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A tentação do sentimentalismo
Sociedade

A tentação do sentimentalismo

A tentação do sentimentalismo

É preciso resistir à tendência cultural hodierna de inventar e redefinir palavras na base de um sentimentalismo divorciado tanto da fé quanto da razão. Mas isso só será possível quando redescobrirmos que a Cruz e a Ressurreição são inseparáveis uma da outra.

Pe. Jerry J. PokorskyTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere31 de Agosto de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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Todos nós tendemos às vezes a falar em termos delicadamente sentimentais. Por solidariedade com quem acabou de perder um ente querido, podemos suavizar a verdade, dizendo: “Seu irmão faleceu na noite passada”. Mas a tendência cultural de hoje é inventar e redefinir palavras na base de um sentimentalismo divorciado da fé e da razão.

Ideólogos inventam e redefinem muitas palavras com o objetivo de subverter a cultura. O sentido popular de “racismo”, por exemplo, é hoje tão contestado que se tornou praticamente inútil, a não ser para difamar os outros.

Outros termos e frases são a tal ponto distorcidos, que chegam a negar a realidade. Por exemplo, é fato difícil de suportar e explicar com franqueza que as nossas igrejas estão fechando as portas devido ao abandono da prática da fé. Por isso, uma diocese pode sentir-se mais à vontade em explicá-lo como uma “reconfiguração” ou “renovação das nossas comunidades de fé”.

Afirmações factuais e honestas são chocantes para o hipersensível e politicamente correto. Outra dia, recebi de alguém uma mensagem contestando meus comentários no site da paróquia sobre o “Dia do Orgulho Transgênero no Condado de Fairfax”.

Chamei ao evento “abuso infantil”, e a pessoa que me contestou disse que minha descrição era “inapropriada e desnecessariamente provocativa”. 

“Inapropriado” é mais um daqueles termos sentimentalistas que impedem as pessoas de dizer que algo é errado. Mas… “desnecessária”? Não existe algo como um “transgênero”. Trata-se de um termo fabricado com o fim de camuflar a realidade de uma mutilação psicológica (e, em alguns casos, física). Quando as autoridades públicas promovem tal perversão sexual nas escolas, trata-se de fato de abuso infantil. Aceitar acriticamente a nomenclatura LGBTQ ajuda a promover uma agenda sexual radical.  

Boa parte da engenharia verbal contemporânea desfigura o amor humano autêntico e reduz a fé e a moral católicas a sentimentalismos piedosos. Mas, sem a referência ao fato central da nossa fé — a Cruz e a Ressurreição —, é fácil manipular emoções humanas e redefinir termos. Uma “fé” sentimental fica à margem dos Mandamentos divinos e carece de sentido; em última instância, é perigosa.

A Cruz e a Ressurreição são os dois lados de uma mesma moeda. O amor sacrificial é o fundamento da alegria cristã. Equilibramos a nossa vida devocional e intelectual quando viramos continuamente essa moeda, que tem, de um lado, a imagem de Jesus crucificado e, do outro, seus gloriosos dotes de Ressuscitado.

Pode ser nocivo olhar fixamente para a face crucificada de Jesus sem fazer referência à Ressurreição. Esse perigo se repete ao longo da história. Heresias rigoristas como o jansenismo e o calvinismo comprometem a alegria cristã. (A devoção de S. Margarida M.ª Alacoque ao Sagrado Coração de Jesus, manso e humilde, combateu o espírito de jansenismo durante sua época, às vezes excessivamente sentimental à sua própria maneira.)

É mais comum, porém, enfatizarmos a Ressurreição sem a Cruz e negligenciarmos os Mandamentos como fundamento do amor. Amor e alegria, quando separados da Lei de Deus, perdem sua natureza sacrificial, tornando-se um sentimentalismo mole, refém da constante mudança dos afetos humanos. Impulsionados por nossas afeições voláteis, definimos o amor em termos sentimentais, e não de acordo com a vontade de Deus.

Essa disfunção afeta o nosso desenvolvimento moral e religioso. Às vezes, os pais amam o carinho dos filhos mais do que os próprios filhos como dons de Deus. O resultado disso é uma criança emocionalmente descontrolada: um “mimado”. O clero também pode amar as afeições do povo mais do que o próprio povo, criado à imagem e semelhança de Deus. Então, em vez de lhe oferecer os meios espirituais para a salvação, os sacerdotes podem se tornar animadores piedosos, cedendo às emoções dos paroquianos. 

O mesmo sentimentalismo iníquo que deixa a fé à deriva faz o mesmo com a razão. Quem precisa de pensamento crítico quando vivemos para os consolos inconstantes da afeição humana? Em lugar da razão, a emoção começa a orientar e definir algumas palavras, banindo o uso de outras.

Salvo pela aparência de piedade cristã, não há muita diferença entre a religiosidade superficial e a impiedade, porque ambas ficam em grande medida à deriva, apenas com as emoções. Sem um firme fundamento na Cruz e na Ressurreição, nos Mandamentos e em toda a Tradição, é apenas uma questão de tempo até que nós — ou nossos filhos — abandonemos um cristianismo de fachada. Separada da fé e da razão, a cultura se torna cada vez menos instruída, mais arrogante e cruel.

A volta à sanidade começa pela redescoberta de que a Cruz e a Ressurreição são inseparáveis, equilibrando a nossa fé e aguçando a nossa inteligência.

Há, por todo o Evangelho, indícios que aludem à Cruz. Jesus nos ensina a amá-lo mais do que nossas famílias. Também nos ensina que, se não tomarmos a nossa cruz e o seguirmos, não seremos dignos de ser seus discípulos (cf. Mt 10, 37–42). Custa muito renunciar à obstinação e à inclinação ao pecado. O amor cristão que desafia os vínculos pecaminosos de afeição humana, mesmo no seio da família, é doloroso.

Nos Evangelhos também há indícios que aludem à Ressurreição, que é o fruto do amor sacrificial. Assim nos ensina Jesus a alegria que vem da união consigo: “Vinde a mim, vós todos que estais aflitos sob o fardo, e eu vos aliviarei. Tomai meu jugo sobre vós e recebei minha doutrina, porque eu sou manso e humilde de coração e achareis o repouso para as vossas almas. Porque meu jugo é suave e meu peso é leve” (Mt 11, 28–30).

No Evangelho de S. João (cf. 15, 10–11), vemos o mesmo ensinamento (a Cruz e a Ressurreição) de forma incisiva. A Cruz: “Se guardardes os meus mandamentos, sereis constantes no meu amor”; a Ressurreição: “Disse-vos essas coisas para que a minha alegria esteja em vós, e a vossa alegria seja completa”.

Só podemos romper com o terrível relativismo da engenharia verbal por meio de um exame de consciência honesto, medindo nossas vidas segundo a Lei divina e assumindo a responsabilidade pelas nossas ações. Quando decidimos amar a Deus acima de tudo, mesmo ao preço de perder a afeição daqueles que amamos, com a sua graça romperemos os laços do sentimentalismo sedutor. E nos alegraremos com o poder salvífico de Jesus, manso e humilde de Coração.

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A batalha do homem pelo coração de uma mulher
Espiritualidade

A batalha do homem
pelo coração de uma mulher

A batalha do homem pelo coração de uma mulher

O que significa ao homem entrar em combate pelo coração de uma mulher? Significa, antes de sair à procura de quem quer que seja, lançar os próprios fundamentos em Cristo, e não cessar jamais de lutar contra a tentação e o pecado.

Zachary HensonTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere31 de Agosto de 2020Tempo de leitura: 3 minutos
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Outro dia, fui a uma cafeteria e vi duas amigas conversarem à mesa. Sentei-me perto delas e comecei a fazer um pouco dos meus deveres de casa. Uma das garotas é uma católica muito devota, que nos últimos tempos tem procurado respostas a vários questionamentos sobre a sua fé. Ela e a amiga discutiam sobre o porquê de não haver mais homens fervorosos na fé, sobretudo quando o assunto são relacionamentos. 

Ela olhou para mim e perguntou: “Por que não há mais homens que queiram entregar-se a Deus nos relacionamentos? Por que não há mais homens tão obedientes a Deus, a ponto de estarem dispostos a mover montanhas por Ele?”

Já perdi a conta de quantos artigos e livros li sobre a necessidade de os homens serem mais fervorosos, de entrarem em combate pelo coração de uma mulher. Mas o que significa isso, exatamente? Temos mesmo de voltar à Roma antiga, desembainhar a espada no Coliseu e picotar um leão para salvar a donzela em apuros? Ou deveríamos, quem sabe, ir a um bar para salvar, com pose de herói, a garota acossada por um grandalhão? 

Hollywood nos deu, com certeza, algumas ideias irreais sobre o que é uma batalha de verdade.

O primeiro homem a sair derrotado desta luta teve por campa o Jardim do Éden. O elenco é formado aqui por Deus, Adão, Eva e a serpente. Deus plantara um jardim de beleza nunca antes vista, onde poderiam viver suas mais queridas criaturas, às quais impôs uma regra muito simples: não comer do fruto proibido. Mas, por sermos livres, somos capazes de nos deixar enganar por todo tipo de mentira, só para justificarmos nossas ações. Não deveria Eva ter sido esperta o bastante para não comer do fruto? É claro que sim. Ora, e onde estava Adão? Bem ao lado dela. Não bastava, então, dizer-lhe: “Não, Eva! É uma armadilha!” Teria a mulher caído, por acaso? E no entanto o silêncio de Adão fez cair em tentação, não só a Eva, mas também ao próprio Adão.

Eis aí o campo em que o homem deve travar a luta para conquistar o coração de uma mulher: a luta contra a tentação e o pecado. Nossa “Eva” será tentada ao longo da vida de muitas maneiras, numa batalha constante contra as vãs promessas do demônio. Imaginemos o pecado como uma neblina densa e mesmerizante, que se vai rastejando em direção aos que caem vítimas suas. Se víssemos nossa mulher aproximar-se mais e mais desse nevoeiro, não iríamos gritar a plenos plumões: “Afaste-se! É uma farsa!”?

Em vez disso, muitos homens hoje em dia pressionam as mulheres a mergulharem numa vida de pecado, manipuladas e convencidas por eles de que o único jeito de ser uma “boa namorada” é proporcionando-lhes prazer sexual ou tomando, mesmo à revelia, um trago após o outro. Satanás alegra-se destes homens, porque estão fazendo o seu trabalho sujo. Ao fim e ao cabo, a luta está em empurrá-las ou afastá-las de comportamentos pecaminosos.

São Francisco, em sua conhecida oração, diz que temos de ser instrumentos à disposição do Senhor, e o meu grande conselho é que você seja instrumento de Deus na vida de uma mulher. Deixe Cristo brilhar em suas ações, para que ela se afaste da neblina do pecado e seja envolvida com a glória divina. Se você tiver a oportunidade de ficar a sós com ela em casa, onde sabe que cederá à luxúria, mas, em vez disso, escolher rezar com ela e ir embora mais cedo, você terá saído vitorioso da batalha. Quando você a leva, não a um bar ou a um clube, mas a uma igreja para rezarem juntos, você ganhou a batalha. É o pecado a razão última de relacionamentos e casamentos fracassados. Uma casa sem fundação sólida há de ruir por qualquer motivo. Mas uma casa cimentada em Cristo se manterá de pé para sempre.

Temos de lançar os nossos fundamentos em Cristo antes de nos entregarmos a outra pessoa. Uma de minhas citações favoritas diz mais ou menos o seguinte: “O coração de uma mulher deve estar tão perdido em Deus, que um homem deve primeiro procurar a Ele para então encontrar a ela”. Mas, se ela não for tão dedicada a Deus, o homem de verdade irá conduzi-la para perto dele. 

Nós, homens, precisamos ter disciplina para permanecer firmes contra o pecado e a tentação, e sabedoria para saber que falharemos algumas vezes. Quando tivermos essa consciência e sabedoria, então poderemos travar batalha contra Satanás pelo coração de uma mulher.

Lutemos pela santidade!

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O fracasso da razão
Sociedade

O fracasso da razão

O fracasso da razão

O homem é um animal racional. A capacidade de raciocinar está enraizada em sua natureza. Quando não vive à luz da razão, ele não consegue ser verdadeiramente humano. Quando rejeita a razão, ele termina rejeitando Deus junto com ela.

Donald DeMarcoTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere28 de Agosto de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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O homem é um animal racional. A capacidade de raciocinar está enraizada em sua natureza. Quando não vive à luz da razão, ele não consegue ser verdadeiramente humano. S. Tomás de Aquino compreendeu as implicações sociais da razão e via nela um meio pelo qual todas as pessoas podem se comunicar umas com as outras sobre uma base comum. Ele acreditava, portanto, que a razão pode unir as pessoas. A capacidade de raciocinar é uma propriedade universal, diferentemente de raça, religião, condição social e lugar de nascimento. Quando escreveu a Summa contra gentiles, Tomás de Aquino estava convencido de que poderia estabelecer pontos em comum com os muçulmanos ao “recorrer à razão natural, com a qual todos são obrigados a concordar” (CG, II, 4).

Talvez poderíamos dizer que S. Tomás estava excessivamente convencido, pois é possível que as pessoas se recusem a dar seu assentimento à razão. O fato de possuirmos algo não significa que sempre o utilizemos, por mais que se trate de uma propriedade que define a nossa natureza. Se as pessoas, no entanto, forem honestas consigo mesmas, terão de prestar assentimento à razão, pois não poderão viver (em nenhum sentido prático) sem a orientação proporcionada por ela.

Jacques Maritain escreve o seguinte no livro The Range of Reason [“O Alcance da Razão”, sem tradução para o português]: “Nada é mais importante do que os eventos que ocorrem no interior daquele universo invisível que é a mente humana”. Quando o homem vive segundo a razão, vive de acordo com a sua natureza. Quando rejeita a razão, desvia-se de sua natureza e encontra-se num estado de profunda confusão. Logo, a única escolha sensata é viver segundo a luz da razão.

Retrato de Lutero por Lucas Cranach, o Velho.

A história humana está cheia de exemplos de personagens influentes que rejeitaram a razão e a substituíram pela vontade. A denúncia que Lutero fez da razão foi radical, e muitas vezes numa linguagem irrepetível. Ele a descreve como “o mais terrível inimigo de Deus”. Embora entendamos que a razão é uma bússola necessária para podermos “nos alimentar, hidratar e vestir”, no plano espiritual ela é “uma prostituta, a meretriz escolhida pelo demônio […] e deveria ser pisoteada e destruída”. Disse ele: “Aquele que se relaciona com uma prostituta está mais próximo de Deus do que o homem que desposa uma mulher”. Ele foi implacável com os judeus: “Queimem suas sinagogas e escolas. Ateem-lhes fogo, em seus lares, livros de oração e rabis”. Em seu livro Martin Luther: Hitler’s Spiritual Ancestor [“Martinho Lutero: O Antecessor Espiritual de Hitler”], Peter Wiener chamou a atenção para o antissemitismo e a irracionalidade que Lutero e Hitler tinham em comum. A declaração de Hitler: “Eu penso com meu sangue” é um eco da descrição que Lutero fez da razão como a “meretriz do demônio”. Um certo bispo chamado Temple diz o seguinte: “É fácil ver em que medida Lutero preparou o caminho para Hitler”.   

A rejeição da razão vem à tona entre indivíduos de menor influência. Numa notável afirmação confessional, o novelista D. H. Lawrence nos diz: “Minha grande religião é uma crença no sangue, pois a carne é mais sábia do que o intelecto. Nossa mente pode nos levar ao erro, mas é sempre verdadeiro o que nosso sangue sente e aquilo em que acredita”. 

A rejeição da razão está generalizada no mundo contemporâneo. Os exemplos são ilimitados. No Canadá, o governo Harper cortou o financiamento federal de um grupo feminista chamado Liga das Mulheres de Québec (FFQ no original). O governo Trudeau voltou a financiar a instituição. O presidente da FFQ, Gabrielle Bouchard, que se identifica como “mulher-trans” (embora seja homem de nascença) propôs que o Estado deveria obrigar todos os homens a fazerem vasectomia aos dezoito anos de idade. Quando Bouchard falou em banir os relacionamentos heterossexuais, o governo provincial ameaçou rescindir a verba anual de $120 mil. Ciente da possibilidade de ser multado, Bouchard pediu desculpas. Mesmo assim, podemos ter boas razões para nos perguntar por que o governo canadense financia organizações irracionais como essa. 

No caso AB vs. CD, o tribunal da Colúmbia Britânica (n.d.t.: província no sudoeste do Canadá) decidiu que uma jovem menor de idade que queria transformar-se em homem poderia continuar tomando bloqueadores hormonais, apesar das objeções de seu pai. O Denver Post demitiu o colunista Jon Caldara depois que ele escreveu uma coluna em que afirmou que o sexo é binário (masculino e feminino). Ele ousou desafiar a versão mais recente do guia estilístico da Associated Press, segundo o qual o “gênero não é mais binário”. O editor-chefe do jornal, Megan Schrader, anunciou que está à procura de um novo colunista, já que os seus editores “valorizam a existência de uma grande variedade de vozes em nossas páginas” (mas não tantas a ponto de incluir “Deus os fez homem e mulher”, aparentemente). 

La’Tasha D. Mayes, fundadora e diretora executiva da organização New Voices for Reproductive Justice (“justiça” que inclui o aborto) argumenta que a “liberdade de não ser alvo de violência é justiça reprodutiva”. Em estilo orwelliano, dar conselho é uma forma de violência; mas matar o nascituro é um ato de justiça! Contradições são bem-vindas num mundo em que se rejeita a razão. Além disso, a vandalização e o bombardeio de igrejas e esculturas ocorridos recentemente também estão sob o amparo da justiça. A Igreja Católica é acusada de “supremacia branca” com base no argumento indefensável de que Jesus e Maria eram “brancos”.   

Em seu livro The Revolt against Reason [“A Revolta contra a Razão”], o apologista católico Sir Arnold Lunn apresenta este argumento: “O logoclasmo, que ataca a razão, é semelhante ao iconoclasmo, que atacava a arte religiosa, pois razão e beleza são aspectos do sagrado”. O fato de o homem ter sido feito à imagem e semelhança de Deus significa que ele tem em comum com Deus a racionalidade. Quando se rejeita a razão, rejeita-se Deus junto com ela. Mas o mundo ateu ao nosso redor — a despeito de seus lugares-comuns sobre diversidade, tolerância, inclusividade etc. — está totalmente comprometido com seu objetivo de rejeitar a Deus e despojar as criaturas racionais do precioso dom que Ele lhes concedeu.

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Mas e se fosse a sua filha?
Pró-Vida

Mas e se fosse a sua filha?

Mas e se fosse a sua filha?

Naquele momento eu emudeci, e até me esqueci que estava num debate. A pergunta foi feita em tom provocativo, mas eu aceitei o desafio e realmente me coloquei no lugar da família daquela criança. “Pois então, Pedro, e se fosse a sua filha?”

Pedro Penitente27 de Agosto de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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Semana passada, ao comentar com um colega de trabalho, homem adulto como eu, o recente e lamentável caso da menina de 10 anos que, após ter sido estuprada e engravidar do próprio tio, foi submetida a um procedimento de aborto num hospital de Recife, fui indagado com uma pergunta que me atingiu em cheio e à qual, na hora, não consegui responder.

A questão com que fui interrompido em minha condenação veemente, tanto do aborto quanto do estupro, foi: “, mas e se fosse a sua filha?

Naquele momento eu emudeci, e até me esqueci que estava num debate. A pergunta foi feita em tom provocativo, mas eu aceitei o desafio e realmente me coloquei no lugar da família daquela criança. “Pois então, Pedro, e se fosse a sua filha?

Se fosse a minha filha...? 

Eu não sei, não sei. Sinceramente não sei o que faria... Tentei pensar em uma resposta, mas só o que consegui fazer foi pensar em coisas que eu não faria, caso estivesse numa situação como essa.

Sim, diferentemente do meu colega, tão cheio de certezas, eu não sei o que faria, mas estou certo do que, definitivamente, eu não faria. Meu campo de ações é relativamente amplo, mas há algumas linhas que eu sei que jamais ousaria cruzar.

Por exemplo, eu jamais tentaria “cancelar” um crime de estupro com um aborto. Num ímpeto, até conseguiria me imaginar fazendo algo com o covarde que teria abusado de minha filha. Mas um aborto

Eu sei que tem muita gente repetindo em coro, nesses dias, que “em caso de estupro o aborto não é crime”. Já ouvi algumas pessoas mais entendidas dessa coisa de lei dizerem que não é bem assim. Mas, ainda que não fosse crime, desde quando é esse o parâmetro para não fazer determinada coisa? É o Código Penal, o Estado brasileiro, agora, que diz o que é certo e o que é errado?

Mas já ia fugindo do meu argumento... O que queria dizer é que as pessoas não param para pensar na realidade das coisas. Quando esse meu colega me perguntou, com ar altivo: “E se fosse a sua filha?”, sabe o que ele estava insinuando? Que a única saída possível numa situação dessas seria... matar a minha neta!

Sim, a minha neta. Ou será que ele não parou para pensar que a filha da minha filha é... minha neta? 

É claro, a pobre criança não teria sido concebida na melhor das circunstâncias; mas diga lá, meu bom rapaz, quem é que foi concebido em boas circunstâncias ultimamente, quando se multiplicam gravidezes indesejadas na adolescência e homens sem responsabilidade para assumir os próprios filhos? Quem é que anda podendo gabar-se de ter nascido num lar estruturado, dentro de um programa planejado de reprodução familiar, a não ser uns poucos privilegiados?

Eu sei, eu sei, a situação da menina de 10 anos é ainda mais grave do que as situações graves comuns… Não estou dizendo que é fácil, não estou dizendo que é um “mar de rosas”, não estou “passando pano” no caso...

Mas matar a minha neta? Não, senhor.

E não é questão de religião, meu caro. É questão de princípios. Pois eu me recuso a acreditar que agora seja necessário ser cristão, evangélico, católico, espírita ou o escambau para saber que você não pode matar (nem mandar matar nem consentir que matem!) a sua própria neta. Esse não-agir, esse não-fazer, não deveria ser a coisa mais óbvia do mundo? Há “omissões” que são deveres!

“Ainda que ela tenha sido fruto de um estupro?” Sim, senhor! Ainda que ela tenha sido fruto de um estupro! Pois escute: se minha filha desgraçadamente tivesse sido abusada por um cafajeste, em que mundo você acha que um aborto, sendo ele o que é, poderia “sanar” esse mal? Que lógica há em colocar uma menina que acabou de ser abusada sexualmente, que teve a sua inocência roubada da forma mais violenta e absurda, em uma cama de hospital para ser novamente violada, só que agora para ter roubado justamente o dom mais precioso com que pode ser agraciada uma mulher — o dom de ser mãe?

“Mas ser mãe desse jeito…”. É terrível, é trágico… eu posso imaginar, eu consigo imaginar, e o digo do mais profundo do meu coração, pois realmente não sei o que eu faria numa situação como essa. 

Mas matar a minha neta? Não. Matar a minha neta não seria opção; não, senhor.

O aborto não me tornaria menos avô, nem faria da minha pobre filha menos mãe. Tornar-nos-ia, antes, avô e mãe de uma criança morta. E por minhas próprias mãos!

Eu tremo só de pensar nisso... Tremo só de pensar na possibilidade de fazer uma coisa dessas. Mas, aparentemente, quando ligo a TV e assisto aos noticiários, quando abro os sites de notícias e leio as reportagens, o aborto dessa criança em Recife parece a coisa mais “óbvia” do mundo. Levaram a menina ao hospital, tiraram-lhe o filho como se tira o dente a alguém, e pronto. Resolvido. 

Resolvido? Desde quando matar uma pessoa se tornou meio legítimo de resolver os nossos problemas? Desde quando as tragédias nos autorizam a abdicar assim de nossos princípios morais? Se eu posso matar minha neta, alguém da minha própria família, por que as pessoas aí fora não podem se matar umas às outras? 

A situação é grave, eu sei, mas essa notícia e todos os seus desdobramentos me deixam ainda mais convencido de que o mundo está louco. Perdida e irremediavelmente louco. 

Talvez eu seja só um pessimista, ou mesmo o senil dessa história toda. 

Talvez eu esteja sendo duro demais e não tenha levando em conta toda a dor e sofrimento por que tem passado a família dessa menina.

Mas, ah!... se ela fosse a minha filha, e se por um segundo me passasse pela cabeça a simples ideia de procurar um aborto... eu pediria a Deus, eu imploraria a Ele, com lágrimas e com gemidos, que não me deixasse nunca, jamais, matar a minha neta. 

Isso não. Isso nunca.

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