CNP
Christo Nihil Præponere"A nada dar mais valor do que a Cristo"
Evangelize compartilhando!
Todos os direitos reservados a padrepauloricardo.org®
Vivos ou mortos: quem mais precisa de orações?
Espiritualidade

Vivos ou mortos:
quem mais precisa de orações?

Vivos ou mortos: quem mais precisa de orações?

“Certamente devemos orar pela conversão dos pecadores, mas sem prejuízo do que devemos às almas sofredoras do Purgatório, tão caras ao Coração de Jesus.”

Pe. François Xavier SchouppeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere30 de Abril de 2019
imprimir

Quando exaltamos os méritos da oração pelos mortos, de modo algum inferimos que outras boas obras devam ser omitidas; porque todos as outras obras se devem praticar de acordo com o tempo, o lugar e as circunstâncias. A única intenção que tínhamos em vista era dar uma ideia correta da misericórdia para com os mortos e inspirar aos outros o desejo de praticá-la.

Além disso, as obras de misericórdia espiritual, que têm por objeto a salvação das almas, são todas de igual excelência, e é somente em certos aspectos que podemos colocar a assistência dos mortos acima do zelo pela conversão dos pecadores.

Relata-se nas Crônicas dos Frades Pregadores que surgiu uma controvérsia entre dois religiosos daquela Ordem, os irmãos Bento e Bertrand, cujo tema eram os sufrágios pelos defuntos. Foi ocasionada pelo seguinte: o irmão Bertrand celebrava frequentemente a Santa Missa pelos pecadores e orava continuamente por sua conversão, impondo-se as mais severas penitências; mas raramente era visto celebrando a Missa com as vestes pretas em favor dos mortos. O irmão Bento, que tinha grande devoção pelas almas do Purgatório, tendo observado essa conduta, perguntou-lhe por que ele agia assim.

“Porque”, respondeu Bertrand, “as almas do Purgatório têm certeza de sua salvação, enquanto os pecadores estão continuamente expostos ao perigo de cair no inferno. Pode haver condição mais deplorável que a de uma alma em estado de pecado mortal? Ela está em inimizade com Deus e presa nas correntes do diabo, suspensa sobre o abismo do inferno pelo frágil fio da vida, que se pode romper a qualquer momento. O pecador anda no caminho da perdição; se ele continuar avançando, cairá no abismo eterno. Devemos, portanto, vir em seu auxílio e preservá-lo desta que é a maior das desgraças, trabalhando pela sua conversão. Além disso, não foi para salvar os pecadores que o Filho de Deus veio à Terra e morreu na cruz? São Dênis também nos assegura que a mais divina de todas as coisas divinas é trabalhar com Deus para a salvação das almas.”

“Quanto às almas no Purgatório”, continuou o irmão Bertrand, “elas estão seguras, sua salvação eterna é certa. Elas sofrem, presas a grandes tormentos, mas nada têm a temer do inferno, e os seus sofrimentos terão um fim. As dívidas contraídas diminuem a cada dia, e logo desfrutarão da luz eterna, ao passo que os pecadores são continuamente ameaçados pela condenação, a desgraça mais terrível que pode acontecer a uma criatura de Deus.”

“Tudo o que você disse é verdade”, respondeu o irmão Bento, “mas há outra consideração a ser feita. Os pecadores são escravos de Satanás por livre e espontânea vontade. Seu jugo é de sua própria escolha, e eles poderiam quebrar suas correntes se assim quisessem, enquanto as pobres almas do Purgatório só o que fazem é suspirar e implorar a ajuda dos vivos. É impossível que elas quebrem os grilhões que as mantêm presas nas chamas penais. Suponha que você tenha encontrado dois mendigos, um doente, mutilado e indefeso, absolutamente incapaz de sustentar-se sozinho; o outro, pelo contrário, embora em grande angústia, jovem e vigoroso; qual dos dois mereceria a maior parte de sua esmola?”

“O inválido, certamente”, respondeu Bertrand.

“Bem, meu querido pai”, continuou Bento, “esse é o caso dos pecadores e das santas almas do Purgatório. Estas não podem mais se ajudar. O tempo de oração, confissão e boas obras passou para elas; nós, porém, somos capazes de aliviá-las. É verdade que elas mereceram esses sofrimentos em punição de seus pecados, mas agora elas os choram e detestam. Elas estão na graça e amizade de Deus, enquanto os pecadores são inimigos dele. Certamente devemos orar pela conversão destes, mas sem prejuízo do que devemos às almas sofredoras, tão caras ao Coração de Jesus.”

“Vamos compadecer-nos dos pecadores, mas não nos esqueçamos”, rematou o irmão Bento, “que eles têm à sua disposição todos os meios de salvação; eles devem quebrar os laços do pecado e fugir ao perigo da condenação que os ameaça. Não parece evidente que as almas sofredoras têm mais necessidade e merecem uma participação maior em nossa caridade?”

Apesar da força desses argumentos, o irmão Bertrand persistiu em sua primeira opinião.

Na noite seguinte, porém, apareceu-lhe uma alma do Purgatório que o fez experimentar por uns breves instantes a dor que ela mesma suportava. O sofrimento foi tão atroz que pareceu impossível suportá-lo. E, como diz o profeta Isaías, vexatio intellectum dabit, quer dizer, “só a aflição faz entender a lição” (Is 28, 19), Bertrand finalmente se convenceu de que deveria fazer mais pelas almas sofredoras. Na manhã seguinte, cheio de compaixão, subiu os degraus do altar revestido de preto e ofereceu o Santo Sacrifício pelos mortos.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

São Bento, o poder do silêncio e a ditadura do ruído
Espiritualidade

São Bento, o poder do
silêncio e a ditadura do ruído

São Bento, o poder do silêncio e a ditadura do ruído

Quando nem as igrejas e liturgias respeitam mais a profunda necessidade humana de recolher-se em silêncio na presença do Deus vivo, só o que nos pode salvar é a sabedoria dos santos.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere29 de Abril de 2019
imprimir

A Igreja recorda no dia 21 de março o dies natalis, isto é, o dia do nascimento para o céu, de São Bento de Núrsia, o grande pai do monasticismo ocidental e copadroeiro da Europa (n.d.t.: no novo calendário litúrgico, sua memória litúrgica é celebrada em 11 de julho). Mas pode um monge que viveu 1500 anos atrás ter algo de relevante a nos ensinar hoje?

Não só tem ele muito a nos ensinar, como o próprio fato de ter vivido há tanto tempo lhe dá uma vantagem especial nessa matéria. Pois, como diz C. S. Lewis em seu prefácio ao livro de Santo Atanásio sobre a Encarnação, as pessoas modernas — ou seja, nossas contemporâneas — tendem a ficar aprisionadas em todo um conjunto de suposições sobre como as coisas são ou deveriam ser, tomando-as por certas sem sequer terem ciência de outras alternativas, ao passo que os antigos, trabalhando a partir de um conjunto de pressupostos completamente diferentes dos nossos, estão em condições de confrontar, questionar, enfraquecer e até mesmo reduzir a pó as nossas suposições.

O autor anglicano conclui que, quanto mais entrarmos em contato com livros antigos, tanto maior será a possibilidade de nos conhecermos, criticarmos e aperfeiçoarmos. A ironia é que só as coisas antigas podem nos tornar “novos”, enquanto as completas novidades só o que farão é envelhecer-nos em nossas tolices.

Um exemplo admirável desse fenômeno é a campanha moderna contra o silêncio. O Cardeal Sarah, como sabemos, tem falado com eloquência — e (o que é bem mais difícil de encontrar) a partir de uma fé e um espírito de adoração profundos — sobre a ditadura do ruído na vida secular e também, cada vez mais, no domínio do sagrado.

Está se tornando cada vez mais difícil encontrar um único lugar tranquilo que seja no mundo: bares e restaurantes tocam música tão alto que mal se pode ouvir a pessoa do outro lado da mesa; lojas, escritórios e instalações de todos os tipos parecem estar agindo sob uma lei cósmica para evitar o silêncio a todo custo; se o ruído ambiente for inadequado, os onipresentes fones de ouvido garantirão um fluxo ininterrupto; até mesmo muitos parques e áreas de recreação têm sua doce paz perturbada pelo som do tráfego de automóveis e aviões cruzando o céu.

Não fosse tudo isso desafiador o bastante para a saúde mental, raramente se pode encontrar uma igreja ou uma liturgia católica que respeite a profunda necessidade humana de recolher-se em silêncio na presença do Deus vivo, que fala com ternura aos corações que lhe são dóceis.

Um amigo e eu discutíamos certa vez o que era melhor na Missa, se o silêncio ou a meditação, e ele escreveu-me o seguinte:

O silêncio pode assumir várias formas. Há um silêncio de desespero; há o silêncio repentino em um belo pôr do sol; há um silêncio de admiração; há um silêncio de confusão e de perplexidade; há um silêncio de intimidade e de proximidade. Das muitas formas de silêncio, algumas são adequadas à Missa e outras não.

O que define um silêncio são os ruídos em torno dele, assim como um batente delimita uma porta. O silêncio que se ouve logo depois de um estrondo e pouco antes de um grito é definido pelo estrondo e pelo grito. Da mesma forma, o silêncio que vem depois do canto gregoriano e antes da proclamação do Santo Evangelho é definido pela música que lhe antecede e pelas palavras que lhe seguem. Portanto, no fim das contas, não se pode escolher entre a música e o silêncio, porque é a música o que define o silêncio como este tipo de silêncio, ao invés de outro. É como se alguém perguntasse se deveríamos preferir o papel ao contorno que o define.

Quando estou em uma Missa show com guitarras e performances musicais, o silêncio entre os sons têm uma característica clara e definida: trata-se de um tempo morto. É o silêncio que ouvimos entre os atos. A música propriamente sacra na Missa — o canto gregoriano, a polifonia, os hinos clássicos e o órgão — atua como uma moldura em torno do silêncio e define-o como um silêncio sagrado, densamente significativo, pronto para ser preenchido pela oração. O silêncio na Missa, por sua vez, age como uma direção ou um peso interno para a música, mantendo-a ancorada na quietude eterna, a “Palavra sem palavras”.

S. Bento entendeu muito bem todas essas coisas, como podemos deduzir de sua Santa Regra, na qual ele fala em muitos lugares da necessidade e importância do silêncio. São particularmente dignas de nota suas palavras sobre o oratório ou a capela: “Terminado o Ofício Divino, saiam todos com sumo silêncio e tenha-se reverência para com Deus, de modo que, se acaso um irmão quiser rezar em particular, não seja impedido pela imoderação de outro” (Regra, 52). S. Bento entende que a liturgia existe para criar dentro de nós um espaço para Deus e um espaço para o silêncio, que façam florescer a nossa oração, como uma conversa de amigos que se amam.

O patriarca dos monges também nos diz: “Os monges devem, em todo tempo, esforçar-se por guardar o silêncio” (Regra, 42). Isso pode parecer, inicialmente, um exagero, se consideramos quantas horas por dia os monges dedicam a cantar em conjunto os louvores divinos na Missa e no Ofício Divino, e o quanto a recreação ou a hospitalidade deles podem chamá-los a falar com os outros. Como os monges podem manter silêncio “em todos os momentos”? Após uma reflexão mais profunda, a Regra nos inclina a ver a oração vocal e o diálogo de caridade, feitos no espírito correto, como se originando de e sendo preenchidos pelo silêncio de um coração recolhido na presença de Deus e que aspira a servi-lo. Eles são, noutras palavras, uma tradução em cânticos e palavras desse silêncio interior; eles compartilham a paz de Deus e aumentam-na ao redor.

S. Bento insiste, contudo, no silêncio literal durante toda a noite e, sempre que possível, durante o dia. Para tanto, no riquíssimo capítulo 4 da Regra, relativo aos “instrumentos das boas obras” (que podem servir de base para um excelente exame de consciência), ele nos fornece uma razão negativa baseada na natureza humana decaída e uma razão positiva, com base no objetivo elevado da vida cristã.

S. Bento reconhece que, pecadores como somos, com frequência somos “entregues a murmúrios”, detrações, “fala maligna ou depravada”, conversa excessiva — e que essas coisas tornam difícil para nós “ouvir com boa vontade a leitura sagrada” e “estar frequentemente ocupado em oração”. Embora ele não mencione isso, a mesma dificuldade surge de qualquer ruído inútil, frívolo ou perturbador em nosso ambiente.

Mas por que deveríamos “ouvir a leitura sagrada” e “estar ocupados em oração”? O mesmo capítulo estabelece o objetivo: para que nos possamos “tornar estranhos às coisas mundanas”, colocar nossa esperança em Deus e “nada antepor ao amor de Cristo” (Christo nihil praeponere).

Para muitos dos que vivemos no mundo, essas frases estabelecem um ideal brilhante, sempre realizado de modo imperfeito. Ainda assim, não se pode chegar a um destino distante sem dar passos, pequenos ou grandes, para alcançá-lo. Um coração tranquilo e recolhido, cheio de amor silencioso, bebendo o cálice do Senhor e provando a doçura da sua vitória na amargura do sofrimento — é aqui que queremos terminar. Se queremos chegar a este termo, devemos começar aqui, agora, hoje, com mais tempo, mais espaço para o silêncio em nossas vidas.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

A vontade de Deus na vida de um rei
Espiritualidade

A vontade de Deus na vida de um rei

A vontade de Deus na vida de um rei

“Agora, quero dizer-lhe com absoluta franqueza como se dá comigo: todo o meu empenho sempre foi reconhecer claramente, em tudo, a vontade de Deus e segui-la da maneira mais perfeita.”

Equipe Christo Nihil Praeponere25 de Abril de 2019
imprimir

“Agora, quero dizer-lhe com absoluta franqueza como se dá comigo: todo o meu empenho sempre foi reconhecer claramente, em tudo, a vontade de Deus e segui-la da maneira mais perfeita” [1].

Essa confissão do bem-aventurado Carlos da Áustria, feita a sua esposa na noite de sua morte, é o “testamento de todos os santos”, no fundo. Se alguém nos perguntasse que é, que faz um santo ou que nota se poderia achar em todos e cada um deles, poderíamos responder, simplesmente: os santos são aqueles que cumpriram a vontade de Deus; são os que fizeram da petição dominical: Fiat voluntas tua, o seu estandarte neste mundo.

Mas e nós, como podemos reconhecer em nossa vida essa vontade de Deus?

I. O primeiro caminho e o mais fundamental encontra-se naquilo que Nosso Senhor já nos deixou revelado, principalmente através de seus Mandamentos (necessários para a salvação) e de seus conselhos (necessários para a santificação). De fato, quando o jovem rico se aproximou de Cristo (cf. Mt 19, 16-22) perguntando-lhe o que devia fazer para ganhar a vida eterna, Deus mostrou-lhe primeiro o Decálogo; como já o cumprisse, então, Ele mostrou-lhe mais: o “caminho da perfeição”, que consiste no desapego, na caridade e no seguimento humilde de Jesus.

A essa vontade de Deus manifesta através da Revelação São Francisco de Sales dá o nome de “vontade significada de Deus”:

A doutrina cristã propõe-nos claramente as verdades que Deus quer que creiamos, os bens que quer que esperemos, as penas que quer que temamos, o que quer que amemos, os mandamentos que quer que guardemos e os conselhos que deseja sigamos. E tudo isso se chama a vontade significada de Deus, porque Ele nos significou e manifestou que quer e exige que tudo isso seja crido, esperado, temido, amado e praticado [2].

Só em nos determos nisso já podemos resolver muitos dos problemas com que muitas vezes nos deparamos nesta vida. De fato, quando se apresentam diante de nós, claramente, o bem e o mal, a Palavra de Deus e a sedução do diabo, que dúvida pode existir no caminho a ser tomado?

Neste ponto, um fato da vida do Beato Carlos da Áustria — ocorrido quando ele já se tinha afastado do trono do Império Austro-Húngaro — pode ajudar-nos a entender a seriedade e a firmeza do propósito que devemos ter no combate contra o pecado:

Durante o exílio suíço, mais de uma vez, altos expoentes da maçonaria ofereceram a Carlos a possibilidade de retomar, através de sua ajuda, o trono do qual, também por causa deles, ele tinha sido deposto, com a condição de que admitisse leis mais liberais com relação ao matrimônio, um sistema de escola livre e a admissão da maçonaria na Áustria. A resposta que dava a tais propostas era verdadeiramente exemplar: “Aquilo que recebi das mãos de Deus não posso aceitá-lo das mãos do demônio” [3].

É certo que esse é o tipo de tentação específico de uma autoridade civil, mas, em nossa vida diária, em nossas próprias funções e estados de vida, quantas não são as situações nas quais devemos escolher se iremos seguir a vontade de Deus ou se faremos, ao contrário, a nossa vontade, traindo a Deus e pecando contra Ele!

Nesta matéria, não há “discurso de tolerância” possível, nem “meio-termo”: diante de uma tentação, como diz Orígenes, ou saímos mártires ou idólatras [4]; ou dizemos sim a Deus e não ao pecado, ou dizemos sim ao pecado… e não a Deus. Assim, sendo bem práticos, ou se vai à Missa ao domingo, ou é necessário confessar-se para voltar a comungar; ou se comete adultério, ou se é fiel; ou se fornica, ou se é casto; ou se rouba, ou se é honesto.

Essas alternativas nos mostram como a oposição mais radical que há à vontade de Deus é quando lhe voltamos as costas pelo pecado mortal. “Há pecado que é para a morte” (1Jo 5, 16), ensina a Escritura, e isso ocorre quando “a alma provoca uma desordem que vai até à separação do fim último — Deus — ao qual se encontra ligada pela caridade” [5]. Isso quer dizer que, assim como não se pode receber as bênçãos de Deus e aceitar ao mesmo tempo as vis ofertas do demônio, assim como não é possível dizer-se amigo de Cristo e, ato contínuo, traí-lo por trinta moedas de prata, “no plano atual da Providência, toda alma se encontra ou em estado de graça, ou em estado de pecado mortal” [6], e tertium non datur.

Relativizar isso — como tantos em nosso tempo, inclusive em posições de autoridade, têm procurado fazer — é relativizar a doutrina de sempre da Igreja, é pôr abaixo todo o edifício moral católico… é frustrar toda possibilidade de que as pessoas tenham uma vida espiritual. Afinal de contas, sem o estado de graça, não há céu depois desta vida e... que tragédia pode haver maior do que essa? O Beato Carlos da Áustria o havia compreendido muito bem e, ainda em seu testamento, deixou consignado este desejo do seu coração a respeito dos próprios filhos: “Deixai-os antes morrer que cometer um pecado mortal. Assim seja” [7].

Eis como deve pensar todo homem que tenha ! Para o Beato Carlos, assim como para todos os santos e santas da Igreja, havia a clara consciência de que é melhor perder o mundo inteiro, pela morte física, do que a vida eterna, pela morte da alma. Mas ai de nós! Quantos estamos dispostos a essa simples determinação?

II. Há entretanto um outro “tipo” de vontade divina, por assim dizer, a cuja obediência está necessariamente ligado um grandioso progresso na vida de santidade: trata-se da “vontade de beneplácito de Deus”, que se manifesta em “todos os acontecimentos providenciais que Deus quer ou permite para nosso maior bem, e sobretudo para nossa santificação” [8].

Por mais que muitos caiam na ilusão de que detêm o controle das próprias vidas, a verdade é que o roteiro da história humana é escrito pelo Criador. Ele, em sua providência, tudo ordena e governa com sabedoria, em seus mínimos detalhes, de modo que até mesmo os “erros” deste ou daquele instrumento da orquestra são dispostos de forma a deixar ainda mais bela e perfeita a sinfonia da história. Em nossa vida particular mesmo, quantas “notas” destoantes não terminam se ajustando a todo o conjunto! Quantas vezes o que encaramos como uma “desgraça” não acabou se mostrando uma grande graça!

Não só quando enxergamos o bem por trás das coisas que nos acontecem, no entanto, mas principalmente quando não conseguimos compreendê-las, é o momento de abandonar-se à vontade de Deus, como fez Santo Jó: “O Senhor deu, o Senhor tirou, bendito seja o nome do Senhor!” ( 1, 21); “Se aceitamos de Deus a felicidade, não deveríamos aceitar também a infelicidade?” ( 2, 10).

Não se trata de coisa fácil, é verdade. Entregar-se à vontade divina de beneplácito, dizer-lhe, ainda que com o coração aflito: Fiat voluntas tua, significa entregar o controle da própria vida nas mãos de Outro. O mais simples ato de abandono nesse sentido talvez nos fará sentir “inseguros” num primeiro instante: “Como assim?”, perguntarão nossos sentimentos, “entregar as rédeas de sua vida assim, sem mais nem menos?” Mas a isso devemos responder com o ato de fé de quem se sabe cuidado por Deus, de quem se sabe amado por Ele com o maior amor, o amor total, o amor de holocausto.

O desejo de Deus por nós, caro leitor — celebramos isso há pouco na Semana Santa —, levou-O à Cruz. Que provas mais de amor poderemos nós reclamar, se Ele deu o seu próprio Filho para a libertação dos escravos, como cantamos na noite do Sábado Santo: ut servum redimeres, Filium tradidisti? Se Ele nos amou assim, como não lançarmos todas as nossas preocupações em suas mãos (cf. 1Pd 5, 7), confiantes de que Ele fará não o que queremos, mas o que Ele sabe ser melhor para nós? Como não rezar com Santa Teresa as seguintes linhas de seu Caminho de Perfeição?

Cumpra-se em mim, Senhor, vossa vontade de todos os modos e maneiras que Vós, Senhor meu, determinardes. Se quiserdes enviar trabalhos, dai-me força, e venham! Se perseguições e enfermidades e desonras e mínguas, aqui estou! Não afastarei o rosto, Pai meu, nem há razão para virar as costas. Pois vosso Filho, em meu nome e no de todos, deu esta minha vontade, não quero que haja falha da minha parte. Fazei-me Vós graça e dai-me vosso reino, como Ele o pediu, a fim de que eu o possa executar; em seguida disponde de mim como de coisa vossa, conforme a vossa vontade [9].

A lista de citações dos santos a esse respeito é abundante, mas, tendo nós começado estas linhas com o Beato Carlos da Áustria, terminemo-las também com uma frase sua régia, que ele costumava repetir com frequência, segundo o testemunho de sua esposa: “Encontramo-nos nas mãos da Divina Providência”, ele dizia. “Tudo o que nos acontece está bem. Apenas confiemos” [10].

Pode haver conselho melhor a seguirmos em meio aos percalços deste “vale de lágrimas”?

Referências

  1. Giovanna Brizi, A vida religiosa do Beato Carlos da Áustria, 2.ª ed., Rio de Janeiro: Lumen Christi, 2014, p. 10.
  2. Tratado do Amor de Deus, VIII, 3.
  3. Giovanna Brizi, op. cit., pp. 53-54.
  4. Cf. Exortação ao Martírio, 32 (PG 11, 603B).
  5. STh I-II, q. 72, a. 5.
  6. Pe. Reginald Garrigou-Lagrange, Las tres edades de la vida interior. 11.ª ed., Madri: Palabra, 2007, v. 1, p. 31.
  7. Giovanna Brizi, op. cit., p. 71.
  8. Adolphe Tanquerey, Compêndio de Teologia Ascética e Mística. Trad. de João Ferreira Fontes. 6.ª ed., Porto: Apostolado da Imprensa, 1961, p. 233.
  9. Caminho de Perfeição, XXXII, 10.
  10. Giovanna Brizi, op. cit., p. 11.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

A amizade deve estar “acima de tudo”?
Espiritualidade

A amizade deve estar “acima de tudo”?

A amizade deve estar “acima de tudo”?

Quem seria tão “arrogante”, “intolerante” ou “farisaico” a ponto de exaltar a religião ou a política à custa de suas amizades? As relações físicas, de carne e osso, não contam mais, afinal, do que princípios ideológicos “frios”?

James H. TonerTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere17 de Abril de 2019
imprimir

I. Eu faço parte de um pequeno círculo de conhecidos do passado — todos ex-alunos da mesma universidade, em 1968 — que compartilha histórias, piadas, citações, recomendações de livro e vídeos. Recentemente, deparamo-nos com a seguinte declaração, comumente atribuída a Thomas Jefferson: “Eu nunca considerei uma divergência de opinião em política, em religião ou em filosofia como razão para me afastar de um amigo.”

Nem é preciso dizer que a citação foi recebida com unanimidade. Afinal de contas, por que qualquer um de nós, velhos conhecidos, amigos e companheiros que somos, descartaríamos nossos cinquenta anos de parceria devido a uma possível diferença de opinião em assuntos tão “triviais” como política, religião ou filosofia?

Digo que “a citação foi recebida com unanimidade”, exceto por mim (ainda que eu tenha me contido). Às vezes, tudo o que alguém sabe ou tudo aquilo em que acredita é colocado em xeque através de uma simples afirmação. Como professor, diácono, soldado (e também como esposo e pai de família), eu passei praticamente toda a minha vida adulta argumentando contra o ponto de vista expresso nessa declaração atribuída a Thomas Jefferson. Ironicamente, eu aprendi essa lição “antijeffersoniana” na mesma faculdade de que participaram os membros desse nosso “grupo virtual”.

Mas, afinal, quem seria tão arrogante, tão intolerante ou tão farisaico a ponto de exaltar a religião ou a política à custa de suas amizades? As relações físicas, de carne e osso, não contam mais numa escala de valores do que princípios ideológicos “frios”? A lealdade aos amigos não é a maior das virtudes? Não deveríamos dizer, com o romancista Edward Morgan Forster: “Se eu tivesse de escolher entre trair a minha pátria e trair um amigo, eu esperaria ter a coragem de trair o meu país”?

“Proibido nadar”, de Norman Rockwell.

II. Não, não e não.

Em grande parte da boa literatura, a amizade é exaltada com justiça e sabedoria. É possível ler sobre o assunto na Ética Nicomaqueia de Aristóteles e na Sirácida bíblica, especialmente em seu capítulo sexto, sem falar de outras obras de duradoura significância. Com isso somos levados a concluir, prima facie, que Thomas Jefferson deve estar certo: se nos fosse dado escolher entre ser fiel a um princípio abstrato ou ser fiel aos amigos, nós deveríamos escolher este último. E esse é, ao que parece, o consenso de nossos contemporâneos.

Mas a amizade ou é meritória ou é “meretrícia”. Se meretrícia, é falsa, fraudulenta e fugaz; se meritória, é verdadeira, fidedigna e duradoura. Se meretrícia, a amizade é construída sobre a areia da falta de caráter, da frivolidade ou da alegria vã; se meritória, porém, é construída sobre a rocha do que é supremo, permanente e piedoso. É o testemunho que nos dá o Salmo 101: “Detesto o crime de quem vos renega; que não me atraia de modo nenhum! Bem longe de mim, corações depravados, nem nome eu conheço de quem é malvado” (v. 3-4), e é o sentido deste versículo de Eclesiástico 6: “Separa-te daqueles que são teus inimigos, e fica de sobreaviso diante de teus amigos” (v. 13).

Toda as lealdades, amizades e camaradagens — valiosas como são — só se mantêm até certo ponto. Elas são circunstanciais, condicionais e contextuais; são contingentes e devem estar em conformidade com o que é bom, verdadeiro e belo, devem ser consistentes tanto com a razão natural quanto com a revelação (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 1954). Quando o que parece ser uma amizade é, na verdade, tentação ao pecado e ao mal, a amizade já está dissolvida.

Suponha que um “amigo” viesse lhe pedir para ajudá-lo a fazer algo manifestamente criminoso ou pecaminoso. Sua resposta deveria ser, primeiro, recusar-se e, segundo, admoestar o pecador, tentando convencê-lo do erro e ganhá-lo de volta para fazer o que é certo.

Tudo isso exige, no entanto, algo que está em falta nos dias de hoje: fidelidade a normas transcendentes. Essa ideia foi expressa de maneira clara, concisa e cogente pelo Papa São João XXIII em sua encíclica Ad Petri Cathedram, de 1959:

A causa e a raiz de todos os males que, por assim dizer, envenenam os indivíduos, os povos e as nações, e tantas vezes perturbam o espírito de muitos, está na ignorância da verdade. E não só na ignorância, mas às vezes até no desprezo e no temerário afastamento dela. Daqui erros de toda a espécie, que penetram como peste nas profundezas da alma e se infiltram nas estruturas sociais, desorganizando tudo, com grave ruína dos indivíduos e da sociedade humana (n. 4).

III. A citação de Thomas Jefferson transcrita no começo deste artigo deve ser lida, portanto, justamente ao contrário. Nós deveríamos considerar, sim, uma divergência crucial de opinião em política, em religião ou em filosofia, como forte razão para se afastar de um amigo. Mas o que seria, nesse sentido, uma divergência “crucial”?

Na magnífica peça A Man for All Seasons, de Robert Bolt [n.d.t.: da qual há um filme homônimo, em português chamado “O homem que não vendeu a sua alma”], São Thomas More é instado a trair a verdade para se aliar a outros (que já haviam traído a verdade) “por amizade”. O santo então pergunta, quando a consequência da ação de uma pessoa é ela ser mandada ao inferno, se seus amigos a deveriam acompanhar também àquele lugar, só “por amizade”.

Eis o ponto crucial. Quando uma suposta amizade aprova o mal ou nos conduz ao caminho do pecado (algo a que se costuma chamar “cooperação formal ou material com o mal”), nós devemos ter a prudência e a fortaleza de rejeitar esta que é uma “amizade” falsa, fraudulenta e fugaz. Aqueles que nos levam à perdição não são nossos melhores amigos, mas sim nossos piores inimigos, e nós devemos sim nos afastar deles (tendo-os aconselhado primeiro quanto à razão da rejeição).

O Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos tem um ditado segundo o qual “um soldado em dever de guarda não tem amigos”. Tampouco a nós toca ter amigos se o que estamos guardando (cf. 2Tm 1, 14) se encontra ameaçado pelas palavras ou ações daqueles que nós pensávamos ser amigos, aliados, colegas ou companheiros (incluindo nessa lista, a propósito, os homens de colarinho).

“Nós devemos envidar todos os nossos esforços”, diz Aristóteles, “para evitar a iniquidade e ser bons”. É dessa forma que alguém pode se tornar o verdadeiro amigo de outra pessoa. Sem o nosso próprio esforço, supremo e contínuo, pela virtude (cf. 2Pd 1, 3-11), não há fundamento para a amizade. Quando virmos que os outros estão se tornando ou se tornaram corruptos, nossa responsabilidade é nos apartarmos deles, e não nos juntarmos a eles. Provavelmente citando o poeta grego Menandro, São Paulo nos adverte: “Más companhias corrompem bons costumes” (1Cor 15, 33; 5, 11; 6, 9; Pr 13, 20; 2Cor 6, 14).

Há uma forma de entender, por fim, as “amizades” corruptas e nossa obrigação de nos afastarmos (ou mesmo fugirmos) delas. Os verdadeiros amigos, as amizades autênticas podem facilmente se dissolver nos “ácidos morais” de nossa época. Esses “ácidos” vêm do mundo (e de sua insistência em que o aqui e o agora é tudo o que existe), da carne (e de sua insistência em que o prazer físico é o ponto principal de todos os “relacionamentos”) e do diabo (para cujos ardis nós hoje nos encontramos pouquíssimo alertas), os três inimigos da alma, que têm moldado nossos costumes sociais e encontrado sua expressão na música e em outras formas de cultura popular.

IV. Falsas amizades estão sempre fundadas em um destes três males: a crença (irônica) de que Deus não existe, de que a virtude consiste na exaltação soberba de si próprio, e de que podemos imaginar um mundo (pelagiano) no qual somos nós mesmos que fazemos o certo e o errado. (Note-se que Adão e Eva, ao traírem a amizade de Deus, necessariamente prejudicaram o próprio relacionamento entre eles: cf. Gn 3, 5; 6, 5.)

A verdadeira amizade, porém, está sempre fundada, de modo consciente ou não, na piedosa devoção a Deus, no humilde reconhecimento da própria condição de pecador e na nossa necessidade da redenção divina, bem como no entendimento refinado de que existem, de fato, razões profundas para se viver e morrer. Encontrar homens e mulheres que estejam moral e mentalmente vinculados a essas verdades é como descobrir “um tesouro. Nada é comparável a um amigo fiel, o ouro e a prata não merecem ser postos em paralelo com a sinceridade de sua fé” (Eclo 6, 14-15).

Um sacerdote católico se perguntou certa vez, refletindo, se os ateus poderiam ser bons cidadãos e chegou à conclusão negativa; eu me pergunto, do mesmo modo, se os que não crêem em Deus podem ser bons amigos, e não posso chegar senão à mesma conclusão. Lealdade autêntica e na medida certa a um amigo só pode ser fruto da minha obediência a Deus (cf. Catecismo, n. 144; Rm 1, 5; 16, 26), sem o qual é inevitável que se siga uma abjeta confusão moral.

Se existe um “conserto” para amizades perversas ou pervertidas? É claro que sim. O conserto está sempre à nossa disposição, se tivermos a inteligência agraciada para ver e ouvir, e então nos conformarmos (cf. Rm 12, 2) à vontade de Deus. Mas o discernimento moral das pessoas parece ter sido sacrificado à “divindade” atual: o subjetivismo, que diz a nós que podemos fazer o que quisermos escolher e apartar-nos arrogantemente do Pão da Vida (cf. Jo 6, 35.66).

Nosso Senhor chama-nos seus amigos (cf. Jo 15, 15), mas essa é uma amizade que podemos abandonar a qualquer momento (e, ai de nós!, mui frequentemente nós o fazemos). Quando, então, pelo pecado, nós traímos essa primeira amizade, perde-se o fundamento para todas as outras amizades.

A primeira obrigação de quem deseja ser um bom amigo deve ser, portanto, a fidelidade à Verdade; e a segunda obrigação deriva naturalmente da primeira: tendo nós mesmos reconhecido o que é bom, verdadeiro e belo, devemos generosamente compartilhar essa visão com os outros e resolutamente chamar à conversão nossos amigos que, vivendo no pecado, erram longe do caminho de Deus (cf. Tg 5, 19; Sl 50, 13).

A amizade genuína, como toda comunidade genuína, pode acolher várias pessoas. Ela deve sempre basear-se, no entanto, não sobre uma diversidade incoerente de julgamentos morais (cf. 1Cor 5), mas antes na devota união de certezas quanto ao que é amável de modo absoluto e infinito (Venite adoremus Dominum, “Vinde, adoremos o Senhor”).

Se a frase com que começamos este texto é de fato de Thomas Jefferson, portanto, ele está errado: a verdadeira amizade exige que nos afastemos dos amigos aparentes, que conspurcam ou traem o que é puro, nobre e eterno.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.