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Aprenda a rezar a Coroa do Preciosíssimo Sangue de Cristo

Nesta devoção, acompanhamos Nosso Senhor da circuncisão até a Cruz, meditando sobre cada uma das sete principais efusões de seu Preciosíssimo Sangue.

Esta devoção consiste em sete mistérios, durante os quais se medita sobre as sete principais efusões do Preciosíssimo Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo.

É possível acrescentar livremente, ao fim de cada mistério, Pai-nossos, Ave-Marias e outras jaculatórias piedosas ( como as que constam na Ladainha do Preciosíssimo Sangue). Assim como na recitação do Santo Rosário, porém, só o que não se deve perder de vista é a contemplação das verdades eternas contidas em cada mistério. Através desse conhecimento, somos chamados a aumentar o nosso amor ao Sangue bendito que nos conquistou a salvação.

A versão da Coroa que tornamos disponível abaixo foi retirada, ipsis litteris, de um pequeno devocionário publicado pela editora Canção Nova, cuja aquisição recomendamos a todos.

— Iniciar rezando um Creio, um Pai-nosso, e um Glória.

1. Pai de misericórdia, eu vos ofereço os méritos do Preciosíssimo Sangue que Jesus, vosso amadíssimo Filho e nosso Redentor, derramou na circuncisão.
Bendito e adorado para sempre seja Jesus, que nos salvou com seu Preciosíssimo Sangue. Bendito e exaltado seja o Sangue de Jesus, agora e sempre e por toda a eternidade (repetir 7 vezes).
Glória ao Pai…

2. Pai de misericórdia, eu vos ofereço os méritos do Preciosíssimo Sangue que Jesus, vosso amadíssimo Filho e nosso Redentor, derramou na agonia no Horto das Oliveiras (repetir 7 vezes).
Glória ao Pai…

3. Pai de misericórdia, eu vos ofereço os méritos do Preciosíssimo Sangue que Jesus, vosso amadíssimo Filho e nosso Redentor, derramou na flagelação (repetir 7 vezes).
Glória ao Pai…

4. Pai de misericórdia, eu vos ofereço os méritos do Preciosíssimo Sangue que Jesus, vosso amadíssimo Filho e nosso Redentor, derramou na coroação de espinhos (repetir 7 vezes).
Glória ao Pai…

5. Pai de misericórdia, eu vos ofereço os méritos do Preciosíssimo Sangue que Jesus, vosso amadíssimo Filho e nosso Redentor, derramou no caminho do Calvário (repetir 7 vezes).
Glória ao Pai…

6. Pai de misericórdia, eu vos ofereço os méritos do Preciosíssimo Sangue que Jesus, vosso amadíssimo Filho e nosso Redentor, derramou pregado à cruz (repetir 7 vezes).
Glória ao Pai…

7. Pai de misericórdia, eu vos ofereço os méritos do Preciosíssimo Sangue que Jesus, vosso amadíssimo Filho e nosso Redentor, derramou da ferida de seu lado (repetir 7 vezes).
Glória ao Pai…

Ao final, rezar uma Salve Rainha.

Do "Devocionário ao Preciosíssimo Sangue de Jesus",
Ed. Canção Nova, São Paulo, 2007, pp. 56-58.

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Podemos adorar o Preciosíssimo Sangue de Cristo?

É correto adorar o Sangue de Cristo? Em que se baseiam os católicos para honrar algo tão “estranho”, ao menos à mentalidade atual, como o sangue de um homem?

Podemos adorar o Preciosíssimo Sangue de Cristo?

A pergunta pode parecer ociosa a quem tenha fé católica, mas oferece-nos, em todo o caso, a oportunidade de esclarecer alguns mal-entendidos que hoje circulam, mesmo entre os fiéis, a respeito desta e de outras práticas devocionais tão caras ao povo cristão. A pergunta adquire ainda maior interesse se abordada neste mês de julho, em que a Igreja procura estimular no coração de seus filhos o culto ao Sangue do Redentor, cuja propagação experimentou fortes incrementos a partir da primeira metade do século XVIII. Para responder-lhe na ordem adequada e, desse modo, acordar em nosso ânimo a honra e estima em que devemos ter o culto ao caríssimo preço da nossa Redenção, convém repassar em primeiro lugar o que a fé católica nos ensina sobre a adoração devida a Cristo [1].

1.º) É ponto pacífico que devem adorar-se com a mesma adoração tanto a humanidade quanto a divindade de Nosso Senhor. Trata-se de uma verdade revelada e definida pela autoridade da Igreja em mais de uma ocasião [2].

A razão teológica que a corrobora é bastante clara. De fato, a honra em que consiste a adoração é dirigida própria e primariamente à totalidade da pessoa, e não a seus pés e mãos, por exemplo, a não ser na medida em que por tais membros ela é honrada como um todo. Ora, em Cristo há uma única pessoa, na qual se encontram unidas duas naturezas. Portanto, a ele deve tributar-se uma só adoração. Mas como a pessoa do Verbo encarnado subsiste em duas naturezas, inseparáveis e indivisas, a causa desta única adoração é dupla: de um lado, a divindade tem de ser adorada em si e por si mesma; a humanidade, de outro, por encontrar-se hipostaticamente unida ao Verbo divino. Eis porque decretou o II Concílio de Constantinopla:

Se alguém diz que Cristo é adorado em duas naturezas, introduzindo com isto duas adorações […], sem venerar com única adoração o Deus Verbo encarnado junto com a sua carne, como a Igreja de Deus recebeu por tradição desde o início: seja anátema. [3]

2.º) Disto se segue que a humanidade de Cristo pode e deve ser adorada com adoração de latria, consistente num ato da virtude da religião pelo qual manifestamos a Deus, em sinal de submissão, a honra e a reverência que ele merece em razão de sua infinita excelência como Senhor e Criador de todas as coisas.

A razão disso, como dissemos acima, é que a honra da adoração se dirige à pessoa como um todo. Ora, visto que a pessoa a que está unida a humanidade de Cristo é divina, também a essa humanidade se deve a mesma adoração com que é honrado o Verbo que a assumiu. Nesse sentido, "adorar a carne de Cristo nada mais é do que adorar o Verbo de Deus encarnado" [4]. Há que ter em mente, contudo, que este culto latrêutico é prestado à humanidade do Senhor em razão, não de si mesma, mas da divindade a que ela está unida. É por isso que diz São João Damasceno: "Tendo-se encarnado o Deus Verbo, adora-se a carne de Cristo, não por si mesma, mas por ter-se unido a ela segundo a hipóstase o Verbo de Deus" [5].

3.º) Nada disso impede — antes, pelo contrário, autoriza-o — que prestemos o mesmo culto de adoração com que honramos a pessoa do Filho de Deus encarnado tanto às suas imagens quanto às partes de sua nobilíssima natureza humana. Não porque esse culto nelas se encerre e termine, mas porque por meio delas se dirige e chega à própria pessoa do Verbo: nas imagens, tendendo ao objeto por elas representado; nas partes do corpo do Senhor, adorando ao Deus que delas se serviu para nos redimir.

É por esse motivo que a Igreja sempre teve em alta conta a devoção ao Sacratíssimo Coração de Jesus, que, por "estar unido hipostaticamente à pessoa do Verbo de Deus" e ser "o índice natural […] da sua imensa caridade para com o gênero humano", merece que lhe seja tributado o culto de adoração a que têm direito todos os "membros adoráveis do corpo" de Nosso Senhor [6].

Fica assim patente que, do mesmo modo que a partir "do elemento corpóreo que é o Coração de Jesus Cristo e do seu natural simbolismo" [7] é legítimo adorar a excelentíssima caridade do Filho de Deus feito homem, assim também é verdadeiro, santo, oportuno e piedoso o costume tantas vezes secular de oferecer as devidas homenagens de adoração ao Preciosíssimo Sangue que o Verbo encarnado foi impelido a derramar por amor a nós, "desde o oitavo dia do seu nascimento, e depois, com superabundância, na agonia do horto (cf. Lc 22, 43), na flagelação e na coroação de espinhos, na subida ao Calvário e na crucifixão, e, enfim, da ampla ferida do seu lado" [8], da qual nasceu a Igreja e manaram os sacramentos da Nova Aliança. Porque se o objeto deste culto é, efetivamente, o Sangue físico e material do Salvador, enquanto inseparavelmente unido à divina pessoa do Filho encarnado e preço sensível do nosso resgate, o seu motivo não é senão a infinita dignidade do Verbo divino a que este Sangue se encontra unido segundo a hipóstase, além do valor inestimável de sua vida, entregue em holocausto de amor para reparar a justiça divina, ultrajada pelo pecado, e resgatar da sujeição à morte eterna todos quantos haviam de deixar-se alvejar pela Seiva adorável sem a qual não pode haver Redenção.

Que ao longo deste mês de julho possamos dar ouvidos à paternal advertência de São Pedro, que nos manda viver "com temor durante o tempo da vossa peregrinação. Porque vós sabeis que não é por bens perecíveis, como a prata e o ouro, que tendes sido resgatados da vossa vã maneira de viver, recebida por tradição de vossos pais, mas pelo precioso sangue de Cristo, o Cordeiro imaculado e sem defeito algum" (1Pd 1, 17ss).

Deixando-nos reformar intimamente pela graça que nos foi conquistada ao preço da vida do Homem-Deus, glorifiquemos ao Senhor no nosso corpo (cf. 1Cor 6, 20) e lhe tributemos todos os dias o preito de nossa devoção e gratidão, a ele que nos remiu por seu Sangue adorável e vive e reina à direita do Pai pelos séculos dos séculos. Amém.

Recomendações

Referências

  1. As explicações aqui apresentadas baseiam-se em Tomás de Aquino, S. Th. III, q. 25, aa. 1-2 e R. Garrigou-Lagrange, De Christo Salvatore. Turim: Pontificium Institutum "Angelicum", 1945, pp. 379-382.
  2. Cf., por exemplo, Concílio de Éfeso, Carta "Τοῦ σωτῆρος ἡμῶν" (= 3.ª carta de Cirilo de Alexandria a Nestório), de nov. 430, n. 8 (DH 259); Vigílio, Constituição "Inter innumeras sollicitudines", de 14. mai. 553, n. 5 (DH 420); Pio VI, Constituição "Auctorem fidei", de 28 ago. 1764, nn. 61․63 (DH 2661․2663).
  3. II Concílio de Constantinopla, 8.ª sessão, de 2 jun. 553, cân. 9 (DH 431).
  4. Tomás de Aquino, S. Th. III, q. 25, a. 2, resp. (v. também S. Th. III, q. 58, a. 3, ad 1; III Sent., d. 9, q. 1, a. 2, ql. 1․4, ad 1; Ad Galatas, c. 4, l. 4.). Trad. port. coordenada por Carlos-Josaphat P. de Oliveira. 2.ª ed., São Paulo: Loyola, 2002, p. 386.
  5. De fide. orth., 4․3 (PG 94, 1105B).
  6. Pio XII, Encíclica "Haurietis Aquas", de 15 mai. 1956, n. 12 (AAS 48 [1956] 316). Trad. port. da Poliglota Vaticana. São Paulo: Paulus, 1998 (col. "Documentos da Igreja", vol. 5), p. 749.
  7. Id., n. 58 (AAS 48 [1956] 343), p. 780.
  8. João XXIII, Carta Apostólica "Inde a primis", de 30 jun. 1960, n. 10 (AAS 52 [1960] 548).

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Por que retratar com tanta crueza a Paixão de Cristo?

Muito antes das cenas sangrentas da Paixão segundo Mel Gibson, os artistas antigos já haviam cuidado de representar com dramaticidade os sofrimentos de Cristo. Mas por que retratar assim, afinal, com tanta crueza, as dores de nosso Salvador?

Neste mês de julho, dedicado ao Preciosíssimo Sangue de Cristo, a pintura acima, intitulada A Flagelação e confeccionada em 1729 pelo espanhol Nicolau Enríquez, pode ser para nós uma excelente fonte de meditação.

Muito antes das cenas sangrentas da Paixão segundo Mel Gibson — que tanto escandalizaram os críticos da "sétima arte" —, os artistas antigos já haviam cuidado de representar com dramaticidade os sofrimentos de Cristo, tudo a fim de impressionar seus espectadores e provocar-lhes a compaixão pela dor divina. O trabalho desses homens, portanto, não era simplesmente a "arte pela arte"; o que faziam tinha um sentido duplamente transcendente, pois superava tanto o ofício que eles dominavam quanto a sua própria existência neste mundo: a intenção de suas obras era revelar Deus e fazer despertar nas pessoas o sobrenatural.

Uma breve descrição deste quadro, fornecida pelo site Google Arts & Culture, pode nos ajudar a reparar em seus detalhes:

Ao centro jaz no solo a figura de Cristo que, humilhado sobre um charco de sangue, mostra suas costas totalmente descarnadas por causa dos numerosos golpes que recebe de uma multidão enfurecida. [...] Contrasta nesta tela a óleo a grande quantidade de personagens em movimento com rostos desfigurados pela ira e gestos violentíssimos, os quais, armados de facas, cilícios de pontas metálicas e correntes, açoitam a Cristo sem piedade. Jesus recebe este castigo com resignação e apenas atina a perguntar, através de uma vírgula que brota de sua boca: Quae utilitas in sanguine mea? ("Qual é a utilidade de meu sangue?"), chamando assim a meditar sobre o sentido da redenção.

Jesus está, portanto, sobre "um charco de sangue", com as "costas totalmente descarnadas", cercado de "facas, cilícios de pontas metálicas e correntes". Trata-se, sem dúvida, de uma cena "de grande intensidade e força emotiva". E qualquer semelhança com as cenas mais perturbadoras de "A Paixão de Cristo" não é mera coincidência.

Mas o que levam em conta esses artistas, afinal, para retratar com tanta crueza e morbidez as estações da Via Crucis?

A resposta deve ser encontrada, em primeiríssimo lugar, nas Sagradas Escrituras, especialmente nas predições do Antigo Testamento sobre o Cristo. Na liturgia da Sexta-feira Santa, a Igreja inteira canta, por exemplo, o Salmo 21, do qual é extraída a seguinte imagem:

Quanto a mim, eu sou um verme e não um homem;
sou o opróbrio e o desprezo das nações.
Riem de mim todos aqueles que me veem,
torcem os lábios e sacodem a cabeça. (v. 7-8)

A coluna vertebral de Cristo exposta no quadro faz-nos lembrar imediatamente de outros versículos deste mesmo Salmo, em que o Autor Sagrado diz: "Meus ossos estão todos deslocados" (v. 15); e ainda: " Eu posso contar todos os meus ossos" (v. 18).

Outra leitura proclamada na tarde da Sexta-feira da Paixão é a do profeta Isaías, também repleta de imagens fortíssimas:

Tão desfigurado ele estava que não parecia ser um homem ou ter aspecto humano [...]. Não tinha beleza nem atrativo para o olharmos, não tinha aparência que nos agradasse. Era desprezado como o último dos mortais, homem coberto de dores, cheio de sofrimentos; passando por ele, tapávamos o rosto; tão desprezível era, não fazíamos caso dele. A verdade é que ele tomava sobre si nossas enfermidades e sofria, ele mesmo, nossas dores; e nós pensávamos fosse um chagado, golpeado por Deus e humilhado! (Is 52, 14; 53, 2-4)

Esses versículos, somados aos relatos históricos dos Evangelhos — que narram a prisão, flagelação, coroação de espinhos e crucificação de Nosso Senhor —, são mais do que suficientes para nos colocar diante dos olhos um verdadeiro quadro de "horrores". Se nos fosse possível "torcer" as Escrituras, por assim dizer, teríamos o Preciosíssimo Sangue de Cristo escorrendo de suas páginas.

Ao longo da história da Igreja, no entanto, algumas pessoas também receberam, em continuidade com o "depósito da fé", revelações privadas sobre a Paixão do Senhor. Esse quadro de Nicolau Enríquez, por exemplo, foi feito a partir da obra La mística Ciudad de Dios, de Maria de Jesus de Ágreda. À parte a santidade de sua vida (Maria de Ágreda é ainda venerável) ou a ortodoxia de seus escritos (que alguns põem em questão), é impossível ler o que escreve essa monja sem se comover:

Por ordem, de dois a dois, o açoitaram com tão inaudita ferocidade que, humanamente, não se poderia cogitar, se Lúcifer não tivesse dominado o ímpio coração daqueles seus agentes.

Os dois primeiros açoitaram o inocentíssimo Senhor com cordas muito retorcidas, duras e grossas, empregando neste sacrilégio toda a raiva de sua indignação, e a força de seus músculos. Estes primeiros açoites cobriram todo o corpo deificado de nosso Salvador de grandes manchas roxas e vergões. Ficou entumecido, desfigurado, com o preciosíssimo sangue à flor da pele.

Cansados estes algozes, entraram em cena os dois seguintes. Com correias duríssimas continuaram a flagelação que abriu as esquimoses e vergões feitos pelos primeiros. O sangue divino rebentou, molhou todo o sagrado corpo de Jesus, salpicou as vestes dos sacrílegos esbirros e escorreu até o solo.

Retiraram-se estes verdugos para dar lugar aos terceiros que se serviram de novos flagelos de nervos de animais, quase tão duros como vime seco. Açoitaram o Senhor com maior crueldade, pois feriam nas próprias feridas que os primeiros tinham feito, e porque eram ocultamente instigados pelos demônios enfurecidos com a paciência de Cristo.

Estando rasgadas as veias do sagrado corpo, e todo ele uma só chaga, não encontraram os terceiros verdugos nenhuma parte sã para abrir outras.

Persistindo nos desumanos golpes, rasgaram a imaculada e virginal carne de Cristo nosso Redentor, caindo no solo muitos pedaços. Em muitos pontos das costas os ossos ficaram a descoberto, manchados pelo sangue, alguns na extensão de um palmo.

Para apagar totalmente aquela beleza que excedia a de todos os filhos dos homens (cf. Sl 44, 3), açoitaram-lhe o divino rosto, os pés e as mãos, sem deixar lugar por ferir, até onde puderam desafogar o furor e ódio que haviam concebido contra o inocentíssimo Cordeiro. O divino sangue correu pelo solo, acumulando-se em diversas poças.

Os golpes que lhe deram nos pés, nas mãos e na divina face, foram extremamente dolorosos, por serem estas partes mais nervosas, sensíveis e delicadas. A venerável face ficou entumecida e chagada até cegar os olhos pelo sangue e pelo inchaço. Além de tudo isto, cobriram-na de cusparadas imundíssimas que lhe lançaram juntamente com os golpes, fartando-o de opróbrios.

O número exato dos açoites recebidos pelo Salvador foi cinco mil cento e quinze, desde a planta dos pés até a cabeça. O grande Senhor e autor de toda a criatura, impassível por sua natureza divina, na condição de nossa carne ficou, por nosso amor, transformado em homem de dores, conforme a profecia de Isaías (53, 3), bem capacitado na experiência de nossas enfermidades, o último dos homens, reputado pelo desprezo de todos. [1]

É interessante como essas minúcias coincidem com as revelações de mesma natureza recebidas pela Beata Anna Catarina Emmerich — das quais Mel Gibson lançou mão para filmar "A Paixão de Cristo". Ainda que não devam necessariamente ser aceitas como de fé católica, o Catecismo esclarece, com sabedoria, que "o sentir dos fiéis sabe discernir e guardar o que nestas revelações constitui um apelo autêntico de Cristo ou dos seus santos à Igreja" (§ 67). Artistas como Mel Gibson e como Nicolau Enríquez, inspirados por esse " sentire cum Ecclesia", souberam fazer muito bem, com as obras que produziram, um verdadeiro chamado à conversão e à penitência. Se este não for um "apelo autêntico de Cristo" à sua Igreja, especialmente nestes tempos tenebrosos que atravessamos, nenhum outro é.

Por que retratar com tanta crueza, então, a Paixão de nosso Salvador? Em primeiro lugar, porque foi assim que tudo aconteceu. As Escrituras o atestam e as palavras dos místicos o confirmam, não há por que duvidar.

Uma segunda razão precisa ser levada em conta, porém, e ela diz respeito a nós. É conveniente contemplarmos Jesus assim, sobre "um charco de sangue" e com as "costas totalmente descarnadas", para nos lembrar a gravidade do nosso pecado. Sim, porque foram os nossos pecados — os pecados de todos os homens, de todas as épocas —, os meus pecados — as faltas que eu tenho cometido —, a causa de tanto sofrimento; a causa de o Sangue de Deus ter sido tão abundantemente derramado!

E, se é assim, se Cristo morreu de forma tão terrível — como Nicolau Enríquez pintou ou como Mel Gibson dramatizou —, então os nossos pecados têm uma dimensão que ainda não somos capazes de precisar adequadamente. Se foi por causa de nossas blasfêmias, de nossas impurezas e de nossa preguiça que morreu Jesus… em que grande erro incorrem aqueles que tratam o pecado como uma trivialidade! Se o preço de nossa libertação é o Sangue caríssimo de um Deus — de dignidade infinita —, com que cuidado deveríamos evitar o pecado e com que lágrimas de arrependimento não deveríamos chorar os que já cometemos! Se as carnes de Cristo foram arrancadas para nos salvar, a ponto de deixar expostos os seus ossos…!, com que cuidado não devemos zelar por conservar a nossa alma em estado de graça! Sic nos amantem — canta um hino de Natal — quis non redamaret? A quem nos amou tanto assim, como não amar de volta?

Seja este, portanto, o nosso principal objetivo nesta vida: corresponder ao amor apaixonado de Deus, que chega a fazer-se homem e derramar o próprio Sangue para ver-nos consigo, um dia, no Céu. Se até aqui temos sido inconstantes na vida da graça, mornos em nossa conduta, relapsos em nossos exames de consciência, é hora de reagirmos! Ouçamos enfim a voz do Sangue mais eloquente que o de Abel (cf. Hb 12, 24), e clamemos por misericórdia:

Sangue de Jesus, manando abundante na flagelação,
salvai-nos!

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referência

  1. Soror Maria de Ágreda. Mística cidade de Deus (trad. brasileira de Irmã Edwiges Caleffi), t. 3, l. 6, c. 20, n. 1339-1340. 2. ed. Ponta Grossa, Mosteiro Portaceli, 2000, p. 353.

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Ladainha em honra ao Preciosíssimo Sangue de Cristo

Neste mês de julho, especialmente dedicado ao Sangue de Cristo, aprenda a rezar a litania em honra à preciosíssima seiva que nos conquistou a salvação.

O texto desta litania em honra ao Preciosíssimo Sangue de Cristo foi composto pela Sagrada Congregação dos Ritos — hoje, Congregação para o Culto Divino — e promulgada pelo Papa João XXIII no dia 24 de fevereiro de 1960. A sua forma é mais antiga, na verdade, pois textos similares podem ser encontrados em livros de orações do início do século XX. Aos fiéis que a recitarem devotamente concede-se indulgência parcial. Para acessar a versão latina da oração, clique aqui.

Senhor, tende piedade de nós.
Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós.

Jesus Cristo, ouvi-nos.
Jesus Cristo, atendei-nos.

Deus Pai dos céus, tende piedade de nós.
Deus Filho, redentor do mundo tende piedade de nós.
Deus Espírito Santo, tende piedade de nós.
Santíssima Trindade, que sois um só Deus, tende piedade de nós.

Sangue de Cristo, Sangue do Filho Unigênito do Eterno Pai, salvai-nos.
Sangue de Cristo, Sangue do Verbo de Deus encarnado, salvai-nos.
Sangue de Cristo, Sangue do Novo e Eterno Testamento, salvai-nos.
Sangue de Cristo, correndo pela terra na agonia, salvai-nos.
Sangue de Cristo, manando abundante na flagelação, salvai-nos.
Sangue de Cristo, gotejando na coroação de espinhos, salvai-nos.
Sangue de Cristo, derramado na cruz, salvai-nos.
Sangue de Cristo, preço da nossa salvação, salvai-nos.
Sangue de Cristo, sem o qual não pode haver redenção, salvai-nos.
Sangue de Cristo, que apagais a sede das almas e as purificais na Eucaristia, salvai-nos.
Sangue de Cristo, torrente de misericórdia, salvai-nos.
Sangue de Cristo, vencedor dos demônios, salvai-nos.
Sangue de Cristo, fortaleza dos mártires, salvai-nos.
Sangue de Cristo, virtude dos confessores, salvai-nos.
Sangue de Cristo, que suscitais almas virgens, salvai-nos.
Sangue de Cristo, força dos tentados, salvai-nos.
Sangue de Cristo, alívio dos que trabalham, salvai-nos.
Sangue de Cristo, consolação dos que choram, salvai-nos.
Sangue de Cristo, esperança dos penitentes, salvai-nos.
Sangue de Cristo, conforto dos moribundos, salvai-nos.
Sangue de Cristo, paz e doçura dos corações, salvai-nos.
Sangue de Cristo, penhor de eterna vida, salvai-nos.
Sangue de Cristo, que libertais as almas do Purgatório, salvai-nos.
Sangue de Cristo, digno de toda a honra e glória, salvai-nos.

Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, perdoai-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, ouvi-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, tende piedade de nós, Senhor.

V. Remistes-nos, Senhor com o Vosso Sangue.
R. E fizestes de nós um reino para o nosso Deus.

Oremos:
Todo-Poderoso e Eterno Deus, que constituístes o Vosso Unigênito Filho, Redentor do mundo, e quisestes ser aplacado com o seu Sangue, concedei-nos a graça de venerar o preço da nossa salvação e de encontrar, na virtude que Ele contém, defesa contra os males da vida presente, de tal modo que eternamente gozemos dos seus frutos no Céu. Pelo mesmo Cristo, Senhor nosso. Assim seja.