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A Igreja se “esqueceu” do Espírito Santo até a década de 1960?
Liturgia

A Igreja se “esqueceu”
do Espírito Santo até a década de 1960?

A Igreja se “esqueceu” do Espírito Santo até a década de 1960?

O Espírito Santo não era a “pessoa esquecida” da Trindade até a sua redescoberta no século XX. Nada poderia estar mais longe da verdade, como pode confirmar qualquer um que conheça a liturgia tradicional e a história da Igreja.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere21 de Maio de 2021Tempo de leitura: 9 minutos
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Lembro-me claramente de ter ouvido mais de uma vez, quando criança, professores e pregadores supostamente bem-intencionados dizerem algo semelhante a isto: “Durante muito tempo, a Igreja se esqueceu do Espírito Santo, por assim dizer, e com o Vaticano II nós nos lembramos dele. Estamos na era do Espírito”. 

Curiosamente, a era do Espírito fundiu-se a tal ponto com o espírito da época (zeitgeist), que nos restou apenas o “espírito do Concílio”. Na prática, isso significou que os carismas concedidos pelo Espírito Santo à Igreja ao longo do tempo foram progressivamente atacados e banidos. Numa paródia do Batismo, e com um exorcismo às avessas, membros do clero pareciam empenhados em livrar o catolicismo do seu bom espírito e enterrar-se num mundo subterrâneo, em vez de morrer e ressuscitar com Cristo.

Naturalmente, essa ideia de que a Terceira Pessoa foi esquecida é apenas mais uma das “lendas negras” do período pós-Vaticano II. Na verdade, é fácil encontrar observações significativas, doutrinais e devocionais sobre o Espírito Santo na pregação e nas orações de todas as épocas da Igreja — sobretudo em sua liturgia tradicional, na qual o sacerdote pronuncia diariamente estas magníficas palavras: Veni, Sanctificator omnipotens aeterne Deus, et benedic hoc sacrificium tuo sancto nomini praeparatum, “Vinde, ó Santificador, Deus eterno e todo-poderoso, e abençoai este sacrifício para a glória do vosso nome”.

O rito romano tradicional celebra até hoje a vinda do Espírito Santo com uma majestosa Missa de Pentecostes. A Missa solene é precedida pelo canto Veni, Creator Spiritus, quando todos os presentes se ajoelham durante o primeiro verso em humilde súplica. O canto Vidi aquam vem em seguida, enquanto o sacerdote asperge o povo com água benta e cantamos sobre a água da graça que flui do lado de Cristo, ainda que o Espírito proceda de sua boca. O primeiro de muitos aleluias ressoa por toda a igreja. A Missa propriamente dita começa com o intróito Spiritus Domini e o Kyrie, repetido nove vezes, em sua amplitude trinitária. O duplo aleluia inclui as petições Emitte Spiritum tuum, “Enviai o vosso Espírito”, e Veni, Sancte Spiritus, “Vinde, Espírito Santo”, sendo que nos ajoelhamos novamente durante o segundo (levamos a sério essas invocações!). Em seguida vem a magnífica sequência de Pentecostes, que tem início, mais uma vez, com Veni, Sancte Spiritus. Tudo isso mesmo antes de o Evangelho ser cantado!  

Missa Tridentina na igreja de São Sulpício (Paris, 2013). Créditos: Academia Christiana.

Há mais — muito mais. Da antiguidade até o século XX, a Igreja celebrou tradicionalmente o Pentecostes durante uma semana (uma Oitava), tal como ela faz na Páscoa e no Natal, reconhecendo-a como festa da mais alta importância. Todos os dias os Próprios proclamam aleluias. Todos os dias as leituras exaltam os sacramentos de iniciação, que são eficazes pelo poder do Espírito. Todos os dias, ajoelhamo-nos durante o Veni, Sancte Spiritus, antes da Sequência de Ouro. O Prefácio de Pentecostes vincula a Ascensão de Cristo, o fato de Ele estar sentado à direita de Deus e o derramamento do Espírito de adoção sobre os filhos de Deus. O Cânon Romano usa um Communicantes e um Hanc igitur especiais. Quarta, sexta e sábado da Oitava são Têmporas com leituras e orações especiais. A Terça, ofício do meio da manhã, começa todos os dias com o hino Veni, Creator Spiritus, e mais uma vez a primeira estrofe é cantada de joelhos. Essa semana é, de todos os pontos de vista, uma homenagem e uma súplica dignas da Pessoa divina.

Finalmente, todo domingo posterior à Oitava de Pentecostes é denominado “Domingo depois de Pentecostes”, envolvendo em paramentos verdes a longa temporada de plantio e colheita, até chegarmos ao Último Domingo depois de Pentecostes e iniciarmos um novo ciclo com o Advento.

Quase tudo o que acabei de descrever foi abolido na reforma litúrgica do final da década de 1960. Portanto, quem é realmente culpado “de esquecer-se da Terceira Pessoa da Trindade”?

Uma Igreja tradicional atenta ao Paráclito também pode ser identificada na maravilhosa encíclica de Leão XIII Divinum Illud Munus, de 1897 — por acaso, o mesmo ano do falecimento de S. Teresinha do Menino Jesus, quando ela começaria a cobrir os fiéis com rosas do céu, numa imitação infantil do dom do Espírito em línguas de fogo. 

A lúcida exposição sobre o “lugar” do Espírito Santo na Trindade e a sua presença e ação em Cristo, na Igreja, na alma humana e no mundo faz de Divinum Illud Munus uma verdadeira obra-prima da prosa teológica e espiritual. Vemos em suas páginas uma demonstração de como a doutrina aparentemente complicada de Santo Tomás pode “ganhar vida” nas mãos de quem a compreende de verdade. O Papa Leão escreve com grande sensibilidade:

Hoje, pressentindo avizinhar-se o término de nossa vida, experimentamos o mais vivo desejo de recomendar ao Espírito Santo, que é o amor vivificante, todas as realizações empreendidas durante o nosso pontificado, para que Ele as faça florescer e frutificar [...]. Almejamos ardentemente, assim, reavivar e fortalecer nas almas a fé no augusto mistério da Santíssima Trindade, e, sobretudo, aumentar e tornar nelas mais fervorosa a devoção para com o Espírito Divino, a quem todos os que trilham os caminhos da verdade e da justiça devem as maiores graças obtidas.

O Papa examina todos os aspectos da doutrina sobre o Espírito Santo. Aqui, por exemplo, fala do mistério de Pentecostes tal como se aplica aos Apóstolos:

A Igreja, que já existia em estado embrionário, havendo recebido a existência do lado aberto do segundo Adão, como que dormindo no lenho da cruz, nasceu maravilhosamente para a luz do mundo no tão celebrado dia de Pentecostes. Nesse mesmo dia começou o Espírito Santo a repartir seus benefícios no Corpo Místico de Cristo, com aquela admirável efusão que o profeta Joel previra há tempos (cf. Jl 2, 28-29); pois o Paráclito “pairou sobre os Apóstolos, para que fossem coroados de novos diademas espirituais, formados por línguas de fogo sobre suas cabeças” (São Cirilo de Jerusalém, Catequese, 17). Então, escreve São João Crisóstomo, os Apóstolos “desceram do monte, não trazendo nas mãos as tábuas de pedra, como o fez Moisés, mas carregando na alma o Espírito Santo e comunicando-o com profusão aos outros como um grande tesouro e um rio de verdades e de graças” (São João Crisóstomo, In Matth., hom. 1; cf. 2Cor 3, 3). Desse modo se realizou a promessa de Cristo a seus Apóstolos sobre o envio do Espírito Santo, que em pessoa, mediante suas inspirações, deveria levar a bom termo a transmissão da doutrina do mesmo Jesus Cristo.

E, mais uma vez, em relação à Igreja:

Para reconhecer a instituição divina da Igreja não há prova mais convincente do que o seu resplendor e glória provindos dos carismas que o Espírito Santo lhe outorgou em profusão. Baste dizer que, assim como Cristo é a Cabeça da Igreja, assim o Espírito Santo é a sua alma.

A obra de santificação é sempre associada ao Espírito Santo: 

Essa regeneração ou renovação começa para o homem pelo Batismo; nesse sacramento é expelido da alma o espírito imundo, e nela penetra pela primeira vez o Espírito Santo, que a torna semelhante a si: “O que nasceu do Espírito é espírito” (Jo 3, 7). Doa-se a ela ainda, em grau mais perfeito, para lhe outorgar a fortaleza e o vigor da vida cristã, no sacramento da Confirmação; por ele é que os mártires e as virgens triunfaram dos atrativos da corrupção.

Em seguida, o Papa Leão XIII diz algo que deveria nos fazer estremecer de reverência e encanto:

Deus, pela sua graça, reside na alma do justo como em um templo, de maneira completamente íntima e singular; daí os fortes liames de caridade que estreitissimamente unem a alma a Deus, sobrepujando a amizade do amigo ao melhor dos amigos, e a fazem gozá-lo em delícias inexcedíveis. Essa admirável união, denominada “inabitação”, não difere, a não ser por sua condição ou estado, daquela que possuem os habitantes do céu na posse beatífica de Deus; e, não obstante seja um efeito realíssimo de toda a Trindade divina: “Viremos a ele e faremos nele nossa habitação” (Jo 14, 23), é, contudo, considerada obra peculiar do Espírito Santo. Porquanto também no homem perverso podemos deparar reflexos do poder e sabedoria de Deus; mas só o justo participa do amor divino, característica do Espírito Santo.

Analisemos com cuidado o que o Papa nos ensina aqui. A união entre Deus e uma alma em estado de graça só difere em grau ou modo do estado de visão beatífica. Quando Deus habita em nossa alma pela graça santificante e sua principal virtude, a caridade, desfrutamos nesta vida da mesma união que os santos e anjos desfrutam na pátria celeste. As diferenças são acidentais: Deus é visível ou invisível; possuímo-lo de forma mutável ou imutável. Por importantes que sejam essas diferenças, a própria união as supera de longe: Deus é realmente possuído por nós. Essa é a essência da santidade. A compreensão da inabitação de Deus é, em última análise, o antídoto mais eficaz contra o pecado mortal: não queremos perdê-lo, nem agora nem na eternidade.

Em seguida, o Papa Leão XIII expõe o ensinamento de Santo Tomás sobre os dons do Espírito Santo. Aqui também recordamos que um Doutor da Igreja do século XIII possuía não somente compreensão teológica, mas um profundo conhecimento empírico. Quando fala de seus dons, Santo Tomás ressalta a absoluta necessidade da assistência especial do Espírito Santo — todos os dias, ao longo de todo o dia —, caso queiramos chegar ao fim glorioso que Deus nos reserva, porque ele está muito acima de nossa capacidade natural. Em certo sentido, ele excede inclusive o enorme poder das virtudes teologais. É como rezamos com o salmista: “Que vosso Espírito de bondade me conduza pelo caminho reto” (Sl 142, 10), a Terra Prometida, o Paraíso. Só o Espírito de Deus nos pode conduzir até lá; o nosso espírito, por aperfeiçoado que esteja, não é o bastante.

Santo Tomás vai mais longe e argumenta que precisamos dos sete dons do Espírito Santo não apenas para alcançar o fim último, mas também para atingir qualquer um dos fins particulares aos quais aspiramos como cristãos — isto é, se quisermos atingi-los como filhos de Deus, agindo por meio de sua sabedoria, conhecimento, fortaleza etc. Podemos até fazer a coisa certa por virtude natural, mas ainda assim não conseguiremos fazê-la “divinamente bem”, como uma refeição que não só é comestível, mas também saborosa. Para isso, temos de rezar e nos colocar à disposição do Espírito Santo, para que as nossas ações sejam guiadas por Ele e para que sejamos os seus instrumentos, pondo em prática as nossas próprias faculdades de juízo e deliberação. Nesse sentido, não pode haver apostolado verdadeiramente católico sem oração mental, como nos mostram os Atos dos Apóstolos de forma emblemática.

Afinal de contas, o Espírito Santo não era a “pessoa esquecida” da Santíssima Trindade até a sua redescoberta pelo “movimento carismático” ou pela “renovação conciliar” no século XX. Nada poderia estar mais longe da verdade, como pode confirmar qualquer pessoa familiarizada com a vida dos santos, com a história das grandes Ordens religiosas e das missões e com a doutrina, as devoções e a literatura tradicionais. Na verdade, o Dom do Deus Altíssimo jamais poderia ser esquecido pela Igreja, já que Ele age em todos os sacramentos, em todos os atos de culto divino, em todas as moções da alma em direção a Deus e em todas as pessoas santas que já viveram.

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São Bernardino de Sena, voz para um mundo em declínio
Santos & Mártires

São Bernardino de Sena,
voz para um mundo em declínio

São Bernardino de Sena, voz para um mundo em declínio

Quando parecia ter “acabado o vinho” da virtude e da graça, e a Cristandade, decaída, voltava-se ao paganismo, uma figura especialmente eleita se levantou, apontando para Aquele que tudo pode solucionar.

Ir. Maria Beatriz Ribeiro Matos, EP20 de Maio de 2021Tempo de leitura: 12 minutos
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Pelas ruas tortuosas de Siena, um rapaz caminha. A cidade, ocupada em seus trabalhos e intrigas, não o nota. De porte mediano e varonil, semblante agradável e olhar alegre, ele tem inúmeros amigos e todos o estimam; no entanto, está só. Ao menos pensa estar só… Um pouco atrás, escondida entre as casas, uma senhora segue seus passos. Sua fisionomia contrasta com a do jovem, pois anda apreensiva, como se estivesse prestes a se deparar com algo indesejável.

Sim, Tobia estava preocupada. Amava aquele rapaz como a um filho. Embora fossem primos, uma grande diferença de idade os separava, e ela o vira crescer. Filho da nobre família dos Albizzeschi, Bernardino perdera a mãe antes dos três anos e, nem completara os seis, o pai também, ficando entregue aos cuidados de suas três tias — Diana, Pia e Bartolomea — e da prima Tobia, que dele cuidaram e o educaram com todo o esmero.

Bernardino sempre fora muito recatado e suas tutoras haviam se empenhado para que o ambiente no qual transcorreu sua infância não lhe manchasse a inocência. O menino correspondeu a esse desvelo, e à piedade natural se acrescentou a virtude. Entretanto, o tempo tinha passado e Bernardino tornara-se moço. Suas tias e Tobia temiam por ele. Muito o alertaram sobre os perigos do pecado e as más tendências que, ao longo dos séculos, perverteram os jovens.

Um dia, porém, respondendo às suas advertências, Bernardino surpreendera Tobia:

— Estou, de fato, encantado por uma dama muito nobre. Daria minha vida para me alegrar com sua presença, e não dormiria à noite se passasse o dia sem tê-la visto.

Alguns dias depois, Bernardino voltou ao assunto:

— Vou agora ver a minha bela amiga.

— Mas quem é ela? Onde mora? — perguntou-lhe Tobia.

— Além da Porta Camollia.

Nada mais podendo dele saber, a prima, intrigada, decidiu espioná-lo. E ali estava ela, esgueirando-se pelas esquinas da cidade de Siena, na tentativa de não ser vista.

Chegando, por fim, à Porta Camollia, Bernardino parou e, diante de Nossa Senhora Assunta aos Céus, ali representada numa bela pintura, ajoelhou-se. O que ele Lhe disse, Tobia certamente nunca soube, mas o fervor e o enlevo transmitidos por seu semblante deixavam entrever que aquele convívio era mais do Céu que da terra. Depois, levantando-se, o rapaz retornou à casa.

Tobia, sempre às escondidas, voltou a segui-lo durante vários dias, e saiu sempre edificada. Até que conseguiu fazer o primo declarar quem era a nobre dama da qual falava:

— Minha mãe — respondeu ele —, já que vós mandais, direi o segredo de meu coração. Estou apaixonado pela Bem-Aventurada Virgem Maria, Mãe de Deus; sempre A amei, por Ela tenho abrasado o coração e a Ela é que desejo ver. N’Ela queria eu fixar para sempre o meu olhar com a veneração que Lhe é devida.

A aurora de uma vida sob o auspício da Mãe de Deus

“Nossa Senhora e o Menino com São Bernardino”, por Rutilio Manetti.

Se grande era o afeto de Bernardino pela Santíssima Virgem, mais excelente era o d’Aquela que o havia amado primeiro. Sim, pois antes mesmo que o conhecimento desse menino se abrisse para as coisas do mundo, antes que seus olhos se encantassem com a criação, antes ainda que sua língua inexperiente balbuciasse as primeiras palavras, Maria o tinha escolhido para Si.

Uma dúvida não tardou a despontar no seu coração juvenil: como dedicar-se a Ela? Em que estado de vida Ela o queria? E foi então que a peste, tão temida e indesejada, bateu às portas de Siena. Bernardino, com apenas dezessete anos, dedicou-se heroicamente no auxílio aos doentes. Depois de quatro meses, esgotado pelos seus trabalhos, caiu ele próprio vítima da peste e parecia estar próximo do fim. Porém, contra a expectativa de muitos, sua saúde se restabeleceu.

O que fazer dessa vida que Maria lhe devolvia? — continuava se perguntando ele. A religião o atraía sobremaneira; seria essa a vontade de Deus? Cheio de fervor juvenil — tantas vezes avesso à prudência e ao “bom senso” — Bernardino tenta a vida de ermitão. Com o seu característico humor, narrará mais tarde essa insólita experiência:

Quero contar-lhes o primeiro milagre que fiz. Isso aconteceu antes de me tornar frade […]. Tomei a resolução de querer viver como um Anjo e não como um homem. Pensei em instalar-me numa floresta e comecei a perguntar a mim mesmo: “Que farás na floresta? Que comerás?’” Respondia-me: “Farei como os Santos Padres; comerei erva quando tiver fome e beberei água quando tiver sede”. […] E, depois de invocar o nome bendito de Jesus, pus na boca uma porção de ervas amargas e comecei a mastigar. Mastigo e mastigo, mas não querem descer. Não podendo engolir, pensei: “Bebamos um pouco d’água”. Pois sim, a água descia e a erva continuava na boca. Bebi vários goles d’água com uma só porção de ervas e não consegui engolir [1].

Dissuadido da vida solitária, por haver compreendido não ser esta a via para a qual a Providência o destinava, seus olhos se voltam para os Frades Menores. Entusiasma-se pela sua regra, e o chamado divino se confirma num sonho. Despojando-se das honras de seu sangue e dos bens terrenos, Bernardino toma o hábito de São Francisco. Era o dia 8 de setembro de 1402, festa da Natividade de Nossa Senhora e data em que ele cumpria vinte e dois anos.

Assim, foi sempre sob o manto protetor da Rainha dos Céus que ele deu os grandes passos de sua vida, como contava:

Nasci no dia da Natividade da Bem-Aventurada Virgem, e no mesmo dia […] renasci, entrando para a Ordem do Seráfico Pai Francisco; neste dia professei os votos na Ordem, neste dia celebrei a primeira Missa e pronunciei o primeiro sermão ao povo sobre a Bem-Aventurada Virgem, de cujo amor e graça espero neste dia também partir desta vida [2].

Incansável dedicação e zelo pelas almas

Em certa ocasião, o jovem franciscano foi assistir a uma pregação de São Vicente Ferrer, cujas palavras sacudiam as multidões, apontando a modorra e o paganismo em que a Cristandade se afundava. No dia anterior, Bernardino conversara pessoalmente com o dominicano, saindo cheio de gratidão e consolo. E São Vicente, discernindo o chamado de seu interlocutor, previu durante o sermão o futuro que o esperava:

Ó meus filhos, está nesta reunião um religioso da Ordem dos Frades Menores, que, em breve, será um homem ilustre em toda a Itália; sua palavra e seus exemplos hão de produzir grandes frutos entre o povo cristão. Exorto-vos, pois, a render graças a Deus; roguemos-Lhe, todos juntos, que cumpra o que me revelou [3].

Algum tempo se passaria até a profecia realizar-se. Por muitos anos, Bernardino se escondeu nas brumas do anonimato. No silêncio do convento, ele subiu os degraus da virtude e do conhecimento, para depois, sobre o púlpito, transmitir não apenas a doutrina, mas irradiar a santidade. E era por ela movidas que as multidões concurrebant ad ecclesias instar formicarum, “acorriam às igrejas como formigas” [4].

Seu zelo incansável vai edificar e converter multidões na Itália, imersa então no neopaganismo renascentista. De 1419 a 1422, sua voz ecoa na Lombardia, acentuadamente em Bérgamo, Como, Mântua, Cremona, Placência e Bréscia. Em cada cidade, detém-se algumas semanas, para logo buscar, a pé, na cidade vizinha, almas a quem fazer o bem.

Método vivo e original de mover os corações

No púlpito, sua genialidade e virtude se unem para atrair os pecadores à amizade com Deus. Conta-se, por exemplo, que chegando à cidade de Perúgia, na Úmbria, encontrou um povo indiferente aos assuntos da Fé, afeito a contínuas e ferozes guerras intestinas. Embora muitos comparecessem às pregações, Frei Bernardino não se dava por satisfeito. Um dia, perante o público reunido, anunciou:

Caros habitantes de Perúgia, em pouco tempo eu lhes mostrarei o diabo.

Com a curiosidade acesa, no dia seguinte o auditório se multiplicou. E, ao cabo de alguns dias, o pregador declarou:

— Vou cumprir minha promessa e vou lhes mostrar não só um demônio, mas vários.

Todos o fitavam, atentos, imaginando que profundeza haveria de se abrir para o pai das trevas tornar-se visível.

— Olhai-vos uns aos outros — prosseguiu Frei Bernardino — e vereis demônios!

E num tom de extrema gravidade, que não admitia gracejo, o Santo advertiu ao povo que praticava as obras de Satanás e, por isso, merecia ser chamado seu filho. Finalmente a graça, conduzida por Frei Bernardino, atingiu o coração daquela gente e a conversão foi completa.

Com um homem de Deus não se brinca!

Anos depois, porém, a discórdia e a violência reinavam novamente na cidade e o Santo franciscano lá retorna.

— Deus viu vossas dissensões, que Ele detesta — disse, subindo ao púlpito — e me mandou a vós, como seu Anjo, para falar aos homens de boa vontade.

Quatro sermões se seguem, e Bernardino luta para reconciliar aquelas almas. No último dia, conclui solenemente:

— Que todos os homens de boa vontade, desejosos de paz, coloquem-se à minha direita.

O povo, comovido, deslocou-se em massa para a direita do Santo. Todos, exceto um que, desafiante, conservou-se sozinho com sua família à esquerda. Então, o humilde franciscano mostra que o seu zelo também o transformava, na necessidade, em implacável juiz.

— Eis-te sozinho — disse ao infeliz —, obstinado em teu erro. Eu te exorto, em nome de Deus, uma vez mais, a perdoar aos outros, de coração, o que possam ter feito contra ti e tua família. Se não me escutares, podes estar certo de que não voltarás vivo para casa.

Ora, com um homem de Deus não se brinca… Aquele desgraçado não desistiu de sua má conduta e, apenas chegando à casa, morreu, sem receber os Sacramentos da Igreja.

Ao nome de Jesus, todo joelho se dobrará… até na Renascença

Muitos dos sermões de São Bernardino se conservaram para a posteridade. Em estilo fácil, atraentes, repletos de metáforas e exemplos, permitem reconstituir o ambiente que em torno dele se criava e, de certa forma, sentir a graça que sobre ele pairava. Sermões que foram palco de uma grande batalha, à qual o santo franciscano se dedicaria de corpo e alma.

De fato, ao passarmos as páginas que compõem a história de São Bernardino, não podemos desconsiderar a difícil conjuntura na qual se encontrava o mundo, e como a humanidade tomava um rumo completamente oposto ao que a Igreja lhe indicara ao longo dos séculos. Dando as costas ao Sangue que os redimira e inebriando-se com as coisas da terra a ponto de esquecerem-se do Céu, os homens voltavam a embriagar-se com o “vinho velho” do paganismo. Era a brilhante, mas em tantos aspectos reprovável, Renascença que chegava. Expulsava-se Deus de seu trono, e em seu lugar o homem se sentava.

Os frutos de tal inversão de valores não se fizeram esperar: discórdias e guerras, imoralidades e desvarios passaram a formar parte do cotidiano. Faltava alguém que, como Nossa Senhora nas Bodas de Caná, indicasse à humanidade: “Fazei tudo o que Ele vos disser” (Jo 2, 5), e a reconduzisse a Jesus. Foi este o papel verdadeiramente marial de São Bernardino.

Por exemplo, reinava grande desavença política entre os habitantes de Veneza, como, aliás, em muitas outras cidades da Península Itálica. As casas eram identificadas por um ­azulejo com o nome ou as armas da família, o qual indicava também o partido dos moradores. Quando Frei Bernardino por lá passou, seu coração inflamado proclamou a todos o nome de Cristo, e os venezianos, comovidos, trocaram as marcas da discórdia por um azulejo com o Santíssimo Nome de Jesus.

E assim, percorrendo as cidades, Frei Bernardino deixava atrás de si o nome de Jesus marcado nos lares e, sobretudo, gravado nos corações.

Acusado de heresia…

Não podia ficar inativo o antigo inimigo enquanto o santo franciscano lhe arrancava das mãos tantas almas. E eis que, em Roma, Frei Bernardino é acusado de heresia. Heresia?! Sim, pois houve quem quisesse enxergar aspectos de idolatria na sua forma de venerar o nome de Jesus!

“São Bernardino de Sena e São João de Capistrano”, por Alonso Cano.

O Papa Martinho V convoca o ilustre pregador para apresentar explicações na Cidade Eterna. O momento é de grande comoção, sobretudo para os católicos italianos, que tanto tinham recebido de Frei Bernardino. Todos parecem temer, menos ele. Muitos que antes o aplaudiam, agora o ultrajam.

Um dia, ao verem com admiração como, após receber grandes insultos, ele se recolhia para estudar calmamente em sua cela, respondeu: “Cada vez que entro em minha cela, todas as injúrias ficam do lado de fora; nenhum ultraje se atreve a entrar comigo, de modo que não me causam nem empecilho, nem desgosto” [5].

Para defender a honra do mestre ofendido, um discípulo seu, também renomado pregador, comparece à Cidade Eterna, portando um ostensivo estandarte no qual se lê o Nome de Jesus: trata-se do audacioso capuchinho São João de Capistrano. Finalmente, ambos comparecem diante do Pontífice e procede-se a um debate entre eles e os opositores. A vitória de Bernardino, ou melhor, de Jesus, é completa; o Papa, em reparação, ordena uma procissão em honra de seu Santíssimo Nome, que a partir de então passa a figurar no alto das igrejas e no cimo dos telhados, também em Roma.

Últimos esforços, dedicação inteira

Mesmo sentindo-se já próximo de seu fim, Frei Bernardino não descansa. Pelo contrário, sedento de almas, vai à busca daquelas que sua caridade ainda não lograra alcançar, e aos que disso procuravam dissuadi-lo, responde: “Não ignoro que estou velho e pouco apto a suportar o cansaço; porém, o amor que me urge, obriga-me, enquanto puder mexer a língua, a nunca deixar de anunciar a Palavra de Deus, a exortar as populações e, para esta obra, empreender viagens, mesmo que fossem em longínquas terras” [6].

O Reino de Nápoles é o seu próximo destino. Em 30 de abril de 1444, ele deixa Siena secretamente. No caminho, despede-se da velha cidade de Perúgia, de onde parte para visitar por última vez o Convento de Santa Maria dos Anjos, em Assis. Em Espoleto, suas forças começam a faltar. Quando atinge a Cittaducale, na fronteira com o reino napolitano, Bernardino sobe pela última vez a um púlpito. Em Áquila, é obrigado a repousar no mosteiro franciscano.

E então, com sessenta e quatro anos de idade, dos quais quarenta e dois enquanto religioso e, no mínimo, vinte como pregador, Frei Bernardino entrega sua bela alma a Deus. Quisera ele morrer na festa da Natividade ou da Assunção, mas Jesus lhe pedira a renúncia a esse santo desejo. Era a véspera da Ascensão do Senhor.

Decerto, no Céu Bernardino dizia a Deus as palavras que seus irmãos cantavam piedosamente na capela ao render-lhe as últimas homenagens: “Meu Pai, tornei teu nome conhecido aos homens que me deste, e agora rogo por eles, não pelo mundo, pois venho a Ti. Aleluia” [7].

Referências

  1. São Bernardino de Siena. Le prediche volgari. Siena: Tip. Edit. all’inseg. di S. Bernardino, 1884, v. II, p. 351-353.
  2. Paul Thureau-Dangin. São Bernardino de Sena: um pregador popular na Itália da Renascença. Petrópolis: Vozes, 1937, p. 27, nota 14.
  3. Idem, p. 37.
  4. Idem, p. 55.
  5. Idem, p. 101-102.
  6. Idem, p. 248.
  7. Idem, p. 254.

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Uma resposta católica ao filme “Rogai por nós”
Igreja Católica

Uma resposta católica
ao filme “Rogai por nós”

Uma resposta católica ao filme “Rogai por nós”

Para além dos cartazes representando a Mãe de Deus em várias formas malignas, o filme “Rogai por nós”, que estreia no Brasil neste dia 20 de maio, também está repleto de estereótipos anticatólicos. Este texto desmascara alguns deles.

Ambrose RuckerTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere19 de Maio de 2021Tempo de leitura: 8 minutos
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[Este texto não é de autoria do Pe. Paulo Ricardo. Trata-se de uma resenha escrita por Ambrose Rucker, num site norte-americano, e traduzida para esta publicação por nossa equipe.]

No dia 8 de março, a Sony anunciou que seu novo filme, The Unholy (“A profana”, traduzido no Brasil como “Rogai por nós”), seria lançado na Sexta-feira Santa [1]. A data foi escolhida de propósito para marcar um contraste direto com a sacralidade do Tríduo Pascal. [N.T.: O lançamento na Sexta-feira Santa foi nos Estados Unidos; no Brasil, a estreia do filme acontece no dia 20 de maio de 2021.] O próprio site do filme diz: “No fim de semana mais sagrado do ano: The Unholy” [2]. O enredo, como sabemos pelo trailer e pela sinopse divulgada, centra-se em uma jovem com surdez parcial que, depois de ser supostamente visitada pela Virgem Maria, passa a ouvir perfeitamente e a fazer milagres a torto e a direito. Por conta disso, ela arrebanha seguidores pelo mundo todo, e um jornalista aposentado, para tentar reviver a carreira, decide fazer uma reportagem sobre a garota.

No entanto, eventos terríveis sucedem com cada vez mais frequência, e o jornalista começa a se perguntar se os fenômenos e milagres serão mesmo obra da Virgem Maria ou de algum poder macabro. O trailer repete a receita típica de um clássico de terror com temática católica: freiras sinistras, padres corruptos e infiéis, cruzes queimando e muito mais. O que se destaca como tema principal é a representação da Mãe de Deus em várias formas malignas. Há estátuas da Virgem a sangrar, imagens sacras de Maria disformes e a desintegrar-se, além do protagonismo de um demônio que assume a forma de uma Virgem Maria negra, em chamas e aterrorizante. No filme, encontramos os estereótipos anticatólicos mais comuns e um perigoso incentivo ao aumento do poder de Satanás e seus demônios. Neste artigo, desejo abordar esses falsos estereótipos sobre os católicos, as ideias perigosas e blasfemas apresentadas no filme e alertar de forma inteligente contra ele.

Primeiro, parece circular em Hollywood a ideia de que os padres católicos são, em sua maioria, uns infiéis acovardados, prontos e dispostos a abandonar a fé a qualquer momento e a lançá-la pelos ares ao primeiro sinal do demônio. No trailer, vemos um padre cair rapidamente no feitiço da menina, tomar como fato que ela foi visitada pela Virgem Maria e recusar-se a mudar de opinião até ficar cara a cara com o demônio em pessoa. Esse retrato banal dos padres é um exagero grosseiro e é, em quase todos os casos, comprovadamente falso. Enquanto uma minoria de indignos, que renunciam publicamente à fé, causam grande escândalo à Igreja e geram má fama ao catolicismo, recebe toda a atenção da mídia, a vasta maioria dos padres é composta de católicos bons e fiéis, que dão glória a Deus todos os dias e, pela graça divina, pastoreiam seu rebanho. Representar o padre católico como infiel, pedófilo ou covarde não é novidade nos filmes de terror, e o fato de o estereótipo ainda ser usado e amplamente aceito faz parte da agenda anticatólica de Hollywood. Numa estatística do relatório John Jay sobre os escândalos de abuso sexual na Igreja, vemos que, apesar de toda a atenção midiática, apenas 4% de todo o clero dos Estados Unidos, entre os anos de 1950 a 2010, foram acusados de abuso sexual [3]. Embora, ainda assim, sejam padres demais, o número está longe das dimensões massivas sugeridas por Hollywood, segundo a qual, se você topar na rua com um padre, é quase certo que ele terá algum tipo de “problema”. Os padres são apenas homens e, como tais, não são perfeitos, e há ainda aqueles que nem deveriam ter passado pela rigorosa seleção do seminário. Mas isso não significa que possamos descrever todos os padres com que topamos como infiéis ou pedófilos, ou as duas coisas.

O segundo estereótipo é o da paróquia católica de cidade pequena. Ela é supersticiosa, cheia de católicos frouxos e facilmente dominada pelos demônios. Vemos isso acontecer literalmente no trailer. Não sei por quê, mas Hollywood parece pensar que paróquias católicas isoladas são um prato cheio para demônios. O clichê de uma igreja infestada deles, com imagens sacra a queimar, pentagramas nas paredes e estátuas da Sagrada Família contorcidas e disformes, parece ser bastante comum se você for a uma igreja católica do interior. Mas esclareçamos as coisas: os demônios sabem mais sobre Cristo, a ressurreição e a Igreja do que nós jamais saberemos. Por terem pecado, eles se afastaram de Deus em todos os sentidos, de maneira que toda a Criação, como tal, é para eles um suplício, uma vez que tudo foi criado pelo Deus a quem traíram. No entanto, graças à Paixão e Morte de Jesus Cristo, o poder de Satanás e dos demônios está subjugado para sempre! As portas do inferno foram destruídas pela Ressurreição de Jesus. Nenhum demônio pode ficar de pé diante de Nosso Senhor!

Além do mais, sabemos pelos exorcismos que a Eucaristia é um elemento-chave para expulsar o demônio de um corpo. Por isso, é uma completa burrice acreditar que algum demônio poderia tomar o controle de uma igreja, edifício consagrado a Deus, com a Sagrada Eucaristia no sacrário, o qual se torna, em cada Missa, uma representação do céu. Só pelo fato de a Eucaristia estar presente numa igreja, nenhum demônio pode suportar ficar em seu interior: a própria presença de Jesus lhe é repulsiva, quase como uma dor física. Para um demônio, não valeria a pena o esforço de tomar o controle de uma igreja, na qual ele só poderia entrar depois de tê-la reduzido, na prática, a um edifício como outro qualquer.

O filme evidencia ao mesmo tempo um estereótipo muito comum e uma ideia altamente perigosa na forma como representa a Virgem Maria. É óbvio que o filme apela para a ideia de que os católicos “adoram” Maria. É uma opinião que muitas seitas cristãs, outras religiões e até o mundo secular têm em comum a respeito dos católicos. Eu poderia entrar agora em detalhes, dando todas as razões que demonstram que não adoramos Maria, mas vou tratar o assunto de forma simples. Quando a Igreja nos ensina a rezar à Virgem Maria, e quando santos como São Luís de Monfort dizem coisas assim: “Devemos fazer um sacrifício de nós mesmos, inteiramente (em corpo e alma, em nossos bens exteriores e em nossos bens espirituais interiores), a Nossa Senhora”, não estamos pondo a Deus e Maria em pé de igualdade nem dirigindo a ela um culto de adoração.

Trata-se, fundamentalmente, de pedir a Maria que interceda por nós junto ao seu Filho Jesus. Como dizemos tantas vezes: Ad Jesum per Mariam, “A Jesus por Maria”. Não estamos apenas rezando a Maria; estamos, de certo modo, rezando a Deus com Maria e pedindo-lhe que nos ajude em nossas súplicas ao Senhor. Por suas palavras na Cruz ao apóstolo São João, Jesus nos deu de presente sua própria Mãe, Maria, como Mãe dos homens, e como tal lhe temos grande estima. Afinal, ela não só deu Nosso Senhor e Salvador à luz, mas é também nossa Mãe em todos os sentidos da palavra. Ora, é comum ao longo da história, em todas as civilizações, que a mãe seja objeto de honra e louvor. No trailer, vemos a garota convencer seus seguidores a “crer e adorar Maria”, e muitas pessoas, em todo o mundo, lhe obedecem, curvando-se às imagens da Virgem Maria. A meu ver, é uma tentativa de mostrar que “adorar” Maria é como uma segunda natureza para os católicos; por isso, vemos as pessoas apaixonar-se facilmente pela pregação da menina.

Essa ideia, além de muito errada, é bastante perigosa, pois o estereótipo de que os católicos “adoram Maria” já tem muita força hoje em dia, razão por que vários católicos relaxados que eu mesmo conheci pessoalmente têm apelado à suposta “adoração a Maria” como “motivo” para abandonar a Igreja. É um esquema chamativo pelo qual os produtores atraem as seitas cristãs que acreditam que os católicos adoram Maria e, ao mesmo tempo, procuram abalar a fé dos católicos frouxos que vierem a assistir ao filme. Por fim, ao apresentar este demônio com a aparência de Maria, o filme está simplesmente alimentando um estereótipo já existente e, portanto, não está nos dando nada de novo ou estimulante. É apenas mais um filme de terror anticatólico que aproveita todas as velhas mentiras contra a fé.

Na minha opinião, nenhum católico firme na fé assistirá ao filme, mas seus amigos cristãos e os católicos relaxados sim, e é por isso que estou dando a vocês algumas coisas para lhes dizer, a fim de expor as falácias teológicas do filme e convencê-los a não assistir a ele. Em primeiro lugar, o filme tenta mostrar que a suposta aparição mariana consegue popularizar-se em massa em muito pouco tempo. Explique ao seu amigo que já houve muitas aparições falsas no passado e que a Igreja tem critérios muito claros para julgar se uma aparição é real ou não. Não há como uma aparição ser capaz de ganhar tantos seguidores antes de o bispo local ou o Vaticano intervir e classificá-la como falsa ou de origem demoníaca. Em segundo lugar, o viés antimariano é forte e você precisará enfrentá-lo. Tudo o que disse acima ao falar sobre Maria é um bom ponto de partida; mas, se você quiser levá-lo a uma conversa mais profunda, pesquise sobre os Padres da Igreja, especialmente Santo Agostinho. Por último, mostre a ele quais são os clichês e estereótipos batidos usados no filme. Não se trata de um novo filme de terror; é a mesma salada de sempre, com todos os chavões anticatólicos de Hollywood que já vimos uma e outra vez.

Em suma, não espero que seja um bom filme, mesmo em termos técnicos. Com uma pontuação de 33% no site Rotten Tomatoes, 5/10 no IGN e uma resenha intitulada Holy Crap, The Unholy is a bore (“Caramba, The Unholy é um tédio”), não me preocupa muito que o impacto do filme dure muito. No entanto, as discussões que ele vai inspirar vão durar muito mais do que a memória do filme e, como católicos, devemos fazer o que está ao nosso alcance para evangelizar e proteger tanto a nossa fé quanto Nossa Senhora das mensagens falsas que The Unholy nos apresenta.

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Ladainha do Espírito Santo
Oração

Ladainha do Espírito Santo

Ladainha do Espírito Santo

Repleta de invocações à Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, esta conhecida ladainha é muito recomendável, especialmente para estes dias que precedem a grande festa de Pentecostes.

Equipe Christo Nihil Praeponere17 de Maio de 2021Tempo de leitura: 3 minutos
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Ainda que de uso privado, é muito tradicional esta ladainha em honra ao divino Espírito Santo. Por suas inúmeras invocações à Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, ela costuma ser adicionada às novenas de Pentecostes. Para os que se consagram à Santíssima Virgem pelo método de S. Luís Maria Grignion de Montfort, trata-se de uma das orações preparatórias que se rezam ao longo de vários dias. 

Nestes dias que precedem a grande festa do Espírito Santo, é muito apropriada a sua recitação, individualmente ou em família.


Senhor, tende piedade de nós.
Jesus Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós

Divino Espírito Santo, ouvi-nos.
Espírito Paráclito, atendei-nos

Deus Pai dos céus, tende piedade de nós.
Deus Filho, Redentor do mundo, tende piedade de nós.
Deus Espírito Santo, tende piedade de nós.
Santíssima Trindade, que sois um só Deus, tende piedade de nós.

Espírito da verdade, tende piedade de nós.
Espírito da sabedoria, tende piedade de nós.
Espírito da inteligência, tende piedade de nós.
Espírito da fortaleza, tende piedade de nós.
Espírito da piedade, tende piedade de nós.
Espírito do bom conselho, tende piedade de nós.
Espírito da ciência, tende piedade de nós.
Espírito do santo temor, tende piedade de nós.
Espírito da caridade, tende piedade de nós.
Espírito da alegria, tende piedade de nós.
Espírito da paz, tende piedade de nós.
Espírito das virtudes, tende piedade de nós.
Espírito de toda a graça, tende piedade de nós.
Espírito da adoção dos filhos de Deus, tende piedade de nós.
Purificador das nossas almas, tende piedade de nós.
Santificador e guia da Igreja Católica, tende piedade de nós.
Distribuidor dos dons celestes, tende piedade de nós.
Conhecedor dos pensamentos e das intenções do coração, tende piedade de nós.
Doçura dos que começam a vos servir, tende piedade de nós.
Coroa dos perfeitos, tende piedade de nós.
Alegria dos anjos, tende piedade de nós.
Luz dos patriarcas, tende piedade de nós.
Inspiração dos profetas, tende piedade de nós.
Palavra e sabedoria dos apóstolos, tende piedade de nós.
Vitória dos mártires, tende piedade de nós.
Ciência dos confessores, tende piedade de nós.
Pureza das virgens, tende piedade de nós.
Unção de todos os santos, tende piedade de nós.

Sede-nos propício, perdoai-nos, Senhor.
Sede-nos propício, atendei-nos, Senhor

De todo o pecado, livrai-nos, Senhor.
De todas as tentações e ciladas do demônio, livrai-nos, Senhor.
De toda a presunção e desesperação, livrai-nos, Senhor.
Do ataque à verdade conhecida, livrai-nos, Senhor.
Da inveja da graça fraterna, livrai-nos, Senhor.
De toda a obstinação e impenitência, livrai-nos, Senhor.
De toda a negligência e tepor do espírito, livrai-nos, Senhor.
De toda a impureza da mente e do corpo, livrai-nos, Senhor.
De todas as heresias e erros, livrai-nos, Senhor.
De todo o mau espírito, livrai-nos, Senhor.
Da morte má e eterna, livrai-nos, Senhor.
Pela vossa eterna procedência do Pai e do Filho, livrai-nos, Senhor.
Pela milagrosa conceição do Filho de Deus, livrai-nos, Senhor.
Pela vossa descida sobre Jesus Cristo batizado, livrai-nos, Senhor.
Pela vossa santa aparição na transfiguração do Senhor, livrai-nos, Senhor.
Pela vossa vinda sobre os discípulos do Senhor, livrai-nos, Senhor.
No dia do juízo, livrai-nos, Senhor

Ainda que pecadores, nós vos rogamos, ouvi-nos.
Para que nos perdoeis, nós vos rogamos, ouvi-nos.
Para que vos digneis vivificar e santificar todos os membros da Igreja, nós vos rogamos, ouvi-nos.
Para que vos digneis conceder-nos o dom da verdadeira piedade, devoção e oração, nós vos rogamos, ouvi-nos.
Para que vos digneis inspirar-nos sinceros afetos de misericórdia e de caridade, nós vos rogamos, ouvi-nos.
Para que vos digneis criar em nós um espírito novo e um coração puro, nós vos rogamos, ouvi-nos.
Para que vos digneis conceder-nos verdadeira paz e tranquilidade do coração, nós vos rogamos, ouvi-nos.
Para que vos digneis fazer-nos dignos e fortes, para suportar as perseguições pela justiça, nós vos rogamos, ouvi-nos.
Para que vos digneis confirmar-nos em vossa graça, nós vos rogamos, ouvi-nos.
Para que vos digneis receber-nos no número dos vossos eleitos, nós vos rogamos, ouvi-nos.
Para que vos digneis ouvir-nos, nós vos rogamos, ouvi-nos.
Espírito de Deus, nós vos rogamos, ouvi-nos

Cordeiro de Deus que tirais o pecado do mundo, enviai-nos o Espírito Santo.
Cordeiro de Deus que tirais o pecado do mundo, mandai-nos o Espírito prometido do Pai.
Cordeiro de Deus que tirais o pecado do mundo, dai-nos o Espírito bom

Espírito Santo, ouvi-nos.
Espírito consolador, atendei-nos

℣. Enviai, Senhor, o vosso Espírito, e tudo será criado,
℟. E renovareis a face da terra.

Oremos. Deus, que instruístes os corações dos vossos fiéis com a luz do Espírito Santo, fazei que apreciemos retamente todas as coisas segundo o mesmo Espírito e gozemos sempre da sua consolação. Por Cristo, nosso Senhor. Amém.

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