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Quatro virtudes fundamentais para lidar com pessoas enfermas

Com que virtudes devemos sair em socorro de nossos irmãos doentes? É o que explica nesta matéria o Padre Antonio Royo Marín, grande tomista espanhol.

Visitar as pessoas enfermas diz respeito a uma verdadeira obra de misericórdia com autêntico espírito cristão, contanto que haja, em primeiro lugar, intenção sobrenatural de agradar a Deus, servindo-Lhe na pessoa dos membros enfermos de Cristo.

Eis aqui, portanto, as principais virtudes cristãs que há de praticar aquele que visita ou cuida dos enfermos, a fim de que sua ação caritativa seja verdadeiramente proveitosa para o enfermo e altamente meritória para si mesmo.

1.º Fé. — Antes de tudo, é necessário o exercício da fé, de modo que o fiel veja no enfermo o próprio Cristo, que sofre em um dos membros de seu Corpo místico. De fato, somente assim o Senhor nos dirá no dia do juízo final: "Vinde, benditos de meu Pai…, porque estive enfermo e me visitastes" (Mt 25, 34-40). Quando somos movidos por qualquer outra razão que não seja esta, desvirtuamos completamente o sentido desta grande obra de misericórdia e a destituímos quase inteiramente de seu imenso valor diante de Deus; pois Cristo não recompensará uma obra na qual em nenhum momento se pensou nEle.

A fé, assim, é o modo de ver fundamental no qual é preciso colocar-se a pessoa que pratica esta ou qualquer outra obra de misericórdia. Isso não quer dizer, porém, que não se possa pretender também finalidades humanas com essa visita, como: curar o enfermo, aliviá-lo, consolá-lo, distraí-lo, confortar a família, etc.; mas tudo isso deve estar subordinado à finalidade última e suprema que é atender ao doente como membro enfermo de Cristo, como se se tratasse do próprio Salvador em pessoa.

Por não se ter em conta esse detalhe tão primário e fundamental, quanta moeda falsa, do ponto de vista sobrenatural, e quanta caridade aparente na visita e no cuidado dos enfermos! Por isso, nunca se insistirá o bastante na necessidade de retificar a intenção, ao exercermos qualquer obra de misericórdia corporal ou espiritual. Se não o fazemos, expomo-nos a agir no plano puramente humano e natural, que, embora não seja pecaminoso, carece absolutamente de valor na ordem e plano sobrenatural. Porque não basta, para o mérito sobrenatural, estar na graça e possuir a caridade habitual; é preciso que a caridade influencie ao menos virtualmente o que estamos fazendo.

2.º Caridade. — Compreende-se sem esforço, portanto, que é precisamente a caridade que nos move e impulsiona ao exercício das obras de misericórdia. Mas não nos esqueçamos que a caridade se funda na participação da eterna bem-aventurança, e, por conseguinte, em última análise, a visita e o cuidado do enfermo deve também a ela encaminhar-se. É bom que nos preocupemos pela sua saúde corporal e que empreguemos para consegui-la todos os meios legítimos ao nosso alcance; mas, acima de tudo, devemos procurar sua saúde espiritual, animando-o a aceitar santamente sua enfermidade, vendo nela a expressão da vontade misericordiosa de Deus, e — se o caso o exigir — preparando-o para a digna recepção dos santos sacramentos.

É incrível, a esse respeito, a cegueira de tantas famílias que se chamam cristãs e que, na hora de manifestar o máximo amor e prestar o maior serviço aos entes queridos, salvando-lhes a alma, apodera-se deles com tal veemência o temor de "assustá-los", que não vacilam em deixá-los morrer sem receber os santos sacramentos, que talvez lhes eram absolutamente necessários para sua salvação eterna. Trata-se de um crime monstruoso que não ficará sem grande castigo da parte de Deus, neste mundo ou no outro; crime ao qual não servirá de desculpa o carinho mal-entendido que se sentia por aquele familiar, a quem não se vacilou em sepultar para sempre no inferno, ao invés de dar-lhe um pequeno susto que lhe teria aberto as portas do céu por toda a eternidade.

3.º Paciência e abnegação. — Os enfermos costumam pensar muito em si mesmos e ser bem exigentes, não se dando conta, muitas vezes, das grandes dificuldades que ocasionam aos que lhes rodeiam. É preciso armar-se, por isso, de paciência e de uma abnegação a toda prova, a fim de atender-lhes com sorriso nos lábios, sem dar a entender o sofrimento que nos causam. O trabalho da enfermeira ou da irmã de caridade desempenhado com suavidade e doçura, sem se impacientar jamais pelas mil impertinências e caprichos dos enfermos, supõe um domínio completo de si mesmo e uma abnegação heroica, que Deus saberá premiar com largueza na hora das recompensas eternas.

4.º Prudência e delicadeza. — Além disso, no trato com os enfermos, prudência e delicadeza são requeridas em grau superlativo. Na ordem material, deve-se procurar, por um lado, cumprir exatamente as prescrições médicas — algumas das quais são incômodas e penosas para o enfermo, que, por isso mesmo, quererá recusá-las —, sem que, por outro lado, se agite ou turbe o ânimo do paciente. Na ordem espiritual e religiosa, deve-se evitar com todo cuidado dar ao enfermo notícias que possam desgostá-lo ou afligi-lo — exceto, naturalmente, quando se-lhe deve falar dos últimos sacramentos — ou que despertem em sua alma sentimentos de rancor, inveja, impaciência e outras coisas semelhantes. Deve-se, por isso, criar para ele um clima de paz, serenidade, otimismo, confiança em Deus e plena aceitação, gozosa e alegre, de sua Divina Vontade, que nunca permite o mal senão para tirar maiores bens.


Do livro Teologia de la Caridad, do Pe. Antonio Royo Marín,
Madrid: BAC, 1960, p. 426s.

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Por que murmurar se a felicidade não é deste mundo?

O pecado da murmuração nasce entre aqueles que ainda acreditam na felicidade deste mundo. Descubra nesta matéria os males desse vício e aprenda a combatê-lo.

Uma doença muito comum entre padres, freiras e outras pessoas dedicadas ao apostolado é a murmuração. Esse verdadeiro vício, que consiste em uma falta de disposição para aceitar as contrariedades do dia a dia, tem causado enormes estragos na vocação cristã, sobretudo entre aqueles que ainda se encontram na fase inicial da vida de oração. Se não for remediado em tempo devido, pode não só arruinar o trabalho apostólico da pessoa, como afastá-la definitivamente do caminho de Deus. É por isso que o Diabo incentiva tanto os pensamentos críticos e a maledicência no meio religioso.

A murmuração é um típico pecado da língua, pelo qual a pessoa expressa seu aborrecimento e má vontade para realizar alguma ação que não lhe é agradável. O murmurador acaba repetindo a mesma atitude daqueles que o salmista condena por colocarem suas forças nas próprias palavras: "Dominaremos pela nossa língua, nossos lábios trabalham para nós, quem nos será senhor?" (Sl 11, 5). É desse tipo de atitude que nascem as fofocas, as intrigas, os sarcasmos e tantos outros pecados contra a caridade, os quais deveriam estar bem longe de um coração temente a Deus.

Mas como pode um pecado assim grosseiro estar tão presente na vida de muitos cristãos piedosos? O que estaria na origem das murmurações de sacerdotes, religiosos e lideranças leigas?

Os autores espirituais costumam relacionar os pecados da língua ao vício do orgulho. A murmuração, por sua vez, não é uma exceção. Ela nasce justamente de uma falta de retidão na entrega diária, pelo que a pessoa se sente no direito de contestar a vontade de Deus. "A murmuração é particularmente um inimigo nefasto da unidade no apostolado: 'é crosta que suja e entorpece o apostolado'. — Vai contra a caridade, tira forças, rouba a paz, e faz perder a união com Deus", adverte São Josemaria Escrivá (Caminho, n. 49).

No caso dos missionários, isso é ainda mais flagrante quando o padre ou o religioso, por exemplo, se desaponta com alguma contradição e pensa: "Mas Deus, eu já renunciei a tantas coisas, por que tenho ainda de passar por mais esse sofrimento? Já não foi o bastante ter deixado pai e mãe, esposa e filhos?" E assim o sujeito se ressente de sua vocação e começa a enxergar tudo nublado, porque a sonhada felicidade não veio depois da ordenação ou da profissão religiosa. Inúmeras são as vocações que se perdem por causa dessa cegueira espiritual.

Os jovens sacerdotes, por exemplo, caem frequentemente na ilusão da felicidade terrena. Depois dos anos sofridos de seminário, pensam, agora terão a bajulação dos fiéis, o afago dos presentes e a confiança do bispo. E qual não é a surpresa deles quando descobrem que, na verdade, ser padre é começar a sofrer! Os que não estão preparados para o martírio logo se decepcionam e cedem à murmuração. Tornam-se verdadeiras gralhas pessimistas, grasnando suas dores para qualquer um e em qualquer lugar. O sacerdócio se torna uma desgraça.

O primeiro remédio contra a murmuração, portanto, deve ser o da pobreza evangélica. Os cristãos precisam desapegar-se desta vida, deste mundo efêmero, para colocarem suas esperanças de felicidade somente no Céu. Vale a pena recordar o testemunho de Santa Bernadette sobre o que representava para ela o cumprimento de sua missão como vidente de Nossa Senhora. Após os eventos de Lourdes, a pequena pastorinha não quis receber os aplausos do mundo, mas refugiar-se em um convento onde seria uma simples religiosa como outra qualquer. Ela sabia por meio da Mãe de Deus que não estava destinada aos prazeres mundanos, mas à felicidade eterna:

A pequena Bernadette [...] seguiu sua vida no escondimento, como se nada tivesse acontecido. Voltou a ser uma simples jovem. Sentindo a necessidade de afastar-se do mundo e das especulações de curiosos, decide-se pelos votos religiosos e entra para o convento das Irmãs da Caridade, em Nevers, França. Com uma saúde ainda mais frágil, é obrigada a passar pelas mais duras humilhações, a ponto de ter de ouvir dos lábios da superiora, e na frente do bispo, "que não servia para nada". Oferece tudo ao Coração de Jesus como consolo e reparação às ofensas dos homens.

Bernadette viveu seus últimos anos em oração e grande agonia. " Não lhe prometo a felicidade neste mundo, somente no próximo". As palavras que a Virgem lhe dirigira nas primeiras aparições cumpriram-se fatalmente. A santa entregou-se como holocausto pela conversão e salvação dos pecadores. Morreu no dia 16 de abril de 1879, aos 35 anos, devido a sérias complicações causadas pela tuberculose. Suas últimas palavras: "Ó minha senhora, eu vos amo. Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por mim". Com o corpo incorrupto, a "que não servia para nada" foi elevada às glórias dos altares em 1933 pelo Papa Pio XI. A felicidade eterna a havia alcançado.

Notem: Bernadette atingiu o cume da santidade por uma vida simples, sem glórias humanas, totalmente voltada para o cumprimento da vontade de Deus. Nunca murmurou contra suas dores. Ao contrário, seu pedido constante no leito de agonia não era para que Deus abreviasse seu sofrimento, mas para que lhe desse "paciência". Isso tudo porque sabia, pela promessa de Nossa Senhora — "Não lhe prometo a felicidade neste mundo, somente no próximo" —, que não passaria por esta vida sem sérios tormentos. Por isso, seguiu fielmente o conselho de São Paulo aos filipenses: "Fazei todas as coisas sem murmurações nem críticas, a fim de serdes irrepreensíveis e inocentes, filhos de Deus íntegros no meio de uma sociedade depravada e maliciosa, onde brilhais como luzeiros no mundo" (Fl 2, 14-15).

O cristão, é claro, não deve ser uma pessoa triste, amargurada pelas cruzes do dia a dia. Mas sua alegria vem exatamente da certeza de que estas cruzes cessarão e, no Céu, eles encontrarão a paz completa e eterna, como Santa Bernadette e os demais santos. Com uma fé sólida na realidade dos novíssimos, nenhum sacerdote ou religioso terá motivos para se queixar de algo, pois aquele que espera apenas em Deus "dessa forma, no dia de Cristo", sentirá a "alegria em não ter corrido em vão, em não ter trabalhado em vão" (Fl 2, 16).

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

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O espiritismo tem alguma coisa a ver com o Evangelho de Cristo?

Da Santíssima Trindade à fé na Igreja, da divindade de Cristo ao juízo final, o espiritismo renuncia a praticamente todo o credo cristão. Em que consiste, pois, seu anunciado “cristianismo”?

Por Frei Boaventura Kloppenburg — No Brasil, o movimento criado por Allan Kardec (AK) é mantido e divulgado pela Federação Espírita Brasileira, fundada em 1884, que a propõe sistematicamente não apenas como "a religião", mas também como "espiritismo cristão" [...].

Embora o próprio AK jamais tenha usado esta expressão, tomada de J. B. Roustaing (1865), ofereceu-lhe, no entanto, um bom fundamento para isso quando proclamou que o espiritismo é a realização das promessas de Jesus Cristo acerca do Consolador e a apresentou como "a Terceira Revelação" [...]. Em O Evangelho segundo o espiritismo (cito agora a 90.ª ed., p. 59) escreve AK: "Assim como o Cristo disse: 'Não vim destruir a lei, porém cumpri-la', também o espiritismo diz: não venho destruir a lei cristã, mas dar-lhe execução. Nada ensina em contrário ao que ensinou o Cristo".

Semelhantes afirmações são comuns entre os espíritas e pode ser que sejam sinceras, mas mostram um desconhecimento profundo da doutrina do Evangelho segundo Mateus, Marcos, Lucas e João e segundo o ensinamento apostólico contido em suas cartas. O Reformador, órgão oficial do nosso kardecismo, de março de 1981, num artigo sobre a missão do Consolador (que seria o Espírito Santo segundo o Evangelho de São João), conclui: "É missão, pois, do espiritismo devolver ao cristianismo a sua pureza original, libertando-o dos dogmas e das idéias humanas nele introduzidas" (p. 85).

Veremos agora como se fez esta fundamental operação libertadora:

1) A revelação divina. — Para a generalidade dos cristãos de todos os tempos, sejam eles católicos, ortodoxos ou protestantes, os livros da Sagrada Escritura são divinamente inspirados. É um princípio inconcusso ("dogma") dos cristãos. No credo espírita de AK não entra este ponto fundamental. Jamais o afirma em nenhuma de suas obras. Mas com freqüência se compraz em mostrar o que ele considera absurdos e contradições da Bíblia. No órgão oficial da Federação Espírita Brasileira, Reformador, janeiro de 1953, p. 23, encontramos a posição bem definida dos nossos espíritas perante a Bíblia: "Do Velho Testamento já nos é recomendado somente o Decálogo e do Novo Testamento apenas a moral de Jesus; já consideramos de valor secundário, ou revogado e sem valor algum, mais de 90% do texto da Bíblia. Só vemos na Bíblia toda um livro respeitável pelo seu valor cultural, pela força que teve na formação cultural dos povos do Ocidente". [...]

Falando de escritos apostólicos do Novo Testamento, escreve AK: "Todos os escritos posteriores (aos Evangelhos), sem exclusão dos de S. Paulo, são apenas, e não podem deixar de ser, simples comentários ou apreciações, reflexos de opiniões pessoais, muitas vezes contraditórias que, em caso algum, podem ter a autoridade da narrativa dos que receberam diretamente do Mestre as instruções" ( Obras póstumas, 10.ª ed., p. 110). Esta posição negativa reaparece com freqüência na literatura espírita brasileira. Assim, por exemplo, Carlos Imbassahy, em À Margem do Espiritismo (2.ª ed.), esclarece que, "em matéria de escritura, os espíritas, no a que se referem, é tão unicamente aos Evangelhos. Não os apresentam, porém, como prova, senão como fonte de luz subsidiária, elemento de reforço" (p. 126). Pois "nem a Bíblia prova coisa nenhuma, nem temos a Bíblia como probante. O espiritismo não é um ramo do cristianismo como as demais seitas cristãs. Não assenta os seus princípios nas escrituras. Não rodopia junto à Bíblia. A nossa base é o ensino dos espíritos, daí o nome — espiritismo" (p. 219).

2) A doutrina sobre Deus. — Os conceitos de AK sobre a existência de Deus e seus atributos coincidem de fato com a doutrina cristã. Duas vezes, em seus escritos, AK se refere expressamente ao panteísmo, para rejeitá-lo ( O livro dos espíritos, 22.ª ed., p. 53; Obras póstumas, 10.ª ed., p. 179). E contra os panteístas chega a afirmar positivamente uma nítida distinção entre Deus e o Universo, acusando o panteísmo de "confundir o Criador com a criatura"; e, por isso, declara inequivocamente: "As obras de Deus não são o próprio Deus" (O livro dos espíritos, p. 54). Não obstante, por vezes tem expressões com sabor panteísta. Assim quando diz que "ignoramos" se a inteligência é uma "emanação da Divindade" (O livro dos espíritos, p. 56); ou quando o "fluido universal" toma qualidades panteístas; ou quando esclarece que os espíritos "se acham mergulhados no fluido divino" (cf. A gênese).

Já Leão Denis, outro patriarca do espiritismo, então membro da equipe de codificação da doutrina espírita, resvalou para um evidente monismo panteísta. Segundo seu modo de falar, "Deus é a grande alma universal, de que toda alma humana é uma centelha, uma irradiação. Cada um de nós possui, em estado latente, forças emanadas do divino foco" (assim em Cristianismo e Espiritismo, 5.ª ed., p. 246). Fala com freqüência de Deus como "divino foco", "supremo foco do bem e do belo", "o grande foco divino" etc. Também em outra obra sua, Depois da Morte, 6.ª ed., voltam expressões panteístas: "Deus é infinito e não pode ser individualizado; isto é, separado do mundo, nem subsistir à parte" (p. 114); ou: "o Ser supremo não existe fora do mundo, porque este é a sua parte integrante e essencial" (p. 124). Em vez do "Deus fantástico da Bíblia", ele quer o "Deus imanente, sempre presente no seio das coisas" (p. 213): "O universo não é mais essa criação, essa obra tirada do nada de que falam as religiões. É um organismo imenso animado de vida eterna" (p. 123); e em seguida explica que Deus está para o universo como a alma para o corpo: "O eu do universo é Deus" (p. 349).

3) A Santíssima Trindade. — Todos os cristãos, católicos, ortodoxos e protestantes, professam sua fé na Santíssima Trindade. É o mistério central da fé e mensagem cristã, desde os primórdios do cristianismo. Mas o credo espírita proposto por AK desconhece totalmente a Santíssima Trindade. A posição de AK, no conjunto de suas obras, é de absoluto e sistemático silêncio com relação a esta doutrina cristã. Seu silêncio era apenas oportunista. Na realidade, em seu sistema de pensamento não cabia este mistério cristão, não só porque para ele "absolutamente não há mistérios" ( Obras póstumas, p. 201), mas porque não há lugar para uma intensa vida divina intratrinitária, dado que, segundo AK, o Deus que não cria incessantemente, desde toda a eternidade, seria um Deus solitário e ocioso (cf. O livro dos espíritos, p. 56).

Mas se AK julgou mais oportuno não negar abertamente o mistério trinitário, seus seguidores não compartilham este ponto de vista. Já Leão Denis, em Cristianismo e Espiritismo, p. 74, abre sua crítica dos nossos principais dogmas com estas palavras: "Começa com a estranha concepção do Ser divino, que se resolve no mistério da Trindade". Depois explica: "A noção da Trindade, colhida numa lenda hindu que era a expressão de um símbolo, veio obscurecer e desnaturar essa alta idéia de Deus [...]. Essa concepção trinitária, tão incompreensível, oferecia, entretanto, grande vantagem às pretensões da Igreja. Permitia-lhe fazer de Jesus Cristo um Deus" (p. 75).

No Brasil, o espiritismo em peso ou desconhece ou nega a Santíssima Trindade.

4) A doutrina sobre Jesus. — Professam os cristãos que Jesus é verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem. A afirmação da divindade de Jesus é fundamental para a fé cristã. Mas este Jesus não entra no credo espírita formulado por AK. Ele nos deixou entre suas Obras Póstumas um "Estudo sobre a natureza de Cristo", de 41 páginas, todo ele tendenciosamente orientado para provar que Jesus não era Deus. Com este objetivo nega, sucessivamente, o valor dos milagres, das palavras de Jesus, da opinião dos Apóstolos e das profecias messiânicas.

Mas nos dias de AK surgiu um advogado de Bordéus chamado João Batista Roustaing, que teve seu primeiro contato com o espiritismo em 1861 e em 1865 publicou sua obra: Espiritismo Cristão ou Revelação da Revelação, em três volumes. Sua tese central: o corpo de Jesus não era real, de carne e osso, mas aparente e meramente fluídico. Repetia o docetismo do primeiro século cristão. Sua tese não foi aceita por AK. Mas no Brasil a Federação Espírita, desde sua fundação, propaga a obra de Roustaing. Bittencourt Sampaio, Sayão, Bezerra de Menezes, Guillon Ribeiro e outros conhecidos dirigentes da Federação Espírita são rusteinistas professos. Guillon Ribeiro, que foi presidente da Federação em 1920-1921 e de 1930 a 1943 e tradutor das obras de AK, compendiou a cristologia espírita no título que deu ao livro: Jesus, nem Deus nem homem, reeditado e divulgado pela Federação Espírita.

5) A doutrina sobre a redenção. — "É pelo sangue de Jesus Cristo que temos a redenção, a remissão dos pecados, segundo a riqueza de sua graça que ele derramou profusamente sobre nós", explicava São Paulo ( Ef 1, 7). Nossa redenção pela paixão, morte e ressurreição de Jesus é outra verdade fundamental da fé cristã. Nisso consiste propriamente a "boa nova" ou o "evangelho". Mas nem esta verdade tão central entra no credo espírita de AK. Segundo ele cada um deve ser seu próprio redentor através do sistema das reencarnações.

Por isso no espiritismo a soteriologia (ou doutrina sobre a redenção ou salvação do homem) é deslocada da cristologia para a antropologia. Leão Denis ( foto acima) o enuncia cruamente quando escreve: "Não, a missão de Cristo não era resgatar com o seu sangue os crimes da humanidade. O sangue, mesmo de um Deus, não seria capaz de resgatar ninguém. Cada qual deve resgatar-se a si mesmo, resgatar-se da ignorância e do mal. É o que os espíritos, aos milhares, afirmam em todos os pontos do mundo" ( Cristianismo e Espiritismo, p. 88). E o Reformador, órgão máximo da propaganda reencarnacionista no Brasil, ensina em seu número de outubro de 1955 (p. 236): "A salvação não se obtém por graça nem pelo sangue derramado por Jesus no madeiro", mas "a salvação é ponto de esforço individual que cada um emprega, na medida de suas forças".

Daí esta doutrina de AK: "Toda falta cometida, todo mal realizado é uma dívida contraída que deverá ser paga; se não for em uma existência, sê-lo-á na seguinte ou seguintes" ( O céu e o inferno, 16.ª ed., p. 88). Ele reconhece a necessidade e o valor do arrependimento; mas este arrependimento não basta ao pecador para obter o perdão divino. Segundo ele, a contrição é apenas o início da expiação e tem como conseqüência o desejo de "uma nova encarnação para se purificar" (O livro dos espíritos, p. 446). "O arrependimento concorre para a melhoria do espírito, mas ele tem que expiar o seu passado" (ibid., p. 448); "o arrependimento lhe apressa a reabilitação, mas não o absolve" (ibid., p. 450); "o arrependimento suaviza os travos da expiação, abrindo pela esperança o caminho da reabilitação; só a reparação, contudo, pode anular o efeito, destruindo-lhe a causa. Do contrário, o perdão seria uma graça, não uma anulação" (O céu e o inferno, p. 90); e a graça é coisa que não existe porque "seria uma injustiça" (O evangelho segundo o espiritismo, 39.ª ed., p. 76).

No livro Roma e o Evangelho (5.ª ed.), o espírito de "Maria" dita estas palavras: "Jesus Cristo não podia, nem quis assumir todas as responsabilidades individuais, contraídas ou por contrair, emanadas dos pecados dos homens, e muito menos podia, pelo sacrifício da sua vida, remir a humanidade da pena de desterro a que fora condenada [...]. A redenção da humanidade não se firma, pois, nos méritos e sacrifícios de Jesus, e, sim, nas boas obras dos homens [...]. Que cegueira! Quanta aberração! Supor e afirmar que os sofrimentos e a morte do Justo foram ordenados do alto, em expiação dos pecados de todos, é a mais orgulhosa das blasfêmias contra a justiça do Eterno".

6) A doutrina sobre a Igreja. — "Creio na Igreja, una, santa, católica e apostólica." É a profissão cristã. Nem esta profissão entra no credo espírita. Com a negação da doutrina cristã sobre a redenção e santificação dos homens, contestam-se conseqüentemente também todos os meios instituídos por Jesus Cristo para a salvação e santificação.

  • A começar pelo Batismo. Jesus mandou aos Apóstolos ir pelo mundo inteiro, ensinar a todos tudo quanto ele lhes ordenara, batizando a todos "em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo" (Mt 28, 19-20), esclarecendo: "Aquele que crer e for batizado será salvo; o que não crer será condenado" (Mc 16, 16). No Brasil, os espíritas, fiéis à doutrina codificada por AK, já não batizam nem fazem batizar seus filhos. Nem teria sentido. Pois é pelas reencarnações que os homens devem alcançar a perfeição.
  • Na última ceia Jesus instituiu a Eucaristia e ordenou aos Apóstolos: "Fazei isto em minha memória" (Lc 22, 19). Mas os espíritas não o fazem. Nem teria sentido. Pois, segundo eles, o mistério pascal não tem valor de sacrifício pelos pecados dos homens.
  • Jesus disse aos apóstolos: "Aqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados" (Jo 20, 23). Mas os espíritas não procuram receber o perdão divino que lhes é generosamente oferecido. Nem teria sentido. Pois somente mediante as reencarnações se alcança o perdão.
  • Jesus disse a Pedro: "Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do reino dos céus e o que ligares na terra será ligado nos céus e o que desligares na terra será desligado nos céus" (Mt 16, 18-19). Mas os espíritas não dão nenhuma importância nem a Pedro e seus sucessores, nem à Igreja que Jesus dizia "sua", nem ao poder das chaves que o Senhor Jesus entregou ao chefe do colégio apostólico.
  • Jesus declarou aos Apóstolos: "Quem vos ouve a mim ouve, quem vos despreza a mim despreza, e quem me despreza, despreza aquele que me enviou" (Lc 10, 16). Para os espíritas tudo isso já está superado. Pois eles vão receber as orientações dos espíritos que baixam em seus centros.

Proclamando a nulidade dos sacramentos, quer AK que o espiritismo não tenha "nem culto, nem rito, nem templos" ( Obras póstumas, p. 235). E o Conselho Federativo Nacional dos espíritas, em sua reunião de 5 de julho de 1952, declarou, "por unanimidade, que o espiritismo é religião sem ritos, sem liturgia e sem sacramentos". Proclama-se assim a total inutilidade da Igreja, que será substituída pelo espiritismo. No livro Depois da Morte (p. 80), profetiza Leão Denis: "Chegará a ocasião em que o catolicismo, seus dogmas e práticas não serão mais do que vagas reminiscências quase apagadas da memória dos homens, como o são para nós os paganismos romanos e escandinavos".

Não seria difícil continuar a lista de negações. Assim, para dar apenas mais alguns exemplos, o espiritismo:

  • nega a criação da alma humana;
  • recusa a união substancial entre corpo e alma;
  • afirma que não há anjos e demônios;
  • repudia os privilégios de Maria Santíssima;
  • não admite o pecado original;
  • contesta a graça divina;
  • abandona toda a doutrina do sobrenatural;
  • rejeita a unicidade da vida humana terrestre;
  • ignora o juízo particular depois da morte;
  • não concede a existência do purgatório; ridiculariza o inferno; reprova a ressurreição da carne;
  • e desdenha o juízo final.

Em uma palavra: renuncia a todo o credo cristão. Em que consiste, pois, seu anunciado "cristianismo"? Tudo é simplesmente reduzido à aceitação de alguns princípios morais do Evangelho, tal como AK aprendera em sua juventude, no Instituto de Pestalozzi, em Yverdun, na Suíça. Seu manual "cristão" é unicamente O Evangelho segundo o Espiritismo, "com a explicação das máximas morais do Cristo em concordância com o espiritismo e suas aplicações às diversas circunstâncias da vida", que AK publicou em 1864.


Transcrito e levemente adaptado de
Espiritismo, orientação para os católicos,
do Frei Boaventura Kloppenburg,
9.ª ed., São Paulo: Loyola, 2014, pp. 26-32.

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Por que chamamos a Deus de “nosso Pai”?

Ainda em preâmbulo à Oração do Senhor, Santo Tomás de Aquino explica neste texto em que sentido Deus é chamado de Pai, expondo os deveres que temos seja para com Ele, enquanto filhos, seja para com o próximo, enquanto irmãos.

II․ "Pai"

3․ Em que sentido Deus é Pai․ — Aqui se nos deparam duas questões: saber em que sentido Deus é Pai e o que lhe devemos enquanto tal. Ora, Deus é chamado Pai (a) em razão do modo especial com que nos criou, fazendo-nos à sua imagem e semelhança, não impressas nas criaturas inferiores: "Não é ele teu Pai, teu Criador, que te fez e te estabeleceu?" (Dt 32, 6). Também o é (b) em razão de seu governo; ora, ainda que tudo esteja sob seu poder, a nós Ele governa como senhores, ao passo que as demais coisas são como escravas em suas mãos: "Sois vós, Pai, que o governais pela vossa Providência" (Sb 14, 3) e, como se lê no mesmo livro, "nos governais com muita indulgência" (Sb 12, 18). Deus é Pai, além disso, (c) a título de adoção, pois se às outras criaturas concedeu alguns pequenos dons, a nós transmitiu uma herança, porque nos fez filhos seus e, "se filhos, também herdeiros" (Rm 8, 17). Como diz o Apóstolo, "não recebestes um espírito de escravidão para viverdes ainda no temor, mas recebestes o espírito de adoção pelo qual clamamos: Aba! Pai!" (Rm 8, 15) [1].

4․ O que a ele devemos․ — De nossa parte, devemos-lhe quatro coisas.

a) Em primeiro lugar, que o honremos: "Se eu, pois, sou vosso pai, onde está a minha honra?" (Ml 1, 6), a qual consiste em três coisas: (i) em relação a Deus, dar-lhe louvor, como canta o salmista: "Honra-me quem oferece um sacrifício de louvor" (Sl 49, 23), que deve estar não só nos lábios, mas também no coração: "Esse povo", disse o Senhor <por boca do profeta>, "vem a mim apenas com palavras e me honra só com os lábios, enquanto seu coração está longe de mim" (Is 29, 13); (ii) em relação a si mesmo, guardar a pureza de corpo, <como exorta o Apóstolo>: "Glorificai, pois, a Deus no vosso corpo" (1Cor 6, 20); (iii) em relação ao próximo, julgá-lo com equidade, como diz o Salmo: "Reina o rei poderoso que ama a justiça" (Sl 98, 4).

b) Em segundo, que o imitemos, uma vez que é nosso Pai: "Chamar-me-ás pai, e não cessarás de me seguir" (Jr 3, 19). Ora, imitamo-lo perfeitamente quando a ele nos assemelhamos em três aspectos: (i) no amor: "Sede, pois, imitadores de Deus como filhos muito amados. Progredi na caridade" (Ef 5, 1), e isso deve estar no coração; (ii) na misericórdia, pois o amor deve vir acompanhado de compaixão [2]: "Sede, portanto, misericordiosos" (Lc 6, 36), o que tem de manifestar-se em nossas obras; e (iii) na perfeição, pois o amor e a misericórdia devem ser perfeitos: "Portanto, sede perfeitos, assim como o vosso Pai celeste é perfeito" (Mt 5, 48).

c) Em terceiro lugar, que lhe sejamos obedientes: "Com quanto mais razão nos havemos de submeter ao Pai de nossas almas?" (Hb 12, 9). E isto por três motivos [3]: primeiro, (i) por seu domínio, já que ele é o Senhor: "Faremos tudo o que o Senhor disse e seremos obedientes" (Ex 24, 7); segundo, (ii) pelo exemplo que nos deu o verdadeiro Filho, ao fazer-se obediente ao Pai até a morte, como se diz na Epístola aos Filipenses (cf. Fl 2, 8); terceiro, (iii) porque nos é proveitoso: "Dançarei diante do Senhor que me escolheu" (2Sm 6, 21s) [4].

d) Por fim, que sejamos pacientes nas adversidades com que ele nos castiga, <como aconselha o rei Salomão>: "Meu filho, não desprezes a correção do Senhor, nem te espantes que ele te repreenda, porque o Senhor castiga aquele a quem ama, e pune o filho a quem muito estima" (Pr 3, 11s).

III. "… nosso…"

5․ O que devemos ao próximo․ — Com esta palavra se põem em evidência os nossos dois deveres para com o próximo. O primeiro é o (a) amor. Com efeito, visto que todos são filhos de Deus, temos de tratar o próximo como a um irmão: "Porque aquele que não ama seu irmão, a quem vê", diz São João, "é incapaz de amar a Deus, a quem não vê" (1Jo 4, 20). O segundo é o (b) respeito, por ser ele filho de Deus: "Acaso não é um mesmo o Pai de todos nós? Não foi um mesmo Deus que nos criou? Por que razão somos pérfidos uns para com os outros?" (Ml 2, 10); "Adiantai-vos em honrar uns aos outros" (Rm 12, 10). <Assim temos de tratar o nosso semelhante>, por causa do fruto que recebemos daquele que "se tornou autor da salvação eterna para todos os que lhe obedecem" (Hb 5, 9).

Referências

  1. A noção de paternidade aplicada a Deus, diz Santo Tomás, só existe propriamente no seio da Santíssima Trindade, uma vez que o Pai gera o Filho ab æterno de sua própria substância, coigual e coeterno a si com a mesma glória e segundo a mesma natureza divina. Em S. Th. I, q. 33, a. 3, co., o Aquinate diferencia quatro tipos de filiação que podem atribuir-se às criaturas com respeito a Deus, não em sentido próprio e adequado (secundum rationem perfectam), mas em razão de certa semelhança (secundum aliqualem similitudinem), que pode ser: a) de vestígio, e assim ele é chamado Pai das criaturas irracionais (cf. 38, 28); b) de imagem, e assim ele é Pai das criaturas racionais (cf. Dt 32, 6); c) de graça, e deste modo ele é Pai dos homens que, sendo seus filhos adotivos, ordenam-se à herança da glória eterna pelo dom da graça que lhes foi concedido (cf. Rm 8, 16s); e d) de glória, e neste sentido Deus é Pai dos santos que já entraram na posse da herança eterna (cf. Rm 5, 2).
  2. Ao longo de S. Th. II-II, qq. 28-33, Santo Tomás trata dos efeitos imediatos, tanto internos quanto externos, do ato principal da virtude da caridade, que é o amor (dilectio). Entre os efeitos internos, o Angélico enumera a misericórdia, "uma virtude especial [...] que nos inclina a compadecer-nos das misérias e desgraças do próximo, considerando-as de certo modo como próprias, enquanto entristecem o nosso irmão e na medida em que podemos, além disso, ver-nos a nós mesmos em semelhante estado. É a virtude por excelência dentre todas as que se referem ao próximo; e o mesmo Deus manifesta em grau sumo sua omnipotência ao compadecer-se misericordiosamente de nossos males e remediar nossas necessidades" (A. Royo Marín, Teología de la Perfección Cristiana. Madrid: BAC, 2012, p. 526, n. 366). O Aquinate chega a afirmar que, considerada em si mesma, a misericórdia é a maior das virtudes, visto que a ela pertence repartir com os outros e socorrê-los na necessidade, o que é característico de quem é superior. É por isto que se diz que ter misericórdia é próprio de Deus, que está acima de todas as criaturas. Mas, do ponto de vista do sujeito, a misericórdia só pode considerar-se a maior virtude se quem a possui for o mais eminente, sem ninguém acima que o socorra e tendo abaixo de si todos os demais. Ora, para quem tem um superior ao qual recorrer é melhor unir-se a ele do que suprir as necessidades de alguém inferior. Por isso, a caridade, pela qual nos unimos a Deus, essencial e soberanamente superior a todos, tem prioridade sobre a misericórdia, pela qual socorremos aos necessitados, acidental e circunstancialmente inferiores a nós (cf. S. Th. II-II, q. 30, a. 4, co.).
  3. A obediência, diz Santo Tomás, é uma virtude moral que nos dispõe a cumprir prontamente as ordens e preceitos de um superior (cf. S. Th. II-II, q. 104, a. 2, ad 3), seja ele outro homem ou o próprio Deus, a cujo império devemos sujeitar nossa vontade em razão de certa necessidade de justiça (ex quadam necessitate iustitiæ), visto que ele é o primeiro motor não só das coisas que se movem naturalmente, mas também de todas as vontades livres (cf. S. Th. II-II, q. 104, a. 4, co.).
  4. "Grandes são as vantagens da obediência tanto para a inteligência como para a vontade e o coração. — 1.ª) Para a inteligência: a) Certeza de conhecer e fazer infalivelmente a vontade divina. b) Certeza do socorro divino: Ego ero tecum (Ex 3, 21). c) Certeza de êxito: Omnia cooperantur in bonum (Rm 8, 28), ainda que o superior esteja equivocado. — 2.ª) Para a vontade: a) É fonte da verdadeira liberdade. Nada escraviza tanto como o apego à própria vontade. b) É fonte de fortaleza; para obedecer até ao heroísmo é preciso ser muito valente; c) É garantia de perseverança no bem. — 3.ª) Para o coração: a) Fonte de paz individual e coletiva. Que sossego no coração, que paz tão profunda reina em uma casa ou no mosteiro de pessoas obedientes! b) Princípio de ordem. Cada coisa em seu lugar: o superior, mandando; o súdito, obedecendo. Resultado: a paz (tranquillitas ordinis). c) Ausência de responsabilidade e escrúpulos: 'obedecí', única conta que temos de prestar a Deus" (A. Royo Marín, op. cit., pp. 581-582, n. 420).

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“O quê? Você quer se tornar freira?”

Como você reagiria se a sua filha, alguma amiga ou conhecida decidisse tornar-se religiosa? Será que a nossa reação seria um susto e um sentimento de pesar, que mais revelam a nossa falta de fé do que a grata surpresa diante de uma vocação insuspeitada?

Por Anne Maloney — Encontro-me na condição pouco frequente — ao menos no século em que vivemos — de ser mãe de uma jovem que viu, ao longo dos últimos dois anos, quatro de suas amigas entrarem para um convento. Três delas são postulantes e esperam ser admitidas à clausura de um Carmelo. Elizabeth, minha filha, participou de mais chás de panela de noivas de Cristo do que de noivas comuns. Não que isso seja ruim. Pelo contrário, é algo muito bom. Para mim, a parte mais difícil e complicada dessa experiência tem sido explicá-la aos demais, mesmo aos católicos com quem tenho mais contato. Flannery O'Connor estava certo ao dizer: "Descobrireis a verdade e a verdade vos fará esquisitos". Hoje em dia, uma jovem católica que abdica livremente do mundo para ir enclausurar-se num convento é algo que chama a atenção de qualquer pessoa.

Todas essas jovens que decidiram consagrar-se à vida religiosa são atraentes, dinâmicas, inteligentes e talentosas. Nenhuma delas teria problema no "mundo real" para encontrar um bom emprego, conseguir uma casa legal e arranjar um belo marido. Como tudo isso é verdade, a resposta mais comum que escuto depois de comentar que Hannah, ou Brigitta, ou Michaela ou Lisa foram para um convento é: "Nossa, mas ela é tão… bonita, esperta, capaz, talentosa!" A resposta vem sempre com um tom de perplexidade e pesar.

Não que eu mesma esteja imune a esse tipo de reação. Fui à tomada de hábito de Hannah, amiga de minha filha, e estive perfeitamente consciente, durante toda a celebração, de que os pais dela estavam sentados bem à minha frente no banco da igreja. Peguei-me meditando na quantidade de dinheiro que eles investiram na educação da filha; pensei nos feriados que eles passariam sem ela, na ausência que sentiriam no dia-a-dia, nos netos que nunca teriam. Estes pensamentos, para ser sincera, impediram-me de participar da alegria serena daquela manhã, e quando me dei conta, no café após a Missa, de que estava sentada cara a cara com os pais de uma moça que entrara para o Carmelo um ano antes, comecei a perguntar-me sobre a dificuldade de conviver com uma tal decisão. Os pais de Brigitta pareciam agradecidos, embora manifestassem um pouco da tristeza que sentiram quando a filha quis ir para a clausura; mas eles, ainda assim, repetiam vez por outra o mesmo refrão: "Brigitta está em paz".

Depois do café, foi a hora das despedidas. Meu marido, minha filha e eu entramos em uma sala em que Hannah, tranquila com seu hábito marrom e seu véu, estava sentada atrás de uma grade. Naquele pequeno cômodo senti-me confortada com um fato que fez desvanecer todos os pensamentos e receios que até então estive alimentando: Hannah estava radiante de alegria. Era uma alegria tão palpável que se irradiava, como se fora uma força física no quarto. Todas as minhas perguntas, dúvidas e medos desapareceram diante da força daquele contentamento.

Infelizmente, a maior parte de meus familiares e amigos católicos não testemunharam o momento. Eles são sensatos o bastante para não soltar um "Ah, mas que desperdício!" quando uma jovem decide tornar-se religiosa; mas, mesmo assim, o sentimento de pesar está claramente estampado em seus rostos, deixa-se entrever em seu próprio tom de voz. Na verdade, a grande pergunta que a todos aflige, mas que ninguém ousa confessar, é: por que uma moça que tem tudo fugiria deste mundo maravilhoso para esconder-se num convento?

Somadas à minha, essas reações fizeram-me pensar profundamente durante as últimas semanas. O que reações como essas dizem-nos sobre quem nós somos — não sobre quem dizemos ser, mas sobre quem realmente somos? Enquanto voltávamos para casa depois da cerimônia de tomada de hábito de Hannah, pensei comigo: "Essas meninas se comportam como se realmente acreditassem em tudo isso. Meu Deus, elas realmente acreditam". O que me veio à mente em seguida, é claro, foi: "E eu, também acredito?" O que a minha própria reação — perguntei-me — diz sobre o que verdadeiramente creio? Acaso tenho vivido como se cresse de fato em tudo isso? Se não, como seria a minha vida se eu acreditasse mesmo?

Não se trata de perguntas fáceis. Até certo ponto, estou com a consciência tranquila: sou sacramentalmente uma católica em união com a Igreja; criei três filhos, que são ainda hoje, como jovens adultos, católicos praticantes; dou aulas em uma universidade católica e conferências em minha arquidiocese sobre temas católicos; escrevo artigos para revistas católicas que são bem recebidos pelos leitores. Tudo muito bom, tudo muito bem. No entanto, minha reação à entrada destas moças num convento é um sintoma muito incômodo para ser ignorado. E não penso estar sozinha.

Vários anos atrás, uma jovem religiosa das Irmãs do Bom Pastor deu em um colégio católico local uma pequena palestra sobre vocações. Ela nos disse que, ao contar à sua família, aliás muito católica, que se sentia chamada e havia decidido entrar no noviciado, sua irmã exclamou, espantada: "Se eu soubesse que ia dar nisso, jamais teria feito aquela Oração pelas Vocações!" Outra jovem católica, depois de passar alguns anos sem namorar, apesar das muitas oportunidades, finalmente confessou à família ter sentido atração por outra mulher e que, por isso, estava decidida a viver castamente, como uma mulher católica. Foi então que um parente seu disse: "Que alívio! Graças a Deus por você ser apenas gay! Todos estávamos pensando que você ia se tornar freira".

Ora, o que tudo isso nos revela sobre o nosso mundo, em que as famílias têm cada vez mais facilidade em lidar com um filho gay do que com uma filha carmelita? A resposta, penso eu, é muito clara. Vivemos numa cultura em que tudo deve ser aceito, tolerado e até mesmo comemorado. Nesse mundo, nenhuma decisão pode ser condenada como muito radical ou estranha, exceto a decisão de consagrar inteiramente a própria vida — bela, talentosa, inteligente — a Cristo e somente a Cristo. Isso é muito esquisito, muito estranho, muito duro.

Mas talvez isso não devesse ser surpresa. Jesus, no fim das contas, nunca disse: "Segui-me, e ficareis bem na fita com vossos colegas!" Ele nunca disse: "Tomai vossa cruz, e os vossos amigos dirão: 'Que maravilha! Meus parabéns!'" O que Jesus disse foi: "Sereis odiados de todos por causa de meu nome" (Mt 10, 22). Ao longo dos Evangelhos, Ele avisa os Doze de que as pessoas rejeitarão violentamente a quantos O seguirem.

Edith Stein (irmã Teresa Benedita da Cruz) lembra-nos de que Jesus "pergunta a cada um de nós: Tu permanecerás fiel ao Crucificado? Pensa-o bem!... Se te decidires por Cristo, isto pode custar-te a vida". Edith Stein diz-nos que a cruz cria divisão "entre aqueles cujo principal amor é Deus e aqueles cujo principal amor é o próprio eu". Do mesmo modo, São Paulo ensinou que "a linguagem da cruz é loucura para os que se perdem" (1Cor 1, 18).

Poucos meses depois de Hannah ter entrado no convento como noiva de Cristo, participei de um chá de panela de uma jovem que iria casar-se dali a pouco tempo. Dias antes do casamento, recebi a notícia de que Lisa, uma das convidadas, estava prestes a ingressar, em coisa de um mês, numa nova e animada congregação de religiosas, as Escravas do Sagrado Coração de Jesus. Enquanto a futura esposa abria os presentes e exclamava de alegria a cada um deles, as mulheres já casadas sorriam e se olhavam entre si. Mary-Catherine, a jovem noiva, escolheu casar-se, e nós conhecemos bem essa escolha. Nós "percebemos" de que maneira a nossa vocação — a vocação para o casamento — é nosso caminho para o céu.

A vocação de Lisa para ser Escrava de Cristo, no entanto, nos é pouco familiar. A vocação matrimonial pode levar-nos para o céu, mas, como o Papa São João Paulo II sabiamente nos recorda, é a vida de Lisa que irá refletir, da forma mais precisa, o que será o Reino dos Céus: "A vida consagrada anuncia e de certo modo antecipa o tempo futuro, quando, alcançada a plenitude daquele Reino dos Céus que agora está presente apenas em gérmen e no mistério, os filhos da ressurreição não tomarão esposa nem marido, mas serão como anjos de Deus (cf. Mt 22, 30)" [1].

Uma das convidadas ao chá de panela de Mary-Catherine, ao ficar sabendo do chamado de Lisa, disse-me em particular: "Nossa... Então, nada de sexo, nem de marido, nem de filhos. E o que acontece se ela deixar tudo e descobrir depois que estava errada? E se esta vida aqui for a única que temos, e ela estiver abandonando tudo em troca de nada?" Trata-se, certamente, de uma questão desconcertante. Mas uma questão, ainda mais importante para o resto de nós, deveria ser: "E se ela estiver certa?"

Toda e qualquer vocação, quando aceita e vivida de modo adequado, é um caminho que nos conduz a Deus. Para muitos de nós, este caminho é o matrimônio; para outros, uma vida casta de solteiro. Deus nos dá tudo de que precisamos, e as nossas vocações pessoais estão perfeitamente ajustadas ao temperamento e às disposições de que Ele nos dotou. Mesmo assim, ainda vale a pena perguntar-nos, qualquer que seja o caminho que estamos trilhando nesta vida: "Como seria a minha vida se eu a vivesse como quem realmente tem fé? Eu pareceria estranho aos olhos do mundo? A minha vida é um sinal, uma contradição, uma pedra de tropeço? Se não, por que não?"

São questões sobre as quais vale a pena refletir.

Fonte: Crisis Magazine | Tradução e adaptação: Equipe CNP

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Pai-Nosso, a mais perfeita das orações

Ainda que percorramos todas as Escrituras, não encontraremos, nem mesmo entre os Salmos, uma oração mais bela e perfeita do que o Pai-Nosso. Na Oração do Senhor está contida toda a ciência da vida espiritual.

Durante seu último período de ensino em Nápoles, entre os anos de 1272 e 1273, Santo Tomás de Aquino dividiu-se entre a cátedra e o púlpito. É a essa época que pertence uma série de homilias quaresmais pregadas pelo Angélico em dialeto napolitano e posteriormente transcritas em latim por algum confrade seu. Entre as que sobreviveram ao tempo, encontra-se uma densa, mas sucinta exposição sobre o Pai-Nosso (Collationes in Orationem Dominicam), cujo prólogo apresentamos abaixo em nova tradução ao português. Trata-se de um "escrito" que, com a liberdade típica de um sermão proferido ante um público de leigos e religiosos, preserva os traços característicos de um gênio teológico como o de Santo Tomás. Análise minuciosa, clareza expositiva e, sobretudo, o respaldo constante das Escrituras são algumas das notas que dão a essa obra uma fisionomia genuinamente tomista; só no pequeno trecho introdutório com que hoje damos início à sua publicação contam-se mais de vinte referências bíblicas — citadas pelo Aquinate, provavelmente, todas de memória.

Depois de explicar a excelência da Oração do Senhor e as palavras invocatórias "Pai nosso que estais nos céus", Tomás expõe cada um dos sete pedidos que a compõem, concluindo com uma brevíssima síntese de todo o Pai-Nosso, semelhante em certos pontos à que se lê em S. Th. II-II, q. 83, a. 9. Resumo de todo o Evangelho e centro a que converge a riqueza dos Salmos, a Oração dominical ocupa o principal lugar entre as demais orações; por ela não só aprendemos o que podemos desejar (cf. De decem præceptis, pr.), mas ainda o modo com que o devemos pedir, e nisto consiste o fundamento e ponto de arranque de toda a vida espiritual. Esmiuçando a prece que, por ter em grau sumo as qualidades que uma boa oração deve possuir, é com justiça as mais perfeita de todas, estas Collationes são de grande proveito para a nossa meditação diária. E se bem que não tenham sido vistas e revistas pelo autor, constituem, em todo o caso, uma joia da literatura cristã medieval que ainda merece ser lida, apreciada e, acima de tudo, meditada nos dias de hoje, em que rezar nunca foi tão necessário. Foram esses os motivos que levaram a equipe Christo Nihil Præponere a dá-las a conhecer a quantos estiverem interessados não só em aprender com o Aquinate, mas também a orar com ele e com a ajuda dele.

O texto-base de que nos servimos para realizar essa tradução é o estabelecido na conhecida edição de Turim (cf. S. Thomæ Aquinatis, "In Orationem Dominicam, videlicet 'Pater noster' expositio", in: R. M. Spiazzi (org.), Opuscula Theologica, vol. 2. 2.ª ed., Taurini-Romæ: Marietti, 1954, pp. 219-235), também disponível aqui, em formato eletrônico. No que respeita aos critérios adotados, convém observar que, embora procure manter-se fiel ao fraseado original, a versão portuguesa aqui disponibilizada não tem a pretensão de ser "acadêmica", mas uma pequena tentativa de divulgar a obra de Santo Tomás de Aquino sem trair-lhe o pensamento. Esta tradução, mais do que decalcar ad litteram, procura dizer em português aquilo e só aquilo que o original diz sinteticamente em latim. Por isso, as inelegâncias de estilo e a repetição frequente de certas fórmulas correspondem, na medida do possível, ao sabor e à sobriedade do original, carente de sutilezas escolásticas, palavras técnicas e voos oratórios [1]. As palavras entre divisas (< >) são explicitações ou inserções de nossa parte que visam ora esclarecer o texto, ora torná-lo mais fluido. A tradução das citações bíblicas foi extraída, na maioria dos casos, das versões "Ave-Maria" (195.ª ed., São Paulo: Ave-Maria, 2011) e do Pe. Matos Soares (6.ª ed., Porto: Tip. Sociedade de Papelaria, 1956). Além destas, foram utilizadas também, de quando em quando, as traduções da CNBB e da Bíblia de Jerusalém.

Exposição sobre a Oração do Senhor [2]

Santo Tomás de Aquino

PRÓLOGO [3]

I. A excelência do Pai-Nosso

1․ As cinco qualidades da oração․ — A Oração do Senhor ocupa, entre as demais orações, o principal lugar, já que possui as cinco qualidades de que <toda> oração se deve revestir. Com efeito, a oração deve ser confiante, reta, ordenada, devota e humilde.

a) Deve ser confiante, para que nos "aproximemos confiadamente do trono da graça" (Hb 4, 16), como está escrito na Epístola aos Hebreus, e também firme na fé, como diz São Tiago: "Peça com fé, sem nada hesitar" (Tg 1, 6). A Oração do Senhor é com razão a mais confiável, porque (i) foi instituída pelo nosso advogado, o mais sábio dos pedintes, "no qual estão escondidos todos os tesouros de sabedoria" (Cl 2, 3) e de quem diz São João: "Temos um intercessor junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo" (1Jo 2, 1). Por isso, diz Cipriano: "Uma vez que temos a Cristo como advogado junto ao Pai por nossos pecados, ao pedirmos perdão de nossos delitos apresentemo-nos com as palavras do nosso defensor" [4]. Ela parece ser, além disso, ainda mais confiável (ii) pelo fato de nos ter ensinado a rezar aquele que com o Pai presta ouvidos à nossa oração, de acordo com o Salmo: "Quando me invocar, eu o atenderei" (Sl 90, 15). Por isso, diz Cipriano: "Rogar ao Senhor com suas próprias palavras é dirigir-lhe uma oração amiga, familiar e piedosa" [5]. Daí que nunca se saia desta oração sem fruto. De fato, como diz Agostinho, por ela são perdoadas as faltas veniais [6].

b) A nossa oração deve também ser reta, de maneira que o orante peça a Deus o que lhe convém, pois, segundo Damasceno, "a oração é um pedido a Deus dos bens adequados" [7]. Com efeito, a oração deixa muitas vezes de ser atendida porque se pedem coisas inapropriadas: "Pedis e não recebeis, porque pedis mal" (Tg 4, 3) [8]. De fato, é dificílimo saber o que se deve pedir, já que tampouco é fácil saber o que se deve desejar. Igualmente, é permitido aspirar ao que na oração é lícito pedir. Por isso, o Apóstolo reconhece: "Não sabemos o que devemos pedir, nem orar como convém" (Rm 8, 26). Ora, é a Cristo, nosso Mestre, que toca ensinar o que temos de pedir, e por isso lhe rogaram os discípulos: "Senhor, ensina-nos a orar" (Lc 11, 1). Por conseguinte, o que Ele nos ensina a pedir na oração é o que mais retamente podemos desejar: "Quaisquer que sejam as nossas palavras", diz Agostinho <a esse propósito>, "nada diremos que já não esteja contido nessa oração, contanto que rezemos de modo justo e adequado" [9].

c) Em terceiro lugar, a oração tem de ser ordenada como o desejo do qual é expressão. Pois bem, a ordem devida é que em nossos desejos e orações prefiramos os bens do espírito aos da carne e as coisas celestes às terrenas, conforme o que se lê no Evangelho segundo Mateus: "Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo" (Mt 6, 33). É isso o que o Senhor nos ensinou a observar nessa oração, em que primeiro se pedem os bens celestiais e só depois os terrenos.

d) Deve também ser devota, pois a devoção em abundância torna aceitável a Deus o sacrifício da oração, de acordo com o Salmo: "Invocando o vosso nome, levantarei as minhas mãos. Como de banha e de gordura será saciada a minha alma" (Sl 62, 5s). Ora, acontece muitas vezes de a devoção enfraquecer-se por causa do excesso de palavras. Por esse motivo, o Senhor ensinou a fugir à excessiva prolixidade da oração, ao dizer: "Nas vossas orações, não multipliqueis as palavras" (Mt 6, 7). E Agostinho escreve a Proba: "Que a oração não tenha excesso de palavras, mas de súplicas, se continua fervorosa a atenção" [10]. Por isso, o Senhor instituiu essa breve oração. Mas a devoção, por sua vez, nasce da caridade, que é amor a Deus e ao próximo, ambos os quais estão presentes nessa oração. Com efeito, para manifestarmos nosso amor a Deus, chamamos-lhe Pai; e para manifestarmos nosso amor ao próximo, oramos por todos em comum dizendo: "Pai nosso" e "Perdoai-nos as nossas ofensas". A isso nos move, pois, o amor aos semelhantes.

e) A oração precisa, enfim, ser humilde, conforme o que diz o Salmo: "Ele se voltou para a súplica dos indigentes" (Sl 101, 18), a parábola do fariseu e do publicano (cf. Lc 18, 9-15) e o que se lê no Livro de Judite: "Sempre vos foram aceitas as preces dos mansos e humildes" (Jt 9, 16). Ora, na Oração do Senhor se guarda a verdadeira humildade, que consiste em nada presumir das próprias forças, mas tudo esperar da virtude divina.

2․ Os três efeitos da oração․ — Deve-se notar, além disso, que a oração produz três bons efeitos.

a) Em primeiro lugar, ela é um remédio eficaz e útil contra os males. A oração livra-nos, pois, (i) dos pecados cometidos, como canta o salmista: "E vós perdoastes a pena do meu pecado. Assim também todo fiel recorrerá a vós" (Sl 31, 5s). Desse modo orou o ladrão pregado à cruz, obtendo o perdão: "Hoje estarás comigo no paraíso" (Lc 23, 42) e o publicano, voltando para casa justificado (cf. Lc 18, 9-14). Livra-nos também (ii) do medo dos pecados futuros, das tribulações e das tristezas: "Alguém entre vós está triste? Reze!" (Tg 5, 13). Livra-nos, enfim, (iii) das perseguições e dos inimigos: "Em resposta ao meu afeto, acusaram-me. Eu, porém, orava" (Sl 108, 4).

b) A oração, em segundo lugar, é um meio eficaz e útil de obter tudo o que se deseja: "Tudo o que pedirdes na oração, crede que o tendes recebido" (Mc 11, 24). Mas se porventura não somos ouvidos, isto se deve a que ou não pedimos com insistência, pois "é necessário orar sempre sem jamais deixar de fazê-lo" (Lc 18, 1), ou não pedimos o que mais convém à nossa salvação: "O bom Senhor", diz Agostinho, "negando-nos muitas vezes o que queremos, dá-nos o que deveríamos querer" [11]. Assim sucedeu a Paulo, que três vezes rogou a Deus que lhe apartasse um espinho na carne e não foi atendido (cf. 2Cor 12, 7s).

c) Em terceiro lugar, é útil, porque nos torna amigos íntimos de Deus: "Que minha oração suba até vós como a fumaça do incenso" (Sl 140, 2).

Referências

  1. Cf. J.-P. Torrell, Iniciação a Santo Tomás de Aquino. Trad. port. de Luiz P. Rouanet. 3.ª ed., São Paulo: Loyola, 2011, p. 86.
  2. Ao presente opúsculo se atribuem outros títulos em diferentes edições: Expositio devotissima Orationis Dominicæ, Collationes de Pater noster, Expositio de Pater noster. P. Mandonnet (1858-1936), importante historiador da filosofia medieval, data-o do tempo da Quaresma de 1273 (cf. Bibliographie Thomiste, Le Saulchoir, Kain, 1921, p. XVII, n. 72. A sua autenticidade não é posta em dúvida por nenhum estudioso (cf. P. Mandonnet, Des écrits authentiques de Saint Thomas d'Aquin. 2.ª ed., Freibourg, 1910, p. 107, n. 72; A. Michelitsch, Thomas Schriften, vol. 1, Graz, 1913, p. 186, n. 78; M. Grabmann, Die echten Shriften des hl. Thomas von Aquin, 3.ª ed., Münster i. W. 1949, p. 318). Pertence aos Reportata, isto é, ao conjunto de obras que, não tendo sido escritas de próprio punho por Santo Tomás, foram passadas ao papel seja por ditado, seja pela transcrição (reportatio) de alguma homilia; a desta nos foi legada, provavelmente, por Reginaldo de Piperno (c. 1230 – c. 1290), amigo e secretário do Aquinate. Trata-se de escritos nem sempre revistos e corrigidos pelo autor, mas recebidos, em todo o caso, de sua própria boca.
  3. Cf. Tomás de Aquino, S. Th. II-II, q. 83, a. 9; III Sent.,d. 34, q. 1, a. 6; Compend. Theol. II, cc. 4ss; In Matth., c. 6.
  4. Cipriano de Cartago, De or. dom. 3 (PL 4, 521B).
  5. Id., ibid.
  6. Cf. Agostinho de Hipona, Ench. 78․21 (PL 40, 270). É doutrina comum que os pecados veniais podem ser perdoados, mesmo sem contrição perfeita, fora do sacramento da Penitência, desde que o fiel se encontre em estado de graça (cf. E. Genicot; I. Salsmans, Institutiones Theologiæ Moralis. 17.ª ed., Bruxelas: Universelle, 1951, p. 153, n. 238). É o que se deduz das seguintes palavras do Concílio de Trento: "Os <pecados> veniais, pelos quais não somos excluídos da graça de Deus e nos quais caímos com frequência, posto que com retidão e utilidade, e sem qualquer presunção, se digam na confissão [...], todavia podem ser calados sem culpa e expiados por muitos outros meios" (14.ª sessão, de 25 nov. 1551, c. 5; DH 1680).
  7. João Damasceno, De fide orth. 3․24 (PG 94, 1090). Por "bens adequados" ou "convenientes" (decentia) se entende o que é necessário à salvação. Isto não significa, porém, que o cristão não possa pedir bens temporais a Deus; pode pedi-los, mas não principalmente (principaliter), como se fossem o fim da oração, mas de modo secundário, subordinado-os ao bem da alma. De fato, os bens deste mundo, como o alimento, o vestuário etc., devem ser pedidos na condição de instrumentos (adminicula), isto é, na medida em que nos auxiliam a chegar à bem-aventurança eterna, a conservar a vida corporal, a dispor-nos com mais facilidade ao exercício das virtudes e a servir melhor a Deus (cf. S. Th. II-II, q. 83, a. 6, co.).
  8. Muitos autores ensinam, baseados no claro testemunho das Escrituras (cf., por exemplo, Mt 7, 7s; 21, 22; Jo 14, 13s; 15, 7․16; 16, 23s; 1Jo 5, 14s), que a oração possui uma eficácia infalível, desde que cumpra quatro condições imprescindíveis: (1) pedir para si mesmo (2) coisas necessárias à salvação, como graças atuais eficazes, (3) de modo piedoso — o que abrange a humildade, a firme confiança, a atenção e a petição em nome de Cristo (cf. Jo 14, 13s; 15, 16; 16, 23s) — e (4) com perseverança. Se observados estes pré-requisitos, a oração "obtém infalivelmente o que pede em virtude das promessas de Deus" (A. Royo Marín, Teología de la Perfección Cristiana. Madrid: BAC, 2012, p. 425, n. 287). Cf. S. Th. II-II, q. 83, a. 7, ad 2; a. 15, ad 2; a. 16, co.
  9. Agostinho de Hipona, Ep. 130, 12․22 (PL 33, 502); para uma explicação detalhada de todo o Pai-Nosso, v. também, do mesmo autor, Serm. Dom. 2․4-11․15-39 (PL 34, 1275-1287). Santo Tomás repete esta mesma tese em S. Th. II-II, q. 83, a. 9, co.: "Visto que a oração, com efeito, é como um intérprete do nosso desejo diante de Deus, só podemos pedir retamente o que retamente nos é permitido querer. Pois bem, na Oração dominical não apenas se pedem todas as coisas que retamente podemos desejar, mas ainda na ordem em que elas devem ser desejadas. De modo que esta oração não só nos ensina a pedir, mas também retifica todos os nossos afetos".
  10. Id., Ep. 130, 10․20 (PL 33, 502). De acordo com Santo Tomás, a atenção é absolutamente necessária à oração, sobretudo à vocal, de modo que distrair-se deliberadamente (ex proposito) ao rezar não só é pecado como também impede o fruto da oração, o que não se dá com a distração involuntária (cf. S. Th. II-II, q. 83, a. 13, co. e ad 3). O Angélico distingue ainda, na resposta a esta mesma questão, três tipos de atenção que se podem dar à oração vocal, em graus crescentes de perfeição: a) atenção ad verba, ordenada à correta enunciação das palavras; b) atenção ad sensum, com a qual nos atemos ao sentido delas; e c) atenção ad finem, "que atende ao fim da oração, ou seja, a Deus e à coisa que se pede" (A. Royo Marín, op. cit., p. 654, n. 494). No que respeita à duração, Santo Tomás afirma que a oração deve, por um lado, ser a) contínua, na medida em que procede da virtude da caridade — cujo influxo atual ou habitual perpassa todos os atos de quem está na graça de Deus e os transforma, assim, em "oração" incessante (cf. 1Ts 5, 17) — e, por outro, b) transitória e proporcionada ao seu fim, ou seja: convém que a oração dure o necessário para excitar o fervor interior (cf. S. Th. II-II, q. 83, a. 14, co.; A. Royo Marín, op. cit., p. 655, n. 495).
  11. Id., Ep. 31, 1 (PL 33, 121).

| Categoria: Doutrina

É possível dialogar com o espiritismo?

O espiritismo é um dos desvios doutrinários mais perigosos presentes no Brasil, já que “nega não apenas uma ou outra verdade de nossa santa fé, mas todas elas”. Seria possível, diante disso, manter um “diálogo ecumênico” com os espíritas?

Por Frei Boaventura Kloppenburg — O Vaticano II nos explica que por "movimento ecumênico" se entendem iniciativas e atividades que visam à união dos cristãos (Unitatis Redintegratio, n. 4b). Um verdadeiro movimento ou diálogo ecumênico só é possível com aquelas igrejas ou comunidades cristãs separadas da comunhão católica que efetivamente dão esperanças positivas de chegar outra vez à comunhão plena. Mas o espiritismo não é uma igreja separada, nem mesmo pretende ser igreja. Não somente não há nenhuma esperança de conseguir algum dia "comunhão plena" com os reencarnacionistas, mas semelhante comunhão não é nem sequer pensável. O reencarnacionismo não é cristão e seus postulados fundamentais se opõem total e absolutamente à soteriologia cristã. E mesmo que se proclamassem cristãos, seria necessário dizer-lhes que em verdade não o são.

Em sua declaração oficial de 2 de janeiro de 1978, a Federação Espírita Brasileira, que é kardecista, fez saber que "é imprópria, ilegítima e abusiva a designação de espíritas adotada por pessoas, tendas, núcleos, terreiros, centros, grupos, associações e outras entidades que, mesmo quando legalmente autorizados a usar o título, não praticam a doutrina espírita", isto é, "o conjunto de princípios básicos codificados por Allan Kardec". Pela mesma lógica se pode afirmar também que é imprópria, ilegítima e abusiva a designação de cristãos adotada por pessoas, centros, terreiros ou outras entidades que, mesmo quando legalmente autorizados a usar o título, não praticam a doutrina cristã.

Colocados pastoralmente diante dos movimentos espíritas (ou outros, que não faltam entre nós), é necessário que nos perguntemos honradamente qual é nosso objetivo. Temos dois campos bem diferentes: de um lado estão os sectários com seus métodos proselitistas, procurando penetrar no ambiente católico; de outro lado temos os próprios católicos mais ou menos facilmente vítimas desta propaganda sectária. A quem queremos dirigir-nos pastoralmente: aos propagadores da evocação e da reencarnação ou aos fiéis católicos vítimas deste assalto? Do objetivo dependerá nosso método. Se não definimos previamente e com clareza a meta, ou se pretendemos alcançar uns e outros, animados com a benévola atitude de compreensão, de abertura e de diálogo com relação aos agressores, teremos uma ação pastoral híbrida, que produzirá nos fautores do erro grande alegria (pois lhes deixamos abertas todas as portas e ainda abrimos outras) e nos católicos um estado de confusão, desorientação e perplexidade ainda maior.

Desde o Concílio se insistiu muito no diálogo com os não-católicos. Esta disposição de diálogo com os responsáveis do movimento espírita não deve jamais olvidar que sua ativa presença entre nossos fiéis tem um objetivo claro e definido, que certamente não é o de ajudar-nos a conseguir que sejam melhores cristãos católicos. O Documento de Puebla (n. 80) constata que:

"Muitas seitas se têm mostrado clara e pertinazmente não só anticatólicas, mas até injustas contra a Igreja, e têm procurado minar seus membros menos esclarecidos. Devemos confessar com humildade que, em grande parte, até em determinados setores da Igreja, uma falsa interpretação do pluralismo religioso permitiu a propagação de doutrinas errôneas e discutíveis."

Por estes motivos nossa atitude pastoral há de dirigir-se em primeiro lugar diretamente às vítimas da propaganda espírita. Não podemos esquecer o grave fato da presença ativa, com claros propósitos proselitistas, daquilo que o Senhor chamou "falsos profetas". Tem-se a impressão de que entre os mesmos pastores católicos já não há ambiente para recordar palavras como estas das Escrituras:

"Guardai-vos dos falsos profetas, que vêm a vós disfarçados de ovelhas, mas por dentro são lobos ferozes. Pelos seus frutos os conhecereis" ( Mt 7, 15-16).

"Então, se alguém vos disser: 'Olha o Messias aqui', ou 'ali', não creiais. Pois hão de surgir falsos messias e falsos profetas, que apresentarão grandes sinais e prodígios, de modo a enganar até mesmo os eleitos, se possível. Eis que vo-lo predisse" ( Mt 24, 23-25).

"Quem não entra pela porta do redil das ovelhas, mas sobe por outro lugar, é ladrão e assaltante" ( Jo 10, 1).

"Sede solícitos por vós mesmos e por todo o rebanho… Eu sei que, depois de minha partida, introduzir-se-ão entre vós lobos cruéis que não pouparão o rebanho, e que no meio de vós surgirão homens que farão discursos perversos com a finalidade de arrastar discípulos atrás de si" ( At 20, 28-30; cf. 2Ts 2, 3-4; 2Pd 2, 1-3 e todo o cap. 13 do Ap).

Não nego o alcance e o valor positivo do diálogo. Haverá situações concretas e objetivos pastorais que pedem dar absoluta preferência ao método e à atitude do diálogo: no verdadeiro ecumenismo, quando há esperanças positivas de chegar a uma plena comunhão, o diálogo será a via indispensável.

Mas pode haver também situações concretas de defesa e de apologética: é precisamente o estado dos católicos indefesos, não suficientemente instruídos e preparados, constantemente molestados por importunos e falsos profetas disfarçados como cristãos. O binômio apologética-diálogo não deve ser proposto em forma disjuntiva, "ou apologética ou diálogo", mas na forma conjuntiva, "e apologética e diálogo". Apologética será a atitude pastoral com os crentes vítimas da invasão das seitas; diálogo será a atitude pastoral com os não-católicos desejosos de encontrar a unidade perdida mandada pelo Senhor.

Quando a situação do agressivo proselitismo sectário nos obriga a recorrer ao método apologético ou defensivo, será também inevitável a polêmica: diante da necessária atitude de defesa, o sectário reaciona; e esta reação pede muitas vezes resposta esclarecedora ou retificadora. Temos então a polêmica. Encontramo-la em Cristo, nos Apóstolos e nos melhores Santos Padres e Doutores da Igreja. "Este serviço dos pastores inclui o direito e o dever de corrigir e decidir, com a clareza e a firmeza que sejam necessários" ( Documento de Puebla, n. 249). "Em algumas ocasiões, falta a oportuna intervenção magisterial e profética do bispo, bem como maior coerência colegial" (Ib., n. 678). O silêncio e a atitude de tolerância, por vezes, pode ser um pecado de omissão e ter como conseqüência uma grei desatendida e dispersa. Devemos ser pastores. Pastores vigilantes. "O bom pastor dá a sua vida por suas ovelhas. O mercenário que não é pastor, a quem não pertencem as ovelhas, vê o lobo aproximar-se, abandona as ovelhas e foge, e o lobo as ataca e dispersa" (Jo 10, 11-12). No Apocalipse 2, 13-16 diz o Senhor ao responsável da comunidade de Pérgamo:

"Sei onde moras: é onde está o trono de Satanás. Tu, porém, seguras firmemente o meu nome, pois não renegaste a minha fé, nem mesmo nos dias de Antipas, minha testemunha fiel, que foi morto junto a vós, onde Satanás habita. Tenho, contudo, algumas reprovações a fazer: tens aí pessoas que seguem a doutrina de Balaão, o qual ensinava Balaq a lançar uma pedra de tropeço aos filhos de Israel, para que comessem das carnes sacrificadas aos ídolos e se prostituíssem. Do mesmo modo tens, também tu, pessoas que seguem a doutrina dos nicolaítas. Converte-te, pois! Do contrário, virei logo contra ti para combatê-los com a espada de minha boca."

É certo que no Brasil o espiritismo não é nosso único problema religioso. Infelizmente. Mas continua válida a constatação feita pelos bispos em 1953: que, no momento, o espiritismo ainda é o desvio doutrinário "mais perigoso", já que "nega não apenas uma ou outra verdade de nossa santa fé, mas todas elas, tendo, no entanto, a cautela de dizer-se cristão, de modo a deixar, a católicos menos avisados, a impressão erradíssima de ser possível conciliar catolicismo com espiritismo".


Transcrito e levemente adaptado de
Espiritismo, orientação para os católicos,
do Frei Boaventura Kloppenburg,
9.ª ed., São Paulo: Loyola, 2014, pp. 8-11.

| Categoria: Fé e Razão

O filósofo que envenenou a teologia alemã

O que Bismarck não pôde fazer com armas e política, fizeram-no os teólogos alemães com uma teologia ruim e uma concepção distorcida da natureza de Deus. O pensamento de Hegel foi responsável, em boa medida, por esse declínio.

Por C. C. Pecknold — Otto von Bismarck, o primeiro Chanceler da Alemanha, fez o melhor que pôde, mas acabou fracassando em pôr a Igreja Católica de joelhos. No entanto, ele ficaria admirado ao ver o estado em que ela se encontra hoje. Com os bancos das paróquias se esvaziando rapidamente e cada vez menos vocações sacerdotais, o fato de a Igreja ser uma das instituições que mais empregam pessoas só prova que ela se tornou a "funcionária" do Estado tão sonhada por Bismarck. Ainda assim, talvez o Chanceler queira saber: como os outros conseguiram fazer o que eu fracassei em realizar? A resposta se encontra, ao menos em parte, na igreja alemã.

Do ponto de vista teológico, a Alemanha foi por séculos uma nação expoente. Basta pensar em Santo Alberto Magno, mestre de Santo Tomás de Aquino, ou na liderança dos jesuítas no contexto da Contrarreforma, que respondeu à dissidência cismática promovida por Lutero. A teologia alemã, contudo, não pôde recuperar-se do maior desafio com que já deparou: o racionalismo iluminista e as tentativas de superá-lo por meio da dialética hegeliana. O pensamento de Hegel, com efeito, exerce ainda hoje uma forte influência sobre a teologia alemã.

A concepção hegeliana de Deus como Espírito ( Geist) envolvido no desdobrar da história está enraizada numa heresia cristã, bastante afim ao espiritualismo do teólogo medieval Joaquim de Fiore. Para o pensador hegeliano, Deus sofre e se transforma através do pecado e do sofrimento de suas criaturas, difundindo dialeticamente ao longo do progresso histórico seu amor e sua misericórdia.

Citando um hino luterano, "Deus está morto", Hegel argumenta que Deus une a morte à sua natureza. Por isso, quando passamos pela experiência do sofrimento e da morte, saboreamos um pouco das particularidades da "história" eterna e divina. Segundo ele, o sofrer "é um momento na natureza do próprio Deus; é parte dele". Para Hegel, sofrer é um aspecto da natureza eterna de Deus. O nosso pecado e o nosso sofrimento são necessários para que Deus seja Deus.

Essa heresia teve ampla ressonância na concepção moderna, seja católica ou protestante, da natureza divina. Pregada do alto dos púlpitos, ela deixa nos fiéis a impressão de que Deus chora conosco. No entanto, tragicamente inconsciente do erro que nela se esconde, o pregador hegeliano acaba pregando um Deus incapaz de nos salvar; um Deus eternamente tão associado às nossas lágrimas que não é capaz de enxugá-las do nosso rosto.

Muitos teólogos alemães do século XX seguiram as pegadas de Hegel. Um princípio básico desta corrente é a noção hegeliana de dialética como processo revelador em si mesmo. O que esses teólogos fizeram, noutras palavras, foi introduzir em suas ideias sobre o "desenvolvimento do dogma" a noção hegeliana de que Deus se revela continuamente na história, uma vez que nele e, portanto, na Igreja há sempre algo "vindo-a-ser". O precursor espiritual de Hegel, Joaquim de Fiore, previra uma "terceira idade do Espírito Santo", na qual brotaria uma nova Igreja. E é chocante o fato de tantos teólogos alemães se terem deixado seduzir pela ideia de uma futura Igreja, muito diferente daquela Santa e Apostólica de outrora.

Isto não quer dizer que Hegel seja a resposta à hipotética indagação de Bismarck. Na verdade, há uma diferença enorme entre a ideia de que a religião não passa de uma projeção do espírito interior, defendida pelo hegeliano de esquerda Ludwig Feuerbach, e as teologias de um Karl Rahner ou um Walter Kasper. Como quer que seja, o fato é que existe algo de profundamente hegeliano em fazer do desenrolar da experiência humana na história uma norma do desenvolvimento teológico — norma à qual Deus e a Igreja, sempre submissos, devem conformar-se. Infelizmente, trata-se de uma péssima norma para futuras mudanças, já que conduz não só a uma falsa reforma, mas à apostasia e ao desespero.

A norma que deve presidir ao desenvolvimento doutrinal, como o teólogo alemão Matthias Shebeen muito bem compreendeu, assim como o Cardeal Newman, tem de ser as verdades divinamente reveladas, o depósito da fé, transmitido por Cristo aos Apóstolos. A renovação espiritual da Alemanha só terá início se os bispos e padres do país, bem como os leigos, reconhecerem que toda mudança e todo desenvolvimento deve estar ordenado às verdades eternas, e não às necessidades do Estado, ao "Espírito" da cultura ou ao "desenrolar" histórico da experiência humana interior. A Igreja tem de conformar-se, não às necessidades das nações, mas à Verdade, em sua plenitude, revelada por Deus feito carne, Jesus Cristo.

Fonte: Catholic Herald | Tradução e adaptação: Equipe CNP