aprovação do PL 7371/2014 constitui um verdadeiro atentado à dignidade humana e à democracia brasileira, já que a esmagadora maioria do povo brasileiro é contrária à facilitação do aborto e da sua prática, é preciso que entremos urgentemente em contato com as autoridades abaixo, explicando com clareza do que se trata esse projeto, pedindo que ele seja definitivamente retirado de pauta, e que, durante este governo, este assunto seja esquecido, para o bem do Brasil e das criancinhas brasileiras.


PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA
PRESIDENTE MICHEL TEMER
Telefone: Gabinete Pessoal: Nara de Deus Vieira (61) 3411-1186, (61) 3411-1045
naradedeus@presidencia.gov.br
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PRESIDÊNCIA DA CÂMARA
DEPUTADO RODRIGO MAIA
Telefone: Chefe de Gabinete: Isabel (61) 32158015 / 32156016 / 32158017
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PRESIDÊNCIA DO SENADO
SENADOR EUNÍCIO DE OLIVEIRA
Telefone: Chefe de gabinete: Alberto Cascaz (61) 33035159
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CASA CIVIL DA PRESIDÊNCIA
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SECRETARIA GERAL DA PRESIDÊNCIA
MINISTRO MOREIRA FRANCO
Telefone: Gabinete: Jean Marcel Fernandes (61) 3411-6417
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Se existe o Anticristo, haveria também uma Antimaria?

Se existe um Anticristo, como dizem as Escrituras, talvez exista também um complemento feminino para ele: uma espécie de “Antimaria”. Mas como ela seria?

Por Carrie Gress — Enquanto fazia pesquisas para o meu próximo livro, The Marian Option: God's Solution to a Civilization in Crisis ["A opção mariana: solução de Deus para uma civilização em crise"], a ser lançado em maio de 2017, veio-me à mente um novo conceito teológico. Eu estava a investigar a noção de Maria como "nova Eva" — uma ideia que remonta aos primeiros padres da Igreja. Maria como nova Eva é o complemento feminino para Cristo, o novo Adão. Na Escritura, São João fala do anticristo como um homem, mas também como um movimento presente ao longo de toda a história (cf. 1Jo 4, 3; 2Jo 1, 7). Isso me fez pensar: se há um anticristo, será que existe também um complemento feminino, uma "antimaria"?

Mas em que consistiria exatamente um movimento "antimaria"?

Seriam mulheres que não dariam valor aos filhos. Elas seriam obscenas, vulgares e iradas. Reagiriam com raiva à ideia de qualquer coisa que se parecesse ou com obediência humilde ou com autossacrifício pelos outros. Elas seriam petulantes, superficiais, maliciosas e exageradamente sensuais. Seriam também auto-absortas, manipuladoras, fofoqueiras, ansiosas e ambiciosas. Em suma, seriam tudo aquilo que a Virgem Maria não é.

Ainda que esse comportamento tenha sido posto como que sob a lente de um microscópio por conta da recente Marcha pelas Mulheres, em Washington [1], a tendência de mulheres mal comportadas não tem nada de nova. Há ampla evidência, no entanto, de que estamos a testemunhar algo, por causa de sua dispersão massiva, bem diferente do vício ordinário visto ao longo da história.

O tratamento que se dá à maternidade é um dos primeiros sinais de que estamos a lidar com um novo movimento. Mães (espirituais ou biológicas) são um ícone natural da Virgem Maria — elas ajudam outras pessoas a conhecerem quem é Maria através de sua generosidade, paciência, compaixão, paz, intuição e habilidade de nutrir almas. O amor de Maria (e o amor materno) oferece uma das melhores imagens de como é o amor de Deus: incondicional, salvador e profundamente pessoal.

As décadas mais recentes da história têm testemunhado o sutil apagamento do ícone mariano nas mulheres reais. Primeiro com a pílula anticoncepcional e depois com o advento do aborto, a maternidade ficou no cepo. Ela se tornou dispensável, a ponto de a cultura geral não dar a mínima quando uma criança é adotada por dois homens.

Toda cultura, inclusive a nossa, sabe quão importante é uma mãe (mesmo nas suas imperfeições) para assegurar uma fase adulta saudável e maturidade espiritual — e nenhuma cultura pode se renovar sem maturidade espiritual. Sim, há muitas pessoas que têm crescido sem mãe, e muitos estão de acordo que, de fato, poucas coisas há que sejam tão trágicas quanto essa. Essas tristes realidades, no entanto, ao invés de diminuírem a importância das mães, apenas fortalecem o argumento de que as crianças precisam delas. Não é por acaso que, com a maternidade tão desvalorizada como está, estejamos testemunhando traumas e transtornos emocionais e mentais sem precedentes em todos os segmentos da população.

Outro sinal impressionante de que estamos em uma era antimariana é que, depois de todo o chamado "progresso" conquistado pelas mulheres, há mui pouca evidência de que essas coisas tenham realmente tornado as mulheres mais felizes. As taxas de divórcio são ainda assombrosas, com 70% dos casos iniciados por mulheres; os índices de suicídio estão nas alturas; abusos de drogas e álcool também; depressão e ansiedade estão em todos os lugares. As mulheres não estão se tornando mais felizes, só estão ficando mais medicadas.

Fonte de dignidade

Poucos em nossa cultura sabem da dívida de gratidão que têm para com o catolicismo pela noção radical de que as mulheres são iguais aos homens. Essa ideia vem especificamente da Virgem Maria. Não veio dos gregos — Aristóteles e outros chamavam as mulheres de "machos imperfeitos" —, não veio do judaísmo — ainda que tivessem um certo status, um movimento maior para promover a dignidade das mulheres nunca chegou a acontecer — e muito menos do islamismo. O pensador William Lecky, acadêmico racionalista do século XIX, não católico, explica:

Não mais a escrava ou o brinquedo do homem, não mais associada apenas a ideias de degradação e de sensualidade, as mulheres ascenderam, na pessoa da Virgem Maria, a uma nova esfera, e tornaram-se objeto de homenagem reverencial, da qual a antiguidade não tem nenhuma notícia… Uma nova personagem foi chamada à existência; um novo tipo de admiração foi encorajado. Em uma idade rude, ignorante e obscurecida, esse tipo ideal infundiu uma concepção de gentileza e pureza, até então desconhecida para as mais orgulhosas civilizações do passado.

Hoje a igualdade entre homens e mulheres nos parece uma coisa óbvia, uma intuição simples que teria qualquer pessoa racional. Mas, se fosse realmente assim, por que então nenhum outro movimento religioso tinha se atentado para esse fato antes? Foi a Virgem Maria quem reverteu os pecados de Eva e propiciou que essa noção, agora tornada lugar-comum, tomasse raízes. O cristianismo, ainda que esteja agora amplamente abandonado pela cultura secular, continua sendo a fonte dessa profunda iluminação.

Nos lugares errados

Hoje as mulheres ainda desejam igualdade e respeito — talvez mais do que nunca —, mas paremos por um instante para observar como elas estão tentando alcançar isso. Elas estão seguindo não a graça de Maria, mas os vícios de Maquiavel: raiva, intimidação, histeria, assédio moral. É esse impulso agressivo que faz a mulher sentir orgulho em ser chamada de "nojenta" [2], sentir-se empoderada por vestir-se como uma prostituta, ou acreditar que uma criança é capaz de destruir a sua vida. Acontece que é precisamente esse tipo de coisas que jamais levará as mulheres à felicidade.

O antimarianismo detém um verdadeiro monopólio em nossa cultura; não há praticamente nenhuma alternativa no espaço público em que as mulheres mais jovens possam se espelhar. Ao invés disso, nós temos Madonna, que em um único discurso é capaz de ao mesmo tempo pedir uma revolução do amor e confessar o seu desejo de explodir a Casa Branca; temos políticas mulheres, que pensam que a única forma de serem eleitas é jurando lealdade a Planned Parenthood; ou Gloria Steinem, que tinha deixado claro, ainda na década de 1980, que sua meta era viver um estilo de vida livre "das amarras" do gênero. Manchetes e vedetes de Hollywood ditam como milhões de meninas e mulheres devem pensar.

Nenhuma mulher é uma ilha

Mas elas não são as únicas atingidas por esse movimento. Homens e rapazes também são profundamente afetados por isso. Eles se sentem à deriva, especialmente quando as virtudes que lhes são mais naturais são mal interpretadas como coisas ruins. Mais do que isso, os homens estão tendo roubada uma compreensão apropriada do eros, ou seja, o tipo de amor animado pela beleza e bondade. É esse tipo de amor que tem povoado a poesia, os sonetos e as canções românticas por séculos. (Não há uma música romântica sequer escrita sobre o amor de um homem por uma mulher arrogante e ranzinza em um terninho.) O eros agora tem sido apagado e substituído por uma forma sórdida de erotismo.

Infelizmente, as mulheres não têm ideia de como podem inspirar os homens através da bondade. Como escreveu sabiamente o arcebispo Fulton Sheen: "Quando um homem ama uma mulher, acontece que, quanto mais nobre a mulher, mais nobre é o amor; quanto maiores as exigências da mulher, mais valoroso deve ser o homem. É por isso que a mulher é a medida do nível de nossa civilização". Uma avaliação das mulheres — em seu estado de transtorno, forte medicação e irritação — revela maus presságios para a nossa civilização, independentemente de qual seja o partido político no poder.

O demônio sabe que todas essas marcas da "antimaria" — raiva, indignação, vulgaridade e orgulho — provocam um curto-circuito nos maiores dons que possuem as mulheres: sabedoria, prudência, paciência, paz imperturbável, intuição e a capacidade para um relacionamento profundo com Deus. Ao contrário disso, o tentador promete poder, fama, fortuna, respeito e prazeres fugazes e estéreis — e, como Eva, as mulheres do movimento antimariano continuam a cair em suas mentiras.

Enquanto muitos já demos vários nós em nossa cabeça tentando imaginar uma solução para esse problema, a verdadeira resposta está em voltar à fonte, voltar à mulher por meio da qual toda mulher ganha a sua dignidade. Não importa o quão forte seja o "espírito da Antimaria", a Virgem Maria continua a ser a mulher mais poderosa no mundo.

Fonte: National Catholic Register | Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere

Notas

  1. Essa manifestação pode ser comparada, mutatis mutandis, aos conhecidos protestos do grupo Femen ao redor do mundo e, aqui no Brasil, às recentes e famigeradas "marchas das vadias".
  2. A autora do texto usa a expressão nasty, referindo-se a um episódio recente das eleições americanas, quando o atual presidente Donald Trump usou esse adjetivo para se referir à sua oponente, Hillary Clinton, durante um debate político. A reação nas redes sociais à frase foi instantânea: inúmeras mulheres manifestaram adesão à candidata democrata, assumindo o adjetivo para si como se fosse motivo de orgulho. A situação lembra o chilique das redes, aqui no Brasil, quando uma revista traçou o perfil de uma mulher como "bela, recatada e do lar".

| Categoria: Testemunhos

Juiz, católico e pai de nove filhos

“Um católico, um esposo e um pai, e um americano. Essas eram as coisas mais importantes para ele”. São as revelações de um sacerdote sobre o seu pai, o ministro norte-americano Antonin Scalia, no aniversário de um ano de seu falecimento.

O ministro da Suprema Corte dos Estados Unidos, Antonin Scalia — um homem de tremenda influência no país, especialmente no Poder Judiciário —, inesperadamente partiu desta vida para a eternidade no dia 13 de fevereiro de 2016, há pouco mais de um ano.

Na ocasião, foi o seu filho, padre Paul Scalia, da diocese de Arlington (Virginia), quem celebrou a sua Missa de Exéquias. Na Basílica do Santuário Nacional da Imaculada Conceição, em Washington, diante de familiares e amigos, e de uma audiência televisiva na nação e no mundo inteiro, o padre Scalia provou ser realmente filho de seu pai. Ele não escolheu focar o seu sermão nas impressionantes conquistas de seu pai. Ao invés, ele preferiu, como também o seu pai teria feito, focar em Cristo.

O padre Scalia conversou com Catholic Digest sobre "o que Deus fez por seu pai", em comemoração do aniversário de um ano do seu falecimento.

Padre, em nome de minha própria família — e tenho certeza que de muitas famílias católicas —, quero dizer-lhe que, quando ficamos sabendo da morte de seu pai, a primeira coisa que fizemos foi parar tudo para rezar pela alma dele.

Muito obrigado, eu lhe agradeço por isso. Nem sempre foi fácil ter um pai que era uma figura pública, mas a maior consolação na hora de sua morte foi ter todos esses católicos no país e no mundo rezando espontânea e imediatamente por ele. Isso foi uma grande bênção.

Você mencionou os 55 felizes anos de matrimônio que tiveram os seus pais. Como está a sua mãe?

Ela está bem, na medida do possível. Trata-se de um processo, uma jornada longa, mas há também muito apoio. Ela tem nove filhos e muitos amigos.

O que fica para você do casamento de seus pais?

Eu acho que a simplicidade e a generosidade — a simplicidade do compromisso. Eles vieram de uma época em que, quando dois católicos se casavam, eles sabiam do que se tratava, sabiam que aquilo era por toda a vida. A importância dos ensinamentos da Igreja em todas essas coisas — não acho que esteja presente em muitos casamentos agora. Há a ideia de que você pode cair fora, de alguma forma. Mas havia a simplicidade dessa devoção pela própria vocação e a generosidade — eles tiveram nove filhos.

Como essa generosidade acontecia na vida do dia a dia?

Em uma família grande, essa generosidade é exigida de todos, porque você tem que compartilhar as coisas. Como comentaram alguns de meus irmãos durante o memorial um mês depois, nem sempre nós tivemos muito dinheiro. Minha mãe brincava que meu pai estava sempre à procura de um emprego que pagasse menos do que o que ele tinha. Lembro-me de que, quando vivíamos em Chicago, éramos sete ou oito crianças vivendo com o salário de um professor. Aquilo nos custava muito. E tinha uma generosidade ali. Havia também uma questão de fé em fazer essas coisas, em não limitar a vida, em não procurar um emprego de salário maior. Havia uma confiança. Eles vieram de uma época mais simples e era isso o que faziam. Como disse, a fé era muito central para o relacionamento conjugal deles.

Quando você discursou no funeral de seu pai, disse que seus pais deram vocês um ao outro. Fale-nos melhor sobre esse apoio mútuo.

Acredito que o que fica em nossas mentes, acima de tudo, é ver quão bonito foi podermos ter um ao outro na hora da morte dele e durante toda essa situação. Teria sido muito mais difícil passar por isso sem os meus irmãos. Todos nós nos reunimos e compartilhamos juntos as coisas. Pareceu tão natural e nós pudemos enfrentar unidos tudo o que aconteceu. Foi uma grande bênção. Depois do funeral, uma jovem mulher se virou para o seu marido e disse: "Eu quero nove filhos".

O bispo Alexander Salazar disse certa vez que o primeiro seminário do padre é o seu lar. O que a formação que você recebeu de seu pai significou para o seu sacerdócio?

Que eu recebi não apenas dele, é claro, mas de meu pai e de minha mãe, juntos. É o que as crianças precisam. É assim que é estruturada a família. Meu pai tinha uma convicção muito forte da verdade da doutrina católica. Foi isso o que ele me deu. E isso também ajudou a nos confirmar em uma identidade. Que crianças não querem uma identidade — saber quem elas são, de onde vieram e para onde estão indo? Só a convicção da fé católica, que meu pai tinha, estabeleceu em nós esta identidade: nós somos católicos, não somos como todo o mundo, e não devemos esperar fazer as coisas que todo o mundo faz. Nos tempos obscuros das décadas de 1970 e 1980, meu pai fazia viagens relativamente longas a fim de encontrar para nós uma igreja que fosse sólida em sua doutrina e em sua liturgia, porque naqueles dias havia muitas loucuras acontecendo. Nós brincávamos que, quando vivíamos em Chicago, nosso pai gastava meia-hora para levar-nos a uma igreja que estava a 45 minutos de distância. Isso era um compromisso. Em 2008, fui designado para assumir a paróquia de nossa casa, e nós tínhamos a Missa tradicional em latim, na Forma Extraordinária, e meu pai começou a participar. Foi uma grande bênção porque, juntos, nós pudemos apreciar a beleza da tradição e da liturgia da Igreja.

Conte-me mais sobre a personalidade de seu pai. O ex-presidente Bill Clinton dizia que, mesmo quando discordava de seu pai, ele gostava dele porque Scalia nunca pretendia ser alguém que ele não era.

Isso é verdade — e é provavelmente a primeira coisa que eu ouço de Bill Clinton com a qual eu concordo. Acho que é por isso que meu pai se dava bem com tantas pessoas. Elas sabiam quem ele era. Ele não era uma coisa hoje e outra amanhã, como são muitas pessoas, especialmente na capital federal. Muito disso tinha a ver com sua fé, e outra parte também era o seu temperamento — quem ele era.

O senhor fez uma referência a São Thomas More em sua homilia: the king's good servant but God's first, "o fiel servidor do rei, mas de Deus primeiro".

Porque ele era de Deus primeiro.

São Thomas More foi advogado e homem de alta posição abaixo do rei. Seu pai o teve como especial santo padroeiro?

Ele tinha uma grande devoção por São Thomas More. Absolutamente. Ele brincava que, quando o Vaticano nomeou São Thomas More, que já há muitos anos era padroeiro dos advogados, como santo padroeiro dos políticos, aquela não era uma promoção. Acredito que meus pais assistiram ao filme A Man for All Seasons ("O homem que não vendeu sua alma") quando estavam viajando para a Europa depois de seu casamento. Paul Scofield estava certamente atuando. Ele certamente tinha uma grande admiração e devoção por São Thomas More — a integridade do homem, a astúcia, a sua piedade.

Seu pai também usava um cilício?

Não vou revelar as mortificações de meu pai. Ele tinha nove filhos; isso já era mortificação suficiente.

Conte-nos sobre uma das citações favoritas de seu pai: "Tenha a coragem de ter a sua sabedoria considerada como estupidez."

Meu pai obviamente tirou isso do Apóstolo, São Paulo: "Nós somos considerados tolos por causa de Cristo" ( 1 Cor 4, 10). Um católico que atua na esfera pública deve estar disposto a enfrentar o ridículo. É uma das coisas que meu pai gostava de destacar a respeito de São Thomas More: não é possível admirá-lo realmente, a menos que apreciemos o fato de ele parecer ridículo. Todos os demais, todos os seus companheiros, seguiram o rei. Todos os bispos da Inglaterra, com a exceção de um, seguiram o rei. Então ele parecia absurdo. Parecia um idiota. Esse é um tema da vida dos santos em geral.

Nosso Senhor mesmo foi ridicularizado. Então por que deveríamos imaginar-nos melhores que ele? Era um dos discursos favoritos que meu pai costumava fazer. Ele contrastava isso com Thomas Jefferson — um conto de dois Thomas. Thomas Jefferson, que ficou famoso por recortar a Bíblia, compôs a sua própria retirando todos os milagres dela porque, evidentemente, aqueles milagres, de acordo com o homem de sabedoria mundana, não são possíveis, então você não os pode ter. Por isso, você se livra deles. Ele considerava a Bíblia algo pouco sofisticado.

Os contemporâneos de Jesus pensavam o mesmo dEle. Para que ele cuspiu no chão e aplicou o barro nos olhos daquele homem (cf. Jo 9, 6)?

Pode vir algo bom da Galileia? A Galileia era um lugar desvalorizado. Devo dizer que meu pai se divertia com a ironia aqui. Ele era um homem muito sofisticado, e realmente representava o melhor do que tinham os jesuítas antigamente. Com todo o respeito, ele tinha mais cultura que muitos de seus pares em termos de literatura, música, arte e turismo. Não é minha intenção vangloriar-me, mas ele era mais sofisticado e creio que se divertia em estar no meio daquelas pessoas e dizer: "Devemos estar dispostos a parecer idiotas".

Há um vídeo no YouTube, do comediante Stephen Colbert tirando sarro dele durante o Jantar da Associação de Correspondentes da Casa Branca, em 2006. Seu pai achou a brincadeira hilária. Ele gostava de rir de si mesmo?

Absolutamente. Quem o conhecia sabia que provocá-lo era a melhor forma de conseguir o melhor dele.

Era esse o segredo de sua amizade com a ministra Ruth Bader Ginsburg, de quem ele tanto discordava?

Deve ter sido, em parte. Mas acho que isso se devia ao que ele e ela eram. Não havia nenhuma pretensão. Ele podia respeitá-la. Ele podia discordar dela, mas ela era consistente. Ainda que houvesse desacordo, havia respeito pela integridade do seu pensamento, da sua palavra, e por quem ela era. Penso que muito disso se deve à sua criação em Nova Iorque. A cidade de Nova Iorque, especialmente nas décadas de 1940 e 1950, era aquele lugar em que tudo acontecia. Você tinha todo tipo de pessoas. Era impossível viver em uma bolha. Você tem que aprender a lidar com todo o mundo. A menos que você queira uma vida miserável, é preciso haver um apreço pelas diferenças entre as pessoas.

Em sua homilia durante o funeral de seu pai, você falou, entre outras coisas, sobre rezar pelos mortos, não roubando deles as nossas orações pressupondo que eles já estivessem no céu. Isso parece muito o seu pai.

Meu pai odiava a palavra "homilia". Ele a achava carregada de modernismo. Ele preferia "sermão". Um ponto que eu sempre recordo quando faço um funeral é: esse é o modo como podemos continuar a fazer o bem pela pessoa que amamos. É necessário um sentido sobrenatural para nos mantermos firmes e aceitarmos. Todos querem pensar que está tudo bem. Todos querem chegar ao final feliz sem grande esforço.

Você também falou de quão tênue é o véu a separar o tempo e a eternidade, e do chamado ao arrependimento. Qual foi a resposta das pessoas a isso?

Graças a Deus e a Nossa Senhora que Ele usou esse discurso para o bem. Talvez isso seja tão simples quanto o fato de que sua morte fez as pessoas focarem na eternidade, coisa à qual elas tipicamente não dão importância alguma. Muitas pessoas se perguntavam: porque o ministro Scalia morreu neste momento da história dos Estados Unidos, quando parece que nós realmente precisamos tanto dele?

"O cemitério está cheio de homens indispensáveis."

Meu pai amava essa frase. Ele a amava. Foi dele que a ouvi pela primeira vez. Ele atribuía essa citação a Charles de Gaulle, por isso a repetia com um sotaque francês.

Seu pai era um artista?

Ah, com certeza ele era. Ele atuava quando era mais novo. Sim, ele era um ator. Ele era bom de piadas, de histórias.

Olhando para este ano que se passou, o que você espera que as pessoas se lembrem a respeito dele?

Seu catolicismo era o que ele era. Ele viveu a vida ao máximo. Tinha uma variedade de interesses e de amigos, mas o núcleo era composto de basicamente três componentes: ele era um católico; um esposo e um pai; e um americano. Essas eram as coisas mais importantes para ele.

Fonte: Catholic Digest | Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere

| Categoria: Virgem Maria

A mensagem de Fátima nos impele

Se três crianças puderam salvar, com suas orações e pequenas penitências, milhares e milhares de almas, o que nós estamos esperando?

Foi em um dia 13 de fevereiro, como este, que faleceu a Irmã Lúcia, vidente de Fátima. Aproveitando esta oportunidade, Padre Paulo Ricardo recorda, nesta homilia especial, a mensagem urgente da bem-aventurada Virgem Maria aos nossos tempos.

O que os apelos de Nossa Senhora em Portugal têm a ver conosco? Se três pobres crianças puderam salvar, com suas orações e pequenas penitências, milhares e milhares de almas, o que nós estamos esperando?

Esta pregação foi proferida na manhã de hoje, na Paróquia Cristo Rei, em Várzea Grande (MT), onde Padre Paulo Ricardo é vigário.

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Hoje não só é dia 13 — o que, por si só, já faria desta uma data apropriada para falar sobre Fátima —, como também, estando em fevereiro, fazemos memória do falecimento da Irmã Maria Lúcia de Jesus e do Imaculado Coração, uma das três videntes de Nossa Senhora de Fátima. Mesmo que Lúcia seja a única dos pastorinhos ainda não beatificada pela Igreja, se considerarmos a sorte que tiveram os outros dois — os beatos Francisco e Jacinta —, é bem possível que a sua alma também esteja gozando, neste momento, da bem-aventurança eterna, ao lado de Deus, em um lugar de muita honra e distinção.

Ao mesmo tempo, porém, em que elevamos os olhos para o Céu e contemplamos o brilho desses primeiros fiéis devotos da Virgem de Fátima, somos quase que instantaneamente levados a refletir, também, no gênero de vida que tiveram essas crianças; em como se santificaram esses pequeninos, desprezados pelo mundo mas eleitos por Deus e por sua santíssima Mãe. E, se tomamos em mão as famosas Memórias da Irmã Lúcia, descobrimos que uma das coisas que mais impressionaram aqueles servos de Deus, levando-os a uma radical mudança de vida, foi nada menos que a visão do inferno.

Sobre Jacinta se conta, por exemplo, que "a vista do inferno tinha-a horrorizado a tal ponto, que todas as penitências e mortificações lhe pareciam nada, para conseguir livrar de lá algumas almas". Perguntando-se "como é que a Jacinta, tão pequenina, se deixou possuir e compreendeu um tal espírito de mortificação e penitência", a mesma Irmã Lúcia não hesitava em responder: "Parece-me que foi: primeiro, por uma graça especial que Deus, por meio do Imaculado Coração de Maria, lhe quis conceder; segundo, olhando para o inferno e desgraça das almas que aí caem" [1].

Assim, o que para muitos santos adultos só aconteceria depois de anos e anos de muita purificação, sucedeu-se com os pastorinhos de Fátima como num estalo, por assim dizer: recebendo "uma graça especial" de Deus, Lúcia, Francisco e Jacinta ficaram aterrorizados com a danação eterna de tantas pessoas e saíram de seu encontro com a Virgem Maria fortalecidos para a missão. Afinal, Nossa Senhora lhes havia revelado que, rezando muito e fazendo sacrifícios pelos pecadores, seria realmente possível salvar muitas almas do inferno [2].

Movidas por um grande amor, então — aquele mesmo amor de Cristo que nos urge, como diz São Paulo (cf. 2Cor 5, 14) —, os três videntes de Fátima acolheram esperançosos o pedido dos céus: "Quereis oferecer-vos a Deus", perguntava-lhes Nossa Senhora, "para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar-vos, em ato de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores?", ao que as três crianças lhe respondiam, em uníssono: "Sim, queremos" [3]. Com isso — grande providência divina! —, aquelas crianças não só salvaram numerosíssimas almas da condenação eterna, como elevaram as suas próprias almas a Deus; a mensagem de salvação que a Virgem trazia a Portugal destinava-se, na verdade, ao mundo inteiro, mas também e antes de tudo, àquelas três crianças pastoras.

E se elas, cooperando com a graça do alto, puderam livrar, com as suas orações e pequenas penitências, milhares e milhares de almas do inferno eterno, o que nós estamos esperando? Se três crianças, mal tendo chegado à idade da razão, se deixaram trespassar pela urgência da salvação das almas, o que nós estamos a fazer, lerda e tolamente, quietos e inoperantes? Se três pequenas almas sararam, com seus esforços, tantas almas feridas pelo pecado, o que nós, que fomos ungidos com o sacramento da Confirmação [4] e feitos portanto soldados de Cristo, estamos fazendo de nossa vocação?

Assim, pois, como a mensagem de Fátima impeliu aquelas crianças, assim como o amor de Cristo impulsionava os primeiros cristãos, também nós devemos deixar-nos comover, neste Ano Mariano, pelo apelo da bem-aventurada Virgem Maria. Também a nós ela pergunta, no dia de hoje: "Quereis oferecer-vos a Deus (...), em ato de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores?". A resposta a esse chamado a cada um, individualmente, compete. Levantemo-nos de nossa letargia e, revestidos da graça do Senhor, sejamos grandes como foram estes pequenos. Amém.

Referências

  1. Memórias da Irmã Lúcia. 13. ed. Fátima: Secretariado dos Pastorinhos, 2007, pp. 122-123.
  2. Cf. Ibid., p. 92: "Rezai, rezai muito, e fazei sacrifícios pelos pecadores, que vão muitas almas para o inferno, por não haver quem se sacrifique e peça por elas."
  3. Ibid., p. 82.
  4. As considerações de Santo Tomás de Aquino sobre este sacramento e a oportunidade de ele ser conferido a todos, inclusive as crianças, constam da Suma Teológica, q. 72, a. 8.

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Quem marchou pelas mulheres nos Estados Unidos?

Mesmo a mídia e o financiamento das ONGs pró-aborto nos últimos 44 anos não puderam conter o apelo natural e espontâneo da mensagem da Marcha pela Vida.

Um dia após a cerimônia de posse do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, centenas de milhares de mulheres tomaram as ruas de Washington D.C. para protestar contra suas posições políticas com relação ao aborto e a outros temas que lhe custaram uma enorme dor de cabeça durante o período de campanha. A Marcha das Mulheres, como foi chamada pelos seus organizadores, contou com amplo apoio de organizações filantrópicas, de artistas e, sobretudo, da mídia, que, aliás, fez questão de repercutir a mensagem do protesto para o mundo inteiro. No Brasil, um jornal de grande circulação disse que a marcha representaria a "alma feminina".

"Não aceitem esta nova era de tirania em que não apenas as mulheres estão em perigo, mas todas as pessoas marginalizadas. A revolução começa aqui, este é o começo de uma mudança muito necessária", vociferou a cantora Madonna durante sua participação no evento. Madonna só se esqueceu de explicar, porém, como a Marcha das Mulheres pretende combater essa marginalização se seus próprios organizadores marginalizam quem discorda deles, como no caso do veto à participação de mulheres pró-vidano evento. Nesta nova revolução, é preciso perguntar, mulheres que não tratem seus bebês como apenas mais uma parte de seu corpo serão respeitadas?

A resposta é não. Desde que a ativista Adrienne Germain convenceu John Rockefeller III a investir em pesquisas sociológicas que mudassem o pensamento das mulheres a respeito da maternidade, os movimentos feministas tornaram-se apenas uma massa de manobra nas mãos dos grupos globalistas que querem o controle populacional. A defesa dos tais "direitos reprodutivos" não é uma questão de "alma feminina", mas de marketing para diminuir o número de gestações; não é a pessoa da mulher que interessa, mas o seu útero. É por isso que enquanto Scarlett Johansson discursava na Marcha das Mulheres a favor da Planned Parenthood, essa mesma instituição negava a uma gestante o serviço de pré-natal: "Nós fazemos controle de natalidade, sabe, essas coisas… aborto, nós não fazemos pré-natal". E isso, atenção, é muito mais misógino que qualquer conversa de Donald Trump.

Os jornais erram, mais uma vez, ao vincularem a "alma feminina" à defesa do aborto, como se a Marcha das Mulheres fosse o único grito de protesto ecoado nos Estados Unidos naquelas semanas. Outra marcha ocorreu poucos dias depois, também em Washington, reunindo dezenas de milhares de pessoas, principalmente jovens, para protestarem contra a "cultura da morte", que, desde a famosa decisão "Roe vs. Wade", em 1973, já ceifou a vida de mais de 58 milhões de bebês, mortos em clínicas de aborto. Embora os jornais insistissem em ignorá-la, como denunciou o presidente Donald Trump, a Marcha pela Vida, de fato, tem despertado uma nova geração de homens e mulheres americanos, cuja mentalidade não segue a corrente do hedonismo e do relativismo, mas dos valores perenes da dignidade humana. E esta é a "geração pró-vida" que promete pôr fim a "Roe vs. Wade" nos Estados Unidos.

A primeira Marcha pela Vida aconteceu em janeiro de 1974, graças aos esforços da ativista católica Nellie Gray. Convicta de que toda vida humana deve ser valorizada e protegida, Gray decidiu abandonar sua carreira para dedicar-se exclusivamente à causa pró-vida e à organização anual da marcha. O evento logo arrebanhou uma enorme quantidade de pró-vidas e inspirou outros movimentos ao redor do mundo. Em 2013, poucos dias após a posse de Barack Obama, a Marcha pela Vida reuniu mais de 600 mil pessoas na capital americana para reivindicar o fim do aborto e opor-se às medidas antinatalistas do então presidente democrata. Neste ano, o evento contou com a participação do atual vice-presidente, Mike Pence, e de outros membros do governo republicano. "A vida está vencendo outra vez nos Estados Unidos", comemorou Pence durante seu discurso, fazendo referência à medida assinada por Trump, que pôs fim ao financiamento de ONGs pró-aborto no exterior.

A influência da Marcha pela Vida sobre a cultura americana é reconhecida pelos próprios defensores do aborto. Em 2010, a feminista Nancy Keenan declarou seu espanto acerca da quantidade de jovens presentes na edição da marcha daquele ano, que reuniu 400 mil pessoas: "Eu apenas pensei, meu Deus, eles são tão jovens… há tantos deles e são tão jovens". A Revista Time, por sua vez, publicou uma longa reportagem no aniversário de 40 anos da lei "Roe vs Wade", analisando como os ativistas pró-aborto têm regredido desde 1973: "Conseguir um aborto na América é, em alguns lugares, mais difícil hoje do que em qualquer lugar desde que se tornou um direito constitucionalmente protegido 40 anos atrás".

É claro, portanto, que a Marcha das Mulheres está longe de representar a "alma feminina", como tentaram vender os jornais. Contra fatos não há fake news. Mesmo a enorme campanha midiática e o financiamento das ONGs pró-aborto nos últimos 44 anos não puderam conter o apelo natural e espontâneo da mensagem da Marcha pela Vida. Trata-se do que disse a atual presidente do movimento, Jeanne Mancini: "Ser pró-vida é ser pró-mulher". Essa é a verdadeira "alma feminina".

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

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As pessoas mais difíceis de converter. Seria você uma delas?

Esta matéria é sobre um tipo difícil de converter, que acha que conhece a Cristo, que já vive o Evangelho e que já está bom o suficiente para ir para o Céu. Seria você, por acaso, uma dessas pessoas?

As pessoas mais difíceis de converter não são os que estão no mundo, mas os próprios católicos.

Ninguém se escandalize com isso, porque essa situação já foi denunciada várias vezes por pregadores de outros séculos. O pe. António Vieira, por exemplo, dizia que, "antigamente, batizavam-se os que eram convertidos; hoje, é preciso converter os que são batizados". Se a situação era assim no seu tempo, o século XVII, quanto mais em nossa época, em que a TV, a Internet e os meios de comunicação de uma forma geral são os maiores responsáveis por "formar" (ou deformar) as mentes das pessoas! Nunca foi tão fácil ser mundano, render-se aos encantamentos do mundo e esquecer-se de Deus, de nossa alma e das verdades eternas!

No entanto, este que é um verdadeiro drama — o de perder a Deus pelo pecado e deixar escapar pelas mãos a própria salvação — só é vivido verdadeiramente por quem tem fé. Aqueles que não a têm já estão entregues, rendidos, derrotados. E é deles principalmente que falamos quando nos referimos às pessoas mais difíceis de converter. É a católicos sem fé que queremos atingir com estas linhas.

Cumpre dizer, antes de mais nada, que não queremos pintar um quadro horrendo para os outros, enquanto mascaramos a nossa própria condição. Nossa santificação, o trabalho de nossa conversão, não é, evidentemente, obra de um dia ou de uma semana. Nós, que caminhamos por este vale de lágrimas, devemos estar sempre conscientes de que a presença da Santíssima Trindade em nós, pela graça, vai encerrada "em vasos de barro, para que todos reconheçam que este poder extraordinário vem de Deus e não de nós" (2Cor 4, 7). Não é nossa pretensão criar uma "casta" de iluminados dentro da Igreja, nem instituir algum tipo de "alfândega" para limitar as pessoas que atravessam a soleira de nossos templos. Essa exortação é mais um "convite à penitência comum", pois é assim que deve ser a correção fraterna feita a pecadores por… pecadores [1]. Em outras palavras, Cristo veio ao mundo para salvar os delinquentes e nós somos os primeiros deles (cf. 1Tm 1, 15)!

Partamos, porém, sem mais delongas, a uma breve descrição de como vive a maior parte de nossos autodenominados católicos.

Crêem eles, porventura? Talvez nos artigos do Creio, se tomados de modo simples; desdobrado o conteúdo que ali se encontra, certamente encontraremos muitos negando, por exemplo, a existência dos demônios ou da condenação eterna. Eles certamente não se negarão a repetir os artigos do Creio, um por um, quando se levantarem no domingo, durante a Missa, para rezá-lo; mas é que eles vão à Missa com tanta irregularidade, que muitas vezes sequer se dão conta de que estão tropeçando em uma e outra parte da oração.

Mas o que acontece quando alguém lhe mostra que faltar à Missa aos domingos é pecado mortal? E que é preciso confessar-se, portanto, antes de aproximar-se novamente da Sagrada Comunhão? Neste momento, o tipo a que nos referimos imediatamente desconversa, dá de ombros, tenta dizer alguma coisa para se desculpar e leva a sua vida do mesmo jeito, como se nada estivesse acontecendo. No próximo domingo em que for à Missa, talvez daí a um mês — ou mesmo durante a semana, quando sentir vontade —, ele entrará tranquilamente na procissão para receber Jesus Eucarístico, sem nenhum escrúpulo ou remorso de consciência.

Esse exemplo é ainda muito simples, porque faz referência apenas ao preceito dominical. Se fosse tratado, no entanto, o problema do sexto mandamento, certamente a resistência seria ainda maior. Onde já se viu não poder comungar, por exemplo, quem usa anticoncepcionais? Ou quem dorme com o namorado ou a namorada? Ou quem assiste a vídeos pornográficos ou cai no pecado da masturbação? Ou até, e aqui se rasgam definitivamente as vestes, quem consente em maus pensamentos e já pratica o adultério com os outros no coração?

Esse tipo, porém, é empedernido, é teimoso. Quer participar das cerimônias católicas, mas sem levar muito a sério a Igreja da qual diz fazer parte. Quer ser ativo na liturgia, participar das pastorais e dos movimentos, mas isso é o bastante. Ele traça uma linha para demarcar o limite da sua entrega: até aqui eu vou, até aqui eu sou católico, até aqui eu obedeço à Igreja. Ir além — ele já estabeleceu, ex cathedra, em sua mente — é "moralismo", "radicalismo", "extremismo".

Por que é tão difícil mudar a cabeça de pessoas assim, é muitíssimo fácil de perceber. Diferentemente de quem vive no mundo, despreocupado de tudo e desligado de qualquer prática religiosa, esse tipo de católico acha que conhece a Cristo, acha que já vive o Evangelho, acha que já está bom o suficiente para ir para o Céu. Se estivesse fora, assumisse a sua ignorância e entrasse na Igreja com a intenção de aprender e reformar as próprias opiniões, certamente produziria muito mais frutos do que no atual estado em que se acha.

Muito apropriadas nesse sentido são as palavras do bem-aventurado John Henry Newman, durante um discurso a pessoas de várias religiões:

"Ninguém deveria entrar na Igreja sem o firme propósito de aceitar a sua palavra em todas as matérias de doutrina e moral, e isso por ela vir diretamente do Deus da Verdade. Tu deves enfrentar a matéria e calcular os gastos (cf. Lc 14, 28). Se não te aproximas com esse espírito, tu sequer deverias aproximar-te: grandes e pequenos, instruídos e ignorantes, todos devem vir para aprender. Se tens essa disposição, dificilmente algo dará errado, pois tens uma boa base; do contrário, se vens com qualquer outra intenção, é melhor que esperes até que te tenhas livrado dela. Tu deves vir à Igreja, eu te digo, para aprender; deves vir, não para trazeres a ela tuas próprias noções, mas com a intenção de ser sempre um aprendiz; deves vir com a intenção de tomá-la como parte de tua herança e de jamais apartar-te dela. Não venhas como para um experimento; não venhas como para arrumar assentos em uma capela, ou bilhetes para uma conferência; vem a ela como para tua casa, para a escola de tua alma, para a Mãe dos Santos e vestíbulo dos céus." [2]

A recomendação que o Cardeal Newman faz em seu discurso é importante porque lembra que existe, na Igreja Católica, uma identidade substancialmente diferente do protestantismo, religião muito comum na Inglaterra de sua época (e, agora, cada vez mais, também no Brasil). Enquanto entre os protestantes cada cristão é, por assim dizer, o seu próprio papa, a única e verdadeira Igreja de Cristo é una. Isso significa que um católico, quando crê, não é no que quer, mas no que recebeu de outrem; quando leva uma vida moral, não é com base em suas próprias ideias, mas nos ensinamentos de uma autoridade; quando reza, não é conforme a sua cabeça, mas de acordo com o modo como Deus mesmo manifestou que quer ser cultuado. Nós não inventamos a nossa própria religião; vivemos (ou melhor, esforçamo-nos por viver) a religião que Deus mesmo instituiu.

Ser católico exige, portanto, em primeiríssimo lugar, uma autêntica mudança de mentalidade. Sem isso, não estaremos seguindo a Igreja, mas tão somente o nosso próprio "eu", como diz Santo Tomás de Aquino:

"É claro que quem adere à doutrina da Igreja como à regra infalível, dá seu assentimento a tudo o que a Igreja ensina. Ao contrário, se do que ela ensina, aceitasse como lhe apraz, umas coisas e não outras, já não aderiria à doutrina da Igreja como regra infalível, mas à própria vontade." [3]

Se a Igreja lhe diz, por exemplo, com a sua autoridade dada pelo próprio Cristo (cf. Mt 16, 18), que tal coisa é pecado, e você, ao invés de acatar, desconversa, diz que "não é bem assim" e tenta se justificar, é muito triste dizê-lo, mas seu catolicismo é superficial, não passa de um verniz, de uma fachada. Você não acredita na Igreja, mas em você mesmo. Sua opinião conta muito mais que a religião a qual você diz seguir. Seria muito mais honesto abandonar de vez essa peça farsesca que você encena e procurar a igreja protestante mais próxima e que mais se adequa aos seus gostos e posições.

Abra os olhos de uma vez por todas, pare de tentar mentir para si mesmo e de ficar se defendendo com insultos. Não chame os outros de "moralistas" só porque não compartilham do "código moral" inventado por você; não chame os outros de "radicais" só porque não são superficiais como você; não chame os outros de "extremistas" só porque você se contenta com uma vida morna e levada de qualquer modo. Converta-se, mude de mentalidade e honre as águas do santo Batismo com que a Igreja o banhou! Foi a ela, afinal, não a você, que Cristo confiou as chaves do Reino dos céus.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Suma Teológica, II-II, q. 33, a. 5.
  2. John Henry Newman, Faith and Doubt. In: Discourses to Mixed Congregations, p. 231.
  3. Suma Teológica, II-II, q. 5, a. 3.

| Categoria: Sociedade

“Silêncio”, uma trágica negação da graça de Deus

Se há algum silêncio no filme de Martin Scorsese, é o silêncio que ignora a intrépida coragem e a alegria sobrenatural com que os mártires do Japão entregaram sua vida a Deus.

Por John Horvat II — Na história da Igreja, muitos mártires morreram pela fé. A começar por Santo Estêvão, o protomártir logo após a Ressurreição, eles foram os primeiros a serem lembrados, venerados por seu testemunho público e elevados ao altar com o título de santos. Houve também aqueles que negaram a fé sob pressão. Eles foram esquecidos e enterrados na escuridão da história.

O mundo moderno tem um problema com os mártires. As pessoas não são capazes de entender a glória do testemunho deles por Cristo. O homem moderno preferiria, ao invés, tentar encontrar alguma justificativa por trás da angustiante decisão daqueles que negaram a fé.

Tal é o caso do último filme de Martin Scorsese, Silence ("Silêncio", lançado no Brasil dia 2 de fevereiro). Trata-se de uma história sobre essa segunda categoria de não-mártires — de quem Nosso Senhor disse: "Aquele, porém, que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante de meu Pai que está nos céus" (Mt 10, 33).

Curiosamente, críticas recentes de "Silêncio" foram negativas — mesmo vindas da mídia liberal e hostil à Igreja. O consenso é que a tentativa de Scorsese, de propor para a admiração geral alguém que publicamente negou a sua fé, foi um fracasso.

Talvez seja porque a natureza humana considera tais renúncias detestáveis. Mesmo o talento do diretor, os efeitos especiais de Hollywood e a publicidade midiática não puderam superar esse fato. A tentativa ardilosa de Scorsese de justificar seu protagonista atormentado mostrou-se entediante e pouco convincente.

A "autoridade docente" de Hollywood

"Silêncio" é baseado em um romance de 1966 de mesmo nome, escrito pelo autor japonês Shusaku Endo. O enredo gira em torno de um personagem fictício: um padre jesuíta português do século XVII, no Japão, na época de uma violenta perseguição anticatólica. O filme representa um "conflito de fé", no qual o padre deve escolher entre a sua fé e as vidas de seu rebanho. Diante de sua provação, ele se depara com o silêncio de Deus às suas súplicas, de onde vem o título do filme. Finalmente, Cristo mesmo supostamente rompe o silêncio, dizendo-lhe interiormente que deve negar a fé, passando por cima de sua imagem a fim de salvar seu rebanho.

Uma história tão superficial e contrária a todo o ensinamento da Igreja normalmente não representaria nenhuma ameaça aos católicos que são firmes na fé. Entretanto, Hollywood tem tragicamente assumido o papel de uma autoridade docente para incontáveis católicos. Portanto, a principal lição ensinada pelo filme — que a negação pública da fé pode ser justificada algumas vezes e até ser desejada por Deus — realmente oferece um perigo a muitos não-catequizados, os quais podem vir a confundir o script de Hollywood com as Escrituras. Qualquer silêncio a respeito de "Silêncio" pode ser mal interpretado como um consentimento.

Não que seja o caso de rever o filme ou explorar os seus complexos enredos e subenredos. Tais filmes não apresentam, na verdade, nada de novo; não passam de meios para reafirmar certas premissas falsas que minam a fé. É de longe muito melhor responder às próprias premissas falsas, especialmente no modo como elas são aplicadas à lamentável incompreensão de martírio que tem a modernidade.

O martírio como uma derrota

A primeira falsa premissa é a concepção moderna de que a vida é o valor supremo. Essa é uma premissa terrível, pois, se não há nenhum valor pelo qual valha a pena morrer, então não há nenhuma razão real pela qual valha a pena viver. Em um mundo materialista que adora a vida e seus prazeres, o martírio representa fracasso. Aqueles que renunciam a fé e o martírio são vencedores. Aqueles que não o fazem são perdedores.

A mensagem de contos fictícios como "Silêncio" é de que a vida é para ser adorada a tal ponto que até mesmo Deus deve fazer-se cúmplice em inspirar a apostasia que salva a vida dos fiéis. Entretanto, narrativas assim são realmente fictícias; elas ignoram a realidade histórica do que aconteceu.

O registro histórico

O registro histórico dos mártires japoneses é um dos mais gloriosos na história da Igreja. Trata-se de uma ardente reprimenda ao mundo moderno por sua "idolatrização" da vida. Dezenas de milhares sofreram ou morreram nas mãos de cruéis executores. Se histórias são necessárias para inspirar autores, deixem-nos falarem da coragem, do heroísmo e da perseverança destes mártires japoneses, jovens e anciãos, homens e mulheres, religiosos e seculares, que alegremente deram suas vidas por Cristo e ganharam para si mesmos a coroa da glória eterna. Se vilões precisam ser encontrados nessas histórias, deixem-nos serem encontrados nos cruéis governadores e juízes que condenaram os cristãos à morte.

Em 1776, Santo Afonso de Ligório escreveu o livro Vitória dos Mártires, o qual contém uma longa seção destinada a contar incríveis histórias sobre os mártires japoneses. Ele fala, por exemplo, de uma cristã japonesa chamada Úrsula, que, ao ver seu marido e dois filhos martirizados, exclamou: "Louvado sejais, ó meu Deus, por me terdes tornado digna de estar aqui neste sacrifício! Concedei-me agora a graça de tomar parte em sua glória". Ela e sua filha mais nova foram decapitadas.

De fato, qualquer padre que salvasse a vida de suas ovelhas renunciando sua fé seria desprezado pelos fiéis japoneses, tanto por sua negação, quanto por ter privado seu rebanho da coroa do martírio.

Se há algum silêncio no "Silêncio" de Scorsese, é o silêncio que ignora a intrépida coragem e a alegria sobrenatural encontrada nos mártires e missionários japoneses, cujo testemunho era tão superior a ponto de seus inimigos serem vencidos por seus argumentos e resolverem matá-los. O martírio desses homens não foi a sua derrota, foi a sua vitória.

Atos sem significado

Uma segunda premissa é a de que atos externos não têm significado algum. Eles significam o que quer que uma pessoa determine que eles sejam. Uma premissa assim é típica do pensamento pós-moderno, que "desconstrói" atos de seu significado e contexto naturais.

Portanto, qualquer benefício ou inspiração pode justificar um ato que significa a negação da fé, já que atos não têm nenhum significado fixo. De fato, o enredo do filme mascara a negação pública com a boa intenção do protagonista de preocupar-se com a segurança de seu rebanho.

Novamente, isso mostra uma profunda incompreensão da ideia de martírio. A palavra martírio significa "testemunha" — uma manifestação externa da fé aos outros. A interpretação pós-moderna do dilema do martírio questiona a noção de que possa haver testemunhas tão convictas das verdades da religião católica a ponto de elas sofrerem felizes a morte ao invés de negarem a fé. A "metanarrativa" dos grandes feitos dos mártires não é mais válida. Mesmo a ideia de verdade é relativa. Tudo deve ser reduzido ao nível da experiência pessoal.

E, outra vez, tal interpretação vai contra a realidade histórica que foi centrada na noção de verdade objetiva. Aqueles que perseguiram a Igreja odiavam a verdade e a lei moral ensinadas por Cristo e pela Igreja. Eles odiavam especialmente o testemunho público dado pelos cristãos porque seu testemunho denunciavam os seus pecados e fraquezas. Tudo o que eles pediam de suas vítimas era algum sinal público de negação. Por essa razão, perseguidores frequentemente forçavam cristãos a negarem sua fé ao invés de tirarem suas vidas.

Historicamente, essa é a razão por que aqueles que perseguem a Igreja sempre querem oferecer honrarias, postos e benefícios àqueles que renunciam a fé. Eles sempre darão aos cristãos uma desculpa para deixarem de ser testemunhas. Isso inclui aquelas "boas intenções" a fim de diminuir o sofrimento da família, dos parentes e dos fiéis cristãos. No entanto, isso é apenas um pretexto. O que eles querem destruir, na verdade, é o testemunho que os assombra e os chama à virtude. Eles querem cristãos renegados para fazerem suas negações públicas e, assim, desencorajarem o testemunho de outros.

Felizmente, seus esforços são sempre frustrados pela constância dos fiéis cristãos que levam outros à conversão. Eles não entendem que "o sangue dos mártires é semente para novos cristãos", como dizia Tertuliano.

O deus do silêncio

A última falsa premissa vem de uma compreensão naturalista do mundo, em que as pessoas não compreendem o modo como Deus trabalha nas almas. O mundo secular pensa que a posição natural de Deus seja a do silêncio. Quando os escritores seculares são forçados a imaginar a ação de Deus sobre seus personagens, eles a retratam como uma questão puramente pessoal, baseada em sentimentos e emoções inconsistentes e distantes da lógica da lei divina.

Essa é, talvez, a maior incompreensão da fé. Os autores modernos criaram o seu próprio "deus" do silêncio, com crentes fora da vida da graça.

Uma combinação assim leva a representações absurdas como as de "Silêncio". O martírio não pode ser baseado em emoções ou sentimentos, já que envolve o sacrifício do maior dom natural que o homem possui — a vida. Isso é algo tão difícil que está acima das forças do ser humano. O martírio requer a graça, que ilumina o intelecto e fortalece a vontade. Só assim os cristãos podem fazer o que está acima de sua natureza humana. A graça de Deus nunca permitiria que uma pessoa negasse a Cristo diante dos homens.

O martírio, fruto da graça

É por isso que Santo Afonso declara ser uma questão de fé que "os mártires devem suas coroas ao poder da graça que receberam de Jesus Cristo; por Ele é que receberam a força para desprezar toda promessa e ameaça dos tiranos e suportar todos os tormentos até que tenham feito um sacrifício completo de suas vidas".

Ademais, Santo Agostinho declara que os méritos dos mártires provêm dos efeitos da graça de Deus e da cooperação deles com essa graça.

Em outras palavras, Deus não pode silenciar-se face ao martírio, como afirma o "Silêncio" de Scorcese. Sua justiça não permitirá a uma pessoa ser tentada além dos limites de sua capacidade. Ele está intimamente unido àqueles que enfrentam o martírio. Ele lhes dá a graça que é uma participação em sua própria vida divina. Enfrentar o martírio sem a graça é impossível. Ainda que Deus permita desafios, Ele nunca está em silêncio.

Os católicos não podem ficar em silêncio

E é por isso que os católicos não podem se silenciar diante desse filme. A produção de Scorsese é uma trágica negação da graça de Deus em um mundo urgentemente necessitado dela. Nestes dias em que católicos estão sendo martirizados, nós precisamos saber que Deus nunca fica em silêncio. Os mártires nunca estarão em uma situação em que Deus trai a si mesmo. Ele sempre estará com eles quando necessário.

A visão de mundo secular é estreita e asfixiante, mas, infelizmente, é a que prevalece hoje em dia. A obsessão com o "eu" permeia a cultura até a exclusão de Deus. Não é de se admirar que muitos pensem haver "silêncio" do outro lado do martírio. Isso se deve em grande parte ao fato de essas pessoas viverem, em suas próprias vidas, um grande vazio existencial. Elas simplesmente não conseguem acreditar na ação de Deus e da Sua graça.

Em meio à frenética intemperança dos nossos tempos, as multidões agitadas ironicamente não buscam Deus onde Ele sempre pode ser encontrado — no silêncio de suas próprias almas.

Fonte: Return to Order | Tradução e adaptação: Equipe Christo Nihil Praeponere

| Categorias: Sociedade, Política

O samba da “pluralidade” de uma nota só

Os modernos arautos da “tolerância” só sabem tolerar, na verdade, quem pensa como eles.

"Presidente da CNBB, o cardeal Sergio da Rocha enviou carta a Temer recomendando a indicação de Ives Gandra Martins Filho para o STF", informa a Folha de S. Paulo. "Os arcebispos dom Odilo Scherer e dom Orani Tempesta também manifestaram apoio ao jurista".

Outros que "entregaram ao Palácio do Planalto cartas de apoio a Ives Gandra Filho para o STF", de acordo com Lauro Jardim, foram os líderes da Confederação dos Conselhos de Pastores do Brasil e da Conferência Nacional das Igrejas Evangélicas do Brasil.

Nas redes sociais, foi lançada uma campanha para que as pessoas entrem em contato com o Gabinete da Presidência, pedindo a Michel Temer que indique Ives para a Suprema Corte. Muitos estão fazendo a sua parte e a pressão já está surtindo efeitos.

Do outro lado, as críticas à indicação de Ives continuam, evidentemente, a todo vapor — ainda que os métodos empregados nem sempre sejam os mais honestos. No último dia 30, foi a vez do Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM) manifestar o seu repúdio ao nome de Ives Gandra. Alega-se, entre outras coisas, que suas posições seriam um grave atentado à "configuração plural" do "conceito de família". Para entender o que isso significa, basta explicar que o IBDFAM é conhecido por defender a poligamia. Para Maria Berenice Dias, uma das fundadoras da organização, a monogamia não passa de "uma mera convenção decorrente do triunfo da propriedade privada sobre o condomínio espontâneo primitivo" — noção que ela aprendeu com ninguém menos que Friedrich Engels.

Compartilha de semelhante opinião o ministro Luiz Edson Fachin, que já foi membro do mesmo instituto. Em prefácio ao livro "Da Monogamia – A sua Superação como Princípio Estruturante do Direito de Família", do seu ex-aluno Marcos Alves da Silva, Fachin pede a superação da monogamia, considerada por ele como um "jugo". Os que defendem que um homem deve ter uma só mulher e vice-versa são comparados pelo jurista a uma "gosma com verniz de epidérmico conhecimento" — mais ou menos como Ives Gandra Filho e a maioria da população brasileira.

Acontece que, no Brasil, a bigamia é crime tipificado pelo art. 235 do Código Penal e o casamento exige dos cônjuges, segundo o art. 1.566 do Código Civil, o dever de "fidelidade recíproca".

Mas, quando nomeado para o Supremo, algum desses veículos de imprensa que agora vociferam contra Ives Gandra pediram a Fachin algum tipo de explicação?

Não, nenhum.

Outro ministro conhecido por suas posições progressistas é Luís Roberto Barroso. Muito antes da patética decisão de dezembro de 2016, quando ele tentou usar um habeas corpus para descriminar o aborto até o terceiro mês de gravidez, o advogado Barroso já havia reconhecido, em entrevista, que "a mulher tem o direito fundamental a escolher se ela quer ou não ter um filho" — mesmo depois de concebido.

Acontece que, no Brasil, o aborto é crime (Código Penal, art. 124), violação do direito fundamental à vida do nascituro (Constituição Federal, art. 5.º, caput; Código Civil, art. 2.º).

Mas, quando indicado para o Supremo, algum desses veículos de imprensa que agora bradam contra Ives Gandra pediram a Barroso algum tipo de explicação?

Mais uma vez, não, absolutamente nenhum.

Este é, portanto, o samba da "pluralidade"… de uma nota só. O Supremo pode albergar militantes ativos das mais variadas causas (inclusive as que estão à margem da lei!), mas uma pessoa, simplesmente porque é católica, contrária ao aborto e favorável ao casamento entre um homem e uma mulher, não só é considerada inapta para o cargo, como é execrada publicamente e tratada como a escória da humanidade.

Está comprovado: os modernos arautos da "tolerância" só sabem tolerar, na verdade, quem pensa como eles.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere