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A oração de um carmelita para a Quaresma

Precisamos “mergulhar”, “descer sempre mais”, “fazer uma viagem” ao interior de nossa alma, porque, se estamos em estado de graça, é aí que mora o Senhor.

É uma especialidade da Ordem do Carmo fazer-nos entrar em contato com Deus no mais íntimo de nosso ser — experiência que é, na verdade, fundamental para a fé cristã, e que foi condensada por Santo Agostinho na famosa frase de suas Confissões: "Eis que estavas dentro, e eu fora" (X, 27, 38). Santa Teresa d'Ávila comparava a alma do justo, por exemplo, a um jardim onde Deus encontra as suas delícias; Santa Teresinha do Menino Jesus, por sua vez, cantava a alegria de ter encontrado "o Céu na terra" — nada menos que Deus morando em seu coração; e Santa Elisabete da Trindade não tomou este nome senão para honrar a inabitação trinitária em si.

A Quaresma, tempo de profunda interiorização, nada mais é que um resgate sempre necessário, portanto, do que precisamos fazer por toda a nossa vida: "mergulhar", "descer sempre mais", "fazer uma viagem" para dentro de nossa alma, até encontrarmos Aquele que é mais íntimo que o que há de mais íntimo de nós, para usar outra expressão agostiniana (cf. Confissões, III, 6, 11).

Um outro carmelita que compreendeu, viveu e transmitiu essa verdade foi o Beato Francisco Palau, sacerdote espanhol do século XIX e beatificado em 1988. São de sua pena, a propósito, as expressões "mergulhar" e "descer sempre mais", colhidas da seguinte oração para a Quaresma, a qual compartilhamos com todos os nossos visitantes:

Senhor,
nesta Quaresma,
tempo de mergulhar no meu interior,
de revisão e de conversão,
ensina-me a descer sempre mais
até onde Tu te encontras: o meu coração.

Como "descer" até aí?
Pelo silêncio, encontrando tempo para rezar,
pela leitura da Tua Palavra que tanto me quer dizer,
pelos Sacramentos,
especialmente a Confissão e a Santa Missa.

Também pela aceitação das contrariedades,
o peso das circunstâncias e da monotonia da vida…
com os olhos postos em Ti.

Senhor, Tu que estás no meu íntimo,
ajuda-me nesta Quaresma,
a fazer uma viagem ao meu interior,
para aí me encontrar conTigo!

Que possamos, pela intercessão do bem-aventurado Francisco Palau, transformar essa brevíssima prece em um verdadeiro "projeto de vida": procurando a Deus, de fato, pelo silêncio, pela leitura da Palavra de Deus, pelos Sacramentos e pela aceitação das contrariedades, seguramente estaremos no caminho da perfeição.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

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Rasgai os corações, e não os estômagos

A Deus não agradam os jejuns e as abstinências, se o coração humano estiver longe d'Ele

Ao falar sobre a virtude da abstinência, Santo Tomás de Aquino cuida de distingui-la da simples "privação absoluta de alimentos" que, em si, "não designa nem uma virtude, nem um ato virtuoso, mas algo indiferente" [1]. Deixar de comer, pura e simplesmente, não significa nada. "Uma questão de alimento não nos aproxima de Deus; se não o comermos, não teremos nada de menos e, se o comermos, não teremos nada a mais" ( 1 Cor 8, 8), confirma o Apóstolo.

Algum protestante, lendo estas linhas escritas por São Paulo, talvez se arrisque a usar o "livre exame" das Escrituras, a fim de condenar os jejuns quaresmais dos católicos: "Por que, afinal, eles deixam de comer carne, e de fazer isto ou aquilo? Afinal, não está escrito...?" Sim, a sua alegação seria perfeitamente bíblica, assim como foram bíblicas as palavras com que o demônio tentou Jesus no deserto (cf. Mt 4, 1-11). Ora, não foi o próprio Cristo a advertir que, quando o Noivo fosse tirado de Seus discípulos, eles jejuariam (cf. Mc 2, 20)? Para este caso, pois, assim como para tantos outros, vale a observação do Aquinate: "A letra do Evangelho também mata, se faltar a graça interior da fé que cura" [2].

É claro que o jejum é importante. Mas, hoje – assim como em outros momentos da história do povo de Deus –, são muitas as pessoas que se privam de alimentos, sem praticar de verdade a virtude da abstinência.

O povo de Israel, por exemplo, se queixava diante de Deus, no Antigo Testamento: "Por que foi que jejuamos e tu nem olhaste? Nós nos humilhamos totalmente e nem tomaste conhecimento", ao que o Senhor respondeu, pela boca do profeta Isaías: "Acontece que, mesmo no dia de jejum, só cuidais dos vossos interesses e continuais explorando os trabalhadores. Acontece que jejuais criando caso, brigando e esmurrando" ( Is 58, 3-4). Assim, mais do que abster-se de comida, é importante fazê-lo "como é necessário, ou seja, com alegria interior; e para o que é necessário, ou seja, para a glória de Deus, não para a sua glória pessoal" [3].

Santo Agostinho insistia, em seus sermões sobre a Quaresma, que de nada adiantava deixar de comer carne, se esta fosse tão somente substituída por outros pratos suculentos:

"Que ninguém, sob o pretexto de abstinência, pretenda mudar os prazeres, ao invés de cortá-los, procurando, por exemplo, comidas caras, porque não come carne, ou licores raros, porque não bebe vinho. Nem faça com que, sob o pretexto de domar a carne, se aumente o prazer. 'Todos os alimentos são, sem dúvida, puros para os puros' (cf. Tt 1, 15), mas para ninguém é puro o excesso" [4].

Os mesmos conselhos dos santos valem para o nosso tempo, quando muitos transformam a Quarta-Feira de Cinzas – e, do mesmo modo, a Sexta-Feira Santa e toda a Quaresma – em ocasião para encher a barriga de "bacalhoada" e frutos do mar, ao invés de dirigir o seu coração a Deus; quando decidem estender indefinidamente as folias carnavalescas – que, em grande parte, já constituem, em si, ocasião de pecado –, ao invés de se arrependerem dos seus pecados; quando preferem "curtir o feriado" a saírem de sua comodidade e fazerem penitência. Definitivamente, não é este o sentido da abstinência de carne pedida pela Igreja. Para estas pessoas, a frase do Apóstolo é bastante apropriada: "Uma questão de alimento não nos aproxima de Deus". Um pedaço de carne de boi que se deixa de comer em um ou outro dia do ano não é capaz, por si só, de purificar o coração de ninguém.

Ao contrário, aquilo que se faz externamente – jejuns, orações e esmolas – deve ser o resultado de uma verdadeira conversão interior, de um autêntico voltar-se a Deus. "Agora, diz o Senhor, voltai para mim com todo o vosso coração, com jejuns, lágrimas e gemidos; rasgai o coração, e não as vestes" (Jl 2, 12-13).

O significado do jejum e da abstinência está profundamente ligado àquelas palavras do Deuteronômio: "Não só de pão vive o ser humano, mas de tudo o que procede da boca do Senhor" ( Dt 8, 3). O cristão penitente deixa de usufruir das criaturas, se priva de finos manjares e boas bebidas – que, em si, nada tem de ilícitos –, porque quer voltar o coração ao seu Criador. Dizendo "não" aos prazeres permitidos, ele também fortalece a sua alma para rejeitar os prazeres proibidos e oferece, com o seu sacrifício, uma reparação a Deus pelos seus pecados.

"Rasgai o coração, e não as vestes", diz o profeta. Que, nesta Quaresma, sejamos capazes de chorar as nossas faltas, que tanto ofendem a Majestade Divina, e que nossas penitências sejam todas realizadas com espírito de amor – com o espírito dos santos, que abraçavam qualquer sofrimento e carregavam qualquer cruz só para consolar o Sacratíssimo Coração do seu Deus.

Uma santa e penitente Quaresma a todos!

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências:

  1. Summa Theologiae, II-II, q. 146, a. 1
  2. Summa Theologiae, I-II, q. 106, a. 2
  3. Summa Theologiae, II-II, q. 146, a. 1, ad 4
  4. Sermo 205, 2