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Escolhendo tudo: uma lição de Santa Teresinha
Espiritualidade

Escolhendo tudo:
uma lição de Santa Teresinha

Escolhendo tudo: uma lição de Santa Teresinha

Quando nos aproximamos de Deus com a cesta da nossa vida, tendemos a esconder nossas fraquezas, pecados e feridas, oferecendo-lhe só o que nos parece mais agradável. Ele age conosco, porém, como na história da pequena Teresa, e nos diz: “Eu escolho tudo!”

Jim AndersonTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere14 de Outubro de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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Em sua autobiografia, História de uma alma, S. Teresinha conta uma bela história sobre um incidente de infância. Sua irmã mais velha, Leônia, que já estava muito grande para brincar de boneca, trouxera uma cesta com materiais para fazer vestidos de boneca para as irmãs mais novas, Celina e Teresa. A boneca de Leônia estava na cesta, em cima dos materiais. Ela ofereceu a cesta às irmãs, dizendo: “Queridas, escolham o que quiserem”. Celina, a mais velha das duas, pegou uma bola de lã que havia chamado sua atenção, mas Teresa, que tinha apenas dois anos, simplesmente afirmou: “Eu escolho tudo!” e, sem fazer cerimônia, pegou a cesta, a boneca e tudo o mais!  

Esse episódio reflete a postura de Teresa durante toda a vida, como ela conta em História de uma alma (Manuscrito A, 10r-10v): 

Este pequeno episódio de minha infância é o resumo de toda a minha vida; mais tarde, quando dei com a perfeição, compreendi que para se tornar santa era preciso sofrer muito, procurar sempre o mais perfeito e esquecer-se a si mesma, compreendi que havia muitos graus na perfeição e que cada alma era livre de responder às solicitações de Nosso Senhor, de fazer pouco ou muito por ele, numa palavra, de escolher entre os sacrifícios que ele pede. Então, como nos dias de minha infância exclamei: “Meu Deus, escolho tudo. Não quero ser santa pela metade, não tenho medo de sofrer por vós; a única coisa que temo é guardar minha vontade, tomai-a vós, pois ‘escolho tudo’ o que quiserdes!...”

Embora a pequena Teresa ilustre, com sua precoce e vibrante audácia, a profundidade do desejo humano — um desejo que, no final das contas, só é saciado por Deus —, creio que seja possível extrair outra reflexão desse relato.

Deus fala a cada um de nós com o mesmo desejo entusiasta manifestado por Teresa quando nos apresentamos diante dEle com a cesta da nossa vida — muitas vezes, com temor e tremor — e a oferecemos a Ele pedindo-lhe que pegue algo dela. É claro que oferecemos, imediatamente, as partes preferidas: as que julgamos mais agradáveis a Ele, as que podemos oferecer com mais segurança ou as que supostamente não nos custarão muito.

Porém, há outros aspectos da vida que estamos menos dispostos a oferecer a Deus: nossas fraquezas, pecados e feridas; os rancores e queixas que guardamos secretamente; as partes da nossa humanidade ferida que nos atormentam e constrangem; todas as partes da nossa personalidade que estão cheias de imperfeições.

Isso também pode nos deixar irritados. O mandamento de Jesus: “Sede perfeitos como o vosso Pai celestial é perfeito” parece impossível de cumprir, algo flagrantemente absurdo de pedir a um ser humano! Conscientes da fraqueza e da escuridão que se escondem em nosso coração, nós, como Marta diante do sepulcro de Lázaro, clamamos: “Senhor, já cheira mal!”, e muitas vezes nos afastamos dEle e nos escondemos em nossas feridas.

Mas o amor não se satisfaz facilmente. Deus age como a pequena Teresa. Olhando para a cesta que somos nós, Ele diz sem meios termos: “Eu escolho tudo!” Em momentos como esse, brotam em nosso coração as palavras que Ele dirigiu a Marta: “Não te disse eu: se creres, verás a glória de Deus?”   

E o que é a glória de Deus? Irineu nos diz: “A glória de Deus é o homem plenamente vivo!” Aos olhos de Deus, isso é a perfeição — ser perfeito como pessoa humana é ser humano de modo autêntico e pleno, assim como Deus é perfeito sendo plenamente divino.  

S. João Paulo II disse a mesma coisa com outras palavras, exortando as famílias a “tornarem-se o que são”. Mas precisamos da graça de Jesus Cristo, que é “a ressurreição e a vida”, para renovar, restaurar, curar, aperfeiçoar e elevar todos os aspectos da nossa humanidade — os bons, os maus e os feios — à plenitude da imagem e semelhança de Deus. Isso significa ser plenamente humano, entregando a Deus tudo o que somos e temos para que, em contrapartida, possamos aceitar tudo dEle, como o fez Teresa.

É uma troca admirável: o nosso tudo (que, na verdade, não é nada) pelo tudo de Deus (que, na verdade, é Tudo). Nessa troca de tudo por tudo, ficamos com a parte boa do negócio.

Esse é o núcleo do gênio de S. Teresinha e de sua pequena via. Deus nos encontra quando aceitamos voluntariamente nossa imperfeição, fraqueza, pobreza e carência. Com a confiança de uma criança, Teresinha nos encoraja a confiarmos que até o menor passo em direção a Deus é suficiente para receber seu amor e misericórdia. Podemos ter certeza de que, se estivermos dispostos a nos aproximar de Deus tanto quanto possível — ainda que seja um caminho curto —, Ele fará a diferença em sua ternura e bondade.

Esse também é o núcleo do espírito missionário de S. Teresinha, padroeira das missões, pois, como sugere outra santa mulher, Catarina Doherty, o primeiro campo de qualquer missão é o coração humano — onde são tomadas todas as decisões favoráveis ou contrárias a Deus e ao próximo. Só precisamos aceitar humildemente nossas fraquezas como oportunidades para encontrar a Deus em profundidades cada vez maiores, e assim abrir nosso coração a Ele de forma mais plena, permitindo que Ele escolha tudo e transforme tudo em seu amor.

João Paulo II descreve a autêntica formação humana como um movimento que parte do autoconhecimento, passa pela aceitação de si e chega à doação de si. Isso requer uma visão integral da pessoa humana em todos os aspectos de seu ser — físico, espiritual, emocional, social e intelectual — e implica a Redenção e o aperfeiçoamento de todos esses aspectos em Cristo.

E Teresinha nos ensina isso. “Teresa é Mestra para o nosso tempo”, escreveu João Paulo em Divini Amoris Scientia, a Carta apostólica em que ele a proclamou Doutora da Igreja, “Mestra de vida evangélica, particularmente eficaz ao iluminar os caminhos dos jovens, aos quais compete ser protagonistas e testemunhas do Evangelho junto das novas gerações”. 

Sem dúvida, já vi esse testemunho ao longo de meus anos de trabalho como formador de jovens — uma miríade de esperanças, alegrias e vidas restauradas pela entrega inocente ao amor de Deus. Talvez nestes dias, como nunca antes, em meio ao medo disseminado pela pandemia, ao crescimento do isolamento e da divisão, da agitação social e da animosidade crescente mesmo no seio da Igreja, necessitemos de uma mestra como Teresinha, que pode nos ajudar a entregarmos tudo para escolhermos Tudo.

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Pode um cientista ainda levar a sério o Milagre do Sol?
Virgem Maria

Pode um cientista
ainda levar a sério o Milagre do Sol?

Pode um cientista ainda levar a sério o Milagre do Sol?

Em razão do número e da variedade de testemunhas oculares, além do choque político e eclesial que se seguiu ao evento, tudo o que sobre ele sabemos aponta para um milagre público extraordinário e com altíssimo grau de credibilidade.

Pe. Andrew PinsentTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Outubro de 2020Tempo de leitura: 3 minutos
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A pergunta na chamada implica que a resposta esperada é: não; mas, como antigo físico de partículas, a minha resposta é: por que não? Contra o preconceito comum, uma perspectiva científica não descarta milagres, e o evento de Fátima é, na visão de muitos, particularmente crível.

Com relação a milagres em geral, o preconceito de costume contra eles assume uma de duas formas. A primeira alega que um ponto de vista científico exclui milagres, erroneamente definidos como um rompimento das forças da natureza ou, especificamente, com a física. Este preconceito repousa num mal-entendido sobre o alcance das leis científicas, que descrevem de forma simplificada como sistemas ideais, tomados isoladamente, se comportam. Essas leis nos permitem realizar feitos extraordinários, como a viagem final que a espaçonave Cassini empreendeu em 2017 através dos anéis de Saturno.

Mas essa leis nada nos dizem sobre o que acontece quando um sistema não é isolado, muito menos quando um agente pessoal e livre nele intervém. Para dar um exemplo: se eu jogar uma maçã no ar, a sua trajetória será semelhante a uma parábola que pode ser prevista a partir da posição inicial e impulso da maçã; mas essa previsão nada diz sobre o que eu decido fazer ou não com a maçã. Ora, se eu posso intervir para mudar a trajetória de uma maçã, então (presumivelmente) Deus todo-poderoso pode fazer o mesmo. E muito mais. Portanto, não existem problemas reais em relação aos milagres do ângulo das leis científicas, uma vez que descrever como um sistema se comporta na ausência de interferências externas não diz nada sobre se uma intervenção pode ocorrer ou ocorre de fato.

Uma segunda forma de preconceito alega que uma combinação de causas naturais pode e deve ser encontrada para explicar o que aparenta ser milagroso, reduzindo o extraordinário ao previsível. Para dar apenas um exemplo: não é incomum entre padres e professores já de certa idade, que acham milagres embaraçosos, a ideia de que Jesus, na multiplicação dos pães, teria alimentado cinco mil pessoas dividindo a comida que elas mesmas trouxeram consigo. Seria um símbolo de “partilha”. 

Explicações como estas dificilmente quadram com as contas reais, menos ainda com a reação das testemunhas. Além disso, não são explicações necessárias ou úteis. Obviamente, nós devemos ter senso crítico na hora de avaliar relatos de milagres particulares, que deveriam ser sinais excepcionais num mundo de seres criados com as suas próprias potências naturais. Mas determinar, antes de considerar quaisquer evidências, que milagres são impossíveis ou nunca acontecem é contra o espírito de investigação crítica, além de uma declaração de desespero. Afinal de contas, se nenhum milagre acontece, é porque estamos presos num mundo de potências naturais, inadequados para a nossa felicidade e condenados à decadência e à morte individual e, finalmente, cósmica.

Pessoas presentes na Cova da Iria, em 13 de outubro de 1917, olhando para o Sol.

Como então avaliar o milagre de Fátima, especialmente o Milagre do Sol, de 13 de outubro de 1917? Este evento acompanhou a última de seis aparições de Nossa Senhora à Beata Lúcia Santos, de 10 anos, e seus primos, os santos Jacinta e Francisco Marto. Houve uma multidão de testemunhas, contadas em dezenas de milhares, sem contar o testemunho de professores universitários e repórteres, compilados mais tardes no livro de John Haffert Meet the Witnesses of the Miracle of the Sun (“Conheça as testemunhas do Milagre do Sol”). Por exemplo, Avelino de Almeida, de O Século (um jornal anticlerical do governo), que anteriormente zombava das crianças, escreveu que o Sol fazia movimentos súbitos e incríveis, “fora de todas as leis cósmicas”.

Hoje, a Igreja não exige que aceitemos o milagre, mas afirma apenas que as aparições de Nossa Senhora são dignas de fé [1]. No entanto, em razão do número e da variedade de testemunhas oculares, além do choque político e eclesial em Portugal que se seguiu ao evento, tudo o que sobre ele sabemos aponta para um milagre público extraordinário e com altíssimo grau de credibilidade.

As aparições da Virgem ocorreram quatro séculos após o início da Reforma Protestante, em 1517, e dois séculos depois da fundação da primeira Grande Loja maçônica, em Londres, no ano de 1717, marcos da apostasia das nações do catolicismo para o indiferentismo religioso. No dia mesmo do Milagre do Sol, em 1917, os sovietes assumiram o controle militar da Rússia, preparando o caminho para que o comunismo ateu começasse a ruinosa dominação de grande parte do mundo, perseguindo a Igreja e levando a mortes cruéis dezenas de milhões de pessoas.

Não surpreende, pois, que Deus nos tenha concedido um milagre espetacular, com avisos severos de arrependimento e penitência, para aprendermos a responder ao dom de sua graça, para a salvação de nossas almas e do mundo.

Notas

  1. A revelações privadas como a de Fátima não estão obrigados a prestar assentimento de fé divina os fiéis a quem elas não foram imediata e certamente dirigidas, embora convenha prestar-lhes assentimento de fé humana, na medida em que a autoridade da Igreja prudencialmente as reconhece como autênticas, isto é, livres de todo indício razoável de fraude, engano, manipulação etc. e de quaisquer elementos que contradigam o conteúdo da Revelação pública. Por isso, não peca contra a fé quem não crê, v.gr., nas revelações de Fátima ou em outras aparições marianas particulares, embora nisto possa haver certa indocilidade culposa ao Magistério eclesiástico, quando ele mesmo reconhece a autenticidade destas manifestações e as propõe aos fiéis, especialmente pela Liturgia, como dignas de fé e conformes à doutrina cristã (Nota da Equipe CNP).

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Por que a Virgem de Fátima apareceu no dia 13 de cada mês?
Virgem Maria

Por que a Virgem de Fátima
apareceu no dia 13 de cada mês?

Por que a Virgem de Fátima apareceu no dia 13 de cada mês?

É claro que houve um significado no fato de Nossa Senhora ter aparecido no dia 13 em Portugal. Por ora, podemos não conhecer todas as razões, mas há importantes conexões entre esse número e a história de Fátima.

Joseph PronechenTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Outubro de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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Comecemos com um simples fato. Nas principais aparições em Fátima, nossa Mãe Santíssima apareceu no dia 13 de cada mês, menos em agosto, quando as crianças foram levadas à cadeia de Ourém por um administrador ateu, que estava determinado a impedir que elas fossem até a Cova da Iria.

Depois que as crianças foram soltas, Nossa Senhora lhes apareceu no dia 15 de agosto, festa da Assunção. 

Houve algum significado no fato de Nossa Senhora ter aparecido no dia 13 dos outros cinco meses? Claro que sim. O Céu não faz coisas sem propósito. Por ora, podemos não conhecer todas as razões, mas há importantes conexões entre esse número e a história de Fátima, e elas podem, até o momento, ser consideradas mais um modo de enriquecer seu significado.

Primeiro, tenhamos em mente que certos números possuem grande significado e simbolismo para os judeus e para nós. É algo claramente bíblico. No Antigo Testamento, determinados números são associados a significados místicos e a certa sacralidade. Isso continuou no Novo Testamento e foi mantido pelos Padres da Igreja.

Consideremos os seguintes números: 3 (a Trindade, por exemplo); 7 (o sétimo dia da semana, quando Deus descansou); 12 (as doze tribos de Israel, os doze Apóstolos). Obviamente, isso não tem nada a ver com superstição.  

Antes de voltarmos ao 12, lembremos mais uma conexão. Os Padres da Igreja consideravam Ester, do Antigo Testamento, uma prefiguração da Santíssima Virgem. Trata-se de uma importante relação. Você se lembra da história dessa rainha, contada no Livro de Ester?

Em resumo, Ester estava entre os judeus exilados na Pérsia. Seu tio, Mardoqueu, cuidava dela e ao mesmo tempo era um diligente servo do rei. Ela era reverenciada por todos: “Ela ganhava as boas graças de todos os que a viam” (Et 2, 15). Quando o rei Assuero precisou escolher uma rainha entre as possíveis candidatas, “preferiu-a a todas as outras mulheres, e ganhou ela as graças e o favor real mais que todas as demais jovens. Tanto que o rei colocou sobre sua cabeça o diadema real e a fez rainha no lugar de Vasti” (Et 2, 17). Ele não sabia que ela era judia.

Entra em cena o vilão, que tinha ciúmes de seu tio e da posição que ele ocupava, porque ele mesmo queria ser o braço direito do rei, com todo o poder que a posição oferecia. Ele conseguiu isso imediatamente, ao armar uma trapaça contra Mardoqueu. Então, para manter-se no poder, escreveu e baixou um decreto no dia 13 do primeiro mês, determinando que, dentro de alguns meses, todos os judeus no reino — homens, mulheres e crianças — deveriam ser exterminados à espada. A execução em massa seria realizada no 13.º dia do mês de Adar do calendário judaico

Pediram a Ester que intercedesse junto ao rei. Ela o fez, mesmo que isso lhe pudesse ter custado a vida, pois ela apareceu diante dele sem pedir a permissão necessária para vê-lo — um aviso vindo dele mesmo autorizando-lhe a presença. Ela se dirigiu ao rei para fazer o pedido.

Ester revelou ao rei que o vilão havia ordenado em nome do rei a morte dos judeus, e usou o selo dele para determinar que aquilo fosse feito no dia 13 de Adar. Além disso, ela revelou que também era judia. O rei Assuero, que a amava afetuosamente, ficou indignado com tal vileza, condenou o vilão à morte e ordenou que os judeus fossem salvos.

“Ester diante de Assuero”, pintura de Guercino.

“No duodécimo mês, que é o de Adar, no dia treze do mês, data em que entrava em vigor a ordem e o edito do rei, no mesmo dia em que os inimigos dos judeus contavam fazer-lhes mal, aconteceu tudo ao contrário e os judeus dominaram seus inimigos”, diz-nos o livro (Et 9, 1). 

Ester salvou seu povo. Os judeus sobreviveram.

Em Fátima, Nossa Senhora apareceu para salvar seu povo mostrando-lhe o caminho correto a ser seguido.

Como um “extra”, a Enciclopédia Católica lembra que o nome Ester vem do hebraico e significa “estrela”, “felicidade”. Isso também reforça a conexão entre Ester e a aparição e mensagem de Nossa Senhora de Fátima.

Ela sempre tinha uma estrela em seu manto”, disse a Ir. Lúcia ao padre dominicano Thomas McGlynn, quando ele perguntou qual era a aparência de Nossa Senhora. A estrela era amarela. Mais uma vez, o Céu estabelecia uma conexão para nos dizer que Maria estava indo a Fátima também para salvar do mal seu povo e a Igreja.  

Ester era uma rainha. Nossa Senhora é uma Rainha infinitamente superior — que foi coroada, contemplamos no quinto mistério do Rosário, “como Rainha do Céu e da terra”. 

Por falar no Rosário, todas as vezes que apareceu em Fátima, Nossa Senhora nos pediu que o rezássemos (do dia 12 de maio ao dia 13 de outubro). Na aparição do dia 13 de outubro, ela se apresentou como Nossa Senhora do Rosário, e outubro é o mês dedicado ao Santo Rosário. 

Isso nos leva a outro 13. Foi no séc. XIII que Nossa Senhora deu o Rosário a São Domingos. E foi também nesse século que ela deu a São Simão Stock o escapulário marrom. No dia 13 de outubro, Nossa Senhora apareceu com três títulos — um deles foi o de Nossa Senhora do Carmo, dando-nos uma lição silenciosa sobre o escapulário. Alguns anos depois, quando frades carmelitas lhe perguntaram sobre o escapulário, Lúcia lhes disse que “o escapulário e o Rosário são inseparáveis. O escapulário é um sinal de consagração a Nossa Senhora”. 

Naturalmente, Nossa Senhora apareceu em Fátima para nos aproximar de Jesus. Um dos caminhos foi a recepção da Sagrada Eucaristia, que é a parte mais importante da devoção dos cinco primeiros sábados. Isso nos leva a outra conexão com o número 13. 13 de maio, data da primeira aparição, era o dia original da festa de Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento. Com certeza essa data não foi escolhida a esmo; ela apontava propositalmente para a Sagrada Eucaristia.

Durante a primeira aparição, no dia 13 de maio, as crianças perceberam que a luz que saía das mãos abertas de Maria era a luz de Deus; então, ajoelharam-se e começaram a rezar: “Ó Santíssima Trindade, eu vos adoro! Meu Deus, meu Deus, amo-vos no Santíssimo Sacramento”.

É claro que essa oração tem uma conexão com o Espírito Santo. Lembremos que Nossa Senhora e os Apóstolos somavam 13 pessoas no Cenáculo, onde o Espírito Santo desceu em Pentecostes.

Além dos doze Apóstolos juntos com Maria, podemos retroceder no tempo e mencionar as doze tribos de Israel e assim o 13 aparecerá novamente. Certo rabino especialista no tema mostrou que as doze tribos, dos doze filhos de Jacó, as quais se tornaram Israel, “estão unidas a seu pai Israel [Jacó]. Israel é o 13.º. O sentido do número treze é a união de muitos em um só”.

O rabino também observou que, na língua hebraica, toda letra possui um valor numérico, e a palavra hebraica ahava (que significa amor, como no Novo Testamento, na Bíblia) está ligada a Deus e ao valor numérico de treze.  

Em Fátima, Maria veio com amor para nos unir todos no amor de Deus, desde que sigamos suas instruções, que em última instância vieram de Deus — o qual, como nos diz São João, é Amor (cf. 1Jo 4, 8) —, para a única família de Deus que se dirige ao Céu.  

Portanto, o número 13 está, de fato, relacionado com Fátima de diversas formas, direta ou indiretamente. Trata-se de mais um dos muitos e diferentes modos que nos ampliam a mensagem e o significado de Fátima.

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São Francisco, o Sultão e o desejo de ser mártir
Santos & Mártires

São Francisco, o Sultão
e o desejo de ser mártir

São Francisco, o Sultão e o desejo de ser mártir

Quem poderia descrever o amor ardente que abrasava Francisco? O incêndio de amor que o devorava, criava nele uma santa inveja do triunfo glorioso dos santos mártires, a quem ninguém conseguiu apagar a chama da caridade, nem abater a coragem.

São Boaventura9 de Outubro de 2020Tempo de leitura: 9 minutos
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Quem poderia descrever o amor ardente que abrasava Francisco, esse amigo do Esposo? Como um carvão a arder, parecia inteiramente devorado pela chama do amor de Deus. Mal ouvia falar do amor do Senhor, ficava excitado, comovido, inflamado, como se esse som exterior lhe fizesse vibrar lá dentro as cordas do coração. Segundo ele, era uma prodigalidade principesca oferecer, em troco da esmola, o precioso patrimônio do amor de Deus; e dar-lhe menos apreço do que ao dinheiro era tolice rematada, porquanto essa moeda inapreciável do amor divino é a única com que se pode comprar o reino dos Céus, e é um dever natural pagar amor com amor.

A intensidade desse amor sem limites que o impelia para Deus, fez com que também aumentasse a ternura afetuosa para com os que com ele participavam da natureza e da graça. Os sentimentos naturais do seu coração bastavam para o transformar num irmão de todas as criaturas. Não é de admirar, portanto, que o seu amor a Cristo, o tenha tornado ainda mais irmão daqueles que são a imagem do Criador e foram resgatados pelo seu sangue. Não se considerava amigo de Cristo, se não se preocupava com as almas que Ele resgatara. “Nada se devia antepor à salvação das almas”, dizia. E apresentava como prova o fato de o Filho Unigênito de Deus se ter dignado morrer na cruz por amor das almas. Isso explica a sua veemência na oração, a atividade incessante da pregação, e os excessos quando se tratava de dar exemplo. Se lhe censuravam certos exageros de austeridade, respondia que tinha sido dado aos outros como exemplo. Se bem que a sua carne inocente, já sem relutância submetida ao espírito, não merecesse qualquer castigo pelas próprias faltas, no entanto, para dar exemplo, impunha-lhe novos castigos e novos sofrimentos, calcorreando, por amor dos outros, caminhos duros. Ainda que eu falasse, dizia, as línguas dos homens e dos anjos, se não tivesse caridade e não desse exemplo de virtude, isso de nada me serviria a mim, e muito pouco aproveitaria aos outros.

“São Francisco de Assis em êxtase”, pintura do séc. XVII.

O incêndio de amor que o devorava, criava nele uma santa inveja do triunfo glorioso dos santos mártires, a quem ninguém conseguiu apagar a chama da caridade, nem abater a coragem. Também ele, abrasado no mesmo santo amor que rejeita todo o medo, queria oferecer-se ao Senhor como hóstia viva, imolada pelo martírio, para retribuir a Cristo a morte que ele sofreu por nós e incentivar os homens ao amor de Deus. 

Seis anos após a conversão, ardendo em desejos de martírio, resolveu dirigir-se para as bandas da Síria, a pregar a fé cristã e a penitência aos sarracenos e outros infiéis. Mas o navio em que embarcara foi arrastado por ventos contrários para as costas da Eslavônia, onde teve de aportar. Aí se viu forçado a ficar algum tempo, sem conseguir nenhum barco que o transportasse mais além. Percebendo que o seu desejo não seria o do Senhor, e vendo uns marinheiros prestes a desamarrar para Ancona, pediu-lhes que o levassem — mas teria de ser por amor de Deus, pois ele nada tinha com que pagar. Por mais que insistisse, os homenzinhos fizeram ouvidos de mercador. Então o homem de Deus, num extremo de confiança na bondade do Senhor, esgueirou-se sub-repticiamente para o navio, ele e o companheiro. Entre os passageiros encontrava-se um, sem sombra de dúvida enviado por Deus em favor do seu pobrezinho, que levava mantimentos em abundância, e chamando à parte um membro da tripulação que lhe pareceu mais temente a Deus, recomendou-lhe: “Guarda bem estas provisões para uns Irmãos pobrezinhos que vão aqui escondidos no navio, e dá-lhas quando eles precisarem”. Ora aconteceu que os ventos sopraram com tanta violência, que os dias se passavam sem que pudessem aportar em parte alguma. Os marinheiros já não tinham provisões; só restava aquela esmola graciosamente concedida pelo céu ao pobre Francisco. Era muito pouco, não havia dúvida; mas o poder de Deus fez com que esse pouco se transformasse em tanto, que apesar do atraso provocado pela tempestade, o alimento chegou e sobrou para todos até ao porto de Ancona. Os marinheiros, vendo-se libertos dum perigo de morte por intermédio do servo de Deus, imitaram os do Salmo, que depois de terem sentido os perigos horrendos do oceano, testemunharam as obras do Senhor no alto mar; deram graças a Deus todo-poderoso, que se mostra sempre tão amável e tão admirável para com os seus amigos e servidores. 

Começou então a percorrer essa província, semeando a boa semente da salvação e colhendo frutos copiosos. Mas como o fruto mais apetecido era o do martírio, e mais desejava a morte por Cristo do que todos os méritos duma vida virtuosa, partiu em direção a Marrocos, com a intenção de anunciar o Evangelho de Cristo ao Miramolim e ao seu povo: podia ser que assim alcançasse a desejada palma do martírio. E era de tal ordem o seu entusiasmo, que sendo embora franzino de corpo, andava sempre à frente do companheiro de viagem, e deslumbrado na ânsia de concretizar o seu sonho, parecia que queria voar. Já tinha chegado à Espanha. Mas a disposição divina reservava-lhe outras incumbências. Sobreveio-lhe uma doença muito grave, que o impediu de realizar o que tanto desejava. Apesar do lucro que para ele representava a morte, compreendeu que a sua vida corporal era imprescindível para a família que gerara. E voltou, para apascentar as ovelhas confiadas aos seus cuidados.

Mas o fervor da caridade continuava a aguilhoá-lo em ânsias de martírio. Uma terceira vez tentou passar a terras de infiéis, para com efusão do sangue favorecer a expansão da fé na Santíssima Trindade. No ano décimo terceiro da sua conversão partiu para o Oriente, exposto constantemente a inúmeros perigos, no intuito de poder contatar pessoalmente com o Sultão de Babilônia. Travava-se então uma guerra implacável entre cristãos e sarracenos. Os dois exércitos encontravam-se frente a frente no campo de batalha. Tentar passar dum lado para o outro era um risco de morte. Além disso, o Sultão publicara um édito cruel prometendo um talento de ouro a quem lhe trouxesse a cabeça dum cristão. Pois, apesar de tudo isso, Francisco, o intrépido cavaleiro de Cristo, na esperança de obter sem mais delongas aquilo por que tanto suspirava, meteu-se a caminho: longe de temer a morte, sentia-se atraído por ela. Depois de fervorosa oração, confortado pelo Senhor, começou a cantar cheio de confiança aquele verso do profeta: Nem que eu tenha de andar no meio da sombra da morte, não terei medo nenhum porque tu estás comigo

Tomando por companheiro Frei Iluminado, um Irmão de fato iluminado no sentido de inteligente, e também corajoso, puseram-se a caminho, quando imediatamente depararam com duas ovelhinhas. Entusiasmado com este encontro, comentou para o companheiro: “Confia no Senhor, meu Irmão. Está-se a realizar em nós aquele aviso do Evangelho: Envio-vos como ovelhas para o meio de lobos…”. 

“São Francisco diante do Sultão do Egito, Malik-al-Kamil”, de Zacarías González Velázquez.

Um bocado mais adiante foram interceptados pelos guardas avançados dos sarracenos. Como lobos em busca de ovelhas lançaram-se brutalmente a eles, agarraram-nos com ódio e crueldade, cumularam-nos de injúrias, espancaram-nos e agrilhoaram-nos. Por fim, depois de maltratados e vexados de mil maneiras, levaram-nos — segundo os desejos do Santo e as disposições da Providência — à presença do Sultão. Quis ele saber quem é que os tinha mandado, com que fim; em que condições, e como é que tinham chegado ali. Com todo o sangue-frio, o servo de Cristo esclareceu que tinha sido enviado de além dos mares, não por qualquer homem mas pelo Deus Altíssimo; que vinha indicar-lhe, a ele e ao seu povo, o caminho da salvação e anunciar-lhe o Evangelho da verdade. Depois pregou ao Sultão os mistérios da Trindade e da Redenção. E fê-lo com tal fervor e entusiasmo, que bem parecia realizar-se nele aquilo do Evangelho: Hei-de pôr-vos na boca uma tal sabedoria, que nenhum dos vossos adversários conseguirá resistir-lhe nem pôr-lhe objeções

Espantado com semelhante entusiasmo e coragem, o Sultão parecia gostar de o ouvir, sugerindo-lhe mesmo que ficasse por ali mais algum tempo com ele. Porém o servo de Cristo, instruído por uma indicação do céu, avançou: “Se de fato queres converter-te a Cristo, tu e o teu povo, eu com todo o prazer, e por amor dele, ficarei convosco. Mas vejo que te sentes indeciso em trocar a lei de Maomé pela de Cristo… Pois bem: manda acender uma grande fogueira, e eu desafio os teus sacerdotes a avançarem comigo para o meio do fogo. Dessa forma se poderão dissipar as dúvidas, acerca de qual das crenças é a mais santa e a mais certa”. “Duvido muito — replicou o Sultão — que algum dos meus sacerdotes se quisesse expor ao fogo ou suportar qualquer tormento em defesa da sua fé…”. De fato não lhe tinha passado despercebido que um dos seus sacerdotes, aliás sincero e venerável, ao ouvir o desafio de Francisco, se esgueirara sem que ele mais o visse. 

O Santo mais se encheu de coragem: “Se quiseres prometer-me, em teu nome pessoal e no do teu povo, que abraçareis a religião de Cristo no caso de eu sair ileso do fogo, eu irei para lá mesmo sozinho. Nota porém uma coisa: se eu me vier a queimar, isso será devido única e exclusivamente aos meus pecados! Pelo contrário, se o poder de Deus me proteger, é para que reconheçais por verdadeiro Deus, Senhor e Salvador de todos os homens, a Jesus Cristo, poder e sabedoria de Deus”. Não se atreveu o Sultão a aceitar o repto, por medo duma possível sublevação do povo. Preferiu oferecer-lhe numerosos e ricos presentes, que o homem de Deus rejeitou com desprezo: ele era ganancioso, é certo, mas não das riquezas do mundo, senão somente da salvação das almas. Esta atitude granjeou-lhe ainda maior estima por parte do Sultão, assombrado de ver um homem tão desprendido dos bens mundanos. Apesar de tudo, não quis, ou talvez melhor, não teve coragem de abraçar a fé cristã. Ainda assim, pediu ao servo de Cristo que aceitasse os presentes e os desse a cristãos necessitados ou igrejas pobres: esse gesto, pensava ele, era um passo no caminho da salvação. Mas o Santo, que por um lado tinha horror ao dinheiro, e por outro lado não descobria na alma do Sultão profundas raízes de verdadeira fé, recusou-se terminantemente a aceitar qualquer presente. 

Verificou também com tristeza que nada conseguia quanto à conversão dessa gente, nem tão-pouco pressentia poder realizar o seu desejo de martírio… Uma revelação divina, de resto, veio dissipar-lhe as dúvidas. E voltou novamente para terras de cristãos. O que Deus em sua bondade decretara e o Santo por sua generosidade merecera, era ter Francisco conseguido o martírio de desejo. Pelo grande amor que dedicava a Cristo, tinha-se exposto a morrer por Ele sem o conseguir: mas haveria de ser marcado mais tarde com um selo e um símbolo desse martírio. O fogo divino que lhe ardia cada vez mais em labaredas no coração havia de alastrar até à carne. Ditoso de verdade, aquele cuja carne, sem ser ferida pelo ferro de um tirano, não deixou de apresentar tão perfeita semelhança com o Cordeiro Imolado! Plenamente ditoso de verdade, aquele a quem “a espada do perseguidor não tirou a vida, sem, no entanto, perder a palma do martírio!”.

Notas

  • É de tal modo célebre esse episódio da vida de S. Francisco de Assis, que consta não só de sua Legenda maior, escrita por S. Boaventura, mas também de sua Legenda menor (c. 3, 9), de seus Fioretti (c. 24) e de sua Primeira vida (l. 1, c. 20, 57), escrita por Tomás de Celano.
  • Esse texto foi transcrito e levemente adaptado de: S. Boaventura. Legenda maior (c. 9, 1.4-9), trad. Frei José Maria da Fonseca Guimarães, OFM. Editorial Franciscana, pp. 80-88. As referências do original foram omitidas desta publicação, os grifos em negrito são nossos e os em itálico fazem alusão a trechos das Sagradas Escrituras.

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