Solenidade da Natividade de São João Batista
CNP
Christo Nihil Præponere"A nada dar mais valor do que a Cristo"
Todos os direitos reservados a padrepauloricardo.org®
Texto do episódio

Texto do episódio

imprimir

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
(Lc 1, 57-66.80)

Completou-se o tempo da gravidez de Isabel, e ela deu à luz um filho. Os vizinhos e parentes ouviram dizer como o Senhor tinha sido misericordioso para com Isabel, e alegraram-se com ela. No oitavo dia, foram circuncidar o menino, e queriam dar-lhe o nome de seu pai, Zacarias. A mãe, porém disse: “Não! Ele vai chamar-se João”.

Os outros disseram: “Não existe nenhum parente teu com esse nome!” Então fizeram sinais ao pai, perguntando como ele queria que o menino se chamasse. Zacarias pediu uma tabuinha, e escreveu: “João é o seu nome”. E todos ficaram admirados. No mesmo instante, a boca de Zacarias se abriu, sua língua se soltou, e ele começou a louvar a Deus. Todos os vizinhos ficaram com medo, e a notícia espalhou-se por toda a região montanhosa da Judeia. E todos os que ouviam a notícia ficavam pensando: “O que virá a ser este menino?” De fato, a mão do Senhor estava com ele. E o menino crescia e se fortalecia em espírito. Ele vivia nos lugares desertos, até o dia em que se apresentou publicamente a Israel.

Transcrição: Meus queridos irmãos, minhas queridas irmãs, com grande alegria celebramos no dia de hoje São João Batista, a solenidade do grande São João Batista. Dia 24 de junho significa que nós estamos a seis meses do Natal. Como você se recorda, quando o anjo Gabriel apareceu para a Virgem Santíssima, ele explicou essa data. Disse: “A tua parenta Isabel, que todos diziam ser estéril, já está grávida há seis meses”. Portanto, nós sabemos com exatidão que existe uma diferença de idade entre Jesus e São João Batista de seis meses. Portanto, a noite de São João Batista, do nascimento de São João Batista, é como que um paralelo da noite de Natal. Por isso ela é celebrada com tanta solenidade, com fogueiras etc. Por quê? Para recordar que, de fato, o Precursor, aquele que veio preparar a vinda do Salvador, está entre nós.

Agora vamos colocar um pouco no contexto essa realidade de São João Batista. Vejam só. Antes de São João Batista surgir no mundo, ele que veio para preparar os caminhos do Senhor. O que é que havia no povo de Israel? Havia uma grande decadência. Por quê? Porque as sinagogas tinham rabinos, tinham os mestres da Lei, os sacerdotes lá no Templo de Jerusalém etc. etc., que interpretavam a Palavra de Deus. Mas não havia santidade. Ou seja, São João Batista veio para preparar um povo bem disposto para o Senhor, veio ensinar os caminhos de santidade. Antes de São João Batista, esta santidade tinha desaparecido. Os fariseus, os mestres da Lei, os sacerdotes transformaram a religião santa que Deus havia preparado no Antigo Testamento num sistema humano que estava caduco, ou seja, numa repetição de ideias, de um ensino raso, superficial, sem aquela consistência espiritual que transforma a vida, que faz os grandes santos. Por isso você pode pegar, na história de Israel, nesse período que é chamado pelos historiadores de intertestamento: não há profetas, não há santos, não há grandes personagens. Quer dizer: reina a mediocridade.

São João Batista, então, vem para reverter esse quadro e para preparar, numa escola de santidade, as pessoas para receberem o Salvador. Era necessária esta preparação, e portanto essa função do Precursor, São João Batista, não é simplesmente dizer assim: “Ah, São João Batista era o último dos profetas do Antigo Testamento”, como se fosse, assim, uma linha ininterrupta de profetas e grandes santos até a vinda de Jesus. Não. Ou seja, houve, sim, profetas e grandes santos no passado; de repente um vazio, a mediocridade, o zero e… Do nada, aparece João Batista. Por isso o nome de João Batista, só o seu nome, já é toda uma revelação divina. Quando Zacarias escreve na tabuinha, dizendo: “João é o seu nome”, “Yôḥānān”, quer dizer: “Deus manifestou a sua graça”, “Deus é gracioso” (“ḥānān” é graça, é piedade). Deus manifesta a sua piedade, Deus teve compaixão de nós e nos mandou um santo! Sim, essa é a grande… A maior compaixão que Deus pode ter para com as pessoas num tempo de crise é o presente de um grande santo que vem para ser guia e para preparar os caminhos.

É exatamente isso que nós estamos vivendo na nossa época. Nós estamos vivendo no reino da mediocridade. Onde estão os grandes santos para tirar a Igreja desta crise que ela está vivendo? Essa é a grande tragédia, esta é a grande tristeza que nós vivemos. A gente vê todo tipo de solução disparatada que as pessoas disparam por aí, dizendo um para uns: “Qual é a solução para a crise atual da Igreja?” “Ah! A solução para a crise atual da Igreja é nós voltarmos para sessenta anos atrás, quando nós tínhamos os seminários cheios, com os rapazes todos embatinados, disciplinados, maravilhosos. Essa é a solução para a Igreja”. Aí para outros: “Não! A solução para a Igreja é a gente ir cinquenta anos para a frente. Aí nós temos de ter todo o mundo aberto, liberal, aberto ao diálogo com o mundo moderno etc. e tal, isso e aquilo…”. Pronto. A solução para as pessoas é isso.

Mas, meus queridos, a verdadeira solução está em nós verdadeiramente buscarmos a santidade. Sem brincadeira. Nós precisamos nos preparar para a santidade. Porque, se nós cultivarmos um ambiente de busca de santidade, virão os grandes santos que irão tirar a Igreja desta crise. Nós temos de parar de buscar atalhos, atalhos preguiçosos. Não basta, gente, a gente voltar à Igreja como ela era setenta anos atrás. Sabe o que tinha na Igreja setenta anos atrás? Chama-se mediocridade! Onde é que estão os grandes santos? “Ah, mas os seminários estavam cheios, todo o mundo era disciplinado, era uma beleza…”. Sim. E aí, do dia para a noite, de repente, 20.000 padres deixam o sacerdócio, os seminários se esvaziam e tudo vai à breca! Quer dizer, não havia solidez. Aquilo lá poderia parecer muito bonito, mas estava faltando alguma coisa, e uma falta grave. Havia algo verdadeiramente deficiente.

Então, com todo o respeito para com aqueles que se dizem tradicionais, se vocês querem ser tradicionais, meus queridos, o negócio é o seguinte: nós precisamos ser santos. Porque essa é a tradição da Igreja, essa é a verdadeira tradição. Não fiquem olhando para um passado raso de setenta anos atrás. Se vocês querem olhar para o passado, olhem para o passado dos grandes santos, e vamos procurar ser santos como esses santos eram santos. Porque o sistema que foi implantado no final do século XIX, início do século XX, na Igreja Católica, é ali que está exatamente o buraco. Porque só havia mediocridades. Ao invés de procurar a sabedoria da grande teologia de Santo Tomás, as pessoas se contentavam com o quê? Com os manuais que falavam de Santo Tomás. Ao invés de buscar a mística dos grandes santos, as pessoas se contentavam com o quê? Com pequenas regrinhas devocionais. Ao invés de procurar verdadeiramente a sabedoria ardente de amor, para ser os grandes mártires que Deus quer que nós sejamos, as pessoas queriam: “Vamos ficar aqui e transformar o cristianismo numa pequena comodidade burguesa”.

Meus irmãos, minhas irmãs, nós, nesta solenidade de São João Batista, precisamos ouvir a voz que grita no deserto: “Preparai os caminhos do Senhor!” E o caminho do Senhor, os vales que precisam ser preenchidos, as montanhas que precisam ser aplainadas, estão dentro do nosso coração. Se nós não começarmos com essa grande tarefa de casa, que é nós buscarmos a verdadeira sabedoria e a verdadeira santidade, nós não estaremos realizando absolutamente nada. Virá finalmente uma grande onda e levará tudo. Nós já estamos vendo tudo ruir debaixo dos nossos pés. Por quê? Porque o que Deus verdadeiramente quer, permitindo esta crise que a Igreja está vivendo, é uma purificação de sua Igreja, para que nós comecemos onde começaram os grandes santos como São João Batista. Por isso, celebrar São João Batista é celebrar a misericórdia e a graça de Deus, que se compadeceu do seu povo e, num tempo de mediocridades, mandou um grande santo. Que nós também preparemos o nosso coração. Busquemos a santidade, busquemos conhecer verdadeiramente as verdades de Deus com profundidade. Buscar a reforma do nosso coração, a transformação de nossa alma, para sermos os santos ou, pelos menos, para criarmos aquele ambiente de busca de santidade onde brotarão os grandes santos que irão tirar a Igreja da crise que ela miseravelmente tem vivido nos últimos tempos! 

Que São João Batista, Precursor, ecoe nos nossos corações a sua mensagem: “Preparai os caminhos do Senhor!”

* * *

Notas exegéticas sobre a natividade do Precursor : a) À pergunta Se João Batista foi santificado no útero da mãe? responde afirmativamente o Fr. Martinho Wouters, OSA, com base nas palavras do anjo em Lc 1, 15: “Será cheio do Espírito Santo desde o ventre de sua mãe”. A razão é que graça santificante não pode coexistir com o pecado, quer original, quer mortal (cf. Dilucidatio V, c. 1, q. 3). A favor dessa opinião, Wouters cita, entre outros, Santo Atanásio de Alexandria: “Muitos foram santos, puros de todo crime. Com efeito, Jeremias foi santificado desde o útero (cf. Jr 1, 5), e João, enquanto ainda era gestado pela mãe grávida, exultou de alegria à voz da Virgem Deípara” (Serm. 4 contra Arianos). Santo Tomás de Aquino pensa o mesmo: “Encontramos que a alguns outros foi privilegiadamente concedido santificar-se no útero, como Jeremias […], e assim como João Batista” (STh III 27, 1c.).

b) Comentando aquele trecho de Lucas, escreve Maldonado: “Chama-se cheios do Espírito Santo nas Sagradas Sagradas não só àqueles a quem o Espírito é abundantemente dado, mas àqueles a quem é dado de tal modo, que parece redundar externamente em algum sinal […]. Neste lugar, portanto, João Batista é chamado cheio de Espírito Santo não somente porque foi santificado no útero da mãe, mas, muito mais, porque foi santificado de tal modo, que, sendo ainda uma criança de seis meses, sentiu e indicou com exultação o Cristo menino vir até si […]. É evidente, com efeito, que o anjo quis indicar o que havia de suceder para que João, no útero, apontasse para Cristo, e este é o sentido da partícula desde, como se dissesse: antes que saia do útero, quando ainda estiver no útero, como todos os antigos intérpretes expõem” (In Luc. IV 15).

c) Por que então diz o Batista: “Sou eu que devo ser batizado por ti, e tu vens a mim” (Mt 3, 14)? Se já no útero foi santificado e purificado do pecado original, por que devia ser batizado? Responde Pedro Comestor: “Por si, [João] compreendeu o gênero humano, como se dissesse: O homem deve ser purificado por ti. Ou, quanto à plenitude da purificação, disse que ainda devia ser purificado porque, se já estava puro, também pelo sangue de Cristo seria mais plenamente purificado, assim como alguém, após receber um remédio eficaz, se diz curado pela causa, mas curável pela plenitude do efeito” (Hist. Schol. 33: PL 198, 1555). Com isto parece estar de acordo o Aquinate, ao distinguir a purificação pessoal de alguns antes do advento de Cristo da purificação de toda a natureza após a Paixão (cf. Super Matt., c. 3, l. 2). Cornélio a Lápide interpreta: “Por devo, em grego está χρείαν ἔχω, isto é, preciso, necessito ser batizado por ti, isto é, ser espiritualmente purificado de pecados leves e aperfeiçoado por teu Espírito e graça. Não significa, pois, um dever de preceito, como se o Batista estivesse obrigado a receber o batismo de Cristo” (In Matt. III 14). Mas a explicação pode ser mais simples. O Pe. Simón Prado, CSSR, assim parafraseia o que para ele significam as palavras de João: “Se algum de nós precisa ser batizado, então sou eu, um pecador [1], que devo pedir o batismo a ti, que és santíssimo e digníssimo” (Prælectiones Biblicæ, 4.ª ed., 1930, vol. 1, p. 228, n. 147).

Referências

  1. Embora santificado no ventre de Isabel, São João Batista — como todos os homens, com exceção de Cristo e de Maria Imaculada — pode ser chamado pecador porque foi concebido em pecado; assim como a concupiscência, embora não o seja formalmente, pode ser chamada pecado porque tem origem no pecado e inclina ao pecado (cf. Concílio de Trento, Sessão 5.ª, de 17 jun. 1546, Decreto sobre o pecado original, Cân. 5: DH 1515).
Texto do episódioComentários dos alunos

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.