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Famílias numerosas, viveiros de santidade

Dos nove filhos que tiveram São Luís e Santa Zélia Martin, quatro morreram e cinco mulheres entraram para a vida religiosa. Eis a recompensa que Deus concede às famílias numerosas, transformando os seus lares humildes em verdadeiros “viveiros de santos”.

" As famílias numerosas, longe de serem 'doença social', são a garantia da saúde física e moral de um povo."

Essas palavras foram proferidas por Pio XII durante uma audiência com dirigentes e membros de uma associação de famílias numerosas, no dia 20 de janeiro de 1958. O discurso chama atenção sobretudo pela ênfase com que o Sumo Pontífice sublinha a importância dos filhos não só para os pais, mas para o bem-estar de toda sociedade.

Não é novidade para ninguém a ojeriza com que a maternidade é pintada nos dias de hoje, principalmente se ela estiver relacionada a uma mentalidade aberta à vida. Os chamados "formadores" de opinião fazem campanha aberta pelo controle de natalidade, evocando, para isso, todo tipo de desculpas e argumentos pseudocientíficos: a pobreza, a política demográfica, os direitos reprodutivos e por aí vai. Todos aparentemente justos, mas, no fundo, motivados por aquele egoísmo que, como denunciou Pio XII, avilta a dignidade da família e da pessoa humana:

A superpopulação não é, pois, uma razão plausível para difundir os métodos ilícitos de controle de nascimentos, mas antes pretexto para legitimar a avareza e o egoísmo, seja das nações que temem a expansão de outras como perigo para a própria hegemonia política e um risco de rebaixamento do nível de vida, seja dos indivíduos — especialmente dos mais bem providos com os meios da fortuna — que preferem o gozo ilimitado dos bens da terra à honra e ao mérito de suscitar novas vidas.

A análise do Papa é de precisão cirúrgica. Com todos os avanços da ciência e da técnica, é certamente ridículo considerar o crescimento populacional uma ameaça apocalíptica. A razão da pobreza e de outros males sociais não se encontra nas pequenas crianças, cujas consciências são livres de qualquer culpa pessoal, mas na estreiteza ética com que os poderosos tratam os menos afortunados, roubando-lhes os direitos mais elementares. Se o Estado e as grandes fundações fossem guiadas pelos princípios morais da caridade e do amor ao próximo, não haveria grandes problemas de saúde, fome, emprego e moradia. Os pobres querem comida, não anticoncepcionais.

As famílias cujos filhos são numerosos aprendem desde muito cedo a importância da fraternidade e da consideração ao próximo, seja por meio dos irmãos que têm de dividir o mesmo quarto e tantas outras coisas, seja pelo empenho mútuo do casal na criação dos filhos. Essas famílias parecem viver uma juventude eterna, observa Pio XII, porque " dura no lar o perfume dos berços, enquanto nas paredes da casa ressoam as vozes meigas dos filhos e dos netos". Paternidade responsável está longe de ser a política dos "dois filhos e um cachorro", como se canta por aí. Trata-se, ao contrário, de uma entrega consciente e honesta à formação das futuras gerações, isto é, o desejo de tornar o gênero humano mais virtuoso e digno do Céu.

Pio XII aponta, ainda, para aquela que constitui a mais fulgurante glória das famílias numerosas: as vocações. Nesses casos, diz o Santo Padre, "aos dons comuns de providência, alegria e paz, Deus acrescenta muitas vezes, como a experiência o demonstra, os chamados de predileção", pelo que se salienta " a prerrogativa das famílias numerosas como verdadeiros viveiros de santos". Entre tantos casos que se poderia citar, sobressai neste dia 12 de julho o testemunho da família Martin, de cujo zelo cristão no cuidado dos filhos nasceu Santa Teresinha do Menino Jesus.

As belas linhas abaixo são da pena de Irmã Genoveva, também filha do casal Zélia e Luís Martin, que conta como sua mãe se dedicava piedosamente às crianças:

Fiel a seu princípio, nossa mãe não tinha mêdo da maternidade. Ao saber que uma senhora da região dera à luz a trigêmeos, disse ela: "Oh! feliz mãe! Se eu tivesse ao menos dois. Mas, não terei jamais essa felicidade!" — "Amo loucamente as crianças". — "É um trabalho tão doce ocupar-se das criancinhas!"

Sua correspondência está cheia dessas exclama­ções de alegria materna. Escrevia a seu irmão, o Sr. Guérin, no dia 23 de abril de 1865, após o nascimento de sua Helenazinha que deveria morrer em tenra idade:

"Há quinze dias fui ver aquela que está com a ama. Não me lembro de ter jamais experimentado um sentimento de tal felicidade como no momento em que a tomei nos braços e ela me sorriu tão graciosamente que acreditava ver um anjo. Numa palavra, é inexprimível para mim. Acho que nunca se viu nem se verá jamais uma criança tão encantadora. Minha Helenazinha! Quando enfim terei a felicidade de possuí-la inteiramente? Não posso pensar que tenho a honra de ser mãe de criatura tão deliciosa..."

Longe de medir fadigas, sua confiança sobrenatural levava-a a confessar mais tarde à sua cunhada, a Sra. Guérin, de saúde delicada e que esperava um filho:

"Nosso Senhor não pede nada acima da nossas forças. Vi muitas vezes meu marido preocupar-se comigo sobre esse ponto. E eu permanecia absolutamente tranquila. Dizia-lhe: "Não receies, Nosso Senhor está conosco". No entanto, eu estava acabrunhada de trabalhos e preocupações de toda sorte, mas tinha a firme confiança de ser sustentada pelo Alto".

O que não a impedia de fazer esta confidência a seus parentes de Lisieux:

"Se tiveres tantos filhos quanto eu, isso exigirá muita abnegação e o desejo de enriquecer o Céu com novos eleitos".

Após cada nascimento, fazia logo esta prece:

"Senhor, concedei-me a graça de vos ser consagrado este filho e que nada venha manchar a pureza de sua alma. Prefiro que o leveis imediatamente caso venha a perder-se para sempre".

Sua união com Deus e o fervor de suas orações quando esperava um filho eram tão grandes que se admirava de não ver disposições para a piedade desde o despertar da inteligência desses pequeninos. Maria, sua filha mais velha tinha apenas quatro anos e Paulinazinha contava somente dois quando ela confiava sua decepção à querida, Visitandina. Esta por sua vez escrevia a seu irmão, no dia 2 de fevereiro de 1864:

"Zélia já se atormenta por não ver sinais de piedade em suas filhas".

A criança devia ser batizada logo após o nascimento. Sempre se informava sobre esse ponto quando se tratava dos filhos de seus parentes.

Quanto ao batizado de Teresinha foi preciso ser adiado dois dias. Deixo aqui a palavra a Madre Inês de Jesus. Interrogada, nos Processos, sobre o motivo dessa demora, respondeu:

"Porque se esperava o padrinho. Durante esse intervalo nossa piedosa mãe estava em contínuos sobressaltos. Pelo temor de sobrevir algum mal à crian­ça imaginava constantemente que a pequena estava em perigo".

Mamãe teve nove filhos, dos quais quatro morreram ainda pequenos. De acordo com meu pai quis dar a todos o nome de "Maria" unido a outro nome, ao de José para os dois meninos.

No dia 8 de dezembro de 1860 pedira à Imaculada Conceição um segundo filho e nove meses depois chegava Paulina que se seguiu a Maria, a primogênita.

Escreverá mais tarde a Paulina este testemunho de seu amor e o de nosso pai pelos filhos:

" Vivíamos somente para eles. Eram nossa felicidade. Jamais a encontrávamos fora deles. Numa palavra, nada nos custava, o mundo não mais nos pesava. Era para mim a grande compensação, por isso eu desejava ter muitos filhos a fim de educá-los para o Céu" (4 de março de 1877).

Já mencionei a perfeita compreensão entre meus pais, ainda que, à primeira vista, suas opiniões divergissem um pouco sobre um ponto qualquer. Mamãe tinha por meu pai tanta admiração quanta afeição e deixava-o exercer plenamente uma autoridade deveras patriarcal. Minhas irmãs afirmaram diversas vezes que sua união foi sem nuvens e a correspondência de minha mãe prova-o. Mostra também que mamãe não podia viver longe dele, mesmo por alguns dias. As cartas que lhe escrevia terminam com frases como esta, eco fiel de seus sentimentos:

" Tua esposa que te ama mais do que a própria vida".

O Sr. Cônego Dumaine, Vigário Geral de Séez, que batizou Teresa quando vigário de Nossa Senhora de Alençon, e que conhecia bem nossa família, fez este elogio nos Processos:

"Era admirável a união nessa família, tanto entre os esposos como entre pais e filhos".

Eis aí. Santa Zélia é um exemplo contundente de como a maternidade, apesar de todas as suas inegáveis dificuldades, está arraigada na natureza da mulher. A sua dedicação aos filhos e ao esposo é, contra todas as sandices feministas, um verdadeiro testemunho de virtuosa feminilidade. De sua abnegação e amor à família, formou-se mesmo um "viveiro de santidade".

Leia-se que os Martin não eram nenhuma família abastada. Santa Zélia trabalhou muito para ajudar o marido na criação das filhas. Mas tudo, absolutamente tudo, era feito com generosidade sobrenatural. Os frutos estão hoje no Céu.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referência

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Luís Martin, o “pai incomparável” de Santa Teresinha

O pai de Santa Teresinha do Menino Jesus bem sabia que aquelas meninas não eram suas. Deus só lhe tinha confiado o cuidado delas, e ele, por sua vez, aceitou generosamente a tarefa de educá-las para o Céu.

Durante a cerimônia de beatificação de São Luís e Santa Zélia Martin, pais de Santa Teresinha do Menino Jesus, o Cardeal Saraiva Martins, lendo a carta do Papa Francisco, descreveu os dois como "leigos, esposos e pais".

Luís, pai e esposo, sabia que o primeiro dever de um bom pai era ser um bom marido. "Sou sempre muito feliz com ele", escrevia Zélia sobre seu companheiro. "Ele preenche minha vida de ternura e delicadeza. Meu marido é um homem muito santo; quisera que toda mulher tivesse um marido como ele".

"Os nossos sentimentos estavam sempre de acordo", diria ela tempos depois, "e ele serviu-me constantemente de amparo e consolação" [1].

Nos anos de seu matrimônio, de 1858 a 1877, Luís foi um pai e um esposo muito generoso: vendo o sucesso do negócio de rendas de Zélia, ele abandonou a profissão de relojoeiro à qual se tinha dedicado por muitos anos, vendeu o negócio ao sobrinho por um preço modesto e tratou de gerenciar pessoalmente a compra de aviamento para a manufatura. Após a morte de Zélia, ele deixou os amigos em Alençon para dar às suas filhas a benéfica influência dos tios e primos maternos, em Lisieux. Numa época em que o pai era geralmente o "chefe da casa", ele deu às filhas mais velhas livre permissão tanto para cuidar das coisas da casa quanto para ensinar as irmãs mais novas. Não poupou esforços para desenvolver os talentos que elas tinham, provendo-lhes aulas de arte e dando-lhes toda ajuda que estava em suas possibilidades.

Luís Martin foi um homem valente. Na juventude, pertenceu ao clube militar. Por exercitar-se regularmente, acabou se tornando um homem alto e robusto. Nadava bem o bastante para salvar várias pessoas do afogamento, resgatava pessoas de incêndios, e era tão corajoso nas ruas que, se ficasse fora mais tarde que o normal, suas filhas já começavam a suspeitar que ele teria se machucado ao tentar separar alguma briga.

Como pai, Luís criou uma estrutura de disciplina para a vida diária de cada membro de sua família. Durante todas as estações eles assistiam juntos à Missa de manhã. As crianças tinham que comer o que lhes era preparado. Dificilmente perdiam algum dia na escola: em oito anos, Celine só teve duas faltas. Por não gostar de vê-las ociosas, Luís encorajava suas filhas a desenvolverem várias atividades.

Até mesmo seu lado feminino se tinha desenvolvido bem. Quando ficou viúvo, Luís se tornou um pai e uma mãe para suas filhas. Elas diziam: "O coração afetuoso de nosso pai foi enriquecido com um amor verdadeiramente maternal por nós". Muitas vezes ele acompanhava as filhas no caminho de ida e de volta para a escola, escutando pacientemente os relatos de como tinham sido os seus dias. Todas as noites, ele as reunia depois do jantar, confeccionava brinquedos, cantava, contava histórias, recitava poemas e fazia brincadeiras com elas, antes das orações em família. "Com minhas filhas eu sou um Bom-Papai", ele gostava de dizer [2].

Luís tinha um profundo respeito pela vida espiritual de suas filhas. Não apenas dava a elas toda a liberdade para que satisfizessem suas vocações, como ativamente as apoiava no que quer que elas descobrissem a respeito da vontade de Deus para suas vidas, "permitindo ao Criador que lidasse diretamente com a criatura". Empreendeu viagens e gastos para permitir que elas fizessem retiros e consultassem seus diretores espirituais. Num tempo em que muitos pais ficavam furiosos se suas filhas quisessem entrar para o convento, às vezes até impedindo que elas o fizessem, Luís deu livremente o seu consentimento e doou largas somas ao convento em que entraram suas filhas. Quando Maria, a mais velha e sua favorita, lhe confidenciou a sua vocação, ele disse: "Ah... mas... sem você!... Pensei que você nunca fosse me deixar" [3]. Ainda assim, ele lhe deu permissão imediatamente para ir.

Quando a família estava visitando Alençon, antes de Maria deixá-los e Leônia entrar para as Irmãs Clarissas, abruptamente e sem pedir permissão, ele permitiu que ela lá permanecesse e apoiou-a generosamente. Quando o vigário geral da diocese se furtou de ajudar Teresa a entrar no Carmelo, Luís, encontrando-o vários dias depois em Roma, disse com franqueza: "Você sabe muito bem que tinha prometido ajudar-me". Mais tarde, ficou tão impressionado com os talentos artísticos de Celina que quis levá-la a Paris para ter aulas com os melhores artistas. Quando ela lhe revelou, todavia, que planejava tornar-se carmelita depois que ele não mais precisasse de seus cuidados, ele disse: "Venha, vamos juntos ao Santíssimo Sacramento agradecer a Ele pela honra que me faz em escolher Suas esposas em minha casa. Se possuísse eu qualquer coisa melhor, eu depressa ofereceria para Ele." Teresa dizia que a melhor coisa que ele tinha a oferecer era a si mesmo. Quando ficou paralisado e teve que aceitar ser cuidado por um sanatório e depois por sua família, ele se rendeu completamente e ficou profundamente tocado pela devoção de seus parentes. "No céu, eu lhes recompensarei por tudo isso", ele disse a seu cunhado.

Luís entendeu que suas filhas não eram suas. Deus só lhe tinha confiado o cuidado delas, e ele, por sua vez, aceitara generosamente com sua esposa a tarefa compartilhada de "criá-las para o Céu". Sobre o papel profético de Luís na importante e repentina conversão que Teresa teve mais tarde, sua irmã Celina escreve que, "ao lhe conceder um pai incomparável, cuja bondade era uma prefiguração da bondade de nosso Pai do Céu, Nosso Senhor a estava preparando para penetrar, mais do que qualquer pessoa, no mistério da divina paternidade."

E em que Luís Martin pode nos ajudar a refletir sobre nosso relacionamento com nossos próprios pais?

Em 9 de maio de 1897, Teresa escreveu ao jovem Padre Roulland, sacerdote francês enviado em missão à China, de quem ela era irmã espiritual e por cujo apostolado rezava de modo especial:

"Se, como creio, meu Pai e minha Mãe estão no Céu, devem olhar e abençoar o irmão que Jesus me deu. Desejaram tanto um filho missionário! Contaram-me que antes de eu nascer, meus pais tinham a esperança que seu anseio fosse enfim se realizar. Se tivessem podido penetrar o véu do futuro, teriam visto que, com efeito, era por mim que o desejo deles se realizaria. Dado que um missionário se tornou meu irmão, é também filho deles, e nas suas orações, não podem separar o irmão de sua indigna irmã." [4]

E não é que Teresa, com essas palavras, oferece Luís como um pai para todos nós? Se, como ele, nossos próprios pais foram bons e amáveis conosco, então, na comunhão dos santos, Luís pode juntar-se a eles para derramar em nós o amor do coração de Cristo. Se, no entanto, como muitas das crianças que Luís ajudou no decorrer de sua vida, não pudemos experimentar essa delicadeza por parte de nossos pais, ou se nunca chegamos a conhecê-los, Luís pode ser o instrumento por meio do qual Deus derrama em nós as Suas graças.

São Luís Martin oferece aos pais de hoje um novo modelo de masculinidade e paternidade. Unindo seu amor a Deus com seu amor por sua esposa e filhas, ele entendeu a essência da paternidade: que seu papel como cocriador das almas de suas filhas para glorificar a Deus não acabava com o nascimento, mas continuava por toda a sua vida, enquanto ele as acompanhasse para fazê-las nascer para a eternidade. Como ele mesmo repetia com frequência, ele era um pai "todo para a maior glória de Deus".

Por Maureen O'Riordan | Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Carta da Senhora Martin para Paulina, de 4 de março de 1877. In: PIAT, Stéphane Joseph. História de uma família. 3. ed. Braga: Apostolado da Imprensa., p. 49.
  2. GENOVEVA DA SANTA FACE, Irmã. O pai de Santa Teresa do Menino Jesus (trad. do Carmelo do Imaculado Coração de Maria e Santa Teresinha). Cotia, 1965, p. 58.
  3. Ibid., p. 63.
  4. Carta 226. In: TERESA DO MENINO JESUS, Santa. Obras completas: escritos e últimos colóquios. São Paulo: Paulus, 2002, p. 472.

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Uma visita ilustre a um corpo incorrupto

Dentre os muitos fiéis que já visitaram o corpo de Santa Madalena de Pazzi, um nome especial ficou registrado nos anais do carmelo de Florença.

Santa Maria Madalena de Pazzi, cuja memória a Igreja universal celebra neste 25 de maio, viveu na passagem do século 16 para o século 17.

Enfrentando a resistência de uma família abastada, Madalena se fez carmelita com apenas 16 anos, em Florença. Passou em sua vida religiosa por inúmeros sofrimentos de ordem física e espiritual, pelos quais foi recompensada com experiências místicas e visões extraordinárias de Nosso Senhor, da Santíssima Virgem e de muitos outros santos.

Era uma mulher de muita oração e intimidade com a Palavra de Deus. Uma testemunha de seu processo de canonização conta que via Madalena passar horas meditando os Evangelhos:

"Eu me lembro, em particular, de que todos os sábados, tomando o livro dos evangelhos, ela pegava dois ou três pontos do evangelho do domingo seguinte, a sua escolha, e meditava sobre eles a semana inteira, gastando cerca de duas horas pela manhã e uma, à noite, nessa meditação." [1]

Depois de sua morte, no ano de 1607, o seu corpo foi um dos muitos na história da Igreja a experimentar o fenômeno da incorrupção:

"O corpo da santa foi cuidadosamente examinado durante as exumações de 1612 e 1625, e de novo em 1663 para o processo de canonização. A cada vez era atestado por todas as testemunhas que a preservação de seu corpo era de natureza miraculosa, 'já que ele não estava em nenhuma parte aberto ou embalsamado, nem nenhum artifício havia sido usado nele'." [2]

No momento de sua morte, as suas irmãs no convento afirmavam que seu corpo "não inspirava terror como os cadáveres geralmente fazem, mas, ao contrário, à morte daquela santa alma, seu rosto permaneceu alegre e todos os seus membros ficaram tão brancos quanto o marfim". Hoje, mais de 400 anos depois de sua morte, o "marfim" tomou uma cor amarelada, mas o seu rosto ainda sorri. Uma descrição recente de sua relíquia diz que Madalena "parece gentilmente dormir à espera da ressurreição" [3].

Visitante ilustre de seu corpo incorrupto foi a pequena Teresa de Lisieux, em 1887.

O encontro entre essas duas santas mulheres se deu durante uma peregrinação da família Martin à Itália. Santa Teresinha, sua irmã Celina e seu pai Luís (também ele santo canonizado) voltavam de Roma, depois de uma tentativa frustrada de obter do Papa Leão XIII o ingresso prematuro de Teresa no carmelo. O breve episódio é relatado em seu famoso livro História de uma alma:

"Em Florença, fiquei contente de contemplar Santa Madalena de Pazzi no meio do coro das Carmelitas que nos abriram a grande grade. Não sabíamos deste privilégio, e como muitas pessoas queriam tocar seus terços no túmulo da Santa, só eu pude passar a mão pela grade que nos separava dele. Assim, todos me traziam os terços e eu estava toda orgulhosa com meu ofício... Achava sempre o meio de tocar em tudo." [4]

O primeiro dado notável desse encontro são as suas protagonistas: duas mulheres, veneradas como santas e mestras da vida interior pela Igreja Católica — a mesma que o feminismo moderno acusa de misoginia e de patriarcalismo. Ditas acusações se devem, em grande medida, a uma tremenda ignorância histórica. Desde o seu início, de fato, a religião cristã deu um tratamento especial às mulheres [5], a começar por Maria, escolhida por Deus para ser a própria mãe do Verbo encarnado:

"A mulher em si mesma [...] nunca foi tão exaltada como no cristianismo. Dir-se-ia até que o foi mais do que o homem, não só porque Jesus a encontrara mais aviltada, e a tomou de mais baixo, como também porque, pela apoteose incomparável de Maria Santíssima, colocou uma simples mulher em culminâncias inatingíveis a nenhuma outra criatura humana." [6]

A própria Santa Teresinha do Menino Jesus escreve que "elas [as mulheres] amam a Deus em número bem maior do que os homens, e durante a Paixão de Nosso Senhor, as mulheres tiveram mais coragem do que os Apóstolos, pois enfrentaram os insultos dos soldados e ousaram enxugar a Face adorável de Jesus" [7].

Assim, o sexo que acabou muitas vezes, após a queda do gênero humano, sucumbindo a uma dominação destruidora do sexo masculino (cf. Gn 3, 16), agora se encontra cumulado de inúmeros benefícios, a ponto de o Apóstolo dizer que, "em Cristo, não há nem judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher" (Gl 3, 28): independentemente do sexo com que nascem as pessoas, todas são chamadas à perfeição na caridade.

No encontro entre essas duas grandes almas, transparece, ao mesmo tempo, uma grande humanidade: Santa Teresinha não só contemplava Madalena, mas "achava sempre o meio de tocar em tudo". Olhando o modo como esta piedosa jovem tratou as relíquias de Santa Madalena de Pazzi, também nós aprendemos a venerar os restos mortais dos santos de Deus: embora não sejam "deuses", as suas almas já participam definitivamente da natureza divina (cf. 2 Pd 1, 4) no Céu.

Por isso, enquanto seus corpos parecem "gentilmente dormir à espera da ressurreição", nós, a exemplo de Santa Teresinha, achemos sempre o meio de tocar em suas santas relíquias, na esperança de que o mesmo repouso celestial de que eles gozam, nós também experimentemos um dia, por toda a eternidade.

Santa Maria Madalena de Pazzi,
rogai por nós!

Santa Teresinha do Menino Jesus,
rogai por nós!

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. VASCIAVEO, Chiara. Maria Madalena de Pazzi, o tesouro escondido na Igreja. 30 Dias, n. 11 (2007).
  2. CRUZ, Joan Carroll Cruz. The Incorruptibles. Charlotte: TAN Books, 2012, p. 195.
  3. Ibid., p. 196.
  4. Manuscrito A, 66r. Obras completas: escritos e últimos colóquios. São Paulo: Paulus, 2002, p. 137.
  5. Cf. STARK, Rodney. O crescimento do cristianismo: um sociólogo reconsidera a história. São Paulo: Paulinas, 2006.
  6. CORRÊA, Dom Aquino. Elevação da mulher (9 de dezembro de 1934). Discursos, v. 2, t. 2. Brasília, 1985, pp. 135-137.
  7. Manuscrito A, 66v. Obras completas: escritos e últimos colóquios. São Paulo: Paulus, 2002, p. 138.

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Ser cristão, uma fecunda "perda de tempo"

​A uma sociedade que abandonou a fé e considera um "desperdício" ser cristão, a grande Santa Teresinha do Menino Jesus tem uma resposta a oferecer.

O vocalista da banda de rock AC/DC, Brian Johnson, considera todas as religiões "uma perda de tempo". O músico é parte de uma cultura que relegou a fé, a metafísica e a transcendência para o segundo plano, como se fossem temas pouco importantes – quando não "fantasiosos". É a geração que acredita que "Deus morreu", que não sabe – ou não quer – rezar porque não está na moda, e que vive, em última instância, sem um sentido pelo qual viver. Tragicamente, antes de acharem que os religiosos perdem tempo indo à igreja, para eles, só o fato de viver já é uma grandíssima perda de tempo.

A palavra "perda", no entanto, não é totalmente estranha ao vocabulário dos Evangelhos. Deixando de lado a descrença e a provocação de Brian Johnson, é preciso concordar que o seguimento de Jesus comporta uma certa renúncia, não só do tempo que se tem, mas de todas as coisas. É o próprio Senhor quem o ensina:

"Quem ama pai ou mãe mais do que a mim, não é digno de mim. E quem ama filho ou filha mais do que a mim não é digno de mim. E quem não toma a sua cruz e não me segue, não é digno de mim. Quem buscar sua vida a perderá, e quem perder a sua vida por causa de mim a encontrará." (Mt 10, 37-39)

"Todo aquele que tiver deixado casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, filhos ou campos, por causa do meu nome, receberá cem vezes mais e terá como herança a vida eterna." (Mt 19, 29)

"Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz, cada dia, e siga-me. Pois quem quiser salvar sua vida a perderá, e quem perder sua vida por causa de mim a salvará." (Lc 9, 23-24)

"Se alguém vem a mim, mas não me prefere a seu pai e sua mãe, sua mulher e seus filhos, seus irmãos e suas irmãs, e até à sua própria vida, não pode ser meu discípulo." (Lc 14, 26)

"Quem se apega à sua vida, perde-a; mas quem não faz conta de sua vida neste mundo, há de guardá-la para a vida eterna." (Jo 12, 25)

Não se pode enganar as pessoas "maquiando" ou adaptando as partes mais duras do ensinamento de Cristo. As exigências da fé cristã são, de fato, muito sérias. O amor que Nosso Senhor pede por parte dos que desejam segui-Lo chega a soar escandaloso: é preciso preferi-lo aos próprios parentes, à própria esposa, à própria vida!

O que não se pode perder de vista é o precioso tesouro escondido no campo (cf. Mt 13, 44), a razão que faz com que tantos homens e mulheres, de todos os povos e nações, de todas as raças e línguas, vendam tudo o que têm, deixem tudo o que possuem e transformem tudo o que são, só para se fazerem cristãos. Ao lado da perda que traz consigo o seguimento do Evangelho, há um ganho infinitamente superior e absolutamente incomparável: a amizade de Deus nesta vida e a felicidade perfeita no Céu.

Santa Teresinha do Menino Jesus sabia muito bem disso. Em um de seus poemas, ela dialoga com o Evangelho, na parte em que Maria de Betânia lava os pés do Senhor com "perfume de nardo puro e muito caro". O discípulo traidor, ao ver tamanho "desperdício", comenta: "Por que esse perfume não foi vendido por trezentos denários para se dar aos pobres?" ( Jo 12, 5). Santa Teresinha põe essa mesma indagação na boca do mundo e compõe os belos versos seguintes:

"Vivre d'Amour, quelle étrange folie!"
Me dit le monde, "Ah! cessez de chanter,
e perdez pas vos parfums, votre vie,
Utilement sachez les employer!..."
T'aimer, Jésus, quelle perte féconde!...
Tous mes parfums sont à toi sans retour,
Je veux chanter en sortant de ce monde:
"Je meurs d'Amour!"

"Viver de Amor, que estranha loucura!"
Diz-me o mundo: "Ah, cessa de cantar,
não percas teus perfumes, tua vida,
Utilmente procura empregá-los!..."
Amar-te, Jesus, que perda fecunda!...
Todos meus perfumes são teus sem retorno,
Eu vou cantar ao sair deste mundo:
"Eu morro de Amor!" [1]

Amar Jesus, diz Santa Teresinha, é uma perte féconde, uma "perda fecunda". Não há nada maior com que gastar os nossos anos, o breve tempo que se nos afigura nesta vida, que com o amor de Deus, porque, no final, Ele será o único que nos restará, a melhor parte, que não nos será tirada (cf. Lc 10, 42). A "perda de tempo" dos que amam a Deus é, portanto, o "santo desperdício" de quem ganha a eternidade!

Não temamos, pois, "perder o nosso tempo" com as coisas de Deus! Gastar as nossas horas diante do Santíssimo Sacramento, com o Santo Rosário, com as conversações celestes! "Desperdiçar" a nossa juventude "confinado" em uma igreja ou "aprisionado" em casa com a própria família! Tenhamos sempre diante dos olhos Aquele que é o motivo de nossas loucuras ( folies), na certeza da fé de que Deus sabe recompensar os que O amam e n'Ele esperam [2]; de que, como diz o Papa Bento XVI, quem escolhe Jesus não perde nada, ganha tudo [3]!

Lembremo-nos também que não fomos nós, na verdade, quem O amamos primeiro, mas Ele; não somos nós quem subimos, com nossas próprias forças, ao Céu, mas é Ele quem desce a nós.

Amemo-Lo, pois, amemo-Lo com todas as forças de nossa alma. "Se nos custava antes amá-Lo, não nos custe agora retribuir-Lhe o amor" [4], diz Santo Agostinho. Pensemos em todos os bofetões, cusparadas, flagelos e espinhos que o próprio Deus sofreu por nossa causa e simplesmente consolemos o Seu Coração, rendamos-Lhe a nossa gratidão. E, um dia, com Santa Teresinha, no Céu, possamos também nós cantar que perdemos fecundamente a nossa vida, vivendo – e morrendo – de Amor!

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Poesia 17 ("Viver de Amor").
  2. A fé como meio de alcançar a graça do Espírito Santo, 7. In: Introdução ao Cristianismo. Acesso em: 26 nov. 2015.
  3. Cf. Homilia na Missa de Coroação e início do pontificado (24 de abril de 2005).
  4. De Catechizandis Rudibus, IV, 7 (PL 40, 314).

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Amar, uma tarefa diária para todo cristão

O amor é um ato de determinação; requer-se uma vontade deliberada de amar.

O chamado de Jesus consiste unicamente no amor, de modo que as palavras dirigidas a Mateus – “Segue-me" (Cfr. Mt 9, 9) – podem também significar o imperativo do verbo amar: ame! Seguir Jesus é amar. A vocação cristã, portanto, se resume nessa atitude de doação, que só um coração contrito e apaixonado por Deus é capaz de ofertar aos outros.

O Catecismo da Igreja Católica, aprofundando um pouco mais neste mistério, explica que somos vocacionados do amor, porque fomos “criados à imagem e semelhança de Deus"[1]. Visto que Deus é amor, como narra São João, também nós somos predestinados a tomar parte nesta natureza, tornando-nos, em Cristo, filhos de Deus e, por conseguinte, membros de seu Corpo. Nesse sentido, que belo exemplo nos dá a Virgem Maria, como modelo de perfeição, ao acolher com total obediência – “eis aqui a escrava do Senhor" (Cfr. Lc 1, 38) – o propósito divino para sua história. Ela escolheu a melhor parte.

Por outro lado, lembra-nos o livro de Gênesis (Cfr. Gn 3, 10) a vocação do homem ao amor foi abalada a partir do momento em que – assistido pelos conselhos perniciosos da serpente – ele optou por ser um deus sem Deus. Com efeito, o amor ao Criador e suas criaturas, que era antes doação, converteu-se em amor próprio: amo-me acima de todas as coisas. Esse amor doentio (filáucia), que os padres da Igreja consideram a mãe de todas as doenças espirituais, permeia todo o orbe católico, até mesmo os lugares onde se exala certa piedade e zelo apostólico[2]. As liturgias impecáveis, a oração do terço, a opção preferencial pelos pobres, por sua vez, podem muitas vezes esconder um teatro com aparência de santidade. Diz o Papa Pio XII[3]:

[...] Sabeis, veneráveis irmãos, que o divino Mestre considera indignos do templo sagrado e expulsa dele os que crêem honrar a Deus somente com o som de bem construídas palavras e com atitudes teatrais e estão persuadidos de poder prover de modo adequado à sua salvação sem arrancar da alma os vícios inveterados.

O cristianismo não é uma religião de formalismo sem fundamento e sem conteúdo. Quando São Josemaria Escrivá pede que tenhamos uma oração litúrgica, nada mais faz do que obedecer à lei de Deus, exortando-nos a conhecer “a genuína natureza da verdadeira Igreja"[4]. Na liturgia, celebramos o mistério pascal, com o qual Cristo nos redimiu e tornou-nos coerdeiros das graças divinas. Mas essa celebração deve estar acompanhada por uma atitude interior de entrega e amor a Deus, de sorte que o homem respire a beleza de uma vida em comunhão com o Senhor. Ensina o Catecismo da Igreja Católica: “a liturgia é o ápice para o qual tende a ação da Igreja, e ao mesmo tempo é a fonte donde emana toda a sua força"[5]. Mas sem o amor, torna-se pouco eficaz, pois, com a liturgia – insiste oportunamente Pio XII –, a Igreja “quer que todos os fiéis se prostrem aos pés do Redentor para professar-lhe o seu amor e a sua veneração"[6].

Pelo contrário, se este propósito não estiver em todo coração católico, por mais belas que sejam as casulas e os ornamentos do altar, a celebração não passará de um monólogo: uma conversa comigo mesmo, em cujo cerne se encontra apenas a minha própria vontade. Analisando muitas atitudes ao nosso redor – e até mesmo a nossa – perceberemos que infelizmente não estamos muito distantes disso.

O amor é um ato de determinação; requer-se uma vontade deliberada de amar. Não se trata de um sentimento, mas de uma resposta à ação de Deus, bebendo “incessantemente da fonte primeira e originária que é Jesus Cristo"[7]. Recorda-nos Bento XVI, na sua encíclica Deus Caritas Est, que “quem quer dar amor, deve ele mesmo recebê-lo em dom"[8]. A esse respeito, une-se à voz do Santo Padre a “pequena via" de Santa Teresinha[9]:

[...] Oh! Como eu gostaria de ser hipnotizada por Nosso Senhor! Foi o primeiro pensamento que me veio quando acordei. Com que doçura eu lhe entregaria a minha vontade! Sim, eu quero que ele se apodere de minhas faculdades de tal modo que não faça mais ações humanas e pessoais, mas, ações divinas, inspiradas e dirigidas pelo Espírito de Amor!

Quando posto à prova pelos fariseus em relação ao maior de todos os mandamentos, Cristo não hesitou em dizer: “amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo" (Cfr. Mt, 22, 37-39). Esta é a nossa única tarefa diária: amar, amar, amar!

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Catecismo da Igreja Católica, n. 27.
  2. Padre Paulo Ricardo, Filáucia, a mãe de todas as doenças espirituais, Curso de Terapia das doenças espirituais, aula 1.
  3. Pio XII, Carta Enc. Mediator Dei (20 de novembro de 1947), n. 21.
  4. Constituição Conciliar Sacrosanctum concilium, n. 2.
  5. Catecismo da Igreja Católica, n. 1074.
  6. Pio XII, Carta Enc. Mediator Dei (20 de novembro de 1947), n. 21.
  7. Bento XVI, Carta Enc. Deus Caritas Est (25 de dezembro de 2005), n. 7.
  8. Ibidem.
  9. Uma noviça de Santa Teresinha, Carmelo de Cotia, p. 111