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Orações para a Quaresma de São Miguel
Oração

Orações para a
Quaresma de São Miguel

Orações para a Quaresma de São Miguel

A todos que praticam a devoção da Quaresma de São Miguel, a começar neste dia 15 de agosto, oferecemos a seguir um roteiro com várias preces a esse Arcanjo, invocado em toda a Igreja como príncipe das milícias celestes.

Equipe Christo Nihil Praeponere14 de Agosto de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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É costume que a Quaresma de São Miguel seja rezada diariamente, entre 15 de agosto e 29 de setembro, quando se celebra a festa deste Santo Arcanjo [1]. Mas ela também  pode ser feita em qualquer outra época do ano, por um período de 40 dias. 

Por se tratar de uma devoção privada, os fiéis que a praticam são livres para adotar as orações de sua preferência. As preces a seguir são mais uma sugestão de roteiro do que um rito fixo e imóvel, e costumam ser rezadas em frente a uma escultura ou estampa de São Miguel, e com uma vela benta acesa em sua honra. Também é hábito que se una a essas orações a prática de alguma penitência especial ao longo de toda a quarentena.

Aos que praticam essa devoção em família, talvez valha a pena baixar este arquivo em formato .pdf, com as orações em latim e português, e fazer uma impressão dele para esses dias. 

Aos que desejarem conhecer mais e melhor essa prática, sua origem e seu significado espiritual, recomendamos que assistam aos dois episódios seguintes, do programa “Ao vivo com Pe. Paulo”, justamente sobre esse tema: 


1. Sinal da cruz. — Pelo sinal da Santa Cruz, livrai-nos Deus, Nosso Senhor, dos nossos inimigos. Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

2. Pequeno exorcismo de Leão XIII. — São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate. Cobri-nos com o vosso escudo contra os embustes e ciladas do demônio. Subjugue-o Deus, instantemente o pedimos; e vós, príncipe da milícia celeste, pelo divino poder, precipitai no inferno Satanás e os outros espíritos malignos que andam pelo mundo para perder as almas. Amém.

3. Ladainha de São Miguel Arcanjo (versão latina aqui):

Senhor, tende piedade de nós.
Jesus Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós.

Cristo, ouvi-nos.
Cristo, atendei-nos.

Pai celeste, que sois Deus, tende piedade de nós.
Filho redentor do mundo, que sois Deus, tende piedade de nós.
Espírito Santo, que sois Deus, tende piedade de nós.
Santíssima Trindade, que sois um só Deus, tende piedade de nós.

Santa Maria, Rainha dos Anjos, rogai por nós.
São Miguel, rogai por nós.
São Miguel, cheio da graça de Deus, rogai...
São Miguel, perfeito adorador do Verbo Divino,
São Miguel, coroado de honra e de glória,
São Miguel, poderosíssimo príncipe dos exércitos do Senhor,
São Miguel, porta-estandarte da Santíssima Trindade,
São Miguel, guardião do Paraíso,
São Miguel, guia e consolador do povo israelita,
São Miguel, esplendor e fortaleza da Igreja militante,
São Miguel, honra e alegria da Igreja triunfante,
São Miguel, luz dos anjos,
São Miguel, baluarte dos cristãos,
São Miguel, força daqueles que combatem pelo estandarte da cruz,
São Miguel, luz e confiança das almas no último momento da vida,
São Miguel, socorro muito certo,
São Miguel, nosso auxílio em todas as adversidades,
São Miguel, arauto da sentença eterna,
São Miguel, consolador das almas que estão no Purgatório,
São Miguel, a quem o Senhor incumbiu de receber as almas depois da morte,
São Miguel, nosso príncipe,
São Miguel, nosso advogado, rogai por nós.

Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, perdoai-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, ouvi-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós

Rogai por nós, ó glorioso São Miguel, príncipe da Igreja de Cristo,
para que sejamos dignos de suas promessas.

Oremos: Senhor Jesus, santificai-nos por uma bênção sempre nova e concedei-nos, pela intercessão de São Miguel, essa sabedoria que nos ensina a ajuntar riquezas do céu e a trocar os bens do tempo presente pelos da eternidade. Vós que viveis e reinais em todos os séculos dos séculos. Amém.

4. Consagração a São Miguel Arcanjo. — Ó Príncipe nobilíssimo dos Anjos, valoroso guerreiro do Altíssimo, zeloso defensor da glória do Senhor, terror dos espíritos rebeldes, amor e delícia de todos os Anjos justos, meu diletíssimo Arcanjo São Miguel, desejando eu fazer parte do número dos vossos devotos e servos, a vós hoje me consagro, me dou e me ofereço e ponho-me a mim próprio, a minha família e tudo o que me pertence, debaixo da vossa poderosíssima proteção. 

É pequena a oferta do meu serviço, sendo como sou um miserável pecador, mas vós engrandecereis o afeto do meu coração; recordai-vos que de hoje em diante estou debaixo do vosso sustento e deveis assistir-me em toda a minha vida e obter-me o perdão dos meus muitos e graves pecados, a graça de amar a Deus de todo coração, ao meu querido Salvador Jesus Cristo e a minha Mãe Maria Santíssima.

Obtende-me aqueles auxílios que me são necessários para obter a coroa da eterna glória. Defendei-me dos inimigos da alma, especialmente na hora da morte. Vinde, ó príncipe gloriosíssimo, assistir-me na última luta e com a vossa arma poderosa lançai para longe, precipitando nos abismos do inferno, aquele anjo quebrador de promessas e soberbo que um dia prostrastes no combate no Céu. 

São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate para que não pereçamos no supremo juízo.

5. Oração final. — Levanta-se Deus, pela intercessão da bem-aventurada Virgem Maria, São Miguel Arcanjo e todas as milícias celestes; sejam dispersos os seus inimigos e fujam de sua face todos os que o odeiam. Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

6. Oração “Augusta Rainha”. — Augusta Rainha dos céus, soberana mestra dos Anjos, Vós que, desde o princípio, recebestes de Deus o poder e a missão de esmagar a cabeça de Satanás, nós vo-lo pedimos humildemente, enviai vossas legiões celestes para que, sob vossas ordens, e por vosso poder, elas persigam os demônios, combatendo-os por toda a parte, reprimindo-lhes a insolência, e lançando-os no abismo. Quem é como Deus? Ó Mãe de bondade e ternura, Vós sereis sempre o nosso amor e a nossa esperança. Ó Mãe divina, enviai os Santos Anjos para nos defenderem, e repeli para longe de nós o cruel inimigo. Santos Anjos e Arcanjos, defendei-nos e guardai-nos. Amém.

Notas

  1. Na liturgia atual, S. Gabriel e S. Rafael também são celebrados no dia 29 de setembro, quando se encerra essa devoção. Mas vale a pena recordar, aos amantes do rito tradicional, que no calendário antigo os três arcanjos eram festejados separadamente: Gabriel em 24 de março, véspera da Anunciação, e Rafael em 24 de outubro (ambas festas de 3.ª classe, o equivalente às nossas memórias). São Miguel manteve o dia 29 de setembro, mas antes era honrado com uma festa de 1.ª classe (o equivalente às nossas solenidades).

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A banda que foi “mais popular do que Jesus”
Sociedade

A banda que foi
“mais popular do que Jesus”

A banda que foi “mais popular do que Jesus”

No auge do sucesso dos Beatles, John Lennon declarou, sem medo de errar: “Agora nós somos mais populares do que Jesus”. E, de certo modo, ele não estava errado… Mas qual é o preço da popularidade que o mundo dá?

Equipe Christo Nihil Praeponere13 de Agosto de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
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Em março de 1966, durante uma entrevista, o músico John Lennon, dos Beatles, afirmou: “O cristianismo irá acabar. Ele desaparecerá e encolherá. Eu não preciso discutir isso; estou certo e isso ficará provado. Agora nós somos mais populares do que Jesus…”

Como se sabe, suas afirmações repercutiram muitíssimo mal na ocasião: no sudeste dos Estados Unidos, de forte penetração protestante, algumas estações de rádio pararam de tocar músicas dos Beatles e discos da banda foram publicamente queimados. 14 anos depois, em Nova Iorque, a própria morte de John Lennon seria tragicamente associada a esse episódio: seu assassino alegou razões religiosas para o injustificável crime e chegou a citar, em uma entrevista posterior, a polêmica frase do cantor britânico.

Os Beatles.

O fato é que, de certo modo, Lennon não estava errado. A afirmação de que o cristianismo desapareceria foi muito pretensiosa, sem dúvida — e no fim foram os Beatles que não duraram muito tempo —, mas o “encolhimento” da fé era um drama que já se desenrolava a olhos vistos aquela época. Apenas alguns anos mais tarde, mas na mesma década, um homem que depois viria a tornar-se Papa repetiria em essência a mesma “profecia”: “A Igreja diminuirá de tamanho”, disse o então jovem sacerdote Joseph Ratzinger. E foi o que aconteceu.

A popularidade dos Beatles em relação à de Cristo também tem a sua verdade. Principalmente se se leva em conta que, ao contrário dos artistas modernos, que se apresentam em palcos e congregam multidões em torno de si para fazer uma performance, Nosso Senhor ia por um caminho muito diferente, com o que o adjetivo “popular” não seria o mais apropriado para descrevê-lo.

Para demonstrar como não era essa a intenção de Jesus, basta folhear (sem ceticismo e preconceitos materialistas, é claro) as páginas dos Santos Evangelhos. De sua impopularidade e absoluta despretensão nesse sentido dão testemunho sua vida oculta até os 30 anos; seu pedido, aos que eram agraciados com milagres, para que não contassem nada do que viram a ninguém; sua recusa em “voltar atrás” quando palavras mais duras desagradavam e faziam muitos irem embora; e, por fim, prova-o de modo máximo a sentença final de sua vida, pronunciada pelo próprio povo da época, que o condenou à morte numa cruz enquanto clamava por Barrabás. Se era para ser popular aos moldes do mundo, ali o “plano” de Cristo teria fracassado definitivamente.

É claro que, depois de morto, Nosso Senhor ressuscitou e mandou que seus discípulos ensinassem pelo mundo inteiro as coisas que dele haviam aprendido, e aí, sim, o cristianismo se fez “popular”. Se observarmos porém o modo como se disseminou o Evangelho — numa época em que o homem sequer sonhava em inventar a TV e os outros meios de comunicação de que hoje dispomos —, essa popularização se revelará aos nossos olhos muito mais admirável do que o fenômeno de qualquer banda moderna de rock n’roll (ou seja lá qual for o gênero musical de sua preferência). Santo Tomás de Aquino o expõe de forma brilhante ao defender, contra os pagãos, o caráter sobrenatural da fé cristã:

Os segredos da sabedoria divina, ela mesma — que conhece tudo perfeitamente — dignou-se revelar aos homens, mostrando-lhes a sua presença, a verdade da sua doutrina, e inspirando-os, com testemunhos condizentes. Ademais, para confirmar as verdades que excedem o conhecimento natural, realizou ações visíveis que superam a capacidade de toda a natureza, como sejam a cura de doenças, ressurreição dos mortos e maravilhosas mudanças nos corpos celestes. Mais maravilhoso ainda é, inspirando as mentes humanas, ter feito que homens ignorantes e rudes, enriquecidos pelos dons do Espírito Santo, adquirissem instantaneamente tão elevada sabedoria e eloquência.

Depois de termos considerado tais fatos, acrescente-se agora, para confirmação da eficácia dos mesmos, que uma enorme multidão de homens, não só os rudes como também os sábios, acorreu para a fé cristã. Assim o fizeram, não premidos pela violência das armas, nem pela promessa de prazer, mas também — o que é maravilhoso — sofrendo a perseguição dos tiranos. Além disso, na fé cristã, são expostas as virtudes que excedem todo o intelecto humano, os prazeres são reprimidos e se ensina o desprezo das coisas do mundo. Ora, terem os espíritos humanos concordado com tudo isto é ainda maior milagre e claro efeito da inspiração divina.

Essas coisas não aconteceram de improviso ou por acaso, mas por disposição divina… (Summa contra gentiles, I, 6).

Essa reflexão de cunho simplesmente racional que o Doutor Angélico escreveu há quase 800 anos tem o poder de abrir os olhos aos incrédulos ainda hoje; poderia ter convencido, quem sabe, o próprio sr. Lennon...

“Cristo cravado na cruz”, de Vincenzo Campi.

Como um homem que morreu crucificado, numa região relativamente afastada do mundo antigo, e que reuniu em torno de si doze pobres discípulos, com pouquíssima erudição — dos quais apenas um permaneceu aos pés de sua Cruz —, pôde conquistar tantas pessoas, em tempos e lugares diversos, e ainda por cima contra todas as expectativas humanas, contra todos os apelos naturais dos sentidos? Ou seja, Jesus fez seguidores sem prometer a ninguém nem poder nem prazer nem riquezas materiais. Tampouco veio para encantar os homens com canções ou apresentações artísticas: a melodia divina que saía de seus lábios, por assim dizer, tinha as notas dissonantes de sua agonia no Horto e de um chamado insólito a que os homens tomassem a própria cruz para segui-lo. “Ora, terem os espíritos humanos concordado com tudo isto”... só por milagre mesmo poderia acontecer, e dos grandes.

Contra essa maravilha sobre a qual, infelizmente, não meditamos o suficiente, está o moderno fenômeno das massas hipnotizadas com bandas de rock, duplas sertanejas e DJs. Em um só show, esses artistas conseguem reunir muito mais pessoas do que Nosso Senhor reuniu em torno de si durante toda a vida. Na verdade, em uma só live, dentro de suas próprias casas, esses músicos conseguem congregar em frente a TVs, computadores e dispositivos móveis multidões inimagináveis para qualquer outra época da história humana. Depois dos Beatles, de fato, quantos mais não poderiam gabar-se de ser “mais populares do que Jesus”, à vista da fama e do sucesso que fazem? 

E no entanto o que geralmente move as pessoas a quase idolatrar essas personalidades senão o apelo aos sentimentos mais baixos do ser humano? É muito fácil seduzir as multidões com o iê-iê-iê, quando é justamente o iê-iê-iê o que elas querem. Difícil é apresentar aos homens a verdade nua e crua que se esconde em seu interior, repreender-lhes o pecado e mandar que mudem de vida, e ser seguido mesmo assim ao longo dos séculos. 

Não, o entusiasmo com o Evangelho nem de longe se compara ao frenesi com que as fãs dos Beatles assistiam aos seus concertos. Mas é que a atração que o Deus feito homem exerce sobre os corações não é como o furacão, o terremoto ou o fogo… O Deus todo-poderoso, podendo arrasar qualquer que seja o lugar por onde passe, prefere esconder-se na brisa ligeira e pedir o silêncio do homem para fazer-se ouvir (cf. 1Rs 19, 11–12); ao invés de palcos, microfones e alto-falantes, Ele prefere revelar-se no humilde casebre de Nazaré e soprar lenta e gradualmente ao longo da história, convocando um exército de adoradores que em número pode até ser subestimado, mas não em qualidade.

Olhando tudo isso à luz da vida eterna, importa-nos concluir dizendo que esta é, verdadeiramente, a única glória e “popularidade” que importa: pertencer ao povo de Deus; poder ser contado, um dia, entre os santos e santas do Céu. Todo o resto não passa de vaidade: vanitas vanitatum et omnia vanitas, “vaidade das vaidades, tudo é vaidade” (Ecle 1, 2)! 

Além do que, o preço a ser pago pela popularidade mundana é muito alto, nesta e na outra vida. O pobre rapaz de Liverpool a que nos referimos ao longo de todo esse texto, infelizmente, foi morto a tiros em frente ao prédio onde morava. E agora, quem sabe onde ele se encontra? A que destino foi submetido pelos séculos? Toda a fama que ganhou durante a vida de que lhe valeu na trágica hora da morte? Toda a multidão que o seguia, e os poucos que ainda o seguem, continuarão a aplaudi-lo no lugar onde ele estiver? Eis as perguntas que ficam, eis o que deve nos preocupar.

Por John Lennon, que já partiu deste mundo, só nos resta oferecer a Deus as nossas mais sinceras orações. Aos famosos que ficam, no entanto, sejam eles artistas de TV, músicos profissionais ou influenciadores digitais (com um celular na mão e uma conta no YouTube, nunca foi tão fácil ser popular), sirva de reflexão o ritual que era feito, até pouco tempo atrás, nas coroações pontifícias. O Papa recém-eleito, na sédia gestatória, partia em procissão da Basílica de São Pedro e era parado três vezes pelo mestre de cerimônias que, de joelhos, queimava na sua frente uma mecha de estopa e dizia, também por três vezes: Pater Sancte, sic transit gloria mundi! — “Santo Padre, assim passa a glória do mundo!

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O que vale mais, o templo ou a fé?
Igreja Católica

O que vale mais, o templo ou a fé?

O que vale mais, o templo ou a fé?

“Também vos entristece o fato de terem alguns tomado as igrejas por violência, enquanto vós permaneceis de fora. Eles ocupam, sim, os lugares; vós porém tendes a fé apostólica. Eles, embora dentro dos templos, estão do lado de fora.”

Santo Atanásio de AlexandriaTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere13 de Agosto de 2020Tempo de leitura: 3 minutos
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Advertência prévia da edição de J.-P. Migne [1]. — Eis aqui um fragmento, erudito leitor, das cartas festivais [2] de Atanásio, cuja perda é verdadeiramente deplorável. Foram escritas em grande número pelo santo pastor quando, no exílio, vivia em regime de solidão. Mesmo nos mais remotos lugares do deserto, tendo na memória a sua grei, oprimida por dificuldades e tragédias diárias por conta do furor dos arianos, enviava-lhe cartas, quase sempre consolatórias, para serem lidas na reunião dos irmãos, as quais foram daí compiladas em um só corpo epistolar [...].

A carta abaixo, por nós descoberta em manuscrito antiquíssimo [3], data do ano 356, quando as igrejas de Alexandria, roubada aos católicos, foram entregues por ordem de Constâncio II aos arianos, razão por que escreveu Atanásio esta carta consolatória. Desta, extraiu o editor somente dois fragmentos, omitidos os trechos em que Atanásio, como é de crer, tratava com mais vagar e detalhe dos atos dos arianos em sua invasão das igrejas. Seja como for, por pequenas que sejam essas linhas, aqui vingadas da obscuridade e da injúria do tempo, revelam-nos coisa digna de saber: que os arianos converteram igrejas em casas de negócios e domus veli, isto é, tribunais de justiça.


Começa a carta de S. Atanásio, bispo de Alexandria, a seus filhos

Santo Atanásio, retratado por Francesco Bartolozzi.

[1]. Que Deus vos console! Tomei conhecimento de que não só isso vos contrista, mas de que também vos entristece o fato de terem alguns tomado as igrejas por violência, enquanto vós permaneceis de fora; eles ocupam, sim, os lugares; vós porém tendes a fé apostólica. Eles, embora dentro dos templos, estão do lado de fora; mas vós, conquanto estejais fora dos templos, tendes a fé dentro <de vós>. Vejamos pois o que é maior: se o templo, se a fé; ora, é evidente que a verdadeira fé. Quem, portanto, mais perdeu, ou quem mais possui: o que ocupa o lugar, ou o que retém a fé? Sim, é bom o templo, quando ali é pregada a fé apostólica; é santo, se ali habita o Santo. […] 

[2]. Bem-aventurados sois vós, que estais, pela fé, na Igreja: habitais nos fundamentos da fé, e tendes suficiente satisfação, a grandeza da fé, que em vós permanece inconcussa; ela, com efeito, vos foi transmitida pela Tradição apostólica, e frequentemente a tentou abalar a execranda inveja, mas não <o> pôde: na verdade, mais se apartaram eles pelas maquinações que <contra ela> urdiram. É isso, pois, o que está escrito: “Tu és o Filho de Deus vivo”, confessado por revelação do Pai pela boca de Pedro, que mereceu ouvir: “Feliz és, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que to revelou, mas o meu Pai, que está nos céus” etc. Ninguém, portanto, irá prevalecer jamais contra a vossa fé, diletíssimos irmãos: se porventura nos devolver Deus algum dia as igrejas — e nisto acreditamos! —, independente da devolução das igrejas, basta-nos a fé. E para não soar talvez demasiado duro falando sem Escrituras, é bom que vos aduza testemunhos das Escrituras.

Lembrais-vos de que o Templo estava, de fato, em Jerusalém: o Templo não estava em lugar deserto, e gentes estranhas o invadiram. Depois disso, estando o Templo ainda em Jerusalém, desceram exilados <os judeus> para a Babilônia, por juízo de Deus que não só os provava, mas corrigia e, assim, manifestava a pena <reservada> aos ignorantes por intermédio de inimigos sedentos de sangue. Tomaram, sim, o Templo gentes estranhas, mas desconheciam o Senhor do Templo. Mas <Ele>, entrementes, nem lhes respondia nem lhes dirigia palavra, porque estavam separados da verdade. Que lhes aproveita o lugar, pois? Eis que agora os que ocupam os templos são acusados pelos que amam a Deus, porque fizeram deles espelunca de ladrões, casa de negócios e, ensandecidos, transformaram para si em tribunais de justiça o lugar santo, onde não lhes é lícito entrar.

Ouvimos estas coisas, diletíssimos, dos que de lá vieram, e até piores do que estas. Quanto mais parece que é deles a Igreja, tanto mais fora dela se encontram. E julgam estar dentro da verdade, quando são eles os exilados e cativos, e nenhum ganho têm em ter só para si a Igreja, porque é a verdade das coisas que se julga…

Notas

  1. Cf. PG 26, 1189-1190.
  2. As cartas festivais (epistulæ festales), também chamadas cartas pascais, eram uma forma de notificação anual do Patriarca de Alexandria, endereçada a todas as cidades e mosteiros de sua jurisdição eclesiástica, sobre a data de início do jejum quaresmal e, portanto, sobre o dia da celebração da Páscoa. O costume parece ter começado pouco depois do Concílio de Niceia, que, além de condenar a heresia ariana, também se ocupou de matérias disciplinares, como a uniformidade do calendário litúrgico, com a determinação precisa das principais festividades do ano (cf. W. Cureton, The Festal Letters of Athanasius. Londres, 1848, p. xxxvii). Não parece haver evidências, contudo, de que o fragmento aqui apresentado provenha de alguma carta pascal de S. Atanásio. (Nota da Equipe CNP.)
  3. Trata-se de um códice (Colb. 1783) do ano 800 d.C. (Nota da Equipe CNP.)

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Quem foi Jesus de Nazaré?
Doutrina

Quem foi Jesus de Nazaré?

Quem foi Jesus de Nazaré?

A busca pelo “Jesus histórico” continua, com teólogos rejeitando a melhor evidência histórica para a verdade de uma conclusão que eles mesmos tentam provar que é falsa… Eles estão nesse jogo desde o século XVII, sem chegar a lugar nenhum, e ainda não desistiram.

Chilton Williamson Jr.Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Agosto de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
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Lendo e ouvindo a Paixão de Cristo na Quaresma passada, fiquei ainda mais impressionado do que em anos anteriores com a objetividade e minúcia históricas com que os quatro evangelistas relatam esses eventos. Competentes historiadores entendem, como bons romancistas, a importância de detalhes minuciosos, mas reveladores, para uma história ser eficaz e credível. Mateus, Marcos, Lucas e João, embora amadores, compartilharam essa qualidade literária. Alguns dos fatos relatados por cada um deles concordam com o que dizem todos os quatro, enquanto outros aparecem em apenas alguns relatos, e outros ainda são mencionados somente uma vez. No entanto, as quatro narrativas da Paixão têm em comum a proximidade, a objetividade sólida e a coerência que são características importantes da escrita histórica séria. A estas se deve acrescentar uma apreensão aguçada das personalidades envolvidas no drama — seus pensamentos, falas, respostas, gestos e aparências — e do próprio drama.

“A juventude de Jesus”, por James Tissot.

Ainda assim, a busca pelo chamado “Jesus histórico” persiste, cuja historicidade foi confirmada para satisfazer praticamente aos céticos. O trabalho é de uma qualidade fantástica: é como se, após a viagem de Colombo, houvesse aventureiros que duvidavam de que o Novo Mundo tivesse sido descoberto e estivessem construindo barcos na Espanha, em Portugal e em Gênova para navegar ao Oeste, a fim de saber “se era verdade”. Ou, para usar outra metáfora, é como se um homem míope perdesse os dias tentando ler um livro longo e difícil, tendo esquecido no alto da testa o seu caro par de óculos.

Aqueles que acreditam que deve haver um “Jesus histórico” a ser descoberto, separado e distinto do Jesus dos Evangelhos, negam a sua a-historicidade e aceitam que o personagem histórico chamado Jesus Cristo existiu. Além disso, assumem que as técnicas de investigação disponíveis aos estudiosos modernos oferecem uma boa chance de aprender quem e o que Ele “realmente” era — desde que os pesquisadores envolvidos na busca sejam pesquisadores “de mente aberta” e imparciais. Eles ignoram o fato de haver apenas três tipos de estudantes de história das religiões — ou de qualquer outro tipo de história, e provavelmente de qualquer que seja o assunto. São os crentes, os descrentes e os neutralistas (a quem chamamos céticos ou agnósticos).

É razoável pensar que, em uma questão tão essencial como a religião, a neutralidade humana seja uma impossibilidade psicológica, assim como é igualmente razoável acreditar que nenhum ser humano seja realmente assexual. De fato, a experiência e a evidência dão abundantes provas de que nenhum escritor, nenhum pensador — de fato, nenhuma pessoa viva — está totalmente livre de preconceitos sobre qualquer assunto importante, ou mesmo sobre os que não têm importância alguma. É um erro supor, como os “caçadores” do Jesus histórico, que os únicos incapazes de honestidade intelectual são os que crêem que Jesus foi quem Ele disse ser, e o adoram como tal; e que, como consequência, o que quer que eles tenham dito e escrito por dois mil anos a respeito de Cristo é suspeito desde o início. A regra geral é que, nesse assunto, nunca se deve dar aos cristãos o benefício da dúvida; em suma, eles devem ser considerados mentirosos até que se prove o contrário.

Os estudiosos e outros que trabalham na vinha dos estudos sobre o “Jesus histórico” só ficarão satisfeitos, de uma forma ou de outra, quando acharem ter descoberto uma prova histórica incontestável de que Cristo não foi quem Ele disse que era — que Ele não era o Filho divino do Deus vivo. Como eles estão envolvidos na prática de pesquisa e dedução históricas, é de supor que estejam procurando o tipo de evidência a que os historiadores profissionais recorrem para investigar e interpretar: registros falados e escritos de testemunhas oculares; narrativas em segunda mão e boatos contemporâneos confiáveis; documentos, incluindo relatórios oficiais, memorandos e cartas; relatos históricos de pessoas da época; resultados de pesquisas de arquivo feitas por historiadores de períodos históricos subsequentes; artefatos exumados por investigações arqueológicas e assim por diante.

No caso de Jesus de Nazaré, começamos com quatro relatos separados, escritos por quatro homens que acreditamos terem sido seus discípulos, tendo-o acompanhado por três anos e testemunhado sua prisão, julgamento e execução, e tendo-o visto ressuscitado dos mortos e subir aos céus. Esses relatos, como digo, são minuciosamente detalhados, ainda que não documentados, e mais amplificam que contradizem um ao outro. Trata-se, é claro, da obra de homens alfabetizados e de inteligência elevada, graças a um talento nativo até então oculto ou à inspiração divina. Salvo por uma coisa — o elemento sobrenatural, inseparável do início da história até o seu fim —, os Evangelhos seriam aceitos como histórias, boas ou ruins, logo depois que começaram a circular entre o público. Fossem os Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João os Evangelhos segundo Thomas Jefferson [1], poucas pessoas ao longo dos últimos dois milênios teriam tentado desacreditá-los, ou tido razão para crer neles. 

Os materialistas, para quem a história é uma série de eventos naturais que se desenrolam no mundo do espaço e do tempo, naturalmente resistem à intromissão do mundo sobrenatural. Se estivessem abertos a isso, reconheceriam a impossibilidade de procurar explicações naturais para eventos sobrenaturais. É sobretudo esse avanço sobrenatural que ofende a mente não-cristã. Maomé alegou ser mensageiro de Deus e seu profeta, mas não alegou ser, ele mesmo, divino. Como consequência, nenhuma pesquisa foi feita por escritores kafiri (infiéis) em busca do “Maomé histórico”, embora nenhum secularista acredite que o anjo Gabriel tenha aparecido a Maomé em sua caverna e ordenado: “Recite!” Para eles, o islamismo não passa de outro sistema bem elaborado de crença supersticiosa, apreciada por ignorantes e ingênuos; mas, passadas apenas duas décadas desde os ataques de 11 de setembro, não se trataria de uma religião perigosa e ameaçadora (ao contrário do cristianismo, seu sinistro rival) — e quem quer que diga o contrário é prontamente repreendido.

Apesar de toda a aparente seriedade e esforço intelectual que os membros dos estudos sobre o “Jesus histórico” têm devotado ao próprio trabalho, seus praticantes, de mentalidades diversas, até agora não concordam em nada, ou pelo menos em muito pouco. Alguém poderia argumentar que essa falta de sucesso, paradoxalmente, dá suporte ao ceticismo deles, já que, se o Cristo dos Evangelhos fosse o verdadeiro, Ele deveria ter sido muito mais amplamente conhecido e aceito no Mediterrâneo Oriental do que durante o tempo de sua vida. Todavia, sua relativa obscuridade é inteiramente plausível quando se levam em conta o afastamento geográfico relativo e o isolamento intelectual e cultural da antiga Palestina, tão separada da civilização greco-romana da época, não obstante a ocupação romana.

“Jesus acalma a tempestade”, de James Tissot.

De fato, fora do território da Palestina, quem teria tomado conhecimento ou manifestado interesse pelo líder de uma insignificante seita judaica, antes de Ele mesmo ser crucificado, ressuscitar e enfim subir aos céus, deixando seus Apóstolos e demais discípulos espalharem sua doutrina e a história de sua vida entre os judeus e os gentios, e converterem, dentro de poucos anos, alguns daqueles e milhares (ou dezenas de milhares) destes, à nova religião cristã — algo que parece ter acontecido numa velocidade quase sobrenatural? O modus operandi de Sherlock Holmes era que, uma vez esgotada a gama de explicações possíveis, a resposta impossível deveria ser a correta. O mesmo se dá com Jesus Cristo: se Ele não era quem alegava ser, então Ele jamais existiu.

Os cientistas sempre foram preparados para aceitar de modo condicional conclusões demonstradas apenas parcialmente, enquanto se aguardam futuros desenvolvimentos. Mas o público leigo está inclinado a receber essas descobertas acriticamente, já que elas foram “cientificamente” alcançadas por “especialistas”, e é neles que está a fé do materialista moderno — embora muitas das teorias propostas por físicos do séc. XXI alarguem as fronteiras da credulidade humana muito mais do que os ensinamentos de Cristo e da Igreja Católica. (Vale perguntar em que ponto — se é que ele existe — os limites do mundo natural se fundem com os do sobrenatural.)

Além disso, os cientistas, quando desenvolvem uma teoria aparentemente impossível, que  no entanto consideram instintivamente verdadeira, estão dispostos a prosseguir no pressuposto de que é verdade, até que se demonstre falsa. As histórias aparecem o tempo todo nas notícias para relatar novas observações de fenômenos naturais, como buracos negros engolindo estrelas anãs negras, que parecem confirmar as teorias formuladas por Einstein há um século. Os pesquisadores do “Jesus histórico” trabalham inversamente: eles rejeitam a melhor evidência histórica para a verdade de uma conclusão enquanto tentam provar que a conclusão é falsa! Eles estão nesse jogo desde meados do séc. XVII sem chegar a lugar nenhum, e ainda não desistiram.

Notas

  1. O autor se refere aqui à obra The Life and Morals of Jesus of Nazareth (“Vida e Costumes de Jesus de Nazaré”), de Thomas Jefferson, uma seleção naturalista de versículos dos Evangelhos, dispostos em ordem cronológica, mas sem as passagens milagrosas e sobrenaturais (Nota da Equipe CNP).

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