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Racismo e marxismo
Sociedade

Racismo e marxismo

Racismo e marxismo

A cura para a manipulação marxista do racismo não está em negar a existência do próprio racismo, pois ele é tão velho quanto a Bíblia. Está, ao contrário, no esforço por proclamar o Evangelho a todos, praticando a misericórdia com os pobres e a virtude da justiça.

Timothy FlandersTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere6 de Julho de 2020Tempo de leitura: 9 minutos
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A primeira heresia que ameaçou a Igreja tinha a ver com raça. Ela ficou conhecida como “judaizante”. Tratava-se do cristão batizado que havia nascido judeu e observava todos os mandamentos da Lei de Moisés (além da de outros rabinos), mas procurava impô-la aos gentios convertidos à fé e não circuncidados.

O impulso era natural. A Sagrada Escritura menciona que, no dia de Pentecostes, junto do grupo de judeus de diversos lugares do mundo romano, estavam também alguns prosélitos (At 2, 11): eram circuncidados e seguidores da Lei de Moisés. Os judaizantes, portanto, davam continuidade a uma prática já existente antes da vinda de Cristo. Contudo, os que nasciam judeus — isto é, os que pertenciam à raça judaica — defendiam que todos os homens deveriam conformar-se às suas leis, inclusive as modificações corporais prescritas por Deus no Antigo Testamento (v.gr., a circuncisão).

Mas Nosso Senhor já havia predito por meio de uma imagem que, no Novo Testamento, haveria uma grande mudança, que alteraria a relação entre Deus e o homem. Num famoso episódio em que o nosso Rei se dirige a uma mulher da odiada raça dos samaritanos — com quem a maioria dos judeus se recusava a conversar —, encontramos o seguinte:

“Senhor” — disse-lhe a mulher —, “vejo que és profeta! Nossos pais adoraram neste monte, mas vós dizeis que é em Jerusalém que se deve adorar”. Jesus respondeu: “Mulher, acredi­ta-me, vem a hora em que não adorareis o Pai, nem neste monte nem em Jerusalém. Vós adorais o que não conheceis, nós adoramos o que conhecemos, porque a salvação vem dos judeus. Mas vem a hora, e já chegou, em que os verdadeiros adoradores hão de adorar o Pai em espírito e verdade, e são esses adoradores que o Pai deseja. Deus é espírito, e os seus adoradores devem adorá-lo em espírito e verdade”. Respondeu a mulher: “Sei que deve vir o Messias (que se chama Cristo); quando, pois, vier, ele nos fará conhecer todas as coisas”. Disse-lhe Jesus: “Sou eu, quem fala contigo” (Jo 4, 19–26).

Jesus finalmente se revela como o Rei prometido; mas, surpreendentemente, afirma que o seu Reino abraçará também a odiada raça dos samaritanos — e, de fato, o mundo inteiro. Por isso, o culto devido a Deus em seu Reino, não estará circunscrito a este ou àquele lugar, mas se há de estender a todos os lugares, pois o seu Reino estará em todos os lugares. Em seu comentário a essa passagem, o famoso exegeta Cornélio a Lápide († 1637) explica a fala de Nosso Senhor da seguinte maneira:

Chegou o tempo da minha lei evangélica, na qual os verdadeiros adoradores, isto é, os cristãos, provenham eles quer dos judeus, quer dos samaritanos, hão de adorar a Deus não neste monte nem apenas em Jerusalém, com sacrifícios de animais, como fazem os judeus e os samaritanos, mas em todos os lugares, em espírito e verdade [1].

De acordo com os Padres da Igreja, “espírito e verdade” diz respeito, em primeiro lugar, ao Espírito Santo e ao Filho, que é a Verdade; em segundo lugar, ao culto ortodoxo em vez do herético; e, em terceiro lugar, ao entendimento “espiritual” em lugar do “entendimento carnal” dos judeus. Esse último contraste entre carne e espírito viria a ser distorcido mais tarde pelos hereges protestantes para fazê-lo servir aos seus propósitos. No contexto, porém, dos SS. Padres, essa dicotomia se refere particularmente à heresia judaizante. Retornarei a esse ponto em breve.

“Pentecostes”, do frei Juan Bautista Maíno.

O Novo Testamento estabelecido pelo Espírito Santo em Pentecostes, após a Ascensão de nosso Rei ao seu trono, não se basearia em uma característica física dos corpos — circuncisão, nascimento ou raça. No dia de Pentecostes, o Espírito Santo deu aos Apóstolos o poder de falarem em línguas, para que três mil homens ouvissem o Evangelho em sua própria língua e se convertessem (cf. At 2, 41). Isso é sinal da universalidade do Reino de Deus, que acabara de ser fundado.

Eles não eram circuncidados, contra o que fariam os judaizantes, mas eram batizados e integrados ao Corpo de Cristo. Como rito, o Batismo não modifica o corpo da pessoa; ele é antes adoração em espírito e verdade. Em espírito, porque purifica a alma por meio do corpo, modificando-lhe o coração, diferentemente dos antigos ritos externos, que apenas purificavam a carne (cf. Hb 9, 13). Em verdade, porque tampouco despreza o corpo — como os hereges protestantes fariam mais tarde —, mas o utiliza para produzir uma verdadeira mudança espiritual: a expulsão do pecado original e a incorporação do batizado ao Corpo místico de Cristo. Nenhum homem precisa modificar o corpo para se tornar cristão. Nem sequer é necessário mudar de língua, fundamento de toda cultura. Seu idioma e seu corpo permanecem intactos. Logo, sua raça e sua cultura são, como tais, aceitas, mas batizadas. Por isso, tudo o que nelas for contrário a Deus deve ser abandonado; mas isso não inclui a raça e a cultura como tais.

Em sua maior carta contra a heresia judaizante, S. Paulo apresentou o princípio fundamental da natureza sacramental e espiritual do Novo Testamento: “Todos vós que fostes batizados em Cristo vos revestistes de Cristo. Já não há judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gl 3, 27-28). E noutro lugar: “Aí não haverá mais grego nem judeu, nem bárbaro nem cita, nem escravo nem livre, mas somente Cristo, que será tudo em todos” (Col 3, 11). Aqui, S. Paulo se refere às divisões de raça e etnia, classe e sexo, de sua época. Por meio do Batismo, todos, homens e mulheres, de todas as raças e línguas, recebem a plena dignidade de herdeiros da vida eterna (cf. Gl 3, 29) [2].

Vemos, assim, a primeira verdade importante a respeito da pessoa humana e o Novo Testamento: a dignidade da vocação para a vida eterna e a pregação do Evangelho não se restringem à raça ou ao nascimento. Deste modo, é pecado de racismo afirmar que qualquer pessoa nascida de mulher (cf. 14, 1) não deveria ser batizada ou é de algum modo subumana. Ao contrário, o mandamento é batizar todas as nações (cf. Mt 28, 19).

A conversão da sociedade ao Evangelho. — A história do cristianismo é a história da luta para batizar todas as raças e assim conformar a sociedade ao Reino de Cristo. Isso significa que a verdade sobre a identidade batismal de todas as nações, vista na máxima de São Paulo, deve perpassar toda a sociedade. Os erros que exacerbavam a animosidade entre classes e raças foram abolidos na mensagem evangélica pela força da verdade, que foi transformando pouco a pouco essas tensões violentas em relações de direitos e deveres hierárquicos, impregnados de caridade cristã. A maior conquista da cristandade no âmbito das etnias foi a formação de uma cultura a partir de diversos idiomas e raças que compartilhavam a mesma dignidade no Batismo. Essa cultura ainda não havia alcançado os seus ideais — embora estivesse progredindo em direção a eles — quando um novo ódio racial surgiu como consequência do colonialismo.

A história do colonialismo levou a novas terras a luta de Cristo Rei. A ela se opuseram alguns dos homens mais brutais e iníquos da sociedade cristã — inventores de um novo racismo, meio de justificar o seu cruel comércio de escravos —, contra os inúmeros pregadores do Evangelho que protegeram da injustiça a índios e africanos. Foi necessária uma guerra civil multissecular no seio da cristandade para que enfim caísse a ficha sobre a verdade do Evangelho na sociedade. 

Foi por isso que o Papa Eugênio condenou a nova escravidão colonial em 1435, embora os seus sucessores hesitassem aqui e ali em relação ao assunto. Foi por isso que a Nova Espanha discutiu os direitos dos índios na década de 1550, e S. Pedro Claver batizou milhares de africanos. Foi por isso que os jesuítas defenderam os índios durante séculos, até serem traídos pelo Papa [3]. Foi por isso que, mesmo enquanto o novo racismo seduzia as elites hispânicas de sangue puro na Nova Espanha (fazendo-as crer que eram superiores por causa de sua origem), uma nova raça de mestiços e crioulos surgiu dentro dela. Apesar de tantos abusos e crimes motivados pela questão racial, o Batismo deu origem a uma nova identidade comum. Dessa forma, o casamento interracial se tornou a norma cultural. O primeiro matrimônio cristão conhecido e registrado nos Estados Unidos continentais (então Nova Espanha) foi entre um espanhol de sangue puro, Miguel Rodríguez, e uma africana, Luísa de Abrego — na Flórida católica, em 1565. 

Os erros da Rússia. — A tragédia é que a civilização verdadeiramente cristã não conquistou o domínio cultural no mundo. Ao invés, os vendedores de escravos, agiotas e barões migraram da escravidão racial para a escravidão salarial no séc. XIX. Em reação a essas injustiças, surgiu uma força que destruiria tudo o que tocasse: o marxismo. Como debati em outro lugar, essa força procurou apossar-se de uma verdadeira injustiça para manipular as pessoas, levando-as a cometer atos violentos e carnificinas para conquistar poder político. O marxismo era muito pior do que qualquer racismo, escravidão ou injustiça, porque procurava usar os pobres, os africanos e os índios, incitando-lhes as paixões para massacrarem os seus opressores, enquanto os marxistas obtinham mais e mais poder político.

O marxismo tenta provocar as vítimas do ódio racial, levando-as a odiarem os seus opressores. Existe na história da humanidade alguma força mais nefasta do que essa, que usa e abusa das pessoas em benefício das elites? A própria Mãe de Deus desceu do céu para se opor aos “erros da Rússia”

A personagem fundamental do marxismo americano explicou a tática num livro dedicado a Lúcifer e elogiado por inúmeros políticos. Sua 13.ª regra descreve como incitar o ódio do grupo oprimido por meio da identificação de um inimigo a ser culpado: “Escolha o alvo, concentre-se nele, personalize-o e polarize-o” [4]. Dessa forma, o marxista não deseja libertar os oprimidos por meio da justiça. Pelo contrário, ele encoraja as vítimas de injustiça a cometer uma injustiça ainda maior. Isso acontece porque, para o marxista, o fim justifica os meios, de maneira que o marxista “organizador de comunidades” pode surrupiar doações e até convencer a si mesmo de que é um salvador. O marxista usa os pobres para atingir seus próprios fins, enquanto se disfarça de altruísta. É como Satanás disfarçado de anjo de luz (cf. 2Cor 11, 14).

A cura para a manipulação marxista do racismo não está em negar a existência do próprio racismo — ele é tão velho quanto a Bíblia. Está no esforço por proclamar o Evangelho a todas as nações e convertê-las, praticando a misericórdia com os pobres e a virtude da justiça, duas coisas que S. Pedro exortou o maior dos Apóstolos a fazer (cf. Gl 2, 9–10). Isso silenciará o marxista que afirma falsamente que a Igreja é “opressora”. Afirmação ridícula. Os milhares de orfanatos, hospitais e ministérios dedicados a todos os tipos de pessoas oprimidas ao longo da história refutam, silenciosamente, tamanha ignorância. Isso deixará o marxista desarmado, já que o seu poder reside na manipulação das vítimas de injustiça para que recorram à violência. Por fim, isso converterá o marxista, já que ele será confrontado com aquilo que mais odeia: a realidade.

Façamos sem cansar atos de caridade com os pobres e contra o racismo, e proclamemos sem medo que só há um Nome pelo qual somos salvos: o de nosso Rei e Senhor, Jesus Cristo, Deus e homem verdadeiro.

Notas

  1. Cornélio a Lapide, Commentaria in S. Scripturam. Lugduni, 1839, vol. 8, p. 929b, v. 23.
  2. O que não destrói a natureza de cada pessoa, já que a graça a aperfeiçoa. Permanece, porém, uma determinada hierarquia — particularmente entre homem e mulher —, a qual se vê transformada em uma relação de caridade cristã.
  3. O autor do texto se refere aqui, certamente, à supressão da Companhia de Jesus em fins do século XVIII, por ato do Papa Clemente XIV. O juízo histórico do autor reflete, em grande parte, as opiniões dos mais abalizados autores de História da Igreja. Sobre esse difícil e intrincado episódio histórico, cf., em português, Prof. Felipe Aquino, História da Igreja: A Supressão da Companhia de Jesus, e Henri Daniel-Rops, A Igreja dos templos clássicos, v. II, trad. de Henrique Ruas, São Paulo: Quadrante, 2001, pp. 248–258. Cf. ainda, em inglês, John Hungerford Pollen, The Supression of the Jesuits, de cujo texto uma citação atribuída a S. Afonso de Ligório pode ajudar-nos a pensar: “Pobre Papa! Que mais poderia ele ter feito nas circunstâncias em que foi colocado, com todos os soberanos conspirando por exigir essa supressão? Quanto a nós, importa manter silêncio, respeitar os juízos ocultos de Deus e conservar-nos em paz” (Nota da Equipe CNP).
  4. Saul Alinsky, Rules for Radicals. Random House, 1971, p. 130.

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Por que coube a São Tomé evangelizar o Brasil?
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Por que
coube a São Tomé
evangelizar o Brasil?

Por que coube a São Tomé evangelizar o Brasil?

“Os outros Apóstolos, que foram menos culpados na incredulidade, vão pregar” aos outros povos; “mas Tomé, que teve a maior culpa, vá pregar aos Gentios do Brasil, e pague a dureza de sua incredulidade com ensinar à gente mais bárbara e mais dura”.

Pe. António Vieira3 de Julho de 2020Tempo de leitura: 8 minutos
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A forma com que Cristo mandou pelo mundo a Seus Discípulos, diz o Evangelista São Marcos que foi esta: Exprobavit incredulitatem eorum, et duritiam cordis, quia iis, qui viderant eum resurrexisse, non crediderunt, et dixit illis: Euntes in mundum universum, praedicate Evangelium omni creaturae (Mc 16, 14s). Repreendeu Cristo aos Discípulos da incredulidade e dureza de coração, com que não tinham dado crédito aos que O viram ressuscitado, e sobre esta repreensão os mandou que fossem pregar por todo o mundo. A São Pedro coube-lhe Roma e Itália; a São João, a Ásia Menor; a São Tiago, Espanha; a São Mateus, Etiópia; a São Simão, Mesopotâmia; a São Judas Tadeu, o Egito; aos outros, outras províncias, e finalmente a Santo Tomé esta parte da América em que estamos, a que vulgar e indignamente chamaram Brasil. Agora pergunto eu: e por que nesta repartição coube o Brasil a Santo Tomé e não a outro Apóstolo? Ouvi a razão.

Notam alguns Autores modernos que notificou Cristo aos Apóstolos a pregação da Fé pelo mundo, depois de os repreender da culpa da incredulidade, para que os trabalhos que haviam de padecer na pregação da Fé fossem também em satisfação e como em penitência da mesma incredulidade e dureza de coração que tiveram em não quererem crer: Exprobavit incredulitatem eorum, et duritiam cordis, et dixit illis: Euntes in mundum universum. E como Santo Tomé, entre todos os Apóstolos, foi o mais culpado da incredulidade, por isso a Santo Tomé lhe coube, na repartição do mundo, a missão do Brasil, porque, onde fora maior a culpa, era justo que fosse mais pesada a penitência. Como se dissera o Senhor: os outros Apóstolos, que foram menos culpados na incredulidade, vão pregar aos Gregos, vão pregar aos Romanos, vão pregar aos Etíopes, aos Árabes, aos Armênios, aos Sármatas, aos Citas; mas Tomé, que teve a maior culpa, vá pregar aos Gentios do Brasil, e pague a dureza de sua incredulidade com ensinar à gente mais bárbara e mais dura.

Bem o mostrou o efeito. Quando os Portugueses descobriram o Brasil, acharam as pegadas de Santo Tomé estampadas em uma pedra, que hoje se vê nas praias da Bahia; mas rasto, nem memória da Fé que pregou Santo Tomé, nenhum acharam nos homens. Não se podia melhor provar e encarecer a barbaria da gente. Nas pedras, acharam-se rastos do Pregador, na gente não se achou rasto da pregação; as pedras conservaram memórias do Apóstolo, os corações não conservaram memória da doutrina.

A causa por que as não conservaram, diremos logo, mas é necessário satisfazer primeiro a uma grande dúvida, que contra o que imos dizendo se oferece. Não há Gentios no mundo que menos repugnem à doutrina da Fé, e mais facilmente a aceitem e recebam, que os Brasis; como dizemos logo, que foi pena da incredulidade de Santo Tomé o vir pregar a esta gente? Assim foi (e quando menos assim pode ser) e não porque os Brasis não creiam com muita facilidade, mas porque essa mesma facilidade com que crêem faz que o seu crer, em certo modo, seja como o não crer. Outros Gentios são incrédulos até crer; os Brasis, ainda depois de crer, são incrédulos. Em outros Gentios a incredulidade é incredulidade, e a Fé é Fé; nos Brasis a mesma Fé ou é, ou parece incredulidade. 

“A Incredulidade de São Tomé”, de Mattia Preti.

São os Brasis como o pai daquele Lunático do Evangelho, que padecia na Fé os mesmos acidentes que o filho no juízo. Disse-lhe Cristo: Omnia possibilia sunt credenti (Mc 9, 22): “Que tudo é possível a quem crê”. E eles respondeu: Credo, Domine, adjuva incredulitatem meam: “Creio, Senhor, ajudai minha incredulidade”. Reparam muito os santos nos termos desta proposição, e verdadeiramente é muito para reparar. Quem diz: creio, crê e tem Fé; quem diz: ajudai minha incredulidade, não crê e não tem Fé. Pois como era isto? Cria este homem, e não cria; tinha Fé, e não tinha Fé juntamente? Sim, diz o Venerável Beda: Uno eodemque tempore is, qui nondum perfecte crediderat, simul et credebat, et incredulus erat: “No mesmo tempo cria e não cria este homem, porque era tão imperfeita a Fé com que cria, que por uma parte parecia e era Fé, e por outra parecia e era incredulidade”: Uno eodemque tempore, et credebat, et incredulus erat. Tal é a Fé dos Brasis: é fé que parece incredulidade, e é incredulidade que parece Fé; é Fé, porque crêem sem dúvida e confessam sem repugnância tudo o que lhes ensinam, e parece incredulidade, porque, com a mesma facilidade com que aprenderam, desaprendem, e com a mesma facilidade, com que creram, descrêem.

Assim lhe aconteceu a Santo Tomé com ele. Por que vos parece que passou Santo Tomé tão brevemente pelo Brasil, sendo uma região tão dilatada e umas terras tão vastas? É que receberam os naturais a Fé que o Santo lhes pregou com tanta facilidade e tão sem resistência nem impedimento, que não foi necessário gastar mais tempo com ele. Mas tanto que o Santo Apóstolo pôs os pés no mar (que este, dizem, foi o caminho por onde passou à Índia) tanto que o Santo Apóstolo (digamo-lo assim) virou as costas, no mesmo ponto se esqueceram os Brasis de tudo quanto lhes tinha ensinado, e começaram a descrer ou a não fazer caso de quanto tinham crido, que é gênero de incredulidade mais irracional, que se nunca creram. Pelo contrário, na Índia pregou Santo Tomé àquelas Gentilidades, como fizera às do Brasil: chegaram também lá os Portugueses dali a mil e quinhentos anos, e que acharam? Não só acharam a sepultura e as relíquias do Santo Apóstolo, e os instrumentos de seu martírio, mas o seu nome vivo na memória dos naturais, e o que é mais, a Fé de Cristo, que lhes pregara, chamando-se cristãos de Santo Tomé todos os que se estendem pela grande Costa de Coromandel, onde o Santo está sepultado.

E qual seria a razão por que nas Gentilidades da Índia se conservou a Fé de Santo Tomé, e nas do Brasil não? Se as do Brasil ficaram desassistidas do Santo Apóstolo pela sua ausência, as da Índia também ficaram desassistidas dele pela sua morte. Pois, se naquelas nações se conservou a Fé por tantos centos de anos, nestas por que se não conservou? Porque esta é a diferença que há de umas nações a outras. Nas da Índia, muitas são capazes de conservarem a Fé sem assistência dos Pregadores; mas nas do Brasil nenhuma há que tenha esta capacidade. Esta é uma das maiores dificuldades que tem aqui a conversão. Há-se de estar sempre ensinando o que já está aprendido, e há-se de estar sempre plantando o que já está nascido, sob pena de se perder o trabalho e mais o fruto

A Estrela que apareceu no Oriente aos Magos guiou-os até o presépio, e não apareceu mais. Por quê? Porque muitos Gentios do Oriente, e doutras partes do mundo, são capazes de que os pregadores, depois de lhes mostrarem a Cristo, se apartem dele e os deixem. Assim o fez São Filipe ao Eunuco da rainha Candace, de Etiópia: explicou-lhe a Escritura de Isaías, deu-lhe notícia da Fé e divindade de Cristo, batizou-o no rio de Gaza, por onde passavam, e tanto que esteve batizado, diz o texto que arrebatou um anjo a São Filipe, e que o não viu mais o Eunuco: Cum autem ascendissent de aqua, Spiritus Domini rapuit Philippum, et amplius non vidit eum eunuchus (At 8, 39). Desapareceu a Estrela, e permaneceu a Fé nos Magos; desapareceu São Filipe, e permaneceu a Fé no Eunuco; mas esta capacidade, que se acha nos Gentios do Oriente, e ainda nos de Etiópia, não se acha nos do Brasil. A Estrela que os alumiar não há de desaparecer, sob pena de se apagar a luz da doutrina; o Apóstolo que os batizar, não se há de ausentar, sob pena de se perder o fruto do Batismo. É necessário, nesta vinha, que esteja sempre a cana da doutrina arrimada ao pé da cepa, e atada à vide, para que se logre o fruto e o trabalho [...].

Estátua do Pe. Vieira em Lisboa, a mesma que foi alvo recente de vândalos “antifascistas”.

Hão-se de haver os Pregadores Evangélicos na formação desta parte do mundo, como Deus se houve ou se há na criação e conservação de todo. Criou Deus todas as criaturas no princípio do mundo em seis dias, e, depois de as criar, que fez e que faz até hoje? Cristo o disse: Pater meus usque modo operatur et ego operor (Jo 5, 17). Desde o princípio do mundo até hoje não levantou Deus mão da obra, nem por um só instante; e com a mesma ação com que criou o mundo, o esteve sempre, e está, e estará conservando até o fim deles. E se Deus o não fizer assim, se desistir, se abrir mão da obra por um só momento, no mesmo momento perecerá o mundo, e se perderá tudo o que em tantos anos se tem obrado. 

Tal é no espiritual a condição desta nova parte do mundo, e tal o empenho dos que têm à sua conta a conversão e reformação dela. Para criar, basta que trabalhem poucos dias; mas para conservar, é necessário que assistam, e continuem, e trabalhem, não só muitos dias e muitos anos, mas sempre. E já pode ser que esse fosse o mistério com que Cristo disse aos Apóstolos: Praedicate omni creaturae (Mc 16, 15). Não disse: “Ide pregar aos que remi”, senão: “Ide pregar aos que criei”, porque o remir foi obra de um dia, o criar é obra de todos os dias. Cristo remiu uma só vez, e não está sempre remindo; Deus criou uma vez, e está sempre criando. 

Assim se há de fazer nestas nações: há-se lhes de aplicar o preço da Redenção, mas não pelo modo com que foram remidas, senão pelo modo com que foram criadas. Assim como Deus está sempre criando o criado, assim os Mestres e Pregadores hão de estar sempre ensinando o ensinado, e convertendo o convertido, e fazendo o feito: o feito para que se não desfaça; o convertido, para que se não perverta; o ensinado, para que se não esqueça; e, finalmente, ajudando a incredulidade não incrédula, para que a Fé seja Fé não infiel: Credo, Domine: adjuva incredulitatem meam (Mc 9, 23).

Referências

  • Cf. Pe. Antônio Vieira, Sermão do Espírito Santo, pregado em São Luís do Maranhão, na Igreja da Companhia de Jesus, § III. In: Obra Completa. Dir. por João E. Franco e Pedro Calafate. São Paulo: Loyola, 2015, vol. 5/I, pp. 249-254. Excerto adaptado aqui e ali para esta publicação.

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São Tomé, Apóstolo do Brasil e das Américas
Santos & Mártires

São Tomé, Apóstolo
do Brasil e das Américas

São Tomé, Apóstolo do Brasil e das Américas

Alguns relatos históricos e numerosos indícios materiais, quase desconhecidos do grande público, atestam a passagem do Apóstolo São Tomé, no início de nossa era, entre os índios brasileiros e de norte a sul do continente.

Carlos Sodré Lanna3 de Julho de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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“Ide e ensinai a todos os povos, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mt 28, 19). Esse o preceito de Nosso Senhor Jesus Cristo aos Apóstolos, que assumiram a missão de percorrer o mundo pregando o Evangelho a todos os povos.

Admite-se, como hipótese muito provável, que São Tomé teria pregado aos índios do Ocidente, logo no início da era cristã.

Isto explicaria as cruzes encontradas com diversos grupos indígenas em toda a América, e certas pegadas gravadas nas pedras em vários lugares do Brasil e outros países, além de tradições orais nesse sentido, existentes entre os indígenas.

Presume-se — dizem alguns cronistas — que São Tomé teria vindo primeiramente para o continente americano, passando pela Ásia. Outros discordam, afirmando haver passado antes pelo Oriente.

“A Incredulidade de São Tomé”, de Caravaggio.

O certo é que esse Apóstolo pregou sempre os Evangelhos em terras longínquas, desconhecidas e inóspitas, tendo atingido a Etiópia, a antiga Pérsia (hoje Irã), indo depois para a Índia, o Tibet e chegando à China.

Em todos os lugares por onde pregou a Fé cristã, realizou sempre milagres extraordinários, deixando sinais que perduram até nossos dias.

Percorrendo São Tomé grande parte do mundo conhecido de então, criou-se em torno dele uma legenda universal. Por todas as partes onde esteve, mas principalmente nas Américas, e em particular no Brasil, foi deixando gravadas, em certas pedras do caminho, as impressões de seus pés como testemunhas de seu trânsito por esses lugares, além de cruzes.

As pegadas de São Tomé no Brasil. — Em nosso país, a legenda e vestígios de São Tomé encontram-se espalhados por muitos lugares.

Com base em informações dadas pelos índios à época do Descobrimento, os portugueses recém-chegados constataram a existência das impressões dos pés de São Tomé no litoral e mesmo no interior.

“A Nova Gazeta da Terra do Brasil” publicava, em 1514, tradições orais dos índios brasileiros quanto à existência no país das pegadas de São Tomé, bem como recordações que conservavam dele.

Ao mostrarem tais pegadas aos portugueses, os índios indicavam também cruzes existentes terra adentro. E quando falavam do Apóstolo, chamavam-no de deus pequeno, pois havia outro Deus maior.

É tradição antiga entre os índios que aquele Apóstolo, a quem chamavam Sumé, veio ao Brasil e lhes forneceu a planta da mandioca e da banana, ajudando-os a cultivar a terra. Pregou o bem àqueles indígenas, ensinando-os a adorar e servir a Deus e não ao demônio, a não terem mais de uma mulher e não comerem carne humana.

Outra informação histórica da existência das pegadas no Brasil foi-nos transmitida pelo padre Manoel da Nóbrega — dos primeiros missionários jesuítas vindos de Portugal após o Descobrimento ˆ em suas “Cartas do Brasil”.

Poucos dias após sua chegada aqui, em março de 1549, escrevia: “Também me contou pessoa fidedigna que as raízes de que cá se faz pão, que São Tomé as deu, porque cá não tinham pão”. E, em data posterior, acrescenta: 

Dizem os índios que São Tomé passou por aqui e isto lhes foi dito por seus antepassados e que suas pisadas estão sinaladas junto de um rio, as quais eu fui ver, por mais certeza da verdade, e vi com os próprios olhos quatro pisadas sinaladas com seus dedos. Dizem que quando deixou estas pisadas ia fugindo dos índios que o queriam flechar, e chegando ali se abrira o rio e passara por meio dele a outra parte sem se molhar. Contam que, quando queriam o flechar os índios, as flechas se tornavam para eles e os matos lhe faziam caminho para onde passasse.

Constata-se nesse relato do padre Manoel da Nóbrega a intenção missionária de São Tomé, espalhando por estas plagas brasílicas a palavra de Deus, e deixando visíveis as marcas de sua passagem em vários lugares conhecidos.

Desde o Rio Grande do Sul, passando por São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Paraíba, Ceará e Maranhão, encontramos pegadas atribuídas a São Tomé, que, pela tradição dos índios, vêm de remotas eras, anteriores ao Descobrimento, em 1500.

Além destas, e das cruzes mostradas pelos índios, há várias outras marcas e fatos pitorescos ocorridos em nosso território.

Perto da cidade de Cabo Frio, no estado do Rio de Janeiro, por exemplo, existe um grande penedo que parece ter levado várias bordoadas. Estas estão impressas na pedra como se o bordão tivesse golpeado com força em cera branda. E é tradição dos índios terem sido as bordoadas impressas pelo bordão de São Tomé, numa ocasião em que eles haviam resistido à doutrina pregada pelo Apóstolo.

Na Bahia, em São Tomé do Peripé, há uma fonte perene de água doce, que brota de um penedo junto a certas pegadas. É tradição que por ali desceu São Tomé. A esta fonte o povo deu o nome de São Tomé milagroso, porque a água nasce de pedra viva.

Pegadas e cruzes nas Américas. — Em diversos países americanos podemos encontrar marcas atribuídas a São Tomé, segundo tradições antigas dos silvícolas.

Elas estão espalhadas por todos os países da América do Sul.

Há ainda sinais análogos em Cuba e no Haiti. A eles se referiram os antigos maias na América Central, o mesmo acontecendo no México, Estados Unidos e Canadá.

Como no Brasil, também em outras nações aparecem cruzes: no Peru, os incas possuíam uma de mármore muito famosa, que, segundo a tradição de seus antepassados, lhes fora presenteada por São Tomé. Em Carabuco, porto costeiro do lado norte do lago Titicaca (Bolívia), havia uma cruz que os indígenas da região, de acordo com tradição muito antiga, asseguravam ter sido deixada por São Tomé a seus ancestrais. Venera-se hoje, na cúpula do altar-mor da catedral de Sucre, uma cruz confeccionada com a madeira negra da aludida cruz de São Tomé.

Fernão Cortez, quando chegou ao México, achou um muro de pedra quadrada, e no meio uma cruz de dez palmos de altura, venerada pelos aztecas, implantada pelo Apóstolo.

Também no Canadá os índios da parte oriental do país conheciam a cruz cristã, quando lá chegaram os primeiros desbravadores.

O padre Antonio Ruiz de Montoya, missionário no Paraguai, conta um episódio interessante em seu livro, escrito em 1639, quando de sua chegada a uma aldeia indígena daquele país, ostentando uma cruz.

Foi recebido com demonstração de amor, danças e júbilo. As mulheres foram recebê-lo com as crianças ao colo; os habitantes lhe ofereciam comida, coisa que nunca antes havia ocorrido. Os índios contaram-lhe então uma tradição antiquíssima recebida dos antepassados. Quando São Tomé, que chamavam de Pai Zumé, fez sua passagem por aquelas terras, dissera-lhes estas palavras: “A doutrina que eu agora vos prego, perdê-la-eis com o tempo. Mas, quando depois de muito tempo, vierem uns sacerdotes sucessores meus, que trouxerem cruzes como eu trago, ouvirão os vossos descendentes esta mesma doutrina que vos ensino”.

Foi essa tradição que os levou a dar ao missionário tão boa acolhida. Ali foi fundada uma povoação, início de muitas outras.

De volta dessa longa peregrinação pelo mundo, São Tomé, segundo a tradição, foi martirizado em Meleapor, na Índia, transpassado por uma lança. Dois séculos mais tarde, o imperador romano Alexandre Severo mandou buscar o corpo do Apóstolo, ordenando seu sepultamento em Edessa, hoje Urfa, na Turquia asiática.

A legenda de São Tomé desabrochou para os índios com a chegada dos novos missionários trazidos pelos descobrimentos dos séculos XV–XVI.

Tais missionários acabariam por se constituir nos verdadeiros herdeiros do ancestral mítico, enviado por Deus a nosso continente como primeiro propagador da Fé.

Hoje uma verdadeira campanha, bem orquestrada, procura denegrir a ação desses missionários.

Que São Tomé esmague uma vez mais as argúcias satânicas nestas plagas que ele tanto quis converter para Nosso Senhor Jesus Cristo por meio de Maria, Medianeira de todas as graças.

Referências

  • Pe. Antônio Ruiz de Montoya, Conquista Espiritual feita pelos religiosos da Companhia de Jesus nas Províncias do Paraguai, Paraná, Uruguai e Tape, Martins Livreiro Editora Ltda, 1.ª edição. Porto Alegre, 1985.
  • Maxime Haubert, Índios e Jesuitas no tempo das Missões, Editora Schwarcz Ltda, 1.ª edição. São Paulo, 1990.
  • Francisco Adolfo de Varnhagen, História do Brasil. Edições Melhoramentos, 5.ª edição. São Paulo. 1956.
  • Alberto Silva, A cidade de Salvador: Aspectos seculares, Prefeitura Municipal, Salvador. 1957.
  • Fray Diego de Ocaña. Un viaje fascinante por la America Hispana del siglo XVI, Studium Ediciones, Madri, 1969.

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A cura para a “masculinidade tóxica”
Sociedade

A cura para a “masculinidade tóxica”

A cura para a “masculinidade tóxica”

Para a maior parte das feministas, o problema da chamada “masculinidade tóxica” é o patriarcado: seria preciso abolir desde a noção de família natural até as próprias diferenças sexuais. Mas o cristianismo tem uma resposta diferente a oferecer.

Equipe Christo Nihil Praeponere2 de Julho de 2020Tempo de leitura: 11 minutos
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Durante muito tempo, e em boa parte das civilizações, a masculinidade esteve associada a virtudes como coragem, resiliência, disciplina etc., coisas que seriam necessárias para um menino tornar-se “homem de verdade”. Por isso, várias dessas civilizações possuíam códigos de honra e rituais de passagem, que os rapazes mais jovens do grupo precisavam cumprir para ganhar o respeito não só do líder da tribo, mas também das mulheres.

De modo geral, a vocação masculina costumava ser resumida em três palavras-chave:  “procriar”, “prover” e “proteger”. Com o passar do tempo, no entanto, esse código passou por mudanças e agora, entre tantas discussões sociais, políticas e sexuais, encontra-se no centro do debate. Se, em outras épocas, alguém poderia afirmar tranquilamente que “a masculinidade faz do mundo um lugar mais seguro”, como fez o ator Juliano Cazarré, em seu Instagram, hoje isso pode causar não só escândalo como uma enxurrada de críticas ao patriarcalismo ou, como quer a novilíngua, à “masculinidade tóxica”.

Em outro comentário, Cazarré teve de explicar que, calma lá, “masculinidade não é equivalente a machismo, a feminicídio, a patriarcalismo” etc., mas “significa agir com coragem mesmo quando se tem medo”, “ajudar quem precisa”, “valorizar as virtudes cardeais” e “fazer algo em vez de ficar parado reclamando da vida”. O óbvio, porém, não é mais tão óbvio assim, sobretudo quando a linha entre masculinidade e machismo tornou-se, aparentemente, tão tênue.

A origem da barbárie. — O censo mais recente sobre feminicídio no Brasil revelou que, durante a pandemia, os casos cresceram 22% em 12 estados. Também, nos últimos anos, aumentou o número de mães solteiras. Além desses dados, outros números são igualmente preocupantes: homens são as principais vítimas de homicídio e a maior população carcerária do Brasil. Geralmente, eles têm uma expectativa de vida inferior à das mulheres, sendo mais propensos que elas à dependência química e a cometer suicídios. Para completar, são cada vez mais comuns rapazes com problemas de disfunção erétil e ejaculação precoce.

Na origem dessa barbárie, vários estudiosos acusam o “machismo estrutural” de reforçar entre os homens a ideia de que eles “podem tudo”, que é da natureza deles a “brutalidade” e que, por isso, eles têm o direito de usar as mulheres e depois largá-las; podem dominá-las, tratando-as como uma propriedade ou, em situações extremas, matando-as. E esse machismo teria representatividade justamente em lugares como a família, a Igreja, a política e a arte, que, segundo eles, defendem uma ideia de homem “agressivo”, “dominador”, “predador”, entre outros estereótipos.

“Você pode ser masculino sem ser tóxico, ‘mano’”. Palavras de ordem comuns em manifestações feministas nos EUA.

De fato, a chamada cultura pop está repleta de ícones masculinos baseados na ideia do “predador sexual”, que se deita com quantas mulheres quiser, apenas por supostamente ser forte, viril e derrotar os inimigos da história. Que sejam esses, inclusive, os protagonistas dos filmes mais vistos das plataformas de streaming não é mero acaso: “Exalta-se entre os homens a baixeza” (Sl 11, 8). Ao fim e ao cabo, trata-se de mais do mesmo na indústria cinematográfica: sexo, sexo e sexo.

É fácil perceber a relação entre essas representações masculinas e o comportamento machista de muitos homens, considerando que a pornografia é a teoria e o estupro, a prática. Produções desse gênero, longe de falar da complementaridade e respeito entre sexos, só o que fazem é exibir o domínio de um sobre o outro. Seja como for, não há dúvida de que a exposição constante a cenas de sexo, explícitas ou não, provoca uma séria alteração no cérebro masculino. E se os homens são, em sua maioria, consumidores frenéticos dessa droga, a consequência inevitável é que tais comportamentos se reproduzam na vida real, em maior ou menor medida. Prova disso são os escândalos de abuso que assolaram Hollywood nos últimos anos e fizeram a Academia revisar boa parte de sua política.

Quanto à acusação que se faz aqui e ali à Igreja, no entanto, é difícil acreditar que homens se masturbando dentro de transportes públicos (notícia que tem se tornado, infelizmente, muito comum), tenham se sentido autorizados a fazê-lo depois de uma homilia dominical. Na verdade, há quem considere o cristianismo uma religião mais feminina que masculina. Mas o fato de a Igreja ser comandada hierarquicamente apenas por homens e ter, em sua pregação, um discurso sobre papéis institucionais e diferença entre os sexos seria o suficiente para sustentar um “machismo estrutural” e “simbólico”. Ao menos, é o que pensam muitas feministas.

Os remédios para o machismo. — A discussão torna-se, a partir daqui, mais melindrosa e fora do senso comum. Para grande parte das feministas, a reação adequada à “masculinidade tóxica” seria abolir toda e qualquer mentalidade considerada patriarcal, desde a noção de família à convicção de que existe uma natureza humana que faz os homens serem biologicamente diferentes de mulheres. O esforço, portanto, deveria ser o de construir socialmente novos “papéis de gênero”, enfraquecendo os códigos de masculinidade que falam em “procriar”, “prover” e “proteger”. Uma tendência disso pode ser vista no vestuário ou no cinema, com roupas masculinas cada vez mais emasculadas e filmes cujos protagonistas homens têm personalidades bem suaves e frágeis — quando não imbecis.

É uma guerra cultural. As feministas mais radicais acreditam que, entre o homem que usa a força para “prover” e “proteger” sua família e o que a utiliza para abusar de mulheres, parece, em tese, não haver diferença alguma, senão de grau: enquanto o último representaria o estágio mais avançado do troglodita, o primeiro esconderia seu machismo sob a fachada de “pai de família”. A violência de um é física: ele oprime com o punho; a do outro é institucional: ele oprime com o olhar. Assim, a única solução para a masculinidade seria transformá-la ao ponto de não restar sombra do tal “macho alfa”. Em outras palavras, é a abolição da testosterona.

Acontece que uma coisa é a ideologia e outra, a realidade: homens menos viris não são necessariamente menos opressores. Ao contrário, eles podem ser bem mais onerosos sobre suas famílias, sobre seus filhos e sobre a sociedade, quando não têm desafios para enfrentar, quando não decidem assumir responsabilidades e empregar as próprias habilidades para promover o bem e formar o caráter. No fundo, grande parte da violência masculina, hoje em dia, se deve ao vazio que os homens sentem, por não saberem mais que papel desempenhar na sociedade, o que lhes causa enorme ansiedade e frustração. Os homens não querem mais ser homens.

Homens censurando uma mulher, J. K. Rowling, por ela afirmar o óbvio — sim, mulheres menstruam — sem considerar o disparate — “há muitos homens transsexuais que menstruam, e muitas mulheres trans que não” — é a quintessência do machismo. Porque se, antes, era considerado abuso que os homens quisessem “proteger” e “prover” suas esposas, que se dirá agora de homens que forçam juridicamente, e com apoio da mídia mainstream, mulheres a relativizar algo tão íntimo como o ciclo menstrual, para se adequarem a novos “papéis de gênero”? É a intromissão total sobre o corpo da mulher, a imposição arbitrária da imaginação sobre a realidade, imposição dos fetiches sexuais sobre a natureza biológica. Enquanto muitas feministas se preocupam com os Rosários dos católicos contra o aborto, é a ideologia de gênero que lhes arranca o útero e a garganta.

Nesse contexto, cresce ainda o fenômeno chamado MGTOW (sigla para Men Going Their Own Way; em português: “Homens seguindo o seu próprio caminho”), que reúne homens que preferem não criar nenhum vínculo com mulheres, a fim de conservar seus negócios, patrimônios e independência. Eles podem até manter relações sexuais com elas, mas jamais as assumirão como namoradas ou esposas.

Curados pelo amor. — No fim das contas, em toda essa balbúrdia, para a qual parece não haver solução, há no entanto quem ainda acredite no amor dos homens: “Toda mulher quer amar e ser amada por homens em sua vida. Seja gay ou hétero, bissexual ou celibatária, ela deseja sentir o amor de seu pai, avô, tio, irmão ou amigo” [1]. Essa não é a afirmação de uma mulher “bela, recatada e do lar”, mas de uma feminista dissidente, bell hooks (sim, com minúsculas), que, para além da ideologia, percebe que os homens têm um papel necessário na vida familiar, na criação dos filhos e no mundo feminino.

Em The will to change (em português: “Desejo de mudança”), a ativista fala de sua infância e de como ela, criada num lar onde a figura paterna era muito severa, desejava que as mãos de seu pai a abraçassem, abrigassem e protegessem, tocando-a com ternura e cuidado. A partir de sua experiência, ela afirma que a abordagem sobre a masculinidade deve focar não na ideia negativa do “poder” dos homens — como fazem muitas feministas —, mas na capacidade deles para o amor. Para hooks, dentro da cultura atual, na qual se prega tanto a dominação de um pelo outro, a escolha pelo amor é a atitude mais heroica. 

A escritora feminista bell hooks.

A observação de hooks é que muitos meninos crescem pressionados a serem fortes e resilientes, como se essas fossem as virtudes principais, mas eles não são ensinados a lidar com a vida interior. Eles têm dos demais homens, bem como dos seus colegas, ou até de suas mães, a cobrança para que cumpram seus papéis sociais sem, por outro lado, o suporte para aceitarem o próprio temperamento e os limites pessoais. É como se tivessem de desenvolver uma ataraxia, o que se expressa frequentemente pelo imperativo: “Seja homem”. E quando não correspondem a essas expectativas, acabam expressando a própria dor por meio da violência, da sexualidade, do vício etc.

“Para amar os meninos corretamente”, insiste ela, “devemos valorizar sua vida interior o suficiente para construirmos mundos, tanto privados quanto públicos, onde seu direito à totalidade possa ser consistentemente comemorado e afirmado, onde a necessidade deles de amar e serem amados possa ser satisfeita” [2]. Portanto, ela conclui que “apenas uma revolução dos valores em nossa nação acabará com a violência masculina, e essa revolução deve ser necessariamente baseada numa ética do amor” [3].

A descoberta de bell hooks é fantástica, sem dúvida. No entanto, vem com certo atraso. Um século antes da publicação de The will to change, o livro de outro autor, Chesterton, já falava do “dano mais terrível” que as virtudes, “isoladas uma da outra”, causavam ao mundo. Em Ortodoxia, o jornalista dizia que “o mundo moderno está cheio de velhas virtudes cristãs enlouquecidas” circulando por aí sozinhas [4]. É por isso que, quando falamos da fortaleza masculina e da missão de “prover” e “proteger”, somos facilmente identificados com o machismo. Para a sociedade atual, à fortaleza não está unida a virtude da caridade. E é por isso também que, para reagir ao machismo, muitas feministas preferem aniquilar a masculinidade em vez de redimi-la pelo amor, como fez Cristo.

A masculinidade do homem cristão. — É uma pena que, por conta de sua experiência particular, hooks veja na Igreja apenas o sinal de um patriarcalismo e de uma mentalidade machista e misógina. Mas, data venia, é preciso dizer que, se há no mundo alguma instituição que lutou, desde o início, para ensinar aos homens a virtude do amor, essa instituição se chama Igreja Católica. E as confusões a esse respeito se dão simplesmente porque, não sabendo interpretar os paradoxos do cristianismo, muitos não entendem como São Paulo pode, na mesma carta, pedir a submissão das mulheres aos seus maridos e, logo em seguida, dizer aos maridos que amem suas esposas como Cristo amou a Igreja. Mas tudo se explica neste versículo: “Sede submissos uns aos outros, no temor de Cristo” (Ef 4, 21).

Quando Davi disse para Salomão “ser homem”, ele associou a masculinidade não tanto à força física — porque Deus não se deleita com músculos, diz o salmista (147, 10) — quanto à obediência aos preceitos divinos. Nesse sentido, a escolha dos doze Apóstolos significou uma revolução de todo o código de masculinidade, pois Cristo chamou homens fracos e débeis aos olhos do mundo, para ensiná-los que: “Quem quiser ser o maior, no meio de vós, seja aquele que vos serve, e quem quiser ser o primeiro, no meio de vós, seja o servo de todos” (Mc 10, 43). Nosso Senhor substituiu a lei de talião — “olho por olho, dente por dente” — pela máxima da caridade — “que vos ameis uns aos outros como eu vos amei” (Jo 15, 12).

De fato, Jesus curou a crise entre o homem e a mulher, que não é uma crise de sistemas patriarcais ou matriarcais, como se a mera substituição de um pelo outro resolvesse algo, mas uma crise antropológica e espiritual, que vem desde a Queda no Éden: “A teu marido irá o teu desejo, e ele te dominará” (Gn 3, 16). Essa foi uma das consequências do pecado original, que só pode ser remediado pela graça do amor de Deus. Restaurados em Cristo, a relação entre o homem e a mulher deixa de ser a de “senhor e escrava” para converter-se na de “senhor e senhora”. É um serviço mútuo em que cada um empenha suas qualidades para a edificação amorosa do próximo.

No romance Quo Vadis, que conta a história dos primeiros cristãos, a diferença entre a masculinidade cristã e a do paganismo é notável. Enquanto o general Marcus Vinícius, chefe das tropas romanas, sente-se no direito de possuir a jovem Lígia, simplesmente por defender a nação e ser um homem com feitos heroicos, o cristão Ursus, um homem fisicamente robusto, recusa-se a utilizar a força para espetáculos de gladiadores. “Eu não luto”, responde ele a uma proposta de Marcus Vinícius, “porque é pecado matar”. Ursus só utiliza a força para proteger Lígia numa arena, quando os dois, por serem discípulos de Jesus, são jogados à sorte das feras. Com isso, o homem cristão mostra ao general pagão que a força dele não é para conquistar troféus e prêmios neste mundo, mas a graça do amor de Deus e a vida eterna. 

E essa, sem dúvida, é a masculinidade que faz do mundo um lugar mais seguro.

Referências

  1. bell hooks, The will to change: men, masculinity and love. New York: Atria Books, 2004 (versão eletrônica).
  2. Id.
  3. Id.
  4. G.K. Chesterton, Ortodoxia. São Paulo: Mundo Cristão, 2010, p. 31.

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