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Quando Ratzinger se uniu aos protestantes para defender a fé

A união de Ratzinger com dois teólogos protestantes, a fim de combater a Teologia da Libertação

Sobre a condenação de Roma à teologia liberal marxista, o vaticanista John Allen comenta que "foi uma má sorte histórica para os teólogos da libertação terem-se cruzado com Joseph Ratzinger, que ia ser um formidável opositor"01.

Ratzinger foi nomeado Prefeito da Congregação para Doutrina da Fé em 1981. Antes, porém, havia exercido o cargo de professor de Teologia Dogmática em diferentes universidades alemãs, dentre elas, a de Tubinga, onde lecionava também outro teólogo conhecido: Hans Kung. O clima teológico de então - conta Bento XVI em sua autobiografia - estava sob o domínio da filosofia marxista de Ernst Bloch e da teologia política de Metz e Moltmann. Tinha-se a impressão de que tudo estava para ruir; o cristianismo era agora mitigado por uma esperança utópica, cuja finalidade não dizia mais respeito à salvação eterna e aos sacramentos, mas a uma práxis de libertação política, alinhada aos interesses do Partido. Com pesar, Ratzinger se lamentava da "maneira blasfema como então se zombava da cruz como sendo um sadomasoquismo, [d]a hipocrisia com que alguns - quando lhes era útil - continuavam se apresentando como fiéis à religião, a fim de não correrem o risco de perder os instrumentos para suas próprias finalidades"02.

A experiência com os teólogos da libertação, por conseguinte, fez com que o Cardeal - já à frente da Congregação para Doutrina da Fé - se lembrasse imediatamente dos anos em que teve de enfrentá-los na Universidade de Tubinga. Ora, era óbvio que, como exímio teólogo, ele não podia passar ao largo daquela discussão, como se se tratasse apenas de uma divergência de ideias. A Teologia da Libertação minava todo o fundamento da fé cristã, substituindo-o por um pietismo ateu, por uma ação política do ser humano em que permanecia a esperança, "mas no lugar de Deus entreva o partido, e com isso o totalitarismo de uma adoração ateísta, pronta para imolar a seu falso deus todo humanitarismo"03. Sendo assim, durante o tempo em que lecionou em Tubinga, Ratzinger lançou mão de todos os meios justos e possíveis - tal qual faria anos mais tarde - para frear os desejos da incipiente - mas não menos perigosa - Teologia da Libertação; inclusive aliando-se a dois teólogos protestantes. Ele explica:

[...] A situação na Faculdade Teológica Evangélica era essencialmente mais dramática do que a nossa. Mas, afinal, estávamos no mesmo barco. Com dois teólogos evangélicos, o patrólogo Ulrich Wickert e o especialista em missiologia Wolfgang Beyerhaus, elaborei um plano comum de ação. Achávamos que as controvérsias confessionais anteriores eram de somenos importância em comparação com o desafio diante do qual agora estávamos, e no qual tínhamos de representar, conjuntamente, a fé no Deus vivo e no Cristo, o Verbo encarnado.04

A atitude de Joseph Ratzinger, num primeiro momento, pode parecer desconcertante e incoerente, haja vista a sua má fama de "intolerante" e "cardeal panzer". Mas não o é. Tendo em mente os perigos que tal teologia traria tanto para o fundamento da fé católica quanto para o da fé protestante, ele soube enxergar que não era possível discutir as 95 teses de Lutero enquanto Roma pegava fogo. Era preciso primeiro apagar o incêndio ou nem mesmo os protestantes teriam mais algo contra o que protestar, uma vez que era o próprio Cristo agora que estava em xeque. Com efeito, não fossem os esforços conjuntos de Ratzinger e dos dois teólogos protestantes, as sequelas mais ou menos visíveis da Teologia da Libertação, "feitas de rebelião, divisão, dissenso, ofensa, anarquia"05, teriam tido um efeito muito mais feroz do que o que já se sente hoje.

O exemplo do então professor de Teologia Dogmática, Joseph Ratzinger, serve como parâmetro para os cristãos, sobretudo numa época em que o cristianismo se torna cada vez mais perseguido e odiado. Obviamente, dentro de seus respectivos templos, os padres continuarão ensinando que a Igreja Católica é "a única Igreja de Cristo [...] que o nosso Salvador, depois da sua ressurreição, confiou a Pedro para apascentar (cf. Jo 21,17)"06, ao passo que os protestantes continuarão condenando o culto à Virgem Maria como idolatria. Não se trata de relativismo. Bento XVI sempre defendeu que, na base de todo diálogo, deve-se existir antes uma profunda consciência de sua própria identidade. Mas isso não pode ser um empecilho para a defesa da vida desde a sua concepção até à morte natural, para a defesa da família entre um homem e uma mulher e para a defesa da educação dos filhos pelos pais. Esses são temas que afetam a todos e não podem, sob pretexto algum, ser negligenciados.

A divisão dos cristãos constitui um escândalo que clama aos céus; e este escândalo poderá ser ainda maior caso se deixe reinar no Brasil a cultura da morte.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referência

  1. BLANCO, Pablo. Joseph Ratzinger, uma biografia. São Paulo: Quadrante, 2005
  2. RATZINGER, Joseph. Lembranças da minha vida. São Paulo: Paulinas, 2007.
  3. Ibidem, n.2
  4. Ibidem, n.2
  5. Discurso do Papa Bento XVI aos prelados da Conferência Episcopal dos bispos do Brasil do regional Sul 3 e 4 em visita «Ad Limina Apostolorum»
  6. Declaração Dominus Iesus, n. 16

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O Testamento de Bento XVI

Em sua última audiência pública, o Papa Bento XVI se despediu dos fiéis e deu a todos uma grande lição de fé católica. Trata-se de uma fé muito específica e rara nos dias de hoje: uma fé que professa a presença e a ação de Deus na história da Igreja.

Todos deveríamos saber disto, mas nem sempre nos damos conta: a Igreja não é somente um sujeito da fé; a Igreja é também objeto de fé. Ou seja, a Igreja não somente crê, mas ela deve ser crida.

Bento XVI tem consciência de que a Igreja é portadora de um mistério divino. Como a lua, ela é reflexo de Cristo "luz dos povos". Por isto, nos convida a uma visão de fé:

"Deus guia a sua Igreja, ele sempre a sustenta, também e sobretudo, nos momentos difíceis. Não percamos nunca esta visão de fé, que é a única visão verdadeira do caminho da Igreja e do mundo. No nosso coração, no coração de cada um de vós, haja sempre a alegre certeza que o Senhor está ao nosso lado, não nos abandona, está perto de nós e nos envolve com o seu amor".

Estas foram as suas últimas palavras. Poderíamos dizer: este foi o seu testamento. Nada poderia ser mais marcadamente católico, pois nós católicos, ao contrário dos protestantes, cremos que o organismo visível da Igreja não é uma "invenção" humana, mas o Corpo do Cristo ressuscitado que continua vivo na história.

A Igreja é uma forma de Jesus estender o mistério de sua Encarnação ao longo da história.

É a falta de fé neste mistério da Igreja que tem criado tantos equívocos, paranoias e explicações fantasiosas no espaço midiático dos últimos dias. Grande parte da mídia está longe da verdade, porque está longe da visão de fé que, nos recorda o Papa, "é a única visão verdadeira do caminho da Igreja".

Mas que os jornalistas não compartilhem esta visão e esta fé é algo que não deveria nos surpreender. Afinal, as estatísticas nos mostram de forma clara que o percentual de prática religiosa no meio jornalístico é mais baixo do que nos outros segmentos da sociedade.

O que causa espécie e até indignação é que teólogos, isto mesmo, teólogos (!) não sejam capazes desta fé.

Recentemente um grupo de estudiosos, capitaneados por ninguém menos do que nossos velhos conhecidos Leonardo Boff e Hans Küng, está recolhendo assinaturas na internet no esforço de "redesenhar" a forma como a autoridade é vivida dentro da Igreja católica (cf. http://churchauthority.org ).

Os autores do manifesto alegam que esta reengenharia da estrutura da Igreja é uma exigência do Vaticano II. Mas, a verdade é que a "nova Igreja" que brota dos sonhos de nossos teólogos liberais, pelo que se lê, seria mais facilmente encontrada nos escritos de Martinho Lutero do que na "Lumen gentium" ou em outros documentos do concílio.

Foi neste mesmo afã revolucionário que, tão logo recebida a notícia da renúncia de Bento XVI, os nossos "scholars" puseram mãos à obra e começaram a traçar o perfil do futuro Papa. A coisa toda é apresentada como arrojada e inovadora, mas se trata da velha e conhecida eclesiologia protestante: somos todos iguais, vamos então construir a Igreja que "nós queremos". Afinal, Igreja é isto, uma construção humana.

Para estes teólogos o papado é uma excrescência medieval e a cúria romana um tumor a ser extirpado. A Igreja romana centralizadora deveria morrer e dar lugar a uma Igreja da colegialidade em todos os níveis (inclusive dos leigos!).

É claro que se trata de pura retórica manipuladora. Os únicos leigos a quem esta turma já deu voz foram os seus títeres ideológicos, que, aliás, embora tenham chegado ao poder, estão envelhecendo e diminuindo em número.

Não é à toa que, com toda propaganda e esforço só conseguiram até agora pouco mais de duas mil assinaturas para o seu abaixo-assinado internacional.

Gostaria de vê-los consultar os milhões de jovens da geração Bento XVI que aguardam, ansiosos e confiantes, que o Senhor, com a próxima fumaça branca que sair da Sistina exorcize o que ainda resta da "fumaça de Satanás" que eles ajudaram a inocular dentro da Igreja.

Autor: Padre Paulo Ricardo