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O marxismo desmascarado por um Papa

Numa época em que a ideologia socialista ainda faz a cabeça de muitos, principalmente nas universidades, foi de um Papa que veio a resposta a um dos problemas fundamentais do marxismo: o materialismo econômico.

Normalmente, não se espera que venha do Papa uma reconstrução completa da história do socialismo desde o fim do século XIX. O Papa Bento XVI brindou-nos, no entanto, com um admirável e necessário lembrete do que foi e ainda é o socialismo, e por que ele deu errado. O que fazer senão render-se à sua capacidade intelectual? Ele discerniu o problema fundamental de que inúmeros acadêmicos têm fugido já há 100 anos.

Ele fez isso, mais ainda, numa época em que a ideologia socialista parece ter resistido intacta ao colapso do experimento comunista. Visite os departamentos de ciências humanas da maioria dos campi universitários, por exemplo, e você ainda encontrará intelectuais elucubrando sobre as glórias da teoria socialista. Os estudantes, por sua vez, ainda são encorajados a pensar que ela possa dar certo.

E a União Soviética? Dizem-nos que não era socialismo de verdade. Que tal o nazismo — a palavra alemã para "nacional-socialismo"? Isso tampouco. E quanto ao crescente empobrecimento de países uma vez ricos e agora com governos social-democráticos? Ou ao fracasso do microssocialismo nos Estados Unidos, onde comunidades inteiras vivendo de subsídios governamentais estão sendo agora castigadas com níveis assustadores de patologia social? Nada disso, eles dizem, é socialismo.

Bento XVI não. Ele quer falar sobre o assunto. O tema se encaixa perfeitamente na sua mensagem de esperança. Devemos esperar, afinal, que a nossa salvação venha de Deus ou de alguma transformação material?

As passagens se encontram em sua excelente encíclica Spe Salvi, de 2007. Ele trata desta virtude cristã fundamental e explica o que são a esperança e a salvação, bem como o que elas não são.

A história está repleta de intelectuais que imaginaram poder salvar o mundo — e como resultado criaram o inferno na terra. O Papa inclui os socialistas entre eles, e Karl Marx em particular. Eis um intelectual que imaginou serem possíveis a salvação sem Deus e a criação de algo próximo ao Reino dos céus na terra, bastando que se ajustassem, para tanto, as condições materiais do homem.

A história, na visão de Marx, não é nada mais do que os choques e desmantelamentos dessas forças materiais. Não haveria algo como uma "natureza humana ordenada". Deus como autor da história certamente não existiria. Tampouco assuntos que seguissem determinadas linhas de moralidade. Somos antes puxados de um lado para o outro por grandes forças impessoais. Mas seria possível submetermos essas forças ao nosso controle, para nosso próprio proveito, se déssemos os passos certos.

E que passos seriam esses, na visão de Marx? As classes trabalhadoras desapropriadas deveriam tomar de volta o que é seu por direito das classes capitalistas exploradoras. Chamem isso de "roubo em massa", se quiserem — o importante seria dominar as forças produtivas da sociedade. De qualquer forma, é nesse rumo que caminharia a história, segundo Marx; só precisaríamos dar-lhe um empurrão na direção certa para que atingíssemos a glória do socialismo. E como isso funcionaria? Bem, Marx nunca chegou a pensar muito nisso. E por que ele deveria? As grandes forças impessoais da história cuidariam de tudo. Seu único trabalho era descrever os grandes eventos que culminariam no ambiente revolucionário. O que viria logo depois não seria tanto uma questão de "ciência burguesa", mas algo que deveríamos aceitar simplesmente com base na fé… a fé de que, em algum lugar, algum dia e de alguma forma, o socialismo começará a funcionar brilhantemente.

Pode parecer bizarro, mas não é tão estranho assim. Olhando para o mundo antigo, vemos que muitos dos maiores intelectuais imaginavam que chegaria um momento em que os problemas de economia — como escassez, propriedade, cálculo e dinheiro — todos desapareceriam, dando lugar à utopia. Alguém poderia dizer que isso não passa de um anseio pelo Jardim do Éden, mas há um fato crítico sendo ignorado: a natureza humana é a mesma agora como sempre foi. Haverá sempre uma necessidade de avançar para além do estado de natureza. O problema econômico é insolúvel. Afirmar simplesmente que um novo mundo irá magicamente surgir traz à tona outras questões cruciais como, por exemplo, como iríamos nos alimentar, nos vestir e abrigar as pessoas.

O Papa Bento XVI sintentiza perfeitamente o problema:

Com a vitória da revolução, porém, tornou-se evidente também o erro fundamental de Marx. Ele indicou com exatidão o modo como realizar o derrubamento. Mas não nos disse como as coisas deveriam proceder depois. Ele supunha simplesmente que, com a expropriação da classe dominante, a queda do poder político e a socialização dos meios de produção, ter-se-ia realizado a Nova Jerusalém. Com efeito, então ficariam anuladas todas as contradições; o homem e o mundo haveriam finalmente de ver claro em si próprios. Então tudo poderia proceder espontaneamente pelo reto caminho, porque tudo pertenceria a todos e todos haviam de querer o melhor um para o outro.

O socialismo não inclui um plano para o mundo pós-revolucionário. Uma vez que os economistas descobriram essa falha central, eles tiraram vantagem disso e mostraram que o socialismo não tinha em mente um sistema nem para resolver o problema econômico fundamental de alocar recursos escassos para necessidades ilimitadas, nem certamente para criar a nova riqueza que seria necessária para sustentar uma população em crescimento.

Mesmo assim, a revolução aconteceu:

Assim, depois de cumprida a revolução, Lenin deu-se conta de que, nos escritos do mestre, não se achava qualquer indicação sobre o modo como proceder. É verdade que ele tinha falado da fase intermediária da ditadura do proletariado como de uma necessidade que, porém, num segundo momento ela mesma se demonstraria caduca. Esta "fase intermediária" conhecemo-la muito bem e sabemos também como depois evoluiu, não dando à luz o mundo sadio, mas deixando atrás de si uma destruição desoladora. Marx não falhou só ao deixar de idealizar os ordenamentos necessários para o mundo novo; com efeito, já não deveria haver mais necessidade deles.

A "destruição desoladora" a que se refere Bento XVI é uma alusão à guerra ocorrida logo após a revolução. Milhões morreram de fome e chacinados. Ficou claro para Lenin que ele deveria recuar, antes que não houvesse mais ninguém a ser governado. Foi o que ele fez — e na hora certa, com a Nova Política Econômica. Mas a ditadura continuou. E, com ela, o empobrecimento maciço da população.

Então, por que Marx nunca explicou como funcionaria o socialismo?

O fato de ele não dizer nada sobre isso é lógica consequência da sua perspectiva. O seu erro situa-se numa profundidade maior. Ele esqueceu que o homem permanece sempre homem. Esqueceu o homem e a sua liberdade. Esqueceu que a liberdade permanece sempre liberdade, inclusive para o mal. Pensava que, uma vez colocada em ordem a economia, tudo se arranjaria. O seu verdadeiro erro é o materialismo: de fato, o homem não é só o produto de condições econômicas nem se pode curá-lo apenas do exterior criando condições econômicas favoráveis.

Assim o Papa colocou os problemas de economia no seu devido lugar: trata-se de um assunto prático que precisa ser resolvido dentro de uma moralidade e de uma antropologia sadias. O socialismo fracassa por uma razão simples e específica: ele não possui um sistema que dê preço aos fatores de produção e que torne o cálculo econômico possível. Os preços advêm da troca entre a mesma propriedade privada e aquilo que o socialismo distribui.

E, mesmo assim, o problema moral com o socialismo é ainda mais profundo: ele exalta o furto como uma ética e ignora o direito humano à liberdade.

Seria muito bom que todos os católicos interessados em economia lessem esta encíclica. Alguns já estão entendendo a mensagem: a Igreja Católica na Venezuela trabalhou duro contra o perigoso plano de Hugo Chávez para a nacionalização e planificação da economia. Um dia, o mundo virá a aprender as lições que a história do socialismo ensinou — e que o Papa emérito Bento XVI com tanta maestria já deixou explícitas.

Por Rev. Robert A. Sirico — Crisis Magazine | Tradução e adaptação: Equipe CNP

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Ratisbona e a intolerância do secularismo ocidental

Há uma intolerância e um fanatismo vigentes no Ocidente, muito semelhantes, em essência, àqueles que imperam no mundo islâmico. É o que o Papa Bento XVI tentou alertar, sem sucesso, em Ratisbona.

Por John H. Boyer* | Os ataques terroristas de 11 de setembro acabaram de completar 15 anos. Com eles, no dia seguinte, completou seu décimo aniversário o famoso discurso do Papa Bento XVI em Ratisbona, na Alemanha. Ainda que a controvérsia sobre essa breve exposição se tenha concentrado nos comentários do Papa a respeito do Islã e da violência, a principal crítica do pontífice era direcionada não ao Islã, mas ao Ocidente.

O propósito de Ratzinger era prover "uma crítica à razão moderna a partir do seu interior", mostrando as autorrestrições que ela tem imposto a si mesma e que a têm tornado incapaz de responder a questões fundamentais de moralidade e da existência humana. Essas autorrestrições advêm da ideia de que só seria possível conhecer o que se pode comprovar empiricamente. Dita posição — que encontra em Bacon e em Hume os seus pioneiros e no positivismo lógico do início do século XX, a sua expressão mais forte — é vista muito claramente hoje sob a forma de "cientificismo", ideologia segundo a qual todo conhecimento vem da ciência e qualquer coisa que não possa ser investigada por raciocínio dedutivo-hipotético, usando métodos quantitativos, não passa de crença e superstição irracional. O cientificismo não sustenta que os métodos matemáticos das ciências experimentais (e até das ciências sociais) sejam a melhor forma de descobrir a verdade; eles seriam, na verdade, o único meio de fazê-lo.

Como sublinha o Papa Bento XVI, esse estreitamento da razão acarreta inúmeras consequências. Em primeiro lugar, a razão moderna deve reconhecer que é incapaz de explicar seus próprios pressupostos. O cientificismo deve admitir "a estrutura racional da matéria e a correspondência entre o nosso espírito e as estruturas racionais operativas na natureza como um dado de fato, sobre o qual se baseia o seu percurso metódico". O método científico em si mesmo não pode ser justificado usando o método científico, a ponto de podermos dizer inclusive que esse é um método "exclusivo" das ciências naturais. Em segundo lugar, não cabe à ciência comentar ou avaliar a racionalidade de crenças religiosas e asserções morais. A constrição que impossibilita o Ocidente de criticar ou dialogar com o Islã é a mesma que torna o secularismo ocidental incapaz e desinteressado de ouvir ou mesmo tolerar a moral cristã tradicional no próprio Ocidente.

A descrição de razão moderna feita pelo Pontífice pode ajudar-nos a entender melhor a relutância da esquerda atual em tentar dialogar com religiosos e conservadores no Ocidente. Por um lado, credos religiosos tendem a ser considerados intrinsecamente irracionais. Entendimentos tradicionais a respeito de complementaridade sexual, sexo e gênero, igualdade e justiça são vistos como se não tivessem qualquer base sólida. Isso ajuda a explicar por que, ao descreverem o que consideram intolerância, as pessoas vêm substituindo "ismos" por "fobias".

Ironicamente, a ligação que Ratzinger faz entre voluntarismo e coação, encontrada na teologia violenta da jihad — "está certo porque Deus quer e, se Ele mandar, também podemos impô-lo violentamente" —, aplica-se perfeitamente ao movimento revolucionário moderno. A esquerda secularista moderna é coerciva. Ao invés de tentar convencer seus oponentes raciocinando a partir de princípios comuns, o que ela procura fazer é silenciá-los. A atual ideologia de gênero surgiu praticamente do nada. Isso não significa dizer que não houve nenhuma estrutura intelectual da qual ela tenha advindo. Houve, sim, e trata-se de uma estrutura perturbadora. No entanto, sem qualquer debate ou tentativa de persuasão, pessoas comuns foram simplesmente informadas de que, agora, deveriam aceitar e jurar fidelidade a uma ideologia que reconhece homens travestidos de "mulheres". Quaisquer pessoas que não usem sua voz para louvá-los ou suas mãos para aplaudi-los não são apenas insensíveis como constituem casos de "fanatismo" e "intolerância", provenientes de uma "fobia" profundamente arraigada. Não pode haver nenhuma dissensão.

O mesmo pode ser observado na chamada teoria do "privilégio" e na sua prática nos campus das universidades. O apelo "Reveja seus privilégios" (Check your privilege), constante em sites de esquerda norte-americanos, não serve senão para afirmar que homens brancos, heterossexuais e "cisgêneros" devem reconhecer que possuem vantagens imerecidas na sociedade. É uma declaração de que eles não têm nenhum direito de opinar sobre questões de "interseccionalidade". Isso equivale à reivindicação de que as minorias detêm um lugar privilegiado para julgar o que é justo e injusto com base puramente em seu tom de pele, em sua "orientação sexual", em sua "identidade de gênero" etc. Se alguém de qualquer uma dessas classes "oprimidas" se sentir minimamente agredido, então o que quer que tenha acionado esses sentimentos de opressão deve ser considerado injusto e imoral. Não se trata de um juízo moral baseado em princípios comuns de racionalidade. "Eu não gosto, então está errado e você tem que respeitar os meus sentimentos" é um exemplo textual do ressentimento nietzscheniano, a "vontade de poder" exercida pelos ressentidos.

Analisando essa situação a partir dos comentários do Papa, percebemos que tudo isso não passa de uma forma diferente de voluntarismo. A esquerda não quer usar argumentos recorrendo à razão; o que ela quer é encerrar toda e qualquer discussão. Acontece que a expressão "cala a boca" não é racionalidade, mas arbítrio puro e simples. Será que deveríamos surpreender-nos, no entanto, com um desenvolvimento desse tipo, quando o conceito moderno de razão definiu que questões morais e existenciais estão para além dos limites da investigação racional? Essa é a consequência de estreitar a esfera da razão ao que é puramente matemático. Raciocínios filosóficos sobre moralidade deixaram de ser científicos ou racionais. Se é assim, não há necessidade alguma de tentar convencer aqueles que discordam de você. Os outros devem simplesmente ser silenciados.

Isso tudo é bastante irônico, é claro. Os proponentes da "liberação" sexual, da confusão de gênero e de todas essas coisas demonizam a moral cristã como objetivamente retrógrada e errada — e falam com certeza e segurança morais. Acontece que o mesmo argumento, de que a fé cristã deve ser rejeitada como irracional por não ser científica, aplica-se igualmente à nova ortodoxia da esquerda. Como católicos, porém, não devemos meramente contentar-nos em apontar essa inconsistência. Afinal, se nosso único argumento for tu quoque ("você também"), acabamos abandonando a premissa de que os ensinamentos da Igreja têm fundamento e podem ser conhecidos e defendidos racionalmente.

Se é verdade que devemos defender nossa liberdade religiosa, não podemos simplesmente dizer: "Eu me oponho ao casamento gay porque sou católico". Precisamos explicar que nos opomos a isso porque se trata de uma incompreensão e de uma perversão do casamento, baseada em um falso entendimento da natureza humana, do sexo e do amor. Do mesmo modo, não nos opomos ao aborto simplesmente porque o Papa nos diz para fazê-lo. Opomo-nos a isso pela mesma razão por que o Papa se opõe: porque é algo objetivamente mau, e nós podemos usar a razão para demonstrá-lo.

Em seu discurso, o Papa Bento XVI defendeu por que é imperativo à academia reconhecer que os amplos horizontes da investigação racional incluem questões de fé, de moral e de metafísica. Para aqueles que não estão na educação superior, que nada têm a dizer sobre esse departamento, nós devemos continuar a educar-nos e prover defesas claras e racionais de nossos princípios morais. Não devemos pressupor que a fé é a crença cega em afirmações que não podem ser amparadas ou fundamentadas pela razão. Apelar para a liberdade religiosa como argumento único é implicitamente conceder que a religião é algo irracional e, no fim das contas, sequer seremos capazes de explicar por que nos é devida essa liberdade, em primeiro lugar.

Fonte: Crisis Magazine | Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere

* John H. Boyer é doutorando em Filosofia pelo Centro de Estudos Tomistas da Universidade de Santo Tomás, em Houston, no Texas. Também contribui para o site The Federalist.

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Revolução marxista na nova base curricular do Ministério da Educação

Conheça o documento que vai fazer o Estado ditar, nos mínimos detalhes, a cartilha de nossos filhos.

A base curricular recentemente publicada pelo Ministério da Educação leva o sugestivo nome de "Base Nacional Comum Curricular" e abrange tudo, do ensino infantil ao médio. Realmente, é à União que a Constituição concede a competência de legislar sobre "diretrizes e bases da educação nacional" (art. 22, XXIV), mas está escrito na mesma Carta que "os Municípios atuarão prioritariamente no ensino fundamental e na educação infantil" e que "os Estados e o Distrito Federal atuarão prioritariamente no ensino fundamental e médio" (art. 210, § 1.º e 2.º).

O raciocínio por trás dessas normas é bem simples e constitui um importante princípio da filosofia social, chamado de subsidiariedade: nem o Estado nem qualquer sociedade mais abrangente devem substituir a iniciativa e a responsabilidade das pessoas e dos corpos intermediários [1]. É injusto "passar para uma sociedade maior e mais elevada o que sociedades menores e inferiores podiam conseguir" por si mesmas [2].

Contudo, o novo projeto do governo federal parece ir na contramão desse princípio. Ao propor uma base curricular uniforme para todo o país, o Ministério da Educação fortalece a União para limitar a autonomia dos demais entes federativos, bem como da própria família. A educação das crianças e adolescentes passa a concentrar-se quase que integralmente nas mãos do Estado.

O atentado da BNCC à subsidiariedade, no entanto, é duplo: não só desrespeita a independência das famílias e das pequenas associações, como impõe a elas uma ideologia espúria e contrária à vontade de maioria absoluta da população brasileira. Trata-se de um monstro de várias cabeças, dentre as quais se sobressai, imponente, o marxismo cultural da Escola de Frankfurt, com a sua "teoria crítica". Juntamente com ele, vão o pragmatismo de John Dewey, o desconstrucionismo de Jacques Derrida, bem como a "pedagogia do oprimido" de Paulo Freire — tudo pronto para ser despejado dentro das salas de aula. O Estado deixa de ser um ente subsidiário para ditar, tintim por tintim, a cartilha de nossos filhos.

Os absurdos contidos no texto da nova base curricular não se limitam à já batida área das ciências sociais. Os ideólogos são inovadores e querem revolucionar também as outras matérias de estudo, como a Matemática, por exemplo. "Por meio de conhecimentos iniciais da Probabilidade e da Estatística — diz o texto da base curricular —, os estudantes começam a compreender a incerteza como objeto de estudo da Matemática e o seu papel na compreensão de questões sociais, por exemplo, em que nem sempre a resposta é única e conclusiva" [3].

Nas ciências da natureza como um todo, a BNCC diz que é preciso desafiar e motivar "crianças, jovens e adultos para o questionamento" [4], tendo como objetivos "apropriar-se da cultura científica como permanente convite à dúvida", "compreender a ciência como um empreendimento humano, construído histórica e socialmente" e "desenvolver senso crítico e autonomia intelectual no enfrentamento de problemas e na busca de soluções, visando a transformações sociais e à construção da cidadania" [5].

Na História, a doutrinação começa desde muito cedo. Dois dos "objetivos de aprendizagem" do 1.º ano do Ensino Fundamental (!), por exemplo, são "compreender que as normas de convivência existentes nas relações familiares são construídas e reconstruídas temporal e espacialmente" e "identificar as relações de trabalho presentes nas diferentes organizações familiares" [6]. Trocando em miúdos, as crianças serão ensinadas, desde cedo, que as suas famílias não passam de "construção cultural" e "opressão do patriarcado".

No Ensino Religioso, além de um relativismo religioso que salta aos olhos, as crianças serão ensinadas a "perceber que os textos sagrados orais ou escritos podem justificar práticas de solidariedade, justiça e paz, podendo também fundamentar ações que afrontam os direitos humanos e da Terra" [7]. Quais afrontas são essas, não se sabe, mas, dada a direção ideológica com que foi produzido o documento, não é difícil supor quais sejam.

O resumo da ópera pode ser condensado no lema "Pátria Educadora", com o qual o governo brasileiro resumiu o seu projeto político para os próximos anos. Se a expressão já assumia, na própria formulação, os contornos de um pensamento totalitário, agora o slogan ganha uma conotação totalmente nova: não só os seus contornos são autoritários, mas também o seu preenchimento — todo ele ardilosamente arquitetado para manipular e doutrinar ideologicamente uma nação inteira.

Quem tem ouvidos para ouvir, ouça; quem tem olhos para ver, veja. As provas do que se diz estão todas na Base Nacional Comum Curricular, do Ministério da Educação — e não são bons presságios.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Catecismo da Igreja Católica, § 1894.
  2. Papa Pio XI, Carta Encíclica Quadragesimo Anno (15 de maio de 1931), II, 5.
  3. Ministério da Educação, Base Nacional Comum Curricular, p. 120.
  4. Ibid., p. 150.
  5. Ibid., p. 186.
  6. Ibid., p. 244.
  7. Ibid., p. 289.

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A prova que faltava: livro recomendado pelo MEC ensina gênero nas escolas

O livro Sociologia em movimento insiste na tese marxista de que a culpa para as discriminações está na família e na Igreja

Certa vez, quando questionado a respeito da popularidade dos jornais, o escritor inglês G. K. Chesterton explicou que aquele sucesso se devia à ficção promovida por eles. "A vida é um mundo, e a vida vista nos jornais é outro", declarou.

A cobertura da imprensa sobre o debate acerca da inclusão do termo gênero nos Planos Municipais de Educação é o mais recente exemplo dessa ficção. Na maior parte das reportagens, procurou-se transmitir um retrato bastante distorcido da realidade, no qual os cristãos apareciam como Dom Quixote lutando contra moinhos de vento. Quem lesse esses jornais, logo teria a impressão de que a Igreja, movida por um repentino acesso de cólera, havia se levantado para uma cruzada pelo obscurantismo. Gênero, segundo a mídia e os ideólogos de plantão, seria uma expressão inofensiva, cujo significado se resumiria tão somente a uma luta pelo fim da discriminação.

Eis que agora nos surgem as provas cabais de que a Teoria de Gênero é exatamente aquilo tudo que havíamos denunciado aqui no site: um programa de destruição da família e da Igreja. Está nas mãos de alunos do ensino médio um livro chamado Sociologia em movimento. A obra, segundo consta, foi editada em 2013, pela Editora Moderna, de acordo com as determinações do Ministério da Educação para o Programa Nacional do Livro Didático — ou seja, antes mesmo que o Plano Nacional de Educação fosse votado.

No capítulo 14, intitulado Gênero e sexualidade, o leitor encontra uma apologia aberta ao fim da família e da lei natural, em nome de uma suposta liberdade e do que os autores entendem por "identidade de gênero", isto é, "uma construção cultural estabelecida socialmente através de símbolos e comportamentos, e não uma determinação de diferenças anatômicas entre os seres humanos" [1]. A confissão vem logo nas primeiras linhas: "As permanências da sociedade patriarcal e do androcentrismo estão entre as principais explicações para esse fenômeno (a discriminação), e serão trabalhadas ao longo do capítulo, juntamente com as evidências que apontam para a reversão desse quadro social" [2]. O objetivo do estudo, conforme as próprias palavras do texto, é "reconstruir os papéis sociais estabelecidos" [3].

Quem não está familiarizado com o linguajar revolucionário deste tipo de publicação, é facilmente induzido a trocar gato por lebre. Ocorre que, no mundo pós-moderno, como explica Padre Paulo Ricardo no curso de Filosofia da Linguagem, a guerra cultural é uma guerra de palavras. A linguagem é um dos meios mais importantes utilizados pela intelligentsia para refundar o mundo à sua imagem e semelhança.

O próprio debate sobre o uso da palavra "gênero" nos planos de educação comprova isso. Embora o texto vigente do Plano Nacional defenda a "superação das desigualdades educacionais, com ênfase na promoção da cidadania e na erradicação de todas as formas de discriminação", não faltaram críticas à supressão da tal palavra. Pergunta: se se trata apenas de uma luta pelo respeito, por que não basta dizer "erradicação de todas as formas de discriminação"? Essa é uma questão que eles não respondem. Mas para a qual há uma resposta.

Filhos de Karl Marx

"Para a Sociologia", diz o livro, "a família (...) pode assumir diferentes configurações e padrões de normalidade". A pergunta é se os pais estão de acordo com essa visão subjetiva e relativista de família.

A palavra "gênero", do modo como foi pensada pelos ideólogos, representa todo um projeto de engenharia social. Como fica claro no livro, a tese tem suas raízes no pensamento de Karl Marx e Engels. Na obra A origem da família, da propriedade privada e do Estado, esses dois ídolos do pensamento esquerdista atribuem à família a máxima culpa pelas desigualdades sociais. Eles afirmam: "O primeiro antagonismo de classes que apareceu na história coincide com o desenvolvimento do antagonismo entre o homem e a mulher, na monogamia; e a primeira opressão de classes, com a opressão do sexo feminino pelo masculino" [4]. Seria preciso, portanto, para destruir o capitalismo, destruir primeiro a família. Por isso, quando se fala de luta contra a "família patriarcal" ou "família burguesa", saiba que se fala de luta contra a família natural, a saber, aquela formada por um homem, uma mulher e seus filhos. Padre Paulo Ricardo explica muito bem essa questão no vídeo Marxismo e a destruição da família.

O marxismo nega a existência da verdade. A estrutura do mundo se resumiria a uma tensão de forças antagonistas, influenciada pelo pensamento dominante ou, nas palavras de Marx, pela ideologia. Essa ideologia, por sua vez, seria a superestrutura, aquelas instituições que sustentam o status quo — família e Igreja, por exemplo. Desse modo, para que a estrutura opressora caia, é mister que se corrompa a superestrutura por meio de uma nova ideologia, de um novo discurso. O Papa Pio XI notou que o socialismo propõe "a formação das inteligências e dos costumes" como também "se faz particular amigo da infância e procura aliciá-la, abraça todas as idades e condições, para formar o homem 'socialista' que há de constituir mais tarde a sociedade humana plasmada pelo ideal do socialismo" [5].

É fato. Sem a presença da família, as crianças são "educadas" pela escola, conforme os interesses do Estado. Isso já acontece em países como a Suécia, onde os filhos são completamente retirados do convívio dos pais. A razão é a seguinte: para que as crianças percam a noção de certo e errado, é preciso moldá-las desde a mais tenra idade. A lei que obriga as famílias a colocarem seus filhos nas escolas com apenas quatro anos de idade está intimamente ligada a esse projeto. Aliás, não deixa de ser interessante o fato de que, nos planos municipais de algumas cidades do Brasil, "gênero" apareceu apenas nos parágrafos referentes à educação infantil.

O livro Sociologia em movimento abraça essa tese marxista, bem como a de outras correntes filosóficas contrárias ao cristianismo, quando, por exemplo, defende a ideia de que "o discurso sobre a sexualidade não é uma descrição da natureza reprodutiva, mas sim um meio de estabelecer relações de poder construídas historicamente nas sociedades ocidentais" [6]. Os autores ainda insistem no absurdo:

O peso cultural da família patriarcal e da Igreja em nossa sociedade (...) continua a ser uma forte influência para a marginalização dos grupos LGBT. Isso leva à violência homofóbica e transfóbica (aversão a homossexuais e a transgêneros), assim como à violência doméstica contra mulheres, fenômeno social de intolerância e machismo que por vezes acarreta a morte de mulheres, homossexuais, transgêneros e pessoas que não se enquadram nos estereótipos tradicionais dos gêneros [7].

No geral, a obra é um conjunto de falácias e preconceitos, que levam o leitor desavisado a acreditar que na origem de todas as desgraças estão a família e a Igreja. E não deixa de ser curiosa a afirmação de que "o discurso da sexualidade" seria apenas uma convenção social para legitimar o poder de algumas instituições. Com isso, o livro dá um tiro no próprio pé e deixa claro o propósito da agenda de gênero: chegar ao poder. Trata-se de uma ideologia criada para levar seus defensores à liderança da sociedade. Dadas as premissas, a conclusão não pode ser outra: se não existe uma lei natural para a sexualidade — mas discursos ideológicos, como dizem —, que seria a questão de gênero senão apenas outra ideologia? O gato se esconde, mas deixa o rabo de fora.

Percebam: o direito natural, como propõe a filosofia perene, desautoriza qualquer interpretação relativista a respeito da pessoa humana. Assim, é preciso destruir a sensibilidade social, para que, uma vez cega aos apelos da natureza e da razão, possa-se instaurar um novo modelo de comportamento, o qual favoreça os interesses ideológicos.

A Igreja, ao contrário, não defende um modelo sexual porque quer dominar as pessoas, mas porque esse modelo corresponde à verdade do ser humano. Se essa lei natural é posta de lado, "abre-se dramaticamente o caminho ao relativismo ético no plano individual e ao totalitarismo do Estado a nível político" [8]. As leis ficam sob o arbítrio da maioria. Perdem o seu fundamento. Bento XVI deixou isso evidente em uma de suas catequeses sobre Santo Tomás de Aquino:

A defesa dos direitos universais do homem e a afirmação do valor absoluto da dignidade da pessoa postulam um fundamento. Não é precisamente a lei natural, este fundamento com os valores não negociáveis que ela indica? O Venerável João Paulo II escrevia na sua Encíclica Evangelium vitae palavras que permanecem de grande atualidade: "Para o bem do futuro da sociedade e do progresso de uma democracia sadia, urge pois redescobrir a existência de valores humanos e morais essenciais e naturais, que derivam da própria verdade do ser humano, e exprimem e tutelam a dignidade da pessoa: valores que nenhum indivíduo, nenhuma maioria e nenhum estado jamais poderá criar, modificar ou destruir, mas apenas os deverá reconhecer, respeitar e promover".

A mentira pseudocientífica

Ė uma enorme tolice acreditar que a liberdade virá com o fim da família e da Igreja. Marx descreveu com eloquência, embora de forma bastante desonesta, as dificuldades enfrentadas pelos operários. Pregou a revolução para daí, supostamente, nascer o mundo melhor. Mas nada disse sobre o ordenamento desse mundo, o qual acabou se mostrando, na prática, bem distante da utopia libertadora. O saldo é de mais de 100 milhões de mortos.

A esperança socialista é vazia e duvidosa, porque se fundamenta num erro crasso: o materialismo. Ela ignora que "o homem permanece sempre homem", que sua "liberdade permanece sempre liberdade, inclusive para o mal" [9]. Um arranjo econômico hipoteticamente superior não pode alterar essa realidade, já que o ser humano "não é só o produto de condições econômicas nem se pode curá-lo apenas do exterior criando condições econômicas favoráveis" [10]. Do mesmo modo, a destruição da estrutura familiar natural, longe de trazer soluções autênticas, só causará mais violência. A experiência dos últimos anos, com tantas famílias em crise, tem provado isso de maneira inequívoca.

Existe, sim, uma realidade chamada pecado. E ignorá-la "dá lugar a graves erros no domínio da educação, da política, da ação social e dos costumes" [11]. É no seio da família, marcada pelas virtudes humanas e teologais, que essa tendência ao mal pode ser enfrentada com verdadeira eficácia. A Agenda de Gênero prega justamente o contrário, a pretexto de uma nova ordem mundial, exercida de maneira raivosa e delinquente.

Desmascarando a farsa

Nenhuma outra instituição no mundo fez mais pela dignidade da mulher que a família e a Igreja. Sociólogos sérios, como o agnóstico Rodney Stark e tantos outros escondidos do público pela mídia e por muitas universidades, reconhecem que o cristianismo exerceu um papel fundamental na emancipação da mulher. Isso explica o grande número de conversões femininas, nos primeiros séculos. É significativa esta declaração de Stark:

Em meio às denúncias atuais de que o cristianismo é patriarcal e sexista, facilmente se esquece de que a Igreja primitiva era tão particularmente atraente para mulheres que no ano 370 o imperador Valentiniano emitiu uma ordem escrita ao papa Dâmaso I requerendo que os missionários cristãos parassem de visitar as casas de mulheres pagãs. Embora alguns autores clássicos afirmem que as mulheres eram presa fácil para qualquer 'superstição forânea', muitos reconhecem que o cristianismo era extraordinariamente atraente porque no interior da subcultura cristã as mulheres tinham um status mais elevado do que no mundo greco-romano em geral [12].

O sociólogo explica que esse status elevado da mulher no cristianismo se devia, entre outras coisas, à visão humanista da religião cristã. Com a proibição ao aborto e ao infanticídio, por exemplo, a mulher deixou de ser vista como propriedade do marido, um objeto descartável, para converter-se em uma companheira, pela qual deveria dar a vida, como Cristo deu a vida pela Igreja (cf. Ef 5, 25). É no cristianismo medieval, sobretudo, que surge a figura das grandes rainhas católicas, cheias de virtudes para pastorear a grei. No paganismo, por outro lado, as mulheres eram vistas simplesmente como objetos de prazer do homem, os quais possuíam mesmo o direito de assassiná-las.

É da pena de Santo Tomás de Aquino que provém uma das mais belas apologias da dignidade feminina já vistas. "Era conveniente que a mulher fosse formada da costela do homem", ele escreve, "para significar que entre o homem e a mulher deve haver uma união de sociedade, pois nem a mulher deve dominar o homem, e por isso não foi formada da cabeça; nem deve ser desprezada pelo homem, como se lhe fosse servilmente submetida, e por isso não foi formada dos pés" [13].

Fica evidente, por conseguinte, a falsidade da acusação feita por Marx, Michel Foucault e cia. É no paganismo, na libertinagem sexual, na depravação moral que surgem as opressões contra as mulheres, os homossexuais e outros indivíduos — não no cristianismo. E isso por uma razão óbvia: a libertinagem sexual transforma o ser humano em um ser descartável, em uma massinha de modelar. O comportamento violento dos jovens — como vimos na aula sobre a redução da maioridade penal — é resultado direto desse modelo de educação liberal, que os considera animais adestráveis. Um animal se comportará como um animal.

Uma visão distorcida da realidade

"O conceito de gênero", diz a obra, "não se fundamenta em um princípio evolutivo, biológico ou morfológico, e sim em uma construção social". Disto a ensinar às crianças que elas devem "construir a própria identidade de gênero" é um passo.

O principal problema dessa questão é de cunho humanístico. A Teoria de Gênero defende uma visão de pessoa humana profundamente equivocada, segundo a qual o ser humano seria determinado apenas pelo ego e pela vontade. O corpo nada tem a dizer nessa história. Trata-se apenas de um instrumento para a satisfação das vontades. Assim, pode-se admitir todo tipo de "união sexual", desde que exista o desejo e o consentimento para tal. O homem fica reduzido às suas paixões.

Os frutos de uma loucura como essa são colhidos dentro do próprio movimento homossexual, como no caso escandaloso dos clubes do carimbo, que têm espalhado de propósito o vírus do HIV entre os homossexuais. O prazer é a justificativa. Se a lei apóia a libertinagem como um direito inalienável, "nem a Igreja nem a sociedade em seu conjunto deveriam surpreender-se se depois também outras opiniões e práticas distorcidas ganham terreno e se aumentam os comportamentos irracionais e violentos" [14].

Acusar a Igreja e a família de fomentarem a violência é de uma insanidade inominável. A castidade que a Igreja pede aos homossexuais é a mesma pedida aos heterossexuais. Não há nada de homofóbico. Norteados pela regra da caridade fraterna, o que a Igreja e a família têm por princípio são estas palavras de São Bento: "Tolerem pacientissimamente as suas fraquezas, físicas ou morais; rivalizem em prestar mútua obediência; ninguém procure o que julga útil para si, mas sobretudo o que é para o outro" [15]. Já está mais do que na cara o que realmente gera a violência contra as mulheres e os homossexuais. Aliás, vale a pena conferir este artigo, publicado recentemente no site, a respeito das origens sexistas e racistas da Teoria de Gênero.

A resposta necessária

O livro Sociologia em movimento, nas mãos de alunos do ensino médio mesmo depois da aprovação do Plano Nacional da Educação sem referência à gênero, é um insulto à Constituição, à verdade dos fatos e ao bom senso. Mais: trata-se de uma ação orquestrada contra a família e a Igreja, que merece nosso imediato repúdio. Os pais devem, com todo o direito, unir-se em associações e pedir a retirada desse material das bibliotecas de nossas escolas, além de verificar as outras apostilas de seus filhos. É bem possível que o ninho da serpente esteja escondido lá. Estejamos atentos.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. SILVA, A. et al. Sociologia em movimento. São Paulo: Moderna, 2013, p. 339.
  2. SILVA, A. et al. Sociologia em movimento. São Paulo: Moderna, 2013, p. 337.
  3. Idem.
  4. A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, p. 18.
  5. Pio XI, Carta Encíclica Quadragesimo anno (15 de maio de 1931).
  6. SILVA, A. et al. Sociologia em movimento. Moderna: 2013, p. 347.
  7. Idem, p. 351.
  8. Bento XVI, Audiência Geral (16 de junho de 2010).
  9. Bento XVI, Carta Encíclica Spe Salvi (30 de novembro de 2007), n. 21.
  10. Idem.
  11. Catecismo da Igreja Católica, n. 407.
  12. STARK, Rodney. O crescimento do cristianismo: um sociólogo reconsidera a história. São Paulo: Paulinas, 2006, p. 111.
  13. Suma Teológica, I, q. 92, a. 3.
  14. Congregação para a Doutrina da Fé, Carta aos bispos da Igreja Católica sobre o atendimento pastoral das pessoas homossexuais (1º de outubro de 1986), n. 10.
  15. Regra de São Bento, 72 (PL 66, 927-928).

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Jamais tocar no nome de Deus

“Jamais tocar no nome de Deus” parece ser o novo mandamento da modernidade. Nenhuma ideologia, porém, pode cancelar a sede de Deus do coração humano.

Quando Pio XII denunciou o desprezo da humanidade por Cristo, em 1952, a Segunda Guerra Mundial já havia acabado.

No conflito bélico que durou de 1939 a 1945, guerrearam entre si duas grandes ideologias anticristãs: o nazismo, do lado do Eixo, e o socialismo, entre os Aliados. A primeira havia sido denunciada pela encíclica do Papa Pio XI, Mit Brennender Sörge ("Com ardente preocupação"); a segunda foi um dos sistemas mais reprovados pelo Magistério na história da Igreja – de todos os Papas do século XX, só João Paulo I não condenou o comunismo ateu, e só não o fez porque não teve tempo.

Da ideologia de Adolf Hitler, restaram tão somente cinzas. Felizmente, o aparelho político que condenou milhares de judeus ao extermínio veio abaixo – e com a ajuda de todo o Ocidente. O socialismo, porém, até por estar do lado vitorioso, não só não foi destruído, como experimentou seus "anos de glória". No auge da Guerra Fria, o sistema soviético alcançou a simpatia de muitos facínoras sedentos pelo poder, penetrando violentamente em vários lugares do mundo.

No decorrer do tempo, todavia, especialmente com Antônio Gramsci e a influência da Escola de Frankfurt, os comunistas substituíram a iniciativa da revolução armada pela infiltração cultural. Os ideólogos marxistas não falavam mais de profanar igrejas, assassinar sacerdotes ou aprisionar religiosos – embora em várias partes do mundo eles continuassem a fazê-lo, sem remorsos. O seu novo plano era mais discreto: destruir a religião cristã por dentro, minar as próprias bases da sociedade, implantando a revolução de modo gradual e até imperceptível, se possível fosse.

Hoje, 70 anos depois do fim da Grande Guerra, é possível dizer que, no que diz respeito à religião – a qual os comunistas sempre reputaram como "o ópio do povo" –, o seu intento foi largamente alcançado. Se eles não conseguiram, é verdade, extinguir dos corações humanos o pensamento de Cristo, deram um passo que já é muito de se lamentar – banir a menção de Deus da vida pública. As pessoas continuam pensando n'Ele, no eterno e no transcendente, mas não podem dizê-lo, sob pena de serem tachadas de intolerantes, atrasadas ou "desnecessárias". O mandamento que pede que não se tome o nome de Deus em vão foi transformado em outro: não tocar nunca no Seu nome, absolutamente.

Tome-se como exemplo a jovem estrela do futebol, Neymar. No último dia 6, ao comemorar o título da Champions League com a camisa do Barcelona, o craque brasileiro usou uma faixa na cabeça, com a inscrição "100% Jesus". Essa simples e inofensiva referência ao nome de Cristo teria sido motivo de escândalo mundo afora. No Brasil, um jornalista considerou o gesto de Neymar "desnecessário"; outro escreveu que seria melhor que "certas intimidades fossem como deveriam ser, isto é, apenas íntimas".

Os dois comentários, vindos do mundo dos esportes, só confirmam a ideia que se enunciou acima. Neymar não pediu que ninguém se convertesse à fé cristã, nem fez algum discurso eloquente em defesa de Cristo. Seu único crime foi estampar o nome de Jesus em sua cabeça.

A acusação que pesa sobre o jogador é de "proselitismo religioso". "Internautas tacharam a mensagem de 'ridícula' e criticaram a tentativa do brasileiro de 'impor' sua religião aos outros", diz a notícia. De que modo Neymar estaria impondo o cristianismo aos outros, é coisa que os veículos de comunicação não explicam. Talvez o jogador devesse ser um pouco mais comedido em sua comemoração. Ao invés de "100% Jesus", uma faixa mais larga com "50% Jesus", dando a outra metade para Baal, Buda ou Zoroastro; quem sabe, uma com alguma mensagem mais palatável ao crivo dos ateus, como "Deus está morto", ou com uma inscrição exaltando Maomé – que, certamente, passaria ilesa pela crítica jornalística.

Seja como for, o problema aqui é com uma religião específica: o cristianismo. Não se suportam nem crucifixos nos tribunais, nem educação confessional nas escolas, nem menção a Cristo nos estádios de futebol. Vai-se configurando, entre os próprios cristãos, o que o Papa João Paulo II chamou de uma "apostasia silenciosa" [1], em que as pessoas já não são mais capazes de anunciar a boa nova do Evangelho, seja porque sequer acreditam que esta seja uma "boa nova", seja porque não a veem mais como algo "verdadeiro".

De fato, se os cristãos realmente acreditassem em Cristo, não ficariam calados; se verdadeiramente compreendessem a mensagem de salvação que porta o Evangelho, não a guardariam para si; se entendessem o impacto da vida eterna, não permaneceriam em silêncio. Seria, na verdade, uma tremenda falta de caridade, que, preenchidos com a felicidade divina – que nenhuma criatura pode oferecer ao homem –, eles fechassem a boca e não anunciassem Cristo ao mundo.

Por isso, a religião cristã é essencialmente pública, porque a verdade não se pode encerrar num cubículo, assim como "não se pode esconder uma cidade situada sobre uma montanha, nem se acender uma luz para colocá-la debaixo do alqueire" (Mt 5, 14-15). O ser humano só pode ser plenamente saciado por Deus, e inquieto está enquanto não repousa n'Ele [2]. Ainda que queiram abolir o Seu santíssimo nome das cabeças dos atletas ou das paredes dos prédios, ele está inscrito no mais íntimo do coração humano e, daí, jamais – por nenhuma força humana ou angélica – poderá ser apagado.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Exortação Apostólica Ecclesia in Europa (28 de junho de 2003), n. 9.
  2. Santo Agostinho, Confissões, I, 1.

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A destruição arquitetada por um anjo

A lenta e gradual construção da “cidade dos homens” é obra de uma inteligência angélica

Em uma das muitas alocuções que proferiu, o Papa Pio XII indicou o caminho que o demônio pavimentou, ao longo da história, para destruir o homem, criado à “imagem e semelhança" de Deus [1]:

“Ele se encontra em todo lugar e no meio de todos: sabe ser violento e astuto. Nestes últimos séculos tentou realizar a desagregação intelectual, moral, social, da unidade no organismo misterioso de Cristo. Ele quis a natureza sem a graça, a razão sem a fé; a liberdade sem a autoridade; às vezes a autoridade sem a liberdade. É um 'inimigo' que se tornou cada vez mais concreto, com uma ausência de escrúpulos que ainda surpreende: Cristo sim, a Igreja não! Depois: Deus sim, Cristo não! Finalmente o grito ímpio: Deus está morto; e, até, Deus jamais existiu. E eis, agora, a tentativa de edificar a estrutura do mundo sobre bases que não hesitamos em indicar como as principais responsáveis pela ameaça que pesa sobre a humanidade: uma economia sem Deus, um direito sem Deus, uma política sem Deus. O 'inimigo' tem trabalhado e trabalha para que Cristo seja um estranho na universidade, na escola, na família, na administração da justiça, na atividade legislativa, na assembleia das nações, lá onde se determina a paz ou a guerra." [2]

A primeira coisa que Pio XII faz é colocar as pessoas diante do nemico. O Papa quer convencer os homens de que a obra de destruição que se apresenta aos seus olhos não é fruto do acaso ou, como pregam os progressistas, do zeitgeist – o “espírito dos tempos". Trata-se, de verdade, de um empreendimento demoníaco. Há, por trás de toda a confusão e barbárie deste e de outros séculos, uma inteligência angélica, que, desde que caiu, trabalha incessantemente para perverter a obra da Criação e fazer perder as almas que Cristo conquistou com o Seu sangue, na Redenção.

Como explicar que o projeto de um anjo se torne tão concreto e visível no decorrer da história, só é possível a partir dos agentes humanos que, juntamente com o demônio, bradaram “non serviam", a fim de servirem ao mal. Embora seus destinos eternos estejam nas mãos de Deus – e só Ele possa dizer se o “oitavo sacramento", a ignorância invencível, os salvou –, suas obras humanas denunciaram clamorosamente sua identidade. Do Imperador Nero, no século I, passando pelos iluministas anticristãos, até Karl Marx e seus seguidores, muitos foram os homens que aderiram abertamente ao projeto do mal e muitos foram os passos dados rumo ao “amor de si até ao desprezo de Deus" [3].

É verdade que, hoje, tantas coisas más e perversas que os homens cometem ganham gentilmente outros nomes. Hoje sequer se ouvem mais as palavras “pecado" ou “erro". Todas as ações humanas transitam entre o “conveniente" e o “socialmente inapropriado", entre o “agradável" e o “politicamente correto". Só que nem mil jogos de palavras podem mudar ou desfazer a realidade das coisas. Conscientemente ou não, quem quer que trabalhe para implantar no mundo um “sistema de pecado" – como é o caso de organizações que financiam o aborto, de grupos que querem a destruição da família e de religiosos que pedem a implantação de uma religião única e mundial, sem Cristo e sem a Igreja – está trabalhando para Satanás.

As palavras não são exageradas. O próprio Jesus não poupou palavras para denominar os mentirosos: “Vós tendes como pai o demônio e quereis fazer os desejos de vosso pai". Semelhantes palavras podem ser dirigidas a quem, obstinado no mal, opera incansavelmente para defender a morte e a mentira, obras daquele “era homicida desde o princípio e não permaneceu na verdade" [4].

É verdadeiramente monstruosa a construção – ou a destruição – que os filhos das trevas fazem no mundo. No entanto, não é sadio que os cristãos se detenham diante dessa imensa Babel, nem que cruzem os braços, inertes. Afinal, “todas as coisas" – inclusive a ação dos anjos decaídos – “concorrem para o bem dos que amam a Deus" [5]. Os filhos de Deus não devem temer: nas batalhas desta vida, são guiados e amparados por “aquela misteriosa presença de Deus na história, que é a Providência" [6].


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Referências

  1. Gn 1, 26
  2. Pio XII, Discorso agli uomini di Azione Cattolica, 12 ottobre 1952
  3. Santo Agostinho, De Civitate Dei, XIV, 28
  4. Jo 8, 44
  5. Rm 8, 28
  6. Centesimus Annus, 59

| Categoria: Notícias

Reze pela Venezuela

Venezuelanos vão às ruas pedir a deposição do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro. Os protestos, que reuniram estudantes, médicos, donas de casa e até sacerdotes, são pelo fim de um regime ditatorial que já dura mais de uma década.

As ruas da Venezuela têm sido tomadas por milhares de pessoas que, em várias cidades do país, protestam contra o regime socialista e ditatorial de Nicolás Maduro, sucessor e herdeiro do chavismo. O cenário nacional, já transformado há muito por uma política de orientação claramente de esquerda, é desalentador. Por isso, não é a primeira vez que os protestos são assumidos pela população, privada de liberdade e dos recursos mais básicos para a própria sobrevivência.

O país, que vive uma onda de insegurança, com taxas altíssimas de homicídios (o país fechou o ano de 2013 com o número impressionante de 25 mil mortos[1]), enfrenta também, há muito tempo, a escassez de produtos de consumo, como leite, óleo, açúcar, carne e farinha, e também de higiene pessoal. Com a elevação da taxa inflacionária, a imprensa não pode nem mesmo comprar papel para a confecção e distribuição de jornais impressos.

Insatisfeitos com a situação política, econômica e social do país, os venezuelanos foram em massa ao protesto: estudantes, médicos, donas de casa e até sacerdotes saíram às ruas para pedir a deposição de Maduro. E tudo foi realizado de modo pacífico e ordeiro, como explica Graça Salgueiro, no “Observatório Latino", da Rádio Vox1. “Bastante ao contrário aqui do Brasil, as marchas deles são de fato pacíficas", conta a jornalista. “Eles vão para as ruas apenas com a bandeira nacional e saem fazendo as cobranças ao governo, com cartazes e faixas", mas sem “nenhuma coisa que possa provocar alguma agressão, alguma violência"[2].

Do outro lado, porém, a polícia e as milícias chavistas atuaram com dureza na repressão dos protestos. Vários estudantes detidos reclamam ter recebido torturas degradantes por parte da Guarda nacional[3]. “Como sempre, a polícia, que é politizada, aparelhada pelo chavismo, parte para a violência. E violência com armas de fogo", explica Graça Salgueiro. Em um vídeo que circulou amplamente na Internet, é possível ver como os agentes da Guardia Nacional Bolivariana tratam um dos manifestantes capturados:

Em meio ao clima de instabilidade vivido no país, foram assassinados, na noite do sábado (15), em Valência, dois padres salesianos – Jesús Erasmo Plaza, 79, e Luis Heriberto Sánchez, de 84 anos[4]. Os sacerdotes, apunhalados por dois menores, morreram em circunstâncias estranhas. Em Maracaibo, também um padre foi gravemente ferido pela Guarda Nacional, durante um protesto na Praça da República[5].

Não bastasse a violência com que atuam as milícias do governo, o canal internacional NTN24, que exibia vídeos das manifestações ocorridas no país, foi tirado do ar, sob a alegação de estar violando leis nacionais. O presidente da Comissão Nacional de Telecomunicações (Conatel), William Castillo, afirmou que a página do canal na Internet ficará bloqueada enquanto a rede de televisão continuar com seus “intentos de apoiar ativamente a desestabilização"[6].

Está mais do que claro o cerceamento da liberdade de imprensa e dos próprios direitos fundamentais em solo venezuelano. O povo brasileiro, em solidariedade às pessoas que vivem sob esse regime antidemocrático, de cuja repressão não poucos governantes latino-americanos são vergonhosamente cúmplices[7], deve mobilizar-se para ajudar seus vizinhos, não poupando orações e penitências por eles. O Pray for Venezuela [“Reze pela Venezuela"], lançado na Internet, é um movimento que reúne vários homens de boa vontade, dispostos a implorar a Deus as suas bênçãos para o povo venezuelano.

Também é importante que os brasileiros assinem uma petição criada pelo site CitizenGO, pedindo a intervenção da Organização dos Estados Americanos na Venezuela. A carta, que deve ser endereçada ao secretário-geral da organização, José Miguel Insulza, solicita que “se aplique o mais rápido possível a carta democrática da OEA" no país, já que “a cada minuto direitos são pisoteados, cidadãos são humilhados e uma ditadura se fortalece no poder". A carta democrática[8] da OEA estabelece, entre outras coisas, que “os povos da América têm direito à democracia", que “seus governos têm a obrigação de promovê-la e defendê-la" (art. 1º) e que “a liberdade de expressão e de imprensa" é um dos “componentes fundamentais do exercício da democracia" (art. 4º). Para que o texto desse documento não se torne mera letra morta, é muito importante que se assine esta petição.

Para assiná-la, basta entrar no site CitizenGO, escrever o seu nome, o seu e-mail, o nome do país em que mora e clicar em “ASSINE".

Roguemos a Nossa Senhora de Guadalupe, padroeira da América Latina, que abençoe não só a Venezuela, como todo o nosso continente, e o livre do flagelo do socialismo.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Vídeos recomendados

Referências

  1. Venezuela é 3º país mais violento do mundo, diz ONG – Jornal O Globo
  2. Venezuela – Programa “Observatório Latino", 14 fev. 2014 | Rádio Vox
  3. Foro Penal Venezolano: Estudiantes detenidos recibieron torturas y violaciones a DDHH – MiamiDiario.com
  4. Dois padres salesianos são assassinados na Venezuela – G1
  5. El padre Jose Palmar fue herido gravemente por la GNB en la Plaza de la Republica “Maracaibo" – S.O.S. Venezuela
  6. Conatel afirma que página de NTN24 continuará bloqueada mientras “apoye la desestabilización" | NTN24
  7. Para entender como a ascensão da esquerda socialista na América Latina foi um processo articulado,recomenda-se a leitura das atas do Foro de São Paulo.
  8. Carta Democrática - Organização dos Estados Americanos

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Os frutos de uma vida sem fé

A cruzada do ateísmo militante contra a fé cristã não só abre caminho para falsificações da realidade, como também para o ressurgimento do paganismo

O mundo relativista também tem seus dogmas. Torna-se cada vez mais comum nos dias de hoje a exclusão da fé cristã, como um pressuposto básico para o desencadeamento de uma ação social. O simples ato de crer é considerado um comportamento desumano, tendo-se a impressão de que a fé levaria o indivíduo a uma espécie de alienação de seus direitos, posto que a pessoa se perde em orações e rituais sem sentido. O homem, portanto, deveria ser privado da fé ou, ao menos, esclarecido sobre os males que advêm dela, sobretudo daquelas religiões que pregam a crença num Deus único e pessoal.

A tentativa de eliminar-se a fé das pessoas foi uma constante nos últimos dois séculos. Sob o axioma marxista de que a religião seria o “ópio do povo”, inúmeros governos, mormente aqueles de índole gnóstica e ateia, subjugaram povos inteiros, acusando-os até mesmo de crime contra a pátria, simplesmente por aplicarem a máxima cristã do “dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Cf. Mt. 12,15-21). Foi assim que o governo maçom de Plutarco Elías Calles dizimou centenas de cristãos, no México, durante a chamada Guerra de Cristiada, na década de 20, com o pretexto de impedir o avanço de “crenças fundamentalistas”[1]. De igual modo, nazistas e comunistas no leste europeu deram cabo de mais de 100 milhões de vidas, em apenas um século, montados nos auspícios do que Pio XI acertadamente chamou de “ideologia neopagã detestável”[2]. De fato, a loucura revolucionária, segundo os cálculos do professor R.J. Rummel, da Universidade do Havaí, levou à morte mais civis no século XX do que todas as guerras e catástrofes naturais do começo da civilização até hoje somadas. Eis o tamanho do crime: 262 milhões de mortos e contando[3].

O montante de corpos contabilizados pelas sendas da revolução dá-nos a prova do quão equivocado está aquele professor universitário que, a fim de conquistar a turma e demonstrar ares de superioridade intelectual, precisa fazer troça da Igreja Católica e daqueles que ousam romper o dogma de que é necessário desertar de seu batismo para conquistar um diploma acadêmico. Ateísmo não é sinônimo de inteligência. Pelo contrário, trata-se de uma simples negação da realidade e, em última análise, das suas exigências. Com efeito, diz-nos Bento XVI: “somente quem reconhece Deus, conhece a realidade e pode corresponder-lhe de modo adequado e realmente humano”[4]. E essa afirmação se torna tanto mais verdadeira quando confrontada com os frutos do “século do nada” – para usar uma expressão de Gustavo Corção. Seja na ficção científica de Richard Dawkins – a nova coqueluche do neoateísmo –, seja nos diálogos de Nietszche – sobretudo no seu “Assim falou Zaratustra” –, o que se percebe no ateísmo militante é muito mais uma atitude de afetação e preconceito religioso do que de autêntica sabedoria.

Certamente, os ateus que procuram acoimar os cristãos de ignorantes desconhecem a literatura de Chesterton, a profundidade filosófica de Edith Stein, os progressos científicos de Jerome Lejeune – o responsável pela descoberta da trissomia 21, comumente conhecida por Síndrome de Down –, a pesquisa histórica de Paul Johnson e Daniel-Rops ou, quem sabe ainda, a famosíssima mitologia de J.R.R. Tolkien. Não por acaso, C.S. Lewis, outro autor cristão de renome internacional, acabou deixando a bobagem agnóstica para trás justamente pelo exemplo do amigo criador d’O Senhor dos Anéis:

[...] Lewis achava difícil aceitar o fato de que seu novo amigo era um dos homens mais interessantes, intelectuais e inteligentes que ele jamais havia conhecido e ainda um cristão devoto - e católico, para começar.[5]

A cruzada ateísta contra a fé cristã não só abre caminho para a falsificação do conceito de realidade, como também para o ressurgimento do paganismo. Quando não se crê em Deus, acaba-se crendo em tudo. “A superstição” – recorda-nos G.K. Chesterton – “ocorre em todas as épocas, e especialmente em épocas racionalistas”[6]. E o resultado não podia ser outro, senão o que já foi visto em todos os períodos em que a humanidade foi deixada à mercê dos falsos deuses. O cristianismo, por sua vez, baseia-se em outra medida: Nosso Senhor Jesus Cristo. É Ele que vem a nós, é Ele o nosso fundamento. A partir disso, constitui-se grande verdade a afirmação do Papa Francisco, na última Mensagem para o dia mundial da paz:

[...] Uma verdadeira fraternidade entre os homens supõe e exige uma paternidade transcendente. A partir do reconhecimento desta paternidade, consolida-se a fraternidade entre os homens, ou seja, aquele fazer-se «próximo» para cuidar do outro.[7]

Quando se coloca Deus entre parêntesis, pretendendo-se assim dar prioridade aos bens materiais, econômicos e políticos, começa-se por incutir no coração do homem uma lógica gladiadora, na qual todos são nivelados à condição de objeto. É humano aquele que tiver mais poder. Disso nasce a famosa frase do ateu Jean-Paul Sartre: “o inferno são os outros”. O homem deixa de ser irmão para se converter em obstáculo. E uma tal lógica só poderia “terminar por caminhos equivocados e com receitas destruidoras.”[8] Diz-nos o evangelho que uma árvore é reconhecida pelos seus frutos. Certamente, 262 milhões de mortos não são o que poderíamos chamar de “bons frutos”.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. A história da guerra de Cristiada pode ser vista no ótimo filme For Greater Glory, em que se retrata a saga do menino José Sanches del Río, martirizado pelos algozes do governo, e beatificado pelo Papa Bento XVI, em 2005.
  2. Pio XI, Carta Encíclica Mit Brennender Sorge (14 de março de 1937)
  3. Olavo de Carvalho, O tamanho do crime, in Diário do Comércio (19 de fevereiro de 2009)
  4. Bento XVI, Sessão inaugural da V Conferência do episcopado da América Latina (13 de maio de 2007), n. 3
  5. WHITE, Michael. J.R.R. Tolkien, o senhor da fantasia. Rio de Janeiro: DarkSide, 2013, p. 129
  6. CHESTERTON, Gilbert Keith. O homem eterno. São Paulo: Mundo Cristão, 2010, p. 123
  7. Francisco, Mensagem para a celebração do XLVII Dia Mundial da Paz (8 de dezembro), n. 1
  8. Bento XVI, Sessão inaugural da V Conferência do episcopado da América Latina (13 de maio de 2007), n. 3