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Por que não podemos nos confessar via internet?
Doutrina

Por que não podemos
nos confessar via internet?

Por que não podemos nos confessar via internet?

O argumento contra a confissão eletrônica pode parecer negativo, mas é justamente o contrário. Os requisitos para a Penitência respeitam e preservam a dimensão pessoal e social da salvação, o sacramento e os que o realizam.

Dominic M. Langevin, O.P.Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere23 de Abril de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
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Se você estiver preso em casa morrendo num hospital por causa do coronavírus, poderá telefonar a um sacerdote para receber o perdão sacramental? 0-800-CON-FES-SAR? Ou poderá receber o sacramento da Penitência via Zoom ou Skype?

Não. Não dará certo.

Muitos têm abordado o tema da perspectiva do direito canônico, isto é, o que a lei canônica permite ou proíbe (ou deveria permitir). Porém, também deveríamos abordar o assunto do ponto de vista da teologia sacramental, na qual o direito canônico deve se basear. Embora a crise da COVID-19 nos pareça inédita, questões relativas aos sacramentos não o são. A prática penitencial da Igreja já passou por desafios semelhantes (na verdade, piores). O Magistério e os teólogos já estudaram as possibilidades relativas a tais meios, como a confissão por telefone ou internet, e já as rejeitaram — por boas razões teológicas.   

Como afirma o Catecismo da Igreja Católica: “Os sacramentos são sinais eficazes da graça”. Como sinais, os sacramentos possuem uma dimensão física. São orientados por princípios e fins espirituais, mas são também ritos que possuem palavras, gestos e elementos visíveis. Foi assim que Cristo os instituiu, é assim que a Igreja deve celebrá-los. 

O sacramento da Penitência pode ser descrito como um “diálogo” — em relação ao seu significado e efeitos. O objetivo do sacramento é perdoar o pecado grave cometido após o Batismo, para que seja restaurado nosso diálogo amigável e familiar com Deus e com a Igreja. Esse diálogo é, em si mesmo, suscitado por outro diálogo. A cerimônia do sacramento da Penitência envolve basicamente uma discussão entre duas pessoas. O penitente reconhece perante o sacerdote seu arrependimento pelos pecados individuais cometidos, promete realizar uma obra satisfatória e pede perdão. O sacerdote determina a obra satisfatória e absolve o penitente, aperfeiçoando-o na vida da graça. Aqui o sacerdote age in persona Christi.

Ao contrário da maioria dos outros sacramentos, não é necessário um objeto físico inanimado. Algumas interpretações medievais da Penitência atribuíam a ação sacramental exclusivamente ao confessor ou ao penitente. Santo Tomás de Aquino esclareceu que as duas pessoas têm uma função sacramental essencial. O Concílio de Trento confirmou essa interpretação. Poderíamos chamar o sacramento de “concelebração” entre penitente e sacerdote. O rito sacramental possui quatro atos específicos: a contrição do penitente, a confissão, a satisfação e a absolvição. Não se trata de um monólogo, mas de um diálogo. 

A conversação salvífica não pode ocorrer por meios eletrônicos porque o sacramento da Penitência requer a presença física conjunta e a ação ao vivo e interpessoal entre o penitente e o confessor. Devem existir condições para uma conversa plena, natural e humana.

No início do século XVII, o Magistério ensinou que um penitente não pode “confessar pecados sacramentalmente, por carta ou mensageiro, a um confessor ausente” ou “receber a absolvição desse mesmo confessor ausente” (DH 1994; ver também 1995). O problema não estava na confissão por escrito [1], pois Santo Tomás e outros teólogos aceitaram abertamente esse tipo de confissão. O problema também não era a confissão com a ajuda de outra pessoa, pois em alguns casos é admissível a presença de um intérprete, por exemplo. O problema estava na presença e ação simultâneas, de modo que a confissão e a absolvição fizessem parte de um único diálogo físico e cooperativo.    

A sincronização é essencial. Dados os possíveis altos e baixos da vida moral, o penitente precisa ser capaz de manifestar o arrependimento atual em relação a ações passadas, agora rejeitadas. E o sacerdote deve dar a absolvição no presente. Às vezes essa exigência é descrita como “presença moral”. Mas essa atenção interpessoal requer uma proximidade física.

Ao longo dos séculos, os teólogos detalharam as condições necessárias para um diálogo ao vivo e verdadeiro que fosse adequado ao sacramento da Penitência. Em geral, ensinaram que o penitente e o confessor poderiam estar separados por uma distância de até 15 metros — mais ou menos o comprimento de uma sala ampla. Teoricamente, é possível (mas incerto) celebrar o sacramento a uma distância maior que essa. Se um penitente estiver a 150 metros de distância do confessor, por exemplo, haverá um verdadeiro encontro humano, uma verdadeira conversação com o sacerdote que permita falar sobre as matérias do pecado (privadas e constrangedoras)?  

É improvável. Com um megafone acústico que possa transportar a voz humana por meio de ondas sonoras produzidas naturalmente talvez pudesse haver um verdadeiro diálogo. Mas, neste caso, a dimensão física da estrutura sacramental poderia ser levada além de seus limites. O sacramento exige uma presença e um diálogo verdadeiramente humanos, o que exige uma dimensão humana natural.

O uso exclusivo de dispositivos eletrônicos para a celebração do sacramento da Penitência a grandes distâncias foi amplamente condenado, ao longo de mais de cem anos, tanto por especialistas em teologia sacramental e moral como por canonistas. A razão é que tais recursos violam os princípios da presença física e da ação conjunta. Quando ondas sonoras são produzidas por um alto-falante elétrico — mesmo um pequeno, como um telefone — há uma separação entre o produto elétrico e o agente humano. O alto-falante não é parte do corpo humano, como o são as cordas vocais ou as mãos. Ele é uma ferramenta artificial de comunicação. Não é fundamentalmente distinto de outras formas de comunicação que funcionam através de longas distâncias, como sinalizadores de fumaça, cartas e telégrafos. Um alto-falante é apenas mais rápido e mais preciso. O fato de ser possível gravar e reproduzir perfeitamente os sons do alto-falante prova que ele não é humano.  

Se a confissão de um penitente usa apenas meios artificiais sem qualquer sinal natural que manifeste a contrição ao confessor, ou se a absolvição do sacerdote se dá por instrumentos puramente artificiais, certamente não há a corporeidade e a atualidade necessárias para que haja o sinal sacramental. Isso não exclui, por exemplo, a amplificação de um aparelho auditivo (que auxilia, mas não substitui a comunicação natural). Isso significa apenas que devem existir condições para uma conversação física e que os órgãos e sentidos naturais devem estar presentes no sinal sacramental. 

A confissão por meios eletrônicos também ameaçaria o direito dos penitentes — protegido pelo sigilo sacramental — a confessar-se com privacidade. A Agência Nacional de Segurança mostrou que pode gravar — e muitas vezes o faz — todas as conversas telefônicas num país. O governo e determinadas empresas muitas vezes têm acessos backdoor a transmissões seguras (assim são chamadas) como as que são feitas via Skype. Será que o sacramento da Penitência deveria ser administrado em tais circunstâncias? É verdade que os penitentes podem renunciar ao direito à confissão privada (por exemplo, num quarto de hospital cheio). Mas é imprudente pensar numa forma eletrônica de confissão quando se sabe que outros estão escutando.

Mesmo em caso de absolvição geral — a absolvição de muitas pessoas ao mesmo tempo, sem confissão integral prévia por causa de uma excepcional falta de tempo — o rito da Igreja diz que os “penitentes que desejem receber a absolvição [...] devem indicá-lo com algum tipo de sinal”, ajoelhando-se ou curvando a cabeça e dizendo um ato de contrição. Como ensinou o Concílio de Trento: “Se alguém [...] disser que a confissão do penitente não é necessária para que o sacerdote possa absolvê-lo, seja anátema” (DH 1709). 

É inegável que a estrutura dos sacramentos limita sua aplicabilidade. Esse é o escândalo da particularidade sacramental, semelhante à particularidade da Encarnação: Deus considerou apropriado oferecer meios específicos de salvação a pessoas específicas em locais e momentos específicos. E as outras pessoas? Elas têm outros — ainda que inferiores, talvez — meios de salvação. De fato, Deus “deseja que todos os homens sejam salvos” (1Tm 2, 4).

O argumento contra a confissão eletrônica pode parecer negativo, mas é justamente o contrário. Os requisitos para a Penitência respeitam e preservam a dimensão pessoal e social da salvação, o sacramento e os que o realizam. A culpa da pessoa pelo passado e sua contrição no presente são ressaltadas quando ela pode dizer ao ministro de Deus e da Igreja: “Perdoa-me, padre, pois eu pequei [...]. Estou sinceramente arrependido de ter cometido esses pecados”. O mesmo personalismo se aplica quando o sacerdote, instrumento de Cristo, responde: “Eu te perdoo.”

De fato, a crise da COVID-19 nos faz lembrar de nossa existência como pessoas e das condições para a comunhão cristã. Homens e mulheres em quarentena estão sozinhos, apesar dos meios eletrônicos de comunicação, e estão rompendo as determinações de confinamento para se encontrar com familiares e amigos e passar tempo com eles. A comunicação eletrônica não é suficiente. E há um motivo para os que estão assistindo à Missa pela TV saberem que isso não equivale a estar fisicamente na Missa. Por isso anseiam voltar à igreja. A Eucaristia na tela da TV não é a Presença Real.

Nós, seres humanos, somos físicos. A salvação e a comunhão cristãs também o são. O sacramento da Penitência protege e auxilia nossa personalidade encarnada.

Notas

  1. Admite-se, “com causa justa e razoável (v.gr., dificuldade de falar, grandíssima vergonha etc.) que se entregue ao confessor a confissão por escrito e que, uma vez lida esta pelo sacerdote, o penitente presente diante dele diga: ‘Acuso-me de todos os pecados que o senhor acaba de ler neste escrito’. Só então pode receber a absolvição sacramental” (Antonio R. Marín, Teología moral para seglares, vol. 2, p. 303, n. 193).

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O dia em que Santa Faustina sonhou com Santa Teresinha
Santos & Mártires

O dia em que Santa Faustina
sonhou com Santa Teresinha

O dia em que Santa Faustina sonhou com Santa Teresinha

Um dia, quando ainda era noviça, Santa Faustina Kowalska recebeu uma visita mais do que especial enquanto dormia. Era Santa Teresinha do Menino Jesus, trazendo-lhe santos conselhos e ajudando-a na resolução de um problema.

Santa Faustina Kowalska22 de Abril de 2020Tempo de leitura: 2 minutos
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Quero anotar um sonho que tive a respeito de Santa Teresinha do Menino Jesus. 

Eu era ainda noviça e tinha certas dificuldades, [que] não conseguia superar. Tratava-se de obstáculos interiores, mas que se relacionavam com dificuldades exteriores. Fiz novenas a vários santos, mas a situação tornava-se cada vez mais difícil. Os meus sofrimentos por esse motivo eram tão grandes que já não sabia como continuar a viver.  

De repente, veio-me a ideia de rezar a Santa Teresinha do Menino Jesus. Comecei uma novena a essa santa, pois já antes do ingresso no convento tinha grande devoção a ela. Agora me descuidei um pouco dela, mas, nessa necessidade, novamente comecei a rezar com todo o fervor.

Santa Teresinha do Menino Jesus.

No quinto dia da novena sonhei com Santa Teresinha, mas como se ela ainda estivesse na terra. Ocultou diante de mim a circunstância de ela ser santa e começou a consolar-me, para que eu não ficasse tão triste por causa desse problema, mas confiasse mais em Deus. Afirmava-me: “Também eu sofri muito”. 

Contudo, eu não estava muito convicta de que ela tivesse sofrido muito e disse-lhe: “A mim me parece que não tenha sofrido nada.” 

Mas Santa Teresinha respondeu assegurando-me de que havia sofrido muito e me disse: “Dentro de três dias, a irmã verá que esse problema será resolvido da melhor maneira”. Como eu não estava muito inclinada a acreditar nela, então ela se deu a conhecer, revelando-me que era santa. Então a minha alma encheu-se de alegria e perguntei-lhe: “Você é santa?” E ela respondeu-me que sim: “Sou uma santa, e confie que o seu problema se resolverá no terceiro dia”. 

E eu disse a ela: “Santa Teresinha, diga-me, irei para o Céu?” Respondeu-me: “A irmã irá para o Céu.” — “E serei santa?” — Respondeu-me: “A irmã será santa.” — “Mas, Teresinha, eu serei uma santa como você, nos altares?” — E ela me respondeu: “Sim, você será uma santa como eu, mas deve confiar muito em Jesus.” — E perguntei-lhe se meu pai e minha mãe irão para o céu, se... [frase incompleta] — Respondeu-me: “Irão”. — E continuei a perguntar: “E as minhas irmãs e meus irmãos irão também para o Céu?” — Respondeu-me que rezasse muito por eles, e não me deu uma resposta certa. Compreendi que necessitavam de muitas orações.

Tratou-se de um sonho e, como diz o provérbio: “O sonho é ilusão e só Deus é salvação.” No entanto, no terceiro dia resolveu-se esse difícil problema com muita facilidade. Como me tinha dito, cumpriu-se ao pé da letra tudo que se relacionava com essa questão. Foi um sonho, mas ele teve o seu significado.

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O que Fulton Sheen fazia quando as igrejas estavam fechadas?
Igreja Católica

O que Fulton Sheen fazia
quando as igrejas estavam fechadas?

O que Fulton Sheen fazia quando as igrejas estavam fechadas?

O Venerável Fulton Sheen era conhecido por fazer uma hora de adoração todos os dias. Quando tinha de viajar, no entanto, e não achava tempo para adorar quando as igrejas ainda estavam abertas, eis o que a sua piedade lhe inspirava a fazer...

Gina SowerTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere20 de Abril de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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Lembro-me do estado de choque e incredulidade que me acometeu quando nossa diocese fechou todas as igrejas. Parecia impossível (e ainda parece) que os leigos pudessem ficar sem os sacramentos. Como isso pode ser aceitável? Numa época de pandemia e em meio a tanto medo e incerteza, parece que os sacramentos são aquilo de que mais precisamos! Mesmo assim, sabemos que, se Deus permite que algo nos seja tirado, é para nos ensinar alguma coisa, o que, em última instância, serve para gerar um bem maior por meio do sofrimento de sua Igreja. Mas que bem poderia vir da ausência dos sacramentos?

Creio que são muitas as razões pelas quais Deus permitiu essa pandemia, mas no campo específico da fé católica Deus deseja suscitar maior devoção e amor pelo que é sagrado e reservado — a saber, os sacramentos, particularmente a Sagrada Eucaristia. Sabemos que a Igreja em geral ficou, no mínimo, acostumada ao imenso e inimaginável dom do Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Cristo. Sabemos isso não somente pela falta de reverência a Deus no santo sacrifício da Missa, mas também pelo recente estudo do Pew Research Center, que mostrou que apenas um terço dos católicos [norte-americanos] crê na Presença Real.

Não é necessário ser teólogo ou membro do clero para saber que a Eucaristia é a fonte e o  ápice da fé católica e, portanto, deve ser defendida e protegida custe o que custar. Por isso, quando ela não é protegida e devidamente adorada no coração de muitos de nossos pastores, não é de estranhar o efeito multiplicador que a falta de devoção deles tem sobre os leigos. Muitos fiéis são desleixados e preguiçosos na preparação para o santo sacrifício da Missa e não fazem nenhum esforço para preparar sua alma para receber a sagrada Comunhão. Não posso afirmar que necessariamente os considere culpados. Talvez eu estivesse na mesma situação se não tivesse tido a sorte de receber uma boa catequese. 

Isso, porém, revela um problema estrutural. De regra, as pessoas não estão em busca da beleza e do conhecimento de sua fé. Se estivessem, isso seria evidente. Nossas capelas de adoração estariam cheias. Os idosos não seriam os únicos a assistir diariamente à Missa. E talvez, quando chegasse o momento de receber em nosso corpo o maior dom e milagre de nossas vidas, o Deus do universo (o próprio Amor), poderíamos agir de um modo que tornasse aparente a realidade, a profundidade e a seriedade do que está ocorrendo.

É o momento de todo católico buscar a Deus como nunca antes o buscou! Se o fechamento das igrejas não for um alerta para os católicos, não sei o que será. Devemos lutar com um fervor ainda maior para permanecer perto de Jesus nesta época de tanta carência espiritual e de tantos pecados dentro e fora da Igreja. O Venerável Servo de Deus Fulton Sheen disse certa vez:

Quem salvará nossa Igreja? Não serão os bispos, os sacerdotes nem os religiosos. Caberá a vocês, o povo. Vocês possuem as mentes, os olhos e os ouvidos para salvar a Igreja. Sua missão é garantir que os sacerdotes ajam como sacerdotes, os bispos como bispos e os religiosos como religiosos. 

Agora é o momento de os leigos se unirem e fazerem reparação a Deus pelos pecados dos líderes da Igreja que permitiram o crescimento e a multiplicação da semente da irreverência com a Sagrada Eucaristia, e pelos pecados do mundo em geral, de pessoas que rejeitaram e condenaram completamente algumas das mais básicas leis de Deus.

Creio que Deus tenha permitido a falta de acesso aos sacramentos a fim de nos alertar para o fato de muitas pessoas desprezarem e não amarem sua Presença Real. Quantas vezes por dia Ele é recebido de forma indigna na sagrada Comunhão? 

Portanto, todo aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será culpável do corpo e do sangue do Senhor. Que cada um se examine a si mesmo e, assim, coma desse pão e beba desse cálice. Aquele que o come e o bebe sem distinguir o corpo do Senhor, come e bebe a sua própria condenação. Essa é a razão por que entre vós há muitos adoentados e fracos, e muitos mortos (1Cor 11, 27-30) [1].

Quantas vezes fragmentos visíveis da Eucaristia caem no chão sem que os fiéis se importem ou percebam, por termos descartado as patenas e aderido à Comunhão na mão?

Por essas e outras razões, eu gostaria de recomendar uma devoção específica para remediar a falta de amor e reverência a Jesus, que nos ama tão profundamente a ponto de assumir a forma de pão a fim de que possamos, literalmente, consumir todo o seu ser.

Minha inspiração para essa devoção vem de um homem que considero santo: o Venerável Fulton Sheen. Ele era conhecido por fazer uma hora de adoração todos os dias. No entanto, quando tinha de viajar e não achava tempo para adorar quando as igrejas ainda estavam abertas, durante a noite ele se dirigia à igreja mais próxima, parava o carro no estacionamento e fazia ali mesmo sua hora de adoração (o mais perto que podia estar de Jesus).

Bem… nossas igrejas estão fechadas, mas seus estacionamentos não estão!

O fato de nossas capelas de adoração estarem fechadas não significa que devamos deixar de adorar por causa de uma ou duas paredes que nos separam da Presença Real de Jesus. Ele reconhece o sacrifício que estamos fazendo. Sabe que desejamos profundamente estar em sua Presença. Aqueles que realizavam sua hora de adoração semanal… por que deixá-la de lado? Por que não poderíamos fazer esse sacrifício para ficar tão perto quanto possível dEle?

Não foi para ficar perto do Corpo de Jesus que Maria Madalena foi até o túmulo onde o haviam depositado após a crucifixão? Ela não chorou porque seu corpo já não estava lá? E nós? Choramos pelas portas de nossas igrejas (onde Cristo habita) terem sido fechadas? Se Maria Madalena visitou o túmulo de Jesus com o objetivo de reverenciar seu Corpo sem vida, quanto mais não deveríamos nós ir até nossas paróquias para ficar tão perto quanto possível de Jesus vivo? Não deveríamos implorar a Deus que retire a pedra que nos mantém afastados do alimento espiritual dos sacramentos, principalmente do Pão da Vida? 

Mas, antes de Deus mover a pedra que fecha nossas igrejas, talvez devamos entender o que ela representa. Ela poderia representar o peso esmagador de nossos pecados? Se ela está lá por causa dos nossos pecados, devemos reparar as ofensas feitas contra Deus, especialmente as ofensas contra sua Presença Real. Não nos esqueçamos da parábola do amigo persistente que lemos em Lc 11, 5-8, na qual Jesus conta a história de um homem que aparece na casa de seu amigo tarde da noite a fim de pedir pão para um hóspede inesperado. No final da história, Jesus diz: “Eu vos digo: no caso de não se levantar para lhe dar os pães por ser seu amigo, certamente por causa da sua importunação se levantará e lhe dará quantos pães necessitar.”

Assim como o homem que foi até a casa de seu amigo e bateu à porta para pedir pão insistentemente e obter alimento físico para si e para seus amigos, também nós deveríamos nos aproximar com insistência da casa de Deus e bater espiritualmente à sua porta para implorar o pão que alimenta espiritualmente a nós e a nossos amigos com a vida eterna de Jesus Cristo.   

O fechamento das igrejas por causa do horário normal de expediente não impedia que Fulton Sheen fizesse sua hora de adoração no estacionamento da paróquia. A rocha não impediu que Maria Madalena visitasse o Corpo de Cristo. Tampouco uma pandemia deveria impedir os fiéis de chegarem o mais perto possível de Jesus. Na verdade, isso deveria ser motivo para o buscarmos ainda mais! 

Nesta época sem precedentes, rezo para que, como católicos, possamos pôr em prática o nome “católico” (que significa “universal”) e ir juntos, universalmente, até as portas de nossas igrejas fechadas, onde Jesus está presente, para que juntos possamos a uma só voz clamar: “Senhor, nós cremos e pedimos misericórdia por todos os que não creem.”

Notas

  1. Sobre a omissão desse trecho da Carta de São Paulo aos Coríntios no novo Lecionário da Missa, v. Peter Kwasniewski, When the Yearly Biblical Readings of Immemorial Tradition Were Cast Away, 3f: “O alerta de São Paulo para que evitemos receber o Corpo e o Sangue do Senhor indignamente, isto é, para a nossa própria condenação, foi omitido de todas as Missas no Novus Ordo por quase meio século. E, no entanto, na Missa latina tradicional, esses versículos são escutados ao menos três vezes todos os anos: uma na Quinta-feira Santa [...] e duas em Corpus Christi [...]. Os católicos que frequentam o usus antiquior sempre terão essas palavras desafiadoras colocadas diante de suas consciências. Sejamos francos: o conceito de uma Comunhão indigna simplesmente desapareceu da consciência católica em geral” (Nota da Equipe CNP).

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O que a OMS, o STF e outros desejam com a legalização do aborto
Sociedade

O que a OMS, o STF e outros
desejam com a legalização do aborto

O que a OMS, o STF e outros desejam com a legalização do aborto

Esqueça o mundo que você conhece. A julgar pelas ações da Organização Mundial da Saúde e de instituições como o STF, depois da pandemia, assistiremos ao início de uma nova era da humanidade. E ela não será nem um pouco cristã.

Equipe Christo Nihil Praeponere20 de Abril de 2020Tempo de leitura: 9 minutos
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Entre as causas para o fim da Idade Média e o início da Idade Moderna, a Peste Negra foi, sem dúvida, um fator decisivo. Por conta do pânico gerado, a pandemia não só dizimou “um terço da Europa”, mas gerou uma nova organização social, fundada no medo e no ceticismo. No livro Decameron, do escritor Boccaccio, podemos ler o que diz uma testemunha da época:

Esta tribulação encheu de terror o coração de todos, de modo que o irmão abandonava o irmão, o tio abandonava o sobrinho, freqüentemente a esposa abandonava o marido e, o que é ainda mais extraordinário e até mesmo inacreditável, alguns pais e mães se recusavam a visitar as suas próprias crianças como se não fossem suas.

Eis aí um terreno fértil para a proliferação de vícios e ideias bastante contrárias à religião. De fato, os historiadores relatam que, após a Peste Negra, houve uma “depravação geral dos costumes na Europa”, com o surgimento da literatura pornográfica e o renascimento de costumes pagãos em toda a sociedade [1]. Daí que esse período acabasse conhecido por Renascimento. A civilização foi tomada por uma “febre de viver” tão grande, que se lançou às paixões como se não houvesse Céu nem inferno. Era o início de uma nova ordem política, social e religiosa.

Mutatis mutandis, a atual pandemia de coronavírus pode ser para nós o que a Peste Negra foi para os medievais. Assustada por tantas más notícias, presa em casa e longe dos sacramentos, a população já dá sinais de uma depravação bem maior que a do tempo de Boccaccio [2]. Por isso, não é exagero algum acreditar que o mundo, após a Covid-19, deve assistir ao surgimento de uma nova era da humanidade, com novos valores e estruturas político-sociais, assim como aconteceu na Europa a partir do século XIV. Para Henry Kissinger, o responsável pela política de controle populacional dos Estados Unidos, na década de 1970, não há outra alternativa: ou aceitamos a nova ordem mundial, ou entraremos em guerra

E as decisões dos líderes mundiais, como de praxe, só reforçam a impressão, na medida em que confirmam a agenda anticristã e a moralidade revolucionária há décadas em curso. Eles já tomaram uma posição.

O dilema dos direitos humanos

Vamos logo aos fatos: com o início da pandemia, diversos países adotaram medidas preventivas, indicadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Até aqui, nada de novo sob o sol. Exageradas ou não, as medidas deveriam limitar o avanço da doença e o superlotamento dos hospitais, um dos principais atingidos pelo problema. Por conta do risco de contágio, cirurgias e consultas acabaram canceladas por tempo indeterminado, inclusive em clínicas de tratamento contra o câncer. Em tese, apenas serviços “essenciais” poderiam ser mantidos.

E aqui se esconde o “jabuti”. As aspas para “essenciais” são adequadas porque a OMS simplesmente resolveu incluir nesse grupo... as cirurgias para aborto. A decisão só veio à lume depois que grupos como a Planned Parenthood pressionaram a entidade a assegurar os chamados “direitos reprodutivos” das mulheres. Em nota à imprensa, a OMS explicou que “os serviços relacionados à saúde reprodutiva são essenciais”, conforme as suas orientações, e incluem “contracepção, cuidados de saúde de qualidade para durante a gravidez e após o parto, e aborto seguro em toda a extensão da lei”. Mais ainda: as mulheres devem ser liberadas para abortar em casa, e os abortos devem continuar mesmo se os antibióticos não estiverem disponíveis, sugeriu a dra. Antonella Lavalanet, membra da OMS.

Mas o que justificaria essa sanha? Ora, ao incluir o aborto entre os serviços “essenciais” para um tempo de pandemia que está desestabilizando o mundo, a Organização Mundial da Saúde justifica um paradigma moderno, isto é, o aborto como um direito humano fundamental que, portanto, não pode ser questionado. 

É a inversão de valores suprema. O mais virulento dos ataques aos inocentes é alçado à categoria de “direito”, incluído no rol de direitos humanos e tratado ainda como “fundamental”. Jogo de linguagem perverso, sim, mas adotado não só por entidades como a Organização Mundial da Saúde, senão também por figuras como o ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal, que tentou anos atrás descriminar o aborto no primeiro trimestre de gestação justamente com um argumento desse gênero. (No próximo dia 24 de abril, a propósito, o STF julgará uma nova hipótese de “aborto legal”. E as esperanças não são das melhores.)

Muito além do aborto

Em toda essa história, porém, o aborto, por mais cruel que seja, é apenas uma peça na engrenagem da revolução. O que se pretende é algo muito mais ambicioso, bem aos moldes do que denunciava Bento XVI: “Quando a lei natural e a responsabilidade que ela implica são negadas, abre-se dramaticamente o caminho ao relativismo ético no plano individual e ao totalitarismo do Estado a nível político” [3]. Se não há uma ordem natural a ser respeitada, então os poderosos é que decidem quais leis, políticas e práticas podem ou não valer dentro da sociedade. Eles são os novos reis absolutistas.

A Planned Parenthood, por exemplo, já não esconde a radicalidade e o totalitarismo das suas intenções. Para a organização, a crise do coronavírus é “um lembrete forte de que precisamos remover todas as leis, políticas e práticas que impedem o acesso à contracepção e ao aborto seguro”.

No livro The Sacred Project of American Sociology (ainda sem tradução para o português), o sociólogo Christian Smith descreve o modus operandi desses “iluminados” que exibem uma suposta “ciência” para seduzir a opinião pública. Smith explica, por exemplo, como “a sociologia hoje é, de fato, animada por um impulso sagrado, por mandamentos sagrados e serve a um projeto sagrado”. Esse projeto consiste em nada mais do que realizar o novo humanismo, ou seja, “a emancipação, a igualdade, e a afirmação moral de todo ser humano como autônomo, independente, e livre para viver como pessoalmente desejar, construindo sua própria identidade, entrando e saindo das relações que escolher”. Eis o fruto proibido apresentado outra vez à humanidade.

Para criar uma nova sociedade, porém, os engenheiros sociais sabem que precisam criar também uma nova religião, que ofereça uma proposta poderosa de liberdade. Essa nova religião é exatamente o cientificismo, cujos sacerdotes são médicos, sociólogos, pesquisadores entre outros. A título de exemplo, experimentem questionar a palavra de algum desses senhores para ver o que lhes acontece. Como uma casta intocável, “os sociólogos são reverenciados, venerados e defendidos como sacrossantos pelos grupos que os apoiam como sagrados”. Afinal de contas, coisas sagradas são dogmas e não podem ser contestadas. Eles devem, por isso, ser defendidos porque trazem, por meio de seus “sacramentos” (aborto, “casamento” gay, ideologia de gênero etc.), a desejada emancipação e a liberdade total para o homem viver como bem entender.

Vejam como a claque revolucionária saiu às pressas para defender o doutor Dráuzio Varella em relação ao episódio com o transexual Suzy. Dráuzio Varella é um ardente defensor do aborto e de outras bandeiras liberais. Em certos grupos, sua palavra é dogma. A Organização Mundial da Saúde, do mesmo modo, tem o poder de declarar o aborto um serviço “essencial” sem ser questionada. Eles trabalham a favor da revolução e do novo humanismo, ou seja, da livre vontade do homem para fazer o que lhe der na telha. Então, como ressalta Christian Smith, “eles nunca podem ser maculados, desafiados ou profanados por qualquer transgressão ou difamação”.

Uma das sacerdotisas do novo humanismo, a infame Margaret Sanger, dizia abertamente que o “controle da natalidade” era uma ferramenta para a evolução das mulheres — hoje ela talvez diria “empoderamento” — e uma “facilitação do processo para eliminar os impróprios ou prevenir o nascimento de deficientes” [4]. Para Sanger, o grande pecado seria precisamente “trazer crianças a este mundo, com doenças dos seus pais, com nenhuma chance de serem pessoas humanas”.

Quando olhamos para as tentativas de aprovação do aborto por causa do zika vírus ou da Covid-19, percebemos o quanto as ideias dela ainda são cultuadas. Foi na esteira dessas ideias, aliás, que o aborto se tornou legal nos Estados Unidos, em 1973, sob a justificativa absurda do “direito à privacidade” — uma forma mais “chique” de dizer: “Meu corpo, minhas regras”.

Fora da Igreja não há salvação

Margaret Sanger só conhecia um obstáculo no caminho da revolução: “Eu penso que a grande oposição é principalmente da hierarquia da Igreja Católica Romana”. Ela bem sabia que as demais denominações cristãs, como o anglicanismo, já haviam cedido à pressão da modernidade, aprovando os métodos contraceptivos. Na verdade, ela chegou a recrutar pastores protestantes para se infiltrarem na comunidade negra e disseminarem a mentalidade contraceptiva. “O trabalho dos ministros também é importante e talvez eles devessem ser treinados pela Federação, segundo os nossos ideais e objetivos que queremos atingir”, disse ela numa carta ao dr. Clarence Gamble.

A Igreja Católica, por outro lado, pronunciou-se definitivamente contra os anticoncepcionais, sobretudo, na encíclica Casti Connubii, de 1930, e mais tarde, na encíclica Humanae Vitae, de 1968. Também o aborto foi reiteradas vezes condenado pelo Magistério (vide a encíclica Evangelium Vitae), inclusive com a excomunhão para quem fizer ou colaborar diretamente na sua realização. Por isso, os bispos do Brasil não hesitaram em bradar contra o recente desatino do STF. Tal posicionamento se deve ao que o Magistério da Igreja chama “valores inegociáveis”, dentre os quais se encontra a “tutela da vida em todas as suas fases, desde o primeiro momento da concepção até à morte natural” [5].

É preocupante, porém, que a Igreja atual esteja invadida pelo relativismo, assim como a Igreja do século XIV padecia sob o nominalismo. Se em tempos anteriores não havia dúvida acerca dos “valores inegociáveis”, hoje não só há quem os considere “um acidente linguístico”, como, sobretudo, uma verdadeira afronta à liberdade de consciência. Nesse quadro, é inevitável questionar se os católicos poderemos resistir ao Golias modernista que avança com sanguinolência sobre a civilização ocidental. A Igreja Católica é necessária para a salvação tanto no plano teológico como no temporal. Foi ela, no fim das contas, que organizou o mundo dos bárbaros. Contudo, se ela mesma estiver barbarizada, de que modo poderá defender os fiéis contra o ataque do lobo?

Na fábula do Chicken Little, o lobo aproveita-se da ingenuidade do pobre franguinho para gerar pânico no galinheiro com a notícia de que o “céu está caindo”. É o Doutor Galo que põe ordem na casa, mostrando a falsidade da notícia. O lobo, contudo, procura minar a credibilidade do Doutor, disseminando fofocas contra ele entre os demais. Desse modo, o vilão consegue fazer com que todos acreditem no franguinho e na sua promessa de salvação... O fim da história todos já sabem.

A história nos mostra que o mundo se perde quando a Igreja não o ilumina. Ou recuperamos a credibilidade do Magistério católico, ou seremos todos vítimas de quem hoje afirma que o “céu está caindo”.

Referências

  1. Introdução Histórica à Página sobre o Cristianismo, III, 50-52.
  2. Por respeito aos nossos leitores, preferimos não citar diretamente as barbaridades que começaram a aparecer, quer na imprensa, quer nas redes sociais, tão logo a população se recolheu dentro de suas casas. De concursos inusitados, bebedeiras a sexo explícito, o tempo atual bem poderia ficar conhecido como “pandemia da luxúria”.
  3. Papa Bento XVI. Audiência Geral (16 de junho de 2010).
  4. Margaret Sanger. Woman and new races. New York: Eldritch Press, 1920 (versão eletrônica).
  5. Papa Bento XVI. Discurso aos participantes no Congresso promovido pelo Partido Popular Europeu (30 de março de 2006).

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