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Os bastidores espirituais de um atentado

Ou o Ocidente regressa ao Evangelho ou continuará a resvalar para o abismo.

O terrorismo islâmico mais uma vez fez as suas vítimas na Europa: desta vez, na cidade francesa de Nice, foram assassinadas mais de 80 pessoas. O Estado Islâmico já assumiu a autoria do ataque e os franceses novamente depositam sobre o asfalto, onde morreram brutalmente seus entes queridos, flores e lágrimas, de luto e de incompreensão.

Não é sobre o Islã, contudo, que pretendemos falar nestas breves linhas. Nossa pretensão aqui é fazer uma análise mais profunda, de natureza histórica e espiritual.

Comecemos com uma frase dita por Nossa Senhora das Graças a Santa Catarina Labouré, a religiosa francesa e vidente da Medalha Milagrosa, no dia 19 de julho de 1830: "Os tempos são maus", ela diz. "Haverá desgraças de toda espécie no mundo inteiro."

É importante que a Santíssima Virgem se refira à maldade deste período determinado da história em que vivemos. Embora sejam muitos os eventos do último século que mostrem como o homem se tem afastado de Deus — a Renascença e a Reforma são apenas alguns exemplos —, um deles, emblemático, estava sendo comemorado no momento exato em que ocorreu o atentado de Nice: a "Tomada da Bastilha". Feriado na França, aconteceu no dia 14 de julho de 1789 e selou o que hoje se conhece pelo nome de "Revolução Francesa".

O que foi esse acontecimento não é o tema deste artigo. Para mostrar o que ele significou, no entanto, basta-nos lembrar a "Constituição Civil do Clero", de 1790, que transformou boa parte dos sacerdotes católicos em "funcionários públicos" do Estado francês — numa nítida reprodução da primeira Besta do Apocalipse (cf. Ap 13, 1-10) — ou os "períodos de terror" que se multiplicaram nos anos seguintes à Revolução, levando à guilhotina, por exemplo, as 16 freiras carmelitas de Compiègne, acusadas de "fanatismo" e assassinadas enquanto invocavam o auxílio do Espírito Santo.

De lá para cá, o afastamento de Deus por parte do homem só se acentuou ainda mais. Primeiro, como denunciou certa vez o Papa Pio XII, gritou-se: "Cristo sim, a Igreja não! Depois: Deus sim, Cristo não! Finalmente, o grito ímpio: Deus está morto; e, até, Deus jamais existiu" [1].

As consequências disso são visíveis nas leis produzidas mundo afora. As autoridades civis há muito deixaram de consultar qualquer tipo de norma superior e transcendente para orientar sua conduta e ação pública: não há mais nem religião nem natureza à qual devam obedecer, nem um Deus ao qual tenham de um dia prestar contas. Não havendo nada, portanto, para além de suas "mentes iluminadas", tudo está permitido: desde o assassinato de seres humanos indefesos no ventre de suas mães, pelo aborto, até o abuso e a corrupção das crianças, pela ideologia de gênero. As leis deixaram de ser ditadas pela razão — como Santo Tomás sabiamente prevê que as leis devem ser feitas [2] — para serem impostas pelo mero arbítrio dos legisladores.

Esse quadro só existe, obviamente, porque a sociedade como um todo está em franca decadência moral: antes que Deus fosse destronado da vida pública das nações, Ele já havia sido expulso das casas cristãs, substituído pela ilusão da tecnologia e transformado em um mero acessório de domingo; antes do Estado laico, o que pavimentou o caminho para o "ateísmo moderno" foram as famílias laicas, as famílias de "católicos mornos", mais dispostos a agradarem ao mundo e conseguirem felicidade nesta vida do que a agradar a Deus e educar seus filhos — seus já reduzidos filhos — para o Céu.

Neste sentido, as linhas seguintes, de autoria do padre francês Stéphane Joseph Piat, o conhecido biógrafo da família de Santa Teresinha, são de uma atualidade fora do comum:

"A França [e por França se entenda aqui o Ocidente como um todo] reinava no mundo quando era o país dos lares estáveis e dos berços. O declínio inexorável principiou quando ela deixou desmoronar a casa e procurou diminuir as fontes da vida. Que vale o ardor no trabalho, a coragem física, o heroísmo militar, se a raça se entrega despreocupadamente ao suicídio coletivo que é o medo dos filhos?" [3]

Qual seja a solução para esse "egoísmo profundo que considera o filho como um estorvo", é esse mesmo sacerdote quem indica:

"Não é uma política de natalidade de vistas curtas que pode sobrepujar este obstáculo; torna-se indispensável o recurso intensivo às forças espirituais. Um vasto inquérito nacional sobre as causas da diminuição da natalidade não levaria a colocar em primeiro plano o esquecimento das normas religiosas? A família ou há-de ser cristã ou deixará de existir. Ou a França regressa ao Evangelho ou continuará a resvalar para o abismo." [4]

"A família ou há-de ser cristã ou deixará de existir". A França, e com ela todo o Ocidente outrora cristão, ou "regressa ao Evangelho ou continuará a resvalar para o abismo". Só uma sociedade com fortes laços cristãos é capaz de resistir às ideologias e às armas que a ameaçam. Os países que evangelizaram o mundo se iludem construindo alianças políticas e econômicas — como é a União Europeia — quando, na verdade, o seu primeiro grande ponto de convergência deveria ser o Cristo, aquele que primeiro os conquistou com o Seu sangue derramado na Cruz.

Não nos esqueçamos nunca, portanto, que o drama mais terrível que pode acontecer a uma sociedade não é que ela se afunde em crises econômicas ou colapsos políticos, mas que dê de ombros para as almas. O que Cristo veio trazer a este mundo, afinal, não foi sucesso nem prosperidade, mas salvação espiritual.

E é justamente às palavras de nosso divino Redentor que recorremos ao término desta reflexão, a fim de lembrar que atitude devemos tomar diante de tragédias e catástrofes como a de Nice, que se tornaram infelizmente tão comuns ao redor do mundo. Ao comentar duas fatalidades de Seu tempo, uma de natureza criminosa — que foi o assassinato de alguns galileus por Pôncio Pilatos, enquanto ofereciam sacrifícios religiosos —, outra de ordem acidental — como foi o esmagamento de dezoito homens pela queda da torre de Siloé —, Nosso Senhor Se perguntava se aqueles atingidos por essa sina eram por acaso mais pecadores que os outros homens. A Sua resposta foi a seguinte:

"Pensais que esses galileus eram mais pecadores do que qualquer outro galileu, por terem sofrido tal coisa? Digo-vos que não. Mas se vós não vos converterdes, perecereis todos do mesmo modo. E aqueles dezoito que morreram quando a torre de Siloé caiu sobre eles? Pensais que eram mais culpados do que qualquer outro morador de Jerusalém? Eu vos digo que não. Mas, se não vos converterdes, perecereis todos do mesmo modo." (Lc 13, 2-5)

Quem tiver ouvidos para ouvir, ouça! Nenhum dos fatos que acontecem na história dos homens é sem razão ou sem propósito. Deus nos convida à penitência! Não sejamos surdos ao Seu apelo!

Regressemos, enfim, à mensagem da Virgem da Medalha Milagrosa. "Quando tudo parecer perdido", diz ela a Santa Catarina Labouré, "lá eu estarei convosco".

A promessa da Mãe de Deus permanece. Que as famílias que perderam seus entes nesse terrível atentado sejam acolhidas pelo abraço materno de Nossa Senhora. Que ela console os corações aflitos e que as almas dessas pessoas, pela misericórdia de Deus, descansem em paz.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Papa Pio XII, Discurso por ocasião do 30.º aniversário da Ação Católica (12 de outubro de 1952), n. 16: AAS 44 (1952), pp. 830-835.
  2. Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, I-II, q. 90, a. 1.
  3. Stéphane Joseph Piat, História de uma família, 3. ed., Braga, Apostolado da Imprensa, p. 12.
  4. Ibid., p. 13.

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Ateísta decide estudar autores católicos e acaba se convertendo à Igreja

Ávida leitora dos pensadores neo-ateus, a vida de Megan Hodder virou de ponta-cabeça quando ela começou a ler o trabalho dos seus inimigos católicos

Por Megan Hodder | Tradução: Equipe CNP — Na última Páscoa, quando eu estava apenas começando a explorar a possibilidade de que devia haver algo a mais na fé católica, ao contrário do que eu havia suposto e sido levada a acreditar, eu li "Cartas a um jovem católico", de George Weigel, e uma passagem em particular me chamou a atenção.

Falando dos milagres do Novo Testamento e do significado da fé, Weigel escreve: "Na visão católica das coisas, andar sobre as águas é algo totalmente sensato a se fazer; ficar no barco, atendo-se obstinadamente às nossas pequenas comodidades, é que é loucura."

Nos meses seguintes, aquela vida fora do barco — a vida da fé — começaria a fazer cada vez mais sentido para mim, até que eu eventualmente não pudesse mais justificar ficar parada. No último fim de semana eu fui batizada e confirmada na Igreja Católica.

Isso, é claro, não era para acontecer. Fé não é algo que se espera que a minha geração assuma, mas que deixe de lado. Eu fui criada sem nenhuma religião e tinha oito anos quando aconteceu o atentado de 11 de setembro. Religião era algo irrelevante na minha vida pessoal e que tinha preenchido meus anos de escola com um pano de fundo de notícias violentas e extremistas. Eu lia avidamente Richard Dawkins, Sam Harris e Christopher Hitchens, cujas ideias eram tão parecidas com as minhas que eu podia empurrar quaisquer incertezas que tivesse para o fundo da minha mente. No fim das contas, qual alternativa havia para o ateísmo?

Na adolescência, percebi que precisava ler além dos meus polemistas favoritos, bem como começar a pesquisar as ideias dos mais egrégios inimigos da razão, os católicos, a fim de defender com mais propriedade minha visão de mundo. Foi aqui, ironicamente, que os problemas começaram.

Comecei lendo o discurso do Papa Bento XVI em Ratisbona, consciente de que ele havia gerado controvérsia na ocasião e era uma espécie de tentativa — fútil, é claro — de reconciliar fé e razão. Também li o menor livro dele que pude encontrar, On Conscience. Eu esperava — e desejava — achar alguma intolerância e irracionalidade que pudesse justificar meu ateísmo. Ao contrário, fui colocada diante de um Deus que era o Logos; não um ditador sobrenatural esmagando a razão humana, mas o parâmetro auto-expressivo de bondade e verdade objetiva pelo qual se orienta e se completa a nossa razão, um ente que não controla roboticamente a nossa moralidade, mas, ao contrário, é a fonte de nossa capacidade de percepção moral, uma percepção que requer desenvolvimento e formação por meio do exercício consciente do livre arbítrio.

Era uma percepção da fé mais sutil, mais humana e, sim, mais credível do que eu esperava. Não me conduziu a nenhuma grande epifania espiritual, mas animou-me a olhar mais para o catolicismo, e a reexaminar alguns dos problemas que eu tinha com o ateísmo a partir de um olhar mais crítico.

Primeiro, moralidade. Na minha cabeça, uma moralidade ateísta tendia a dois campos igualmente problemáticos: ou era subjetiva ao ponto da insignificância ou, quando seguida logicamente, implicava efeitos intuitivamente repulsivos, como a posição de Sam Harris a respeito da tortura. Mas as mais atraentes teorias que podiam contornar esses problemas, como a ética das virtudes, geralmente o faziam pressupondo a existência de Deus. Antes, com minha compreensão caricata de teísmo, eu acharia isso nonsense. Agora, com o entendimento mais detalhado que eu começava a desenvolver, eu não tinha mais tanta certeza assim.

Depois, metafísica. Eu logo percebi que confiar nos neo-ateístas para argumentar contra a existência de Deus tinha sido um erro: Dawkins, por exemplo, dá um tratamento propositalmente superficial a Santo Tomás de Aquino em "Deus, um delírio", lidando apenas com um resumo das cinco vias do Aquinate — e distorcendo as provas resumidas, ainda por cima. Inteirando-me totalmente das ideias aristotélico-tomistas, descobri nelas uma válida explanação do mundo natural, contra a qual os filósofos ateístas haviam falhado em fazer um ataque coerente.

O que eu ainda não entendia era como uma teologia que operava em harmonia com a razão humana podia ser, ao mesmo tempo, nas palavras de Bento XVI, "uma teologia fundamentada na fé bíblica". Eu sempre tinha assumido que a sola scriptura, com suas evidentes falácias e deficiências, era o modo como todos os cristãos crentes e consistentes liam a Bíblia. Por isso, fiquei surpresa ao descobrir que essa visão podia ser robustamente refutada seja através de um ponto de vista católico — lendo a Bíblia através da Igreja e de sua história, à luz da Tradição — seja através de um ponto de vista ateu.

Procurei por absurdos e inconsistências na fé católica que pudessem descarrilhar minhas ideias da inquietante conclusão à que eu me dirigia, mas o irritante do catolicismo é a sua coerência: uma vez que você aceita a estrutura básica de conceitos, todas as outras coisas se ajustam no lugar com uma incrível rapidez. "Os mistérios cristãos são um todo indivisível", escreveu Edith Stein em "A ciência da cruz". "Se nos tornamos imersos em um deles, somos levados a todos os outros". A beleza e autenticidade até das partes aparentemente mais difíceis do catolicismo, como a moral sexual, tornaram-se claras quando não eram mais vistas como uma lista descontextualizada de proibições, mas componentes essenciais no corpo intricado da doutrina da Igreja.

Restava um último problema, porém: minha falta de familiaridade com a fé enquanto algo vivido. Para mim, toda a prática e linguagem da religião – oração, hinos, Missa – era algo totalmente estranho, em cuja direção eu relutava dar o primeiro passo.

Minhas amizades com católicos praticantes finalmente me convenceram que eu tinha que tomar uma decisão. Fé, no fim das contas, não é meramente um exercício intelectual, um assentimento a certas proposições; é um radical ato da vontade, que engendra uma mudança da pessoa inteira. Os livros me levaram a ver o catolicismo como uma conjectura plausível, mas o catolicismo como verdade viva eu só comecei a entender observando aqueles que já serviam a Igreja por meio da vida da graça.

Eu cresci numa cultura que tem amplamente dado as costas para a fé. Por isso eu era capaz de tocar a vida em frente sem que meu ateísmo deformado fosse posto à prova, e isso explica pelo menos parcialmente a grande extensão de apoio popular que têm os neo-ateístas: para cada ateu ponderado e bem informado, haverá outros com nenhuma experiência pessoal de religião e nenhum interesse em argumentar simplesmente aderindo à maré cultural.

No entanto, à medida que a popularidade do ateísmo beligerante e presunçoso for decaindo, cristãos sérios capazes de explanar e defender a sua fé se tornarão uma presença cada vez mais vital na esfera pública. Espero que eu seja um pequeno exemplo da força de atração que a Igreja Católcia ainda carrega em uma era que às vezes parece tão irremediavelmente oposta a ela.

Fonte: The Catholic Herald | Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere

P.S.: Este texto foi originalmente publicado aqui em 30 de agosto de 2013, sob o título "A ortodoxia ateísta que me trouxe à fé".

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Ser cristão, uma fecunda "perda de tempo"

​A uma sociedade que abandonou a fé e considera um "desperdício" ser cristão, a grande Santa Teresinha do Menino Jesus tem uma resposta a oferecer.

O vocalista da banda de rock AC/DC, Brian Johnson, considera todas as religiões "uma perda de tempo". O músico é parte de uma cultura que relegou a fé, a metafísica e a transcendência para o segundo plano, como se fossem temas pouco importantes – quando não "fantasiosos". É a geração que acredita que "Deus morreu", que não sabe – ou não quer – rezar porque não está na moda, e que vive, em última instância, sem um sentido pelo qual viver. Tragicamente, antes de acharem que os religiosos perdem tempo indo à igreja, para eles, só o fato de viver já é uma grandíssima perda de tempo.

A palavra "perda", no entanto, não é totalmente estranha ao vocabulário dos Evangelhos. Deixando de lado a descrença e a provocação de Brian Johnson, é preciso concordar que o seguimento de Jesus comporta uma certa renúncia, não só do tempo que se tem, mas de todas as coisas. É o próprio Senhor quem o ensina:

"Quem ama pai ou mãe mais do que a mim, não é digno de mim. E quem ama filho ou filha mais do que a mim não é digno de mim. E quem não toma a sua cruz e não me segue, não é digno de mim. Quem buscar sua vida a perderá, e quem perder a sua vida por causa de mim a encontrará." (Mt 10, 37-39)

"Todo aquele que tiver deixado casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, filhos ou campos, por causa do meu nome, receberá cem vezes mais e terá como herança a vida eterna." (Mt 19, 29)

"Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz, cada dia, e siga-me. Pois quem quiser salvar sua vida a perderá, e quem perder sua vida por causa de mim a salvará." (Lc 9, 23-24)

"Se alguém vem a mim, mas não me prefere a seu pai e sua mãe, sua mulher e seus filhos, seus irmãos e suas irmãs, e até à sua própria vida, não pode ser meu discípulo." (Lc 14, 26)

"Quem se apega à sua vida, perde-a; mas quem não faz conta de sua vida neste mundo, há de guardá-la para a vida eterna." (Jo 12, 25)

Não se pode enganar as pessoas "maquiando" ou adaptando as partes mais duras do ensinamento de Cristo. As exigências da fé cristã são, de fato, muito sérias. O amor que Nosso Senhor pede por parte dos que desejam segui-Lo chega a soar escandaloso: é preciso preferi-lo aos próprios parentes, à própria esposa, à própria vida!

O que não se pode perder de vista é o precioso tesouro escondido no campo (cf. Mt 13, 44), a razão que faz com que tantos homens e mulheres, de todos os povos e nações, de todas as raças e línguas, vendam tudo o que têm, deixem tudo o que possuem e transformem tudo o que são, só para se fazerem cristãos. Ao lado da perda que traz consigo o seguimento do Evangelho, há um ganho infinitamente superior e absolutamente incomparável: a amizade de Deus nesta vida e a felicidade perfeita no Céu.

Santa Teresinha do Menino Jesus sabia muito bem disso. Em um de seus poemas, ela dialoga com o Evangelho, na parte em que Maria de Betânia lava os pés do Senhor com "perfume de nardo puro e muito caro". O discípulo traidor, ao ver tamanho "desperdício", comenta: "Por que esse perfume não foi vendido por trezentos denários para se dar aos pobres?" ( Jo 12, 5). Santa Teresinha põe essa mesma indagação na boca do mundo e compõe os belos versos seguintes:

"Vivre d'Amour, quelle étrange folie!"
Me dit le monde, "Ah! cessez de chanter,
e perdez pas vos parfums, votre vie,
Utilement sachez les employer!..."
T'aimer, Jésus, quelle perte féconde!...
Tous mes parfums sont à toi sans retour,
Je veux chanter en sortant de ce monde:
"Je meurs d'Amour!"

"Viver de Amor, que estranha loucura!"
Diz-me o mundo: "Ah, cessa de cantar,
não percas teus perfumes, tua vida,
Utilmente procura empregá-los!..."
Amar-te, Jesus, que perda fecunda!...
Todos meus perfumes são teus sem retorno,
Eu vou cantar ao sair deste mundo:
"Eu morro de Amor!" [1]

Amar Jesus, diz Santa Teresinha, é uma perte féconde, uma "perda fecunda". Não há nada maior com que gastar os nossos anos, o breve tempo que se nos afigura nesta vida, que com o amor de Deus, porque, no final, Ele será o único que nos restará, a melhor parte, que não nos será tirada (cf. Lc 10, 42). A "perda de tempo" dos que amam a Deus é, portanto, o "santo desperdício" de quem ganha a eternidade!

Não temamos, pois, "perder o nosso tempo" com as coisas de Deus! Gastar as nossas horas diante do Santíssimo Sacramento, com o Santo Rosário, com as conversações celestes! "Desperdiçar" a nossa juventude "confinado" em uma igreja ou "aprisionado" em casa com a própria família! Tenhamos sempre diante dos olhos Aquele que é o motivo de nossas loucuras ( folies), na certeza da fé de que Deus sabe recompensar os que O amam e n'Ele esperam [2]; de que, como diz o Papa Bento XVI, quem escolhe Jesus não perde nada, ganha tudo [3]!

Lembremo-nos também que não fomos nós, na verdade, quem O amamos primeiro, mas Ele; não somos nós quem subimos, com nossas próprias forças, ao Céu, mas é Ele quem desce a nós.

Amemo-Lo, pois, amemo-Lo com todas as forças de nossa alma. "Se nos custava antes amá-Lo, não nos custe agora retribuir-Lhe o amor" [4], diz Santo Agostinho. Pensemos em todos os bofetões, cusparadas, flagelos e espinhos que o próprio Deus sofreu por nossa causa e simplesmente consolemos o Seu Coração, rendamos-Lhe a nossa gratidão. E, um dia, com Santa Teresinha, no Céu, possamos também nós cantar que perdemos fecundamente a nossa vida, vivendo – e morrendo – de Amor!

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Poesia 17 ("Viver de Amor").
  2. A fé como meio de alcançar a graça do Espírito Santo, 7. In: Introdução ao Cristianismo. Acesso em: 26 nov. 2015.
  3. Cf. Homilia na Missa de Coroação e início do pontificado (24 de abril de 2005).
  4. De Catechizandis Rudibus, IV, 7 (PL 40, 314).

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A fé sem oração é morta

Dá pra acreditar em Deus e ficar sem rezar? O que acontece com quem acredita, mas não vive de acordo com o que crê, nem se dedica à oração? Entenda por que, no fundo, a crise de fé da modernidade é, também e principalmente, uma “crise de oração”.

Tão importante é o tema da tentação, que mereceu ser incluído por Nosso Senhor na oração do Pai-Nosso: "Não nos deixeis cair em tentação" (Mt 6, 13). Tão negligenciado, porém, é esse mesmo assunto, que bem se pode dizer que a única tentação da qual muitos ouviram falar foi aquela que seduziu Adão e Eva, no Jardim do Éden (cf. Gn 3, 1-7). As pessoas – e, deve-se dizer, os cristãos – vivem como se tentações não existissem – e, com elas, tampouco o pecado, o demônio ou o inferno.

Isso acontece porque o mundo está impregnado de materialismo e não consegue mais elevar os seus olhos para nada que esteja além da experiência dos sentidos. Verdadeiro, então, é o que se pode ver, ouvir, tocar, cheirar ou sentir... Todo o resto parece situar-se no campo da mera subjetividade. O próprio Deus é muitas vezes reduzido a um "sentimento", a alguns arrepios que se sentem durante um culto religioso ou uma palestra motivacional. As realidades espirituais, porque invisíveis, deixaram de ser reais para o homem moderno, deixaram de ser úteis e, lamentavelmente, são muitos os que as abandonam.

Em seu pontificado, o Papa Bento XVI falou inúmeras vezes da existência de uma "crise de fé" [1]. Mas, o que Sua Santidade queria dizer com isso? Não existem, de fato, tantas pessoas no mundo que creem em Deus, que continuam a ir à igreja aos domingos e que acreditam na vida após a morte?

É verdade, o fenômeno religioso não foi completamente deixado de lado pela modernidade. A fé do homem moderno, porém, está construída sobre a areia (cf. Mt 7, 26-27). A religião tornou-se um como que "acessório", algo que se compra no supermercado da vida e se pode descartar quando já se tiverem esgotado todos os seus benefícios práticos. Assim, quando um padre faz uma homilia sobre a cura de algum mal ou sobre "o amor" – esse termo que "se tornou hoje uma das palavras mais usadas e mesmo abusadas" pelas pessoas [2] –, como esses temas soam agradáveis aos ouvidos, os bancos se enchem e oferecem palmas. Quando, porém, essa mesma multidão ouve alguma notícia no jornal, dizendo que a Igreja Católica não aceita isto ou aquilo, os mesmos que há pouco aplaudiam se enfurecem e destilam o seu ódio contra a religião.

É triste perceber que a grande massa de fiéis que frequenta as nossas igrejas não é muito diferente daquela multidão que pediu a crucificação de Jesus: depois de uma entrada triunfal em Jerusalém (cf. Mt 21, 1-11), Cristo terminou suspenso num madeiro, posposto a um criminoso e condenado pelo mesmo povo que O tinha recebido com festa às portas da cidade: "Este não, mas Barrabás!" (Jo 18, 40). Do mesmo modo, quando ouvem as coisas boas, os frequentadores de igreja se alegram; quando o que escutam lhes fere, eles se entristecem e voltam para casa.

Há, sim, na Igreja, uma crise de fé, mas é uma crise de fé "vivida", por assim dizer. São Tiago dizia com acerto que "a fé sem obras é morta" (Tg 2, 17). Ou seja, se alguém diz crer, mas não muda o seu comportamento, não conforma a sua vida àquilo em que crê, de nada adianta. Quando os hábitos e opiniões das pessoas que vão à igreja não diferem muito dos hábitos e opiniões daqueles que vivem no mundo, é preciso começar a perguntar o que está acontecendo com a catequese e com a evangelização. O que tem sido feito daqueles que deveriam ser o sal da terra e a luz do mundo (cf. Mt 5, 13-14)?

A resposta é simples: caíram em tentação. Como os discípulos na noite da agonia, os nossos católicos estão "dormindo", envolvidos pela névoa do mundo e pelas trevas do erro e da ignorância (cf. Mt 26, 36ss).

Também hoje, o remédio que Cristo receitou a Pedro, Tiago e João é o mesmo que ele oferece à modernidade: "Vigiai e orai, para não cairdes em tentação; pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca" (Mt 26, 41). Quando um famoso santo e doutor da Igreja dizia que "quem reza certamente se salva e quem não reza certamente se condena" [3], ele não brincava nem pretendia falar por hipérboles. Quem deixa de rezar; quem não para sequer alguns minutos do dia para elevar a sua mente a Deus; quem deixa de considerar que está rodeado por seu anjo da guarda; que, dentro de seu coração, habita a própria Trindade; que as pessoas à sua volta têm alma e precisam ouvir a Palavra de Deus... Pouco a pouco, cai na descrença e no indiferentismo. Sem oração – sem lidar dia após dia com as verdades eternas –, a alma vai se "petrificando", tornando-se insensível às inspirações divinas e fechando-se apenas às coisas deste mundo.

Por isso, é possível parafrasear São Tiago e dizer que, também, a fé sem oração é morta. Quem não reza fatalmente deixa de acreditar e, ao fim, acaba cedendo ao ateísmo, essa grande tentação dos nossos tempos.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Cf., v.g., Discurso durante Vigília para a Beatificação de John Henry Newman (18 de setembro de 2010); Carta Apostólica Porta Fidei (11 de outubro de 2011), n. 2; Carta Apostólica Fides per Doctrinam (16 de janeiro de 2013).
  2. Papa Bento XVI, Carta Encíclica Deus Caritas Est (25 de dezembro de 2005), n. 2.
  3. Santo Afonso de Ligório, Del gran mezzo della preghiera, I, 32.

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Jamais tocar no nome de Deus

“Jamais tocar no nome de Deus” parece ser o novo mandamento da modernidade. Nenhuma ideologia, porém, pode cancelar a sede de Deus do coração humano.

Quando Pio XII denunciou o desprezo da humanidade por Cristo, em 1952, a Segunda Guerra Mundial já havia acabado.

No conflito bélico que durou de 1939 a 1945, guerrearam entre si duas grandes ideologias anticristãs: o nazismo, do lado do Eixo, e o socialismo, entre os Aliados. A primeira havia sido denunciada pela encíclica do Papa Pio XI, Mit Brennender Sörge ("Com ardente preocupação"); a segunda foi um dos sistemas mais reprovados pelo Magistério na história da Igreja – de todos os Papas do século XX, só João Paulo I não condenou o comunismo ateu, e só não o fez porque não teve tempo.

Da ideologia de Adolf Hitler, restaram tão somente cinzas. Felizmente, o aparelho político que condenou milhares de judeus ao extermínio veio abaixo – e com a ajuda de todo o Ocidente. O socialismo, porém, até por estar do lado vitorioso, não só não foi destruído, como experimentou seus "anos de glória". No auge da Guerra Fria, o sistema soviético alcançou a simpatia de muitos facínoras sedentos pelo poder, penetrando violentamente em vários lugares do mundo.

No decorrer do tempo, todavia, especialmente com Antônio Gramsci e a influência da Escola de Frankfurt, os comunistas substituíram a iniciativa da revolução armada pela infiltração cultural. Os ideólogos marxistas não falavam mais de profanar igrejas, assassinar sacerdotes ou aprisionar religiosos – embora em várias partes do mundo eles continuassem a fazê-lo, sem remorsos. O seu novo plano era mais discreto: destruir a religião cristã por dentro, minar as próprias bases da sociedade, implantando a revolução de modo gradual e até imperceptível, se possível fosse.

Hoje, 70 anos depois do fim da Grande Guerra, é possível dizer que, no que diz respeito à religião – a qual os comunistas sempre reputaram como "o ópio do povo" –, o seu intento foi largamente alcançado. Se eles não conseguiram, é verdade, extinguir dos corações humanos o pensamento de Cristo, deram um passo que já é muito de se lamentar – banir a menção de Deus da vida pública. As pessoas continuam pensando n'Ele, no eterno e no transcendente, mas não podem dizê-lo, sob pena de serem tachadas de intolerantes, atrasadas ou "desnecessárias". O mandamento que pede que não se tome o nome de Deus em vão foi transformado em outro: não tocar nunca no Seu nome, absolutamente.

Tome-se como exemplo a jovem estrela do futebol, Neymar. No último dia 6, ao comemorar o título da Champions League com a camisa do Barcelona, o craque brasileiro usou uma faixa na cabeça, com a inscrição "100% Jesus". Essa simples e inofensiva referência ao nome de Cristo teria sido motivo de escândalo mundo afora. No Brasil, um jornalista considerou o gesto de Neymar "desnecessário"; outro escreveu que seria melhor que "certas intimidades fossem como deveriam ser, isto é, apenas íntimas".

Os dois comentários, vindos do mundo dos esportes, só confirmam a ideia que se enunciou acima. Neymar não pediu que ninguém se convertesse à fé cristã, nem fez algum discurso eloquente em defesa de Cristo. Seu único crime foi estampar o nome de Jesus em sua cabeça.

A acusação que pesa sobre o jogador é de "proselitismo religioso". "Internautas tacharam a mensagem de 'ridícula' e criticaram a tentativa do brasileiro de 'impor' sua religião aos outros", diz a notícia. De que modo Neymar estaria impondo o cristianismo aos outros, é coisa que os veículos de comunicação não explicam. Talvez o jogador devesse ser um pouco mais comedido em sua comemoração. Ao invés de "100% Jesus", uma faixa mais larga com "50% Jesus", dando a outra metade para Baal, Buda ou Zoroastro; quem sabe, uma com alguma mensagem mais palatável ao crivo dos ateus, como "Deus está morto", ou com uma inscrição exaltando Maomé – que, certamente, passaria ilesa pela crítica jornalística.

Seja como for, o problema aqui é com uma religião específica: o cristianismo. Não se suportam nem crucifixos nos tribunais, nem educação confessional nas escolas, nem menção a Cristo nos estádios de futebol. Vai-se configurando, entre os próprios cristãos, o que o Papa João Paulo II chamou de uma "apostasia silenciosa" [1], em que as pessoas já não são mais capazes de anunciar a boa nova do Evangelho, seja porque sequer acreditam que esta seja uma "boa nova", seja porque não a veem mais como algo "verdadeiro".

De fato, se os cristãos realmente acreditassem em Cristo, não ficariam calados; se verdadeiramente compreendessem a mensagem de salvação que porta o Evangelho, não a guardariam para si; se entendessem o impacto da vida eterna, não permaneceriam em silêncio. Seria, na verdade, uma tremenda falta de caridade, que, preenchidos com a felicidade divina – que nenhuma criatura pode oferecer ao homem –, eles fechassem a boca e não anunciassem Cristo ao mundo.

Por isso, a religião cristã é essencialmente pública, porque a verdade não se pode encerrar num cubículo, assim como "não se pode esconder uma cidade situada sobre uma montanha, nem se acender uma luz para colocá-la debaixo do alqueire" (Mt 5, 14-15). O ser humano só pode ser plenamente saciado por Deus, e inquieto está enquanto não repousa n'Ele [2]. Ainda que queiram abolir o Seu santíssimo nome das cabeças dos atletas ou das paredes dos prédios, ele está inscrito no mais íntimo do coração humano e, daí, jamais – por nenhuma força humana ou angélica – poderá ser apagado.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Exortação Apostólica Ecclesia in Europa (28 de junho de 2003), n. 9.
  2. Santo Agostinho, Confissões, I, 1.

| Categoria: Testemunhos

Voltei para os braços da Igreja

“Deus está comigo. E descobri que, nesse tempo inteiro de lutas, idas e vindas, Maria também estava.”

Do ateísmo ao protestantismo e do protestantismo à fé católica. Conheça o testemunho do jovem Paulo que, com um coração inquieto, procurou a verdade e voltou para os braços da Igreja. "Deus está comigo. E descobri que, nesse tempo inteiro de lutas, idas e vindas, Maria também estava."

Olá, Equipe Christo Nihil Praeponere.

Apesar das muitas ocupações do Padre Paulo Ricardo, estou escrevendo esse testemunho na esperança de que chegue até ele, como mais um exemplo de conversão ao catolicismo. Minha história tem muitas reviravoltas e é uma prova da misericórdia de Deus e do amor de Maria.

Não cresci num lar religioso. Embora meus pais fossem católicos (não praticantes, infelizmente), nunca fui incentivado a conhecer mais sobre Deus e a Igreja. Ao longo da vida aprendi valores morais cristãos, mas não os identificava assim. Eram apenas "o certo e o errado". Aos 10 anos fiz a primeira Comunhão. Não me interessava. As formações eram "chatas, sem ânimo". Aquele falatório de "coisas que eu não tinha interesse em saber". Infelizmente, passei por essa fase sem compreender a importância do que vivia. Apesar do pouco ensino e incentivo religioso, os primeiros meses após a primeira comunhão foram de grande religiosidade. Em minha mesa de estudo havia sempre uma Bíblia infantil aberta no meio, em uma imagem linda, de uma paisagem com plantações e árvores, além de um lindo céu azul. No meio, um terço, que eu não sabia rezar, mas achava bonito.

Ainda assim, não era católico de fato. "Obrigação de ir à missa? Coisa de velho! O que importa é amar a Jesus"... Aos 13 anos, início da puberdade, um milhão de ideias entrava em minha mente. Estava no nono ano (antiga oitava série), e embora boa parte dos meus amigos não se interessasse por religião, filosofia etc, eu tinha uma aproximação pelas ciências humanas. Cresci lendo e ouvindo. Aos 13, comecei a ouvir demais. As influências de Antonio Gramsci faziam pressão em minha mente e eu, inocente, achava que estava adquirindo cultura. Lia sobre a Bíblia apoiar a escravidão, sobre Deus permitir tragédias, guerras, morte, desastres e fome, sobre a perseguição aos homossexuais, negros e mulheres na Idade Média e sobre as guerras travadas por motivos religiosos. "Mas, Deus não é amor? Como pode deixar que isso ocorra?". Relativismo puro, como veneno. Embora detestasse o socialismo/comunismo, detestava ainda mais as religiões. Igreja era coisa de alienado, escravo de padre e pastor. Deus ainda fazia sentido, religião não. Aos poucos, nem o Senhor estaria a salvo da metralhadora do meu neo-ateísmo.

Ateu aos 14. Compartilhava posts de páginas como se destruir a fé dos outros fosse o motivo de minha existência. Mal sabia eu, mas Deus estava me observando, sabendo que tudo ia mudar. Comecei a andar com más companhias. Desafiava meus pais. Num momento delicado, um convite me foi feito. Um grande amigo me convidou para um retiro de carnaval, de sua igreja. Era o ano de 2013, e pouca escolha eu tive. Fui meio desanimado, meio curioso. Evangélicos eram como alienígenas para mim. Não os conhecia e nem tinha curiosidade em conhecer. Quando cheguei na granja, um ambiente diferente do que eu imaginava. Nenhuma mulher com cabelo até os joelhos. Meninas de shorts e blusa. Rapazes de bermuda e camisa. Conversando, rindo, ouvindo música. Parecia que não eram religiosos. Divertiam-se. Estranho...

Passaram os dias e fui sentindo. Não era calor nem frio. Não era medo nem coragem. Não se pode descrever. Foi único e senti. Fiz amigos, descobri que Deus existe e que é misericordioso. A igreja evangélica me mostrou Seu amor e perdão. Mudei, enfim. Converti-me. Havia um clima de esperança no ar. E comecei minha jornada rumo à Igreja Católica.

O interesse por teologia crescia imensamente. John Stott, Calvino, Lutero, Armínio, Paul Washer, John Piper, Dietrich Bonhoeffer. Era um mundo a ser descoberto. Com meu interesse e gosto pela leitura, fui em frente. Além da Bíblia, "Ouça o Espírito, Ouça o Mundo" era meu livro preferido. Eu era pentecostal clássico e os livros aos poucos me levaram para outro caminho. Através de amigos, leitura, debates em redes sociais e conversas, me aproximei do protestantismo reformado. Tornei-me calvinista, mas ainda pentecostal. Desejava muito passar a congregar em uma Igreja Presbiteriana, porém já havia arrastado minha mãe para o ambiente pentecostal e ela já se sentia em casa lá. As leituras, felizmente mudaram. De Stott para Lutero. De Lutero para Calvino. E então, de Calvino para Santo Agostinho e São Tomás de Aquino.

Embora adorasse os dois pensadores, era anticatólico. Aprendi a ser contra o uso de imagens. Era contra a Bíblia. Purgatório? Uma heresia! Celibato? Alienação da Igreja! Maria? Uma mulher normal. Especial, mas normal. Meu pai, após a minha conversão, e posteriormente de minha mãe, passou a se interessar novamente pelo catolicismo. Virou mariano, como nunca havia sido. Brigas e debates em casa eram constantes. Eu queria que ele entendesse que só Jesus salva e que a Igreja fundada por Cristo era o cristianismo, não a Católica. Curtia páginas anticatólicas e tinha várias imagens deles em meu celular. O ódio, porém, teve o efeito contrário. Passei a me interessar por estudar o catolicismo. Queria entender que loucura era essa de se ajoelhar perante estátuas, rezar por quem já morreu e repetir orações. A tradição era linda, mas falha. Voltei aos livros, e as escamas de meus olhos caíram. Dessa vez, já conhecia a Deus. Foi a hora de conhecer a Igreja.

Sabia que havia um padre muito bem conceituado, que destruía Gramsci, Marx e o PT. Mas era padre. "Que pena, nem todos são perfeitos." Passei a ver seus vídeos sobre santos, Maria, intercessão, purgatório e suas críticas aos protestantes. Fui me incomodando. A verdade me incomodava. E quanto mais eu lia, ouvia e debatia, mais ficava incomodado. Decidi ir para a batalha. Pedi postagens, explicações e testemunhos em uma página cristã no Facebook. Criei amigos lá. Aos poucos, dúvidas iam sendo tiradas, e descobri que, de catolicismo, não sabia nada. Passei a querer ser católico. O amor de Nossa Senhora era tão lindo, mas me relutava a me entregar em seus braços. Orei, pedi iluminação. Estava decidido. No começo desse ano, fui a um retiro de carnaval. Aproveitei para conversar com amigos sobre. Felizmente, tive apoio e sorrisos como resposta a minha escolha. Antes do acampamento, porém, fui à Paróquia aqui do bairro, conversar com o Padre e me confessar. Conversamos, mas ainda não me confessei, afinal iria para o retiro evangélico. Era o grande desafio. Na volta, estava com mais certeza ainda. Relutei, devido a amizades que cultivei e que amo, mas Cristo me chamava. Era isso ou enlouquecer.

Fui me confessar e, enfim, me tornei Católico Apostólico Romano. Ou melhor, voltei para os braços da Igreja. Passei por muita coisa. Conheci pessoas, ouvi, falei, agi, critiquei e fui criticado. Errei e acertei. Desacreditei, me converti, estudei e voltei para a Santa Igreja Católica Apostólica Romana. Hoje, rezo o terço todo dia, leio a Bíblia (que descobri ser diferente do livro que carregava todos os domingos debaixo do braço para ir ao culto) e o Catecismo. Amo a Igreja e a Maria. Comecei a participar da Pastoral de Acólitos da Paróquia. A jornada? Dura, árdua. Ninguém disse que seria fácil. Mas, Deus está comigo. E descobri que, nesse tempo inteiro de lutas, idas e vindas, Maria também estava. Me olhando, protegendo, abraçando. Enfim, amando.

Que Nosso Senhor Jesus Cristo abençoe ao senhor, Padre Paulo Ricardo. Tens sido luz no Brasil. Oro pela sua vida e pelo seu trabalho. Seu, e de toda sua equipe. Que Nossa Senhora e São José o guiem num caminho de santidade e obediência.

Natal/RN, 14 de abril de 2015

Fiquem com Deus,

Paulo.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

| Categoria: Sociedade

Os frutos de uma vida sem fé

A cruzada do ateísmo militante contra a fé cristã não só abre caminho para falsificações da realidade, como também para o ressurgimento do paganismo

O mundo relativista também tem seus dogmas. Torna-se cada vez mais comum nos dias de hoje a exclusão da fé cristã, como um pressuposto básico para o desencadeamento de uma ação social. O simples ato de crer é considerado um comportamento desumano, tendo-se a impressão de que a fé levaria o indivíduo a uma espécie de alienação de seus direitos, posto que a pessoa se perde em orações e rituais sem sentido. O homem, portanto, deveria ser privado da fé ou, ao menos, esclarecido sobre os males que advêm dela, sobretudo daquelas religiões que pregam a crença num Deus único e pessoal.

A tentativa de eliminar-se a fé das pessoas foi uma constante nos últimos dois séculos. Sob o axioma marxista de que a religião seria o “ópio do povo”, inúmeros governos, mormente aqueles de índole gnóstica e ateia, subjugaram povos inteiros, acusando-os até mesmo de crime contra a pátria, simplesmente por aplicarem a máxima cristã do “dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Cf. Mt. 12,15-21). Foi assim que o governo maçom de Plutarco Elías Calles dizimou centenas de cristãos, no México, durante a chamada Guerra de Cristiada, na década de 20, com o pretexto de impedir o avanço de “crenças fundamentalistas”[1]. De igual modo, nazistas e comunistas no leste europeu deram cabo de mais de 100 milhões de vidas, em apenas um século, montados nos auspícios do que Pio XI acertadamente chamou de “ideologia neopagã detestável”[2]. De fato, a loucura revolucionária, segundo os cálculos do professor R.J. Rummel, da Universidade do Havaí, levou à morte mais civis no século XX do que todas as guerras e catástrofes naturais do começo da civilização até hoje somadas. Eis o tamanho do crime: 262 milhões de mortos e contando[3].

O montante de corpos contabilizados pelas sendas da revolução dá-nos a prova do quão equivocado está aquele professor universitário que, a fim de conquistar a turma e demonstrar ares de superioridade intelectual, precisa fazer troça da Igreja Católica e daqueles que ousam romper o dogma de que é necessário desertar de seu batismo para conquistar um diploma acadêmico. Ateísmo não é sinônimo de inteligência. Pelo contrário, trata-se de uma simples negação da realidade e, em última análise, das suas exigências. Com efeito, diz-nos Bento XVI: “somente quem reconhece Deus, conhece a realidade e pode corresponder-lhe de modo adequado e realmente humano”[4]. E essa afirmação se torna tanto mais verdadeira quando confrontada com os frutos do “século do nada” – para usar uma expressão de Gustavo Corção. Seja na ficção científica de Richard Dawkins – a nova coqueluche do neoateísmo –, seja nos diálogos de Nietszche – sobretudo no seu “Assim falou Zaratustra” –, o que se percebe no ateísmo militante é muito mais uma atitude de afetação e preconceito religioso do que de autêntica sabedoria.

Certamente, os ateus que procuram acoimar os cristãos de ignorantes desconhecem a literatura de Chesterton, a profundidade filosófica de Edith Stein, os progressos científicos de Jerome Lejeune – o responsável pela descoberta da trissomia 21, comumente conhecida por Síndrome de Down –, a pesquisa histórica de Paul Johnson e Daniel-Rops ou, quem sabe ainda, a famosíssima mitologia de J.R.R. Tolkien. Não por acaso, C.S. Lewis, outro autor cristão de renome internacional, acabou deixando a bobagem agnóstica para trás justamente pelo exemplo do amigo criador d’O Senhor dos Anéis:

[...] Lewis achava difícil aceitar o fato de que seu novo amigo era um dos homens mais interessantes, intelectuais e inteligentes que ele jamais havia conhecido e ainda um cristão devoto - e católico, para começar.[5]

A cruzada ateísta contra a fé cristã não só abre caminho para a falsificação do conceito de realidade, como também para o ressurgimento do paganismo. Quando não se crê em Deus, acaba-se crendo em tudo. “A superstição” – recorda-nos G.K. Chesterton – “ocorre em todas as épocas, e especialmente em épocas racionalistas”[6]. E o resultado não podia ser outro, senão o que já foi visto em todos os períodos em que a humanidade foi deixada à mercê dos falsos deuses. O cristianismo, por sua vez, baseia-se em outra medida: Nosso Senhor Jesus Cristo. É Ele que vem a nós, é Ele o nosso fundamento. A partir disso, constitui-se grande verdade a afirmação do Papa Francisco, na última Mensagem para o dia mundial da paz:

[...] Uma verdadeira fraternidade entre os homens supõe e exige uma paternidade transcendente. A partir do reconhecimento desta paternidade, consolida-se a fraternidade entre os homens, ou seja, aquele fazer-se «próximo» para cuidar do outro.[7]

Quando se coloca Deus entre parêntesis, pretendendo-se assim dar prioridade aos bens materiais, econômicos e políticos, começa-se por incutir no coração do homem uma lógica gladiadora, na qual todos são nivelados à condição de objeto. É humano aquele que tiver mais poder. Disso nasce a famosa frase do ateu Jean-Paul Sartre: “o inferno são os outros”. O homem deixa de ser irmão para se converter em obstáculo. E uma tal lógica só poderia “terminar por caminhos equivocados e com receitas destruidoras.”[8] Diz-nos o evangelho que uma árvore é reconhecida pelos seus frutos. Certamente, 262 milhões de mortos não são o que poderíamos chamar de “bons frutos”.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. A história da guerra de Cristiada pode ser vista no ótimo filme For Greater Glory, em que se retrata a saga do menino José Sanches del Río, martirizado pelos algozes do governo, e beatificado pelo Papa Bento XVI, em 2005.
  2. Pio XI, Carta Encíclica Mit Brennender Sorge (14 de março de 1937)
  3. Olavo de Carvalho, O tamanho do crime, in Diário do Comércio (19 de fevereiro de 2009)
  4. Bento XVI, Sessão inaugural da V Conferência do episcopado da América Latina (13 de maio de 2007), n. 3
  5. WHITE, Michael. J.R.R. Tolkien, o senhor da fantasia. Rio de Janeiro: DarkSide, 2013, p. 129
  6. CHESTERTON, Gilbert Keith. O homem eterno. São Paulo: Mundo Cristão, 2010, p. 123
  7. Francisco, Mensagem para a celebração do XLVII Dia Mundial da Paz (8 de dezembro), n. 1
  8. Bento XVI, Sessão inaugural da V Conferência do episcopado da América Latina (13 de maio de 2007), n. 3

| Categorias: Espiritualidade, Sociedade

Nem o espírito ama sozinho, nem o corpo

Qualquer intento de conceituar o amor recorrendo ao “campo puramente biológico” acaba por menosprezar a sua real grandeza e dignidade

Em uma tentativa de "secularizar" o amor, os inimigos da fé se veem em polvorosa. Afinal, é possível defini-lo ou explicar sua causa sem recorrer às categorias religiosas?

Na verdade, qualquer intento de conceituar o amor que deixe de levar em conta as duas dimensões essenciais do homem – corpo e alma – acaba por menosprezar a sua real grandeza.

Combatendo uma visão dualista do homem, o Catecismo ensina que "o espírito e a matéria no homem não são duas naturezas unidas, mas a união deles forma uma única natureza". E o Papa Bento XVI lembra que "nem o espírito ama sozinho, nem o corpo: é o homem, a pessoa, que ama como criatura unitária, de que fazem parte o corpo e a alma".

A fim de mostrar às pessoas um amor baseado na visão integral do homem, o Papa emérito, no começo de sua encíclica Deus Caritas Est, fez questão de condenar os dois erros mais comuns nesta matéria: seja a solução hedonista, que, colocando em evidência a busca do prazer, transforma o ente amado pura e simplesmente em objeto; seja a solução espiritualista, que, como a heresia gnóstica, demoniza a matéria e, por consequência, a própria sexualidade humana.

Menos comum em nossos dias, mas nem por isso menos perigosa, esta visão da sexualidade humana tendente a demonizar o corpo chega a negar, em últimas instâncias, a beleza e a sacralidade do Matrimônio. O escritor C. S. Lewis, em seu Cristianismo puro e simples, recorda que "o cristianismo exaltou o casamento mais que qualquer outra religião e quase todos os grandes poemas e amor foram compostos por cristãos. Se alguém disser que o sexo, em si, é algo mau, o cristianismo refuta essa afirmativa instantaneamente."

Ao mesmo tempo, porém, fica evidente que a sexualidade humana pode se envilecer e degradar, especialmente quando nos esquecemos desta realidade chamada "alma". De fato, se os homens não têm alma, se são meros animais avançados na escala evolutiva, o que se entende por amor não passa, na verdade, dos instintos ou hormônios humanos; se não existe nada além desta vida, o fundamento último das relações humanas não é nada, senão o simples egoísmo e a busca desenfreada de prazer. Da extraordinária condição humana, que o próprio Deus assumiu para nos redimir, passamos à irracionalidade animal. Citando Bento XVI:

"O modo de exaltar o corpo, a que assistimos hoje, é enganador. O eros degradado a puro 'sexo' torna-se mercadoria, torna-se simplesmente uma 'coisa' que se pode comprar e vender; antes, o próprio homem torna-se mercadoria. (...) Na verdade, encontramo-nos diante duma degradação do corpo humano, que deixa de estar integrado no conjunto da liberdade da nossa existência, deixa de ser expressão viva da totalidade do nosso ser, acabando como que relegado para o campo puramente biológico." 01

São baldados os esforços de alguns cientistas ateus para definir o "amor" recorrendo ao "campo puramente biológico". Afinal, por mais que queiram construir um homem a seu modo, um homem simplesmente material, sem perspectiva de eternidade e refém de uma vida sem sentido, o homem é o que é: imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1, 26).

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Encíclica Deus Caritas Est, n. 5