CNP
Christo Nihil Præponere"A nada dar mais valor do que a Cristo"
Evangelize compartilhando!
Todos os direitos reservados a padrepauloricardo.org®
Dualismo gnóstico: ainda um desafio para a fé cristã
Doutrina

Dualismo gnóstico:
ainda um desafio para a fé cristã

Dualismo gnóstico: ainda um desafio para a fé cristã

A reverência e o respeito ao corpo são centrais no culto e no modo de vida católicos. Mas a cultura ocidental deteriorou-se sob muitos aspectos, assumindo uma forma de gnosticismo: uma ideologia da separação entre corpo e alma, dualista e contrária à Encarnação.

Pe. Tim McCauleyTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere21 de Agosto de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
imprimir

Como uma erva daninha, a filosofia gnóstica viceja no solo estéril da nossa cultura pós-cristã [1]. Ela também exala um odor desagradável parecido com a fumaça de Satanás, que se infiltra pelas portas da Igreja, influenciando a nossa antropologia e comprometendo a integridade do nosso culto a Cristo na Eucaristia.

O catolicismo tem uma dimensão encarnada. A reverência e o respeito ao corpo são centrais em nosso culto e modo de vida. Infelizmente, a cultura ocidental deteriorou-se sob muitos aspectos, assumindo uma forma de gnosticismo: uma ideologia da separação entre corpo e alma, dualista e contrária à Encarnação. O gnosticismo é um falso espiritualismo que valoriza a alma ou a mente como o verdadeiro eu. Ele denigre o corpo, transformando-o em objeto, uma criação inferior, um estorvo para a alma, ou o trata como matéria bruta a ser manipulada à vontade.

Da perspectiva católica, os seres humanos não são almas que “possuem” corpos como se fossem objetos; pelo contrário, somos sujeitos com uma unidade entre corpo e alma. Pensar que “temos” um corpo pode nos levar a viver no mundo das ideias, desconectados do nosso corpo.  

A “identidade de gênero” é o exemplo mais óbvio da influência de conceitos gnósticos na nossa cultura. Algumas pessoas realmente acreditam que podem ter em sua mente uma “identidade de gênero” oposta ao sexo físico! É óbvio que essas pessoas sofrem e precisam de compaixão, mas a absurdidade da ideologia de gênero é um indício do quanto os seres humanos podemos nos dissociar da realidade do nosso corpo.

A tecnologia pode refletir e reforçar essas ideias gnósticas nocivas ao perpetuar a tendência de nos identificarmos de forma exagerada com a nossa mente. A internet possibilita a comunicação de longa distância em maior escala, o que leva à consequência involuntária de nos tirar de nosso ambiente imediato. Uma caminhada por um quarteirão qualquer numa cidade confirma essa observação. As pessoas estão tão absorvidas por seus smartphones, que ficam completamente alienadas do seu entorno e das outras pessoas. Muitas horas gastas com meios de comunicação em massa podem afetar profundamente a psique, criando o hábito de viver em um mundo exclusivamente mental e virtual, separado da realidade do corpo.  

Na Eucaristia, a nossa comunhão com Cristo encontra-se viciada pelo hábito de vivermos fechados em nossa mente, separados e dissociados do nosso corpo e do momento presente. Se não estamos presentes para nós em nosso corpo, como podemos estar presentes para o Corpo de Cristo na Eucaristia? Cristo está verdadeiramente presente, mas nós não. É como alguém que está tão ocupado e distraído, que cumprimenta outra pessoa sem olhá-la nos olhos. É um gesto de amizade vazio. Com paciência e persistência, Jesus fica à porta do nosso coração e bate, mas não há resposta porque ninguém está em casa. A pessoa está tão distraída e distante, que recebe o sacramento do Corpo e Sangue de Cristo como se fosse um pedaço de pão, e não uma pessoa viva.

No Catecismo da Igreja Católica, lemos o seguinte na seção que aborda o esforço na vida de oração: “A dificuldade habitual da nossa oração é a distração” (n. 2729). Essa falta de atenção na oração é um aspecto comum e normal na experiência humana. No entanto, quando a distração se aprofunda a ponto de virar dissociação, ficamos à beira de uma experiência de “desencarnação” que limita severamente a nossa capacidade de rezar e estar em comunhão com Deus e os outros.

Creio que precisamos trazer à luz a nossa colaboração inconsciente com ideias gnósticas. Por medo e orgulho, muitas vezes preferimos viver em nossa mente, não em nosso corpo. A mente pode nos dar ilusão de poder e controle. O corpo, fraco e limitado, faz-nos lembrar de uma realidade que muitos consideram desagradável e repugnante, para dizer o mínimo: somos seres mortais, contingentes, que a todo momento dependem por completo de Outro para permanecer na existência.  

No entanto, é somente através do nosso corpo, deficiente, fraco e mortal, que adoramos verdadeiramente e entramos em comunhão com Cristo em seu Corpo e Sangue. Cristo assumiu a natureza humana para que, por meio dela, pudéssemos entrar em comunhão com a sua divindade. E Ele, sendo Deus, abraçou a sua natureza humana com mais intensidade que nós! Não teve vergonha da pobreza nem da fraqueza humanas. Contudo, muitas vezes nos envergonhamos da nossa humanidade e desejamos desesperadamente libertar-nos dos limites e sofrimentos da condição humana. Mas dessa forma não podemos ter uma comunhão verdadeiramente física com Cristo.

Jesus é o nosso modelo para a adoração encarnada. Em sua Encarnação, quando veio ao mundo no seio de Maria, Ele disse ao Pai: “Mas me formaste um corpo [...]. Eis que venho para fazer a tua vontade” (Hb 10, 5.7).

Cristo não apenas se alegrou em fazer-se pequeno e indefeso como criança, mas também aceitou sofrer no próprio corpo uma dor incompreensível durante a Paixão. Poderia ter escolhido separar-se do corpo por um êxtase, graça dada a alguns mártires que foram milagrosamente poupados da violência de seus sofrimentos. Mas Cristo recusou beber vinho misturado com mirra, um tipo de analgésico, porque preferiu passar pela agonia plena da Paixão, a fim de esvaziar o cálice do seu sofrimento até os últimos resíduos amargos.  

Acima de tudo, surpreende-nos que Cristo tenha ressuscitado, retomando um corpo humano. Ele não ressuscitou como puro espírito, abandonando o corpo físico. Ascendeu aos céus com o mesmo corpo. Está agora sentado à direita do Pai com este corpo. Com este mesmo corpo humano glorificado Ele vive e reina para todo o sempre. 

E nós somos curados por sua Encarnação, Morte e Ressurreição. Por meio da “associação” permanente e irrevogável a seu próprio corpo, Cristo regenera a dissociação que tantas vezes experimentamos no nosso. Por meio da sua existência e adoração encarnadas, Ele nos torna capazes de abraçar amorosamente a nossa natureza humana e adorá-lo de modo reverente com todo o nosso ser. Pela nossa participação plena, ativa, consciente e corpórea na Missa, podemos experimentar a Eucaristia de forma mais profunda como fonte e ápice da nossa fé. Assim, estaremos capacitados para anunciar o Evangelho em nossa cultura secular. Nas palavras de São Paulo, espalharemos o “bom odor” de Cristo, afastando o ar envenenado das falácias gnósticas.

Notas

  1. Este texto sublinha especialmente a importância da corporalidade para a fé cristã; mas vale a pena destacar que o gnosticismo é mais do que desprezo do corpo, e nem todo desprezo do corpo é, só por isso, uma forma “derivada” de gnosticismo. Na verdade, a desvalorização do corpo, a perda de seu sentido sacro etc., é um traço mais ou menos comum às culturas pagãs, tenham ou não elementos gnósticos (Nota da Equipe CNP).

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

O que fazer com meu santinho quebrado?
Espiritualidade

O que fazer
com meu santinho quebrado?

O que fazer com meu santinho quebrado?

Uma vez benzidos e destinados ao culto divino ou à veneração, os objetos sagrados devem ser tratados com reverência, não podendo ser usados de maneira imprópria ou profana. Como proceder, então, quando eles quebram ou se desgastam pelo uso?

Pe. William SaundersTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere20 de Agosto de 2020Tempo de leitura: 2 minutos
imprimir

“O que devo fazer com o meu velho ramo bento? E com minhas imagens e rosários bentos? Já que foram benzidos, tenho certeza de que não devo simplesmente jogá-los no lixo. Existe alguma orientação sobre isso?”

Como católicos, estamos acostumados a possuir objetos “benzidos”. Nesse caso, um bispo ou um padre confere uma bênção que significa a santificação e consagração permanentes de um objeto a alguma finalidade sagrada. Essa bênção recebe o nome técnico de “bênção constitutiva”. Por exemplo, quando um bispo dedica ou, em terminologia clássica, consagra um altar, o altar deve ser usado apenas para fins sagrados: particularmente, para o oferecimento da Missa. Ou, quando um cálice é benzido, ele se torna um vaso sagrado, destinado unicamente ao uso sagrado. Uma vez que o objeto religioso foi benzido e destinado ao culto divino ou à veneração, ele deve ser tratado com reverência e não pode ser usados de maneira imprópria ou profana (cf. Código de Direito Canônico, Cân. 1171).

No entanto, objetos religiosos abençoados quebram e se desgastam pelo uso. A regra básica para desfazer-se deles é queimá-los ou enterrá-los [1]. Durante o séc. XIX, tanto a Sagrada Congregação dos Ritos quanto o Santo Ofício (hoje chamados, respectivamente, de Sagrada Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos e Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé) emitiram várias determinações a esse respeito. Eis aqui alguns exemplos: um cálice que se torna “inservível” não deve ser vendido, mas usado para algum outro fim sagrado ou derretido; vestes, paramentos e alfaias devem ser destruídos; água benta suja ou em excesso deve ser despejada na terra. Os ramos devem ser queimados e suas cinzas, distribuídas na Quarta-feira de Cinzas ou lançadas na terra; um rosário quebrado ou uma estátua religiosa devem, normalmente, ser queimadas etc. Em resumo, a ideia de fundo é que o que foi dedicado a Deus deveria voltar para Deus. Nunca deveríamos “jogar fora” o que foi consagrado a Deus.

Curiosamente, esse mesmo critério se aplica ao descarte da Santa Eucaristia. Em cada sacristia há um sumidouro (sacrarium), que é uma pia conectada não com o sistema de esgoto, mas diretamente com a terra. Se, por algum motivo, o sacerdote tiver de descartar uma Hóstia sagrada, ele deverá dissolvê-la completamente na água e deixá-la escoar pelo encanamento do sumidouro. Aliás, estava eu certa vez a distribuir a Santa Comunhão num asilo, e uma das velhinhas queria recebê-la como de costume, mas, por alguma razão, não conseguia engoli-la. Ela então expeliu a Hóstia sagrada no purificatório. Quando voltei à sacristia, entornei pelo sumidouro a Hóstia sagrada, já dissolvida na água [2].

Por vivermos numa sociedade em que tudo se tornou tão descartável, não podemos esquecer os objetos religiosos que foram benzidos e dedicados a Deus e a um uso sagrado. Meu coração se parte toda vez que entro numa loja de antiguidades e vejo um cálice, um relicário (às vezes, ainda com relíquias), vestes e outros objetos sagrados que, alguma vez, foram utilizados na Santa Missa. Eu me pergunto: “O que estaria pensando o sujeito para desfazer-se disso de tal maneira?” Ele deveria ter buscado para esses objetos religiosos um novo lar em alguma igreja, ou tê-los descartado da forma correta. 

Por favor, guarde sempre com cuidado os seus objetos religiosos em casa, venere-os com piedade e, se necessário, desfaça-se deles corretamente.

Notas

  1. Supondo-se, é claro, que a quebra ou o desgaste tenham tornado o objeto absolutamente impróprio para uso, sem que seja possível sequer restaurá-lo (no caso de uma estátua que se desfez em inúmeros pedaços, por exemplo).
  2. Recorde-se, a propósito, o que prescreve a Instrução Geral do Missal Romano, n. 280: “Se cair no chão alguma hóstia ou partícula, recolhe-se reverentemente. Se acaso se derramar o Sangue do Senhor, lava-se com água o sítio em que tenha caído e deita-se depois essa água no sumidouro colocado na sacristia” (ambas as notas são da Equipe CNP).

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Uma paráfrase do Pai-nosso e da Ave-Maria
Oração

Uma paráfrase
do Pai-nosso e da Ave-Maria

Uma paráfrase do Pai-nosso e da Ave-Maria

“Visto que a Oração Dominical é o mais perfeito exemplo de todas as orações, por conter tudo quanto Deus quer que lhe peçamos, e também por sua dignidade, pois Cristo mesmo no-la ensinou… vale a pena apresentá-la aqui ao modo de paráfrase.”

Wilhelm NakatenusTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere20 de Agosto de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
imprimir

As paráfrases abaixo, do Pai-nosso e da Ave-Maria, assim como as orações, são para ser rezadas. Foram extraídas de uma antiga coletânea de preces devocionais, chamada Coeleste palmetum, e traduzidas diretamente do latim por nossa equipe. A introdução da obra original a esses pequenos comentários diz o seguinte: “Visto que a Oração Dominical é o mais perfeito exemplo de todas as orações, por conter tudo quanto Deus quer que lhe peçamos, e também por sua dignidade, pois Cristo mesmo no-la ensinou… vale a pena apresentá-la aqui ao modo de paráfrase.”

No mais, os complementos feitos a seguir às petições dominicais e à Saudação Angélica ajudam-nos a entendê-las e rezá-las melhor. Daí a oportunidade de publicá-los.


Paráfrase do Pai-nosso
(Coeleste palmetum, pp. 374–376)

Prefácio

Pai nosso amantíssimo, que por vossa bondade nos criastes do nada à vossa imagem e semelhança e, uma vez caídos, salvastes da condenação eterna por vosso Unigênito, e vos dignastes adotar-nos como filhos, protegendo-nos até este dia com afeto mais do que paternal. Oxalá, Pai, vos amemos e adoremos de tal modo, que mereçamos ser chamados verdadeiros filhos vossos.

Que estais nos céus em glória e grandeza, onde milhares e milhares de anjos vos servem, e dezenas de milhares vos assistem. Mas nós, degradados filhos vossos, vagamos errantes neste vale de lágrimas, e a vós clamamos gemendo e chorando. Eia pois, Pai nosso, que estais nos céus, ouvi clemente os votos e desejos dos vossos filhos, e elevai a vós os nossos corações, para que sejamos, ao vosso lado, cidadãos dos céus.

Petições

1. Santificado (que é o que mais desejamos) seja o vosso nome em nós, que em si mesmo é santo e glorioso, e dai-nos a graça de, em todo lugar e a todo o momento, o reconhecermos, venerarmos e celebrarmos, pois desde o nascente até o poente é digno de louvor o nome do Senhor.

2. Venha aos nossos corações e almas o vosso reino, lançados para longe deles a carne, o mundo e o diabo. Este vosso reino é o reino da graça, pelo qual anelamos chegar ao reino da vossa glória.

3. Seja feita a vossa vontade, pois nada mais santo, nada mais desejável se pode pedir, assim na terra entre os homens, com perfeitíssima resignação na adversidade e na prosperidade, na tristeza e na alegria, como no céu entre os anjos, com a suma felicidade e bem-aventurança.

4. O pão nosso de cada dia, não só aquele com que se alimenta o corpo, mas também aquele com que se dá refeição à alma, isto é, a vossa Palavra vivificante e o Pão dos anjos, nos dai hoje. Olhai, Pai, para a pobreza dos vossos filhos, e que não passemos um só dia com fome deste pão.

5. Perdoai-nos, benigníssimo Pai, as nossas imensas dívidas, contraídas com nossos muitos e gravíssimos pecados e negligências, que criatura nenhuma pode satisfazer. Por isso, imploramos suplicantes a vossa infinita misericórdia pela remissão deles, a fim de que no-los perdoeis assim como nós, por vosso amor, perdoamos aos nossos devedores, pelos quais alguma vez já fomos agravados. Abrandai, ó clementíssimo Pai, a relutante dureza e aspereza do nosso coração, para que todos estejamos intimamente unidos no Santo Espírito do vosso amor.

6. E não nos deixeis a nós, vasos frágeis, cair em tentação, à qual facilmente sucumbiríamos. A carne seduz, o mundo provoca, o diabo assalta: de vós, ó Pai, nos tentam arrebatar. Só vós sois o nosso refúgio e fortaleza; não permitais, vo-lo suplico, que sejamos tentados acima de nossas forças.

7. Mas livrai-nos do mal, dos de alma e de corpo, quase inumeráveis. Livrai-nos sobretudo do mal de culpa, que vos ofende a vós, nosso Deus e sumo Bem. Livrai-nos também (se assim o exigir a vossa glória e a nossa salvação) do mal de pena: da tristeza, da desonra, da guerra, da fome, da doença, da penúria e de tudo o que merecemos por nossos pecados; e associai-nos enfim àqueles que, no Céu, gozam eternamente de vós, sumo Bem. Afora vós, Deus do meu coração, que há para mim no Céu? Se vos possuo, meu Deus, nada mais me atrai na terra. Vós sois minha herança para sempre!

Amém, isto é, faça-se, ó Pai, o que pedimos, por vossas entranhas de misericórdia, pelos méritos do vosso Filho e pelo amor do Espírito Santo.

Paráfrase da Ave-Maria
(Coeleste palmetum, pp. 376–377)

1. Ave, alegrai-vos e rejubilai, ó Rainha do Céu e Senhora da terra, Maria. Ó gozoso e tão esperado Ave, pelo qual se inverteu o nome de Eva: ela introduziu no mundo maldição e morte; o vosso Ave, ó Maria, bênção e vida eterna.

2. Cheia de graça, sobre a qual se derramou todo um imenso mar de graças. Ó afluência de graça, que aos céus destes glória; à terra, Deus, aos homens, a salvação. Fazei, ó Mãe da graça, que a abundância da vossa graça redunde em meu coração.

3. O Senhor é convosco, como nunca esteve com homem ou anjo algum. O Pai dos céus é convosco, que fez ser vosso o próprio Filho. O Filho é convosco, que uniu a si com vínculo eterno a vossa carne virginal. O Espírito Santo é convosco, que com o Pai e o Filho santificou o vosso ventre. Por vossa intercessão, ó Maria, rogai ao mesmo Senhor que esteja comigo.

4. Bendita sois vós entre as mulheres, que fostes eximida da maldição das mulheres: sendo Virgem concebestes, e sem dor destes à luz. Ó Mãe do gênero humano, destes a salvação ao mundo: se Eva foi autora do pecado, vós, ó Maria, sois autora do mérito. Eva, matando, foi causa de ruína; vós, dando vida, fostes causa de saúde; ela feriu, vós curastes. Rogo-vos suplicante, ó bendita entre as mulheres, que me façais partícipe da vossa bênção.

5. E bendito é o fruto do vosso ventre, que é a fonte de toda bênção. Ó Virgem bendita! quem poderá louvar e agradecer-vos dignamente os vossos méritos, vós, que fizestes nascer ao mundo aquele em que são abençoados todos os povos? Que a abundância da vossa bondade escuse e supra os defeitos da nossa devoção. Fazei antes de tudo, ó Mãe da graça, ó Genitora da vida, ó Mãe da salvação, que aquele que por vós quis participar da nossa carne e miséria, também por vós nos faça participar agora de sua bênção e, no futuro, de sua glória, Jesus Cristo, vosso Filho e Senhor Nosso, que com o Pai e o Espírito Santo vive e reina.

6. Santa Maria, etc [1].

Notas

  1. O original latino propõe uma paráfrase à “Saudação Angélica”, isto é, apenas à primeira parte da oração da Ave-Maria. Quanto à sua segunda parte (“Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores…”), vale lembrar que seu acréscimo é, historicamente, bem posterior: tratava-se de uma súplica mariana rezada na oração litúrgica das Completas. Mais sobre a origem e o significado dessa antiquíssima prece: cf. Ao vivo com Pe. Paulo, n. 99: A Oração da Ave-Maria.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Excomungando a rainha
História da Igreja

Excomungando a rainha

Excomungando a rainha

Por muitos anos a Igreja acompanhou, consternada, a perseguição aos católicos na Inglaterra, até que um Papa achou que era hora de dar uma resposta radical… Saiba como, 450 anos atrás, a rainha Elizabeth I foi excomungada por São Pio V.

Steve WeidenkopfTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere19 de Agosto de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
imprimir

Chegara o dia há muito temido pelos católicos. O reinado da amada Maria havia terminado com a morte da rainha, enquanto ouvia Missa, no dia 17 de novembro de 1558.

A filha do rei Henrique VIII e de Catarina de Aragão demonstrou ser uma governante corajosa, que julgava ser vontade de Deus que a fé católica voltasse a ser praticada abertamente no reino. Embora o pai, a fim de se livrar da esposa, tivesse dado o primeiro passo no controle da Igreja na Inglaterra, a Coroa só aderiu à heresia no reinado de seu meio-irmão Eduardo VI, filho de Henrique e Joana Seymour.

O governo de Eduardo foi marcado pelo expurgo da fé e o uso da força, física e jurídica, para impor a heresia protestante aos católicos da Inglaterra. Mas Eduardo era de saúde frágil, e o seu reinado duraria apenas seis anos. Os homens da corte responsáveis pela implementação da doutrina e do culto protestantes para a população, sendo Thomas Cranmer o principal deles, foram levados a julgamento no reinado de Maria.  

A Igreja Católica prosperou durante o reinado da amada rainha (o apelido bloody, que em inglês tem duplo sentido, sanguinário e infame, e foi associado ao nome dela por historiadores protestantes, é uma caricatura da caridade), mas o medo sempre esteve à espreita nos bastidores. A rainha não era casada quando assumiu o trono aos trinta e sete anos, mas isso logo se resolveu, quando ela se casou com o príncipe Filipe da Espanha. Infelizmente, da união não vieram herdeiros, o que alimentou o temor de que a meia-irmã de Maria, a protestante Elizabeth Tudor, filha do rei Henrique e de Ana Bolena, assumiria o trono após a morte dela.

Os católicos ingleses acreditavam que a legítima herdeira da coroa inglesa era Maria Stuart, rainha dos escoceses (1542–1567), por causa de sua fé católica e do relacionamento com a linhagem dos Tudor (ela era neta de Margarida Tudor, irmã de Henrique VIII). No entanto, intrigas políticas — a principal das quais foi a revolução religiosa na Escócia, desencadeada pelo revolucionário protestante John Knox — impediram Maria Stuart de assumir o trono inglês. 

Retrato da rainha Elizabeth I, por Marcus Gheeraerts, o Jovem.

Educada no protestantismo, Elizabeth dedicou boa parte de seu reinado de quarenta e cinco anos à supressão violenta da fé católica na Inglaterra. Elizabeth, que teve um dos reinados mais longos da história inglesa, é muito conhecida como “Boa Rainha Bess” — uma “Rainha Virgem”, forte, independente e inteligente que levou seu povo a uma era de prosperidade sem precedentes e representou o sólido protestantismo dele.

Essa narrativa foi descrita adequadamente pelo historiador católico Hilaire Belloc como a monstrous scaffolding of poisonous nonsense, “uma armação monstruosa de uma malignidade absurda”. Na realidade, Elizabeth foi uma monarca testa de ferro, controlada nos bastidores por homens poderosos que enriqueceram às custas da dissolução de mosteiros católicos no reinado de Henrique e receberam incentivo econômico para evitar a restauração permanente da fé católica na Inglaterra.

Durante o reinado de Elizabeth, os católicos ingleses sofreram muito com a primeira perseguição à Igreja patrocinada pelo Estado desde a época do Império Romano. As primeiras desculpas, apresentadas numa longa campanha legislativa para erradicar a fé católica na Inglaterra, começaram em 1559, quando Elizabeth foi declarada Governante Chefe de Todos os Assuntos Espirituais e Eclesiásticos na Inglaterra, por meio do Ato de Supremacia, que exigiu de todo o clero e de todos os professores universitários a profissão de um juramento de lealdade à rainha como chefe da Igreja. A recusa em fazer o juramento implicava confisco de bens, prisão e a possibilidade de pena de morte

Outra lei, conhecida como Ato de Uniformidade, restaurou o culto protestante na Inglaterra e exigiu que todos os cidadãos frequentassem as cerimônias da Igreja da Inglaterra. A recusa em participar delas era penalizada com multas severas. A legislação também tornou crime acreditar que o Papa era o chefe da Igreja na Inglaterra. Outra legislação anticatólica aprovada durante o reinado de Elizabeth incluía uma lei que tornava a conversão à fé católica um ato de traição punível com a morte. Quando os missionários jesuítas chegaram ao país sitiado para servir à Igreja clandestina, foram aprovadas leis que tornavam crime (de auxílio e incentivo à rebelião) abrigar ou ajudar um sacerdote jesuíta.

O ataque à Igreja na Inglaterra elizabetana exigia uma resposta, principalmente se a fé quisesse sobreviver, ainda que na clandestinidade. O cardeal William Allen prontamente reconheceu a necessidade de preparar homens ingleses para o sacerdócio fora do país, os quais seriam depois reenviados à Inglaterra. Então, em 1568 ele fundou um seminário do outro lado do Canal em Douai (hoje, parte do território francês) conhecido como Colégio Inglês. Uma vez ordenados, os graduados no seminário retornavam para casa clandestinamente, a fim de cuidar dos fiéis perseguidos.

Um desses sacerdotes, Cuthbert Mayne (1544–1577), chegou em segredo à Inglaterra no dia 24 de abril de 1576. Ele serviu à Igreja clandestina por pouco mais de um ano até ser preso em 8 de junho de 1577 e condenado à morte. Deram-lhe oportunidade de salvar a sua vida, caso renunciasse à fé católica jurando sobre a Bíblia que Elizabeth era chefe da Igreja. O Pe. Mayne tomou a Bíblia, fez o sinal da cruz e disse: “A rainha nunca foi, não é nem jamais será chefe da Igreja.” Sofreu uma execução terrível: foi enforcado, afogado e esquartejado, tendo sido o primeiro de muitos sacerdotes martirizados na Inglaterra elizabetana.

Retrato do Papa Pio V, por Bartolomeo Passarotti.

Os Papas acompanharam muito consternados a perseguição à Igreja e apoiaram os esforços realizados para servir aos católicos clandestinos na Inglaterra. Finalmente, um Papa achou que era hora de dar uma resposta radical.

Após a sua eleição ao papado, o cardeal Michele Ghislieri tomou o nome de Pio V. Atormentada pela revolução protestante em toda a Europa, a Igreja precisava dar uma resposta vigorosa. Embora a Contrarreforma tivesse começado com os seus predecessores, foi o Papa São Pio V (1566–1572) quem implementou a grande Reforma e pôs a Igreja nos trilhos da restauração e da regeneração. Um santo dominicano, ex-chefe do Tribunal do Santo Ofício em Roma, Pio V foi resoluto em oferecer ajuda aos católicos sitiados na Inglaterra. Elizabeth reinava há doze anos, e os esforços dos pontífices anteriores para trabalhar com governantes seculares a fim de aliviar os sofrimentos dos católicos ingleses mostraram-se insuficientes. Por isso, Pio V decidiu que era hora de excomungar a rainha e exigir a destituição dela.

Em 27 de abril de 1570 (i.e., 450 anos atrás), Pio V promulgou a bula Regnans in Excelsis, na qual a “falsa rainha da Inglaterra e serva do crime” foi excomungada por abraçar os “erros dos hereges”. A bula apresentou um resumo da perseguição aos católicos sob o reinado de Elizabeth e declarou sua destituição.

Não foi a primeira vez que um pontífice excomungou um governante secular e convocou uma revolução. No entanto, como em muitos casos anteriores, tal intento não atingiu seu objetivo e o tiro ainda saiu pela culatra. Elizabeth e seus conselheiros, principalmente William Cecil (1520–1598), se aproveitaram do ato como “prova” de que era impossível ser católico e inglês leal ao mesmo tempo. Durante os trinta anos seguintes do reinado de Elizabeth, a Igreja passou por outros seis pontificados. A rainha continuou a perseguição sangrenta aos católicos na Inglaterra… 

Mas o sangue dos mártires não seria em vão, e a fé católica jamais desapareceria de solo inglês.

Notas

  • Na imagem acima está a intérprete da rainha Elizabeth I no filme “Duas Coroas” (Mary Queen of Scots), de 2018. A referência, porém, não significa uma aprovação ou recomendação desse filme (que, segundo o site IMDb, contém cenas bastante inapropriadas de sexo e nudez); é uma pena, aliás, que até produções históricas desse tipo apelem à vulgaridade para fazer sucesso (Nota da Equipe CNP).

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.