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Três meios para chegar à verdadeira humildade

A humildade é como o cimento que sustenta a base de um edifício; sem ela, é impossível manter-se de pé na vida espiritual.

Um dos obstáculos mais graves à vida de oração é a soberba. Esse vício, definido pelos manuais de ascética como um apetite desordenado pela própria excelência, costuma aparecer muito entre os principiantes na intimidade com Deus. O demônio os incita a um falso fervor tão grande a ponto de eles se acharem melhores e superiores aos outros. E, quando veem essa suposta superioridade ameaçada pela virtude de um amigo ou pessoa qualquer, não perdem a oportunidade para murmurar contra seus êxitos e obras.

A Igreja recomenda vivamente às vítimas desse mal o remédio da humildade. Em seus manuais, o Padre Antonio Royo Marín trata-a como "uma virtude derivada da temperança, que nos inclina a coibir ou moderar o desordenado apetite da própria excelência, dando-nos o justo conhecimento de nossa pequenez e miséria principalmente com relação a Deus" [1]. Embora não seja a maior de todas as virtudes, ela é fundamental para o progresso na santidade, pois coloca o sujeito no caminho da verdade e da justiça.

É humilde, portanto, aquele que tem conhecimento pleno de si mesmo e sabe perfeitamente que dele não pode sair nada de bom, a não ser que Deus o permita. "A verdade nos autoriza ver e admirar os bens naturais e sobrenaturais que Deus quis depositar em nós; mas a justiça nos obriga a glorificar não a beleza de uma paisagem contemplada em uma pintura, e sim o artista que a pintou", exemplifica o Padre Royo Marín [2]. Pode-se pensar também no testemunho do então Cardeal Joseph Ratzinger, ao apresentar-se pela primeira vez como Papa na sacada da Basílica de São Pedro: um "pobre e humilde servo da vinha do Senhor", que se sentia consolado por considerar que "Deus sabe trabalhar com instrumentos insuficientes".

A humildade é necessária sobretudo para remover os obstáculos naturais à graça: " Deus resiste aos soberbos, mas concede a graça aos humildes" (Tg 4, 6). De fato, Santa Teresa tem razão quando compara essa virtude ao cimento que sustenta todo o edifício espiritual. Por isso, sem desconsiderar o seu grau de dificuldade, os aspirantes à santidade devem se esforçar por serem humildes, andando sempre pelas vias da verdade e da justiça.

O Padre Royo Marín indica três principais "meios para se chegar à verdadeira humildade". Ei-los abaixo.

1. Pedir incessantemente a Deus

Como todo dom de Deus, a humildade também é uma graça que somente Ele pode conceder aos que a desejam e lha suplicam. Há uma ladainha escrita pelo Cardeal Merry del Val, Secretário de Estado de São Pio X, que pode ser recitada todos os dias nesta intenção:

Jesus, manso e humilde de coração, ouvi-me.
Do desejo de ser estimado, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser amado, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser conhecido, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser honrado, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser louvado, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser preferido, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser consultado, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser aprovado, livrai-me, ó Jesus.

Do receio de ser humilhado, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser desprezado, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de sofrer repulsas, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser caluniado, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser esquecido, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser ridicularizado, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser infamado, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser objeto de suspeita, livrai-me, ó Jesus.

Que os outros sejam amados mais do que eu, Jesus, dai-me a graça de desejá-lo.
Que os outros sejam estimados mais do que eu, Jesus, dai-me a graça de desejá-lo.
Que os outros possam elevar-se na opinião do mundo, e que eu possa ser diminuído, Jesus, dai-me a graça de desejá-lo.
Que os outros possam ser escolhidos e eu posto de lado, Jesus, dai-me a graça de desejá-lo.
Que os outros possam ser louvados e eu desprezado, Jesus, dai-me a graça de desejá-lo.
Que os outros possam ser preferidos a mim em todas as coisas, Jesus, dai-me a graça de desejá-lo.
Que os outros possam ser mais santos do que eu, embora me torne o mais santo quanto me for possível, Jesus, dai-me a graça de desejá-lo.

2. Pôr os olhos em Jesus Cristo, modelo incomparável de humildade

O Padre Royo Marín recorda que foi o próprio Cristo quem "nos convidou a pôr os olhos n'Ele, quando nos disse com tanta suavidade e doçura: 'sede discípulos meus, porque sou manso e humilde de coração' ( Mt 11, 29)" [3]. Desse modo, o grande teólogo da vida interior indica quatro pontos sobre Cristo como temas para nossa meditação:

  1. a vida oculta, quando Ele se humilhou no seio da Virgem Maria e se fez Filho de um simples carpinteiro;
  2. a vida pública, com sua dedicação aos pobres e serviço aos mais simples;
  3. a paixão, ocasião em que lavou os pés dos discípulos e deixou-se ser humilhado e açoitado pela nossa salvação; e
  4. a Eucaristia, ápice de sua entrega com o ocultamento também da natureza humana, e por todas as descortesias e ofensas que aceita no Sacrário.

3. Esforçar-se por imitar Maria, Rainha dos humildes

Finalmente, o Padre Royo Marín recorda o modelo daquela que sempre se considerou a pobre e humilde escrava do Senhor. "Apenas fala, não chama a atenção em nada, se dedica às tarefas mais próprias de uma mulher no pobre casebre de Nazaré, aparece no calvário como mãe do grande fracassado…" Estas são apenas algumas das características lembradas pelo padre para apresentar a humildade de Nossa Senhora. Assim, afirma que "sob seu olhar maternal a alma há de praticar a humildade de coração para com Deus, para com o próximo e para consigo mesma" [4].

Essas são dicas valiosas do Padre Royo Marín que devem urgentemente ser colocadas em prática por todo fiel cristão. O orgulho, mais do que os pecados contra a castidade, ofendem diretamente o Coração de Jesus, pois demonstram uma atitude de altivez em relação à Providência divina. Lembrem-se que o demônio não pecou contra o sexto mandamento, mas contra o primeiro. De nada adianta ser puro como um anjo, mas soberbo como um diabo [5].

Busquemos, portanto, a humildade para que todas as nossas outras virtudes brilhem ainda mais pela graça de Deus.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Notas e Referências

  1. A. Royo Marín, Ser ou Não Ser Santo: Eis a Questão. Trad. port. de Ricardo Harada. Campinas: Ecclesiae, 2016, p. 274.
  2. Id., p. 277.
  3. Id., 280.
  4. Id., 283.
  5. Vale a pena destacar que, embora a Virgem de Fátima tenha alertado com especial atenção contra os "pecados da carne" — e o próprio Santo Tomás reconheça "que o diabo alegra-se muito com a luxúria porque este pecado é de adesão extrema", sendo "difícil ao homem livrar-se dele" (S. Th. I-II, q. 73, a. 5, ad 2) — é a soberba, e não a impureza sexual, o mais grave de todos os pecados (cf. S. Th., II-II, q. 162, a. 5).

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Como cultivar amizades santas?

A amizade é um grande dom para o ser humano, mas se não for vivida pelo motivo correto, pode transformar-se em um vício perigoso para a caminhada espiritual. Aprenda a cultivar verdadeiras amizades com dois santos da Igreja Antiga.

No caminho da santidade, os cristãos são chamados a progredir continuamente no amor a Deus. Esse progresso consiste numa espécie de segunda conversão, em que a pessoa, fortalecida pelas virtudes infusas, começa a enxergar o Senhor não mais com o olhar do servo, mas do amigo. Jesus deseja estar ligado a nós por um vínculo de amizade, como se percebe neste discurso d'Ele aos apóstolos: "Non iam servos, sed amicos – Já não vos chamo servos, mas amigos" (Jo 15, 15).

A amizade (do grego philia) é uma das quatro formas de amor. Os homens podem amar de maneira erótica, familiar, fraterna e abnegada. Embora essas quatro dimensões não existam sozinhas — ao contrário, necessitam uma das outras para que não se transformem em ídolos —, cada uma possui características próprias, as quais colaboram para o desenvolvimento de alianças duradouras e íntimas. A amizade, ou caridade fraterna, distingue-se pelo amor ao outro, cujo efeito ultrapassa as barreiras sanguíneas. Aquele que poderia ser chamado de estranho é amado fraternalmente, isto é, como se fosse um irmão.

Santa Teresa d'Ávila elenca a caridade fraterna, ao lado da pobreza e da humildade, como uma das três colunas fundamentais do edifício espiritual. Não é difícil de entender agora o porquê deste ensinamento. Precisamos da amizade para que tenhamos intimidade com Deus, pois quem se relaciona com Ele apenas como servo não é capaz de perscrutar o Seu desejo mais profundo para os homens. O servo nunca se aproxima intimamente de seu senhor, ao passo que o amigo quer estar sempre na sua presença, a fim de dividir suas alegrias e preocupações.

Os santos souberam cultivar o dom da amizade em suas vidas, buscando a presença de Deus no coração de seus irmãos. E isso os motivou ainda mais a buscar a santidade. Bento XVI explica: "Quando se encontram duas almas puras e inflamadas pelo mesmo amor a Deus, elas haurem da amizade recíproca um estímulo extremamente forte para percorrer o caminho da perfeição" [1]. É o que testemunhamos na vida de São Francisco de Assis e Santa Clara, Santa Teresa d'Ávila e São João da Cruz, e tantos outros santos. Eles se amaram de maneira tão bela que se tornaram realmente um só espírito — para usar uma expressão de São Francisco de Sales [2] —, pelo que confirmaram a doutrina de Santo Tomás de Aquino: "A caridade é principalmente a amizade do homem com Deus, e com os seres que Lhe pertencem" [3].

É claro que nem todo tipo de amizade vem de Deus. Infelizmente, o pecado original deixou marcas profundas no ser humano e mesmo um dom nobre como a amizade pode degenerar-se em vício perigosíssimo para alma, se não for purificado pela ação divina. E não estamos falando aqui das más companhias. Estas, como insiste Santa Teresa, nem devem ser mencionadas entre nós. Falamos daquelas grandes amizades que, apesar de serem frutíferas no início, confundem-se com apego afetivo, e se convertem em verdadeiros obstáculos na caminhada espiritual, quando não vividas pelo motivo correto. As duas almas tornam-se dependentes, em um vínculo de senhor e escravo. Não demora muito para que a amizade se transforme em rivalidade.

A reta prudência exige, portanto, que façamos uma sadia distinção entre o amor meramente humano e o amor sobrenatural, a fim de que a amizade verdadeira habite em nossos corações. Santa Teresa faz essa distinção pela observação de como reagem aqueles que amam humanamente e aqueles que amam com amor divino diante do sofrimento de um amigo. Os primeiros, constata a santa, perdem logo a paciência: "Se lhe dói a cabeça [à pessoa amada], parece que nos dói a alma" [4]. Os segundos, por sua vez, veem as provações dos amigos através dos olhos da eternidade, entendendo que cada "tribulação momentânea acarreta para nós um volume incomensurável e eterno de glória" (2 Cor 4, 17).

Eis aí. Os verdadeiros amigos preocupam-se, em primeiro lugar, com a salvação das almas. Eles desejam encontrar-nos no Céu juntamente com Deus, a Virgem Maria, os santos e os anjos. É neste tipo de amizade sobrenatural que tem espaço a chamada correção fraterna. Trata-se de uma preocupação que tem por objeto não somente o bem-estar físico e emocional da pessoa; o amigo preocupa-se sobretudo com a vida da graça, exortando e empurrando seus companheiros de caminhada para a jornada da vida eterna.

Ademais, é preciso ter consciência de que tal tipo de amizade só é possível dentro de um contexto de fé madura, pois aquele que procura amar sobrenaturalmente deve estar preparado para o desprezo e as incompreensões. É possível que aquele que ama não seja correspondido pelo amado. Por isso, exige-se do amante que procure cultivar as amizades pelo motivo certo, de maneira que essa amizade seja alimentada pelo amor abnegado (do grego ágape), o qual provém totalmente de Deus. Aquele que se sabe amado por Deus não teme ser ignorado pelos outros; ama-se a Deus no próximo ainda que não haja o retorno deste, pois já se possui o Amor verdadeiro.

A Igreja celebra no dia 2 de janeiro a memória litúrgica de dois grandes santos, cujo testemunho de amizade e cooperação recíproca causou grande impacto na história do cristianismo: São Basílio Magno e São Gregório Nazianzeno. Unidos pela fé, pela esperança e pela caridade, os chamados padres capadócios — dentre os quais também se inclui São Gregório de Nissa, irmão de São Basílio — venceram a praga do arianismo, fazendo triunfar a doutrina católica no Concílio de Constantinopla. A São Basílio e São Gregório só interessava uma coisa: a conquista da coroa do Céu. Nesta árdua missão, dizia São Gregório sobre o amigo, "ambos lutávamos, não para ver quem tirava o primeiro lugar, mas para cedê-lo ao outro. Cada um considerava como própria a glória do outro", pois eles eram "como uma só alma em dois corpos". São particularmente tocantes estas palavras do santo de Nazianzo:

"A única tarefa e objetivo de ambos era alcançar a virtude e viver para as esperanças futuras, de tal forma que, mesmo antes de partirmos desta vida, tivéssemos emigrado dela. Nesta perspectiva, organizamos toda a nossa vida e maneira de agir. Deixamo-nos conduzir pelos mandamentos divinos estimulando-nos mutuamente à prática da virtude. E, se não parecer presunção minha dizê-lo, éramos um para o outro a regra e o modelo para discernir o certo e o errado" [5].

É este o tipo de amizade à qual estamos, todos nós, chamados a cultivar em nossas relações com os demais. Uma amizade enraizada em Cristo, para cuja Pessoa caminhamos na certeza de que a única felicidade encontra-se na vida eterna.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Bento XVI, Audiência Geral (15 de setembro de 2010).
  2. Introdução à vida devota, III, 19.
  3. Suma Teológica, II-II, q. 23, a. 1.
  4. Caminho de Perfeição, VII, 2.
  5. Oratio 43, in laudem Basilii Magni, 15, 16-17. 19-21 (PG 36, 514-523).

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A noite escura da humanidade

Conheça o testemunho de Santa Teresa Benedita da Cruz, que abandonou o mundo acadêmico para confessar a paixão de Cristo no silêncio do Carmelo.

A “noite escura da alma", uma espécie de deserto espiritual onde se experimenta o silêncio de Deus, é um tema muito frequente nas meditações dos santos da Igreja. Santa Teresa d'Ávila, a título de exemplo, diz que é próprio de quem se dedica à vida espiritual passar por uma derradeira provação de fé [1]. Trata-se de uma purificação dos sentidos e da alma, cujo objetivo principal é a total comunhão com Deus. A pessoa já não busca outra coisa senão tomar parte nas dores de Cristo crucificado, a fim de cooperar na obra da redenção.

A esse respeito, talvez não exista maior testemunho no último século do que o de Edith Stein. Entregando-se em holocausto pela salvação de seu povo, no campo de concentração de Auschwitz, a santa judia realizou na carne o que há tempo professava com os lábios: “o que nos salvará não serão as realizações humanas, mas a paixão do Cristo, na qual quero ter parte" [2]. Edith Stein havia compreendido a ciência da cruz, por assim dizer, buscando o significado da verdade [3]. Neste itinerário, a então filósofa ateia – e famosa discípula de um dos mais respeitados pensadores do século XX, Edmund Husserl – encontrou por acaso, na biblioteca de uma amiga, o Livro da Vida, de Santa Teresa. A leitura foi tão tocante, que ao seu término, Edith só pôde confessar isto: “é a verdade" [4]. A partir de então, Edith Stein lançou-se avidamente à procura de seu Amado: abandonou a vida acadêmica, para viver a espiritualidade carmelita, assumindo o nome de Teresa Benedita da Cruz. A 2 de agosto de 1942, foi brutalmente levada pelos nazistas ao campo de trabalho forçado, onde morreria como mártir, ao lado de sua irmã, Rosa.

Aos olhos do mundo moderno, um testemunho como o de Stein pode parecer loucura. Todavia, a sua heroicidade fala mais alto do que qualquer vileza. O encontro com Cristo gera uma mudança no íntimo de nosso ser – uma metanoia – que nos impulsiona a não mais satisfazer a própria vontade; pelo contrário, “aquele que visita o Senhor na sua Casa não falará sempre de si, nem de suas mesquinhas preocupações. Começará, aos poucos, a interessar-se pelas preocupações do Salvador", a saber, a salvação do homem [5]. Essa salvação, por sua vez, só pode ocorrer no martírio diário, na noite escura da fé. Por isso Santa Teresa Benedita da Cruz, na noite escura de Auschwitz – onde a potência de Deus parecia inerme e a sua Palavra parecia muda – caminhava serena e convicta, apesar dos sofrimentos, como se estivesse a emprestar de São Josemaría Escrivá esta sua esperança: “cada dia que passa me aproximo da Vida" [6].

De fato, os santos estão longe de ser esse “fantasma que ficou petrificado – em posição quase sempre incômoda – num nicho, rodeado de velhotas de pele encarquilhada", como tendem a pensar as almas deformadas deste século [7]. Pelo contrário, os santos são homens que sabem unir a vida cotidiana à vida sobrenatural, dando um significado divino às coisas simples do dia a dia, mormente nos períodos de angústia e solidão. Edith Stein uniu seu martírio ao sacrifício da cruz não por idealismo ou mera conveniência, porquanto “ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento" [8]. Ela simplesmente interpretou os sinais dos tempos. Não deixou de erguer a sua voz contra o nazismo, incentivando seus alunos e suas irmãs a lutarem contra a opressão do Terceiro Reich. Com efeito, diante do drama da dor, pôde repetir sem hesitação as palavras de Cristo na cruz: “tudo está consumado" [9].

A quase 70 anos do término da II Grande Guerra, vê-se mais uma vez o desenvolvimento de um paganismo selvagem, “um ateísmo militante operando em plano mundial", tal qual aquele que vitimou Edith Stein [10]. No seio da Igreja, não obstante, assiste-se a uma desertificação desenfreada da fé, que atinge as mais altas esferas da hierarquia. O cristianismo vive cercado “por uma névoa de incerteza mais pesada do que em qualquer outro momento da história" [11]. A humanidade, por conseguinte, entra em uma noite escura. Resta-nos, então, a pergunta de Bento XVI, feita perante o memorial das vítimas do Holocausto, em Auschwitz: “Onde está Deus? Por que Ele silenciou? Como pôde tolerar este excesso de destruição, este triunfo do mal?" [12] É uma questão que se nos impõe, e que só pode ser feita por aqueles que têm fé. Edith Stein teve a sua resposta, doando-se inteiramente até àquele instante em que “não haverá mais noite" [13]. É o caminho que todos devemos percorrer: o caminho das noites escuras até àquela “que é diferente de todas as outras" – a noite da salvação!

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Padre Paulo Ricardo, Esforçai-vos para entrar pela porta estreita, Parresía n. 63.
  2. MIRIBEL, Elisabeth de. Edith Stein: como ouro purificado pelo fogo. 4 ed. Aparecida: Editora Santuário, 1998, pág. 63.
  3. A Ciência da Cruz é o título do livro que Edith Stein escreveu a respeito da doutrina ascética de São João da Cruz. Disponível em: Livraria Loyola.
  4. MIRIBEL, Elisabeth de. Edith Stein: como ouro purificado pelo fogo. 4ed. Aparecida: Editora Santuário, 1998, pág. 64.
  5. Ibidem, pág. 148.
  6. ESCRIVÁ, Josemaria. Caminho. São Paulo: Quadrante, 2009 , n. 737.
  7. URTEAGA, Jesus. O valor divino do humano.São Paulo: Quadrante, pág. 18.
  8. Bento XVI, Carta Enc. Deus Caritas Est (25 de dezembro de 2005), n. 1.
  9. Jo 19, 30.
  10. João XXIII, Constituição Apostólica Humanae salutis (25 de Dezembro de 1961).
  11. Bento XVI, Discurso do Santo Padre durante a visita ao Campo de Concentração de Auschwitz-Birkenau (28 de maio de 2006).
  12. RATZINGER, Joseph. Introdução ao Cristianismo. São Paulo: Loyola, 2001.
  13. Cfr. Ap. 22, 4-5.

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Novena de Pentecostes 3º dia - As virtudes já estão em nós

Quando estamos em estado de graça, as virtudes infusas estão em nosso organismo sobrenatural, ainda que não “as sintamos”

Nesta novena, estamos vendo por que precisamos pedir o Espírito Santo. Antes, no entanto, refletimos sobre o que Ele já fez dentro de nós. Pelo Batismo, ganhamos d'Ele um “organismo espiritual", que nos permite realizar atos acima de nossa natureza. Hoje, vamos analisar mais de perto este organismo.

Existem dentro de nosso organismo sobrenatural duas coisas: asvirtudes infusas e os dons do Espírito Santo. Assim como um barco sem remos nem velas é levado pela correnteza, o nosso organismo, sem as virtudes infusas – que são como os remos – e sem os dons do Espírito – que são como as velas – seguem correnteza abaixo, rumo ao egoísmo e à autodestruição.

Quando estamos em estado de graça, as virtudes estão em nosso organismo, ainda que não as vejamos – e não é possível que as vejamos, pois se tratam de hábitos. Assim como o fato de dormirmos não nos tira os hábitos que possuímos – como a habilidade em tocar piano –, quando saímos do confessionário, as virtudes estão em nosso coração, em estado de graça habitual. Não basta, porém, que se tenha o amor em hábito; é preciso que ele passe ao ato – por isso se pede a Deus a graça atual.

Nos próximos dias da novena, falaremos com mais detalhes sobre como fazer esses atos de virtude, mas, primeiro, é preciso entender como tudo funciona. Muitas pessoas desistem de progredir na vida espiritual porque não se veem capazes de amar. Embora por nossa própria natureza realmente não o sejamos, Deus capacita-nos pelos sacramentos do Batismo e da Reconciliação. Os remos já estão conosco! Foi Deus mesmo quem no-los deu.

É claro que as virtudes requerem de nós força e ação, como já foi dito. Só depois de colocá-las em ato é possível ir estendendo as velas de nosso barco, que são os dons do Espírito. A dinâmica destes é um pouco diferente do que acontece com as virtudes: enquanto os remos, mesmo dados por Deus, precisam de nossa ação para produzirem efeito, as velas agem pelo sopro do Espírito, precisando tão somente de nossa disponibilidade para conduzirem o nosso barco.

Por isso, precisamos pedir o Espírito Santo. Que Ele venha recriar em nós a graça de Deus e manter vivo o nosso organismo espiritual.

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O que os hobbits têm a ensinar-nos

A julgar pelo processo de desmoralização por que passa a sociedade brasileira, em que o vício e a maldade se arvoram em grandes virtudes, a leitura de "O Hobbit" não é somente um entretenimento, mas um verdadeiro exorcismo.

Há quem diga que o mundo está dividido entre aqueles que leram O Hobbit e O Senhor dos Anéis e aqueles que ainda não leram. Além de seu grande valor literário, a obra-prima de J. R. R. Tolkien tem o mérito de nos colocar diante dos grandes mistérios e dramas do ser humano. O Hobbit e O Senhor dos Anéis nos fazem penetrar no âmago de nossa alma. Não é à toa que, desde o seu lançamento, em 1937, o livro tenha se tornado um best-seller instantâneo, cativando públicos desde a mais tenra idade. E com a volta dos hobbits para os cinemas, após quase 10 anos da estreia de O Senhor dos Anéis, temos mais uma vez a chance de refletirmos sobre a nossa existência e vida interior.

O Hobbit é o primeiro livro da saga de elfos, anões, magos e outras criaturas estranhas inventados pelo escritor e filólogo Sir John Ronald Reuel Tolkien. A obra - que, assim como em O Senhor dos Anéis, se passa na Terra Média - mistura elementos da mitologia nórdica e greco-romana com a doutrina moral cristã. Apesar do título, o grande protagonista da história é a providência divina, que age silenciosamente em cada acontecimento. Embora não seja mencionado sequer uma vez, Deus está presente o tempo todo, como numa "brisa leve". E isso fica evidente desde os primeiros capítulos, em que o pequeno Bilbo Bolseiro se deixa persuadir pelo convite do mago cinzento Gandalf, partindo para uma aventura perigosa ao lado de anões e outros seres fantásticos. Como no chamado da vocação cristã, no início da jornada do hobbit Bilbo está "o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo." 01

Na mitologia de Tolkien, hobbits são criaturas pequenas muito parecidas com os seres humanos, embora "com cerca de metade de nossa altura, e menores que os anões barbados" 02. Eles andam descalços, têm pés grandes e peludos, mas não possuem barba. Bilbo Bolseiro, o hobbit da história, é um tipo incrivelmente pacato e discreto, considerado pelos de sua vizinhança como alguém muito respeitável, sobretudo porque nunca havia se metido em aventuras ou, como nos conta o narrador, "feito qualquer coisa inesperada"03. A sua casa era uma toca bastante confortável, com adegas, quartos e cozinhas, onde Bilbo habitualmente se assentava para fumar seus cachimbos. Não existiam novidades na vida daquele hobbit; "você podia saber o que um Bolseiro diria sobre qualquer assunto sem ter o trabalho de perguntar a ele"04. Isso tudo só havia de mudar no momento em que Gandalf o convidasse para participar de uma jornada, a fim de libertar o ouro dos anões, aprisionado pelo terrível dragão Smaug.

Ao longo da narrativa, Tolkien traça um quadro de evolução do caráter do personagem, que culminará numa grande renúncia para Bilbo Bolseiro; uma renúncia que desencadeará uma série de acontecimentos inesperados, mas invisivelmente ordenados para o bem. O motor principal das forças do mal na história, que é nada mais que o orgulho e a avareza, acaba por ser vencido pela "humildade das menores criaturas desse mundo imaginário (os hobbits), cuja vida simples e marcada pela firmeza de carácter será o elemento explicativo da vitória do Bem contra Mal" 05. Nisso se desenvolve também, mesmo que de longe, a doutrina da comunhão dos santos. Os personagens que compõem a história são como que peças de uma grande engrenagem; há uma conexão entre seus atos, sejam eles vis ou bons, que influenciam de maneira decisiva no encaminhamento do mundo. Percebe-se, então, aquela providência divina mencionada anteriormente. Mesmo no momento mais trágico da história, ela consegue recolher aspectos bons de cada um, fazendo com que daquele grande mal saia um bem ainda maior.

A jornada do hobbit Bilbo Bolseiro pode ser devidamente interpretada como a jornada dos cristãos. Bilbo, um sujeito de hábitos previsíveis e calculados, de repente se lança a uma expedição duvidosa, acompanhado por um grupo de anões rabugentos e por um mago cheio de mistérios, sem garantias sólidas de que voltará vivo ou de que terá uma recompensa. Lança-se, porém, com uma certeza a princípio imatura, a qual poderíamos chamar de fé, que, vez ou outra, irá titubear frente aos desafios e às circunstâncias difíceis. Muitas vezes, o pequeno aventureiro se pegará lembrando de "sua terra, de coisas seguras e confortáveis, e a pequena toca de hobbit" 06. Mas o impulso da amizade e a graça de uma ação silenciosa, por assim dizer, o levará a renunciar a si mesmo, tomando para si a missão de lutar por seus amigos, mesmo que estes falhem e duvidem dele. Bilbo é tomado por uma firme decisão; uma decisão profunda que diz respeito a toda a estrutura da vida. Trata-se de uma história fascinante, na qual os limites da existência e as fraquezas dos companheiros - os pecados e defeitos da humanidade - são compensados pela confiança num bem maior - "ou seja, o Deus que está voltado para mim, uma certeza sobre a qual posso fundar minha vida, com a qual posso viver e morrer."07

Como foi dito pelo Padre Paulo Ricardo na aula sobre "O Senhor dos Anéis", não importa tanto o que você fará com esses livros, mas o que esses livros farão com você 08. A bem da verdade, julgando pelo processo de desmoralização pelo qual a sociedade passa, em que o vício e a maldade se arvoram em grandes virtudes, ao ponto de o público brasileiro fazer campanha por um "beijo gay" na novela, a leitura de O Hobbit não é somente um entretenimento; é um exorcismo. Tolkien, quando deu vida aos seres estranhos - mas não menos fantásticos - da Terra Média, talvez não pretendesse provocar o leitor em seus aspectos psicológicos e éticos, talvez não quisesse nos ensinar sobre pecado, paixão, morte e ressurreição - "Quis fazer isso para minha própria satisfação, e tinha alguma esperança de que outras pessoas ficassem interessadas nesse trabalho", escreveu Tolkien, certa vez.09 -, mas o fato é que o que vai em obras como O Hobbit, O Senhor dos Anéis e outros similares pode ser ainda mais evangélico que muita homilia. "E é justamente por ter assumido esses valores básicos, intrínsecos ao Cristianismo" - diz o especialista na literatura de Tolkien, Ives Gandra Martins Filho -, "que (J. R. R. Tolkien) conseguiu produzir uma obra de valor perene e de atractivo universal"10.

Os mitos têm a função de nos ensinar valores universais, transmitindo também o gosto pelo maravilhamento que há no mistério do mundo. Não é de pouca monta que outro escritor inglês tenha dado a um dos seus livros mais famosos um capítulo dedicado à "Ética da elfolândia". Em Ortodoxia, G. K. Chesterton diz que os contos de fadas lhe deram duas convicções: "primeiro, de que o mundo é um lugar fantástico e surpreendente; segundo, de que diante dessa loucura e prazer nós deveríamos ser modestos e submetermo-nos às estranhas limitações de uma bondade tão estranha." 11 De fato, a poesia dos elfos de Valfenda é um santo remédio contra o racionalismo dos romances modernos: "A imaginação não gera a insanidade. O que gera a insanidade é exatamente a razão. Os poetas não enlouquecem; mas os jogadores de xadrez sim"12. E é por isso que a leitura da obra de Tolkien constitui-se num elemento de razoabilidade e sanidade.

Em verdade, a história de um autêntico cristão é "a história de como um bolseiro teve uma aventura, e se viu fazendo e dizendo coisas totalmente inesperadas. Ele pode ter perdido o respeito dos seus vizinhos, mas ganhou - bem, vocês vão ver se ele ganhou alguma coisa no final." 13

Por Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Bento XVI, Carta enc. Deus caritas est (25 de Dezembro de 2005), 18: AAS 98 (2006), n. 1
  2. TOLKIEN, J.R.R. O Hobbit. 5ª Edição. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012, p. 2
  3. Ibidem, p. 2
  4. Ibidem, p. 2
  5. MARTINS FILHO, Ives Gandra. O Mundo do Sr. dos Anéis: Vida e Obra de J.R.R. Tolkien. Portugal: Publicações Europa-América, 2003, p. 19
  6. TOLKIEN, J.R.R. O Hobbit. 5ª Edição. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012
  7. RATZINGER, Joseph. O Sal da Terra: o cristianismo e a Igreja Católica no sécula XXI: um diálogo com Peter Seewald / Joseph Ratzinger. Rio de Janeiro: Imago Ed., 2005
  8. O Senhor dos Anéis
  9. TOLKIEN, J.R.R. O Senhor dos Anéis. 6ª Edição. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012, p. XIII
  10. MARTINS FILHO, Ives Gandra. O Mundo do Sr. dos Anéis: Vida e Obra de J.R.R. Tolkien. Portugal: Publicações Europa-América, 2003, p. 20
  11. CHESTERTON, Gilbert Keith. Ortodoxia. São Paulo: Mundo Cristão, 2008, p. 97
  12. Ibidem, p. 30
  13. TOLKIEN, J.R.R. O Hobbit. 5ª Edição. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012, p. 2

| Categorias: Espiritualidade, Sociedade

O heroísmo que nasce na cruz

O cristianismo inaugurou um novo modelo de heroísmo, transformando a cruz do dia a dia na coroa da santidade.

O heroísmo é uma categoria social antiga. Considera-se herói, segundo a definição de Paul Johnson, aquele cuja vontade se sobrepõe à opinião pública, agindo com coragem e decisão, mesmo nas situações mais adversas; independentemente das consequências. Na antiguidade, estava atrelado às personalidades austeras e habilidosas no uso da força. Compaixão, altruísmo e generosidade não faziam parte de seu itinerário. Ao contrário, os que nutriam essas virtudes eram vistos com desdém; considerados fracos. Neste panteão de heróis incluiam-se Alexandre Magno e o imperador Júlio César, verdadeiros mestres da guerra.

A tradição judaico-cristã deu nova vitalidade ao heroísmo. Com a resistência do povo hebreu, sobretudo no combate aos impérios inimigos, a civilização pôde conhecer a figura de um novo modelo de herói: o mártir. Mas foi somente no cristianismo que o martírio se tornou sinônimo de santidade, a começar pela morte de Santo Estevão - entregando sua vida com total resignação diante dos algozes que o apedrejavam - até o fuzilamento de São Maximiliano Kolbe, morto num campo de concentração nazista.

Com efeito, enquanto no paganismo o herói é desprovido de caráter, no cristianismo, é cheio de virtudes humanas e teologais. O resultado dessa mudança notabilizou-se principalmente na cultura, porquanto para o herói cristão "maneiras corteses, hospitalidade, proteção a menestréis, poetas e artesões; acima de tudo, respeito às mulheres"01 eram características fundamentais. Essa soma de virtudes e espírito de martírio deu origem a uma plêiade de mulheres e homens santos, cujo principal combate era a conquista do céu.

Os santos são os heróis por excelência. Em cada um deles encontra-se a virtude heróica do Servo de Deus, que aponta o caminho da salvação para o resto dos homens. Em São Pedro, a humildade para arrepender-se, pedir perdão a Cristo e, de cabeça para baixo - a fim de não se comparar ao Senhor -, terminar crucificado. Em Santa Bakhita, a esperança do escravo que, apesar dos maus patrões, sabe depender exclusivamente da providência divina, testemunhando-a dia a dia, nas suas tarefas ordinárias. Em João Paulo II, a fé do pastor que, na amargura do sofrimento, consegue levar com coragem a mensagem de Deus, encarnando exemplarmente o autêntico espírito cristão. E finalmente em Maria, a simplicidade da serva do Senhor que glorificou "mais Deus pela mínima das suas obras (por exemplo: fiar na sua roca ou dar alguns pontos de costura com agulha), do que São Lourenço pelo cruel martírio que sofreu na grelha e mesmo do que todos os santos pelas suas mais heróicas ações"02, mostrando que o verdadeiro heroísmo se constrói na vida cotidiana, não em grandes espetáculos públicos.

No cristianismo não se nasce herói, torna-se. É um processo diário, de entrega constante, desapegando-se do mundo e da vaidade que nele se encontra. Consiste em fazer-se crucificado com Cristo a qualquer momento, em qualquer lugar; não somente em ocasiões especiais. Até porque "quantos se deixariam cravar numa cruz perante o olhar atônito de milhares de espectadores, e não sabem sofrer cristãmente as alfinetadas de cada dia!"03 Há mais heroísmo no rapaz que acorda sempre no mesmo horário, cumprindo todas as suas obrigações e normas de piedade, que no uso do cilício por alguém incapaz de estudar e realizar suas tarefas costumeiras. Nem todo martírio é de sangue!

Mas, dada essa exigência, ainda há espaço no mundo de hoje para o heroísmo cristão?

Aparentemente, não! A sociedade moderna carece de autênticas figuras heroicas, porque a virtude saiu de moda. O heroísmo foi substituído pelo mau caratismo, pela parvoíce de alguns celerados, que acham que fazem muito gritando algumas frases de efeito em frente a uma repartição pública ou coisa do gênero. O rosto estampado de um assassino como Che Guevara na camisa de um adolescente demonstra o vazio - tanto moral, quanto intelectual - desta civilização.

Mais do que nunca, "o mundo precisa de vidas limpas, de almas claras, de inteligências simples"04, que estejam dispostas a renunciar às ideologias, apoiando-se firmemente na providência divina, para empenhar mutuamente as suas vidas, suas fortunas e a sagrada honra pela santidade cristã. O reino de Deus é dos violentos, por isso, o "cristão pode viver com a segurança de que, se tiver desejos de lutar, Deus o pegará pela mão direita"05.

É na cruz que nascem os heróis, é no céu que habitam os santos.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. JOHNSON, Paul. Os heróis. Ed. Campus.
  2. Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, n. 222
  3. Caminho, n. 204
  4. Homilia de Canonização de São Frei Galvão
  5. É Cristo que passa, n. 82

| Categoria: Santos & Mártires

Bispos do Japão pedem beatificação de “samurai de Cristo”

Takayama Ukon, um senhor feudal do século XVI, preferiu o exílio e a perda de suas propriedades a negar sua fé

Foi apresentado à Congregação para a Causa dos Santos um relatório pedindo a beatificação de Takayama Ukon, um senhor feudal do século XVI que preferiu perder suas terras e posses a renunciar à sua fé. O documento de 400 páginas preparado pela Conferência dos Bispos Católicos do Japão apresenta à Igreja universal o desejo de ver Ukon – chamado no Oriente de o "samurai de Cristo" – elevado à honra dos altares pelo menos até 2015, quando se completam 400 anos de seu falecimento.

A expressão "samurai de Cristo" vem de sua antiga adesão, antes da conversão ao Cristianismo, à disciplina do bushido ("o caminho do guerreiro"), o código de conduta dos samurais.

Ele nasceu em 1552, no território que hoje corresponde a Osaka, filho de uma família daimiô – termo que faz referência a senhores feudais com direito de construir um exército e ter samurais a seu serviço. Seu pai abraçou a fé católica quando Ukon tinha doze anos. O menino foi batizado e passou a se chamar Justo. Muitas pessoas das redondezas se converteram seguindo o seu exemplo.

Ilustração de um grupo de samurais

Quase no final do século, o Japão foi dominado por Toyotomi Hideyoshi, o segundo "grande unificador" do país, que começou a expulsar os missionários cristãos em 1587. Enquanto inúmeros senhores abandonaram o Cristianismo com a interdição, Justo e seu pai permaneceram fiéis, mesmo perdendo suas posses. Durante vários anos, viveram debaixo da proteção de daimiôs amigos, mas a proibição definitiva da fé em 1614 levou ele e um grupo de 300 cristãos ao exílio nas Filipinas. Justo foi acolhido com alegria neste país de forte tradição católica, mas, devido a uma enfermidade, faleceu, apenas 40 dias após pisar em solo filipino. O seu corpo foi velado com honras militares.

A abertura de sua causa de beatificação já tinha sido cogitada duas vezes. Uma tentativa, ainda no século XVII, pouco depois de sua morte, pelo clero das Filipinas, não obteve sucesso devido a então política japonesa de isolamento, que tornou impossível obter a documentação necessária sobre sua vida. Outra vez, em 1965, a petição de abertura fracassou por motivos formais. "A aplicação não foi aceita porque ninguém sabia como reuni-la nem como era a melhor forma de promover o caso", explicou o padre Hiroaki Kawamura, coordenador da Comissão Diocesana que enviou a documentação a Roma.

Desta vez, a apresentação foi bem preparada e a confiança no êxito da causa é grande. Ainda em outubro do último ano, o Arcebispo de Osaka e presidente da Conferência Episcopal Japonesa, monsenhor Leo Jun Ikenaga, recebeu uma palavra de Sua Santidade, o Papa Bento XVI: o Santo Padre manifestou nutrir uma "especial consideração" pela causa de Justo.

Este seria o primeiro japonês elevado aos altares de modo individual, posto que os já proclamados 42 santos e 393 beatos do país foram mártires e suas memórias se celebram em conjunto. O "samurai de Cristo", ao contrário, poderia se destacar individualmente como um exemplo de vida japonês completamente configurado aos valores do Evangelho.

"Takayama nunca foi desorientado pelos que o rodeavam. De maneira persistente, viveu uma vida na qual seguiu sua consciência", contou o padre Kawamura. "Conduziu sua vida de forma apropriada a um santo e continua sendo fonte de inspiração para muitas pessoas ainda hoje", concluiu.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere | Informações: Gaudium Press